Cavalo de Tróia 1: Jerusalém

J. J. Benítez · Capítulo 5 de 19

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Cavalo de Tróia 1: Jerusalém

Yucatán

 

Ao regressar à Espanha e durante vários meses, o Major e eu trocamos cartas.

Àquela altura minhas atividades na investigação de OVNIs haviam alcançado um

volume e uma penetração suficientemente notórios para chamar a atenção dos

diversos Serviços de Inteligência que atuam em meu país. Eu estava certo – e

ainda agora estou – de que meu telefone estava “grampeado” e de que, em muitas

ocasiões, dada a natureza de algumas dessas investigações, os sutis agentes

desses departamentos (civis e militares) de informação haviam seguido muito de

perto meus deslocamentos e encontros. O que esses cães de caça nunca sonharam

– ao menos assim espero – é que eu, na suposição de que minha correspondência

pudesse ser interceptada, havia alugado uma caixa postal, servindo-me para isso

da cumplicidade de um bom amigo, cujo nome figurava como o legítimo usuário da

caixa. Essa cautela permitiu-me desviar do “canal oficial” as cartas, os documentos

e as informações em geral que eu desejava isolar da curiosidade doentia de tais

agentes secretos. Naturalmente, pela antiga profissão e pela nacionalidade do

Major, e por aquilo que poderia ocorrer com ele, fiz que suas cartas seguissem

sempre essa via confidencial. Nem mesmo Raquel, minha mulher, ficou sabendo da

existência desse novo amigo e de meus constantes contatos com ele.

Por outro lado, ainda que as cartas do Major caíssem em mãos do Serviço de

Inteligência, duvido muito que o conteúdo delas pudesse despertar atenção. Por

mais que eu o tivesse pressionado, jamais consegui que o Major deixasse escapar

uma única pista acerca da informação que dizia possuir. Em suas cartas, sempre

gentis, aquilo de que ele mais cuidava era de inteirar-se o mais completamente

possível da minha forma de pensar, de minhas inquietações e, especialmente, de

meus passos e investigações em torno da paixão e morte de Cristo. Lembro-me de

que uma de suas cartas foi dedicada inteiramente a interrogar-me sobre a última

parte de meu livro O enviado. Parece que minha suposta entrevista com Jesus de

Nazaré, que fecha essa obra, havia-lhe causado especial impacto.

E chegou o outono de 1980. A bem da verdade, minhas esperanças de

conseguir algum indício sobre o impenetrável segredo do Major haviam esfriado.

Houve momentos difíceis, nos quais minhas dúvidas me assaltaram mais

intensamente. Creio até que meu já escasso entusiasmo teria sido apagado

totalmente não fosse aquela lacônica carta – quase telegráfica – em que meu

amigo pedia-me que “deixasse tudo e voasse para a cidade de Mérida, no Estado

de Yucatán”. Durante alguns dias – não posso negar – debati-me em angustiosa

sensação de dúvida. Que deveria fazer? Será que o Major decidira afinal me falar

claramente? Estive tentado escrever-lhe uma vez mais, para pedir-lhe explicações,

mas algo me conteve. Intuí que aquela podia ser outra prova, talvez a definitiva.

Afinal, tomei a decisão de voar para a América e iniciei um sem-número de

gestões para conseguir subvencionar a custosa viagem, no todo ou em parte. Ao

contrário do que muitos possam pensar, minhas economias são sempre escassas, e

aquele imprevisto salto para o outro lado do Atlântico acabaria por desequilibrá-las.

Por sorte, meu amigo e editor José Manuel Lara aceitou a ideia de apresentar meus

últimos livros na América, e com essa desculpa aterrissei em Bogotá.

Aquele desvio retardou em alguns dias meu encontro com o Major, mas foi um

ato de prudência indispensável. Eu não estava disposto a conceder a menor folga

ao Serviço de Inteligência. Comuniquei essa minha disposição a meu amigo em

uma carta que me precedeu e na qual, naturalmente, indicava-lhe o dia e o voo em

que esperava aterrissar em Mérida.

Concluídas minhas obrigações na Colômbia, arquitetei um meio para cancelar

meus compromissos em Caracas e voei, rigorosamente incógnito, via Belmopan,

para Yucatán.

Ao passar pela alfândega, e antes que tivesse tempo de procurar meu amigo,

tomei um susto ao me deparar com uma placa em que estava escrito meu primeiro

sobrenome. A escandalosa placa estava sendo carregada por um homem rijo, de

espesso bigode negro e pele bronzeada. Ao apresentar-se a mim, identificou-se

como Laurêncio Rodarte, a serviço do Major.

– Ele não pôde vir recebê-lo – desculpou-se, enquanto se esforçava para

ajudar-me a carregar minha maleta. – Se não se importa, eu o levarei até ele.

Meu instinto me pôs em guarda e, antes de deixar o aeroporto, procurei

averiguar que papel desempenhava aquele indivíduo e por que razão o Major não

havia ido ao meu encontro.

Laurêncio deve ter captado meus receios, pois, largando a maleta, resumiu:

– O Major está doente.

– E onde está?

– Sinto, mas não estou autorizado a dizê-lo. Ele mandou-me que o viesse

receber e...

– Olhe, Laurêncio, nada tenho contra você. E mais: agradeço-lhe que tenha

vindo esperar-me, mas se você me disser onde está o Major, irei até ele com meus

próprios meios.

O homem ficou em dúvida.

– É que minhas ordens...

– Não se preocupe. Diga onde o Major me espera e eu irei ao encontro dele.

Tão firme era o tom de minha voz que Laurêncio acabou por encolher os

ombros, perguntando com má vontade:

– Conhece Chichén Itzá?

– Sim.

– O Major ordenou-me que o levasse até o poço sagrado.

Laurêncio apontou meu relógio e disse que eu deveria estar lá às quatro.

Depois deu meia-volta e encaminhou-se para a porta de saída. Conferi a hora local e verifiquei que tinha apenas duas horas para chegar até o poço sagrado dos

maias. Eu já havia visitado o sítio arqueológico da recôndita povoação de Chichén

Itzá, a leste de Mérida, em plena selva da província de Yucatán. Conhecia também

os dois famosos poços – o sagrado e o profano – situados a curta distância da

cidade. Segundo os arqueólogos, eles haviam sido utilizados pelos antigos maias

como depósitos naturais de água; e o poço sagrado, especificamente, como centro

religioso onde se praticavam sacrifícios humanos.

Ao ver afastar-se o Toyota preto que conduzia Laurêncio, concedi-me uma

pausa e procurei pôr em ordem minhas ideias. Não demorou muito para que eu me

censurasse pela seca e radical atitude que havia tido com o emissário do Major.

Especialmente na hora de regatear com os taxistas que montavam guarda no

aeroporto.

Depois de muita conversa, um dos motoristas concordou em levar-me por 850

pesos. E por volta das duas da tarde – e eu sem comer nada e com a roupa

empapada de suor –, o táxi tomou a estrada 180 em direção a Chichén.

Tal como havia prometido, o motorista cobriu os 120 quilômetros que separam

Mérida de Chichén Itzá em pouco mais de hora e meia. Após uma rapidíssima

ducha no hotel da Vila Arqueológica, dirigi-me ao local escolhido pelo Major. Às

quatro em ponto, a passos largos e com o coração na boca, deixei para trás a

impressionante pirâmide de Kukulcán e a plataforma de Vênus, e penetrei na

chamada Via Sagrada, que morre precisamente em um poço ou redemoinho de

água de quase sessenta metros de diâmetro por quarenta de profundidade.

Antes de alcançar o poço sagrado, avistei duas pessoas sentadas ao pé de uma

frondosa acácia de florzinhas rosadas. Ao me ver, uma delas ergue-se. Era

Laurêncio. Reduzi o passo e, à medida que me aproximava, senti uma incontida

onda de vergonha. Mais uma vez eu havia me equivocado.

Mas aquele sentimento logo se desvaneceu quando vi a segunda pessoa. Fiquei

atônito. Era o Major, mas vinte anos mais velho do que aparentava quando o

conhecera em Villahermosa. Permaneceu sentado sobre a plataforma de pedra do

velho altar de sacrifícios, a observar-me com uma mescla de incredulidade e

emoção. Lentamente, em silêncio, deixei cair o estojo das câmeras, ao mesmo

tempo que Laurêncio o ajudava a se erguer. O Major estendeu-me então seus

braços largos e, sem que eu soubesse por que, deixando-me arrastar pelo coração,

abraçamo-nos.

– Querido amigo! – sussurrou o agora velho homem. – Querido amigo!...

Seus olhos penetrantes, agora afundados num rosto cadavérico, estavam

umedecidos. Algo muito grave, de fato, havia minado sua antiga e garbosa figura.

Seu corpo estava encurvado e reduzido a um molho de ossos sob a pele ressequida

e salpicada de pintas escuras. Uma barba branca e malcuidada marcava ainda mais

sua decadência.

Tentei esboçar uma desculpa enquanto apertava a mão de Laurêncio, mas ele,

sem perder o sorriso, pediu-me que esquecesse o incidente do aeroporto.

Apoiado em meu ombro, o Major sugeriu que caminhássemos um pouco até o

prado que circunda a pirâmide de Kukulcán.

Com passos vacilantes e muitas paradas no caminho, fomos nos aproximando

do castelo ou pirâmide da Serpente Emplumada. Assim, naquela primeira jornada

em Chichén Itzá, fiquei sabendo dos lábios do próprio Major que seu fim estava

próximo e que, contrariamente ao que se poderia imaginar, sua morte marcaria

precisamente o começo de meu trabalho.

Também soube que, tal como havia me insinuado em outras ocasiões, sua

enfermidade era consequência de uma falha não prevista em um projeto secreto

levado a cabo anos antes, quando ele ainda pertencia às forças aéreas norte-

americanas. Quando o interroguei sobre o tal projeto, na suposição de que podia

ter estreita relação com a informação que me prometera dar, o Major pediu-me

que continuasse sendo paciente e esperasse um pouco mais.

Durante dois dias minha vida transcorreu praticamente sem novidades na

pequena casa de um único pavimento nos arredores de Chichén, muito próxima às

grutas de Balankachén, na estrada que leva à Valladolid maia. Ali, Laurêncio e sua

mulher vinham cuidando de meu amigo fazia seis anos.

Não preciso dizer que aproveitei a magnífica oportunidade para, na medida do

possível, mergulhar no passado e na identidade do Major. Mas minhas pesquisas

com as diversas autoridades policiais e com a população de Chichén não foram tão

positivas quando eu desejava. Por delicadeza com meu amigo, a quem já havia

começado a estimar, e pelo receio de continuar sem a prometida informação, optei

por suspender as tímidas e dissimuladas sondagens. Cada vez que me lançava a

essa operação de rastreamento, um sentimento de autorrepugnância acabava por

inibir-me. Era como se eu o estivesse traindo.

Decidi que abandonaria tais manobras de uma vez por todas, se o caso

terminasse com a suposta informação secreta em meu poder. Não obstante, e

graças a essas primeiras averiguações, confirmei a veracidade de alguns dos dados

que o Major me havia fornecido sobre sua pessoa: ele era, efetivamente, de

nacionalidade norte-americana, seu passaporte estava em ordem e ele havia

pertencido à USAF.

Ainda que talvez ele nunca tenha sabido, antes de regressar à Espanha eu já

conhecia sua verdadeira identidade, assim como outros pequenos detalhes sobre

sua límpida e aprazível vida em Yucatán. Tudo isso, como é natural, me

tranquilizava, mas fazia crescer minha curiosidade e meu interesse pela tal

informação de que tanto me falara o Major.

Antes de partir, ao anunciar ao ex-oficial a intenção de regressar a minha terra,

expus-lhe com toda a clareza minha aflição por seu estado de saúde e pela não

menos inquietante circunstância, ao menos para mim, de não haver obtido a

mínima pista sobre o segredo que ele dizia guardar tão zelosamente.

O Major pediu a Laurêncio que lhe passasse um envelope branco que

descansava sobre uma prateleira do armário da pequena sala onde conversávamos. De modo grave, colocou o envelope em minhas mãos e disse:

– Aqui tem a primeira entrega. O resto chegará a seu poder quando eu

morrer...

Examinei o envelope com certo nervosismo.

– Está fechado – observei. – Posso abri-lo?

– Eu pediria que o fizesse longe daqui. Talvez no avião.

Enquanto eu guardava o envelope entre as folhas do passaporte, meu amigo

adotou um tom mais descontraído:

– Obrigado. É preciso que compreenda que sua busca começa agora.

– Minha busca?... mas de quê?

O Major não me respondeu.

– Peço-lhe apenas que continue acreditando em mim e que empenhe todo o

seu coração em decifrar o código que o conduzirá a meu legado.

– Continuo sem compreender...

– Não importa. Agora, antes que parta, o senhor tem de me prometer algo.

O Major ficou em pé e eu fiz o mesmo. Em um extremo da sala, Laurêncio

assistia à cena com seu proverbial mutismo.

– Prometa-me – pediu-me o velho enquanto levantava a mão direita – que,

haja o que houver, jamais revelará minha identidade...

Apesar de minha crescente confusão, ergui também minha mão direita e

prometi isso a ele com toda a solenidade de que fui capaz.

– Obrigado mais uma vez – murmurou o Major enquanto se deixava cair

lentamente sobre a cadeira. – Que Deus o abençoe...