Cidade dos Ossos
18. O Cálice Mortal
18
O Cálice Mortal
Jace estava deitado na cama fingindo dormir — para não falar com ninguém — quando as batidas na porta finalmente se tornaram demais para ele. Ele se arrastou para fora da cama, franzindo o rosto. Por mais que ele tivesse fingido que estava tudo bem na estufa, ainda tinha dores no corpo inteiro por tudo que havia sofrido na noite anterior.
Ele sabia quem era antes de abrir a porta. Talvez Simon tivesse conseguido se transformar em um rato outra vez. Dessa vez, ele podia continuar um maldito rato pelo resto da vida, porque ele, Jace Wayland, não ia fazer nada a respeito.
Ela trazia o caderno de desenho, os cabelos brilhantes escapando do elástico. Ele se apoiou na porta, ignorando o jorro de adrenalina produzido ao vê-la. Ele imaginou o porquê, e não foi a primeira vez. Isabelle utilizava a beleza como utilizava o chicote, mas Clary não fazia a menor ideia de que era linda. Talvez fosse por isso.
Ele só podia pensar em uma razão para ela estar lá, embora não fizesse o menor sentido depois do que ele dissera a ela. Palavras são como armas, seu pai lhe ensinara, e ele quis machucar Clary mais do que jamais havia desejado machucar uma garota. Em geral, ele apenas as queria, e depois queria que o deixassem sozinho.
— Não diga — ele disse, proferindo as palavras daquele jeito que ele sabia que ela detestava. — Simon se transformou em uma jaguatirica e você quer que eu faça alguma coisa a respeito antes que Isabelle o transforme em uma estola. Bem, você vai ter que esperar até amanhã. Estou fora de expediente. — Ele apontou para o pijama azul com um buraco na manga que estava usando. — Veja. Pijama.
Clary parecia mal tê-lo escutado. Ele percebeu que ela estava carregando alguma coisa nas mãos — o caderno de desenhos.
— Jace — ela disse. — É importante.
— Não me diga — ele respondeu. — Você está com uma emergência artística. Precisa de um modelo nu. Na verdade, não estou a fim. Você pode pedir para Hodge — acrescentou, como uma ideia que tivesse ocorrido depois. — Ouvi dizer que ele faz qualquer coisa por...
— JACE! — ela interrompeu, com a voz se elevando a um grito. — QUER CALAR A BOCA POR UM SEGUNDO E OUVIR, POR
FAVOR?
Ele piscou.
Ela respirou fundo e olhou para ele, a expressão cheia de incerteza. Um impulso estranho surgiu nele: o impulso de colocar os braços em volta dela e dizer que estava tudo bem. Não o fez. Pela sua experiência, as coisas raramente estavam bem.
— Jace — ela disse, tão suavemente que ele teve de se inclinar para a frente para ouvir —, acho que sei onde a minha mãe escondeu o Cálice Mortal. Está dentro de um quadro.
— O quê? — Jace ainda a estava olhando como se ela tivesse dito que havia encontrado um dos Irmãos do Silêncio dando estrelas no corredor. — Quer dizer que ela escondeu atrás de uma pintura? Todas as pinturas da sua casa foram arrancadas das molduras.
— Eu sei. — Clary olhou para o quarto de Jace. Não parecia haver mais ninguém ali, para alívio dela. — Então, posso entrar? Quero te mostrar uma coisa.
Ele deu passagem a ela.
— Se precisa...
Ela se sentou na cama, equilibrando o caderno nos joelhos. As roupas que ele estava usando antes estavam espalhadas por cima das cobertas, mas o resto do local estava impecável, como o quarto de um monge. Não havia fotos na parede, pôsteres ou fotos de amigos ou familiares. Os lençóis eram brancos e estavam esticados sobre a cama. Não era exatamente o quarto típico de um adolescente.
— Aqui — disse ela, virando as páginas até encontrar o desenho da xícara de café. — Veja isso.
Jace se sentou ao lado dela, jogando para o lado a camiseta que estava ali.
— É uma xícara de café.
Ela podia ouvir a irritação na própria voz.
— Eu sei que é uma xícara de café.
— Mal posso esperar pelo dia em que você vai desenhar alguma coisa realmente complicada, como a Brooklyn Bridge, ou uma lagosta. Você provavelmente vai me mandar um telegrama cantado.
Ela o ignorou.
— Veja, era isso que eu queria que você visse. — Ela passou a mão sobre o desenho; depois, com um rápido movimento, alcançou dentro do papel. Quando retirou a mão um instante mais tarde, lá estava a xícara de café, pendurada nos dedos dela.
Ela havia imaginado Jace saltando da cama espantado e dizendo algo do tipo “Minha Nossa Senhora!”. Isso não aconteceu — principalmente, ela suspeitava, porque Jace já vira coisas mais estranhas na vida, e também porque ninguém mais utilizava esta exclamação. Mas os olhos dele se arregalaram.
— Você fez isso?
Ela fez que sim com a cabeça.
— Quando?
— Agora mesmo, no meu quarto, depois... depois que Simon foi embora.
Seu olhar ficou duro, mas ele não insistiu no assunto.
— Você utilizou símbolos? Quais?
Ela balançou a cabeça, colocando o dedo na página que agora estava em branco.
— Não sei. Eles vieram à minha cabeça e eu desenhei exatamente como os vi.
— Aqueles que viu mais cedo no Livro Gray?
— Não sei. — Ela ainda estava balançando a cabeça. — Não posso afirmar.
— E ninguém nunca ensinou você como fazer isso? Sua mãe, por exemplo?
— Não. Já disse, minha mãe sempre disse que mágica não existia...
— Aposto que ela ensinou — ele a interrompeu — e fez com que você esquecesse em seguida. Magnus disse que suas lembranças voltariam lentamente.
— Talvez.
— Claro que sim. — Jace se levantou e começou a andar de um lado para o outro. — Provavelmente é contra a Lei utilizar símbolos desse tipo, a não ser que seja licenciado para tal. Você acha que a sua mãe escondeu o Cálice em um quadro? Do mesmo jeito que você acabou de fazer com essa xícara?
Clary fez que sim com a cabeça.
— Mas não em um dos quadros que estavam lá em casa.
— Onde mais? Numa galeria? Pode estar em qualquer lugar...
— Não em um quadro — disse Clary. — Em uma carta.
Jace fez uma pausa, virando em direção a ela.
— Uma carta?
— Lembra daquele baralho de tarô da Madame Dorothea? O que a minha mãe pintou para ela?
Ele fez que sim com a cabeça.
— E lembra quando peguei o Ás de Copas? Mais tarde, quando vi a estátua do Anjo, o Cálice me pareceu familiar. Era porque já tinha visto antes, no Ás. Minha mãe pintou o Cálice Mortal no baralho de tarô da Madame Dorothea.
Jace estava um passo atrás dela.
— Porque ela sabia que estaria seguro com um Controle, e foi o jeito que ela encontrou de entregá-lo a Dorothea sem ter de dizer o que era ou a razão pela qual precisava mantê-lo escondido.
— Ou mesmo que precisava mantê-lo escondido. Dorothea nunca sai, ela nunca daria a ninguém...
— E sua mãe estava convenientemente perto para vigiá-la e também o Cálice. — Jace parecia quase impressionado. — Nada mal.
— Pois é. — Clary teve de se esforçar para conter o tremor na própria voz. — Quem dera ela não tivesse escondido tão bem.
— Como assim?
— Quer dizer, se eles tivessem encontrado o Cálice, talvez tivessem deixado minha mãe em paz. Se só o que queriam era o Cálice...
— Eles teriam matado a sua mãe, Clary — disse Jace. Ela sabia que ele estava falando a verdade. — São os mesmos homens que mataram meu pai. A única razão pela qual ela talvez esteja viva é o fato de eles não terem encontrado o Cálice. Agradeça por ela tê-lo escondido tão bem.
— Não vejo o que isso tem a ver conosco — disse Alec, com uma expressão confusa sob o cabelo. Jace havia acordado o resto dos moradores do Instituto ao amanhecer e os arrastara para a biblioteca, para, como ele disse, “conceber as estratégias de luta”. Alec ainda estava de pijama, e Isabelle vestia um roupão cor-de-rosa. Hodge, com o terno impecável de sempre, estava tomando café em uma xícara de cerâmica azul lascada. Somente Jace, com os olhos brilhantes apesar dos hematomas que já estavam desaparecendo, parecia realmente acordado. — Pensei que a busca pelo Cálice estivesse nas mãos da Clave agora.
— É melhor se fizermos isso pessoalmente — disse Jace com certa impaciência na voz. — Eu e Hodge já discutimos e foi isso que decidimos.
— Bem... — Isabelle colocou o cabelo atrás da orelha. — Estou dentro.
— Eu não — disse Alec. — Há cooperativas da Clave na cidade agora procurando pelo Cálice. Passe a informação e deixe que eles façam o serviço.
— Não é tão simples assim — disse Jace.
— É simples. — Alec virou-se para a frente, franzindo o rosto. — Isso não tem nada a ver conosco e tudo a ver com o seu... o seu vício pelo perigo.
Jace balançou a cabeça, claramente irritado.
— Não sei por que você está brigando comigo.
Porque ele não quer que você se machuque, pensou Clary, e ficou pensando na total incapacidade dele em ver o que realmente se passava com Alec. Mas, verdade seja dita, ela também não percebeu o que acontecia com Simon. Quem era ela para julgar?
— Vejam, Dorothea, a dona do Santuário, não confia na Clave. Ela os detesta, para falar a verdade. Mas confia na gente.
— Ela confia em mim — disse Clary. — Quanto a você, eu não sei. Não tenho certeza se ela gosta de você.
Jace ignorou-a.
— Vamos, Alec. Vai ser divertido. E pense na glória que teremos se trouxermos o Cálice Mortal de volta para Idris! Nossos nomes jamais serão esquecidos.
— Não ligo para a glória — disse Alec, sem desgrudar os olhos de Jace em nenhum momento. — Preocupo-me em não fazer nada estúpido.
— Mas, neste caso, Jace tem razão — disse Hodge. — Se a Clave fosse ao Santuário, seria um verdadeiro desastre. Dorothea fugiria com o Cálice e provavelmente jamais seria encontrada. Não, Jocelyn claramente queria que somente uma pessoa pudesse encontrar o Cálice, e essa pessoa é Clary, somente ela.
— Então deixe que ela vá sozinha — disse Alec.
Até Isabelle se espantou com isso. Jace, que estava inclinado para a frente, olhou friamente para Alec. Jace era a única pessoa, pensou Clary, capaz de ter uma aparência cool em uma calça de pijama e uma camiseta velha, mas ele conseguia, provavelmente por pura força de vontade.
— Se você tem medo de alguns Renegados, por favor, fique em casa — ele disse calmamente.
Alec ficou pálido.
— Não tenho medo — ele disse.
— Ótimo — disse Jace. — Então não temos problema algum, certo? — Ele olhou em volta do quarto. — Estamos juntos nessa.
Alec resmungou afirmativamente, enquanto Isabelle assentiu vigorosamente.
— Claro — ela concordou. — Parece divertido.
— Não sei de diversão — acrescentou Clary. — Mas estou dentro, é claro.
— Mas Clary... — Hodge advertiu rapidamente. — Se você está preocupada com o perigo, não precisa ir. Podemos notificar a Clave...
— Não — disse Clary, surpreendendo a si mesma. — Minha mãe queria que eu encontrasse. Não o Valentim, nem eles. — Não era dos monstros que ela estava se escondendo, Magnus dissera. — Se ela realmente passou a vida inteira tentando manter Valentim afastado do cálice, é o mínimo que posso fazer.
Hodge sorriu para ela.
— Acho que ela sabia que você ia dizer isso — ele sugeriu.
— Mas não precisa se preocupar — disse Isabelle. — Você vai ficar bem. Nós conseguimos dar conta de alguns Renegados. Eles são loucos, mas não são muito inteligentes.
— E muito mais fáceis de lidar do que demônios — lembrou Jace. — Não tão traiçoeiros. Ah, e vamos precisar de um carro — acrescentou. — De preferência, um grande.
— Por quê? — perguntou Isabelle. — Nunca precisamos de um carro antes.
— Porque nunca tivemos que nos preocupar com um objeto de valor incomensurável. Não quero ter que arrastá-lo pela linha L do metrô.
— Existem táxis — disse Isabelle. — E vans para alugar.
Jace balançou a cabeça.
— Quero um ambiente que possamos controlar. Não quero ter que lidar com motoristas de táxi ou empresas mundanas que aluguem veículos quando estivermos fazendo algo dessa importância.
— Você não tem carteira de motorista e carro? — Alec perguntou a Clary, olhando para ela com ódio mascarado. — Pensei que todos os mundanos tinham essas coisas.
— Não aos 15 anos — Clary disse secamente. — Eu ia tirar a carteira esse ano, mas não ainda.
— Que grande utilidade você tem!
— Pelo menos meus amigos podem dirigir — retorquiu ela. — Simon tem carteira.
Imediatamente, ela se arrependeu de ter dito aquilo.
— Tem? — disse Jace, em um tom perigosamente pensativo.
— Mas ele não tem carro — ela acrescentou rapidamente.
— Mas ele dirige o carro dos pais? — perguntou Jace.
Clary suspirou, encostando-se na mesa.
— Não. Geralmente ele dirige a van do Eric. Para shows e coisas do tipo. Às vezes o Eric empresta para outros fins. Se ele tiver um encontro com alguma garota, por exemplo.
Jace riu desdenhosamente.
— Ele busca garotas de van? Não é à toa que faz tanto sucesso com elas.
— É um carro — corrigiu Clary. — Você só está com raiva porque ele tem algo que você não tem.
— Ele tem várias coisas que eu não tenho. Miopia, falta de postura e uma falta de coordenação assustadora.
— Sabe — disse Clary —, a maioria dos psicólogos concorda que hostilidade é, na verdade, atração sexual mascarada.
— Ah — Jace disse alegremente —, isso pode explicar o motivo de tantas pessoas que encontro parecerem desgostar de mim.
— Eu não desgosto de você — Alec declarou rapidamente.
— Isso é porque partilhamos uma afeição de irmãos — explicou Jace, aproximando-se da mesa. Ele pegou o telefone preto e entregou-o a Clary. — Ligue para ele.
— Para quem? — disse Clary, tentando enrolar. — Eric? Ele jamais me emprestaria o carro.
— Simon — disse Jace. — Ligue para ele e pergunte se pode nos levar até a sua casa.
Clary fez uma última tentativa.
— Você não conhece nenhum Caçador de Sombras que tenha carro?
— Em Nova York? — O sorriso de Jace se desmanchou. — Olhe só, todo mundo está em Idris por causa dos Acordos, e independente disso, insistiriam em vir conosco. É isso ou nada.
Ela encontrou o olhar dele por um instante. Havia um quê de provocação neles, como se ele a estivesse desafiando a explicar a relutância. Com o rosto franzido, ela foi até ele e pegou o telefone de sua mão.
Não teve de pensar antes de discar. O número de Simon era tão familiar quanto o seu próprio. Ela se preocupou em ter de lidar com a mãe ou a irmã dele, mas ele atendeu no segundo toque.
— Alô?
— Simon?
Silêncio.
Jace estava olhando para ela. Clary fechou os olhos com força, tentando fingir que ele não estava lá.
— Sou eu — ela disse. — Clary.
— Eu sei quem é. — Ele parecia irritado. — Eu estava dormindo, sabia?
— Eu sei. Está cedo. Desculpe. — Ela enrolou o fio do telefone no dedo. — Preciso de um favor seu.
Do outro lado da linha, fez-se silêncio antes de ele rir.
— Você está brincando.
— Não estou — ela disse. — Sabemos onde está o Cálice Mortal, e estamos prontos para pegá-lo, e estamos prontos para buscar. A única questão é que precisamos de um carro.
Ele riu de novo.
— Desculpe, você está me dizendo que seus amiguinhos matadores de demônios precisam de carona para o próximo assassinato com forças sombrias, e você está pedindo a ajuda da minha mãe?
— Na verdade, pensei que você poderia pedir ao Eric a van emprestada.
— Clary, se você acha que eu...
— Se conseguirmos o Cálice Mortal, terei como resgatar a minha mãe. É a única razão pela qual Valentim não a matou ou soltou ainda.
Simon suspirou profundamente.
— Você acha que vai ser fácil fazer uma troca? Clary, eu não sei.
— Eu também não. Só sei que é uma chance.
— Essa coisa é poderosa, não é? Em RPG, geralmente é melhor não mexer com os objetos poderosos até você saber o que eles fazem.
— Não vou mexer com ele. Só vou usar para resgatar a minha mãe.
— Isso não faz o menor sentido, Clary.
— Isso não é RPG, Simon! — ela quase gritou. — Não é um joguinho em que, na pior das hipóteses, você consegue um lance de dados desfavorável. É da minha mãe que estamos falando, e Valentim pode estar torturando-a. Ele pode matá-la. Tenho que fazer o possível para resgatá-la, assim como fiz por você.
Pausa.
— Talvez você tenha razão. Não sei, esse não é o meu mundo. Para onde vamos, exatamente? Preciso falar para Eric.
— Não leve Eric — ela disse rapidamente.
— Eu sei — respondeu com paciência exagerada. — Não sou burro.
— Vamos para a minha casa. Está na minha casa.
Fez-se um breve silêncio — dessa vez de espanto.
— Na sua casa? Pensei que a sua casa estivesse cheia de zumbis.
— Guerreiros Renegados. Não são zumbis. Seja como for, Jace e os outros podem cuidar deles enquanto eu pego o Cálice.
— Por que você tem que pegar o Cálice? — ele parecia alarmado.
— Porque sou a única que pode — ela disse. — Busque-nos na esquina assim que puder.
Ele resmungou algo inaudível e depois:
— Tudo bem.
Ela abriu os olhos. Era difícil focar o mundo em meio às lágrimas.
— Obrigada, Simon — ela disse. — Você é...
Mas ele havia desligado.
— Ocorre a mim — disse Hodge — que os dilemas de poder são sempre os mesmos.
Clary olhou de lado para ele.
— O que você quer dizer?
Ela se sentou à janela na biblioteca, Hodge na cadeira com Hugo no braço. O resto do café da manhã — biscoito com geleia, farelos de torrada e manchas de manteiga — estava sobre um prato na mesa baixa que ninguém parecia interessado em limpar. Após o café, eles se dispersaram para se arrumar, e Clary tinha sido a primeira a voltar. O que não era surpresa alguma, considerando que tudo que tinha de fazer era vestir um jeans e uma camiseta, e passar uma escova no cabelo, enquanto os outros tinham de se armar da cabeça aos pés. Tendo perdido a adaga de Jace no hotel, o único objeto remotamente sobrenatural que ela possuía era a pedra enfeitiçada no bolso.
— Estava pensando no seu Simon — disse Hodge — e em Alec e Jace, entre outros.
Ela olhou através da janela. Estava chovendo, pingos grossos batendo na vidraça. O céu era de uma cor cinza impenetrável.
— O que eles têm a ver entre si?
— Onde há sentimentos não correspondidos — disse Hodge —, há um desequilíbrio de poder. É um desequilíbrio fácil de ser explorado, mas não é um curso sábio. Onde há amor, frequentemente também há ódio. Podem existir lado a lado.
— Simon não me odeia.
— Mas pode odiar, com o tempo, se sentir que você o está usando. — Hodge levantou a mão. — Sei que não é sua intenção, e em alguns casos a necessidade se sobrepõe aos sentimentos. Mas a situação me trouxe outra à mente. Você ainda tem aquela foto que eu lhe dei?
Clary balançou a cabeça.
— Não comigo. Está no meu quarto. Posso buscá-la...
— Não. — Hodge acariciou as penas negras de Hugo. — Quando sua mãe era jovem, tinha um melhor amigo, assim como você tem Simon. Eles eram tão próximos quanto irmãos. Aliás, eram frequentemente confundidos como tal. Ao crescerem, tornou-se claro para todo mundo que ele estava apaixonado por ela, mas ela nunca percebeu isso. Ela sempre se referiu a ele como um “amigo”.
Clary olhou fixamente para Hodge.
— Você está falando do Luke?
— Estou — disse Hodge. — Lucian sempre achou que ele e Jocelyn fossem ficar juntos. Quando ela conheceu e se apaixonou por Valentim, ele não suportou. Depois que eles se casaram, ele deixou o Ciclo, desapareceu e permitiu que todos nós pensássemos que ele estivesse morto.
— Ele nunca disse, nunca sequer deu a entender nada nesse sentido — disse Clary. — Todos esses anos e ele poderia ter tentado...
— Ele sabia qual seria a resposta — disse Hodge, olhando através dela em direção ao céu chuvoso. — Lucian nunca foi o tipo de homem a se iludir. Não, ele se contentava em estar perto dela, presumindo, talvez, que com o tempo os sentimentos dela pudessem mudar.
— Mas, se ele a amava, por que disse àqueles homens que não se importava com o que acontecesse a ela? Por que ele se recusou a permitir que dissessem onde ela estava?
— Como disse antes, onde há amor, também há ódio — disse Hodge. — Ela o machucou muito há alguns anos. Ela deu as costas para ele. E, mesmo assim, ele bancou o cão fiel desde então, nunca demonstrando, confrontando ou falando com ela sobre seus sentimentos. Talvez ele tenha encontrado uma oportunidade de virar a mesa. De machucá-la tanto quanto ela o machucou.
— Luke não faria isso — mas Clary estava se lembrando do tom gelado que ele utilizou quando disse a ela para não lhe pedir favor algum. Ela viu o olhar duro nos olhos dele quando encarou os homens de Valentim. Aquele não era o Luke que ela conhecia, o Luke com quem havia crescido. Aquele Luke nunca teria querido punir Jocelyn por não tê-lo amado o suficiente do jeito certo. — Mas ela o amava — disse Clary, falando em voz alta sem perceber. — Apenas não do mesmo jeito que ele a amava. Será que isso não basta?
— Talvez ele achasse que não.
— O que irá acontecer quando pegarmos o Cálice? — perguntou ela. — Como vamos entrar em contato com Valentim para informá-lo de que estamos com ele?
— Hugo irá encontrá-lo.
A chuva batia forte nos vidros. Clary tremeu.
— Vou pegar um casaco — ela disse, saindo de onde estava.
Ela encontrou o casaco verde de capuz no fundo da mochila. Quando o puxou, ouviu alguma coisa se mexer. Era a foto do Ciclo, de sua mãe e Valentim. Ela olhou para a fotografia durante um longo tempo antes de colocá-la de volta na mochila.
Quando voltou para a biblioteca, os outros estavam todos reunidos lá: Hodge, sentado vigilante à mesa com Hugo no ombro, Jace todo de preto, Isabelle com as botas de atacar demônios e o chicote dourado, e Alec com uma bolsa de flechas cruzada no ombro e uma pulseira de couro cobrindo o braço direito do pulso até o cotovelo. Todos, exceto Hodge, exibiam Marcas recém-aplicadas, cada centímetro de pele nua tatuado com desenhos curvilíneos. Jace estava com a manga esquerda dobrada, queixo no ombro, e estava franzindo o rosto enquanto fazia uma Marca octogonal na pele do braço.
Alec olhou para ele.
— Você está fazendo errado — ele disse. — Deixe comigo.
— Eu sou canhoto — disse Jace, suavemente e estendeu a estela. Alec parecia aliviado ao pegá-la, como se até então não tivesse certeza se havia sido perdoado por seu comportamento anterior. — É iratze básico — disse Jace enquanto Alec inclinava a cabeça sobre o braço de Jace, desenhando cuidadosamente as linhas do símbolo de cura. Jace franziu o rosto enquanto a estela deslizava sobre sua pele nua, estreitando os olhos, cerrando os punhos até os músculos do braço direito sobressaírem como cordas. — Pelo Anjo, Alec...
— Estou tentando ser cuidadoso — disse Alec. Ele soltou o braço de Jace e se afastou para admirar o próprio trabalho. — Pronto.
Jace relaxou o punho, abaixando o braço.
— Obrigado. — Ele então pareceu sentir a presença de Clary, olhou para ela e cerrou os olhos dourados. — Clary.
— Você parece pronto — ela disse enquanto Alec, repentinamente enrubescido, se afastava de Jace e se ocupava com as flechas.
— Estamos — disse Jace. — Você ainda está com aquela adaga que eu te dei?
— Não. Perdi no Dumort, lembra?
— É verdade. — Jace olhou para ela, satisfeito. — Quase matou um lobisomem com ela. Lembro.
Isabelle, que estava junto à janela, revirou os olhos.
— Tinha me esquecido de que é isso que o anima e chama sua atenção, Jace. Garotas matando coisas.
— Gosto de qualquer um matando coisas — disse ele. — Principalmente eu.
Clary olhou ansiosamente para o relógio na mesa.
— É melhor descermos. Simon chegará a qualquer instante.
Hodge se levantou da cadeira. Ele parecia muito cansado, pensou Clary, como se não dormisse há dias.
— Que o Anjo olhe por todos vocês — ele disse, e Hugo alçou voo chiando alto, na hora em que os sinos do meio-dia começaram a tocar.