Cidade dos Ossos
11. Magnus Bane
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Magnus Bane
Jace se inclinou para a frente e bateu a cabeça na divisão que o separava do motorista do táxi.
— Vire à esquerda! Esquerda! Eu disse para pegar a Broadway, seu idiota!
O taxista reagiu girando o volante com tanta força para a esquerda que Clary foi jogada contra Jace. Ela soltou um suspiro de raiva.
— Por que estamos indo pela Broadway?
— Estou morrendo de fome — disse Jace. — E não tem nada em casa além de resto de comida chinesa. — Ele tirou o telefone do bolso e começou a discar. — Alec! Acorda! — ele gritou. Clary podia ouvir um zumbido irritado do outro lado da linha. — Vá nos encontrar no Taki’s. Café da manhã. É. Você ouviu. Café da manhã. O quê? São só alguns quarteirões. Vamos.
Ele desligou e colocou o telefone em um dos muitos bolsos enquanto encostavam. Entregando ao motorista um punhado de notas, Jace empurrou Clary para fora do carro. Quando pisou na rua, ele se esticou como um gato e abriu os braços.
— Bem-vinda ao melhor restaurante de Nova York!
Não parecia grande coisa — um prédio baixo de tijolos, arqueado no meio como um suflê murcho. Um sinal de néon com o nome do restaurante pendurava-se de lado e estava falhando. Dois homens de casacos longos e chapéus encontravam-se na entrada estreita. Não havia janelas.
— Parece um presídio — disse Clary.
Ele apontou para ela.
— Em um presídio, você pode pedir um espaguete fra diavolo que a faça lamber os beiços? Acho que não.
— Não quero espaguete. Quero saber o que é Magnus Bane.
— Não é o quê. É quem — disse Jace. — É um nome.
— Você sabe quem ele é?
— É um feiticeiro — respondeu Jace com a voz mais sensata possível. — Só um feiticeiro poderia ter posto um bloqueio desse na sua mente. Ou um dos Irmãos do Silêncio, mas claramente não foram eles.
— Ele é um feiticeiro do qual você já tenha ouvido falar? — perguntou Clary, que já estava se cansando da voz sensata de Jace.
— O nome soa familiar...
— Ei! — Era Alec, com cara de que havia levantado da cama e vestido a calça jeans por cima do pijama. O cabelo, despenteado, completamente rebelde. Ele caminhou em direção a eles, com os olhos fixos em Jace, ignorando Clary, como sempre. — Izzy está a caminho — ele disse. — Está trazendo o mundano.
— Simon? De onde ele veio? — perguntou Jace.
— Ele apareceu hoje pela manhã. Não conseguiu ficar longe da Izzy, eu acho. Patético. — Alec parecia entediado. Clary queria chutá-lo. — E então, vamos entrar ou não? Estou morrendo de fome.
— Eu também — disse Jace. — Alguns rabos de rato fritos cairiam bem.
— Alguns o quê? — perguntou Clary, certa de que tinha ouvido errado.
Jace sorriu para ela.
— Relaxa — ele disse. — É só um jantar.
Eles foram parados na porta da frente por um dos homens. Enquanto ele se recompunha, Clary conseguiu enxergar o rosto dele sob o chapéu. A pele tinha uma tonalidade vermelho-escura, e as mãos quadradas acabavam em unhas em tom preto-azulado. Clary se sentiu enrijecer, mas Jace e Alec pareciam despreocupados. Disseram alguma coisa para o homem, que acenou e deu um passo para trás, permitindo que passassem.
— Jace — sibilou Clary enquanto a porta fechava atrás deles. — Quem era ele?
— Está falando do Clancy? — perguntou Jace, olhando em volta do restaurante iluminado. Era agradável do lado de dentro, apesar da ausência de janelas. Cabines de madeira aconchegantes apoiadas umas nas outras, cada qual alinhada com almofadas brilhantes. Louças descombinadas cobriam o balcão, atrás do qual havia uma garota loura com um avental de garçonete rosa e branco, contando rapidamente o troco de um homem robusto de camisa de flanela. Ela viu Jace, acenou e assinalou que deveriam sentar onde quisessem. — Clancy espanta os indesejáveis — disse Jace, conduzindo-a a uma das cabines.
— Ele é um demônio — Clary sibilou. Diversos clientes viraram para olhar para ela, um menino com cabelo arrepiado e azul estava sentado com uma menina indiana linda, com longos cabelos negros e asas douradas brotando das costas. O menino franziu o rosto sombriamente. Clary sentiu-se aliviada com o fato de o restaurante estar praticamente vazio.
— Não é, não — disse Jace, acomodando-se na cabine. Clary foi para o assento ao lado dele, mas Alec já estava lá. Ela se acomodou delicadamente no banco em frente a ele, com o braço ainda rígido, apesar dos cuidados de Jace. Ela se sentia vazia por dentro, como se os Irmãos do Silêncio a tivessem alcançado e recolhido suas entranhas, deixando-a leve e tonta. — Ele é um ifrit — explicou Jace. — São feiticeiros sem mágica. Semidemônios que não conseguem lançar feitiços de forma alguma.
— Coitados — disse Alec, pegando o cardápio. Clary também pegou o dela e olhou. Gafanhotos com mel faziam parte dos especiais do dia, assim como pratos de carne crua, peixe cru inteiro e alguma coisa chamada sanduíche de morcego torrado. Uma página da seção de bebidas era dedicada a diferentes tipos de sangue que tinham em barril; para alívio de Clary, eram diferentes tipos de sangue animal, e não tipo A, tipo O, ou tipo B negativo.
— Quem come peixe cru inteiro? — ela perguntou em voz alta.
— Kelpies — disse Alec. — Selkies. Talvez até nixies.
— Não peça nenhuma das comidas de fadas — disse Jace, olhando por cima do cardápio. — Em geral, deixam humanos um pouco doidos. Uma hora você está comendo uma ameixa de fada, e de repente está correndo nu pela Madison Avenue com a calça na cabeça. Não que isso — acrescentou repentinamente — já tenha acontecido comigo.
Alec riu.
— Você se lembra... — Ele começou, iniciando uma história que continha tantos nomes e pronomes pessoais misteriosos que Clary nem se incomodou em tentar acompanhar. Em vez disso, ela estava olhando para Alec, observando-o enquanto conversava com Jace. Havia uma energia cinética, quase febril, em Jace que o afiava e o colocava em foco. Se ela fosse desenhá-los juntos, pensou, faria Jace, um pouco embaçado, e Alec ficaria em destaque, acentuado, em planos e ângulos claros.
Jace estava olhando para baixo enquanto Alec falava, com um leve sorriso, batucando na água com a unha. Ela sentiu que ele estava pensando em outras coisas. Sentiu uma leve onda de solidariedade por Alec. Não podia ser fácil gostar de Jace. Estava rindo porque declarações de amor me entretêm, sobretudo quando não há recíproca.
Jace levantou os olhos quando a garçonete passou.
— Vamos conseguir um café alguma hora? — ele disse em voz alta, interrompendo Alec.
Alec baixou o tom de voz, a energia se esvaindo.
— Eu...
Clary falou repentinamente.
— E essa carne crua toda, para que serve? — perguntou, apontando para a terceira página do cardápio.
— Lobisomens — disse Jace. — Apesar de que, de vez em quando, eu também gosto de uma carne sangrenta. — Ele alcançou o cardápio de Clary do outro lado da mesa e passou as páginas. — A parte de comidas humanas fica no final.
Ela examinou o cardápio perfeitamente normal com assombro. Tudo isso era demais.
— Eles têm vitaminas aqui?
— Tem uma vitamina de damasco com ameixa e mel que é simplesmente divina — disse Isabelle, que havia aparecido com Simon ao lado. — Chega pra lá — ela disse para Clary, que se aproximou tanto da parede que podia sentir os tijolos frios pressionarem seu braço. Simon, sentando ao lado de Isabelle, esboçou um sorriso para ela que não foi retribuído. — Você deveria tomar uma.
Clary não teve certeza se Isabelle estava falando com ela ou com Simon, então não disse nada. O cabelo de Isabelle esbarrou no rosto dela, e tinha cheiro de alguma espécie de perfume de baunilha. Clary conteve o impulso de espirrar. Ela detestava perfume de baunilha. Nunca havia entendido a necessidade de algumas garotas cheirarem a sobremesas.
— E como foi na Cidade dos Ossos? — perguntou Isabelle, abrindo o cardápio. — Descobriram o que há na cabeça de Clary?
— Conseguimos um nome — disse Jace. — Magnus...
— Cale-se — sibilou Alec, atacando Jace com o cardápio fechado.
Jace pareceu ferido.
— Jesus. — Ele esfregou o braço. — Qual é o seu problema?
— Este lugar é cheio de habitantes do Submundo. Você sabe disso. Acho que deve manter os detalhes da nossa investigação em segredo.
— Investigação? — Isabelle riu. — Agora somos detetives? Talvez devêssemos ter codinomes.
— Boa ideia — disse Jace. — Serei o Barão Hotschaft Von Hugenstein.
Alec cuspiu a água de volta no copo. Naquele instante, a garçonete chegou para anotar o pedido. De perto, ela ainda era uma menina loura bonita, mas tinha olhos inquietantes, inteiramente azuis, sem parte branca ou pupila. Ela sorriu com dentes afiados.
— Já sabem o que vão querer?
Jace sorriu.
— O de sempre — ele disse e, como resposta, obteve um sorriso da garçonete.
— Eu também — disse Alec, mas ele não ganhou sorriso nenhum. Isabelle pediu uma vitamina de frutas, Simon, um café, e Clary, após um instante de hesitação, optou por um café grande e panquecas de coco. A garçonete deu uma piscadela com o olho azul e saiu.
— Ela também é ifrit? — perguntou Clary, observando-a ir.
— Kaelie? Não. Parte visionária, eu acho — disse Jace.
— Ela tem olhos de nixie — Isabelle disse pensativamente.
— Você realmente não sabe o que ela é? — perguntou Simon.
Jace balançou a cabeça.
— Respeito a privacidade dela. — Ele cutucou Alec com o cotovelo. — Ei, me deixa sair um instante.
Fazendo careta, Alec chegou para o lado. Clary observou Jace enquanto ele foi até Kaelie, que estava apoiada no bar, falando com o cozinheiro através da passagem para a cozinha. Só o que Clary podia ver do cozinheiro era uma cabeça abaixada em um chapéu branco de chefe de cozinha. Orelhas altas e peludas saíam por buracos de cada lado do chapéu.
Kaelie virou-se para sorrir para Jace, que pôs o braço em volta dela. Ela se acomodou. Clary imaginou se era isso que ele queria dizer com respeitar a privacidade dela.
Isabelle revirou os olhos.
— Ele não deveria ficar provocando a garçonete desse jeito.
Alec olhou para ela.
— Você acha que ele não está sendo sincero? Sobre ela, quero dizer.
Isabelle deu de ombros.
— Ela vem do Submundo — disse Isabelle, como se isso explicasse tudo.
— Não entendo — disse Clary.
Isabelle olhou para ela sem interesse.
— Não entende o quê?
— Essa coisa de Submundo. Vocês não caçam os habitantes de lá, porque não são exatamente demônios, mas também não são pessoas. Vampiros matam, bebem sangue...
— Só vampiros desonestos bebem sangue de pessoas — interrompeu Alec. — E estes, nós podemos matar.
— E lobisomens são o quê? Apenas cachorrinhos que cresceram demais?
— Eles matam demônios — disse Isabelle. — Então, se não nos incomodarem, não os incomodamos.
Como deixar que as aranhas vivam porque comem mosquitos, pensou Clary.
— Então eles são bons o suficiente para continuar vivendo, bons o suficiente para cozinhar para vocês, bons o suficiente para um flerte, mas não são realmente bons o suficiente? Quer dizer, não tão bons quanto as pessoas.
Isabelle e Alec olharam para ela como se ela estivesse falando urdu.
— Diferente de pessoas — disse Alec afinal.
— Melhor que mundanos? — acrescentou Simon.
— Não — disse Isabelle decididamente. — Você poderia transformar um mundano em um Caçador de Sombras. Quero dizer, nós viemos de mundanos. Mas você jamais poderia transformar alguém do Submundo em um membro da Clave. Eles não conseguem suportar os símbolos.
— Então eles são fracos? — perguntou Clary.
— Não diria isso — disse Jace, voltando ao assento ao lado de Alec. Seu cabelo estava despenteado e ele tinha uma marca de batom na bochecha. — Pelo menos não com um peri, um djinn, um ifrit e sabe Deus quem está ouvindo. — Ele sorriu quando Kaelie apareceu e distribuiu a comida. Clary olhou para as panquecas com bastante admiração. Pareciam fantásticas: douradas, cheias de mel. Ela comeu um pedaço enquanto Kaelie e seus saltos altos saíam.
— Estavam deliciosas.
— Eu falei que era o melhor restaurante de Manhattan — disse Jace, comendo batatas fritas com a mão.
Ela olhou para Simon, que estava mexendo o café, olhando para baixo.
— Hum — disse Alec, com a boca cheia.
— Certo — disse Jace. Ele olhou para Clary. — Não é uma via de mão única — ele disse. — Nem sempre gostamos dos habitantes do Submundo, mas eles nem sempre gostam de nós. Algumas centenas de anos de Acordos não apagam mil anos de hostilidade.
— Duvido que ela saiba o que são os Acordos, Jace — disse Isabelle.
— Na verdade, sei sim — disse Clary.
— Eu não — disse Simon.
— É verdade, mas ninguém se importa com o que você sabe. — Jace examinou uma batata antes de mordê-la. — Eu gosto da companhia de alguns membros do Submundo em certas horas e lugares. Mas não frequentamos as mesmas festas.
— Espere aí. — Isabelle repentinamente se sentou ereta. — Como você disse que era o nome? — perguntou, olhando para Jace. — O nome na cabeça de Clary.
— Não disse — falou Jace. — Pelo menos não concluí. É Magnus Bane. — Olhou para Alec, zombeteiro. — Está mais para mala sem alça.
Alec resmungou uma resposta no café. Ou calo no pé. Clary sorriu internamente.
— Não pode ser... mas tenho quase certeza... — Isabelle começou a revirar a bolsa e retirou um pedaço de papel azul dobrado. Ela o mexeu entre os dedos. — Dê uma olhada nisso.
Alec esticou a mão para pegar o papel, olhou para ele, deu de ombros, depois o entregou a Jace.
— É um convite para uma festa. Em algum lugar no Brooklyn — ele disse. — Detesto o Brooklyn.
— Não seja tão esnobe — disse Jace. Em seguida, assim como Isabelle fizera, ele se sentou ereto e olhou fixamente. — Onde você conseguiu isso, Izzy?
Ela balançou a mão no ar.
— Com aquele kelpie no Pandemônio. Ele disse que seria fantástica. Estava com uma pilha de convites.
— O que é? — indagou Clary, impacientemente. — Você vai mostrar para o resto de nós ou não?
Jace virou o papel para que todos pudessem ler. Impresso em papel fino, quase um pergaminho, com a letra fina e elegante. Anunciava uma reunião na humilde morada de Magnus, o Magnífico Feiticeiro, e prometia a quem comparecesse “uma noite arrebatadora de prazeres além da imaginação mais selvagem”.
— Magnus — disse Simon. — Magnus como Magnus Bane?
— Duvido que haja muitos feiticeiros de nome Magnus na área — disse Jace.
Alec piscou os olhos.
— Isso quer dizer que teremos que ir à festa? — perguntou a ninguém em particular.
— Não teremos que fazer nada — disse Jace, que estava lendo as letrinhas pequenas do convite. — Mas, de acordo com isso aqui, Magnus Bane é o Magnífico Feiticeiro do Brooklyn. — Ele olhou para Clary. — Particularmente, estou um pouquinho curioso quanto ao que o nome do Magnífico Feiticeiro do Brooklyn está fazendo na sua cabeça.
A festa não ia começar antes de meia-noite, então, com um dia inteiro para matar, Jace e Alec desapareceram para a sala das armas e, enquanto Isabelle e Simon anunciaram a intenção de passear pelo Central Park para que ela pudesse mostrar a ele os círculos das fadas. Simon perguntou a Clary se ela queria ir junto. Disfarçando uma fúria assassina, ela recusou, alegando exaustão.
Não era exatamente mentira — ela estava exausta, com o corpo ainda enfraquecido pelos efeitos colaterais do veneno e de ter acordado tão cedo. Estava deitada na cama do Instituto, sem os sapatos, querendo dormir, mas o sono não vinha. A cafeína efervescia como água gaseificada em seu sangue, e sua mente estava cheia de imagens perturbadoras. Ela via o rosto da mãe olhando para ela, com uma expressão de pavor. Não conseguia parar de ver as Estrelas Falantes e ouvir as vozes dos Irmãos do Silêncio. Por que haveria um bloqueio em sua mente? Por que um feiticeiro poderoso o teria colocado lá, e com que propósito? Ela imaginou quais lembranças teria perdido, quais experiências teria vivido e não conseguia lembrar. Ou talvez tudo que ela achava que pensava se lembrar fosse uma mentira...?
Ela sentou, não conseguindo mais suportar os locais para onde os próprios pensamentos a conduziam. Descalça, ela foi pelo corredor, em direção à biblioteca. Talvez Hodge pudesse ajudá-la.
Mas a biblioteca estava vazia. A luz da tarde entrava pelas frestas entre as cortinas, formando barras douradas pelo chão. Na escrivaninha estava o livro que Hodge tinha lido mais cedo, e a capa de couro desbotada brilhava. Ao lado, Hugo dormia no poleiro, com o bico escondido na asa.
Minha mãe conhecia esse livro, pensou Clary. Ela o tocou e o leu. A dor de segurar algo que era parte da vida da mãe provocava pontadas na boca do estômago. Ela atravessou o quarto precipitadamente e pôs as mãos no livro. Estava morno, o couro aquecido pela luz do sol. Ela levantou a capa.
Alguma coisa dobrada caiu de dentro das páginas e aterrissou no chão ao lado dos pés de Clary. Ela se curvou para pegá-lo, abrindo-o automaticamente.
Era a fotografia de um grupo de jovens, nenhum deles muito mais velho que a própria Clary. Ela sabia que havia sido tirada há pelo menos vinte anos, não por causa das roupas que estavam vestindo — que, assim como a maioria dos equipamentos dos Caçadores de Sombras, eram indefiníveis e pretas —, mas porque reconheceu a mãe instantaneamente: Jocelyn, com não mais do que 17 ou 18 anos, cabelos compridos até a cintura e o rosto um pouco mais redondo, o queixo e a boca menos definidos. Ela parece comigo, pensou Clary.
O braço de Jocelyn estava em torno de um menino que Clary não reconhecia. Ela sentiu um impacto. Ela nunca havia pensado na mãe envolvida com ninguém além do próprio pai, pois Jocelyn nunca namorava ou demonstrava qualquer interesse em romance. Ela não era como a maioria das mães solteiras, que iam a reuniões de pais e mestres à procura de pais bonitões, ou a mãe de Simon, que sempre checava sua página em um site de namoro na internet. O menino era bonito, e com cabelos tão claros que eram quase brancos, e olhos pretos.
— Este é Valentim — disse uma voz por trás dela. — Aos 17 anos.
Ela deu um salto para trás e quase derrubou a foto. Hugo soltou um pio espantado e irritadiço antes de voltar ao poleiro, com as penas arrepiadas.
Era Hodge, observando-a com olhos curiosos.
— Desculpe — ela disse, colocando a foto sobre a mesa e recuando apressadamente. — Não queria bisbilhotar suas coisas.
— Não tem problema. — Ele tocou a foto com uma mão cheia de cicatrizes e rugas: um contraste estranho com a manga impecável da roupa que vestia. — Afinal de contas, é parte do seu passado.
Clary voltou lentamente para a mesa, como se a foto exercesse um magnetismo que a puxasse naquela direção. O menino com cabelos brancos estava sorrindo para Jocelyn, com olhos que brilhavam do jeito que os olhos dos meninos brilham quando eles gostam muito de você. Ninguém, Clary pensou, jamais tinha olhado para ela daquele jeito. Valentim, com o rosto frio e delicado, era completamente diferente do pai dela, com aquele sorriso aberto e os cabelos brilhantes que ela havia herdado.
— Valentim parece... mais ou menos legal.
— Legal, ele não era — disse Hodge com um sorriso torto —, mas era charmoso, inteligente e com grande poder de persuasão. Você reconhece mais alguém?
Ela olhou novamente. Atrás de Valentim, um pouco à esquerda, havia um menino magro, com cabelos castanho-claros. Ele tinha ombros grandes e braços estranhos de quem ainda não tinha crescido toda a sua altura.
— É você?
Hodge fez que sim com a cabeça.
— E...?
Ela teve de olhar duas vezes antes de identificar alguém que conhecia: tão jovem que estava praticamente irreconhecível. No fim das contas, os óculos o denunciaram, e os olhos por trás, em tom azulado como a água do mar.
— Luke — ela disse.
— Lucian. E aqui. — Inclinando-se sobre a foto, Hodge indicou um casal adolescente elegante, ambos com cabelos escuros, a menina meia cabeça mais baixa que o rapaz. Tinha feições estreitas e predatórias, quase cruéis. — Os Lightwood — ele disse. — E ali — ele indicou um garoto muito bonito com cabelos escuros ondulados cujo rosto de mandíbula quadrada tinha uma cor bastante acentuada — está Michael Wayland.
— Ele não se parece em nada com Jace.
— Jace é parecido com a mãe.
— E ela por acaso está nessa foto? — perguntou Clary.
— Não. Essa é uma foto do Ciclo, tirada no ano em que foi formado. É por isso que Valentim, o líder, está à frente, e Luke está à sua direita; ele era o homem número um de Valentim.
Clary desviou o olhar.
— Continuo não entendendo por que a minha mãe se juntaria a algo desse tipo.
— Você precisa entender...
— Você fica repetindo isso — Clary disse interrompendo-o. — Não vejo por que tenho que entender coisa alguma. Você me diz a verdade, e eu vou entender ou não.
O canto da boca de Hodge se contraiu.
— Como queira. — Ele parou para esticar o braço e acariciar Hugo, que estava passeando pela ponta da mesa. — Os Acordos nunca contavam com o apoio de toda a Clave. As famílias mais veneráveis, principalmente, se prendiam aos velhos tempos, quando os membros do Submundo tinham de ser mortos. Não por ódio, mas porque assim se sentiam mais seguros. É mais fácil confrontar uma ameaça em grupo, em massa, não indivíduos que tenham que ser avaliados um a um... e a maioria de nós conhecia alguém que tivesse sido ferido ou morto por alguém do Submundo. Não há nada — ele acrescentou — como o absolutismo moral dos jovens. E é fácil, na infância, acreditar em bem e mal, em luz e escuridão. Valentim nunca perdeu isso, nem o idealismo destrutivo e o ódio passional a tudo que considerasse não humano.
— Mas ele amava a minha mãe — disse Clary.
— Sim — disse Hodge. — Ele amava sua mãe. E amava Idris...
— O que tem de tão bom em Idris? — perguntou Clary, percebendo o desdém na própria voz.
— Era — começou Hodge, e se corrigiu —, é a casa dos Nephilim, onde é possível ser autêntico, um lugar em que não há necessidade de se esconder, ou de feitiço. Um lugar abençoado pelo Anjo. Você nunca viu uma cidade até ter visto Alicante das torres de vidro. É mais bonito do que você pode imaginar. — Havia dor verdadeira em sua voz.
Clary pensou repentinamente no sonho que tivera.
— Havia... bailes na Cidade de Vidro?
Hodge piscou os olhos para ela como se estivesse sendo acordado de um sonho.
— Toda semana. Eu nunca fui, mas sua mãe sim. E Valentim. — Ele sorriu levemente. — Eu era mais acadêmico. Passava os dias na biblioteca em Alicante. Os livros que você vê aqui são apenas uma fração dos tesouros de lá. Pensava que talvez pudesse me juntar à Irmandade um dia, mas, depois do que fiz, é claro, eles não me aceitaram.
— Sinto muito — Clary disse, desconfortável. Sua mente ainda estava cheia da lembrança do sonho. Havia um chafariz de sereia onde dançavam? Valentim usava branco, de modo que minha mãe pudesse ver as Marcas em sua pele mesmo através da camisa?
— Posso ficar com isso? — ela perguntou, apontando para a foto.
Uma leve hesitação passou pelo rosto de Hodge.
— Preferiria que não mostrasse a Jace — ele disse. — Ele já tem muito que suportar, sem que fotos do pai morto apareçam por aí.
— Claro. — Ela abraçou o retrato ao peito. — Obrigada.
— De nada. — Ele olhou para ela, confuso. — Você veio para a biblioteca para me ver ou tinha outro propósito em mente?
— Queria saber se você já tinha recebido notícias da Clave. Sobre o Cálice. E... a minha mãe.
— Recebi uma resposta breve.
Ela podia ouvir a ansiedade na própria voz.
— Eles enviaram alguém? Caçadores de Sombras?
Hodge desviou o olhar.
— Sim, enviaram.
— Por que não estão hospedados aqui? — ela perguntou.
— Há certa preocupação com a possibilidade de o Instituto estar sendo observado por Valentim. Quanto menos ele souber, melhor. — Ele viu a expressão devastada de Clary e suspirou. — Sinto muito não poder lhe contar mais nada, Clarissa. A Clave não confia muito em mim, até hoje. Revelaram muito pouco. Gostaria de poder ajudá-la.
Havia um tom de tristeza na voz dele que fez com que ela relutasse em pedir mais informações.
— Você pode — ela disse. — Não consigo dormir. Estou com a cabeça muito cheia de coisas. Você poderia...
— Ah, a mente inquieta. — Sua voz estava carregada de solidariedade. — Posso lhe dar algo para isso. Espere aqui.
A poção que Hodge lhe deu tinha um odor agradável de junípero e folhas. Clary ficou abrindo o frasco e cheirando no caminho de volta pelo corredor. Infelizmente, ainda estava aberto quando entrou no quarto e viu Jace espalhado na cama dela, olhando para seu caderno de desenhos. Com um singelo gritinho de espanto, ela derrubou o frasco; caiu no chão, espalhando um líquido verde-claro.
— Ai, meu Deus — disse Jace, sentando-se e largando o caderno de lado. — Espero que não seja nada importante.
— Era uma poção para dormir — ela disse, irritada, tocando o frasco com a ponta do tênis. — Agora não sobrou nada.
— Se ao menos Simon estivesse aqui. Ele podia entediá-la até você cair no sono.
Clary não estava com humor para defender Simon. Em vez disso, ela se sentou na cama, pegando o caderno.
— Geralmente não deixo ninguém ver isso.
— Por que não? — Jace estava descabelado, como se ele próprio estivesse dormindo. — Você é uma artista muito boa. Às vezes excelente.
— Bem, porque... é como um diário. Exceto pelo fato de que não penso em palavras, e sim em figuras, então só tem desenhos. Mas, mesmo assim, é muito pessoal. — Ela imaginou se soava tão louca quanto suspeitava.
Jace pareceu ofendido.
— Um diário sem desenhos de mim? Onde estão as fantasias tórridas? As capas de livros de romance? Os...
— Por acaso todas as garotas que te conhecem se apaixonam por você? — Clary perguntou suavemente.
A pergunta pareceu desinflá-lo, como um alfinete estourando um balão.
— Não é paixão — ele disse após uma pausa. — Pelo menos...
— Você poderia tentar não ser tão charmoso o tempo todo — disse Clary. — Pode ser um alívio para alguns.
Ele olhou para as próprias mãos. Já eram como as mãos de Hodge, brancas e com pequenas cicatrizes brancas, embora a pele fosse jovem e não tivesse rugas.
— Se você está cansada, posso colocá-la para dormir — ele disse. — Posso contar uma história de ninar.
Ela olhou para ele.
— Você está falando sério?
— Sempre falo sério.
Ela imaginou se o cansaço havia deixado ambos um pouco loucos. Mas Jace não parecia cansado. Parecia quase triste. Ela repousou o caderno na mesa de cabeceira e se deitou, curvando-se para o lado sobre o travesseiro.
— Tudo bem.
— Feche os olhos.
Ela os fechou. Ainda dava para enxergar as lâmpadas refletidas nas pálpebras, como pequenas estrelas cadentes.
— Era uma vez um menino — disse Jace.
Clary o interrompeu imediatamente.
— Um menino Caçador de Sombras?
— É claro. — Por um instante, uma alegria contagiou a voz dele. Depois desapareceu. — Quando o menino tinha 6 anos, ganhou do pai um falcão para treinar. Falcões são aves de rapina, para matar pássaros, o pai lhe dissera, os Caçadores de Sombras do céu.
“O falcão não gostava do menino, e o menino não gostava dele. Tinha um bico afiado que o deixava nervoso, e aqueles olhos brilhantes que sempre pareciam observá-lo. Sempre avançava nele com o bico e as garras quando ele se aproximava: durante várias semanas, o menino ficou com os pulsos e as mãos sangrando. Ele não sabia, mas o pai havia selecionado um falcão que habitara o mundo selvagem por mais de um ano, portanto era quase impossível domá-lo. Mas o menino tentava, pois o pai ordenara que tornasse o falcão obediente, e o menino queria agradar ao pai.
“Ele ficava constantemente com o falcão, mantendo-o acordado por meio de conversas com ele, e até tocando música para ele, pois uma ave cansada é mais fácil de ser domada. Ele aprendeu tudo sobre todo o equipamento: as argolas, as capas, as cordas, a coleira que prendia o pássaro ao pulso. Ele deveria ter cegado o falcão, mas não conseguiu fazê-lo: em vez disso, tentava sentar onde o pássaro pudesse vê-lo enquanto o acariciava nas asas, tentando conquistar sua confiança. Ele o alimentava com a mão, e inicialmente o pássaro não comeu. Depois comeu com tanta avidez que o bico cortava a palma da mão do menino. Mas o menino estava satisfeito, afinal era um progresso, e ele queria que o pássaro o conhecesse, mesmo que para isso tivesse de consumir seu sangue.
“Ele começou a ver que o falcão era lindo, que as asas finas eram feitas para a velocidade de um voo, que ele era forte e veloz, voraz e suave. Quando mergulhava em direção ao chão, movia-se como a luz. Quando aprendeu a voar em círculos e voltar para ele, o menino quase gritou em deleite. Às vezes, o pássaro pulava no ombro dele e colocava o bico em seu cabelo. Ele sabia que o falcão o amava e, quando teve certeza de que não estava apenas domado, mas perfeitamente domado, foi até o pai e mostrou o que fizera, esperando que ele fosse ficar orgulhoso.
“Em vez disso, o pai pegou o pássaro, agora domado e dotado de confiança, nas mãos e quebrou o pescoço dele. ‘Eu disse para torná-lo obediente’, ele disse, e derrubou o corpo sem vida do falcão no chão. ‘Em vez disso, você o ensinou a amá-lo. Falcões não devem ser animais domésticos dóceis: são vorazes e selvagens, ferozes e cruéis. Este pássaro não estava domado, e sim arruinado.’
“Mais tarde, quando o pai o deixou, o menino chorou pelo animal, até que o pai enviou um empregado para recolher o corpo do pássaro e enterrá-lo. O menino nunca mais chorou, e nunca se esqueceu do que aprendeu: que amar é destruir, e que ser amado é ser destruído.”
Clary, que estava deitada, quase sem respirar, rolou para cima das costas e abriu os olhos.
— Essa história é péssima — disse indignada.
Jace estava com as pernas para cima, com o queixo apoiado nos joelhos.
— É? — indagou ele, pensativamente.
— O pai do menino é horrível. É uma história de crueldade contra uma criança. Eu deveria saber que é isso que os Caçadores de Sombras pensam que é uma história de ninar. Qualquer coisa que provoque pesadelos gritantes...
— Às vezes as Marcas trazem pesadelos gritantes — disse Jace. — Caso a pessoa as obtenha muito jovem. — Ele olhou pensativamente para ela. A luz de fim de tarde entrava pelas cortinas e fazia com que o rosto dele se tornasse um verdadeiro estudo de contrastes. Chiaroscuro, ela pensou. A arte de sombra e luz. — É uma boa história se você refletir a respeito — disse ele. — O pai do menino só está tentando torná-lo mais forte. Inflexível.
— Mas é preciso saber se dobrar um pouquinho também — disse Clary com um bocejo. Apesar do conteúdo da história, o ritmo da voz de Jace a deixara com sono. — Ou você quebra.
— Não se você for forte o bastante — disse Jace com firmeza. Ele esticou a mão e ela sentiu a parte de trás da mão dele acariciá-la na bochecha; ela percebeu que estava com os olhos fechando. A exaustão tornara líquidos os ossos de Clary; ela se sentia como se fosse escorrer e desaparecer. Enquanto caía no sono, ouvia o eco de palavras na mente. E me dava tudo que eu queria. Cavalos, armas, livros, até um falcão de caça.
— Jace — ela tentou dizer. Mas o sono já tomara conta dela; arrastou-a, e ela ficou em silêncio.
Clary foi acordada por uma voz alarmada.
— Acorde!
Ela abriu os olhos lentamente. Eles pareciam grudentos, colados. Algo fazia cócegas em seu rosto. Era o cabelo de alguém. Ela se sentou rapidamente e bateu com a cabeça em alguma coisa dura.
— Ai! Você me acertou na cabeça! — Era uma voz feminina. Isabelle. Ela acendeu a luz ao lado da cama e olhou para Clary ressentidamente, esfregando a cabeça. Ela parecia brilhar com a luz; estava vestindo uma saia longa meio prateada e uma blusa de lantejoulas, e tinha as unhas pintadas como moedas brilhantes. Fios prateados presos aos cabelos escuros de Isabelle. Parecia uma deusa da lua. Clary a detestava.
— Bem, ninguém disse que você podia se inclinar por cima de mim desse jeito. Você praticamente me matou de susto. — Clary esfregou a própria cabeça. Havia um ponto dolorido logo acima da sobrancelha. — O que você quer afinal?
Isabelle apontou para a noite escura lá fora.
— É quase meia-noite. Precisamos sair para a festa, e você ainda não está vestida.
— Eu ia vestir isso aqui — disse Clary, indicando o jeans e a camiseta. — Tem algum problema?
— Se tem algum problema? — Isabelle parecia que ia desmaiar. — Claro que tem problema! Ninguém no Submundo usaria essas roupas. E é uma festa. Você vai se destacar como um dedão machucado se se vestir tão... casualmente — ela concluiu, dando a impressão de que queria usar alguma palavra bem pior do que “casualmente”.
— Não sabia que íamos ter que nos arrumar — Clary disse amargamente. — Não tenho roupa de festa.
— Você vai ter que pegar alguma coisa minha emprestada.
— Ah não. — Clary pensou na camiseta grande demais e nos jeans. — Quero dizer, não poderia. De verdade.
O sorriso de Isabelle era tão brilhante quanto as unhas.
— Eu insisto.
— Preferia realmente usar minhas próprias roupas — Clary protestou, encolhendo-se desconfortavelmente enquanto Isabelle a posicionava à frente do espelho do tamanho da parede no quarto dela.
— Bem, você não pode — disse Isabelle. — Você parece ter 8 anos, e pior, parece uma mundana.
Clary cerrou os maxilares, insatisfeita.
— Nenhuma das suas roupas vai caber em mim.
— Isso é o que veremos.
Clary observou Isabelle no espelho enquanto remexia no armário. No quarto dela, parecia que uma bola de discoteca havia explodido. As paredes eram pretas e brilhavam com curvas de tinta dourada. Havia roupas espalhadas por todos os lados: na cama vermelha, penduradas nas costas de cadeiras de madeira, transbordando do closet e do armário alto encostado à parede. A penteadeira, cujo espelho era rebordado com pelugem cor-de-rosa, era coberta de brilho, lantejoulas e potinhos de blush e pó de arroz.
— Belo quarto — disse Clary, pensando saudosa nas paredes cor de laranja de sua casa.
— Obrigada. Eu mesma pintei. — Isabelle surgiu do closet, trazendo algo preto e colante. Ela o jogou para Clary.
Clary levantou o tecido, deixando-o desdobrar-se.
— Parece pequeno demais.
— É para ser justo — disse Isabelle. — Agora vá vesti-lo.
Rapidamente, Clary voltou ao pequeno banheiro, que era pintado de azul brilhante. Ela colocou o vestido por cima da cabeça — era apertado, com algumas tiras. Tentando prender a respiração, ela voltou ao quarto, onde Isabelle estava sentada na cama, alguns anéis nos dedos dos pés, calçados com uma sandália.
— Você tem muita sorte de ter um busto tão pequeno — disse Isabelle. — Eu jamais conseguiria vestir isso sem sutiã.
Clary franziu o rosto.
— Está curto demais.
— Não está curto, não, está bom — disse Isabelle, remexendo-se pela cama enquanto procurava sapatos. Ela pegou umas botas e uma meia arrastão. — Pronto, você pode usar com isso. Vão fazer com que você pareça mais alta.
— Certo, pois sou uma tábua e uma anã. — Clary ajeitou o vestido. Ela quase nunca usava saia, ainda mais tão curta, então ver tanto assim das próprias pernas era algo alarmante. — Se é curto assim em mim, o quão curto não deve ser em você? — falou em tom de brincadeira e provocação.
— Em mim, é uma blusa.
Clary sentou-se na cama, ajeitou as meias e calçou as botas. Os sapatos estavam um pouco grandes, mas não a ponto de ela ficar dançando dentro deles. Ela os amarrou e se levantou, olhando-se no espelho. Ela tinha de admitir que a combinação de vestido preto, meia e botas altas era bastante bad girl. A única coisa que estragava era...
— Seu cabelo — disse Isabelle. — Precisa de um jeito. Desesperadamente. Sente-se. — Ela apontou imperativamente para a penteadeira. Clary obedeceu, e fechou os olhos com força enquanto Isabelle desembaraçava seus cabelos, de um jeito nem um pouco gentil, escovando-os e colocando o que pareciam ser pregadores. Ela abriu os olhos na hora em que foi atingida pelo pó de arroz, que liberou uma nuvem densa de brilho. Clary tossiu e olhou para Isabelle de forma acusatória.
Ela riu.
— Não olhe para mim, olhe para si mesma.
Olhando no espelho, Clary viu que Isabelle ajeitara seus cabelos em um coque elegante, preso por pregadores brilhantes. Ela se lembrou de repente do sonho, do cabelo pesado que puxava sua cabeça para baixo, dançando com Simon... ela se mexeu inquieta.
— Não se levante ainda — disse Isabelle. — Ainda não acabamos. — Ela pegou um lápis de olho. — Abra os olhos.
Clary arregalou os olhos, o que foi bom para evitar que gritasse.
— Isabelle, posso fazer uma pergunta?
— Claro — disse Isabelle, manejando o lápis de olho como uma especialista.
— Alec é gay?
O pulso de Isabelle foi para trás bruscamente. O lápis de olho escapuliu, desenhando uma longa linha preta do canto do olho até o contorno do cabelo de Clary.
— Ai, que inferno! — Isabelle exclamou, repousando o lápis sobre a penteadeira.
— Não tem problema — disse Clary, levantando a mão até o olho.
— Tem sim. — Isabelle parecia à beira das lágrimas enquanto remexia em volta nas pilhas de bagunça da penteadeira. Acabou achando um algodão, que entregou a Clary. — Tome, use isto aqui. — Ela se sentou na beira da cama, com as pulseiras de tornozelo balançando, e olhou para Clary através do cabelo. — Como você adivinhou? — perguntou, finalmente.
— Eu...
— Você não pode contar a absolutamente ninguém — ela disse.
— Nem para Jace?
— Principalmente para Jace!
— Tudo bem. — Clary ouviu a rigidez da própria voz. — Acho que não imaginei que fosse tão grave assim.
— Seria para os meus pais — Isabelle disse tranquilamente. — Eles deserdariam Alec e o jogariam para fora da Clave...
— Por quê, não se pode ser gay e Caçador de Sombras?
— Não há nenhuma regra oficial. Mas as pessoas não gostam. Quero dizer, pessoas da nossa idade não ligam tanto... eu acho — ela acrescentou, incerta, e Clary se lembrou de quão poucas pessoas da idade dela Isabelle havia conhecido. — Mas a geração antiga não. Se acontecer, não se fala a respeito.
— Ah — disse Clary, desejando nunca ter mencionado nada.
— Eu amo meu irmão — disse Isabelle. — Faria qualquer coisa por ele. Mas não há nada que eu possa fazer.
— Pelo menos ele tem você — disse Clary desconfortavelmente, e por um instante pensou em Jace, que imaginava o amor como algo que o destruiria. — Você realmente acha que Jace iria... se importar?
— Não sei — disse Isabelle, em tom que indicava que não queria mais falar nesse assunto. — Mas não é escolha minha.
— Acho que não — disse Clary. Ela se inclinou em direção ao espelho, utilizando o algodão dado por Isabelle para retirar o excesso de maquiagem do olho. Quando se sentou outra vez, quase derrubou o algodão de surpresa: o que Isabelle fizera com ela? Suas maçãs do rosto pareciam afiadas e angulares, os olhos profundos e misteriosos, além de verdes luminosos.
— Estou parecendo a minha mãe — ela disse, surpresa.
Isabelle ergueu as sobrancelhas.
— Como? De meia-idade demais? Talvez um pouco mais de brilho...
— Não precisa de mais brilho — Clary disse rapidamente. — Está bom. Gostei.
— Ótimo. — Isabelle se levantou da cama, com os tornozelos tilintando. — Vamos.
— Preciso ir até o meu quarto pegar uma coisa — disse Clary, levantando-se. — Além disso... preciso de alguma arma? Você precisa?
— Tenho várias. — Isabelle sorriu, dando um chute no ar, de modo que as pulseiras dos tornozelos tilintassem como sinos de Natal. — Estes aqui, por exemplo. O esquerdo é electrum, que é venenoso para demônios, e o direito é ferro benzido, caso encontre algum vampiro do mal, ou mesmo alguma fada: fadas detestam ferro. Ambos têm símbolos fortes marcados em si, então posso dar chutes poderosos.
— Caça a demônios e moda — disse Clary. — Nunca pensei que pudessem andar juntos.
Isabelle riu em voz alta.
— Você não acreditaria.
Os meninos estavam esperando na entrada. Vestidos de preto, até Simon, em um par de calças um pouco grandes demais, e a própria camisa do avesso para esconder o logotipo da banda. Ele estava desconfortável, enquanto Jace e Alec estavam apoiados na parede, parecendo entediados. Simon levantou o olhar quando Isabelle chegou à entrada, com o chicote dourado enrolado no pulso, as correntes de metal nos tornozelos tilintando como sinos. Clary esperava que ele fosse ficar embasbacado — Isabelle realmente estava um espetáculo —, mas seus olhos se voltaram para Clary, onde repousaram com uma expressão espantada.
— O que é isso? — ele perguntou, recompondo-se. — O que você está usando, eu quero dizer.
Clary olhou para si mesma. Ela pusera uma jaqueta leve por cima, para se sentir menos exposta, e pegara a mochila no quarto. Estava pendurada nos ombros, aquela sensação familiar entre as omoplatas. Mas Simon não estava olhando para a mochila; ele estava olhando para as pernas dela, como se nunca as tivesse visto.
— É um vestido, Simon — disse Clary secamente. — Sei que não é uma coisa que eu use com frequência, mas sério...
— É tão curto — ele disse, confuso. Mesmo semivestido com roupas de Caçador de demônios, Clary pensou, ele parecia o tipo de menino que buscaria a namorada em casa para um encontro e seria educado com seus pais e atencioso com os animais de estimação.
Jace, por outro lado, parecia o tipo de menino que viria até a sua casa e tocaria fogo só para se divertir.
— Gostei do vestido — ele disse, desencostando da parede. Seus olhos passearam preguiçosamente por Clary de cima a baixo. — Mas precisa de alguma coisa extra.
— Então agora você é um expert em moda? — A voz de Clary saiu desigual, ele estava muito perto dela, perto o suficiente para que ela sentisse seu calor, e o cheiro fraco de queimadura de Marcas recém-aplicadas.
Ele pegou algo do casaco e entregou a ela. Era uma adaga longa e fina em uma capa de couro. O cabo da adaga tinha uma única pedra vermelha cravejada, na forma de uma rosa.
Ela balançou a cabeça.
— Eu nem saberia usar isso...
Ele apertou-a nas mãos de Clary, fechando os dedos dela em torno da arma.
— Você aprende. — Ele abaixou a voz. — Está no seu sangue.
Ela puxou a mão.
— Tudo bem.
— Posso te dar uma faixa para a coxa, para prender isso — ofereceu Isabelle. — Tenho várias.
— ABSOLUTAMENTE NÃO — disse Simon.
Clary lançou um olhar irritado a ele.
— Obrigada, mas não faz muito o meu tipo. — Ela colocou a adaga no bolso da frente da mochila.
Enquanto fechava o bolso, olhou para cima e viu Jace observá-la com atenção.
— Uma última coisa — ele disse. Ele esticou a mão por cima dela e puxou o pregador brilhante do cabelo, de modo que este caiu em cachos pesados pelo pescoço. A sensação de cabelo tocando a pele nua era estranha e curiosamente agradável.
— Muito melhor — ele disse, e ela achou que a voz dele também estava um pouco diferente.