Cidade dos Ossos

Cassandra Clare · Capítulo 22 de 29

Páginas do PDF

Cidade dos Ossos

* Shotgun no original. Além de significar tiro de arma de fogo, é uma gíria comum nos Estados Unidos

Ainda estava chovendo quando Simon parou a van na esquina e buzinou duas vezes. O coração de Clary saltou — parte dela estava preocupada com a possibilidade de ele não aparecer.

Jace cerrou os olhos através da chuva pesada. Eles quatro haviam se abrigado sob uma cornija de pedra esculpida.

— Essa é a van? Parece uma banana apodrecendo.

Isso era inegável — Eric havia pintado a van com um tom de amarelo néon, e ela estava toda manchada de ferrugem e arranhões, como algo decadente. Simon buzinou novamente. Clary conseguia vê-lo, uma forma embaçada através das janelas molhadas. Ela suspirou e puxou o capuz sobre a cabeça.

— Vamos.

Eles pisaram nas poças imundas que se haviam formado no asfalto, as botas enormes de Isabelle emitiam um ruído alto cada vez que ela tocava o chão com os pés. Simon, deixando o volante, se arrastou até a parte de trás para abrir a porta, revelando assentos cujos forros estavam praticamente podres. Molas de aparência perigosa passavam pelo buraco. Isabelle franziu o nariz.

— É seguro sentar?

— Mais seguro do que ser amarrada ao teto — Simon disse de maneira simpática —, que é sua outra opção — ele acenou com a cabeça um cumprimento para Jace e Alec, ignorando Clary completamente. — E aí?

— E aí? — repetiu Jace, e levantou a bolsa de lona que trazia todas as armas. — Onde podemos colocar isso?

Simon o direcionou para a parte de trás, onde os meninos geralmente guardavam os instrumentos musicais, enquanto Alec e Isabelle se arrastavam pelo banco e se empoleiravam nos assentos.

— Tiro!* — anunciou Clary quando Jace apareceu de volta ao lado da van.

Alec pegou o arco, preso às costas dele.

— Onde?

— O que ela está dizendo é que quer o banco da frente — disse Jace, tirando o cabelo molhado dos olhos.

— É um belo arco — disse Simon, com um aceno de cabeça para Alec.

Alec piscou, com a chuva escorrendo dos cílios.

— Você sabe alguma coisa sobre arco e flecha? — ele perguntou em um tom que sugeria dúvida.

— Participei de um acampamento de arco e flecha — disse Simon. — Por seis anos consecutivos.

A resposta foram três olhares vazios e um sorriso de apoio de Clary, que Simon ignorou. Ele olhou para o céu, que estava desabando.

— É melhor irmos antes que comece um dilúvio.

O banco da frente do carro estava coberto por sacos vazios de Doritos e pedaços de bala. Clary afastou o que podia. Simon ligou o carro antes que ela tivesse terminado, lançando-a contra o assento.

— Ai — ela exclamou, em tom de reprovação.

— Desculpe — disse, sem olhar para ela.

Clary podia ouvir os outros conversando suavemente entre si — provavelmente, discutindo estratégias de batalha e a melhor maneira de decapitar um demônio sem sujar as botas de couro novas. Apesar de não haver nada separando os bancos dianteiros do traseiro, Clary sentiu um silêncio desconfortável entre ela e Simon, como se eles estivessem sozinhos.

— Então, qual é a do “E aí”? — ela perguntou para Simon enquanto ele manobrava a van pela FDR, a autoestrada que corria ao longo do East River.

— Que “e aí”? — ele respondeu, fechando um carro utilitário preto cujo ocupante, um homem de terno com um telefone celular nas mãos, fez um gesto obsceno para eles por trás do vidro fumê.

— Essa coisa do “e aí” que os meninos fazem. Como quando viu Jace e Alec, você disse “e aí”, e eles disseram “e aí” de volta. O que há de errado com “oi”?

Ela pensou ter visto um músculo se contrair na face dele.

— “Oi” é coisa de menina — ele informou. — Homens de verdade são diferentes. Falam “e aí”.

— Então, quanto mais homem você for, menos educado?

— Isso mesmo — Simon fez que sim com a cabeça. À sua frente, Clary podia ver o nevoeiro que descia sobre o East River, blindando a margem do lago com uma névoa cinzenta. A água em si tinha cor de chumbo, agitada como creme de chantilly pelo vento forte. — É por isso que, quando os caras mais broncos se cumprimentam nos filmes, não dizem nada, apenas acenam com a cabeça. O aceno significa “eu sou bronco e reconheço que você também é”, mas eles não dizem nada porque são o Wolverine e o Magneto, e explicar isso estragaria o clima.

— Não faço ideia do que você está falando — disse Jace, do banco de trás.

— Ótimo — retrucou Clary, e foi recompensada com um sorriso contido de Simon, enquanto ele virava na Manhattan Bridge, em direção ao Brooklyn e à casa dela.

Até chegarem à casa de Clary, finalmente já havia parado de chover. Raios de sol penetravam o restante da névoa e as poças nas calçadas estavam diminuindo. Jace, Alec e Isabelle fizeram Clary e Simon esperarem perto da van enquanto foram checar, conforme dissera Jace, “os níveis de atividade demoníaca”.

Simon observou enquanto os três Caçadores de Sombras foram até o caminho alinhado de rosas que levava à entrada da casa.

— Níveis de atividade demoníaca? Por acaso, eles têm um dispositivo que mede se os demônios dentro da casa estavam fazendo power yoga?

— Não — respondeu Clary, tirando o capuz para poder aproveitar a sensação da luz do sol sobre o cabelo molhado. — O Sensor diz a eles o quão poderosos são os demônios, se houver demônios.

Simon parecia impressionado.

— Isso é realmente útil.

Ela virou para ele.

— Simon, sobre ontem à noite...

Ele levantou a mão.

— A gente não precisa falar sobre isso. Aliás, prefiro não falar.

— Só me deixe dizer uma coisa — ela continuou rapidamente. — Eu sei que, quando você disse que me amava, a minha resposta não foi exatamente o que queria ouvir.

— É verdade. Eu sempre esperei que, quando finalmente resolvesse dizer “eu te amo” a uma garota, que ela fosse dizer “eu sei” em resposta, como a princesa Leia disse para o Han em O retorno de Jedi.

— Que coisa mais nerd — disse Clary, sem conseguir se conter.

Ele olhou fixamente para ela.

— Desculpe — ela disse. — Olhe, Simon, eu...

— Não — ele disse. — Olhe você, Clary. Olhe para mim, e me veja de verdade. Você consegue fazer isso?

Ela olhou para ele. Olhou para os olhos escuros, marcados com uma cor mais fraca no limite da íris, e para as sobrancelhas levemente desiguais, os cílios longos, os cabelos escuros e o sorriso hesitante e as mãos musicais, tudo parte de Simon, que era parte dela. Se ela tivesse de falar a verdade, será que realmente diria que nunca soubera que ele a amava? Ou simplesmente que nunca soubera o que faria a respeito se ele se declarasse?

Ela suspirou.

— Ver através do feitiço é fácil. As pessoas é que são difíceis.

— Todo mundo vê o que quer ver — ele disse tranquilamente.

— Jace não — ela observou, sem conseguir se controlar, pensando naqueles olhos claros e frios.

— Ele consegue mais do que ninguém.

Ela franziu o rosto.

— O que você...

— Certo. — Veio a voz de Jace, interrompendo-os. Clary se virou rapidamente. — Checamos todos os quatro cantos da casa: nada. Atividade baixa. Provavelmente só os Renegados e eles podem até não nos incomodar, a não ser que tentemos entrar no apartamento de cima.

— E, se incomodarem — disse Isabelle, com um sorriso tão brilhante quanto o chicote —, estaremos prontos para eles.

Alec arrastou a bolsa de lona para fora da van, jogando-a sobre a calçada.

— Pronto — ele anunciou. — Vamos acabar com alguns demônios!

Jace olhou para ele de um jeito estranho.

— Você está bem?

— Estou. — Sem olhar para ele, Alec descartou o arco e a flecha em favor de um bastão de madeira polida com duas lâminas brilhantes que surgiram ao leve toque de dedos. — Assim é melhor.

Isabelle olhou preocupada para o irmão.

— Mas o arco...

Alec interrompeu-a.

— Sei o que estou fazendo, Isabelle.

O arco estava no banco de trás, reluzindo ao sol. Simon se esticou para pegá-lo, depois puxou de volta a mão, enquanto um grupo de jovens moças empurrando carrinhos passava na direção do parque. Elas não perceberam os três adolescentes fortemente armados perto da van amarela.

— Como eu consigo ver vocês? — perguntou Simon. — O que aconteceu com a mágica da invisibilidade de vocês?

— Você consegue nos ver — disse Jace — porque agora sabe a verdade sobre o que está vendo.

— É — disse Simon. — Acho que sim.

Ele protestou um pouco quando pediram para que ele ficasse junto à van, mas Jace o convenceu de que era importante haver um carro de fuga posicionado na esquina.

— A luz do sol é fatal para os demônios, mas não atinge os Renegados. E se eles nos perseguirem? E se o carro for rebocado?

A última coisa que Clary viu de Simon quando virou para acenar da varanda foram suas longas pernas sobre o painel do carro enquanto ele remexia a coleção de CDs de Eric. Ela suspirou aliviada. Pelo menos Simon estava seguro.

O cheiro a atingiu assim que atravessaram a porta da frente. Era quase indescritível, como ovos podres, carne estragada e algas apodrecendo na praia. Isabelle torceu o nariz e Alec ficou verde, mas Jace parecia estar inalando um perfume raro.

— Demônios passaram por aqui — ele anunciou seco, mas com deleite. — E recentemente, por sinal.

Clary olhou ansiosa para ele.

— Mas eles não estão...

— Não. — Ele balançou a cabeça. — Teríamos sentido. Ainda — ele apontou com o queixo para a porta de Dorothea, completamente fechada, sem qualquer feixe de luz emitido por baixo. — Ela pode ter algumas satisfações a dar para a Clave se descobrirem que anda recebendo demônios.

— Duvido que a Clave queira saber disso — disse Isabelle. — Em média, ela provavelmente vai se sair melhor do que nós.

— Eles não vão se importar, contanto que a gente acabe com o Cálice nas mãos. — Alec estava olhando em volta, seus olhos azuis estavam absorvendo o saguão, a escadaria curvada que dava lá em cima, as manchas na parede. — Principalmente se mutilarmos alguns Renegados no processo.

Jace balançou a cabeça.

— Eles estão no apartamento de cima. Meu palpite é que eles não vão nos incomodar, a não ser que tentemos entrar.

Isabelle tirou uma pequena mecha de cabelos da face e franziu o rosto para Clary.

— O que você está esperando?

Clary olhou involuntariamente para Jace, que lhe lançou um sorriso de lado. Vá em frente, a expressão dele dizia.

Ela atravessou o saguão em direção à porta de Dorothea, caminhando cuidadosamente. Com a claraboia escurecida com sujeira e a lâmpada da entrada ainda apagada, a única luminosidade provinha da pedra enfeitiçada de Jace. O ar estava quente e pesado, e as sombras pareciam se erguer diante dela como plantas que crescem magicamente em uma floresta de pesadelo. Ela estendeu a mão para bater à porta de Dorothea, primeiro levemente, depois com mais força.

A porta se abriu, entornando uma onda de luz dourada no saguão. Dorothea estava lá, grande e imponente, em tons de verde e laranja. Hoje, o turbante que usava era amarelo brilhante, adornado com um canarinho empalhado e aba de penas. Brincos de candelabro batiam nos cabelos, e os pés estavam descalços. Clary se surpreendeu — ela jamais vira Dorothea descalça, nem calçando algo que não fossem chinelos desbotados.

As unhas dos pés estavam pintadas em um tom de rosa-claro de muito bom gosto.

— Clary — exclamou ela, e tomou-a em um forte abraço. Por um instante, Clary se debateu, sufocada por um mar de perfume, veludo e as pontas do xale de Dorothea. — Por Deus, menina — disse a bruxa, balançando a cabeça de modo que os brincos sacudiram como moinhos de vento em uma tempestade. — Da última vez em que a vi, você estava desaparecendo pelo meu Portal. Onde você foi parar?

— Em Williamsburg — disse Clary, recuperando o ar.

As sobrancelhas de Dorothea se ergueram alto.

— E ainda dizem que não há transporte público eficiente no Brooklyn. — Ela abriu a porta e gesticulou para os outros entrarem.

O local parecia inalterado desde a última vez em que Clary o tinha visto: as mesmas cartas de tarô e bola de cristal sobre a mesa. Seus dedos coçaram para alcançar as cartas, pegá-las e ver o que poderia estar escondido sob as superfícies pintadas.

Dorothea sentou-se agradecida em uma poltrona e olhou para os Caçadores de Sombras com um olhar tão certeiro quanto os olhos do canarinho empalhado do chapéu. Velas aromáticas queimavam em pratos em ambos os lados da mesa, o que não adiantava muito para conter o cheiro horrível que impregnava o restante da casa.

— Suponho que ainda não tenha localizado a sua mãe? — ela perguntou a Clary.

Clary sacudiu a cabeça.

— Não. Mas eu sei quem a levou.

Os olhos de Dorothea passaram de Clary para Alec e Isabelle, que estavam examinando a Mão do Destino na parede. Jace, parecendo completamente despreocupado no papel de guarda-costas, estava no braço da cadeira. Satisfeita por nenhum de seus bens estar sendo destruído, Dorothea voltou o olhar novamente para Clary.

— Foi...

— Valentim — confirmou Clary. — Foi ele.

Dorothea suspirou.

— Era o que eu temia — ela se ajeitou novamente sobre as almofadas. — Você sabe o que ele quer com ela?

— Eu sei que ela foi casada com ele...

A bruxa rosnou.

— Amor tomando rumos adversos. A pior coisa.

Jace fez um barulho suave, quase inaudível ao ouvir isso — uma risada. As orelhas de Dorothea se mexeram, como as de um gato.

— Qual é a graça, menino?

— O que você sabe sobre o assunto? — ele perguntou. — Digo, sobre amor.

Dorothea cruzou as mãos macias e pálidas sobre o próprio colo.

— Mais do que você possa imaginar — ela respondeu. — Eu não li suas folhas de chá, menino? Por acaso você já se apaixonou pela pessoa errada?

Jace disse:

— Infelizmente, Dama dos Refugiados, meu único verdadeiro amor permanece sendo eu mesmo.

Dorothea sorriu desdenhosamente ao ouvir isso.

— Pelo menos — ela disse —, você não precisa se preocupar com rejeição, Jace Wayland.

— Não necessariamente. Eu mesmo às vezes me dispenso, só para manter as coisas interessantes.

Dorothea sorriu novamente. Clary a interrompeu.

— Você deve estar imaginando o que estamos fazendo aqui, Madame Dorothea.

A senhora recuou, esfregando os olhos.

— Por favor — ela disse —, sinta-se à vontade para dar a mim meu título adequado, como o menino o fez. Você pode me chamar de Dama. E presumo — ela acrescentou — que vocês vieram pelo prazer da minha companhia. Por acaso estou errada?

— Não tenho tempo para o prazer da companhia de ninguém. Tenho que ajudar a minha mãe, e para isso preciso de uma coisa.

— E que coisa é essa?

— Algo chamado Cálice Mortal — respondeu Clary — e Valentim achou que minha mãe o tivesse. Foi por isso que a levaram.

Dorothea parecia verdadeiramente surpresa.

— O Cálice do Anjo? — ela disse, com a voz carregada de descrença. — O Cálice de Raziel, no qual ele misturou o sangue de anjos e homens e deu essa mistura para um homem beber, e criou o primeiro Caçador de Sombras?

— Esse mesmo — disse Jace, com o tom levemente seco.

— E por que ele acharia que sua mãe estava com o Cálice? — perguntou Dorothea. — Logo Jocelyn? — A percepção recaiu sobre seu rosto antes que Clary pudesse falar. — Porque ela não era Jocelyn Fray, de jeito nenhum — ela disse. — Ela era Jocelyn Fairchild, mulher dele. A que todos pensavam que estivesse morta. Ela pegou o Cálice e fugiu, não foi?

Algo se acendeu no fundo dos olhos da bruxa, mas ela abaixou as pálpebras tão depressa que Clary achou que pudesse estar imaginando.

— Então — disse Dorothea —, você sabe o que vai fazer agora? Onde quer que ela tenha escondido, não vai ser fácil de achar, mesmo que você queira. Valentim poderia fazer coisas terríveis se tivesse o Cálice em mãos.

— Quero encontrá-lo — afirmou Clary. — Nós queremos...

Jace interrompeu-a suavemente.

— Nós sabemos onde está — ele acrescentou. — Só precisamos resgatá-lo.

Os olhos de Dorothea se arregalaram.

— Bem, e onde está?

— Aqui — disse Jace, em um tom tão convicto que Isabelle e Alec abandonaram a análise da estante de livros para ver o que estava se passando.

— Aqui? Quer dizer que está com você?

— Não exatamente, cara Dama — respondeu Jace, que estava, Clary sentiu, adorando aquilo tudo de um jeito muito assustador. — Quero dizer que está com você.

A boca de Dorothea se fechou.

— Isso não tem a menor graça — ela disse, tão brutalmente que Clary se preocupou com a possibilidade de que isso tudo tivesse tomando um rumo muito errado. Por que Jace sempre tinha de antagonizar a todos?

— Está com você, sim — Clary interrompeu apressadamente —, mas não...

Dorothea se levantou da poltrona, recompondo-se em sua altura plena e magnífica, e olhou para eles.

— Vocês estão enganados — ela disse friamente. — Tanto por imaginarem que eu estou com o Cálice quanto por ousarem vir até aqui e me chamarem de mentirosa.

A mão de Alec foi para a sua arma.

— Oh, Deus — ele disse a si mesmo.

Espantada, Clary balançou a cabeça.

— Não — ela disse rapidamente. — Não a estou chamando de mentirosa, juro. Estou dizendo que o Cálice está aqui, mas você nunca soube.

Madame Dorothea encarou-a. Seus olhos quase escondidos nas dobras do rosto eram duros como bolas de gude.

— Explique-se — ela disse.

— Estou dizendo que minha mãe o escondeu aqui — disse Clary. — Há anos. Ela nunca contou por não querer envolvê-la.

— Então ela o deu disfarçado — explicou Jace —, sob a forma de um presente.

Dorothea o encarou com olhos vazios.

Será que ela não se lembra?, pensou Clary, confusa.

— O baralho de tarô — ela disse. — As cartas que ela pintou para você.

O olhar da Bruxa se voltou para as cartas, dispostas na mesa sobre os embrulhos de seda.

— As cartas? — enquanto os olhos dela se arregalavam, Clary foi até a mesa e pegou o baralho. As cartas estavam mornas, quase escorregadias. Agora, de um jeito que não havia conseguido antes, ela sentiu o poder dos símbolos pintados nas partes de trás pulsando nas pontas de seus dedos. Ela encontrou o Ás de Copas pelo toque e o pegou, deixando as demais cartas sobre a mesa.

— Aqui está — ela disse.

Todos estavam olhando para ela, com expectativa, absolutamente parados. Lentamente, ela virou a carta e admirou mais uma vez o trabalho artístico da mãe: a mão fina pintada, com os dedos envoltos no caule dourado do Cálice Mortal.

— Jace — ela disse. — Me dê a sua estela.

Ele a pressionou, morna e vibrante contra a palma da mão dela. Ela virou a carta e passou a estela sobre os símbolos desenhados na parte de trás — um giro aqui e ali e eles passavam a significar alguma coisa inteiramente diferente. Quando virou a carta outra vez, a figura havia mudado sutilmente: os dedos haviam soltado o Cálice, e a mão parecia estar oferecendo-o a ela, como se dissesse: Aqui, pegue-o.

Ela pôs a estela no bolso. Depois, apesar de o quadrado pintado não ser maior que sua mão, ela alcançou dentro da carta como se fosse um buraco amplo. Ela segurou o Cálice pela base — com os dedos cerrados em torno dele — e, ao puxar a mão de volta, com o Cálice firmemente preso a ela, pensou ter ouvido leves suspiros ante a carta, agora branca e vazia, transformada em cinzas que escorreram por entre seus dedos, para o carpete no chão.

Nota

* Shotgun no original. Além de significar tiro de arma de fogo, é uma gíria

comum nos Estados Unidos: quem fala primeiro a palavra, ganha o direito de

ficar no banco da frente. (N. do E.)