Cavalo de Tróia 1: Jerusalém

J. J. Benítez · Capítulo 6 de 19

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Cavalo de Tróia 1: Jerusalém

Espanha

 

Aquela foi a segunda e última vez que vi o Major com vida. Ao iniciar o voo de

regresso à Espanha, e enquanto o avião sobrevoava as crateras do Popocatepetl,

peguei o misterioso envelope que o Major me dera, apalpei-o lentamente e, com

surpresa, percebi algo duro em seu interior. A curiosidade, que havia sido

dificilmente contida durante aqueles dias, extravasou. Comecei a abri-lo com todo

o cuidado.

Ao examinar o interior, minha decepção quase chegou a provocar-me uma

parada cardíaca. Estava vazio! Ou melhor, quase vazio. Cuidadosamente colada a

uma parede do envelope, por meio de uma tira transparente de fita adesiva, havia

uma chave.

Arranquei-a sem poder conter meu desencanto e comecei a passá-la de uma

mão para outra, sem saber o que pensar.

Procurei tranquilizar-me, enganando-me a mim mesmo com os mais variados

argumentos. Mas a verdade nua e crua continuava ali, diante de mim, na forma de

uma chave. Para cúmulo da decepção, aquela peça de escassos quatro centímetros

de comprimento não continha um único signo ou inscrição que permitisse algum

tipo de identificação. Havia sido usada, isso estava claro. Mas onde?

Durante horas debati-me entre mil conjecturas, juntando o pouco que o Major

me havia adiantado às minhas próprias especulações e fantasias. O resultado foi

uma séria dor de cabeça.

“Aqui tem a primeira entrega...”

Que mistério encerrava aquela frase? E, sobretudo, em que poderia consistir “o

resto”?

“... O resto chegará a seu poder quando eu morrer.”

A única coisa clara, medianamente clara, em toda aquela confusão, era que a

informação em questão (ou o que quer que fosse) devia guardar alguma relação

com aquela chave. Mas qual?

Era absolutamente necessário esperar, a não ser que eu quisesse enlouquecer.

E isso foi o que fiz: aguardei pacientemente.

Durante a primavera e o verão de 1981, as cartas do Major foram-se

distanciando cada vez mais no tempo. Finalmente, no mês de julho, um fato

deixou-me alarmado: o fiel Laurêncio fora encarregado de responder às minhas

cartas.

 

... O Major – dizia-me em uma das últimas cartas – entrou em profundo estado

de prostração. De fato, mal pode falar...

Aquelas palavras faziam prever um rápido e fatal desenlace. Mentalmente, preparei-me até para uma nova e derradeira viagem a Yucatán. Acima de meu

inegável e reiterado interesse – digamos, jornalístico –, havia prevalecido, graças a

Deus, um arraigado afeto por aquele velho prematuro. Bem sabe Deus que eu

desejaria estar junto dele no momento de sua morte. O destino, porém, reservava-

me outro papel nessa desconcertante história.

Foi causalidade? Sinceramente, não sei o que pensar...

O caso é que naquele 7 de setembro de 1981, data de meu aniversário,

chegou-me uma carta procedente de Chichén Itzá. Em frases lacônicas, Laurêncio

anunciava:

 

... Tenho o doloroso dever de comunicar-lhe que nosso irmão comum, o Major,

faleceu no último dia 28 de agosto. Seguindo suas instruções, junto segue um

envelope que só o senhor deverá abrir...

 

Ainda que a notícia não me houvesse apanhado de surpresa, devo confessar

que o desaparecimento de meu amigo atirou-me durante vários dias em uma

singular melancolia, comparável talvez com a tristeza que haveria de me causar,

um ano depois, a morte de outro íntimo mestre e amigo: Manoel Osuna.

Naquela mesma tarde de 7 de setembro, desanimado, conduzi meu automóvel

às escarpas de Punta Gálea e ali, diante do azul e manso Cantábrico, orei pelo

Major.

E foi ali mesmo, naquela solidão, que rompi o lacre que protegia o envelope e

dele retirei o conteúdo.

Curiosamente, e ao contrário do que eu mesmo imaginara semanas antes,

minha alvoroçada curiosidade e desenfreado interesse por desvendar o mistério do

Major haviam passado para um segundo plano. Durante mais de duas horas, a

ansiada segunda entrega permaneceu quase esquecida no assento lateral do meu

carro.

Eu havia verdadeiramente estimado aquele velho.

Mas no fim, é claro, a curiosidade se impôs. O envelope continha duas grandes

folhas, de um papel encorpado e quadriculado. Reconheci prontamente a letra

pontiaguda do Major.

Uma das folhas era uma carta, escrita de ambos os lados. Estava datada de

agosto de 1980! Isso significava, deduzi, que o Major já havia tomado a decisão de

me confiar seu segredo pouco depois de nosso primeiro encontro, ocorrido em 18

de abril de 1980.

A carta, que estava firmada com nome e sobrenome, era na realidade uma

última recomendação para que eu procurasse me manter no caminho da honradez

e do amor por meus semelhantes. No último parágrafo, e quase de passagem, o

Major referia-se à famosa segunda entrega, explicando que, para chegar à

informação que eu tanto desejava, deveria primeiro decifrar o código que anexava

em folha à parte.

Por fim, em palavras toscamente sublinhadas, mas bem destacadas, pedia-me que fizesse bom uso da informação.

 

... Meu desejo é que com ela possa levar um pouco de paz a todos aqueles que,

como tu e eu, estejam empenhados na busca da verdade.

 

O segundo papel, igualmente manuscrito pelo Major, continha um total de cinco

frases, em inglês, à primeira vista absurdas e incongruentes. Eis a tradução:

“A sentinela que vela diante do túmulo vai lhe revelar o ritual de Arlington.”

“Chave e ritual conduzem a Benjamin.”

“Abra seus olhos diante de John Fitzgerald Kennedy.”

“O irmão dorme em 44-W. A sombra da nespereira cobre-o ao entardecer.”

“Passado e futuro são o meu legado.”

 

O Major, uma vez mais, parecia divertir-se com aquele jogo. Ou não se tratava

de um jogo? Perguntei-me mil vezes a razão de tantos rodeios e precauções. Se

meu amigo estava morto, o lógico seria que me houvesse facilitado a informação,

sem necessidade de novas complicações.

Mas as coisas eram como eram, e a alternativa que me restava era

desembaraçar aquela meada, cada vez mais enredada.

Como o leitor deduzirá, passei horas com os cinco sentidos presos àquelas

frases. Estive tentado a recorrer a amigos em busca de auxílio. Contive-me, porém,

pois seria forçado a confiar-lhes os antecedentes de tão longa e incrível história.

Ademais, com o passar do tempo, longe de desanimar, passei a encarar o assunto

como um desafio pessoal. E os que me conhecem um pouco sabem que essa é uma

das minhas fraquezas.

Para começar, só o que estava claro era que a chave que o Major me dera

guardava uma indubitável e estreita relação com a segunda frase. Essa chave

deveria “conduzir-me” ou levar-me a Benjamin. Mas quem, ou o quê, era

“Benjamin”?

Várias vezes, no decurso de quase três semanas, esmiucei frase por frase,

palavra por palavra, e efetuei os mais disparatados embaralhamentos nas frases,

buscando um sentido mais lógico. Foi tudo inútil.

De tanto mergulhar no código, acabei por decorá-lo. Vivi aquele mês de

setembro, e parte do seguinte, para a mensagem cifrada. Passava os dias

perambulando sem rumo, o olhar perdido, alheio praticamente a tudo o que me

rodeava. Foram meus filhos e especialmente Raquel que padeceram com mais

crueza de minhas aparentemente absurdas e inexplicáveis mudanças de

comportamento, minhas contínuas depressões e até uma injusta irascibilidade.

Espero que agora, ao lerem estas linhas, possam compreender-me e perdoar-me.

Cheguei até a consultar peritos serralheiros, que examinaram a misteriosa

chave por todos os ângulos possíveis. O resultado era sempre o mesmo: liga

comum, dentes rotineiros... tudo convencional.

Mas aquela situação, que começava a beirar os indesejáveis limites da

obsessão, não podia continuar. E, um belo dia, fiz um balanço. Que tinha eu realmente em mãos? A que conclusões havia chegado?

Infelizmente, elas reduziam-se a um par de pistas:

1ª – Arlington é um cemitério norte-americano. Eu não sabia que se tratava do

famoso campo-santo dos heróis de guerra dos Estados Unidos.

Documentei-me com tudo o que pude e comprovei que, de fato, naquele local

existe um mausoléu que guarda os restos de um soldado desconhecido.

Logicamente, deduzi que esse túmulo estaria protegido e vigiado por alguma

guarda de honra.

O Major estaria se referindo a essa sentinela?

2ª – Também no Cemitério Nacional de Arlington está sepultado o presidente

Kennedy. Mas por que eu deveria “abrir meus olhos diante de John Fitzgerald

Kennedy”?

Esses eram os únicos pontos em comum que eu havia sido capaz de articular.

A sentinela que vela diante do túmulo vai lhe revelar o ritual de Arlington. Essa

primeira frase me havia transtornado. Não era necessário ser muito sagaz para

deduzir que uma das peças-chave tinha de estar na palavra “ritual”. Uma prova

disso é que o Major havia tido o cuidado de repeti-la na segunda frase.

Qual era esse ritual? Por que a sentinela é quem o revelaria? Será que eu teria

de interrogá-la? Mas, se fosse assim, a quem eu poderia pedir auxílio?

Não havia alternativa: o primeiro passo teria de ser decifrar o maldito ritual. Só

assim eu poderia saber – isso eu pensava na ocasião – quem, ou o quê, era

“Benjamin”.

Quanto às duas últimas frases do código, sinceramente preferi deixá-las de lado

temporariamente.

Faltou pouco para que eu chamasse meu amigo Chencho Arias, àquela altura

diretor do Escritório de Informação Diplomática do Ministério de Assuntos

Exteriores espanhol. Com toda a certeza, graças a seus contatos em Washington,

ele me teria poupado parte do caminho. Mas pensei duas vezes e abandonei a

ideia. Depois de tudo, ainda tinham restado quatro frases mais para esclarecer...

Não havia outra solução: eu tinha de voltar aos Estados Unidos e enfrentar o

problema no corpo a corpo.