Cavalo de Tróia 1: Jerusalém

J. J. Benítez · Capítulo 18 de 19

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Cavalo de Tróia 1: Jerusalém

8 de abril, sábado

 

Pouco antes do amanhecer, Eliseu me tirou de um profundo sono, entremeado

de pesadelos, nos quais, curiosamente, misturavam-se as mais absurdas situações

e vivências, tanto no “tempo” real em que eu me movia quanto em meu verdadeiro

século.

As condições meteorológicas haviam mudado. O dia prometia serenidade:

vento calmo, excelente visibilidade, baixa umidade relativa e temperatura de 10ºC,

em ascensão. Do módulo, os radares de longo alcance desenhavam com toda a

nitidez os perfis do árido Negev.

João Marcos não tardou a se apresentar. Trazia uma grande caneca de leite de

cabra e um pouco de pão, feito durante a manhã de sexta. Meu esgotamento havia

desaparecido; praticamente devorei o frugal desjejum.

Com as primeiras luzes e o som das trombetas do Santuário anunciando o novo

dia, meu jovem amigo e eu cruzamos as solitárias ruas de Jerusalém. O habitual

ruído das moendas havia desaparecido. Ninguém parecia ter pressa de se levantar.

Por um lado, fiquei contente. Se o corpo de Judas continuava entre as rochas, eu

preferia que ninguém nos visse junto dele. Era muito mais seguro.

Uma vez fora das muralhas, o menino me conduziu para o oeste, seguindo

quase paralelamente ao muro meridional da cidade. A poucos metros da porta da

Fonte, pela qual havíamos saído, o terreno mudou. Entramos no que os judeus

chamavam de a Geena, ou “inferno”, suponho que pela topografia, uma depressão,

e pelas numerosas fogueiras que se levantavam aqui e ali, numa permanente

queima de lixo. De fato, à medida que caminhávamos, observei que aquela tétrica

paragem havia sido convertida em uma imensa esterqueira em que perambulavam

cães vadios e ratazanas enormes como lebres.

João Marcos parou. Observou a paisagem e, em poucos segundos, retomou a

marcha. Aos cinco minutos de caminhada, a Geena se converteu em um labirinto

de penhascos, escarpas estéreis e pequenas, agudos precipícios. De acordo com as

marcas de nossos mapas, aquele extremo sul de Jerusalém oscilava entre 612 e

630 metros de altitude, nas proximidades do portão da Fonte, e chegava a 685

metros nas cercanias da porta dos Essênios. Entre esses dois pontos, o perfil do

terreno sofria bruscas variações, com desníveis de vinte, trinta e até quarenta

metros.

Ao ir vencendo, passo a passo, aquele “inferno”, supus que se Iscariotes tivesse

caído de alguma daquelas escarpas, o mais provável seria ter sido destroçado

sobre as cortantes arestas das rochas.

Por fim Marcos parou. Estávamos a uns duzentos metros, em linha reta, da

muralha, sobre um daqueles descalvados promontórios. Marcos indicou-me uma figueira jovem, nascida por milagre entre as irregularidades e fissuras da rocha e

que, precisamente como o menino me havia explicado, crescia com a metade da

sua ramagem voltada para oeste, sobre o vazio.

Aproximei-me devagar da borda do precipício. Inquieto e trêmulo, o rapaz

agarrou-se a meu braço. No início, nada distingui de anormal. O talude apresentava

uma inclinação quase vertical, de uns 35 ou 40 metros. Mas a frouxa claridade da

alvorada não permitia distinguir o fundo com precisão.

Depois de alguns minutos de intensa busca, João Marcos deu um grito que

quase me fez perder o equilíbrio.

– Ali!... Vê, está ali!

Segui a direção de seu dedo e, de fato, confundido entre as pedras, vi um vulto

leitoso, imóvel, que do meu ponto de observação parecia um homem envolto em

algo como uma túnica ou manta branca.

Ordenei a João que não se movesse e escolhi um maciço para iniciar a descida.

Depois de não poucas voltas, escorregões e sustos entre as ardilosas paredes do

precipício, cheguei ao fundo da garganta, a pouco mais de quatro metros do corpo.

Vi que ele não movia um músculo sequer. Estava desmaiado ou morto. Era um

homem, com certeza, vestido com uma túnica cor de marfim, igual à que Judas

usava. Estava com o rosto para baixo, com a perna esquerda violentamente

flexionada sob o abdome.

Quando, afinal, decidi avançar, um vulto negro, grande e peludo como um

coelho saiu de sob o corpo, fugindo para as sarças próximas. Parei. Um calafrio

percorreu minhas entranhas. Os ratos haviam começado a devorá-lo...

Apressei-me a virar o corpo e, então, o rosto imberbe, pontiagudo e pálido de

Iscariotes surgiu à minha frente. Tinha um olho aberto com a expressão de espanto

em suas pupilas. O outro havia praticamente desaparecido diante das investidas

dos roedores.

Por mais que examinasse seu corpo, não encontrei sinal algum de sangue.

Apenas um finíssimo fio, já seco, brotava da comissura direita de seus lábios.

Tinha ainda o cinto preso ao pescoço. Ao examiná-lo, verifiquei que não estava

rompido. Simplesmente, como dissera João Marcos, o nó havia-se desfeito. O cinto

pressionava a garganta de Judas, mas, para minha surpresa, a conjuntiva, ou

membrana mucosa que forra o dorso das pálpebras e a zona interior do olho, não

apresentava as típicas manchas roxas dos enforcados. Afastei os cabelos finos e

negros, mas também não observei esse tipo de equimose por trás das orelhas.

A língua não estava presa entre os dentes nem apresentava a habitual

tonalidade azul, sinais característicos nos enforcados.

Se realmente tivesse ocorrido a obstrução completa de toda a irrigação e

desaguamento cerebral, o rosto de Judas estaria embotado. No entanto, seu

aspecto – apesar das quinze horas presumivelmente transcorridas desde o óbito –

era quase normal. A pupila, dilatada no início, havia começado a diminuir, entrando

na fase de miose (possivelmente a partir das nove da noite de sexta-feira).

O corpo apresentava também a lividez própria do estado post-mortem, mas,

insisto, as veias jugulares e artérias carótidas não mostravam sinais de

estrangulamento.204

Diante daquele acúmulo de provas negativas, minha impressão foi a seguinte:

Judas Iscariotes não havia morrido por enforcamento, mas em consequência direta

da queda.

Essa hipótese foi fortalecida depois que apalpei as extremidades e o resto do

corpo. As pernas e um dos braços apresentavam fraturas quádruplas e as rupturas

internas eram generalizadas.

Mas o que me acabou convencendo foi o som do crânio, quando o agitei entre

as mãos. Aquele ruído – similar ao de um “saco de nozes” – era típico das pessoas

que tinham sofrido uma queda de grande altura.

Ainda que fosse verossímil que o traidor, em seu desespero, não tivesse

ajustado o nó do cinto convenientemente, nunca pude compreender como esse

sujeito – em geral tão meticuloso – pôde cometer tal erro.

Voltei a colocar o corpo sobre as pedras e, depois de fechar seus olhos (ou o

que restava deles), permaneci alguns minutos em pé, em silêncio, contemplando

aquele desgraçado. Perguntei-me se Iscariotes, ou “homem de Carioth”, filho de

Simão, sujeito ilustre e endinheirado da Judeia, discípulo de João Batista e

atormentado pesquisador da verdade, mereceria realmente um fim tão desolador...

Regressei para junto de meu amigo e lhe confirmei a morte de Judas. João

Marcos havia recuperado o manto do renegado e lentamente voltamos para

Jerusalém.

Uma vez na cidade, pedi-lhe que me conduzisse até a casa de João Zebedeu e

que depois fizesse contato com a família de Judas. Era preciso que recolhessem os

despojos antes que os ratos e outros animais da Geena acabassem com eles.

Diligentemente, como era seu costume, o filho dos Marcos atendeu meus

pedidos.

 

João Zebedeu não me esperava, mas recebeu-me com um forte abraço.

Dispunha de uma casinha de um pavimento, muito humilde e quase vazia, na zona

norte da cidade, num bairro que, naquele tempo, começava a crescer e era

conhecido por “Beza’tha”.

À porta ardiam pequenos troncos, destinados a afugentar insetos. Cruzei o

umbral. No interior do único aposento, parcamente iluminado por uma lâmpada de

azeite, distingui quatro mulheres: Maria, a mãe de Jesus; sua irmã Miriam; Salomé,

a mãe de João; e a jovem Rute, irmã do Nazareno.

Não havia cadeiras nem tamboretes, e Zebedeu convidou-me a sentar em uma

das esteiras espalhadas sobre a terra socada que constituía o piso. Causou-me

estranheza a singular austeridade daquela casa, com um terraço de cobertura bem

leve, à base de ramos cobertos de argila, sem uma só janela ou fresta. Depois,

soube que aquela não era a residência habitual dos Zebedeu. Moravam realmente

ao norte, na Galileia.

João não me apresentou às mulheres. Não era costume e, ademais, não havia

necessidade disso. Todas as hebreias se mostravam especialmente solícitas com

Maria. Uma delas acabava de lhe oferecer uma caneca de madeira com leite. Mas a

mãe do Galileu resistia em tomá-lo. Quando meus olhos se foram acostumando à

penumbra, vi que a Senhora tinha a cabeça descoberta. Seus cabelos eram muito

mais negros do que eu havia pensado. Penteava-os com uma risca no centro,

recolhendo na nuca uma sedosa massa de cabelo. Suas olheiras, ainda mais

pronunciadas do que no momento de seu encontro com o crucificado, refletiam a

noite de vigília e sofrimento. Estava sentada sobre uma daquelas grossas

esteirinhas de palma e junco, com o corpo e a cabeça reclinados na parede de

adobe, os olhos semicerrados. De vez em quando, um profundo suspiro agitava

todo o seu ser e os belos olhos rasgados se entreabriam. Por um momento, ao

captar a resignada amargura daquela hebreia, senti-me desfalecer. Não sabia como

interrogá-la. As forças e a coragem pareciam escapar de mim, anulado como me

sentia diante da angústia de uma mãe que acabava de perder – e de que forma! –

seu filho primogênito. Como podia eu iniciar a conversa? Com que ânimo

interrogaria aquela mulher dilacerada pela dor para pedir-lhe que me falasse de

seu Filho, de sua infância e de sua não menos obscura juventude?

Foi João quem, sem querer, facilitou-me tão árdua tarefa, prevista pelo projeto

Cavalo de Troia como um dos últimos objetivos da missão.

Depois de sacudir um velho e enegrecido pelego de cabra, o discípulo encheu

outra caneca de madeira com um leite espesso e acre e me pediu que aceitasse

aquele humilde alimento.

– Não te incomodes com o cheiro – disse-me. – Sacia melhor a sede...

Não quis desagradá-lo e tomei todo o pestilento líquido, com os olhos fechados

e a respiração suspensa.

O Zebedeu recolheu a caneca e, apontando o manto de linho branco que

pendia de meu cinto, observou:

– Vejo que não esqueceste teu presente...

Baixei a vista e compreendi. Ainda que aquela espécie de xale houvesse sido

comprado para Marta, irmã de Lázaro, a genial sugestão do discípulo mudou meus

planos. De fato, aquele podia ser o meio ideal para ganhar a estima e a confiança

de Maria... Como isso não me havia ocorrido antes?

Tomei o manto nas mãos e, erguendo-me, aproximei-me da Senhora. Ajoelhei-

me diante dela e, estendendo-lhe o rico presente, pedi que se dignasse a aceitá-lo.

Maria e as mulheres que a rodeavam olharam-me e depois se entreolharam.

Por fim, a mãe do rabi, afastando-se da parede, tomou o manto e banhou-me com

um olhar profundo. Um olhar que me lembrou o do seu Filho.

João, atento e solícito, aproximou a lanterna de barro para que Maria pudesse

contemplar melhor a finíssima textura do linho. Então, à luz da lâmpada de azeite,

os olhos daquela mulher surgiram diante de mim em toda a sua beleza: eram

verdes!

Depois de acariciar o tecido, Maria levantou de novo os olhos para mim e,

mostrando dentes brancos e perfeitos, exclamou:

– Obrigada, filho!

Era a primeira vez que eu ouvia aquela voz grossa, mas cálida e firme.

– Eu te conheço – disse confusa –. Onde nos vimos antes?

Neguei com a cabeça, intrigado diante daquela aparente obsessão coletiva. O

“tempo” (nunca melhor dizendo) se encarregaria de ajudar-me naquela situação.

Mas não devo me adiantar nesse “tempo”...

A partir daquele instante – oito da manhã, aproximadamente – e depois que

João Zebedeu lhe disse quem era eu e porque estava ali, Maria concordou com

agrado em falar-me de Jesus, de seus primeiros anos em Nazaré, de suas viagens

pelo Mediterrâneo e da morte, em acidente de trabalho, de seu esposo, o

construtor e carpinteiro chamado José.

Tentando pôr ordem em minhas ideias e nos milhares de temas que se

agitavam em minha mente, comecei por perguntar-lhe sobre o nascimento do

gigante...205

Por volta das onze e trinta, nossa conversa foi interrompida pela chegada de

Judas, ou Judá, e José de Arimateia. Traziam as últimas notícias.

Uma vez terminada a ceia da Páscoa, os sinedristas haviam voltado a reunir-se,

dessa vez na casa de Caifás. Segundo o ancião, o único tema debatido fora a

profecia feita por Jesus de ressuscitar no terceiro dia. Os sacerdotes, em especial

os saduceus, não davam muito crédito às palavras do justiçado. Mas os intrigantes

membros do Sinédrio achavam que o mais prudente seria vigiar a tumba. “Segundo

afirmaram – prosseguiu José –, havia a possibilidade de que os amigos e crentes

de Jesus roubassem o cadáver, para depois propagar a mentira de sua

ressurreição.” Com a finalidade de abortar qualquer tentativa de roubo, o sumo

sacerdote designara uma comissão com o encargo de visitar o governador romano

na primeira hora da manhã de sábado. Pois bem, esse grupo de sinedristas

acabava de entrevistar-se com Pôncio.

 

José, alertado por um de seus confidentes, havia se apressado a ir ao Templo.

Ali, depois de não poucas buscas, entre ferinas indiretas por parte dessa comissão

– conhecedora de sua vinculação com o Nazareno –, José de Arimateia conhecera

finalmente os pormenores da reunião entre os sacerdotes e Pilatos.

– Senhor – haviam dito os juízes ao governador –, viemos lembrar-te de que

Jesus de Nazaré, esse falsário, declarou em vida: “Passados três dias,

ressuscitarei”. Por conseguinte, estamos diante de ti para pedir que dês as

instruções necessárias para que o sepulcro seja devidamente protegido contra seus

discípulos, até que se tenham passado esses três dias. Tememos que seus fiéis

tentem roubar o corpo durante a noite e, em seguida, proclamem ao povo que ele

ressuscitou de entre os mortos. Se consentirmos que isso ocorra, teremos cometido

falta maior do que se o tivéssemos deixado com vida.

E Pôncio, depois de escutar esse pedido, respondera:

– Eu vos darei uma escolta de dez soldados. Ide e montai a guarda diante da

tumba.

E José de Arimateia prosseguiu:

– Essa escolta romana e outros dez levitas, recrutados em uma das seções

semanais do Templo, já estão na tumba, como pude verificar antes de vir até aqui.

Essas bestas hipócritas que rodeiam e adulam Caifás não tiveram o menor

escrúpulo de violar o sábado sagrado e invadir minha propriedade. Quando tentei

chegar até a cripta, alguns dos guardiães do Santuário me barraram o caminho,

obrigando-me a retirar-me. É indigno!...

– Então – provoquei –, ninguém pode se aproximar da tumba.

– Ninguém que não seja da guarnição da torre Antônia ou do corpo de levitas.

Os selvagens chegaram até a retirar a laje que cobre o poço do hortelão para uni-la

à rocha que fecha a câmara sepulcral. E depois ainda estamparam o selo de Pilatos

para que ninguém as possa remover.

Aquela notícia me deixou preocupado de verdade. Os últimos minutos de minha

missão em Jerusalém deveriam transcorrer, precisamente, o mais próximo possível

do sepulcro. O projeto Cavalo de Troia tinha especial interesse, é lógico, em

averiguar se a ressurreição do Mestre da Galileia era uma realidade objetiva ou,

pelo contrário, uma lenda. Como poderia eu levar adiante minha observação se o

caminho do sepulcro estava bloqueado por vinte sentinelas?

Ainda restavam várias horas e eu preferi não me atormentar com tal dilema.

Alguma coisa me ocorreria...

A mudança de assunto de José me ajudou a esquecer o tema por um tempo.

Com grande surpresa para mim, uma das maiores preocupações do ancião era

acertar o epitáfio que deveria ser gravado na fachada rochosa do sepulcro onde

repousava o corpo de seu Mestre. José até trazia escritas algumas frases, que deu

para Judas e João lerem.

Com gesto grave, os três homens discutiram o possível texto, chegando à

conclusão de que o último era o mais adequado. Pedi a João que me passasse o

pergaminho e, em aramaico, li o seguinte:

 

Este é Jesus, o Messias.

Não há aqui ouro ou prata,

senão seus ossos.

Maldito seja o homem

que abra este sepulcro.

 

Eu sabia que os saques às tumbas estavam na ordem do dia em Israel, mas

não conseguia assimilar a falta de fé daqueles íntimos de Jesus de Nazaré, que não

hesitavam em qualificar o Galileu de Messias, mas, por outro lado, renunciavam por

completo à ideia de sua ressurreição. Era tão triste quanto anacrônico...

Uma vez decidido o epitáfio, José mostrou a frase escolhida à mãe de Jesus.

Maria, porém, negou-se a lê-lo. E, cravando os olhos em cada um dos três, censurou-lhes sua falta de fé com um comentário lapidar:

– O Messias escreverá seu epitáfio com uma única palavra: “Ressuscitou!”.

Um silêncio pesado cobriu a todos durante alguns minutos. José balançou a

cabeça negativamente e Judas e João se limitaram a baixar o rosto, manifestando

dúvida.

A Senhora não insistiu. Recostou-se de novo na parede e semicerrou os olhos.

Foi José quem rompeu a embaraçosa situação, tentando-nos convencer, a nos e

a si mesmo, de que não deviam ser cultivadas falsas ilusões.

– A notícia da promessa da ressurreição – comentou – terminou ganhando as

ruas, e Jerusalém toda comenta o assunto. Se o Messias não cumprir a promessa,

em que situação ficarão seus discípulos e ele mesmo?

Infelizmente, aquela postura, própria de um homem racional de comprovado

bom senso, era compartilhada por quase todos os seus apóstolos, enclausurados

desde a noite de quinta-feira em diversas casas de Jerusalém e Betânia, mortos de

medo e sem a menor esperança com relação ao futuro. Se aqueles rudes galileus

tivessem se deixado possuir pela fé de um Davi Zebedeu, para dar exemplo, as

coisas teriam sido muito diferentes...

Ainda que com o risco de repetir-me, creio ser de extrema importância salientar

essa ingrata, mas muito humana disposição dos apóstolos e seguidores do Filho do

Homem em relação ao tema da ressurreição. Estão equivocados os que supõem

que os discípulos esperavam ansiosos o amanhecer do terceiro dia. Nenhum deles,

em perfeito juízo, poderia admitir que um cadáver, depois de 36 horas de

falecimento, fosse capaz de se levantar e viver. Mas o surpreendente rabi jamais

falava em vão...

Meia hora antes do ocaso – ali pelas seis –, Judas e sua irmã Rute puseram-se

a caminho, acompanhando a mãe até a residência de Lázaro, em Betânia. João,

obedecendo a recomendação dada por José, foi para a casa de Elias Marcos, onde

estava prevista a reunião de urgência de todos os discípulos e fiéis de Jesus que

estivessem na Cidade Santa.

Ofereci-me para acompanhar a família do Nazareno e, dessa forma, pude

ampliar meus conhecimentos sobre a vida de Jesus.

Às 19h30, as irmãs do ressuscitado nos receberam em sua casa com infinitas

atenções.

Mas a noite se aproximava e, depois de me despedir de meus novos amigos,

agradeci a Marta e Maria sua generosa hospitalidade e anunciei-lhes que iria

empreender uma longa viagem, mas que era quase certo que regressaria logo.

Aquela piedosa mentira, que talvez aliviasse o aflito coração de Marta, chegaria a

ser uma realidade. Uma realidade que viria ao encontro das íntimas aspirações

deste cada vez menos incrédulo e cético oficial da Força Aérea Norte-americana.

A irmã mais velha de Lázaro, com os olhos cheios de lágrimas, confiou-me, em

segredo, que seu irmão tinha precisado refugiar-se em Filadélfia e que elas, assim

que pudessem vender as terras e a fazenda, seguiriam seus passos. Eu conhecia a primeira parte da informação, mas – estúpido que fui! – naquele instante,

enquanto lhe dizia adeus, não soube perceber o que verdadeiramente sua

confissão encerrava...

Pouco antes da meia-noite, preocupado com o avançado da hora e com a

necessidade de encontrar alguma fórmula que me permitisse observar a entrada do

sepulcro com um máximo de nitidez e segurança, iniciei a ascensão do monte das

Oliveiras.

Será que ocorreria mesmo a grande “façanha”? Realmente, teria eu a grandiosa

oportunidade de comprovar com meus próprios olhos o anunciado prodígio da

ressurreição?

 

204 Em Medicina Legal, está definitivamente aceito que, para produzir a obstrução total das jugulares, é preciso uns cinco quilos de força. No caso dos carótidas, entre dez e quinze quilos. (N. do M.)

205 O extenso relato do Major sobre essa apaixonante conversa com a mãe de Jesus de Nazaré, na qual figuram inúmeros dados novos e fascinantes sobre a infância, juventude e idade adulta do Galileu, foi destacado do diário e incluído – devido à sua extensão – em um próximo volume. Sinto, de verdade, deixar o leitor com água na boca... (N. de J.J.Benítez)