Cavalo de Tróia 1: Jerusalém

J. J. Benítez · Capítulo 15 de 19 · parte 1/3

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Cavalo de Tróia 1: Jerusalém

5 de abril, quarta-feira

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

Pouco antes que as madrugadoras andorinhas despertassem o acampamento

com seus negros e ágeis voos, Eliseu já me havia alertado, por meio da

comunicação auditiva, da aproximação do amanhecer.

– O “berço” registra nove graus centígrados. Ligeira redução da umidade

relativa... Parece que a intensidade do vento aumentou. Preveem-

-se algumas rajadas de vinte a quarenta nós, especialmente durante a tarde...Boa

sorte!

Eliseu não estava equivocado. Aqueles primeiros momentos do dia me

pareceram especialmente frios. O azul-celeste de meu manto estava salpicado por

uma infinidade de gotículas de orvalho. O mesmo acontecia com a escassa erva

que conseguia despontar ao pé de algumas oliveiras.

À medida que o dia foi clareando, um distante e misterioso ruído, como de

castanholas, começou a intrigar-me. Parecia nascer em alguma parte do fundo do

acampamento em que eu estava. Levantei-me e, depois de dar uma olhada em

todo o campo, verifiquei que tudo estava calmo. Os discípulos dormiam no interior

das tendas. Outros, envoltos em seus roupões, descansavam ao pé do muro de

pedra, ou, como eu fizera, sob o primeiro renque de oliveiras. Diante dos

albergues, na pequena clareira existente na entrada do horto, distinguiam-se as

cinzas da fogueira. O Mestre, supus, devia estar dormindo.

Mas aquele castanholar continuava enchendo a cada vez mais luminosa manhã

e quebrando o silêncio de Getsêmani. Não hesitei mais. Tomei a “‘vara de Moisés”

e me dirigi ao interior do horto, seguindo o cercado de pedras. A propriedade de

Simão, vizinha a Betânia, era dedicada exclusivamente ao cultivo das oliveiras. A

partir do lugar onde haviam sido instaladas as tendas, o terreno ia se elevando

ligeiramente. Ao chegar ao fundo do horto, eu havia contado meia centena de

velhas oliveiras, alinhadas de quatro em quatro. Algumas daquelas árvores

impressionaram-me por sua envergadura. Uma delas, em especial, devia ter oito

metros de circunferência. De seus nodosos e tortuosos troncos, fluía e escorria em

pequenos filamentos uma substância pardo-avermelhada, que brilhava ao

incipiente sol que já avançava por detrás do cume do monte das Oliveiras.

Os últimos metros do retângulo que constituía o horto das Oliveiras, onde iria

acontecer a famosa oração de Jesus, formavam uma elevação mais acentuada. E

agora o misterioso ruído havia se tornado mais claro e intenso. Deixei para trás o

olival e, pouco mais de dez metros à frente, surgiu diante dos meus olhos uma

massa pétrea de uns cinco metros de altura, com uma entrada mais larga que alta

(tive de me inclinar para penetrar nela), que conduzia ao interior de uma gruta

natural. Diante da caverna notavam-se outras formações de calcário branco, muito erodidas pela chuva pelo vento. A presença da massa rochosa e das pedras – de

escassos trinta ou quarenta centímetros de altura – que ocupavam aquele extremo

do horto explicavam por que Simão não havia podido aproveitar a divisa norte da

cultura das oliveiras. À direita da gruta, bem junto à rocha, crescia uma árvore

corpulenta. Quando ergui a vista, o insólito castanholar foi explicado. Tratava-se de

uma canafístula. Aquele bonito exemplar, muito parecido com a nogueira, estava

sendo sacudido sem cessar pelo vento, e seus longos frutos, ao chocarem-se entre

si, emitiam o ruído característico das castanholas. Entre a árvore e a mureta de

pedra, na face leste da gruta, descobri uma pequena plantação de gálbano e

tragacanto, ambos de reconhecidas virtudes medicinais.

A gruta, praticamente sumida na escuridão, tinha uns dezenove metros de

profundidade por dez de largura. Seu teto, muito baixo na entrada, elevava-se

bastante no interior. As paredes haviam sido caiadas. Em uma das laterais, a

voltada para o leste, viam-se dois prolongamentos ou grutas menores. Numa delas,

havia uma prensa de madeira, destinada, sem dúvida, à trituração da azeitona, a

julgar pelos restos de azeite, já meio ressecados, e pelo odor que impregnava

ainda o interior da prensa. Uma longa viga, que fazia as vezes de braço de prensa,

incrustava-se em uma pequena cavidade localizada a pouco mais de um metro dali,

na parede sul da gruta.

Ao fundo, do lado norte, sobre uma esteira, descansavam vários sacos. Dois

deles continham trigo e os demais, figos secos, legumes de diferentes espécies,

cebolas, alhos-poró, alhos etc. (Depois soube que se tratava das provisões que

Felipe havia comprado na manhã do dia anterior e constituíam a dieta básica dos

homens do acampamento.)

Inspecionei também a parte externa da gruta, observando que na parte norte,

no extremo oposto à entrada, havia sido construída uma canaleta que descia até

uma espécie de pia de depuração. Simão havia escavado o cume de uma enorme

rocha para aproveitar as águas de chuva que escoavam pela canaleta até a pia.

Dali, uma vez filtrada, a água era acumulada em uma concavidade inferior,

existente também na rocha.

Satisfeita minha curiosidade, retornei ao acampamento, acompanhando desta

vez o muro ocidental. Ao chegar à entrada do horto, algumas das mulheres do

grupo de Jesus já trabalhavam em torno de um fogo incipiente. Enquanto duas

delas moíam trigo, preparando a farinha, outras carregavam água para encher

várias bacias. À direita da cancela, junto ao muro, via-se uma grande cuba de

pedra, que eu já notara na noite anterior. Era uma velha azenha, ou moinho de

azeite, de uns quatro metros de diâmetro, perfeitamente circular e com um

parapeito de oitenta ou noventa centímetros de altura. Estava vazia. Um pesado e

enegrecido tronco, encaixado por uma das extremidades em um nicho aberto no

muro de pedra, descansava no centro geométrico da cuba. Aquela viga era provida

de grandes lajes circulares e planas, presas à segunda extremidade por grossas

cordas que as atravessavam por diferentes orifícios centrais. Pelo que pude deduzir, quando o moinho se enchia de azeitonas, esse enorme peso na ponta do tronco

deveria atuar como prensa, triturando os frutos. No fundo da cuba amontoavam-se

também grandes cabaças de esparto, utilizadas, possivelmente, para o transporte

das azeitonas.

Ainda estava inspecionando a cuba quando, por volta das sete, vi surgir na

claridade Jesus de Nazaré. Era o primeiro a abandonar a tenda destinada aos

homens. Fiquei quieto. O gigante havia tirado o manto e estava descalço.

Caminhou para a fogueira, saudou as mulheres e aproximou do fogo as palmas das

mãos, para aquecê-las. Depois, levantando o rosto para o azul do céu, fechou os

olhos e inspirou profundamente. Sua pele bronzeada iluminou-se sob a carícia

daqueles tíbios raios solares.

Uma das mulheres tirou o Mestre daquele momento aprazível, avisando-lhe que

a bacia de barro com água para sua higiene já estava pronta. Jesus respondeu à

discípula com um sorriso e, com toda a naturalidade, tirou sua túnica branca pela

cabeça. Sob aquela veste, o rabi cobria apenas as nádegas e o baixo-ventre. A

cobertura era uma espécie de tanga, também branca, de confecção simples,

possivelmente de algodão, de uns trinta centímetros de largura, costurada em uma

das extremidades a um cordão que envolvia a cintura e a ela se fixava com um nó.

Essa parte (a que era costurada ao delgado cinto) caía cobrindo as nádegas e

depois passava entre as pernas, para terminar em outros dois cordões mais curtos,

cada um preso em uma extremidade do pano. Esta última faixa era fixada com um

nó ao cordãozinho da cintura, ocultando os genitais e parte do ventre.

Uma vez despido, o Galileu ajoelhou-se junto à larga bacia, introduziu suas

mãos na água e começou a banhar o rosto, o peito, as axilas e os braços. Em

questão de segundos, aquele corpo musculoso – sem um grama de gordura – ficou

todo coberto pela água. Em seguida, o gigante apanhou uma pastilha

quadrangular, de cor clara, e começou a esfregar-se com energia. Logo apareceu

uma débil espuma branca.

Quando o Mestre considerou que estava suficientemente ensaboado, inclinou-

se de novo sobre a bacia e enxaguou-se. Minutos mais tarde, Jesus se levantou, e

a mesma mulher que o servira entregou-lhe um lenço, muito parecido com o que

eu havia visto na casa de Lázaro e com o qual Marta havia enxugado minhas mãos

e meus pés. Jesus apanhou aquela espécie de toalha e enxugou o corpo. Ao

concluir, deitou a cabeça para trás, sacudindo os cabelos. Mas, antes de vestir

novamente a túnica, estendeu os braços e a mulher verteu-lhes nas palmas das

mãos gotas de um líquido oleoso.86 E, como era costume na época, o Nazareno

esparramou a essência pelas axilas, pescoço, torso e cabelos, e só depois se vestiu.

Por último, arregaçando a túnica, entrou na bacia para lavar os pés.

Enquanto Jesus acabava de calçar suas sandálias de cordões de couro, Felipe,

André e outros discípulos saíam da tenda. Nesse instante, vi aparecer no

acampamento o pequeno João Marcos, que carregava uma cesta. Sem palavras, o

rapaz entregou a cesta a uma das mulheres e depois sentou-se junto à fogueira. Seus olhos não perdiam o Mestre de vista.

Alguns dos apóstolos imitaram o Mestre e, depois de se lavarem, ocuparam

também um lugar ao redor do fogo, prontos para o desjejum.

As mulheres começaram a distribuir leite quente. Uma delas retirou o pano que

cobria a cesta de João Marcos e, com alegria, apontou aos discípulos dois grandes

pães. Felipe os pegou, partiu em fatias e os foi repartindo. Eu aproveitei aqueles

momentos para me aproximar da bacia onde o Mestre e seus homens haviam-se

lavado e examinei a pastilha quadrada de sabão. Ao cheirá-la, percebi logo um

gratíssimo perfume de alecrim. Uma das mulheres, ao me ver tão interessado no

sabão, aproximou-se e, com uma gargalhada, advertiu-me:

– Jasão, isso não se come...

A boa mulher não se importou em descrever-me como se confeccionava aquele

sabão. Quando não dispunham de sebo, utilizavam tutano de vaca. Uma vez diluído

em água quente o componente básico, misturavam-lhe azeite e acrescentavam

essência de alecrim, como nesse caso, ou outros perfumes, tais como o tomilho, a

flor de laranjeira ou o sumo do limão. Depois, tudo era uma questão de verter o

líquido em rudimentares moldes de madeira ou ferro e esperar. Quando o grupo

tinha tempo e dinheiro, as mulheres preferiam perfumar o sabão com láudano, que

alguns pastores vendiam. Pelo que parece era fácil obtê-lo. Bastava que tivessem

paciência para pentear os pelos dos animais no esteval. Em questão de segundos a

resina impregnava as mechas de pelo dos animais e os pastores só tinham de

retirá-la.

Atento às explicações da mulher, não percebi que alguém estava atrás de mim.

Ao virar-me, uma nova surpresa. Era Jesus. Trazia uma fumegante caneca de leite

na mão esquerda e uma fatia de pão na direita. Ao ver minha cara de assombro,

sorriu maliciosamente e, com um novo piscar de olho, convidou-me a aceitar o

alimento. Ao apanhar o pão e a caneca, meus dedos roçaram sua pele e notei,

alarmado, que meu coração multiplicava seus batimentos. Como era difícil

conservar a objetividade diante daquele extraordinário exemplar humano!

Eu não conseguia entender muito bem. Por que os discípulos de Jesus de

Nazaré estavam tão silenciosos? Aquele desjejum foi tenso. Ninguém parecia

disposto a abrir a boca. É certo que os acontecimentos dos últimos dias e,

sobretudo, o fantasma do decreto do Sinédrio contra o Mestre pesavam sobre os

corações daqueles homens. Mas, ainda assim, era chocante que Jesus fosse o

menos atormentado do grupo. As espadas continuavam na cinta de alguns dos

doze e naquela noite, como na anterior, estabeleceria-se o rotineiro serviço de

guarda na entrada do acampamento.

Judas foi o último a sair da tenda. Por seus olhos avermelhados e seu

semblante carregado, tive a impressão de que não havia dormido bem. Terminada

a refeição, permaneceu, como seus companheiros, sentado e absorto.

Foi o Mestre quem rompeu o silêncio, dizendo:

– Hoje quero que descanseis. Usai o tempo para meditar sobre tudo o que tem ocorrido desde que viemos para Jerusalém. Refleti sobre o que está a ponto de

chegar...

A decisão de Jesus surpreendeu um pouco os assistentes. Todos pensavam que

o rabi entraria novamente no Templo e se dirigiria às massas. Mas o Galileu,

ficando de pé, confirmou sua decisão, fazendo saber ao chefe do grupo que

pretendia isolar-se durante todo o dia. Sob nenhum pretexto deveriam transpor as

portas da Cidade Santa. André assentiu com um gesto de cabeça e Jesus retirou-se

para o interior da tenda.

Aquilo, confesso, desconcertou-me tanto quanto ou mais que os discípulos, mas

por razões diferentes. Que pretendia o Nazareno? Aonde pretendia ir? Minha

missão era seguir os passos do Mestre, onde quer que estivesse e sempre que

minha presença não motivasse uma alteração dos fatos históricos. Por outro lado, o

Projeto Cavalo de Troia me havia confiado a difícil tarefa de contatar o governador

romano. Era vital que Pilatos soubesse a meu respeito; que me conhecesse

pessoalmente. Isso facilitaria meu ingresso na fortaleza Antônia na manhã da

sexta-feira seguinte. Além disso, essa entrevista, em mãos de José de Arimateia,

estava marcada inicialmente para aquela mesma manhã de quarta-feira. Que devia

eu fazer?

Para cúmulo da coincidência, um pensamento começou a fustigar-me: “Que

estaria maquinando o cérebro de Judas?”.

Algo no mais profundo de meu ser dizia-me que aquela jornada iria ser decisiva

nos planos e nas decisões do traidor. E eu deveria estar a par. Judas atraía-me

especialmente. No fundo, era o único que se rebelava contra tudo aquilo.

Eu estava mergulhado nessas grandes dúvidas quando Jesus se apresentou na

porta da tenda. Havia pegado seu manto e tinha enrolado em torno da cabeça um

lenço grande, ou “sudário”. Aquilo significava que pretendia andar bastante.

Nesse momento, Davi Zebedeu, um dos discípulos mais corpulentos, muito

rápido de pensamento e que desempenharia papel extraordinariamente prático e

eficaz durante as terríveis jornadas de sexta, sábado e domingo, saiu ao encalço do

gigante, fazendo-lhe uma advertência:

– Bem sabes, Mestre, que os fariseus e dirigentes do Templo buscam destruir-

te. Apesar disso, tu te preparas para ir sozinho às colinas. Isso é uma loucura.

Portanto, mandarei contigo três homens armados, para te protegerem.

O Galileu primeiro fitou Davi Zebedeu e, em seguida, observou os três robustos

serviçais do impulsivo discípulo, que esperavam a distância. E, num tom que não

admitia réplica ou discussão, respondeu, de forma que todos ouvissem:

– Tens razão, Davi. Mas te equivocas também em algo: o Filho do Homem não

necessita que ninguém o defenda. Nenhum homem porá as mãos em cima de mim

até a hora em que eu deva dar minha vida, tal como deseja meu Pai. Esses

homens não vão me acompanhar. Quero ir e estar só, para que possa comunicar-

me com meu Pai.

Ao escutar Jesus, Davi Zebedeu e seus guardiães retiraram-se e eu, sentindo que algo se quebrava em meu interior, compreendi também que não poderia seguir

o protagonista de minha exploração. Por alguma razão que não havia desejado

detalhar, o Mestre tinha de permanecer só. Mas quando eu já dava por perdida

aquela parte de minha missão, ocorreu algo que me fez recobrar as esperanças e

que, por sorte, permitiria-me reconstruir parte do que faria Jesus naquela quinta-

feira.

Quando o rabi já se dirigia para a saída do horto, disposto a perder-se sabia

Deus em que direção, o rapaz que havia trazido a cesta com pães destacou-se

dentre os discípulos e correu atrás do Mestre. Ao vê-lo, o rabi parou. João Marcos,

que havia colocado naquela mesma cesta água e comida, sugeriu-lhe que, se

pensava em passar o dia no monte, levasse ao menos algumas provisões.

Jesus sorriu-lhe e agachou-se para apanhar a cesta. Mas o menino, adiantando-

se ao Galileu, agarrou a cesta com toda a força e se insinuou timidamente:

– Mas, Senhor, e se esqueceres a cesta quando fores rezar? Eu irei contigo e

carregarei a comida. Assim estarás mais livre para tua devoção.

Antes que Jesus pudesse replicar, o rapazinho procurou tranquilizá-lo:

– Estarei calado... Não farei perguntas... Ficarei sentado junto à cesta quando

te afastares para orar...

Os discípulos que presenciaram a cena ficaram atônitos com a audácia do

menino.

E o Mestre voltou a sorrir. Acariciou a cabeça de João Marcos e disse-lhe:

– Já que anseias de todo o teu coração, não te será negado. Marcharemos

juntos e faremos uma boa viagem. Podes perguntar-me tudo o que saia de tua

alma. Juntos nos confortaremos e consolaremos. Podes levar o cesto. Quando te

sentires cansado, eu te ajudarei. Segue-me...

E ambos desapareceram ladeira acima.

Ninguém fez o menor comentário. Os rostos dos apóstolos refletiam profunda

consternação. Era doloroso que um simples menino os tivesse suplantado naquela

partida. Suponho que todos os presentes, com exceção de Iscariotes, estavam

ansiosos por acompanhar o Mestre. Todavia, nenhum havia sido capaz de abrir seu

coração e falar a Jesus com a sinceridade de João Marcos. E, da surpresa, foram

passando para um mal disfarçado desgosto. Poucos minutos depois, vários dos

íntimos estavam empenhados em uma ácida discussão sobre a inconveniência de o

rabi se aventurar a caminhar pelo montes da Judeia sem escolta e tendo como

companhia um menino de recados.

Aquela discussão começava a fascinar-me. Todos traziam à arena argumentos

mais ou menos válidos, mas nenhum parecia capaz de reconhecer publicamente a

verdadeira causa pela qual haviam ficado relegados.

A discussão ia pouco a pouco ficando acalorada quando, de repente, vi Judas

sair da tenda. Sigilosamente, encaminhou-se para a saída do horto e distanciou-se

em direção à barranca do Cedron. Não tive dúvidas. Depois de lembrar André de

minha entrevista com José de Arimateia, assegurando-lhe de que voltaria o mais prontamente possível, cruzei o recinto de pedra, procurando não perder de vista

Iscariotes. Ele havia descido por uma pista estreita que conduzia a uma pontezinha

sobre o leito seco do rio e que unia a esplanada leste do Templo com o monte das

Oliveiras. Judas, com passo decidido, atravessou o lugar onde eu havia assistido à

prova das “águas amargas” e parou sob o movimentado arco da porta Ocidental do

Templo. Pude ver então, misturado entre os numerosos peregrinos que iam e

vinham, vi o traidor beijando outro hebreu e entrando com ele no átrio dos Gentios.

Adotando todas as precauções, penetrei também no Templo, chegando

justamente a tempo de ver que Judas e seu acompanhante subiam as escadarias

do Santuário e desapareciam pela porta do pórtico Coríntio.

Maldisse minha má estrela. Aquele, justamente, era um dos poucos lugares de

Jerusalém onde um gentio como eu não podia entrar. O Santuário era sagrado. Ali

não cabia nenhum estratagema. Muito menos com meu aspecto de mercador

estrangeiro.

Que poderia fazer para seguir os passos de Judas?

 

Deixei-me cair nas escadas onde habitualmente se sentava o Mestre e tentei

encontrar uma fórmula para descobrir qual a razão que havia levado o apóstolo ao

interior do Santuário. Foi quando um saduceu, amigo de José de Arimateia e que

havia participado do almoço por ele oferecido a Jesus na manhã de terça-feira, veio

simplificar meu problema.

O homem me reconheceu, interessou-se pela minha saúde e perguntou-me

qual a razão daquela minha aparência mortificada. Depois de medir as possíveis

consequências da ideia que acabava de nascer em meu cérebro, decidi falar-lhe.

Primeiro pedi que mantivesse segredo sobre o que iria contar, com o que ele

concordou em tom que parecia sincero. Depois expliquei-lhe que tinha fundadas

suspeitas sobre a falta de lealdade de um dos discípulos do rabi da Galileia.

Acrescentei que acabara de ver Judas entrando no Santuário e que temia pela

segurança de Jesus. O ex-membro do Sinédrio (ele era um dos dezenove que

haviam pedido demissão a Caifás) procurou tranquilizar-me, assegurando que

aquilo não era novidade.

– Somos muitos – continuou ele – os que sabemos que Judas Iscariotes não

compartilha da forma de ser e de agir do Mestre.

Apesar de suas palavras, simulei que não ficara satisfeito e supliquei que

entrasse no Templo e buscasse informar-se sobre os planos de Judas. Mas, antes

de responder ao meu pedido, o sacerdote, que em segredo professava a doutrina

de Jesus, questionou minha estranha conduta.

– Eu também creio no Mestre – menti – e não desejo que seja destruído.

Minhas palavras devem ter soado com tal firmeza que o saduceu sorriu e,

dando-me um palmadinha nas costas, aceitou meu pedido...

Antes de nos separarmos, disse-lhe que tinha um encontro marcado com José

de Arimateia e que, se lhe parecesse oportuno, poderíamos voltar a nos ver antes

do pôr do sol, na casa de nosso amigo comum.

– Acima de tudo – insisti com veemência – e por razões elementares de

segurança, isso deve ficar entre nós.

Meu novo amigo concordou, e eu, um pouco mais aliviado, retomei meu

caminho para a cidade baixa. Entretanto, à medida que me aproximava da casa de

José, assaltou-me uma dúvida incômoda: teria eu mentido mesmo ao afirmar ao

saduceu que também acreditava em Jesus de Nazaré?

 

José de Arimateia recebeu-me com certa inquietação. Os acontecimentos no

acampamento de Getsêmani e a investigação em torno dos passos de Judas

haviam retardado um pouco minha chegada à casa do ancião. Sem perda de

tempo, o amigo de Jesus envolveu-se em um luxuoso manto de lã vermelho-fogo,

carregando uma ânfora de tamanho médio (aproximadamente 1/8 de efá ou 5,6

litros). A entrevista com o governador romano havia sido marcada para a quinta

hora (por volta das onze da manhã) e, como eu, José não gostava de esperar nem

de fazer esperar.

Ao sairmos da mansão, pedi ao venerável membro do Sinédrio que me

permitisse carregar a jarra. José consentiu com prazer e eu, ainda que cheio de

curiosidade para conhecer seu conteúdo, ante o mutismo de meu amigo, decidi não

fazer pergunta alguma sobre esse particular.

O caminho para a fortaleza Antônia, situada no noroeste da cidade, era

relativamente longo. Embora o quartel-general romano dispusesse de uma entrada

pelo ângulo mais ocidental do Templo (como creio que já citei em outra

oportunidade, essa fortificação estava escorada no imenso retângulo que constituía

o Santuário e seu átrio), José de Arimateia – suponho que por simples prudência –

evitou durante todo o trajeto o recinto do Templo.

Deixamos para trás o intrincado labirinto das vielas da cidade baixa, superando

depois a breve depressão do vale do Tiropeon, separação natural dos dois grandes

e diferenciados bairros de Jerusalém: o baixo e o alto.

O grande teatro surgiu à nossa esquerda e, pouco depois, desembocamos na

rua principal da zona alta de Jerusalém. Igual ao que eu havia visto na cidade

baixa, essa avenida, que ia desde o palácio de Herodes, no extremo mais ocidental

da urbe, até o muro oeste do Templo, nas proximidades da esplanada de Sixto, era

assinalada por grandes colunas.87

Em seus pórticos, alinhavam-se os bazares dos vendedores considerados

impuros: desde fabricantes de todo tipo de objetos artísticos (oleiros, ferreiros,

perfumistas etc.) até alfaiates, comerciantes de lã etc. A gritaria, a confusão e a

“sintonia” de cheiros eram idênticas às do bairro baixo, ou Akra.

José acelerou o passo ao transpormos a porta do Pez, no cruzamento da

segunda muralha setentrional com a depressão ou vale do Tiropeon. Nunca soube

se a pressa do ancião se devia à presença, junto à porta, de um grupo de

mercadores tírios que vendiam todo tipo de peixe, ou à proximidade da torre

Antônia. O certo é que, por fim, estávamos diante do muro de pedra de um metro e

meio de altura que cercava totalmente o impressionante “castelo”, sede de Pôncio Pilatos enquanto durassem as festas da Páscoa.

Embora eu já houvesse tido a ocasião de ver de perto os soldados que foram

enviados da torre Antônia para pôr ordem na esplanada dos Gentios durante o

estouro da manada de bois que Jesus de Nazaré provocara, a presença das

sentinelas romanas nas portas daquele muro me impressionou.

José dirigiu-se em aramaico a um dos soldados, mas este não compreendeu a

língua do israelita. Um tanto contrariado, José falou-lhe então em grego. O

legionário continuou sem entender. Diante da penosa situação, o jovem romano –

suponho que teria entre 20 e 25 anos – fez-nos sinal para que esperássemos e,

dando meia-volta, encaminhou-se para o interior. A segunda sentinela permanecia

muda e impassível, fechando a passagem com seu longo pilum ou lança. Sob o

brilhante e esverdeado elmo de ferro e bronze, os olhos do legionário não nos

perdiam de vista. Vestia o habitual traje de campanha: uma cota de malhas de

ferro, vestida como se fosse uma túnica curta e que protegia todo o tronco e o

ventre. Essa couraça, de grande flexibilidade e solidez, ficava em contato direto

com um gibão de couro de dimensões e forma idênticas às da cota de malhas. Por

último, a pesada indumentária cobria uma túnica de cor vermelha, de mangas

curtas, que sobressaía uns dez ou quinze centímetros por baixo da cota,

justamente no nível dos joelhos.

Sandálias de grossas solas de couro protegiam-lhe os pés, com um incômodo

sistema de tiras, também de couro, costuradas em todo o contorno do calçado. (Em

uma outra ocasião, ao examinar uma daquelas solenes sandálias, contei mais de

cinquenta tiras de pele de vaca curtida.) Esses cordões eram amarrados pela parte

superior do pé, na altura dos tornozelos. Mas só depois, já no pátio da fortaleza, é

que eu teria a ocasião, como já disse, de descobrir uma das temidas características

desse calçado...

A vestimenta contemplava um cinturão de couro, de uns cinco centímetros de

largura, revestido de uma infinidade de cabeças de cravo. Do centro caíam oito

franjas, igualmente de couro, recobertas de pequenos círculos metálicos. Esse

adorno tinha, sobretudo, a missão de proteger o baixo ventre do mercenário. Em

seu lado direito, dependurava-se a famosa espada do tipo hispanicus, de cinquenta

centímetros, em uma bainha de madeira com reforços de bronze. No lado oposto,

ficava a semispatha, ou punhal, com aproximadamente a metade do comprimento

da espada.

Observei, apoiados sobre um dos ângulos da porta do muro, os escudos das

sentinelas. Eram retangulares e mediam cerca de oitenta centímetros de altura.

Apresentavam ligeira convexidade, tendo no centro uma protuberância de metal,

de forma circular, decorada com uma águia amarela que se destacava do vermelho

do resto do escudo. Orlava-os uma borda metálica e eles eram primorosamente

pintados em sua área central com quatro quadrados concêntricos (do menor ao

maior: preto, amarelo, preto e amarelo). Os ângulos do quadrado haviam sido

substituídos por grandes suásticas ou cruzes gamadas, também em negro. Duas correias formavam a empunhadura: uma para o braço, outra para a mão.

Mas o que sem dúvida mais me fascinou naquele equipamento de combate foi

a lança. Aquele pilum devia medir pouco mais de dois metros, dos quais ao menos

a metade correspondia ao ferro e o resto ao fuste. Este, de madeira muito leve,

não tinha mais que trinta milímetros de diâmetro. A haste havia sido embutida no

ferro. Na área média da arma, observei um reforço cilíndrico, pequeno, que servia

de empunhadura e, possivelmente, para regular o centro de gravidade da lança.

Conforme fui conhecendo a vida e a organização daquele exército, compreendi

como e por que Roma havia chegado tão longe em suas conquistas.

A sentinela captou meu olhar absorto no aço reluzente da ponta de flecha em

que terminava sua lança e, com um sorriso malicioso, inclinou o pilum até que sua

aguda extremidade chegasse a um palmo do meu peito. José assustou-se. Por um

instante, imaginei o que poderia acontecer se aquele soldado tentasse cravar-me a

arma. Ao ver o pilum quebrar-se e não penetrar em meu torso, provavelmente seu

susto teria sido maior do que o meu. A “pele de serpente” que recobria meu corpo

estava perfeitamente preparada para resistir a um impacto daquele tipo.

Em vez de recuar ou de mostrar receio, correspondi ao seu sorriso com outro

ainda mais largo, dando-lhe a entender que sabia de que se tratava de uma

brincadeira.

Aquele gesto, que o soldado interpretou como uma demonstração de coragem

e que me valeu seu respeito, seria para mim, ainda que não o tivesse

preconcebido, de suma utilidade durante a captura do Galileu, na noite do dia

seguinte.

Nesse momento, a sentinela que havia ido ao interior da fortaleza chegou ao

portão da torre e de lá acenou para que entrássemos. José e eu vencemos os dez

ou quinze metros de terreno baldio que separavam o parapeito exterior, de pedra,

de um profundo fosso de cinquenta côvados (22,5 metros), escavado por Herodes

quando mandara reedificar uma antiga fortaleza dos macabeus, a que deu o nome

de Antônia, em honra de Marco Antônio. Esse fosso, seco naquela época,

contornava a residência do governador romano em todo o seu perímetro, com

exceção da face sul, que, como já expliquei, estava acoplada ao muro norte do

Templo. Sua base era uma rocha gigantesca, aplainada integralmente na parte

superior e nos lados com enormes pranchas de ferro, de forma que o acesso por ali

se tornava impraticável. E sobre essa sólida base levantava-se um magnífico

baluarte, construído com grandes pedras retangulares. Ali ocorreriam os sucessivos

interrogatórios de Jesus por Pilatos, assim como o selvagem castigo da flagelação.

Ao cruzar a ponte levadiça, de uns cinco metros de comprimento, construída

com grossos troncos recobertos de metal espesso, não pude resistir à tentação de

erguer meu olhar. A pétrea fachada cinza-azulada, de dezoito metros de altura, era

dividida em duas seções simétricas e adornada por ameias. Cada um desses

blocos, de cerca de cinquenta metros de comprimento, apresentava três fileiras de

janelas (as do primeiro pavimento em forma de fresta). No centro, entre as duas alas em que se dividia a fachada, havia uma espécie de terraço, ou mirante, de uns

vinte metros, com os prismas das ameias pouco menores que os das áreas

superiores. Os quatro ângulos do “castelo” haviam sido reforçados por torres

igualmente fortificadas. Eu conhecia, por intermédio de Flávio Josefo, as dimensões

dessas torres,88 mas, ao contemplá-las àquela curta distância, elas me pareceram

muito mais esbeltas.

Na boca do túnel que constituía a entrada principal da fortaleza, aguardava-nos

a mesma sentinela que nos atendera no exterior e mais um oficial. Ao ver em sua

mão direita um bastão de madeira de videira, deduzi que estava diante de um

centurião. Sua estatura era pouco superior à da média dos soldados, mas talvez a

impressão se devesse ao penacho de plumas vermelhas que lhe adornava o elmo.

Depois de saudá-lo, José identificou-se diante do chefe da centúria, dizendo-lhe

que era amigo do governador e que havia sido marcada uma audiência para aquela

manhã. O centurião, também em grego, respondeu à saudação e pediu-me que eu

também me identificasse. Depois, dirigindo-se a um dos soldados que montavam

guarda em uma porta situada à direita do túnel, pediu-lhe alguma coisa. O

mercenário apressou-se a entrar no que devia ser o “quarto da guarda” e logo

regressou, carregando uma espécie de ardósia em que haviam sido escritos alguns

nomes. Do ângulo superior esquerdo da tábua, pendia um curto cordel ao qual se

atara um cravo de bronze de uns oito centímetros de comprimento e que, a julgar

pelos traços da superfície encerada, fazia as vezes de buril, ou stylo.

O centurião leu o conteúdo e devolveu a tábua ao mercenário, que de novo

desapareceu no interior da sala. A essa altura, vários dos soldados que formavam a

excubiae, ou guarda do dia, naquele setor da fortaleza – e que descansavam em

um dos bancos de madeira no interior do quarto – haviam assomado à porta,

observando-nos com curiosidade.

– Que há nessa jarra? – perguntou de repente o centurião.

Graças aos céus, José se adiantou:

– É vinho das bodegas subterrâneas de Gabaon... Sei que o governador

aprecia...

– Terão de abri-la – disse o oficial, ao mesmo tempo que fazia sinal a um dos

soldados do grupo.

Troquei um rápido olhar com José e este, sem se alterar, tomou a ânfora e

retirou-lhe a tampa de barro. O mercenário pegou a ânfora, encheu uma caneca de

latão, cheirou o conteúdo, levou o líquido rosado aos lábios e o provou.

O centurião considerou a comprovação satisfatória e nos pediu que

entregássemos as armas. José explicou que éramos pessoas de paz e que não

portávamos espada. Mas o oficial, sem dar muita atenção às palavras do ancião,

ordenou às duas das sentinelas que revistassem nossas vestes. Depois de nos

apalpar os lados, o peito e os braços, balançaram negativamente a cabeça. Nesse

instante, o consciencioso oficial concentrou sua atenção em minha vara.

– Deverás deixá-la ao cuidado da guarda – disse-me.

E, antes que eu pudesse tomar qualquer atitude, outro dos romanos tirou-me a

“‘vara de Moisés”. Meu coração quase saltou para fora. Aquilo não estava previsto.

E, embora o cilindro de madeira tivesse sido condicionado para suportar os mais

violentos vaivéns e choques, só o pensamento de que pudesse ser danificado ou

extraviado deixou-me em profunda inquietação. Aquilo, ademais, significava que eu

não poderia filmar a entrevista com Pôncio Pilatos.

Saltava aos olhos que o centurião não estava disposto a me deixar passar com

o cajado. Se eu quisesse levar adiante o projeto Cavalo de Troia, teria de me

resignar a confiar na sorte. Fiquei quieto, cuidando de não revelar muito interesse

pelo cajado. Do contrário, despertaria receios e suspeitas nada desejáveis naquela

irrepetível circunstância.

O centurião fez então um sinal com a mão para que o seguíssemos. Saímos do

túnel abobadado e fomos encontrar um espaçoso pátio quadrangular, a céu aberto,

de uns cinquenta metros de lado e pavimentado com lajes de pedra calcária dura,

de um metro quadrado cada. Uma infinidade de portas, coroadas por dintéis de

madeira formando arcos de meio ponto, alinhava-se nas laterais, sob pórticos

sustentados por colunatas. Aquela fortaleza, como pude verificar à medida que a ia

conhecendo, havia sido edificada com todo o esmero.

Por aquele grande pátio, no que desembocavam os dormitórios, as cavalariças

e alguns armazéns, iam e vinham numerosos legionários. Muitos deles, de folga,

vestiam apenas uma túnica curta de cor granada, de lã, cingida por um cinturão

muito leve.

O centurião que nos guiava cruzou o centro do pátio e contornou uma fonte

circular, em cujo centro havia uma bonita representação, também em pedra e em

tamanho natural, da deusa Roma. A estátua vestia uma túnica com múltiplas

pregas, deixando a descoberto o seio direito. Com a destra, a deusa segurava uma

lança, e na mão esquerda equilibrava uma esfera, da qual brotava um jorro de

água. A água ia sendo armazenada no tanque circular, que constituía a parte baixa

da fonte. Vários soldados da cavalaria romana estavam, no momento, lavando e

escovando meia dúzia de cavalos. Diferentemente dos soldados da infantaria, os

cavaleiros vestiam uma jaqueta roxa, de manga larga, e calças vermelhas muito

justas, que caíam até a canela.

Ao contrário do que ocorre, por exemplo, com nossos exércitos ocidentais,

nenhum daqueles soldados enquadrou-se ou fez uma saudação à passagem do

centurião. Este, sempre com seu oitis, ou vara de sarmento, na mão direita, e

recolhendo a folgada toga, ou capa, de cor púrpura sobre o braço esquerdo,

prosseguia seu caminho para o fundo do pátio.

À direita e à esquerda, especialmente sob as arcadas, outros soldados

cuidavam da limpeza de suas armas e sandálias. Em um dos cantos, um concorrido

grupo de soldados formava um círculo em torno de algo sobre o pavimento. Apesar

de minha curiosidade, não pude me aproximar. O oficial não virou a cabeça uma

única vez e continuou a passos rápidos para a escadaria que já se divisava na parte leste do pátio.

Antes de abandonar aquele recinto, outra cena chamou-me a atenção. À nossa

direita, imóvel sobre o lajeado, um dos romanos sustentava nos ombros e na nuca

um pesado saco. A carga o obrigava a manter o tronco e a cabeça ligeiramente

inclinados para o solo. Junto dele, outro soldado, com uniforme e armas

regulamentares, não perdia de vista o companheiro. No meu regresso da entrevista

com o governador romano, iria ter a explicação completa de tudo aquilo...

 

Assim que pisei a polida escadaria de mármore branco, no fundo do pátio,

percebi que tínhamos chegado à parte nobre do edifício. As escadas, de pouca

inclinação, levaram-nos a uma espécie de vestíbulo retangular, todo ele revestido

de finíssimos mármores, que, a julgar pelos sutis veios cinzentos e azulados,

deviam ter sido importados por Herodes, o Grande, de Chipre e Carrara.

Diante da escada que conduzia ao primeiro pavimento da torre Antônia, abria-

se uma porta dupla de quase cinco metros de largura, primorosamente entalhada

com palmeiras, flores e querubins. Via-se ali, uma vez mais, a mão de artesãos e

construtores fenícios, que, possivelmente, haviam-se encarregado da construção da

fortaleza.

Em ambos os lados da porta montavam guarda diversos soldados, cruzando seu

pilum em forma de “xis”. O centurião dirigiu-se a um deles, avisando-o, suponho,

de que estávamos na lista das audiências de Pôncio Pilatos. Em seguida, deu meia-

volta e, depois de nos saudar com o braço levantado, desapareceu escadaria

abaixo.

Estava claro que deveríamos esperar.

José dirigiu-se a uma das laterais do saguão e sentou-se em uma das cadeiras

em forma de “xis”, sem encosto e com assento de couro, colocada sobre um

esponjoso tapete babilônico. Às suas costas, por duas alongadas e nuas janelas,

penetravam a claridade e a fria brisa do norte.

Procurei imitar meu acompanhante enquanto tentava fixar na memória os

detalhes mais importantes daquele recinto. Dos dois lados da porta, alinhavam-se

quatro grandes esculturas (duas em cada parede). As mais próximas às sentinelas

eram bustos em mármore branco. As outras, consegui reconhecê-las: eram réplicas

das amazonas que atualmente se encontram no Museu do Capitólio de Roma.

Os bustos, ao contrário, eram irreconhecíveis. E, sem poder conter minha

curiosidade, perguntei a José o significado daquelas cabeças, apoiadas em

magníficos pedestais cilíndricos.

O velho fez um gesto de desgosto. E, quase com repugnância, explicou-me que

eram os bustos do Imperador. Um, situado à esquerda da porta, representava

Tibério adolescente; o outro, na atualidade.

– ... Essas estátuas – continuou José – foram motivo, faz alguns anos, de

grande desgosto e dor para meu povo.

– Assim que chegou à Judeia, Pôncio Pilatos – explicou o ancião – introduziu as

esculturas em Jerusalém, valendo-se da escuridão da noite. O povo judeu não aceitava a presença de imagens, mesmo as do Imperador romano, e aquilo

provocou uma revolta. Milhares de hebreus acorreram a Cesareia, capital dos

invasores, suplicando ao governador que retirasse as estátuas e respeitasse as

crenças e a tradição da nação judaica. Mas Pilatos não deu atenção e se negou a

retirar os bustos de Tibério. Durante cinco dias e cinco noites, os judeus

permaneceram em volta do palácio. Diante da situação, Pôncio convocou a

multidão e, quando todos pensavam que se dispunha a ceder, as tropas cercaram

os hebreus. O romano os advertiu, então, de que, se não recebessem as imagens,

aqueles três esquadrões os destroçariam. E, em seguida a uma ordem de Pilatos,

os mercenários desembainharam suas espadas. A multidão, surpresa, deitou o

rosto na terra e todos, gemendo, gritaram que preferiam morrer a ver profanada

sua Cidade Santa. Pilatos, comovido e maravilhado com essa atitude, acabou por

capitular, ordenando que os bustos do Imperador fossem retirados de Jerusalém e

trasladados para o interior do quartel-general romano: a torre Antônia.

Sem conseguir me conter, levantei-me e lentamente aproximei-me do primeiro

busto. Mas aquele rosto infantil, com uma franja perfeitamente recortada na testa,

não me disse nada. Dirigi-me então à segunda efígie. As sentinelas, quando passei

por elas, seguiram-me com os olhos.

Aquele segundo busto representava um Tibério adulto, de uns cinquenta anos

(o Imperador fora designado César no ano 14 de nossa Era, quando tinha cinquenta

e cinco anos de idade), mas extremamente favorecido. No meu adestramento

preliminar para a missão e visando sobretudo à essa entrevista que estava prestes

a ter com Pilatos, havia recebido exaustiva informação sobre a figura e a

personalidade de Tibério.89 Ali, seguindo, logicamente, a tática dos artistas da

época, que ocultavam os defeitos das pessoas que eles imortalizavam em pedra ou

bronze, não apareciam as múltiplas úlceras que cobriam o rosto de Tibério, nem a

calvície, tampouco o ligeiro desvio do nariz para a direita, ou ainda o defeito da

orelha esquerda, mais despregada que a outra. (Esses dois últimos defeitos

aparecem claramente no chamado busto de Mahon, executado quando Tibério

ainda não era Imperador.) Mas, em compensação, observava-se uma boca murcha,

consequência da perda dos dentes.

Excetuadas essas “concessões”, o artista havia plasmado com exatidão a

cabeça daquele polêmico e introvertido César: um rosto triangular, de testa larga,

queixo pontiagudo e curto. Em seu conjunto, o busto emanava o ar filantrópico,

ressentido e fugidio que caracterizou Tibério – e que iria desempenhar papel

decisivo no ânimo de seu governador na Judeia na hora de salvar ou condenar

Jesus de Nazaré. (Deixemos, porém, que os fatos falem por si próprios.)

 

De repente, abriu-se a grande porta. José e eu caminhamos apressados até o

umbral. Como se houvesse atuado sobre eles uma mola mecânica, os soldados

retiraram suas lanças e abriram passagem a um indivíduo que vestia a toga

romana dos plebeus. Quase não tive tempo de fixar a vista sobre ele. Do outro

lado, um centurião segurava a folha da porta. Em sua mão esquerda, trazia uma prancheta encerada, idêntica à que eu havia visto no posto da guarda. Pronunciou

nossos nomes e, com um sorriso, nos convidou a entrar. Aquele salão, mais amplo

do que o vestíbulo, surpreendeu-me. Era ovalado e tinha as paredes totalmente

forradas de cedro. O piso, de madeira de cipreste, estalava sob nossos pés à

medida que nos aproximávamos – sempre em companhia do oficial – do fundo da

sala onde nos aguardava um homem de baixa estatura: Pôncio Pilatos.

Ao nos ver, o governador levantou-se e nos saudou com uma elevação de

braço, tal como, séculos mais tarde, fariam os alemães de Hitler. Ao chegar junto à

mesa, José fez uma ligeira inclinação de cabeça e depois apresentou-me.

Instintivamente, repeti aquela ligeira reverência, enquanto o governador da Judeia

perfurava-me com seus olhos azuis saltados.90 Pôncio voltou a sentar-se e

convidou-nos a fazer o mesmo. O centurião, ao contrário, continuou de pé, ao lado

de uma simples, mas valiosa mesa de tampo de cedro e pés de marfim. Não levava

o elmo na cabeça, mas tinha as armas regulamentares: espada no lado esquerdo

(ao contrário da tropa), um punhal e, certamente, a cota de malhas. Sua

vestimenta era muito semelhante à dos legionários, à exceção da capa e do elmo.

Enquanto o ancião de Arimateia falava-lhe em grego, oferecendo--lhe a ânfora

Continuar: parte 2 de 3