Cavalo de Tróia 1: Jerusalém
3 de abril, segunda-feira
Segundo eu fiquei sabendo, foram poucos os discípulos que haviam conseguido
dormir naquela noite de domingo para segunda, 3 de abril. A não ser os gêmeos,
os demais ficaram ruminando seus pensamentos. Aqueles galileus estavam tão fora
de si que nem sequer tinham estabelecido os habituais turnos de guarda na porta
da casa de Simão, onde estavam alojados Jesus, Pedro e João.
Ao se despedirem, cada um seguiu em silêncio para seu refúgio.
O rabi tampouco conseguiu pregar os olhos. Por certo, devia conhecer o estado
de ânimo de seus amigos e, possivelmente para evitar maiores tensões, preferira
fazer sua ceia na casa de Lázaro. Apesar do avançado da hora, Marta e Maria
desvelaram-se novamente para nos atender. Lavaram nossas mãos e nossos pés, e
nos serviram queijo e frutas. Nem o Mestre nem eu sentíamos muito apetite.
Durante um bom tempo, Jesus permaneceu fechado em seu hermético mutismo,
com os olhos fixos nas chamas ondulantes da lareira.
Antes de Maria se retirar para dormir, pedi-lhe que aceitasse o frasco de
essência de nardo que havia comprado pouco antes com a ajuda de André. Custou
a aceitar, mas finalmente concordou. Aquele meu gesto pareceu animar o Mestre,
que, até que enfim, saiu de seu enigmático isolamento e juntou-se plenamente à
tranquila tertúlia que mantínhamos, Lázaro e eu.
Durante nossa frugal refeição, eu havia descrito ao ressuscitado e a suas irmãs
o esplêndido acontecimento que havíamos vivido poucas horas antes. Lázaro, ao
contrário dos apóstolos, percebeu imediatamente a transcendência da atitude de
Jesus. Sem esquecer a simbologia, aquela multidão não havia feito outra coisa
senão “proteger” o rabi das garras do Sinédrio. Não me cansarei de repetir esse
aspecto da questão. Nos Evangelhos que eu havia consultado, em momento algum
se fala nisso; sinceramente, ninguém com bom senso e um mínimo de informação
sobre o que estava acontecendo naquelas últimas semanas podia deixar passar
despercebido que aquela “manobra” fora uma jogada de mestre do Galileu. Como
se diz em nossa época, “matara vários pássaros com um só tiro”.
Ao notar que Jesus se oferecia prazerosamente ao diálogo, aproveitei a ocasião
e pedi sua opinião sobre o que acontecera naquela tarde.
– Tenho estado no centro do mundo e me revelado a eles na carne.Encontrei-
os todos embriagados. Não encontrei ninguém sedento. Minha alma sofre pelos
filhos dos homens porque estão cegos de coração; não veem que chegaram vazios
ao mundo e tencionam sair vazios do mundo. Agora estão bêbados. Quando
vomitarem seu vinho se arrependerão...
– São palavras muito duras – eu lhe disse. – Tão duras como as que
pronunciaste no cume do monte das Oliveiras, à vista de Jerusalém...
– Talvez os homens pensem que vim para trazer a paz ao mundo. Não sabem
que estou aqui para lançar na terra divisão, fogo, espada e guerra... Pois haverá
cinco em uma casa: três contra dois e dois contra três; o pai contra o filho, o filho
contra o pai. E eles estarão sós.
– Muitos, em meu mundo – acrescentei, procurando fazer que minhas palavras
não soassem excessivamente estranhas para Lázaro –, poderiam associar essas
frases sobre o fim de Jerusalém como o fim dos tempos. Que tens a dizer sobre
isso?
– As gerações futuras compreenderão que a volta do Filho do Homem não se
dará pela mão do guerreiro. Esse dia será inesquecível: depois da grande
atribulação – como não terá havido outra desde o princípio do mundo –, meu
estandarte será visto nos céus por todas as tribos da terra. Essa será minha
verdadeira e definitiva volta: sobre as nuvens do céu, como o relâmpago que sai do
Oriente e brilha até o Ocidente...
– Que será a grande atribulação?
– Tu poderias chamá-la de “um parto de toda a Humanidade...”.
Jesus não parecia muito disposto a me dar detalhes.
– Diz ao menos quando se realizará.
– Daquele dia e daquela hora, ninguém sabe. Nem os anjos, nem o Filho. Só o
que posso dizer é que será tão inesperado que muitos serão pilhados no meio de
sua cegueira e iniquidade...
– Meu mundo, do qual venho – cuidei de pressioná-lo –, distingue-se
precisamente pela confusão e pela injustiça...
– Teu mundo não é nem melhor nem pior do que este. A ambos falta só o
princípio que rege o Universo: o amor.
– Dá-me, ao menos, um sinal para que saibamos quando te revelarás aos
homens pela segunda vez...
– Quando vos desnudardes sem sentir vergonha; quando tomardes vossas
vestimentas, as colocardes sob os pés como as crianças e as pisoteardes, então
vereis o Filho do Vivente e não temereis.
Lázaro, afortunadamente, continuava identificando “meu mundo” como a
Grécia. Isso me permitia continuar interrogando o Mestre com certa margem de
amplitude.
– Então – retornei – meu mundo está ainda muito longe desse dia.Ali os
homens são inimigos dos homens e até do próprio Deus...
Jesus não me deixou prosseguir.
– Estais então equivocado. Deus não tem inimigos.
Aquela frase incisiva do Nazareno trouxe-me à memória muitas das crenças
sobre um Deus justiceiro que condena ao fogo do inferno o que morre em pecado.
E foi o que lhe disse.
Cristo sorriu balançando a cabeça negativamente.
– Os homens são hábeis manipuladores da verdade. Um pai pode se sentir aflito com as loucuras do filho, mas nunca o condenaria a um mal permanente. O
inferno, como creem em teu mundo, significaria que uma parte da Criação teria
escapado das mãos do Pai... E posso assegurar que crer nisso é não conhecer o Pai.
– Por que então falaste em certa ocasião de fogo eterno e ranger de dentes?
– Se falando por parábolas não me compreendes, como então posso ensinar-te
os mistérios do Reino? Em verdade, em verdade te digo que aquele que aposte
forte e se equivoque sentirá como lhe rangem os dentes.
– É que a vida é uma aposta?
– Disseste tudo, Jasão. Uma aposta no Amor. É o único bem em jogo desde que
se nasce.
Fiquei pensativo. Aquelas eram palavras novas para mim.
– Que te preocupa? – perguntou-me Jesus.
– Sendo assim, que podemos pensar dos que nunca amaram?
– Não existem tais pessoas.
– Que me dizes dos sanguinários, dos tiranos?...
– Eles também amam. À sua maneira. Quando passarem para o outro lado
levarão um bom susto...
– Não entendo.
– Eles se darão conta, ao deixar este mundo, de que ninguém lhes perguntará
por seus crimes, riquezas, poder ou beleza. Eles mesmos, e só eles, se convencerão
de que a única medida válida, no “outro lado”, é a do Amor. Se não amaste aqui,
em teu tempo, somente tu te sentirás responsável.
– E que ocorrerá com os que não tenham sabido amar?
– Queres dizer: com os que não tenham querido amar...
Novamente me senti confuso.
– ... Esses, amigo – prosseguiu o rabi captando minha dúvida –, serão os
grandes enganados e, em consequência, os últimos no Reino de meu Pai.
– Então teu Deus é um Deus de amor...
Jesus pareceu zangado.
–Tu és Deus!
– Eu, senhor?
– Em verdade te digo que todos os nascidos levam o selo da Divindade.
– Mas não respondeste à minha pergunta. Deus é um Deus de amor?
– Não o fosse e não seria Deus.
– Nesse caso, devemos excluir de sua mente qualquer castigo ou prêmio?
– É a nossa própria injustiça que se volta contra nós.
– Começo a intuir, Mestre, que tua missão é muito simples. Será que me
engano se te digo que teu trabalho consiste em deixar uma mensagem?
O Nazareno sorriu satisfeito. Pôs sua mão sobre meu ombro e respondeu:
– Não poderias ter resumido melhor...
Lázaro, sem fazer o menor comentário, assentiu com a cabeça.
– Tu sabes que meu coração é duro – acrescentei. – Poderias repetir-me essa mensagem?
– Diz ao teu mundo que o Filho do Homem só veio para transmitir a vontade do
Pai: que todos sois seus filhos!
– Isso já sabemos...
– Estás seguro? Diz-me, Jasão, que significa para ti ser filho de Deus?
Senti que tinha sido pego de novo. Sinceramente, não tinha uma resposta
válida. Nem mesmo estava seguro da existência desse Deus.
– Eu te direi – interveio o Mestre com grande doçura. – Ter sido criado pelo Pai
supõe a máxima manifestação de amor. Ele dá tudo sem pedir nada em troca. Eu
recebi o encargo de recordar isso. Essa é a minha mensagem.
– Deixa-me pensar... Então, façamos o que façamos, estaremos condenados a
ser felizes?
– É questão de tempo. É necessário que o mundo entenda e ponha em prática
que o único meio para eles é o Amor.
Tive de pensar muito sobre minha pergunta seguinte. Naquele instante, a
presença do ressuscitado poderia constituir um certo problema.
– Se tua presença no mundo obedece a uma razão tão elementar como a de
deixar uma mensagem para toda a humanidade, não crês que “tua igreja” está
sobrando?
– Minha igreja? – perguntou por sua vez Jesus, embora, em minha opinião, ele
tivesse entendido perfeitamente – Não tive nem tenho a menor intenção de fundar
uma igreja tal como tu pareces entendê-la.
Aquela resposta me perturbou demais.
– Mas tu disseste que a palavra do Pai deveria ser estendida até os confins da
terra...
– Em verdade te digo que assim será. Mas isso não implica condicionar ou
dobrar minha mensagem à vontade do poder ou das leis humanas. Não é possível
que um homem monte dois cavalos ou que dispare dois arcos. Como não é possível
que um criado sirva a dois amos. Senão, ele honrará a um e ofenderá ao outro.
Ninguém que esteja bebendo vinho velho deseja naquele momento beber vinho
novo. Não se verte vinho novo em odres velhos, para que não se azede, nem se
despeja vinho velho em odres novos, para que não se deteriore. Nem se costura
um remendo velho em um vestido novo porque se faria um rasgão. Da mesma
forma te digo: minha mensagem só necessita de corações sinceros que a
transmitam; não de palácios ou falsas dignidades e púrpuras que a cubram.
– Tu sabes que não será assim...
– Ai dos que se antepuserem à minha vontade!
– E qual é a tua vontade?
– Que os homens se amem como eu os tenho amado. Isso é tudo.
– Tens razão – admiti. – Para isso não é preciso montar novas burocracias, nem
códigos, nem chefaturas... Não obstante, muitos dos homens de meu mundo
desejariam fazer-te uma pergunta...
– Adiante – animou-me o Galileu.
– Poderíamos chegar a Deus sem passar pela igreja?
O rabi suspirou.
– E tu necessitas dessa igreja para chegar ao teu coração?
Uma confusão extrema bloqueou-me a voz. E Jesus percebeu.
– Muito antes de que existisse a tribo de Davi, irmão Jasão, muito antes de que
o homem fosse capaz de se erguer sobre si mesmo, meu Pai havia semeado a
beleza e a sabedoria da terra. Quem vem antes, portanto, Deus ou essa igreja?
– Muitos sacerdotes do meu mundo – repliquei – consideram essa igreja como
santa.
– Santo é meu Pai. Santos sereis todos vós no dia em que amardes.
– Então – e peço que me perdoes pelo que vou dizer –, essa igreja está
sobrando...
– O amor não necessita de templos ou legiões. Um homem tira o bem ou o mal
de seu próprio coração. Um só mandamento vos é dado, e tu sabes qual é... O dia
em que meus discípulos fizerem toda a humanidade saber que o Pai existe, sua
missão estará concluída.
– É curioso: esse Pai parece não ter pressa.
O gigante olhou-me compassivamente.
– Em verdade te digo que Ele sabe que terminará triunfando. O homem sofre
de cegueira, mas eu vim para lhe abrir os olhos. Outros seres descobriram já que é
mais vantajoso viver no Amor.
– Que ocorre então conosco? Por que não conseguimos encontrar essa paz?
– Eu já disse que os tíbios, eu os vomitarei pela boca, mas não tentes mortificar
teus irmãos na malícia ou na pressa. Deixa que cada espírito encontre seu
caminho. Ele mesmo, no final, será seu juiz e defensor.
– Então, tudo isso de juízo final...
– Por que tanto vos preocupais todos com o final, se nem sequer conheceis o
princípio? Já te disse que do outro lado vos espera a surpresa...
– Tenho a impressão de que tu serias considerado excessivamente liberal para
as igrejas do meu mundo.
– Deus é tão liberal, como dizes, que até mesmo permite que te enganes. Ai
daqueles que se arrogam o papel de sabedores, respondendo ao erro com o erro e
à maldade com a maldade! Ai dos que monopolizam Deus!
– Deus... Tu sempre estás falando de Deus. Poderias explicar-me quem é ou o
que é Deus?
O fogo daquele olhar tornou a transpassar-me. Duvido que exista muro,
coração ou distância que não pudesse ser vencido por semelhante força.
– Podes tu explicar de onde vens e como? Pode o homem pegar as cores nas
mãos? Pode um menino guardar o mar entre as pregas de sua túnica? Podem os
doutores da lei alterar o curso das estrelas? Quem tem poder para devolver a
fragrância à flor que foi pisoteada pelo boi? Não me peças que te fale de Deus: sente-o. É o suficiente...
– Eu estaria certo se dissesse que o sinto como... uma “energia”?
Eu não me dava por vencido, e Jesus sabia disso.
– Vais muito bem.
– E que há por baixo dessa “energia”?
– É que não há “acima” e “abaixo” – atalhou o Nazareno, cortando meus
atropelados pensamentos. – O Amor, quer dizer, o Pai, é o Todo.
– Por que o Amor é tão importante?
– É a vela do navio.
– Permite que eu insista: que é o Amor?
– Dar.
– Dar... Mas dar o quê?
– Dar. Desde um olhar até a vida.
– Que podem dar os angustiados?
– A angústia.
–A quem?
– À pessoa que lhes quer bem...
– E se não tiverem ninguém?
O mestre fez um gesto negativo.
– Isso é impossível... Até os que não te conhecem podem amar-te.
– E que me dizes de teus inimigos? Também deves amá-los?
– Sobretudo a esses... O que ama aos que o amam já recebeu a recompensa.
A conversa se prolongaria ainda até já bem alta a madrugada. Agora sei que
meu ceticismo em relação àquele homem havia começado a fender.
Quatro horas mais tarde, com os primeiros raios da manhã, Eliseu despertou-
me. Na véspera, o Mestre havia dado ordens expressas aos discípulos para saírem
cedo para Jerusalém. Por volta das sete horas (duas horas antes da terceira),
apresentei-me na casa de Simão, “o leproso”. Jesus e os doze estavam reunidos no
jardim. Desta vez, as indicações do rabi foram muito mais concisas: nada de
ostentações e manifestações em público. Salvo os gêmeos Alfeu, os apóstolos não
se haviam recuperado da experiência da véspera. Permaneciam mudos e absortos.
O fato é que nenhum deles conhecia as intenções de Jesus e este, por sua vez, não
se mostrava suficientemente explícito. Entrar na Cidade Santa àquela altura
representava uma caixa de surpresas. O Sinédrio continuava à espreita e os íntimos
do Galileu não sabiam o que a sorte lhes podia reservar.
Por volta das oito, pusemo-nos a caminho. E Jesus, como sempre, marchava à
frente do grupo.
Enquanto escalávamos a rampa do monte das Oliveiras, procurei sentir o ânimo
dos discípulos. Como foi diferente aquela caminhada! A alegria e o entusiasmo do
domingo haviam se transformado em temor, expectativa e confusão. Havia um
pensamento comum na mente daqueles homens: “Que fazer? Continuar com o
Mestre? Renunciar e retirar-se?”. Mas ninguém tinha coragem suficiente para enfrentar Jesus e expor suas inquietações.
Ali pelas nove, o grupo já entrava em Jerusalém. A julgar pelo movimento de
pedestres, o número de peregrinos devia ter crescido consideravelmente. Sem
perder tempo, o Mestre encaminhou-se para o Templo.
A proximidade da Páscoa mantinha a esplanada dos Gentios em plena ebulição.
Os postos e tendinhas estavam mais concorridos do que na tarde de domingo.
Centenas de judeus, de todas as classes sociais, apressavam-se em comprar ou
trocar moedas, preparando-se para as oferendas obrigatórias, para a paga do
tributo ao tesouro do Santuário ou para simplesmente escolher uma vítima sem
mancha para a ceia pascal. Gradativamente, por causa dos abusos dos sacerdotes,
as pessoas comuns acabaram recorrendo àqueles “intermediários”, comprando
deles cordeiros e aves. A astúcia e a usura daqueles servidores do Templo haviam
atingido tais extremos que qualquer animal comprado em outra parte podia ser
recusado por critérios “técnicos”. Em outras palavras, os encarregados dos
sacrifícios, que tinham a obrigação de examinar previamente cada uma das
vítimas, podiam recusar um cordeiro ou um par de pombos pelo simples fato de
acharem que a cor do animal não era adequada. Isso representava uma vergonha
pública e, o que era pior, a obrigação de comprar uma nova vítima. Preferindo
precaver-se, os hebreus acorriam a esse mercado e procuravam animais com “total
garantia”. Como já observei antes, essa astúcia era sempre acompanhada de um
sobrepreço tão desonesto quanto ruinoso para as famílias mais modestas.
Para cúmulo da exploração, o “imposto” ou tributo que cada hebreu devia
oferecer ao Templo havia sido fixado em uma moeda comum: o sido (uma peça do
tamanho da de dez centavos, mas com o dobro da espessura).63 Um mês antes da
Páscoa, os “cambistas” oficiais instalavam suas mesas nas diferentes cidades da
Palestina, fornecendo assim aos peregrinos o tipo de moeda necessário para seu
mister. Nem é preciso dizer que em cada operação esses “banqueiros” retinham
uma comissão que oscilava entre cinco e quinze por cento do valor do câmbio. Se a
moeda objeto de troca era mais alta, esses usuários podiam reter uma comissão
em dobro. Finalmente, às vésperas da festa, os “cambistas” concentravam-se em
Jerusalém, estabelecendo seu “quartel-general” na esplanada dos Gentios.
Esse negócio vinha trazendo grandes benefícios aos verdadeiros donos do gado,
das mesas de câmbio e da infinidade de ingredientes e apetrechos que deviam ser
utilizados no sacrifício pascal. Esses “proprietários”, como já disse, não eram outros
senão os sacerdotes e, muito especialmente, os filhos de Anás.
Jesus conhecia essa situação, assim como todo o povo. Mas o poder e a tirania
desses indivíduos eram tais que ninguém ousava levantar sua voz contra aquela
profanação à Casa de Deus.
Nesse ambiente, entre pregões, regateios, discussões e o incessante vaivém de
centenas de judeus, o Nazareno, como era de seu costume, dispôs-se, naquela
manhã de segunda-feira, 3 de abril, a dirigir sua palavra aos numerosos crentes e
seguidores que se iam congregando próximo às bancas de mercadores e “cambistas”.
O Mestre iniciou sua pregação, mas logo sua voz potente foi sufocada por dois
fatos que iriam precipitar os acontecimentos. Em uma das mesas de câmbio,
colocada bem próxima à escadaria em que o rabi se sentara, um judeu de
Alexandria se pôs a discutir acaloradamente com o encarregado do negócio. O
peregrino, com razão, protestava contra a abusiva comissão que o “cambista”
pretendia cobrar. A querela subiu de tom e a turba foi se aglomerando em torno
dos dois hebreus vociferantes.
Como se aquele tumulto não bastasse, nesse mesmo instante irrompeu na
esplanada uma manada de bois – pouco mais de uma centena –, que era
conduzida, através do átrio, para os currais situados na ala norte, junto à porta
Probática. Os animais, de propriedade do Templo, destinavam-se a ser queimados
nos próximos sacrifícios e, por isso, seriam guardados, como de costume, em
estábulos anexos ao átrio dos Gentios. Por causa daqueles bramidos e da cada vez
mais exaltada contenda entre o “cambista”, o judeu e todos aqueles que o
apoiavam, o Mestre optou por fazer uma pausa e esperar. Seus discípulos
guardavam uma distância de quinze a vinte passos e estavam silenciosos. Mas
aquela violenta discussão, longe de acalmar-se, cresceu. A aglomeração era tão
compacta que tornava quase impossível que o jovem pastor pudesse manter o
domínio dos bois, que se acabaram dispersando entre as bancas. Nisso, enquanto o
Nazareno esperava, impassível, um terceiro fato veio provocar a faísca final. Entre
os judeus que pretendiam ouvir Jesus, estava um galileu, velho amigo do Mestre.
(Depois eu soube que havia conversado com o rabi durante sua estada em Iron.)
Esse humilde granjeiro tinha começado a ser molestado por um grupo de
peregrinos procedentes da Judeia. Entre empurrões e cotoveladas, os arrogantes
indivíduos caçoavam de sua credulidade. Quando o gigante percebeu essa última
cena, ante o assombro de seus discípulos e de todos os que estavam presentes,
soltou o manto, deixando-o cair sobre os degraus da escadaria, saiu ao encontro do
pastor e arrebatou-lhe o látego de cordas. Com segurança inaudita, o Galileu foi
reunindo os bois e os tirou do Templo entre brados potentes e golpes estalantes do
látego sobre o piso da esplanada. Quando a multidão viu o Mestre tanger o gado,
ficou eletrizada. Mas isso não foi tudo. Concluída a operação de “limpeza”, Jesus de
Nazaré abriu passagem majestosamente entre o povo e, em grande passadas,
látego na mão esquerda, tomou a direção dos currais situados do outro lado do
átrio dos Gentios, ao pé da fortaleza Antônia.
Aquilo era inédito para mim; então corri atrás do Mestre. Ao chegar aos
estábulos, Jesus, com uma frieza que me deixou sem fala, foi abrindo os portões,
um atrás do outro, incitando bois, bodes e cordeiros a se dispersarem. Em poucos
segundos, centenas de animais irromperam o átrio. E o rabi, com a mesma decisão
e destreza com que havia tangido para fora do Templo a primeira manada, dirigiu
aqueles animais em direção às mesas e postos de venda dos “cambistas” e
“intermediários”. Como era de esperar, o estouro provocou o pânico entre os judeus, que, na fuga atropelada, derrubaram uma infinidade de tendas. Os bois,
por sua vez, acabaram por pisotear as bancas, derramando numerosos cântaros de
azeite e sal.
A confusão foi aproveitada por numerosos peregrinos, que passaram a derrubar
as poucas mesas que ainda restavam de pé. Em questão de minutos, o comércio
havia sido materialmente varrido, para regozijo de milhares de judeus que odiavam
aquela permanente profanação. Quando os soldados romanos chegaram, tudo
estava em silêncio e aparentando completa tranquilidade.
Jesus de Nazaré, que não havia tocado com o látego um só hebreu, nem
derrubado mesa alguma – disso posso dar fé, pois estive muito perto do Mestre –,
voltou para o alto da escadaria e, dirigindo-se à multidão, gritou:
– Vós haveis sido testemunhas, hoje, do que está escrito nas Escrituras: “Minha
casa será chamada uma casa de oração para todas as nações, mas vós haveis feito
dela um covil de ladrões”.
Minha surpresa chegou ao máximo quando, antes que o rabi concluísse suas
palavras, um grupo de jovens judeus se destacou da multidão aplaudindo Jesus e
entoando hinos de agradecimento por sua audácia e coragem.
Aquele episódio, certamente, nada tinha a ver com o que se conta nos
Evangelhos e onde, diga-se de passagem, o Messias aparece como um indivíduo
colérico, capaz de golpear e açoitar as pessoas. Como já mencionei, Jesus havia
pregado muitas outras vezes naquela mesma esplanada do Templo, e jamais tinha
se comportado daquele modo. Ele conhecia perfeitamente os cambalachos e os
roubos que se registravam todos os dias no átrio dos Gentios e, não obstante,
jamais se manifestara violentamente contra essa situação. Se, naquela manhã de
segunda-feira, provocara o estouro do gado, isso só se dera, em minha opinião,
como fruto de circunstâncias concretíssimas e de uma situação insustentável.
Quem não poderia faltar, obviamente, eram os responsáveis pelo Templo. Ao
tomarem conhecimento do incidente, acudiram apressados até onde estava Jesus e
o interrogaram severamente:
– Não ouviste o que dizem os filhos dos levitas?
Jesus respondeu-lhes:
– Nas bocas dos meninos e das criancinhas se aperfeiçoam os louvores.
Os jovens intensificaram então seus cânticos e aplausos e, com isso, obrigaram
os fariseus a se retirarem. A partir daí, grupos de peregrinos postaram-se nos
portões de acesso ao Templo, impedindo que se pudessem restabelecer a troca de
moedas e as vendas dos “intermediários”. Os jovens não consentiram sequer que
uma simples vasilha fosse transportada pela esplanada.
Talvez o mais triste e desolador naquele incidente tenha sido a atitude dos
doze. Durante a calorosa intervenção do Mestre, o grupo permaneceu quase
encolhido em um canto, sem levantar um único dedo para ajudar ou proteger
Jesus. Essa nova e surpreendente ação do Galileu lhes havia causado total
decepção.
Mas se era visível a confusão dos discípulos de Cristo, a dos chefes do Templo,
escribas e fariseus não era menor. Aquela havia sido a gota d’água que esgotara a
paciência deles. Aproveitando que José de Arimateia, Nicodemos e outros amigos
de Jesus não estavam presentes, o Sinédrio realizou uma reunião de emergência
para avaliar a situação. Era preciso deter o “impostor” sem perda de tempo. Mas
como e onde? Os escribas e os demais sacerdotes percebiam que a multidão se
inclinava para o Galileu. Havia, além disso, outro fator que não podiam perder de
vista: a presença do governador romano Pôncio Pilatos em Jerusalém. Se a prisão
de Jesus fosse feita à luz do dia, à vista de milhares de peregrinos chegados de
todos os rincões da Palestina e do estrangeiro, poderia haver uma revolta
generalizada. E isso acarretaria, com toda a certeza, uma violenta repressão por
parte das forças romanas aquarteladas na fortaleza Antônia e no acampamento
provisório levantado pelos soldados a noroeste da cidade, nas imediações das
piscinas de Bezatá. Que podiam fazer então?
Durante horas, os membros do Sinédrio discutiram sobre a fórmula ideal de
capturar Jesus. Não chegaram, porém, a um acordo. A única resolução válida foi
criar cinco grupos de peritos – especialmente escribas64 e fariseus – que seguissem
os passos de Jesus e tentassem confundi-lo e ridicularizá-lo em público, desfazendo
assim seu prestígio e sua influência entre os mais simples.
Seguindo essa instrução, por volta das duas da tarde um desses grupos
encaminhou-se até o lugar onde Jesus havia feito sua pregação. E no seu estilo
característico – soberbo e autoritário –, um deles perguntou ao Mestre:
– Com que autoridade fazes essas coisas? Quem te deu semelhante
autoridade?
Eles sabiam que o Nazareno não havia passado pelas obrigatórias escolas
rabínicas e que, portanto, seus ensinamentos – e o próprio título de “rabi” que
muitos lhe atribuíam – não eram corretos do ponto de vista da mais estrita pureza
legal.
Mas Jesus – com a agilidade de reflexo que o caracterizava – respondeu-lhes
com outra interrogação:
– Eu também gostaria de vos fazer outra pergunta. Se me responderdes, eu vos
direi com que autoridade faço estes trabalhos. Dizei-me: o batismo de João de
onde vinha? João obteve sua autoridade do céu ou dos homens?
Os escribas e fariseus formaram um círculo entre si e passaram a deliberar em
voz baixa, enquanto Jesus e a multidão esperavam em silêncio.
Haviam pretendido encurralar Jesus e agora eram eles que se viam em
situação embaraçosa. Por fim, voltando-se para o Nazareno, replicaram:
– Com respeito ao batismo de João, não podemos responder. Não sabemos...
A razão daquela negativa era bem clara. Se afirmassem “do céu”, Jesus poderia
responder-lhes: “Por que então não credes nele?”. Além disso, nesse caso, o Mestre
poderia acrescentar que sua autoridade procedia de João. Se, ao contrário, os
escribas respondessem “dos homens”, aquela multidão – que considerava João um profeta – poderia lançar-se sobre os sacerdotes...
A estratégia de Cristo, uma vez mais, havia sido brilhante e categórica. E o
rabi, olhando-os fixamente, acrescentou:
– Pois eu também não vos direi com que autoridade faço o que faço...
Os hebreus caíram em ruidosas gargalhadas, ante a impotência dos “máximos
mestres” de Israel, vermelhos de ira e de vergonha.
Jesus encarou então os que haviam tentado confundi-lo e lhes disse:
– Como estais em dúvida sobre a missão de João e contestais os ensinamentos
e feitos do Filho do Homem, prestai atenção enquanto vos conto uma parábola.
Certo grande e respeitoso latifundiário tinha dois filhos. Desejando que o
ajudassem na administração de suas terras, chamou um deles e lhe disse: “Filho,
vai trabalhar hoje na vinha”. E este filho, sem pensar, respondeu ao pai: “Não
quero ir”. Mas logo se arrependeu e foi. Quando o pai encontrou o segundo filho,
disse-lhe: “Filho, vai trabalhar na vinha”. E este filho, hipócrita e desleal, disse-lhe:
“Sim, pai, já vou”. Mas quando seu pai se afastou, ele não foi para a vinha. Deixai-
me perguntar: qual desses filhos fez realmente a vontade do pai?
Todas as pessoas, como um só homem, responderam:
– O primeiro filho.
Jesus replicou então olhando para os sacerdotes:
– Pois assim eu declaro que os taberneiros e as prostitutas, ainda que pareçam
recusar o apelo do arrependimento, enxergarão o erro de seu caminho e entrarão
no reino de Deus antes de vós, que tendes grandes pretensões de servir ao Pai do
Céu, mas rechaçais os trabalhos do Pai. Não fostes vós, escribas e fariseus, que
crestes em João, mas sim os taberneiros e as prostitutas. Tampouco credes em
meus ensinamentos, mas as pessoas simples ouvem minha palavra com satisfação.
Aquela segunda ridicularização pública obrigou os escribas e fariseus a dar
meia-volta e entrar no Santuário. E o Mestre continuou em paz sua pregação,
fazendo a multidão se deliciar.
Por meio de José de Arimateia soubemos que a cólera dos sacerdotes havia
chegado a tal paroxismo que pouco faltara para que os levitas prendessem Jesus
naquela mesma manhã. Mas a entrada em cena dos saduceus,65 que constituíam
maioria no Sinédrio, retardara novamente os planos dos inimigos de Cristo. Essa
casta havia recebido mal o desmantelamento das bancas dos “cambistas” e
“intermediários”, e, pela primeira vez, seus membros davam apoio aos planos dos
fariseus para eliminar Jesus. Isso significou maioria absoluta na hora de decidir e
condenar o rabi da Galileia.
Enquanto isso, Jesus havia desenvolvido uma segunda parábola – a do rico
proprietário que chegou a enviar seu próprio filho para convencer os rebeldes
trabalhadores de sua vinha a lhe entregarem sua renda –, perguntando aos
ouvintes como deveria proceder o dono da vinha com aqueles malvados
arrendatários.
– Destruir esses miseráveis – respondeu a multidão – e arrendar os vinhedos a outros granjeiros honestos que lhe dessem seus frutos a cada estação.
Muitos dos presentes compreenderam o sentido da parábola e exclamaram em
voz alta:
– Que Deus perdoe a quem continua fazendo essas coisas!
Mas alguns dos fariseus não se deram por vencidos e voltaram ao ponto em
que Jesus pregava. O Mestre, ao vê-los, lhes disse:
– Vós sabeis que vossos irmãos repeliram os profetas e sabeis bem que estais
decididos a repelir o Filho do Homem. – Após alguns instantes de silêncio, seu olhar
ficou mais intenso e ele acrescentou: – Nunca lestes na Escritura sobre a pedra que
os construtores desprezaram e que, quando as pessoas a descobriram, fizeram dela
a pedra angular? Uma vez mais vos advirto. Se continuardes refutando o
Evangelho, o reino de Deus será levado para longe de vós e entregue a outros,
desejosos de receber boas novas e levar adiante os frutos do espírito. Eu vos digo
que existe um mistério sobre essa pedra: quem cair sobre ela, ainda que seja feito
em pedaços, salvar-se-á. Mas aquele sobre quem cair a pedra chamada angular
será moído até tornar-se pó. E suas cinzas serão dispersadas aos quatro ventos.
Nessa altura, os escribas e chefes nem tentaram replicar. E o Mestre prosseguiu
em sua pregação contando uma terceira parábola: a do banquete de casamento.
Quando terminou, Jesus ficou de pé e se dispôs a despedir-se da multidão.
Nesse instante, porém, um dos crentes alçou a voz e interrogou o rabi:
– Mas, Mestre, como saberemos essas coisas? Que sinal nos darás pelo qual
saibamos que tu és o Filho de Deus?
Fez-se novo e espesso silêncio. Os fariseus aguçaram os ouvidos e, quando já
pensavam que o “impostor” havia caído em sua própria armadilha, o Galileu, com
voz sonora, apontando com o dedo indicador esquerdo para o próprio peito,
afirmou:
– Destruí este Templo e em três dias eu o reerguerei.
Jesus deu por concluída sua prática e desceu as escadarias, convidando os
discípulos a segui-lo.
A multidão começou a se dispersar, em meio aos mais variados comentários.
Evidentemente, pelo que pude ouvir, não haviam compreendido o verdadeiro
significado daquela última e lapidar frase de Jesus.
– O Templo foi construído em quase cinquenta anos – diziam-se uns aos outros
– e ele diz que o destruirá e levantará em três dias?
Decerto nem mesmo os discípulos captaram o pensamento do rabi. Só depois –
muito depois da ressurreição – é que a luz se fez em seus corações.
Por volta das quatro horas da tarde, o grupo deixava de novo Jerusalém, rumo
a Betânia.
Enquanto subíamos o monte das Oliveiras pela encosta ocidental e assim
cortando caminho para a aldeia de Lázaro, Jesus deu instruções a André, Tomé e
Felipe para que, a partir do dia seguinte, terça-feira, os discípulos preparassem um
acampamento nas cercanias da Cidade Santa. Aquilo revelava a intenção do Mestre de instalar seu lugar de repouso não mais em Betânia, mas sim nos limites de
Jerusalém. Mas por quê? Que nos reservaria o destino naqueles dias – terça e
quarta-feira – tão pouco conhecidos das atividades do Mestre?
A inesperada decisão de Jesus – não prevista, é claro, em nosso programa de
trabalho, já que os textos evangélicos e os apócrifos não fazem menção a esse
“acampamento” – iria precipitar meu retorno ao módulo, fixado pela Operação
Cavalo de Troia para o entardecer de quarta-feira, 4 de abril.
Poucas horas depois, precisamente ao anoitecer da mesma terça-feira, e diante
do que ocorrera, comecei a compreender por que o rabi havia dado aquela ordem...
Pela segunda vez, e quando caminhávamos rumo a Betânia, tive a
oportunidade de comprovar que quase todos os homens de confiança de Jesus não
haviam entendido a mensagem nem as intenções do Nazareno. Seus comentários,
mas sobretudo seu silêncio, refletiam uma profunda confusão. A magnífica ação do
Mestre ao longo daquela manhã de segunda-feira, arruinando o sacrílego comércio
dos “cambistas” e “intermediários” do Templo, lhes havia devolvido as esperanças
de um Jesus poderoso, capaz de instaurar um “reino terreno e político” em Israel.
Mas, ao chegar a tarde, a refutação de seus ensinamentos pelos sacerdotes judeus
os lançara de novo na incerteza. Aqueles homens pressentiam algo. Apesar de seu
baixo nível cultural, o permanente contato com a tensa realidade daqueles dias e
as repetidas advertências de Jesus de Nazaré sobre seu fim próximo os faziam
intuir a aproximação de uma catástrofe.
Garroteados pelo medo e pela dúvida, os discípulos dirigiram-se aos seus
lugares de descanso. Mas, segundo comprovei na manhã seguinte, muito poucos
foram os que conseguiram dormir. E naquela noite de segunda-feira, 3 de abril do
ano 30, após despedir-me temporariamente de Lázaro e sua família, voltei ao
“berço”, iniciando os preparativos da segunda fase da exploração. Sem dúvida, a
mais trágica e apaixonante de quantas haja empreendido algum homem.
A escuridão era total quando iniciei a subida do monte das Oliveiras pela
vertente oriental. Eu já havia advertido Eliseu de meu iminente retorno ao módulo,
em consequência da alteração de planos por parte do Mestre da Galileia. Estive
tentado a usar uma candeia, a fim de caminhar com mais segurança pelo caminho
que corria entre os olivais. Mas um senso elementar de prudência demoveu-me da
ideia.
O eco do microtransmissor instalado na fivela de meu manto chegava
nitidamente até o “berço”. Isso me tranquilizou. Meu objetivo naquele momento
era alcançar a parte superior do monte, à direita da vereda. Uma vez localizada a
clareira pedregosa onde estava pousado o módulo, Eliseu se encarregaria de me
conduzir por meio da “conexão auditiva”. Uma hora antes, quando regressávamos
para Betânia, eu já havia procurado ficar para trás, amarrando em um ramo de
arbusto – justamente no cume da colina – o pequeno lenço branco que me serviu
para enxugar o suor e que eu, como faziam os próprios hebreus, levava
permanentemente no pulso direito.
Tal como eu presumia e com natural alívio para mim, não cheguei a cruzar com
um único caminhante. Ao distinguir o lenço, que ondulava suavemente ao vento,
acelerei o passo. E depois de retirá-lo da oliveira silvestre, abandonei o caminho e
me internei entre as árvores, na direção norte. À minha esquerda, a boa distância,
divisavam-se as luzes amareladas e bruxuleantes da Cidade Santa. Uma meia-lua
surgia em intervalos de tempo entre as nuvens compactas, facilitando
consideravelmente minha aproximação da nave. Em poucos minutos eu estava na
clareira e divisava o suave promontório pedregoso sobre o qual sabia estar
pousado o módulo. Eliseu, em permanente conexão, ia controlando meus passos e
corrigindo pela tela de radar alguns de meus inevitáveis desvios de rumo. Quando
penetrei na zona de segurança do módulo, a uns 150 pés do “ponto de contato”,
meu companheiro anunciou-me que procederia a uma parcial desconexão da
camuflagem infravermelha, para tornar visíveis os pés de sustentação do “berço’’ e,
com isso, apressar meu ingresso na nave.
Prontamente, em meio à escuridão e como que cravados nas rochas,
apareceram quatro longos tubos, que apontavam como fantasmas azulados para a
imensidão do céu. Simultaneamente, com um suave assopro, o sistema hidráulico
fez descer a escadinha de alumínio. Sem perda de tempo, introduzi-me no trem de
aterrissagem do “berço” e dali para o interior do módulo. Suponho que, se alguém
me tivesse visto naquele momento, subindo por uma escada que aparentemente
não conduzia a parte alguma e desaparecendo progressivamente, primeiro a
cabeça, os ombros e os braços, e depois o resto do tronco, ventre, pernas etc., seu
susto teria sido considerável. E certamente acreditaria haver presenciado uma
aparição sobrenatural...
Meu encontro com Eliseu foi especialmente tenso e emotivo.
Depois que entrei no “berço”, meu companheiro camuflou de novo o trem de
sustentação, assegurou-se de que tudo estava calmo em torno da nave, e então
nos dispusemos a rever e a executar a segunda fase da operação.
Meu ingresso na nave se dera às 20h05. Isso significava que eu dispunha de
umas nove horas até minha reincorporarão ao grupo de Jesus, prevista, segundo a
equipe da Operação Cavalo de Troia, para as seis e meia da manhã do dia
seguinte, terça-feira, 4 de abril.
Depois que me lavei e mudei de roupa – mas não de calçado –, Eliseu
entregou-me o que familiarmente conhecíamos como a “vara de Moisés”: o único
instrumental autorizado fora do “berço” e que iria desempenhar papel fundamental
em minha exploração seguinte. Em especial, a partir da prisão do Nazareno, na
noite de quinta-feira, 6 de abril. Obviamente, para uma “viagem” daquela natureza,
os homens do general Curtiss haviam previsto, ao menos para as horas de máxima
tensão, a filmagem dos principais acontecimentos: a noite da chamada Quinta-
Feira Santa, a Sexta e o Domingo da Ressurreição.
Além da filmagem, a Operação Cavalo de Troia tinha especial interesse no
exaustivo acompanhamento – minuto a minuto – das torturas que o Nazareno sofreria, assim como de suas horas na cruz. O acompanhamento seria mantido por
meio de duas fontes: uma, o meu próprio testemunho pessoal; a outra, e a mais
importante, um delicado equipamento capaz de, a um só tempo, filmar e checar os
fatos de um ponto de vista estritamente médico.
Como é natural, essas delicadas operações não podiam ser efetuadas
abertamente. Isso iria contra os princípios básicos do projeto. Era inviável,
portanto, que eu me armasse de uma câmera cinematográfica ou dos complexos
aparelhos de “rastreamento” das funções vitais do Nazareno. E como,
naturalmente, tampouco era possível a implantação, no corpo do Mestre, de cabos
ou dispositivos eletrônicos que nos permitissem um controle de suas funções
orgânicas e dos ritmos arterial e cardíaco etc., a equipe desenhara e fabricara um
sistema complexo que estava minuciosamente camuflado no que chamávamos de
“vara de Moisés”.
Esse engenho, que irei detalhando de forma progressiva, consistia em um
simples cajado de madeira de pinheiro, de 1,80 metro de comprimento por três
centímetros de diâmetro, com o correspondente arremate superior em forma de
arco.66 Para um observador qualquer, alheio aos nossos objetivos, não deveria ter
maior interesse do que qualquer vara comum e usual, como as utilizadas
habitualmente por caminhantes e peregrinos.
Em seu interior, porém, havia sido instalado um delicadíssimo equipamento. A
1,60 metro da base do bastão estavam quatro “canais” de filmagem simultânea,
com as objetivas distribuídas em “cruz”, de forma que pudessem focalizar a um só
tempo tudo que estivesse acontecendo nos 360 graus em volta. As quatro “bocas”
de filmagem, de 15 milímetros de diâmetro cada, haviam sido dissimuladas
mediante um “anel” de três centímetros de espessura, formado por um cristal
semirreflexivo, de forma a só permitir a visão de dentro para fora. Essa espécie de
braçadeira, primorosamente trabalhada por nossos técnicos, de forma a aparentar
uma simples faixa de pintura negra sobre a madeira branca, fora reforçada e
adornada com duas fileiras de cravos de cobre que afixavam fortemente. Esses
cravos, de grossa cabeça, haviam sido trabalhados de acordo com as antiquíssimas
técnicas da indústria metalúrgica descobertas por Nelson Glueck no vale de Arabá,
ao sul do mar Morto, e em Esyon-Guéber, o legendário porto marítimo de Salomão,
no mar Vermelho. Para evitar eventuais problemas, os homens de Curtiss haviam
seguido ao pé da letra as normas da Misná, ou tradição oral judaica, que na ordem
Sexta, dedicada às prescrições sobre purezas e impurezas, especifica que um
bastão pode ser susceptível de impureza “se foi adornado com três fileiras de
cravos”. Um desses cravos, de cor esverdeada mais intensa do que o resto e
ligeiramente destacado da superfície do cajado, podia ser impulsionado
manualmente, iniciando-se assim – de forma automática – a filmagem simultânea.
Bastava uma nova pressão para que o “cravo” voltasse a sua posição inicial,
interrompendo-se assim a operação.
Também para atender aos propósitos da “grande viagem”, a equipe abandonara as objetivas comumente usadas nas câmeras de filmagem, ajustando
às “bocas” do “cine” um sistema revolucionário, que, estou certo, algum dia se
imporá na atual técnica fotográfica. Dada a extrema miniaturização do sistema,
tornava-se difícil mudar as objetivas nas câmeras para permitir a tomada de
diferentes planos. Mediante uma técnica extremamente complexa, as lentes de
vidro foram substituídas pelo que poderíamos chamar de “lentes gasosas”,
susceptíveis de se transformarem (sem necessidade de troca de objetivas) em
grandes-angulares, teleobjetivas, lentes de aproximação, etc.67
Como já disse, esse dispositivo de “lentes gasosas” iria ser de suma utilidade.
Ao longo dos intensos e dramáticos acontecimentos de quinta e sexta, a mudança
instantânea de uma grande-angular pela teleobjetiva, por exemplo, iria permitir
que eu filmasse detalhes de grande importância, especialmente durante as horas
em que durou a crucificação. Ainda que eu prefira referir-me a ele mais adiante, o
processo de filmagem estava intimamente ligado a outro sistema de “exploração”
médica: a emissão infravermelha, igualmente disposta na “vara de Moisés”, mas
em um mecanismo alojado na parte superior do cajado, a 1,70 metro da base.
Tanto o equipamento de filmagem quanto o de emissão infravermelha, assim
como o de ultrassom, eram controlados pelo já mencionado microcomputador
nuclear, estrategicamente guardado na base da vara. Sua complexidade era tal
que, além das funções do controle automático da filmagem, acumulação de filames
(suficientes para 150 horas de filmagem), regulagem de emissões, recepção e
processamento de ondas ultrassônicas e radiação infravermelha – “traduzindo-as”
em imagens e sons –, alimentação de geradores de ultrafrequência etc., sua
memória de titânio68 o capacitava a controlar em cada instante até mesmo os
movimentos de turbulência em cada um dos pontos das quatro câmeras gasosas de
cinema, corrigindo-os e conseguindo perfeita estabilidade óptica.
63 Do hebreu shekel, pelo grego siklos e pelo latim siclus. (N. T.)
64 A grande diferença entre os escribas e o restante do sacerdócio – fariseus, levitas, chefes do Templo etc. – baseava-se no saber. Os escribas eram os depositários da ciência e da iniciação. Para chegar a fazer parte das chamadas “corporações de escribas”, o aspirante era obrigado a cursar numerosos estudos que se iniciavam na juventude. Quando o talmîd, ou aluno, chegasse a dominar a matéria tradicional e o método da halaja (determinadas seções da literatura rabínica de argumentos legais), até o ponto de ser considerado pessoa capacitada para tomar decisões pessoais em questões de legislação religiosa e de direito penal, então, e só então, era designado como “doutor não ordenado” ou talmîd hakam. Ao chegar aos quarenta anos – idade canônica para a ordenação –, o aspirante a escriba podia entrar na “corporação” como membro de pleno direito, ou hakam. Desde esse momento, o novo escriba estava autorizado a versar por si mesmo as questões de direito religioso ou de ritual, a ser juiz em processos penais e a decidir nos juízos civis, bem como a ser membro de uma corte de justiça ou atuar individualmente. Tinha direito ao título de “rabi”. Suas decisões tinham o poder de “atar” e “desatar” para sempre os judeus do mundo inteiro. Nicodemos, por exemplo, amigo de Jesus, era um desses prestigiosos escribas, a cuja passagem deviam levantar-se todos os filhos de Israel, menos certos profissionais artesãos. Mas aquilo que mais poder e influência lhes proporcionou entre seus patrícios foi o fato de serem portadores da “ciência secreta”, a tradição esotérica. Um dos textos dessa tradição dizia: “Não se deve explicar publicamente as leis sobre incesto diante de três ouvintes, nem a história da criação do mundo diante de dois, nem a visão do carro de fogo diante de um só, a não ser que este seja prudente e de bom senso. A quem considera quatro coisas mais lhe valera não ter vindo ao mundo, a saber: (1) o que está em cima, (2) o que está abaixo, (3) o que era antes, (4) o que será depois”. (Escrito rabínico Hagiga II, 1 e 7.) É fácil compreender a audácia de Jesus quando, em muitas de suas pregações públicas, lançou-se contra os escribas, acusando-os de haverem tomado para si as chaves da ciência, bloqueando aos homens o acesso ao reino de Deus. Aquilo era mortal. Os escribas jamais lhe perdoariam tal ridicularização. (N. do M.)
65 Naqueles tempos, o Sinédrio estava dividido, grosso modo, em dois grandes grupos: os fariseus e os saduceus. Estes últimos formavam um partido organizado, integrado fundamentalmente pela nobreza laica e sacerdotal, pelos “anciãos” ou notáveis do povo e pelos sacerdotes chefes. (O sumo sacerdote em exercício naqueles dias, José, apelidado de Caifás, era saduceu.) Sua “teologia” era distinta da dos fariseus. Atinha-se estritamente ao texto da Torá, em especial no que se referia às prescrições relativas ao culto e ao sacerdócio. Sua oposição aos fariseus e ao seu halaká, ou tradição moral, era total e até exasperada. Dispunham, além disso, de código penal próprio, de extrema severidade. É certo que muitos escribas “praticavam” a doutrina saduceia. (N. do M.)
66 O remate do cajado, “vara de Moisés”, em forma de asa encurvada, havia sido meticulosamente estudado pelo projeto Cavalo de Troia, com base em uma das minhas missões, na qual eu deveria desempenhar o papel de “áugure” ou “adivinho”. Esses “astrólogos” distinguiam-se por seu lituus: uma pequena vara com a parte superior “feito uma rosca” ou dobrada, em forma de asa encurvada ou de uma minguada espiral, tal como havíamos visto em um baixo-relevo existente no Museu de Florença, na Itália. O fato de termos escolhido a madeira de pinheiro para a confecção da “vara de Moisés” teve justificativa apenas sentimental: dessa madeira, reza a lenda, constituiu-se o “cavalo de Troia”, que o exército heleno colocou na frente das portas de Troia. (N. do M.)
67 Ainda que eu vá tentar não me estender na vastidão de fatores técnicos que formavam o novíssimo sistema das “lentes gasosas”, quero oferecer algumas de suas características mais gerais, consciente de que isso talvez possa servir de “pista” aos pesquisadores e profissionais do mundo da fotografia, já que, como temo, esse magnífico processo não será dado a conhecer ao mundo tão cedo. A chave, ou fundamento, encontra-se no fenômeno da refração da luz. Sabe-se que quando um raio de luz passa de um meio transparente a outro de natureza e densidade diferentes sofre uma mudança de direção. Toda a teoria óptica geométrica tende à análise dessas alterações no caso de “dióptricos” ou lentes, ou diferentes tipos de superfícies reflexivas ou espelhos. Em outras palavras: os técnicos conseguem integrar a imagem visual de um objeto luminoso qualquer refratando os raios de luz por meio de um objetivo de perfil estudado cuidadosamente e de composição química definida, a que chamam “lente”, ainda que de estrutura rígida. No entanto, o fenômeno da refração é provocado também em um meio elástico, como é o caso de um gás. As “lentes gasosas” partem, em suma, desse princípio, que em parte lembra o mecanismo fisiológico do olho, no qual a “lente” – o cristalino – não é rígida, mas elástica. Pois bem, nossas câmaras substituíram esses meios – rígido (vidro) ou semielástico (gelatina) – por um meio gasoso, de refringência variável. Comento outro exemplo: em um recipiente cheio de ar, aquecido na parte inferior e refrigerado na superior, as camadas inferiores serão menos densas do que as superiores. Nesse caso, por causa da dilatação térmica do gás, um raio de luz sofrerá sucessivas refrações, curvando-se para cima. Se invertermos o processo, o raio se curvará para baixo. A equipe do Cavalo de Troia, com base nesses princípios, conseguiu um controle de temperatura muito preciso nos diversos pontos de uma massa sólida, líquida, gasosa ou de transição. Isso se conseguiu emitindo-se dois feixes de ondas ultracurtas, que esvaziaram o gradiente de temperatura em um ponto concreto “T” de uma massa de gás. Quer dizer, obteve-se um aquecimento de pequena parte de gás nessa zona. Por esse procedimento, pode-se aquecer, por exemplo, a totalidade de um recipiente, deixando-se no interior uma massa de gás frio que adota uma forma lenticular e que pode ser alterada, conseguindo-se mudança em sua espessura e forma óptica. A luz que atravessa essa massa previamente “trabalhada” de gás frio seguirá direções definidas, de acordo com as leis ópticas universais. Essa foi a chave para substituir de uma vez por todas as lentes tradicionais de vidro pelas gasosas. Essas lentes revolucionárias são criadas no interior de um cilindro transparente, de paredes muito delgadas, e cheio de gás nitrogênio. Uma série de 1.200 radiadores de alta frequência, distribuída perifericamente, aquece à vontade, e em várias temperaturas, os diferentes pontos da massa gasosa, conseguindo-se desde um simples menisco lenticular de luminosidade f:32 até um complexo sistema equivalente, por exemplo, a uma teleobjetiva ou a uma grande-angular de 180 graus. Essas “câmaras” não dispõem de diafragma, posto que a luminosidade “óptica” varia à vontade. O filme, de selênio, carregado eletrostaticamente, fixa nele uma imagem elétrica que substitui a imagem química. Esse filme é formado por cinco lâminas superpostas transparentes, cuja sensitometria é calculada para fixar outras imagens de diferentes comprimentos de onda. Além de uma segunda câmara de gás xenônio, para novo e complicado tratamento óptico das imagens (criando de modo instantâneo uma espécie de prisma de reflexão), nossas câmaras de lentes gasosas são alimentadas por um minúsculo computador nuclear, que constitui o “cérebro” do aparelho. Esse microcomputador, provido também de memória de titânio, rege o funcionamento de todas as suas partes, programando os diversos tipos de sistemas ópticos no cilindro de gás e levando em conta todos os fatores físicos que intervêm: intensidade e brilho da imagem, distâncias focais, distância do objeto para seu correspondente enfoque, profundidade de campo, filtragem cromática, ângulo do campo visual etc. (N. do M.)
68 É possível que muitas pessoas se perguntem como se pôde conseguir um microcomputador nuclear de dimensões tão reduzidas que permitisse que ele fosse alojado no interior de uma vara de trinta milímetros de diâmetro. Embora não esteja autorizado a descrevê-lo integralmente, esboçarei algumas de suas características essenciais. Em geral, os dispositivos amplificadores de voltagem ou de intensidade dos computadores atuais são baseados na propriedade da emissão catódica do vácuo, controlada por um elétron auxiliar, ou nas características do estado sólido, como no caso dos diodos e transmissores de germânio e silício. Mas tais circuitos não amplificam a energia. E mais: a potência de saída é sempre menor do que a de entrada (rendimento menor que a unidade). Apenas amplificam a tensão, à custa de energia gerada em uma fonte energética auxiliar: pilha ou retificador de corrente alternada. Por sua vez, os elementos dos computadores do Cavalo de Troia (amplificadores nucleicos) têm características distintas. Em primeiro lugar, a base não é eletrônica – nem de vácuo ou de estado sólido (cristal) –, mas nucleica. Uma débil energia de entrada (nêutrons ou prótons unitários incidindo sobre uns poucos átomos) provoca, por fissão do núcleo, uma grande energia. O rendimento, portanto, é muito maior do que a unidade. À saída do amplificador elementar obtemos essa energia sob forma não elétrica, mas térmica, ainda que em um processo posterior esse calor se transforme em energia elétrica. E como a base desses elementos é puramente atômica – e como entram em jogo não trilhões de átomos, mas algumas poucas unidades –, o grau de miniaturização é extraordinário, conseguindo-se armazenar circuitos muito complexos em volumes reduzidíssimos. (N. do M.)