Cavalo de Tróia 1: Jerusalém
6 de abril, quinta-feira
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Bem depois da meia-noite, um a um, os discípulos foram-se levantando e
deixando a fogueira. Enquanto buscavam refúgio nas tendas ou se embrulhavam
em seus mantos ao pé do muro de pedra, André escolheu o primeiro turno da
guarda: dois homens armados de espadas. Um se colocou no lado sul, na entrada
do horto; o outro, ao norte, nas proximidades da gruta. A rendição acontecia em
uma hora.
Jesus não se moveu. Sentado a um metro e meio da fogueira – e de costas
para o olival –, permaneceu alguns minutos olhando fixamente as ondulantes e
rubras línguas de fogo que faiscavam, de quando em quando, por causa da
umidade de alguns troncos.
Dentro em pouco eu me vi só, diante dele e com a fogueira como única
testemunha, quase muda, da que iria ser minha terceira e última conversa com o
Mestre. Seus braços descansavam sobre as pernas cruzadas. O Nazareno havia
aberto as mãos para recolher em suas palmas o calor do fogo. Tinha a cabeça
ligeiramente inclinada para diante, e seus cabelos e seu rosto se iluminavam e
escureciam ao capricho do volutear das chamas. Sua expressão, acolhedora e
aprazível até pouco antes, havia-se tornado grave.
De repente, meu coração teve um sobressalto. Brilhante, tímida e sem pressa,
uma lágrima surgiu em sua face direita. Era a segunda vez que eu via aquele
estranho homem chorar...
Nem sequer respirei, comovido e intrigado por aquele sereno e súbito pranto do
Galileu. Mas Jesus parecia totalmente ausente. E, dentro de minutos, deitando a
cabeça para trás, respirou fundo e ergueu-se. Em minha mente ebuliam e se
cruzavam inúmeras hipóteses sobre o estado de ânimo do Galileu, mas não me
atrevi a me mover. Eu o vi afastar-se para o interior do olival e parar a cerca de
trinta ou quarenta passos de mim. E assim ficou – em pé e de cabeça baixa – por
cerca de uma hora. A lua, quase cheia, solitária entre milhares de estrelas,
encarregou-se de banhá-lo com uma luz prateada, oscilante, às vezes por causa da
brisa que se insinuava entre as folhas verde-brancas das oliveiras.
Sem saber exatamente por que, esperei. A temperatura havia baixado muito,
fazendo tiritar os astros com calafrios brancos, azuis e vermelhos. Durante um
tempo que eu não saberia calcular, permaneci com o rosto perdido naquele negro e
soberbo firmamento. Vênus, em conjunção com o Sol, não era visível naqueles
dias. Já Júpiter, com um brilho cada vez mais débil (magnitude 1,6
aproximadamente), levantava-se a duras penas sobre o oeste, a pequena distância
do formoso cacho estelar das Plêiades. E mais alto, disputando a primazia, as
resplandecentes estrelas Régulo, Capela, Aldebarã, Betelgeuse e Arcturo, envolvidas pelas constelações de Leão, Auriga, Touro, Órion e Bootes,
respectivamente.
Jesus surpreendeu-me quando eu alimentava a fogueira com uma nova carga
de lenha.
– Jasão – disse-me –, não dormes? Sabes da dureza das próximas horas.
Deverias descansar como todos os demais...
Sentado junto ao fogo, olhei-o com curiosidade, enquanto o convidava a
responder a uma pergunta que trazia no íntimo desde que o havia visto sair do
olival:
– Mestre, por que um homem como tu necessita de oração? Porque, se não
estou equivocado, isso é o que estiveste fazendo durante todo esse tempo...
O Galileu hesitou. E antes de responder, voltou a sentar-se, mas desta vez
junto a mim.
– Dizes bem, Jasão. O homem, enquanto padece de sua condição de mortal,
busca e necessita de respostas. E em verdade te digo que essa sede de verdade só
meu Pai pode aplacá-la. Nem o poder, nem a fama, nem sequer a sabedoria
conduzem o homem ao verdadeiro contato com o reino do Espírito. É pela oração
que o homem trata de se aproximar do infinito. Meu espírito começa a se sentir
aflito, e eu também necessito do consolo de meu Pai.
– Será porque a verdadeira sabedoria está no reino de teu Pai?
– Não... Meu Pai é a sabedoria.
Jesus deu ênfase à palavra “é”, com uma força que não admitia discussão.
– Então, se eu rezar posso saciar minha curiosidade e iluminar meu espírito?
– Sempre que essa oração nasça realmente de teu espírito. Nenhuma súplica
recebe resposta, a não ser que proceda do espírito. Em verdade, em verdade te
digo que o homem se equivoca quando tenta canalizar sua oração e suas petições
para o benefício material próprio ou alheio. Essa comunicação com o reino divino
dos seres de meu Pai só obtém completa resposta quando obedece a uma ânsia de
conhecimento ou consolo espiritual. O mais – as necessidades materiais que tanto
vos preocupam – não é consequência da oração, e sim do amor de meu Pai.
– Por isso insistes naquilo de “‘buscar o reino” de Deus e sua justiça?
- Sim, Jasão. O resto sempre se dá por acréscimo...
– E como devemos pedir?
– Como se já houvéssemos recebido. Lembra que a fé é o verdadeiro suporte
dessa súplica espiritual.
– Dizes que a oração assim formulada sempre obtém resposta. Mas eu sei que
não é sempre assim...
O Galileu sorriu com benevolência.
– Quando as orações provêm, em verdade, do espírito humano, às vezes são
tão profundas que não podem receber resposta até que a alma entre no reino de
meu Pai.
– Não compreendo...
– Não esqueças que as respostas sempre consistem em realidades espirituais.
Se o homem não alcançou o grau espiritual necessário e aconselhável para
assimilar esse conhecimento emanado do reino, deverá esperar, neste mundo ou
em outros, até que essa evolução lhe permita reconhecer e compreender as
respostas que, aparentemente, não recebeu no momento da petição.
– Isso explicaria esse angustioso silêncio que às vezes parece constituir a única
resposta à oração?
– Sim, mas não confundas. O silêncio não significa esquecimento. Como te
disse, todas as súplicas que nascem do espírito obtêm resposta. Todas... Deixa-me
que eu te explique isso com um exemplo: o filho tem sempre o direito de perguntar
aos pais, mas estes podem demorar a responder, à espera de que o jovem adquira
maturidade suficiente para compreendê-las. A grande diferença entre os pais
humanos e nosso Pai verdadeiro está em que aqueles se esquecem às vezes de
que são obrigados a responder, ainda que seja depois de anos.
– Se é assim, ao morrer todos seremos sábios...
– Insisto em que a única sabedoria válida no reino de meu Pai é a que brota do
amor. Depois de provar a morte, ninguém será sábio se não o tiver sido em vida...
– Devo pensar então que a demora na resposta às minhas súplicas é sinal do
meu progressivo avanço no mundo do espírito?
Jesus olhou-me complacente.
– Há uma infinidade de respostas indiretas, de acordo com a capacidade
mental e espiritual de quem pede. Mas, quando uma súplica fica temporariamente
em branco, isso é um presságio frequente de uma resposta que encherá, em seu
devido dia, um espírito enriquecido pela evolução.
– Por que tudo é tão complexo?
– Não, querido amigo. O amor não é complicado. É vossa natural ignorância
que vos precipita na escuridão e vos inclina à permanente justificação de vossos
erros.
Fiquei em silêncio. Aquele homem tinha razão. Só os homens procuram
desesperadamente justificar-se e justificar seus fracassos...
Levantei os olhos para as estrelas e, apontando para aquela maravilha, disse-
lhe:
– Que sentes diante desta beleza?
O Galileu elevou também seus olhos em direção ao firmamento e respondeu
com melancolia:
– Tristeza...
– Por quê?
– Se o homem não é capaz de receber em sua alma a grandeza desta obra,
como poderá captar a beleza daquele que a criou?
– É Deus tão imenso como dizes?
– Mais do que pensar na grandiosidade de meu Pai, deves crer na imensidão de
sua divina promessa. Ela eleva o espírito do homem e chega a produzir vertigem nas legiões celestiais...
– Já me explicaste isso, mas realmente o acesso ao reino de teu Pai está ao
alcance de todos os mortais?
– O reino de nosso Pai – corrigiu-me Jesus – está no coração de todos e de
cada um dos seres humanos. Só os que despertam para a luz do Evangelho o
descobrem e nele penetram.
– Então todas as religiões, credos ou crenças podem nos levar à verdade?
– A verdade é una e nosso Pai a reparte gratuitamente. É possível que o gosto
e a beleza sejam tão caros quanto a vulgaridade e a fealdade, mas o mesmo não
acontece com a verdade: ela é um dom gratuito que dorme em quase todos os
irmãos, instruídos ou não, gentis ou não, poderosos ou não, malvados ou não...
– Quem mais te desgosta?
– No coração de meu Pai não há lugar para o ódio... Já deverias saber disso.
Proteja-te só dos hipócritas, mas jamais vertas neles o veneno da vingança.
– Quem é hipócrita?
– Aquele que prega o caminho do reino celestial e, em troca, instala-se no
mundo. Em verdade te digo que os hipócritas enganam os simples de coração e
não satisfazem senão os medíocres.
– A quem mais estimas: a um homem espiritual ou a um revolucionário?
O Mestre sorriu, um tanto surpreso pela minha pergunta. E, pondo a mão
esquerda em meu ombro, respondeu com firmeza:
– Prefiro o homem que atua com amor...
– Mas quem pode chegar a amar mais?
– Seria melhor ter perguntado: quem pode chegar a compreender mais?
– Quem?
– Aquele que é capaz de amar tudo. Mas, atenção, Jasão! Aquele que ama de
verdade não coloca a palavra “amor” sobre a porta, preocupado em dar prova disso
ao mundo. E aquele que dá tampouco escreve a palavra “caridade” para que todos
o reconheçam. Quando vires essas palavras desavergonhadamente ostentadas no
mundo, não duvides que só tem por finalidade enriquecer e engrandecer aqueles
que as esgrimem e desfraldam. O reino de meu Pai é semelhante a uma mulher
que levava um cântaro cheio de farinha. Enquanto marchava por um caminho
afastado, a asa do cântaro se rompeu e a farinha se derramou atrás dela por todo
o caminho. A mulher não percebeu e não ficou sabendo de sua desgraça. Quando
chegou em casa, depositou o cântaro no chão e o encontrou vazio.
– Aquele que é capaz de amar tudo... – repeti com um ligeiro movimento de
cabeça. – Que difícil é isso...!
– Nada é difícil para quem aprendeu a ceder.
– Mas que me dizes das injustiças? Também devemos aprender a amar os que
nos humilham ou nos tiranizam?
– Quando ocorrer o caso, pede explicações a teu irmão, mas nunca o odeies. Só
quando olhares teus irmãos com caridade poderás sentir-se alegre.
– Agora começo a compreender – comentei quase que para mim mesmo –
porque meu mundo se sente infeliz...
– O maior erro de teu mundo – afirmou Jesus – é sua falta de generosidade.
Quem conhece e pratica o amor não costuma ter necessidade de perdoar: sempre
está disposto a compreender tudo.
– Pode ser que estejas certo, mas sempre pensei que o grande erro de nosso
mundo fosse sua “indigestão” tecnológica....
O Mestre olhou-me com inesgotável afabilidade.
– Deveis ter paciência e confiar. A humanidade às vezes se embriaga e embota
com os próprios achados e triunfos, esquecendo que seu autêntico estado natural
reside na serenidade do espírito. No dia em que desperte de tão pesada letargia,
voltará seus olhos para o caminho do amor: o único que conduz à verdadeira
sabedoria.
O cansaço começava a se apoderar de nós e, de comum acordo, decidimos
descansar as poucas horas que restavam para o alvorecer. Enquanto me envolvia
em meu manto, acomodando-me o melhor que podia sob uma das oliveiras, uma
estrela cadente – uma “lírida” – cruzou diante das estrelas Kappa Lyrae e Nu
Herculis, rasgando o véu do firmamento e minha profunda melancolia.
Sem pressentir, eu havia começado a amar aquele Homem...
Às 05h42 daquela quinta-feira, 6 de abril do ano 30, o sol começou a abrir
caminho sem muita dificuldade. Eliseu despertou-me e deu-me os habituais
informes meteorológicos. O dia prometia ser magnífico. Temperatura média
estimada de uns 17ºC, baixa umidade relativa e céu limpo.
– ... Todavia – acrescentou meu companheiro – o “rawin” 112 do módulo está
captando uma alteração nos altos níveis da atmosfera. Localização: vertical, da
fronteira do Iraque com a Arábia Saudita. Os sistemas eletrônicos confirmam que
se trata de uma corrente “em círculo”, de leste (tipo equatorial), com velocidade
máxima aproximada de 70 nós e entre 100 e 150 milibares (entre 14 e 17
quilômetros de altura)...
“Atenção, Jasão! “Papai Noel” está verificando os dados meteorológicos e tudo
parece indicar que, no transcurso das próximas 24 ou 48 horas, essa alteração
poderá provocar intensos ventos de leste, com arrasto de bancos de areia
procedentes dos desertos arábicos de Nafud e Dahna.
“A possibilidade de essa tormenta de areia ou siroco chegar à Palestina está
começando a se confirmar, pela louca elevação dos barômetros de Tonnelot e do
aneroide. É possível que, se tudo continuar como está, amanhã tenhas de tirar o
manto...”
Aquela informação era especialmente interessante. Na manhã do dia seguinte,
sexta-feira, deveria ocorrer um estranho fenômeno – assim eu havia lido nas
Sagradas Escrituras (Lucas, 23,44-46, Marcos, 15,33-34, e Mateus, 27, 45-46) – da
sexta à nona hora (do meio-dia às três da tarde, aproximadamente), “cobrindo de
trevas toda a terra”, segundo as palavras textuais dos evangelistas. E, embora eu não tenha desejado tirar conclusões a priori, a advertência de Eliseu sobre aqueles
ventos alísios E-SE, com possibilidade de forte arrasto de areia do deserto arábico
próximo, deu-me uma ligeira ideia sobre a verdadeira natureza do fato narrado no
Novo Testamento...
Pouco a pouco, algumas mulheres foram saindo da tenda e preparando o fogo.
Por volta das seis da manhã, quando eu dava um pequeno passeio pelos
arredores do acampamento, procurando desenferrujar meus músculos, vi que Judas
saía pelo cercado de pedras, sozinho e com muita pressa, a julgar pelo ritmo de
seus passos. Tomou a mesma vereda do dia anterior, desaparecendo colina abaixo
em direção ao Templo, ou talvez às portas da zona sul da cidade. Por um instante
pensei em segui-lo, mas logo desisti. Os planos da Operação Cavalo de Troia eram
outros. O mais provável é que Iscariotes fosse entrevistar-se com o chefe da polícia
do Sinédrio, como lhe havia sido recomendado na véspera. Por outro lado, Ismael,
o saduceu que tinha conseguido infiltrar-se no conselho dos sacerdotes, havia-nos
prometido informar pontualmente de todos os passos do traidor, assim como dos
movimentos dos levitas encarregados da prisão do Mestre, o que me tranquilizou.
Por isso, regressei imediatamente ao interior do horto. Jesus e seus homens
continuavam dormindo.
Na medida em que me permitiram, ajudei as mulheres a avivar a fogueira e a
transportar as vasilhas de leite, fornecido no momento por duas cabras que Felipe,
pelo que parece, havia conseguido na quarta-feira e que tinham sido amarradas no
interior da gruta.
Enquanto preparávamos o desjejum, quase à mesma hora que na manhã
anterior, irrompeu no acampamento o jovem João Marcos, com uma cesta um
pouco maior do que a da véspera. Sem pronunciar palavra alguma, entregou-a às
mulheres, indo depois sentar-se junto ao fogo. E ali permaneceu, com o queixo nos
joelhos, como que hipnotizado pela dança das chamas.
Alguns dos discípulos começaram a dar sinais de vida, espre-guiçando-se sem o
menor pudor. Dois deles, ao verem o menino, aproximaram-se e tentaram fazer
que Marcos lhes contasse o que ele e Jesus haviam feito durante aquele longo
passeio de quarta-feira. Mas o rapazinho, olhos baixos e sobrancelha franzida, não
descerrava os lábios. A pressão dos homens se elevou, mas João Marcos
continuava a negar com a cabeça, tomado de visível e crescente irritação. Algumas
das mulheres protestaram contra o interrogatório e pediram aos discípulos que
deixassem o menino em paz. Outros membros do grupo haviam se unido aos
inquisidores, pedindo e suplicando a João Marcos que lhes dissesse ao menos onde
haviam estado e se haviam sido espionados pela polícia do Sinédrio. Por fim,
aborrecido com tanta insistência, Marcos abriu a boca e deu por encerrado o
assunto com uma explicação que os seguidores do Mestre conheciam muito bem:
– O rabi pediu-me que nada dissesse a ninguém...
E ali terminou o interrogatório. Em diversas ocasiões, Jesus havia feito seus
homens participarem de diferentes confidências, pedindo-lhes que não revelassem nada. E todos, em linhas gerais, tinham respeitado o compromisso.
Os discípulos não ficaram muito conformados, em especial Simão, o Zelote, que
havia coberto o último turno de vigilância na porta do horto e temia, mais do que
ninguém, pela segurança do Mestre e do grupo. Quanto a mim, aquele obstinado
hermetismo de João Marcos só serviu para despertar ainda mais minha curiosidade.
Eu tinha de saber alguma coisa do que acontecera naquela quarta-feira, que nos
textos dos evangelistas também aparece “em branco”. Mas como conseguir que o
fiel acompanhante de Jesus falasse? Nessa mesma tarde de quinta-feira, a grande
oportunidade se apresentaria.
Jesus não tardou a aparecer. Seu rosto apresentava ligeiras olheiras, resultado,
provavelmente, das poucas horas de sono que tivera. Ao vê-lo, me senti
responsável. Se eu não o tivesse retido com minha conversa, seguramente teria
descansado um pouco mais. E ao pensar no que o aguardava, comecei a tremer.
Aquela, na realidade, havia sido sua última noite de paz...
Mas minhas preocupações se desvaneceram no mesmo instante. O Galileu
estava com invejável humor. Saudou a todos e, seguindo seu costume, procurou a
larga bacia de barro em que se banhava. Mas na metade do caminho, João Marcos,
que acabava de vê-lo, saiu correndo e abraçou-se a sua cintura. O Mestre,
surpreendido por aquela cálida recepção, tomou o rosto do menino entre suas
grandes mãos e, inclinando-se levemente para ele, perguntou-lhe em tom de
cumplicidade:
– Lembraste das passas de Corinto?
O pequeno sorriu e assentiu com a cabeça. E Jesus, esfregando as mãos em
sinal de satisfação, começou a despir-se.
“Passas de Corinto?” – pensei. “A que podem referir-se?” E de repente lembrei-
me de uma das informações de Lázaro. O Mestre apreciava muito as uvas sem
grãos, como as que brotavam na parreira que havia sido plantada pelo pai do
ressuscitado no pátio central de sua casa. E então me dispus a empreender uma
das missões encomendadas pela Operação Cavalo de Troia. “Aquele – disse-me a
mim mesmo, procurando tranquilizar-me – parecia um bom momento...”
O gigante terminou de banhar-se e, quando recebia das mãos de uma das
mulheres a toalha com que deveria enxugar-se, aproximei-me dele, oferecendo-me
para ajudá-lo. O Nazareno resistiu um pouco, mas, diante de minha insistência, pôs
parte do pano em minhas mãos, enquanto ele – divertido com o que lhe parecia ser
um jogo e uma delicadeza – esfregava-se com a outra parte.
Aquela manobra tinha na verdade uma dupla finalidade: de um lado, fazer uma
exploração manual e direta do corpo de Jesus – coisa que só naquelas
circunstâncias me seria possível – e, de outro, tentar medir suas principais partes
anatômicas. Esse segundo objetivo, sobretudo, era de vital importância para uma
melhor análise de seu organismo durante as horas de crucificação.
Através do suave pano, minhas mãos foram apalpando seu pescoço, meus ombros e minhas costas. Aquele Galileu – tal como se depreendia de uma simples
observação visual – era um exemplar robusto. Os músculos da parte posterior e
superior do tronco – em especial os trapézios – eram muito desenvolvidos. Essa
sensação de fortaleza – fruto, sem dúvida, de um duro e continuado trabalho
manual de muitos anos – estendia-se igualmente aos músculos deltoides, na área
dos ombros. Aqueles e os também sólidos grupos musculares que se distribuíam de
cada lado da coluna (os grandes dorsais e infraespinais) indicavam perfeita
sincronização dos movimentos da caixa torácica.
Os braços, de acordo com a configuração e com o considerável volume dos
músculos dos ombros e das partes superior e posterior do tronco, eram igualmente
maciços. Seus bíceps braquiais eram especialmente grossos e potentes. Também
os grandes peitorais (conhecidos familiarmente como peito) eram fortemente
consolidados, como se o Galileu tivesse praticado natação. Sua capacidade
respiratória devia ser excelente.
A cintura e a parte inferior das costas não apresentavam um único grama de
gordura.113 E o mesmo verifiquei na face frontal do abdome: a parede muscular do
grande reto era lisa, sem indício algum de tecido adiposo.
Quanto às coxas e pernas, tanto os sartórios como os músculos adutores,
bíceps crural, semitendinosos e gêmeos reagiram ao tato, firmes e duros como
pedras. Aquelas pernas, em minha opinião, fariam inveja a um corredor de
maratona...
Essa harmônica e musculosa constituição, unida à grande estatura do Mestre,
faziam dele um exemplar especialmente atrativo. À sua evidente perfeição natural,
juntavam-se também aqueles quatro últimos anos de incansável atividade,
percorrendo todos os caminhos de Israel, o que lhe havia proporcionado invejável
forma física.
Uma vez concluída minha exploração – e ante a estranheza de todos os que me
observavam –, tirei um pequeno cordel do fundo de minha bolsa de borracha e,
antes que Jesus vestisse sua túnica, pedi-lhe que esperasse um instante. O Mestre,
sem perder seu sorriso, atendeu-me com uma docilidade que só serviu para me
aturdir mais. Eu combinara com meu companheiro do módulo que, uma vez
terminada cada medição, eu pressionaria meu ouvido direito para lhe transmitir a
cifra correspondente. Dessa forma, Eliseu poderia registrar as medidas,
submetendo-as mais tarde a um estudo mais completo.
Aquela corda – totalmente branca – havia sido dividida em centímetros. Mas,
em lugar de numerá-los, cada separação era na realidade uma marca de cor preta
(uma circunferência, para ser mais exato, que rodeava todo o perímetro transversal
do cordel). Para poder efetuar os cálculos com exatidão e afastar qualquer tipo de
suspeita, a Operação Cavalo de Troia havia idealizado um sistema de “numeração”
baseado em cores e letras. A cada dez centímetros, a separação correspondente,
em lugar de ser de cor preta, havia sido pintada de acordo com as seis cores
básicas do espectro. A partir do centímetro número 70 e até o 100, as cores voltavam a se repetir. A ordem estabelecida para as cores básicas era a seguinte,
da menor para a maior: violeta, azul, verde, amarelo, laranja e vermelho. E a partir
do centímetro número 70, como disse, de novo violeta, azul, verde e amarelo. Os
centímetros existentes entre essas dez numerações foram convertidos em “letras”,
seguindo o alfabeto grego. Assim, por exemplo, quando a medição atingisse 30
centímetros, eu deveria anunciar a Eliseu “verde”. Se fossem 80 centímetros, “azul-
duplo”. Se ao contrário, fossem 41 centímetros, a chave era “amarelo e alfa”
(primeira letra do alfabeto grego).114
Sem perda de tempo, comecei pelas extremidades superiores. Do ombro à
ponta do dedo médio, a medida atingiu 82 centímetros. A chave para transmitir
aquela cifra foi, portanto, “azul-duplo e beta”. A essas medidas seguiram-se as das
extremidades inferiores, contornos, altura da cabeça, pescoço etc.115
Como salta aos olhos, o Mestre era um homem de compleição atlética, com
poderoso desenvolvimento do esqueleto e da musculatura. Suas extremidades
eram longas e o tórax realmente imponente, com ombros largos e sólidos como
rochas. A gordura, ou panículo adiposo, era muito escassa, praticamente
inexistente.
A cabeça apresentava-se firme e alongada, com rosto igualmente alongado na
parte média e no queixo, e relevo ósseo acentuados. O crânio, como já disse, era
alto e estreito.
Essas características destacavam-se da média normal da raça judia da época.
Segundo os estudos de Von Luschan e Renan, entre os judeus do sul da Rússia a
altura média oscilava ao redor de 1,60 metro, chegando a 1,70 metros entre os de
Londres e os espanhóis de Salônica. O tipo mesocéfalo de Cristo tampouco era
frequente. Entre os hebreus do sul da Rússia, por exemplo, o percentual de
indivíduos braquicéfalos (de crânios curtos) era de 81 por cento, com os
mesocéfalos alcançando 18 por cento e os dolicocéfalos 1 por cento. Entre os
judeus de Salônica, expulsos da Espanha, os dolicocéfalos seriam 14,6 por cento e
os braquicéfalos, 25 por cento.
Jesus chamava a atenção não só pela sua considerável estatura, 1,81 metro,
mas também por seu perímetro torácico, maior do que o da média dos seus
compatriotas.
Essa tipologia “atlética” combinava bem com o temperamento “enequético”
descrito por Mauz: fraca reação ante os estímulos, movimentos seguros e
vigorosos, ainda que pouco pródigos. De maior força do que precisão.
Foi sem dúvida essa fortaleza física que lhe permitiu suportar em parte o brutal
castigo que o aguardava. Mesmo assim, como logo veremos, os médicos e
especialistas da Operação Cavalo de Troia jamais puderam entender como aquele
homem conseguiu resistir até o final à cadeia de horríveis torturas a que foi
submetido.
Devo confessar: essa parte da missão foi possivelmente a mais ingrata.
Durante muito tempo e apesar da mansidão mostrada por Jesus, tive a sensação de que, submetendo-o àquela operação antropométrica, estava abusando daquele
homem. E ainda hoje continuo acreditando nisso.
Para minha sorte, nenhum dos presentes perguntou-me por que eu fazia aquela
insólita e quase ridícula operação. A verdade é que, desde o princípio, eu gozava,
entre os discípulos, da fama de homem estranho. E isso – não sei muito bem –
talvez possa ter bastado para justificar meu singular comportamento naquela
esplêndida manhã de quinta-feira, 6 de abril.
O Mestre acabou de se vestir e, sempre com aquele mesmo bom humor,
juntou-se ao grupo de amigos que o esperava para o desjejum.
Felipe voltou a repartir o pão, ainda quente, que ele mesmo trouxera, e as
mulheres distribuíram as taças de leite. No cesto, havia uma grande quantidade de
grãos tostados e figos secos e uma jarra de barro repleta das famosas passas de
Corinto. Tudo isso obséquio da família de João Marcos ao Mestre e a seu grupo.
O próprio João se encarregou de abrir a jarra e, radiante de satisfação,
derramou um bom punhado daquele fruto negro e brilhante nas mãos de Jesus.
Depois, seguindo as instruções do Galileu, foi repartindo o resto das passas a todos
os que se achavam no horto.
Aquela refeição matutina transcorreu em ambiente calmo. Os apóstolos
pareciam um pouco mais tranquilos do que na noite anterior, ainda que alguns,
como Pedro, Tomé e os Zelotes, não tardassem a descobrir a ausência de Judas.
No entanto, pelos comentários que pude captar, os discípulos a atribuíram às suas
obrigações rotineiras como administrador geral do grupo e, mais concretamente,
aos detalhes da preparação da iminente festa de Páscoa. Nenhum dos presentes,
por certo, sabia onde o Mestre celebraria a Páscoa e como ele pensava celebrá-la.
Em minha opinião e diante dos graves acontecimentos ligados à determinação do
Sinédrio de prender Jesus, aquele assunto da Páscoa também não os preocupava
muito.
Por volta das dez da manhã, apareceu no acampamento José de Arimateia,
acompanhado de um serviçal. Ao vê-lo, Jesus convidou-o a sentar-se com o grupo.
José recusou delicadamente o convite e lhe fez sinal de que precisava falar com ele
a sós.
O Mestre levantou-se e ambos se afastaram alguns passos, parando junto ao
muro da cuba de pedra destinada à azenha.
José, com o semblante sério, gesticulava, denunciando ao Mestre o que eu já
sabia sobre o plano de Judas. Por sorte, nenhum dos discípulos chegou a escutar a
conversa. O Mestre ouviu sem se alterar e, quando José terminou, tomou-o pelo
braço e ambos deram alguns passos ao longo do parapeito de pedra.
Durante uns quinze ou vinte minutos, Jesus dialogou com o membro demitido
do Sinédrio. Nessa mesma noite – já de madrugada – de quinta-feira, José iria
revelar-me as palavras que lhe dissera o Mestre durante aquele breve encontro no
acampamento.
A súbita chegada de José de Arimateia e a misteriosa confidência ao Nazareno não passaram despercebidas aos discípulos. Todos ficaram curiosíssimos para saber
a razão daquela visita. E a maioria acertou... pela metade. Cochichando entre si, os
apóstolos inclinavam-se a pensar que algo grave estava acontecendo e que esse
“algo” tinha muito a ver com a ameaça e captura do mestre e a possível
desintegração do movimento que ele conduzia. E os ânimos voltaram a ficar
tensos.
Terminado o diálogo, José dirigiu-se a uma das tendas e trocou algumas
palavras com Davi Zebedeu. Por último, depois de se despedir de todos, afastou-se
em direção a Jerusalém.
Jesus, que se juntara de novo ao grupo formado em torno da fogueira, parecia
um pouco mais sério. E, antes que alguém lhe fizesse alguma pergunta, pediu a
seus homens e mulheres que o acompanhassem.
Por volta das dez e meia, o grupo completo, integrado por umas cinquenta
pessoas, iniciou a subida da encosta do monte das Oliveiras. Eu, meio ressabiado,
avisei Eliseu da saída e da direção do grupo, para prevenir uma possível
aproximação da zona de segurança do módulo.
Ao chegar ao cume da colina, o Nazareno pediu aos amigos que se sentassem e
o ouvissem. Por sorte, o módulo estava muito mais ao norte.
Havia tanta inquietação quanto expectativa nos olhares daqueles galileus. No
fundo, eles apenas desejavam assegurar-se de uma coisa: que o Mestre tivesse
tomado a decisão – como já fizera em outras ocasiões – de retirar-se da jurisdição
da Cidade Santa, para evitar as ameaçadoras castas sacerdotais. Mas não foi isso o
que ouviram, ainda que o rabi fizesse algumas alusões ao poder temporal...
– Os reinos deste mundo – disse –, sendo como são, materiais, podem pensar
muitas vezes que é necessário empregar a força física para a execução e o
desenvolvimento das leis e para a manutenção da ordem. No reino dos céus, os
crentes não recorrem ao emprego da força física. O reino dos céus, sendo como é,
uma irmandade espiritual entre os filhos de Deus, pode promulgar-se unicamente
pelo poder do espírito. Essa diferença de procedimento não anula, todavia, o direito
dos grupos sociais e crentes de manter a ordem em suas fileiras e de impor a
disciplina entre membros ingovernáveis e indignos. Não há incompatibilidade entre
ser filho do reino espiritual e cidadão do governo secular e civil. É dever do crente
dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus...
“Não pode haver desacordo entre esses dois requisitos. A não ser – ressalvou
Jesus – que aconteça que um César tente usurpar as prerrogativas de Deus, peça
homenagens espirituais e exija que se preste a ele culto supremo. Em tal caso,
deveis adorar a Deus, enquanto tentais iluminar esses dirigentes mal orientados.
Não deveis render culto espiritual aos governantes da terra. Nem tampouco deveis
empregar a força física dos governos terrenos.
“Ser filhos do reino, do ponto de vista de um mundo avançado – prosseguiu
Jesus dirigindo-me um olhar significativo –, deve vos converter em cidadãos ideais
nos reinos terrenos. A fraternidade e o serviço – não esqueçais – são as pedras angulares do Evangelho. O chamado do amor do reino espiritual deve provar que é
eficiente na hora de destruir o instinto do ódio entre os cidadãos não crentes e os
guerreiros do mundo terreno. Mas esses filhos das trevas, com mentalidade
materialista, nunca saberão de vossa luz espiritual, a não ser que vos aproximeis
deles. Por isso, devereis ser honoráveis e respeitados entre os cidadãos, entre os
dirigentes deste mundo. Esse serviço social generoso é apenas a consequência
natural de um espírito que vive na luz.
“Como homens mortais, sois em verdade cidadãos dos reinos terrenos; deveis
ser bons cidadãos e, muito mais, quando houverdes voltado a nascer no espírito.
Tendes, portanto, uma tríplice obrigação: servir a Deus, servir ao homem e servir à
irmandade dos crentes em Deus.
“Não adoreis a chefes temporais nem empregueis a força para o fomento do
reino espiritual. Mas manifestai-vos em um honrado ministério de serviço amoroso,
tanto aos crentes como aos não crentes. É no Evangelho do reino que reside o
poderoso Espírito da Verdade. Eu verterei sobre vós esse Espírito da Verdade e
seus frutos serão poderosas alavancas sociais que tirarão as massas das trevas. Em
verdade vos digo que esse Espírito chegará a ser vossa alavanca, com um poder
multiplicador.
“Distribuí sabedoria e mostrai sagacidade no vosso trato com os dirigentes civis
não crentes. De forma discreta, mostrai-vos peritos na hora de aplainar desacordos
pouco importantes e ajustar desentendimentos fúteis. Buscai, por todas as formas
leais, viver pacificamente com todos os homens. Sede sempre sábios como as
serpentes e inofensivos como as pombas...
“Sereis melhores cidadãos se souberdes iluminar vosso espírito com a verdade
do Evangelho. E os dirigentes dos assuntos civis melhorarão, como resultado dessa
crença no reino celestial.
“Enquanto os chefes dos governos terrenos buscarem exercitar a autoridade
como ditadores religiosos, vós – os que credes neste Evangelho – só podereis
esperar problemas, perseguições e até a morte...”
Jesus fez uma pausa, deixando que aquelas últimas palavras flutuassem como
um negro presságio.
– ... Mas eu vos digo – prosseguiu em tom firme e esperançoso – que essa
mesma luz que levardes ao mundo, e até a forma como padecerdes por ela,
iluminará finalmente por si mesma toda a humanidade e dará como resultado a
separação gradual da política e da religião.
O Galileu voltou a fixar seus olhos em mim. E continuou:
– ... A persistente pregação deste Evangelho do reino levará algum dia as
nações a uma nova e incrível libertação, à liberdade intelectual e à liberdade
religiosa.
“Eu vos anuncio agora que, sob as próximas perseguições dos que odeiam este
Evangelho da alegria e da liberdade, vós florescereis e o reino de meu Pai
prosperará. Mas não vos enganeis. Correreis grave perigo quando, nos tempos posteriores, a maioria dos homens fale bem dos crentes no reino e muitos, mesmo
ocupando altos cargos, aceitem o Evangelho. Aprendei a ser leais ao reino, mesmo
em tempos de paz e prosperidade. Não tenteis os anjos que vos vigiam. Não os
tenteis a vos levar por caminhos semeados de dificuldades quando vos deixardes
arrastar pela malícia e pela vanglória. Recordai que estais encarregados de pregar
este Evangelho, o supremo desejo de fazer a vontade do Pai, junto com a alegria
suprema da realização da fé de serdes filhos de Deus. Portanto, não deveis deixar
que nada desvie vossa atenção. Fazei com que toda a humanidade se beneficie do
extravasamento de vosso amável ministério espiritual, iluminando a comunhão
intelectual e inspirando o serviço social. Mas nenhuma dessas tarefas humanitárias
deve prejudicar o verdadeiro objetivo de vossos corações: proclamar o Evangelho.
“Não deveis buscar a promulgação da verdade ou o estabelecimento da
honradez por meio do poder dos governos civis ou de leis seculares.
“Podeis trabalhar para persuadir as mentes humanas, mas nunca, nunca deveis
chegar ao atrevimento de vos impordes. Não esqueçais a grande lei da justiça
humana que vos ensinei: o que desejardes que vos façam, fazei a eles...
“Quando um crente for chamado a servir a um governo terreno, deixai que ele
exerça esse trabalho, como cidadão temporal, ainda que tenha de mostrar todos os
traços e sinais comuns da cidadania. Sua ação terá sido enriquecida pela ilustração
espiritual da enobrecedora associação da mente do homem mortal com o espírito
divino que nele habita. Se o não crente chega a se qualificar como servidor civil
exemplar, vos deveis perguntar seriamente se as raízes da verdade de vosso
coração não morreram por falta das águas que vivem da comunhão espiritual com
o serviço social. A consciência de serem filhos de Deus deve estimular toda uma
vida de serviços a vossos semelhantes.
“Não deveis ser místicos passivos ou ascetas desanimados. Não deveis tornar-
vos sonhadores ou inconstantes, caindo na cômoda letargia de crer que uma fictícia
Providência virá vos prover além do necessário para viver.
“Em verdade, deveis ser suaves em vosso trato com os mortais que se
equivocam. E pacientes em vossas conversas com os homens ignorantes. E
contidos ante as provocações... Mas também deveis ser valentes na hora de
defender a honra, fortes na promulgação da verdade e até audazes para pregardes
este Evangelho do reino. E devereis chegar até os confins do mundo...
“Este Evangelho é uma Verdade viva. Eu vos disse que é como a levedura no
pão e como o grão de mostarda. E agora vos declaro que é como a semente do ser
vivo que, de geração em geração, enquanto continua sendo a mesma semente
viva, desdobra-se infalivelmente em novas manifestações e cresce de forma
aceitável, adaptando-se às necessidades peculiares e condições de cada geração. A
revelação que vos fiz é uma revelação viva...”
O Galileu pronunciou essas duas últimas palavras com uma força indescritível.
– ... Uma revelação viva – repetiu. – E é meu desejo que ela leve frutos
apropriados a cada indivíduo e a cada geração, de acordo com as leis do crescimento espiritual. É meu desejo que se incremente e tenha um
desenvolvimento. De geração em geração, este Evangelho deve mostrar vitalidade
crescente e maior profundidade de poder espiritual. Não se deve permitir que
chegue a ser uma simples recordação sagrada, mera tradição sobre mim ou sobre
os tempos que agora vivemos...
Aquele olhar profundo e afiado como um punhal perpassou por todos e cada um
dos ouvintes. E, ao chegar a mim, Jesus voltou a repeti-las:
– ... Não se deve permitir que chegue a ser uma simples recordação sagrada,
mera tradição sobre mim ou sobre os tempos que agora vivemos...
Depois, descendo para um tom mais calmo, prosseguiu:
– E não esqueçais que não temos dirigido um ataque pessoal aos indivíduos
nem à autoridade dos que se sentam na cadeira de Moisés. Tão só lhes temos
oferecido a nova luz, que eles repeliram com tanto vigor. Temos nos lançado contra
eles só por sua deslealdade espiritual para com as mesmas verdades que dizem
ensinar e salvaguardar. Tivemos choques com esses dirigentes estabelecidos e
chefes reconhecidos só quando se opuseram diretamente à prática do Evangelho.