Cavalo de Tróia 1: Jerusalém

J. J. Benítez · Capítulo 17 de 19 · parte 1/11

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Cavalo de Tróia 1: Jerusalém

7 de abril, sexta-feira

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.

 

Um estranho silêncio havia caído sobre o acampamento. Eu sabia que aquela

não iria ser uma noite igual às anteriores, mas, apesar de tudo, notei no ambiente

uma pesada turbulência. Como se milhares de fantasmas – talvez os mensageiros

invisíveis a que o Mestre havia aludido – planassem sobre as copas das oliveiras,

agitando até as débeis línguas de fogo diante das quais eu permanecia. E senti um

frio na espinha.

Era meia-noite e o acampamento dormia. Depois que Jesus e seus três

discípulos haviam entrado no meio do olival, levantei-me e avisei Eliseu de que me

dirigiria à extremidade norte do horto. Dei uma rápida olhada nas tendas, no

moinho e nos corpos adormecidos dos gregos e, como tudo estava em ordem,

encaminhei-me para o muro que bordejava o horto pelo leste, e que eu já havia

explorado na primeira visita à propriedade. Davi Zebedeu, antes de desaparecer

encosta acima, havia me dito que ele e João Marcos tinham combinado manter

uma vigilância extra. Ele ficaria nas proximidades do cume da colina e o menino, no

caminho que serpenteava junto à porta de entrada do horto e que morria na ponte

sobre o barranco do Cedron. De tal forma que, se a polícia do Templo tentasse

assaltar o horto pelo caminho mais curto, o do Cedron, ou pelo cume do monte das

Oliveiras, um ou outro poderia dar o alerta. Mas os acontecimentos iriam

desenrolar-se de outra forma...

Lentamente, procurando ocultar-me no meio da massa de árvores, fui

avançando para a gruta, sem perder de vista em nenhum momento o parapeito de

pedra. De acordo com as instruções da Operação Cavalo de Troia, minha

observação da “oração do horto” como a chamavam os cristãos, devia ser realizada

sem que seus protagonistas tivessem conhecimento ou suspeita da minha

presença. Para isso, eu deveria saber com precisão em que lugar permaneceriam

os três apóstolos e onde o Mestre tencionava orar. Se Jesus, como eu supunha,

escolhesse as proximidades da gruta, meu esconderijo seria precisamente aquela

parede que cercava a propriedade de Simão, “o leproso”.

Eliseu tinha razão. Como ele havia avisado horas antes, a forte turbulência nos

altos níveis da atmosfera, a leste da Palestina, começava a se fazer notar sobre

Jerusalém. Um vento cada vez mais insistente e quente agitava a ramaria e silvava

com um lúgubre presságio por entre os tortuosos ramos das oliveiras. A canafístula

que se erguia junto à caverna castanholava cada vez mais forte, facilitando minha

orientação.

Ao alcançar o fundo do horto, descobri, subitamente, a figura do Galileu, em pé,

cabeça baixa, quase cravada sobre o peito. Estava, de fato, a quatro ou cinco

metros da entrada da gruta, no centro da pequena clareira existente entre o olival e a rocha. Aos pés do Mestre estendia-se uma daquelas crostas de cal, cuja

brancura era realçada pela lua cheia.

Sem perder um minuto, saltei para o outro lado do muro e, arrastando-me

entre as moitas, contornei a caverna e me coloquei atrás da enorme canafístula.

Dali, perfeitamente oculto, pude seguir, passo a passo, todos os movimentos e as

palavras de Jesus de Nazaré.

A claridade derramada pela lua me permitiu ver a figura do Mestre

comodamente. Todavia, tive de acostumar os olhos à escuridão que dominava a

massa das oliveiras para descobrir, enfim, as silhuetas de Pedro, João e Tiago. Os

discípulos haviam-se sentado no chão, acomodando-se com seus mantos entre as

últimas árvores, a pouco mais de uns trinta passos do Nazareno. Daquela distância

– e apesar de meus esforços –, não pude certificar-me se dormiam ou não. Após

uns quinze ou vinte minutos, deduzi que ao menos dois deles deviam ter caído em

profundo sono, a julgar por suas posturas, totalmente deitados sobre o solo, e

pelos inconfundíveis roncos de Pedro. Um terceiro estava reclinado contra o tronco

de uma das oliveiras, mas eu não podia jurar que estivesse dormindo.

De repente, quando eu estava preparando a “vara de Moisés”, um estalo de

ramos assustou-me. Voltei-me e meus olhos fixaram-se em um vulto branco que, a

cerca de dez ou quinze metros, deslizava entre os arbustos, aproximando-se.

Empunhei o cajado em posição defensiva e, ajoelhado, preparei-me para rechaçar

o ataque do que – num primeiro momento identifiquei como um estranho animal.

Mas, quando aquela “coisa” estava quase ao alcance de minha vara, parou. Era o

jovem João Marcos!

Respirei profundamente, fazendo-lhe sinal para que continuasse agachado. O

menino se aproximou de mim e cochichou-me no ouvido que havia abandonado a

guarda, porque queria estar próximo do Mestre. Não me atrevi a sugerir-lhe que

regressasse, mas, dadas as circunstâncias, pedi que se mantivesse no mais

absoluto silêncio. Ao ver Jesus em atitude de oração, Marcos compreendeu e me

fez um gesto de aprovação. A partir desse momento – e ainda que eu procurasse

não perder de vista o impetuoso adolescente –, minha atenção concentrou-se no

gigante da Galileia.

E assim eu estava quando, subitamente, Eliseu, fortemente excitado, abriu a

conexão auditiva para me informar de algo que me deixou atônito. O radar do

módulo estava recebendo informação de um objeto que “voava” sobre a região!

– Mas não é possível! – respondi, praticamente metendo a cabeça entre os

joelhos, de forma que o rapazinho não me pudesse ouvir...

– Jasão, juro que manobrei a antena e a tela de aproximação do radar125 está

codificando um eco metálico. Aí em cima, a uns 6 mil pés, algo se move... Sim,

agora vejo melhor... Está em 360-30 milhas.126 Santo Deus! Ele parou!...

Olhei para o firmamento, na direção que Eliseu havia indicado, mas nada vi de

anormal. A forte luminosidade da lua, cada vez mais alta, dificultava a visão das

estrelas.

Meu companheiro, no “berço”, tão confuso e perplexo quanto eu, permaneceu

com os cinco sentidos sobre aquele insólito “visitante”. Mas o objeto havia se

imobilizado e assim permaneceria durante um bom tempo.

 

Ainda não me havia recuperado da surpresa produzida pela aproximação

daquele misterioso objeto voador, quando vi que Jesus desfalecia, cravando os

joelhos na terra. O golpe seco contra o solo fez estremecer João Marcos. Nem o

menino nem eu jamais havíamos visto o Galileu com um semblante tão pálido e

abatido.

Durante vários minutos, permaneceu com o queixo enterrado nas pregas do

manto que lhe cobria os ombros e o peito. A profunda inclinação de sua cabeça não

me permitia ver claramente seu rosto, embora eu estivesse seguro de que

mantinha os olhos fechados.

Seus braços, imóveis e abandonados ao longo do corpo, acentuavam ainda

mais aquele repentino desfalecimento. Dali a pouco, muito lentamente, foi

levantando a cabeça até fixar os olhos no céu. O vento havia começado a agitar

seus cabelos. Levantando os braços acima do rosto, exclamou com voz apagada e

suplicante: “Abbá!... Abbá!...”.

Fiquei desconcertado. Aquela palavra aramaica – que eu havia ouvido em mais

de uma ocasião, quando as crianças se dirigiam a seus pais – significava “papai”.

Era o familiar e conhecido vocativo carinhoso que, por certo, os judeus não

empregavam jamais quando se dirigiam a Deus. Por que o utilizava Jesus?

Seus olhos também me impressionaram: aquele brilho habitual havia-se

esfumado. Agora estavam fundos e sombreados por uma tristeza que, se eu não

tivesse conhecido a comprovada coragem daquele homem, juraria que estava

muito próxima do medo.

– Abbá!... – murmurou de novo. – Vim a este mundo para cumprir tua vontade

e assim tenho feito... Sei que é chegada a hora de sacrificar minha vida carnal...

Não o recuso, mas desejaria saber se é da tua vontade que eu beba este cálice...

Suas palavras retumbaram pelo horto como um tambor fúnebre. Eu não podia

dar crédito ao que estava ouvindo: estaria Jesus atemorizado?

– ... Dá-me a segurança – prosseguiu – de que eu, com minha morte, te

satisfaça como o fiz em vida.

Suas mãos, abertas, tensas e implorantes, foram caindo pouco a pouco. Mas

seu rosto – tenuemente iluminado pela lua – não se moveu. Sem saber por que, eu

também olhei para as estrelas, esperando que se produzisse algum sinal.

Nesse instante, como se houvesse lido meu pensamento, Eliseu abriu a

conexão, gritando-me:

– Jasão, Jasão!... Ele se move de novo. Esse objeto está-se deslocando!... Não

posso crer!... Mudou de rumo: agora está seguindo a radial 240.127 Jasão, ele vem

para cá! Você está-me ouvindo, Jasão?

– Estou escutando, “5 x 5” – respondi como pude –, mas não será algum

meteoro?

Eliseu quase me mandou para o inferno por aquela pergunta, evidentemente

idiota.

– Essa “coisa”, Jasão, ficou estacionária 128 durante mais de vinte minutos... E

agora se move com muita rapidez.

Se aquele inexplicável objeto estava ainda a umas trinta milhas de nossa

posição, seria ridículo continuar esquadrinhando o espaço. Procurei, portanto,

acalmar meu irmão no módulo, pedindo-lhe que me mantivesse pontualmente

informado das evoluções do eco no radar.

Enquanto isso, o Mestre havia se levantado e, dando meia-volta, caminhara até

os discípulos. Em virtude da distância, não pude registrar suas palavras, mas

observei que se inclinava sobre eles e os tocava com a mão esquerda. Os dois que

dormiam despertaram e se ergueram parcialmente.

Depois, Jesus retomou à clareira. Os três apóstolos o observaram durante

breves minutos e acabaram deitando-se de novo.

À medida que ele se movia, observei no Mestre algo estranho. O gigante

cambaleava. Seus passos eram indecisos, como se estivesse prestes a desmaiar. E,

mal chegando junto à laje, caiu de bruços. Por um momento pensei que estivesse

desfalecido. Parte de seu corpo havia ficado sobre a rocha, o rosto para baixo e

imóvel. João Marcos levantou-se, pronto para socorrê-lo. Eu o segurei e o fiz ver

que não era conveniente molestar o Mestre. Suponho que se o Galileu não voltasse

a se mover, o ardoroso Marcos não teria seguido meus conselhos e teria corrido

para auxiliar o Mestre. Mas Jesus estava plenamente consciente, e o jovem

tranquilizou-se.

Como se uma força invisível tivesse descarregado sobre ele um fardo de cem

quilos, assim o Mestre foi se levantando. Muito lentamente, sempre com a cabeça

baixa, o Galileu acabou sentando-se sobre os calcanhares. E assim permaneceu um

bom tempo, de joelhos, em angustioso silêncio, sem erguer o rosto.

Instintivamente, eu e João nos entreolhamos. Que estava acontecendo? A que se

devia aquele súbito afundamento?

Jesus ergueu o rosto para as estrelas e, gemendo, chamou de novo seu Pai. As

maçãs do rosto e o nariz estavam afilados. A expressão de seu rosto me

impressionou. Havia nele uma mistura de angústia e pavor. Seus lábios,

entreabertos, começaram a tremer e, quase imediatamente, todo seu corpo se pôs

a estremecer. Eram convulsões curtas, muito rápidas e quase imperceptíveis. Como

se um vento gelado açoitasse cada uma de suas células.

O Nazareno cruzou os braços sobre o tórax, pressionando as costas com as

mãos, como que numa tentativa de dominar as convulsões. E de súbito sua testa, o

pescoço e as têmporas se umedeceram de suor. Os estremecimentos ficaram mais

intensos e continuados, e Jesus dobrou-se na cintura, tocando a superfície de pedra

com a fronte.

– Abbá!... Abbá!...

Aquela foi a única palavra que conseguiu pronunciar. Porém, mais que um apelo, era um grito contido de angústia e terror.

Agora estou certo de que, naqueles duros e cruciais momentos, o Galileu deve

ter experimentado uma pungente e indescritível sensação de solidão, de aflição e,

talvez – por que não? –, de medo, ante o que lhe reservava o destino.

Seu corpo continuou tiritando e, de repente, num ímpeto, o Mestre lançou-se

para trás, elevando suas mãos e o rosto.

Fiquei petrificado...

Toda a sua face, sua testa e seu pescoço, assim como as palmas das mãos,

haviam enrubescido. A fina película de suor havia se convertido em sangue... João

Marcos escondeu o rosto entre as mãos.

Do couro cabeludo, grossas gotas de sangue foram escorrendo, deslizando

pelos ângulos internos dos olhos e rolando depois pelas faces, até se perderem no

bigode e na barba. Algumas gotas permaneciam por segundos nas comissuras dos

lábios, convertendo-se depois em fios de sangue que caíam nos músculos do

pescoço.

Num daqueles estremecimentos, Jesus inclinou um pouco a cabeça, e a lua

arrancou algumas cintilações de seu cabelo. O sangue havia inundado também sua

cabeleira.

Meio hipnotizado por aquela inesperada reação do organismo de Jesus, quase

esqueci de utilizar a “vara de Moisés”. Então, rapidamente, eu a posicionei de

forma que pudesse filmar a cena e, ao mesmo tempo, iniciar uma exploração da

pele e de alguns órgãos internos de Jesus, por meio do rastreamento ultra-sônico.

(Como já comentei anteriormente, o “cajado” guardava, entre outros dispositivos,

um equipamento miniaturizado capaz de emitir esse tipo de onda mecânica ou

ultrassom. A “cabeça emissora”, disposta na parte superior da vara, a 1,70 metro

da base, havia sido condicionada para captar as ondas refletidas, ampliando-as

proporcionalmente e acumulando a informação na memória de titânio do

computador nuclear. Uma vez no módulo, os ultrassons, previamente codificados,

podiam ser convertidos em imagens, para análise dos órgãos e das reações

fisiológicas do Mestre e, assim, encontrar explicações.)129

O orifício comum de entrada e projeção desses delicados sistemas havia sido

camuflado com uma faixa de pintura preta. E na borda da faixa haviam sido

dispostos pelo Cavalo de Troia dois cravos de cabeça de cobre. Ao se pressionar

cada um deles, ativava-se automaticamente o mecanismo correspondente: ou o do

ultrassom ou o de “teletermografia”. A fim de orientar com precisão cada um

desses fluxos, a missão me havia dotado de lentes de contato que chamávamos de

“crótalos”.130 Essas lentes, do tipo duro, foram fabricadas com um produto de

qualidade muito superior ao que normalmente os laboratórios de óptica utilizam e

que, por seu caráter secreto, não posso revelar. 131 O ideal, certamente, teria sido o

uso de óculos de “visão noturna”, com os quais eu poderia seguir a trajetória do

laser infravermelho, assim como as mudanças de cor no corpo do Nazareno,132

consequência das variações de sua temperatura corporal e das diferentes alterações fisiológicas provocadas pelas torturas. Mas obviamente isso não era

possível. Então o projeto Cavalo de Troia desenhou essas lentes, totalmente

transparentes, as quais, uma vez ajustadas aos olhos, permitiam o

acompanhamento sem levantar perigosas suspeitas entre as pessoas da época.

Procurando dar as costas a João Marcos, apanhei o pequeno estojo que

continha as “crótalos” e as adaptei aos meus olhos. Ainda que as lentes tivessem

sido aperfeiçoadas com sais monoiônicos,133 capazes de permitir uma aceitável

circulação da lágrima no olho e uma excelente oxigenação da córnea, o general

Curtiss me havia pedido encarecidamente que não abusasse delas, limitando seu

uso a períodos máximos de 30 ou 40 minutos.134 Rapidamente, pressionei o cravo

que acionava a emissão de ultrassons.135

O espetáculo que se ofereceu aos meus olhos (embora, na realidade, eu

devesse dizer “ao meu cérebro”) foi quase dantesco: o rosto, pescoço e mãos de

Jesus tornaram-se de uma cor azul-esverdeada, consequência da queda de sua

temperatura nas zonas correspondentes (provavelmente pelo efeito refrigerante do

suor e do sangue que emanavam de seus poros).

A túnica emitia um branco muito mais intenso, enquanto o manto tinha

tonalidade mais escura, quase preta. A folhagem verde do olival explodiu em um

vermelho indescritível...

Ao pressionar a cabeça do cravo para sua segunda posição – a mais profunda –,

surgiu da parte superior da “vara de Moisés – um finíssimo raio de luz

avermelhada: era o laser infravermelho. E sem perder um só segundo, eu o dirigi

para rosto, pescoço, cabelos e mãos do Nazareno. Decerto, nem João Marcos nem

ninguém que tivesse presenciado aquela cena teria visto ou ouvido qualquer coisa.

Como já disse, o laser trabalhava na frequência do infravermelho e, portanto, era

invisível ao olho humano.

Depois de focalizar minuciosamente as áreas ensanguentadas, mudei a

frequência dos ultrassons (fazendo retomar o cravo à primeira posição), centrando

o feixe de luz na parte superior do abdome do rabi. Dessa forma, explorando o

pâncreas, talvez obtivéssemos uma explicação satisfatória sobre a origem daquele

suor em forma de sangue. (Quando do nosso regresso daquela primeira “grande

viagem”, o Cavalo de Troia pôde analisar o volume de imagens obtidas por esse

processo. Os especialistas em bioquímica e hematologia chegaram a várias e

interessantes conclusões. Aquele suor sanguinolento, ou “hematoidrose”, havia sido

provocado por um estresse agudo. O Nazareno, tal como eu verificara, estava

submetido a um profundo abatimento, motivado, por sua vez, por uma explosiva

mistura de angústia, solidão, tristeza e, talvez, temor diante das duríssimas provas

que o aguardavam. Essa violenta tensão emocional, segundo os especialistas,

causou a liberação de determinados “elementos” existentes no pâncreas,136 os

quais forçaram a ruptura dos capilares, encharcando as glândulas sudoríparas. Uma

vez rompidos os poros subcutâneos, o sangue fluiu para o exterior, misturado ao

suor.

O fenômeno – tão chocante quanto raro – é perfeitamente possível do ponto de

vista médico. O evangelista Lucas, nesse caso, havia acertado. (Pierre Benoit conta

em uma de suas obras que, em 1914, um soldado que estava a ponto de ser

conduzido para ficar diante de um pelotão alemão de fuzilamento suou sangue, em

consequência do pavor insuperável causado por aquela angustiosa situação.)

E, embora essa explosão sanguinolenta ou extravasamento – não uma

hemorragia – sofrida pelo Filho do Homem não representasse uma perda

importante de sangue, as análises da Operação Cavalo de Troia informaram que o

fenômeno deixou a pele de Jesus em alarmante estado de fragilidade. Essa

circunstância seria determinante diante da “carnificina” mais do que um suplício – a

que ele seria submetido poucas horas depois. Refiro-me, naturalmente, ao castigo

dos açoites. Aquela ruptura generalizada da rede de capilares – finíssimos vasos

pelos quais o sangue circula sob a pele – converteria a flagelação em um trágico

banho de sangue...

Uma de minhas preocupações naqueles primeiros momentos de forte estresse

do Mestre no horto foi a evolução de seu ritmo cardíaco e arterial. Ao dirigir os

ultrassons para o coração, o efeito Doppler encontrou um ritmo de 135 pulsações

por minuto. Quanto à pressão arterial, ela havia se elevado a 210 de máxima. (O

ritmo cardíaco normal do Nazareno foi calculado em 60 batidas por minuto e sua

pressão arterial média em 130 de máxima e 80 de mínima. Aquilo significava,

evidentemente, uma profunda alteração orgânica. Os especialistas do Cavalo de

Troia acharam, mesmo assim, que, diante da resistência arterial periférica, a

descarga prévia de adrenalina na corrente sanguínea daquele homem pode ter sido

da ordem de 10 microgramas por quilo por minuto.)

Pouco a pouco, depois de dez ou quinze minutos, à medida que o ânimo do rabi

foi serenando, seu ritmo cardíaco e arterial foi recobrando a normalidade. No

entanto, aquela dura prova – na opinião dos peritos em nutrição – significou o

esgotamento das 750 calorias recebidas pelo organismo na ceia recente. O

estresse deve ter representado um consumo de calorias sensivelmente superior a

essa quantidade, razão pela qual o Nazareno, na opinião dos médicos do projeto,

começou a queimar suas reservas naturais possivelmente a partir da uma ou das

duas horas da madrugada da sexta-feira. (Com aquele suprimento energético e na

hipótese de que Jesus tivesse se recolhido imediatamente para descansar, o

organismo teria aguentado até as oito da manhã, aproximadamente. Mas, com a

crise iniciada no horto de Getsêmani, os especialistas, como já disse, estimaram

que o organismo do Filho do Homem teve de iniciar uma “lipólise” – ou dissolução

de gordura do tecido adiposo – para sobreviver. As reservas concentradas de

glicogênio ou açúcar se esgotaram em questão de horas e a natureza do Galileu

não teve outra alternativa senão “lançar mão”, repito, de suas gorduras.)

O estado do Mestre, do ponto de vista exclusivamente médico, começava a

ficar delicado.

 

Quinze ou vinte minutos depois de iniciado aquele primeiro exame à base de ultrassons, desconectei o laser, desfazendo-me das “crótalos”. João Marcos

continuava com o rosto coberto pelas mãos, negando-se a olhar para o Mestre.

Enlacei-o pelos ombros e acariciei seus cabelos. Pouco a pouco, foi mostrando o

rosto. Chorava.

Na clareira, o Galileu começava a baixar as mãos. As convulsões tinham

cessado, e também o fluxo de sangue. Alguns jorros mais fortes já haviam

coagulado. Se o Mestre não se lavasse, o sangue seco converteria seu belo rosto

em uma máscara. Jesus levantou de novo seus olhos para o firmamento e, com voz

alta, mas serena, praticamente repetiu sua primeira oração:

– Pai... sei muito bem que é possível evitar este cálice. Tudo é possível para ti.

Mas eu vim para cumprir tua vontade e, não obstante seja amargo, eu o beberei,

se este for o teu desejo...

Entre essa segunda oração (não sei se devo qualificá-la assim) e a primeira,

observei uma notável mudança, tanto no estado emocional do Mestre como em sua

postura diante dos iminentes acontecimentos. Enquanto em suas primeiras

palavras flutuava a dúvida, nessa segunda ocasião o Galileu parecia ter superado

parte da inquietação, mostrando-se definitivamente decidido a assumir sua sorte. É

possível que essa mudança mental fosse responsável, em boa medida, por sua

gradual tranquilização. Mas tudo isso, naturalmente, são apreciações muito

subjetivas.

O certo é que, empenhado em minhas primeiras verificações médicas e atento

às palavras de Jesus, quase me havia esquecido de Eliseu e da aproximação

daquele enigmático objeto voador. Mas meu companheiro não tardou em lembrar-

me:

– Atenção, Jasão!... Essa “coisa” abandona o estado estacionário e se move de

novo... por todos os...!

A transmissão de meu companheiro foi interrompida por breves segundos. Por

fim, Eliseu, muito alterado, prosseguiu:

– Caiu como um cubo... ! Jasão, esse enigma desceu ao nível 30 em um

segundo!137 Não pode ser...! Se continuar baixando, eu o perderei... Não! Neste

momento ele se mantém... Mas se dirige para nós...

Colando meus lábios ao tronco da canafístula, perguntei:

– Entendi 30...

– Afirmativo – respondeu Eliseu. – É 30... e continua se aproximando em radial

100...138. O radar estima sua posição em 10 milhas. Se ele não mudar de rumo,

logo você o verá...

No entanto, por mais que olhasse, não conseguia distingui-lo. Foi então que, ao

levantar os olhos para as estrelas, percebi outro estranho fenômeno: a ramagem

da corpulenta árvore atrás da qual eu me ocultava havia ficado subitamente

imóvel. O vento cessara. Não vi movimento algum nas copas das oliveiras, nem nas

moitas que nos rodeavam. Os cabelos de Jesus já não se moviam.

Um tanto alarmado, perguntei a Eliseu sobre a velocidade e a direção do vento...

– A 40 mil pés, 120 graus139 – respondeu meu irmão. – Mas espere... No nível

10 desapareceu...! Não entendo...

De repente, à minha esquerda (aproximadamente no rumo leste), distingui um

ponto de luz que se deslocava sobre o cume do monte das Oliveiras. Vinha

diretamente para nossa posição e com uma trajetória que, à primeira vista,

pareceu-me horizontal em relação ao solo.

Atônito e meio gaguejando, pressionei o ouvido direito:

– Eliseu...! Estou vendo...! Às nove da minha posição!140 Traz rumo leste... Mas,

por todos os diabos, que é isso?

A resposta do módulo serviria para confirmar que eu não estava sendo vítima

de uma alucinação...

– Afirmativo – exclamou Eliseu, tão surpreso quanto eu. – A tela de altura

continua detectando-o no nível 10... Agora acaba de sobrevoar o “berço”!... Está

“colimado”...141 Velocidade? É incrível, não chega às 60 milhas por hora... Mas o

que acontece?

A comunicação voltou a se interromper. Foram segundos eternos... Entretanto,

aquela “luz” havia alcançado a nossa vertical. E estacionara!

– Jasão! – retomou por fim o companheiro –, você está me recebendo?

– Afirmativo – respondi. – Nós o temos sobre nossas cabeças...

– Jasão, algo está ocorrendo no radar. Essa “coisa” está me bloqueando!... 142

Está baixando de nível?

– Negativo – respondi, sem perder de vista a “luz”. – Parece que está

estacionário.

Mal eu havia terminado de transmitir essas palavras a Eliseu quando, em

décimos de segundo, a “luz” efetuou uma queda livre, imobilizando-se talvez a

cinquenta ou cem metros sobre a clareira. Foi tudo tão vertiginoso que não tive

tempo para nada. Fiquei paralisado. E, como eu, João Marcos e – suponho – todos

os que estavam ao redor do Mestre. Eu continuava absolutamente consciente: via,

escutava, mas não conseguia mover os músculos. Meu aparelho locomotor não

obedecia aos impulsos do meu cérebro e da minha vontade. Era inútil forçá-los. A

proximidade daquela “luz” circular, de um branco superior ao da solda autógena e

potentíssima, havia nos imobilizado. Durante os segundos que aquilo durou, pude

ouvir a voz de meu companheiro, que, do módulo, extremamente preocupado, não

fazia outra coisa senão me chamar... Mas, como já disse, apesar de meus esforços,

eu não conseguia articular uma só palavra.

Quase ao mesmo tempo que aquela massa luminosa – de mais de cinquenta

metros de diâmetro – pairava em estado estacionário sobre o lugar, uma espécie

de “cilindro” luminoso partiu do centro do “disco”, iluminando Jesus e tudo o que o

circundava, num raio de cerca de cinco ou seis metros. O Mestre, com o rosto

erguido, não parecia alarmado. E continuou de joelhos...

Minha confusão não tinha limites. Como era possível que o Mestre não se sentisse aturdido e atemorizado como eu?

Aquele medo que me havia invadido era compartilhado plenamente por meu

jovem companheiro, a julgar pela postura em que havia permanecido. A fulminante

descida da “luz” havia feito o menino levar os braços sobre a cabeça, em um

movimento de reflexo para se proteger. E assim ele continuou, com o corpo

encolhido e o rosto apontado para a massa luminosa...

Não consigo entender como tinha chegado até ali, mas, quase no mesmo

instante em que o “cilindro” de luz branca tocou a clareira, uma figura humana –,

pelo menos, foi o que me pareceu – surgiu sobre a laje de pedra e se aproximou

imediatamente de Jesus. Estava de costas para mim e, certamente, apesar da luz

ofuscante que inundava a área, sua estrutura física tinha de ser sólida e

consistente. Uma prova disso é que, ao chegar à altura do Mestre, ocultou-o com

seu corpo.

Foi o pavor que possivelmente aguçou ainda mais os poucos sentidos que eu

ainda controlava. E toda minha atenção foi polarizada pela figura daquele ser. Era

muito alto. Muito mais do que Jesus. Talvez tivesse mais de dois metros. Não se

vestia como nós. Suas vestes lembraram-me a dos pilotos de combate da USAF,

ainda que muito mais justa e de brilho intensamente metálico. (Se bem que essa

sensação bem poderia ter sido causada pela aguda claridade reinante.)

O uniforme parecia ser de uma só peça, com um cinto relativamente largo e da

mesma tonalidade – semelhante à do alumínio – que a do resto do traje. As calças

(isso me chamou muito a atenção) estavam recolhidas no interior de botas de meio

cano e de cor dourada. Quanto à cabeça, só pude ver a região occipital e a nuca.

Tinha cabelos brancos, lisos e abundantes, caindo sobre os ombros. Sem dúvida

tratava-se de indivíduo musculoso e de ombros largos.

Embora o silêncio estabelecido fosse total, não consegui ouvir palavra alguma.

Ignoro se houve conversação. Só o que pude perceber foi um movimento do braço

direito daquele ser dirigido para Jesus, que provavelmente ainda continuava de

joelhos...

Não fosse por Eliseu e não teria sido possível calcular o tempo transcorrido.

Segundo meu companheiro, aquele “lapso” durante o qual a conexão auditiva com

o módulo ficou “em branco” durou quatro ou cinco minutos aproximadamente. Ao

final desse tempo, a figura daquele ser e o “cilindro” luminoso se extinguiram

instantaneamente. E eu disse bem: instantaneamente! Não houve – ou pelo menos

não pude ver – a ascensão daquele ser até o disco luminoso. Tampouco eu o vi

afastando-se ou desaparecendo no olival... Simplesmente não tenho explicação.

Imediatamente, a “luz” realizou suaves balanços e se elevou na vertical com uma

aceleração que me causou vertigens. Em um abrir e fechar de olhos (suponho que

eu tivesse podido pestanejar), o objeto converteu-se em um ponto insignificante e

perdeu-se no infinito. Quase ao mesmo tempo, tanto João Marcos como eu

recuperamos nossa mobilidade. E o vento voltou a soprar com força entre as

ramagens das árvores, enquanto as cabras fechadas na gruta balavam lastimosas...

– Jasão!... Você está me ouvindo? Jasão! Por Deus!... responda!...

A voz de Eliseu continuava repicando em meus ouvidos.

Respirei fundo, com todas as minhas forças, procurando acalmar os nervos.

– A-fir-ma-ti-vo... – respondi-lhe com o pouco que me restava de voz.

– Roger!... Enfim!... Você está bem, Jasão? Que aconteceu?

Tranquilizei meu companheiro como pude, dizendo-lhe que procuraria explicar

melhor depois. A verdade é que minha confusão havia aumentado. Por um

instante, pensei que tudo havia sido um pesadelo. Mas não. Ao dirigir meus olhos

para o Mestre, minha perplexidade aumentou: a camada sanguinolenta e os filetes

que cobriam sua face, seu pescoço e suas mãos haviam desaparecido! Seu

semblante, embora pálido e marcado, não apresentava sinal algum do recente

fenômeno da “hematoidrose”. Era impossível que Jesus tivesse tido tempo de

chegar a algum dos recipientes do acampamento que continham água e lavado o

rosto, o pescoço e as mãos. Além disso, aceitando essa hipótese, eu o teria visto

afastar-se e, certamente, regressar para junto da rocha. Pelo contrário, eu estou

seguro absolutamente seguro – de que o Mestre não havia abandonado em

nenhum momento sua postura: ajoelhado na clareira.

João Marcos, incompreensivelmente, continuava agachado detrás do muro de

pedra, como se nada houvesse ocorrido. Mais tarde, quando o interroguei sobre o

acontecido naquela noite no horto, o menino respondeu:

“Sim – disse-me sem dar excessiva importância ao fato, como se já tivesse sido

testemunha de outros iguais –, o Pai fez descer um anjo... Claro que o vi...”

O Galileu, muito mais sereno, levantou novamente os olhos para o céu e sorriu.

Depois, com passo firme, levantou-se e caminhou até a orla do olival. Não sei

como, mas a súbita presença daquele “anjo”, daquele “astronauta”, “fantasma” ou

o que quer que fosse, havia influído decisivamente no ânimo do Filho de Homem. A

expressão do evangelista – “e um anjo o reconfortou” – não poderia ter sido mais

apropriada.

O Nazareno deve ter encontrado seus discípulos novamente dormindo. E depois

de fitá-los, voltou para onde estava e ajoelhou-se pela terceira vez na borda da

pedra. Era assombroso. Parecia que nenhum dos discípulos tinha percebido o que

ocorrera. Provavelmente estavam dormindo.

Ali, já com seu habitual tom de voz e sempre com o olhar para o alto, o Mestre

disse:

– Pai, vês meus apóstolos dormindo... Estende sobre eles tua misericórdia. Na

verdade, o Espírito está pronto, mas a carne é débil...

Jesus ficou em silêncio e inclinou a cabeça para baixo, com os olhos fechados.

Depois, em poucos segundos, ergueu o rosto novamente para o céu, exclamando:

– E agora, meu Pai, se este cálice não pode ser afastado... dele beberei. Que se

faça a tua vontade e não a minha...

Devia ser quase uma da madrugada daquela sexta-feira, 7 de abril, quando o

gigante – depois de permanecer alguns minutos em total recolhimento – levantou-se e se aproximou do ponto onde seus discípulos haviam caído em um sono

profundo. Mas desta vez o Galileu não voltou à clareira. Despertou seus homens e

pouco depois os quatro entraram no olival, perdendo-se de vista.

Tenho meditado muito sobre aquelas estranhas palavras de Jesus. Que quis

dizer quando falou de “afastar o cálice”? Estaria aludindo à possibilidade de evitar

os suplícios e sua própria morte? Durante algum tempo acreditei nisso. Mas, depois

de testemunhar sua horrenda Paixão e seu incrível comportamento, outra

interpretação – mais sutil, se isso for possível – veio substituir minha hipótese

anterior. No horto comecei a intuir a grande “tragédia” do Mestre. Não fora o medo

que provocara sua profunda angústia e o posterior suor sanguinolento. Ele sabia o

que lhe reservava o destino e, como demonstrou de sobra, enfrentou a dor aberta

e valentemente. Mas, afora essas torturas, o Mestre sabia que chegariam também

as humilhações. Foi a “contemplação” desses já iminentes vexames por parte das

criaturas que Ele mesmo havia criado que, provavelmente, lançou-o em um agudo

estado de prostração. Se realmente era Filho de Deus, a simples observação – e o

padecimento mais ainda – da barbárie e do primitivismo de “seus homens” para

com Ele tinha de ser insuportável. Guardadas as proporções, imagino o brutal

sofrimento moral que poderia significar para um pai ser esbofeteado, insultado,

injuriado e ferido pelos próprios filhos...

João Marcos e eu nos apressamos a saltar o muro que nos separava da clareira

onde havia ocorrido a tríplice oração do horto e com igual prudência penetramos no

olival, fazendo o mesmo caminho de Jesus e seus homens. À medida que nos

aproximávamos da esplanada do acampamento, um pensamento – talvez tão

absurdo quanto inoportuno – continuava martelando meu cérebro. Eu não

conseguia apagar da mente as imagens daquele ser de mais de dois metros e do

objeto – porque “aquilo” tinha de ser um veículo tripulado – que tão

eloquentemente desafiara a lei da gravidade. Que espécie de artefato seria

aquele? Que tecnologia poderia efetuar aquelas acelerações e desacelerações?143

E, sobretudo, que relação tudo aquilo tinha com Jesus e a Divindade?

Eu teria dado dez anos de minha vida para registrar a conversa entre o Mestre

e aquele misterioso ser. Então eu maldisse minha má estrela que não me permitira

contemplar os rostos de ambos os personagens e tentar, pelo menos, interpretar o

ocorrido entre eles. Desde então uma aguda incerteza se aninhou em meu coração:

poderia ter sido um anjo? Se realmente era um anjo, quão longe da verdade estão

os teólogos!

Quando, enfim, chegamos ao acampamento, tudo continuava mais ou menos

normal. Os discípulos do Mestre, profundamente adormecidos, permaneciam

alheios a tudo que acabava de acontecer a poucos metros das tendas. E digo que

tudo continuava mais ou menos normal porque, coincidindo com nosso retorno,

dois dos agentes secretos de Davi Zebedeu entravam também no horto. Ofegantes

e excitados, perguntaram por seu “chefe”. Foi João Marcos quem lhes indicou o

lugar em que ele montava guarda.

O Mestre, enquanto isso, havia aconselhado Pedro, João e Tiago a irem dormir.

Mas os apóstolos, talvez refeitos pelo curto, mas profundo período de sono de que

haviam desfrutado nas proximidades da gruta, e cada vez mais nervosos diante da

súbita chegada dos mensageiros, não capitularam. O ardoroso Pedro, sem poder

resistir à tentação, interrogou um dos agentes de Zebedeu. E o homem,

encurralado pelas perguntas de Simão, acabou por informar-lhe que um pelotão de

sicários do Sinédrio e uma escolta romana se dirigiam para ali. Pedro retrocedeu

com o rosto decomposto. E quando tentou entrar nas tendas para despertar seus

companheiros, Jesus se interpôs em seu caminho e lhe ordenou que ficasse quieto.

A recomendação do Galileu foi tão categórica que os discípulos ficaram como que

cravados no solo.

Os gregos, que acampavam ao ar livre, também foram despertados pela

precipitada chegada dos agentes de Zebedeu e não tardaram em rodear Jesus e os

três apóstolos, interrogando-os. Mas o Mestre, que havia recobrado sua calma

habitual, pediu-lhes que se acalmassem e voltassem para junto do moinho de

azeite. Nenhum dos presentes se moveu.

O Nazareno compreendeu a atitude de seus homens e, sem mais palavras,

afastou-se do grupo, abandonando o acampamento em grandes passadas.

Durante alguns segundos, os gregos e os apóstolos hesitaram. E mais uma vez

foi o jovem João Marcos quem tomou a iniciativa. Num ímpeto, escapou do horto e

desapareceu colina abaixo.

Aquela inesperada reação de Jesus, saindo do horto de Getsêmani,

surpreendeu-me. Segundo os Evangelhos canônicos, fonte informativa primordial, a

prisão deveria ocorrer ali mesmo. Todavia, o Nazareno acabava de abandonar

Getsêmani... Sem pensar duas vezes, segui os passos de João Marcos, sem me

preocupar com os três apóstolos e os gregos, que haviam ficado imóveis no centro

do acampamento.

Tanto Jesus como João Marcos haviam tomado o conhecido caminho que corria

pelo lado ocidental do monte das Oliveiras e que me havia levado, em várias

ocasiões, até a pontezinha sobre a depressão do leito, então seco, do Cedron.

Nesse momento, chamaram-me a atenção, justamente do outro lado da ponte,

numerosas tochas em movimento. Olhei mais detidamente e observei que elas

tomavam a direção do monte. Deviam ser os homens armados de quem o

mensageiro de Zebedeu havia falado. Perturbado, continuei a descida até que, em

uma das curvas do caminho, vi Marcos – seria melhor se dissesse que apenas

distingui seu lençol branco – refugiando-se a toda a pressa em uma minúscula

barraca de madeira que se erguia ao pé do caminho. Parei hesitante. Mas minhas

surpresas naquela madrugada de sexta-feira mal haviam começado.

Junto à barraca, vislumbrei outra cuba – similar à construída na entrada do

acampamento de Getsêmani –, que devia fazer parte de um dos muitos lagares de

azeite que havia no monte das Oliveiras. O Mestre tinha se sentado sobre a mureta

de pedra da prensa, a uns dois passos da vereda e exatamente na direção do cada vez mais próximo e oscilante enxame de luzes amareladas.

Em um primeiro momento, pensei em me ocultar também na barraca. Mas

descartei a ideia. Eu ignorava completamente o curso que os acontecimentos

poderiam tomar; então preferi manter-me em um lugar mais aberto. De ambos os

lados do caminho estendiam-se diversas plantações de oliveiras. Aquele poderia

ser um bom observatório. E rapidamente abandonei o caminho, entrando no escuro

olival situado na margem esquerda. Escolhi uma das árvores mais grossas e a

galguei até uma boa altura, camuflando-me entre a ramagem. Dali até onde Jesus

se sentara não havia mais que cinco ou seis metros. Mas, de repente, fui assaltado

por uma dúvida que quase me levou a descer da oliveira. E se o Galileu regressasse

ao acampamento? Nesse caso, eu não teria outro remédio senão arriscar-me e

seguir a tropa...

Se não estava equivocado, a distância percorrida por Jesus, da porta de

entrada do horto de Simão, o “leproso”, até aquela curva do serpenteante caminho,

havia sido de 100 ou 150 passos. E ao vê-lo ali, tão estranhamente sereno,

comecei a compreender. Não era preciso muita argúcia para concluir que seu

afastamento do ponto onde estavam seus homens só podia ser motivado pelo

desejo de que seu encontro com Judas e com a polícia do Sinédrio não afetasse os

discípulos. Ele sabia que muitos deles e os gregos dispunham de armas e,

provavelmente, quis evitar o mais do que certo risco de um choque armado. Se não

me falhava a memória, no acampamento devia haver, naquele momento, por volta

de sessenta homens. Qualquer um deles – Pedro ou Simão, o Zelote, por exemplo

– que sacasse sua espada poderia provocar um sangrento combate. Se a versão do

agente secreto de Zebedeu era correta, aos levitas do Templo era preciso somar a

patrulha romana. E isso, indubitavelmente, complicava as coisas. Os mercenários

da fortaleza Antônia não se distinguiam exatamente pela delicadeza... Que se

podia esperar, então, daqueles aguerridos soldados, no caso de um confronto? O

mais provável é que muitos dos discípulos do Mestre acabassem feridos ou mortos,

ou, na melhor das hipóteses, aprisionados. E Jesus, a julgar por suas orações no

olival, queria evitar a qualquer custo que isso ocorresse. Que seria de sua missão e

da futura propagação do Evangelho do reino se aqueles diretamente encarregados

da pregação caíssem em Getsêmani naquela noite?

As tochas apareciam e desapareciam entre as árvores, mas se aproximavam

cada vez mais. Pedi a Eliseu que me informasse a hora certa. Era uma e quinze da

madrugada. A lua continuava brilhando com todo o seu esplendor, proporcionando

uma visibilidade mais que aceitável.

De repente, quando o cacho de tochas estava ainda a uma certa distância do

moinho sobre o qual Jesus aguardava, eu vi surgir na vereda um indivíduo que

corria em direção ao acampamento. Jesus, ao vê-lo, ficou de pé e postou-se no

centro do caminho. O apressado caminhante – que num primeiro momento não

consegui identificar – logo viu a figura alta do Galileu, com sua túnica branca

banhada pelo luar. A inesperada presença do Mestre, cortando-lhe a passagem, deve tê-lo desconcertado, e ele parou. Mas, depois de alguns segundos de

indecisão, prosseguiu sua marcha, desta vez sem muita pressa. O misterioso

personagem, envolto em um manto escuro, devia estar a uns trinta ou quarenta

metros do rabi quando irrompeu no caminho o pelotão que trazia as tochas. Vinha

em desordem, embora formando uma longa fileira. À primeira vista, o número de

indivíduos podia ser calculado em meia centena.

À medida que se aproximavam, pude distinguir entre os homens da frente cerca

de trinta soldados romanos. Vestiam o mesmo uniforme que eu havia visto entre os

soldados da torre Antônia e estavam armados de espadas, algumas lanças e

escudos. Imediatamente atrás – quase misturados aos primeiros – vinha um tropel

de quarenta ou cinquenta policiais do Templo, na maioria armados de bastões e

maças com cravos.

Minha surpresa chegou ao máximo quando, à minha direita, surgiram outras

tochas, espalhadas entre as oliveiras. Não eram muitas: talvez uma dezena. Porém

ziguezagueavam a grande velocidade, descendo para o ponto onde estava Jesus.

Pela direção delas, supus que se tratava dos discípulos. E então um calafrio voltou

a me percorrer o corpo. Se os bandos chegassem a se enfrentar, quem sabe o que

poderia ocorrer...

O grupo da minha esquerda – o que procedia de Jerusalém – continuou

avançando em silêncio até parar a pouca distância do Galileu.

Por sua vez, os que acabavam de aparecer pela direita concentraram-se na

estrada e, uma vez reagrupados, continuaram descendo, mas agora muito

lentamente.

Quando o pelotão que tinha por missão prender Jesus parou, os seguidores do

Mestre fizeram o mesmo. Mas estes últimos estavam bem mais perto dele. Talvez

a 20 ou 25 passos.

Pela luz dos fachos distingui Pedro na primeira fila. E com ele João, Tiago e uns

vinte gregos. No entanto, por mais que forçasse a vista, não vi Simão, o Zelote,

tampouco os demais apóstolos e discípulos. Aquilo significava que não haviam sido

despertados.

Durante minutos que me pareceram intermináveis, só o vento sibilou entre as

oliveiras, agitando as chamas das tochas de ambos os grupos.

Jesus, no meio, seguia atento àquele homem que se havia destacado da turba

procedente da Cidade Santa.

Quando faltavam apenas alguns metros para que o personagem chegasse à

altura do rabi, a lua ressaltou a palidez de seu rosto. Era Judas!

Mas por que se adiantara à tropa?

Aquela incógnita seria resolvida na manhã seguinte, pouco antes do fatal e

inesperado acontecimento que provocaria a morte de Judas...

(Uma vez mais, Judas havia maquinado seus planos com tanta astúcia quanto

maldade.)

Por fim, Jesus reagiu. Com grande aprumo caminhou para Judas, mas, ao chegar perto dele, desviou-se para a orla esquerda do caminho, esquivando-se do

traidor, que ficou perplexo e agitado. O Mestre prosseguiu na direção dos soldados

e parou a poucos metros deles. E dali, com voz forte, perguntou a quem parecia ser

o chefe:

– Que buscas aqui?

O soldado romano – que, a julgar pelo seu elmo com um penacho de plumas

vermelhas e por sua espada (no flanco esquerdo), devia ser um oficial – adiantou-

se e respondeu em grego:

– Jesus de Nazaré!

O Mestre avançou então para o presumível centurião e, com grande solenidade,

exclamou:

– Sou eu!...

Ao ouvir as palavras serenas daquele gigante, os cinco ou seis romanos da

primeira fila retrocederam bruscamente. Esse súbito movimento fez que alguns

deles tropeçassem nos companheiros da retaguarda, provocando uma série de

grotescas quedas. Entre os que caíram ao chão, havia vários que conduziam

tochas. E estas, ao se esparramarem sobre os caídos, contribuíram para multiplicar

a confusão. O oficial, indignado, voltou até a primeira fila e começou a golpear os

torpes e vacilantes soldados com o bastão que levava na mão direita.

(Aquela cena trouxe-me à memória o relato evangélico de João, único registro

que ficou sobre essa queda generalizada da tropa encarregada de prender o

Mestre. Mas, longe do caráter milagroso que alguns teólogos e exegetas têm

desejado ver nesse episódio, a verdade única é que aqueles homens foram ao chão

em consequência de um movimento mal calculado. Outro assunto é a razão pela

qual eles teriam retrocedido. Na minha opinião, é possível que tivessem sentido

medo. Quase todos haviam visto Jesus pregar na esplanada do Templo e era muito

provável que soubessem de seus prodígios e de seu poder. Se juntarmos isso à

valentia com que o Galileu se apresentou diante deles, talvez tenhamos a

resposta...)

Enquanto os infantes romanos se levantavam e recompunham sua maltratada

dignidade, Judas – cujos planos não estavam saindo como havia previsto –

aproximou-se do Nazareno e o abraçou. E, rápida e ostensivamente – de forma que

todos pudéssemos vê-lo –, ficou na ponta das sandálias e deu um beijo na fronte

de Jesus, enquanto dizia:

– Saúde, Mestre e Guia!

E o Galileu, sem perder a calma, respondeu-lhe:

– Amigo...! Não basta fazer isso e ainda queres trair o Filho do Homem com um

beijo?

Antes que Judas pudesse reagir, o Mestre safou-se do abraço do traidor e

novamente encarou o oficial romano e o resto da tropa.

– A quem procuram?

– Jesus de Nazaré! – repetiu o oficial.

– Já disse que sou eu... Portanto – prosseguiu Jesus –, se procuras por mim,

deixa que os demais sigam cada um o seu caminho... Estou disposto a te

acompanhar.

O oficial achou razoável o pedido do Nazareno. Colocou-se ao seu lado, mas,

quando se dispunha a regressar a Jerusalém, um dos guardiães do Sinédrio saiu do

pelotão, lançando-se sobre Jesus. Levava em suas mãos uma corda. E, apesar de o

chefe da patrulha não ter dado tal ordem, aquele sírio, que respondia pelo nome de

Malchus ou Malco, apressou-se a agarrar os braços do rabi e atá-los pelas costas.

Ao ver isso, o oficial levantou seu bastão, disposto sem dúvida a espancar o

intruso. Mas a fulminante entrada em ação de Pedro e seus companheiros

prejudicaria os propósitos do responsável pela prisão.

De fato, com vertiginosa rapidez, Pedro e os demais, indignados pela ação de

Malco, precipitaram-se sobre ele. Simão, Tiago e alguns dos gregos já haviam

sacado suas espadas e, lançando todo tipo de imprecações, prepararam-se para

atacar.

Antes que a escolta romana tivesse tempo de proteger o guardião do Sinédrio,

Pedro, com a espada no alto, caiu sobre o aterrorizado homem, lançando-lhe um

violento golpe de mão esquerda, que lhe teria aberto o crânio se, no último

segundo, ele não tivesse se atirado para o lado. O fio da espada, todavia, ainda

chegou a roçar sua face direita, ferindo-lhe a orelha e o ombro.

Jesus levantou seu braço para Pedro e com grande severidade recriminou seu

ato:

– Pedro, embainhe sua espada...! Quem quer que desembainhe a espada

morrerá pela espada. Não compreendeis que é vontade de meu Pai que eu beba

esse cálice? Não sabeis que agora mesmo eu poderia mandar dezenas de legiões

de anjos que me libertariam das mãos dos homens?

Os discípulos, especialmente Pedro, ficaram aturdidos. Não entendiam as

palavras do Mestre e muito menos sua passividade diante daqueles inimigos.

Malco continuava se retorcendo e uivando de dor quando Jesus se inclinou

sobre ele. Com grande firmeza, retirou a mão do sírio da orelha ensanguentada e

colocou sua destra sobre a ferida. Em questão de segundos os gemidos diminuíram

e foram ficando cada vez mais espaçados e débeis. Depois, o rabi repetiu a

operação no ombro.

Do alto da árvore, não pude verificar que tipo de cura o Galileu realizou.

Contudo, o que estava claro é que havia detido a copiosa hemorragia e

praticamente tinha “congelado” a dor daquele desgraçado. (No transcurso das duas

intensas jornadas seguintes e antes de meu regresso definitivo ao módulo, procurei

por todos os meios localizar Malco e examinar o talho que Pedro lhe havia feito. No

entanto, meus esforços foram inúteis.)

A belicosa atitude de Pedro e de seus companheiros só serviu para piorar as

coisas. O oficial romano ignorou as pacíficas palavras e o gesto humanitário de

Jesus para com Malco e ordenou a sua tropa que sujeitassem o Nazareno, amarrando seus pulsos nas costas.

Enquanto o amarravam, o Mestre, profundamente magoado por aquela

humilhação, dirigiu-se aos levitas e soldados que, com espadas e bastões

preparados para repelir qualquer novo ataque, contemplavam a cena:

– Por que sacais vossas espadas e bastões contra mim, como se eu fosse um

ladrão? Todos os dias tenho estado convosco no Templo, educando e ensinando

publicamente o povo, sem que nada fizésseis para deter-me...

Ninguém, porém, respondeu-lhe.

Uma vez imobilizado o Mestre com grossas cordas, o oficial dirigiu-se a seus

homens, ordenando que prendessem também aquele “grupo de fanáticos”,

segundo suas próprias palavras. Mas a patrulha não reagiu a tempo e Pedro e seus

companheiros fugiram, lançando suas tochas sobre os romanos. Essa nova

indecisão da escolta foi mais do que suficiente para que a dúzia de seguidores do

Mestre se lançasse ladeira acima, entre os olivais. Quase todos os soldados saíram

em sua perseguição, mas os discípulos, bons conhecedores do terreno e com

pânico suficientemente grande para lhes dar asas, não tardaram a desaparecer. A

prova é que, depois de cinco ou dez minutos, a tropa voltou ao caminho e iniciou o

retorno a Jerusalém. O Mestre, fortemente escoltado, logo desapareceu com o

grupo em uma curva do caminho.

Faltavam dez minutos para as duas da madrugada.

 

O vozerio foi se dissipando. E ali fiquei eu, com o coração oprimido, imerso num

silêncio de morte. Mas era preciso continuar minha missão. Assim, procurando não

fazer ruído, desci da oliveira. Minhas ideias, reconheço, não estavam muito claras.

Por alguns segundos, e ainda ao pé da árvore, hesitei. Que caminho devia tomar?

Voltar ao acampamento e juntar-me ao que tivesse restado do grupo de discípulos

e gregos não me pareceu ser o melhor. Além disso, quem sabe onde teriam ido

parar? Era muito mais lógico seguir as pegadas do pelotão de soldados e policiais

do Templo. Mas como chegar até eles sem levantar suspeitas e, o que era pior,

sem que me prendessem?

Quando estava pronto para deixar o olival e caminhar até a Cidade Santa, as

silhuetas de dois mercenários que haviam ficado para trás apareceram

inesperadamente entre as oliveiras que se erguiam do outro lado do caminho.

Colei-me como pude a um dos troncos e esperei que passassem. Se descobrissem

minha presença, eu ficaria em situação delicada. Mas, no momento em que os

soldados entravam na vereda, João Marcos, que também havia ficado escondido

durante todo o acontecimento, assomou silenciosamente à porta da barraca. Aquilo

foi sua perdição. Os romanos viram seu ostentoso lençol branco e precipitaram-se

sobre o menino. Desta vez a reação dos soldados foi tão rápida que Marcos não

teve tempo de fugir.

E um deles agarrou o lençol, enquanto o segundo, às suas costas, também com

rapidez, cobria a retaguarda do companheiro. Mas o ágil Marcos não se deu por

vencido. E sem pensar duas vezes, desvencilhou-se do lençol, fugindo nu para a mata de onde haviam irrompido os inoportunos. Aquela manobra do jovem pegou

de surpresa os romanos, que, ao retomarem a perseguição, já haviam perdido

alguns segundos preciosos.

O que havia conseguido apanhá-lo atirou o lençol ao chão e, rogando pragas,

desembainhou a espada e iniciou uma atropelada carreira. O companheiro fez o

mesmo, ingressando de novo no bosque. Mas a má sorte parecia acompanhar

naquela noite a tropa romana, e o segundo soldado, tropeçando em uma das raízes

do olival, caiu de bruços. Como consequência, o elmo saltou de sua cabeça e rolou

pela ladeira. Porém o soldado estava tão enfurecido e cego no afã de capturar o

menino, que abandonou seu elmo.

Sabia que poderia ser arriscado, mas deixando-me levar pela intuição,

abandonei meu esconderijo e recolhi o elmo. Depois procurei acalmar-me e

esperei. Era um elmo de couro, sem nenhum tipo de adorno ou distintivo.

Não tive de esperar muito tempo. Em poucos minutos regressavam à orla do

olival. Empenhados na busca do elmo, não perceberam minha presença. Então,

levantando a voz e o elmo, dirigi-me a eles em grego.

Ao me verem, os soldados não reagiram. E aos poucos foram se aproximando.

Um suor frio começou a empapar minha túnica. Se aquele estratagema não desse

certo, minha segurança poderia ficar seriamente ameaçada.

O que havia perdido o elmo chegou até mim e, parando a cerca de dois metros,

inspecionou-me da cabeça aos pés. Estava suarento e ofegante. O segundo não

tardou em colocar-se a seu lado.

Tentei sorrir, mas, francamente, não sei se consegui. O certo é que, procurando

disfarçar o forte tremor de minhas mãos, estendi-lhe o elmo. O romano apressou-

se a apanhá-lo e o arrebatou com violência. Em seguida, colocou-o na cabeça.

– Quem és tu? – perguntou, por fim, o segundo soldado.

– Chamo-me Jasão – respondi, com o coração apertado. – Sou grego e dirijo-

me para Jerusalém...

E de repente lembrei-me da autorização que me havia dado o governador

romano para facilitar meu ingresso na torre Antônia. Sem hesitação, apanhei a

bolsa de borracha e mostrei-lhes o salvo-conduto, explicando que naquela mesma

manhã de sexta-feira eu deveria visitar Pôncio Pilatos.

Os soldados abriram o rolo, mas duvido que soubessem lê-lo. Todavia, devem

ter pelo menos identificado a assinatura de Pilatos, porque o comportamento deles

ficou mais acessível e condescendente.

– De onde vens?

– De Betânia...

– Então – tornou aquele que falava grego –, não sabes o que ocorreu aqui?

– Aqui? – perguntei, adotando um tom de total ignorância –

... Não. Que foi que ocorreu?

– Não tem importância – respondeu o mercenário. – Nós também vamos para

Jerusalém. Se desejares, poderemos te escoltar...

Fiquei encantado com a proposta, mas, quando tudo parecia solucionado, o

soldado que havia perdido o elmo tomou a lança do companheiro e, sem mais,

inclinou-a sobre meu peito. Fiquei paralisado... Mas, ao olhar de novo o infante,

aquele rosto me pareceu familiar. O soldado acabou sorrindo. “Claro!” – recordei

imediatamente. “Aquele romano era a sentinela da torre Antônia... Ele é que me

Continuar: parte 2 de 11