Cidade dos Ossos
21. O Conto do Lobisomem
Parte Três
O descenso acena
O descenso acena,
como a ascensão acenou.
— William Carlos Williams, The Descent.
21
O Conto do Lobisomem
— A verdade é que conheço sua mãe desde que éramos crianças. Crescemos em Idris. É um lugar lindo, e sempre lamentei o fato de você nunca tê-lo visto: você adoraria os pinheiros no inverno, a terra escura, os rios cristalinos. Há uma pequena rede de povoados, e uma única cidade, Alicante, onde a Clave se reúne. Chamam-na de Cidade de Vidro porque as torres são esculpidas com a mesma substância que repele demônios encontrada em nossas estelas; no sol, brilham como vidro.
“Quando eu e Jocelyn tínhamos idade suficiente, fomos mandados para a escola em Alicante. Foi lá que conheci Valentim.
“Ele era um ano mais velho do que eu. De longe, o menino mais popular da escola. Era bonito, inteligente, rico, dedicado, um guerreiro incrível. Eu não era nada — nem rico, nem brilhante; vinha de uma família do campo sem qualquer importância. E tinha dificuldade nos estudos. Jocelyn era uma Caçadora de Sombras nata; eu, não. Não conseguia suportar a mais leve das Marcas, ou aprender as técnicas mais simples. Às vezes pensava em fugir, voltar envergonhado para casa. Até mesmo em me tornar um mundano. Eu era muito infeliz.
“Foi Valentim que me salvou. Ele veio até o meu quarto, eu nem imaginava que ele soubesse o meu nome. Ofereceu-se para me treinar. Disse que sabia que eu tinha dificuldades, mas enxergou em mim as sementes para um grande Caçador de Sombras. E sob a tutela dele realmente melhorei. Passei nas provas, fiz as primeiras Marcas, matei meu primeiro demônio.
“Eu o idolatrava. Achava que o sol nascia e se punha em Valentim Morgenstern. Não fui o único estranho no ninho que ele resgatou, é claro. Havia outros. Hodge Starkweather, que se relacionava melhor com livros do que com pessoas; Maryse Trueblood, cujo irmão se casara com uma mundana; Robert Lightwood, que morria de medo das Marcas — Valentim cuidou de todos eles. Naquela época, achei que fosse bondade; hoje não tenho tanta certeza assim. Acho que ele estava construindo um culto a si mesmo.
“Valentim era obcecado pela ideia de que a cada geração havia menos Caçadores de Sombras — que éramos uma espécie em extinção. Ele tinha certeza de que, se a Clave utilizasse o Cálice de Raziel com mais liberdade, mais Caçadores de Sombras poderiam ser fabricados. Para os professores, essa ideia era um sacrilégio — não é qualquer um que pode determinar quem pode e quem não pode tornar-se um Caçador de Sombras. Desenvolto, Valentim perguntava: Então por que não tornar todos os homens Caçadores de Sombras? Por que não presentear a todos eles com a capacidade de enxergar o Mundo de Sombras? Por que manter o poder restrito a nós, de forma tão egoísta?
“Quando os professores respondiam que a maioria dos humanos não consegue sobreviver à transição, Valentim alegava que estavam mentindo, tentando manter o poder de Nephilim limitado a uma elite de poucos. Era isso que ele dizia na época — agora acho que ele provavelmente achava que o efeito colateral justificava o resultado final. De qualquer forma, ele convenceu nosso pequeno grupo de que estava certo. Formamos o Ciclo, e nossa intenção declarada era salvar a raça dos Caçadores de Sombras da extinção. É claro que, aos 17 anos, não sabíamos ao certo como iríamos fazer isso, mas tínhamos certeza de que eventualmente conquistaríamos alguma coisa majestosa.
“Então veio a noite em que o pai de Valentim foi morto em um treinamento de rotina, em um acampamento de lobisomens. Quando Valentim voltou à escola, depois do enterro, estava com as Marcas vermelhas de luto. Estava diferente em outros aspectos. A bondade intercalava com flashes de raiva que beiravam a crueldade. Atribuí esse novo comportamento à dor e tentei agradá-lo mais do que nunca. Jamais reagi à sua raiva com raiva. Tive apenas a impressão terrível de que o havia desapontado.
“A única pessoa capaz de acalmar a raiva dele era sua mãe. Ela sempre se manteve um pouco apartada do nosso grupo, às vezes zombava, de nós, chamando-nos de fã-clube do Valentim. Isso mudou quando o pai dele morreu. A dor dele despertou a solidariedade dela. Eles se apaixonaram.
“Eu também o amava: ele era meu melhor amigo, e eu estava feliz em ver Jocelyn com ele. Quando saímos da escola, eles se casaram e foram viver na propriedade da família dela. Eu também voltei para casa, mas o Ciclo continuou. Havia começado como uma espécie de aventura de escola, mas cresceu em poder e em escala, e Valentim cresceu junto. Os ideais também haviam mudado. O Ciclo ainda clamava pelo Cálice Mortal, mas, desde a morte do pai, Valentim se tornara um militante em favor de guerra contra todos os membros do Submundo, não apenas aqueles que quebravam os Acordos. Este mundo era para humanos, ele dizia, não para quem fosse em parte demônio. Em demônios não se podia confiar.
“Eu me sentia desconfortável com a nova direção do Ciclo, mas me mantive unido a eles — em parte, porque ainda não conseguia suportar decepcionar Valentim, em parte porque Jocelyn me pediu para continuar. Ela tinha alguma esperança de que eu trouxesse alguma moderação ao Ciclo, mas isso era impossível. Não havia como moderar Valentim, e Robert e Maryse Lightwood — que já eram casados — eram quase tão ruins quanto. Somente Michael Wayland estava incerto, como eu, mas, a despeito da relutância, seguimos com o Ciclo; como um grupo, caçávamos membros do Submundo incansavelmente, perseguindo todos aqueles que tivessem cometido alguma infração, por menor que fosse. Valentim nunca matou qualquer criatura que não tivesse quebrado os Acordos, mas fazia outras coisas. Eu o vi amarrar moedas de prata nas pálpebras de uma menininha lobisomem, em uma tentativa de fazer com que a garota contasse onde o irmão dela estava... eu vi... mas você não precisa ouvir isso. Não. Desculpe.
“O que aconteceu em seguida foi que Jocelyn engravidou. No dia em que me contou isso, ela também me confessou que passara a sentir medo do marido. O comportamento dele havia se tornado estranho, errático. Ele desaparecia pelos celeiros durante noites a fio. Ela às vezes ouvia gritos pelas paredes...
“Fui até ele. Ele riu, desconsiderando os medos dela como paranoias de uma mulher que carregava o primeiro filho no ventre. Ele me convidou para caçar com ele naquela noite. Ainda estávamos tentando limpar o bando de lobisomens que matara seu pai anos antes. Éramos parabatai, um time de caça perfeito composto por dois guerreiros que morreriam um pelo outro. Então, quando Valentim disse que me cobriria naquela noite, acreditei nele. Não vi o lobo até que ele estivesse em cima de mim. Lembro-me dos dentes cravados no meu ombro, e de mais nada daquela noite. Quando acordei, estava deitado na casa de Valentim, com o ombro atado, e Jocelyn estava lá.
“Nem todas as mordidas de lobisomem resultam em licantropia. Curei-me do ferimento e passei as semanas seguintes em um tormento de espera. Espera pela lua cheia. A Clave teria me trancado em uma cela de observação se tivesse sabido. Mas Valentim e Jocelyn guardaram segredo. Três semanas depois, a lua subiu, cheia e brilhante, e eu comecei a me transformar. A primeira Transformação é sempre a mais difícil. Lembro-me de uma agonia infindável, de uma escuridão sem-fim e de ter acordado horas mais tarde em um campo a quilômetros da cidade. Estava coberto de sangue, com o corpo mutilado de uma espécie de animal da floresta a meus pés.
“Voltei para o casarão e eles me encontraram na porta. Jocelyn caiu sobre mim, choramingando, mas Valentim a puxou para longe. Eu estava lá sangrento e tremendo nos pés. Mal conseguia pensar, com o gosto de carne crua ainda na boca. Não sei o que tinha esperado, mas acho que deveria ter sabido.
“Valentim me arrastou para baixo das escadas e para a floresta com ele. Ele me disse que deveria me matar pessoalmente, mas que, ao me ver ali, não conseguia. Ele me deu uma adaga que pertencera ao pai dele. Ele disse que eu deveria ter a atitude honrosa de me matar. Beijou a adaga ao entregá-la para mim, voltou para dentro do casarão e bloqueou a porta.
“Corri pela noite, às vezes como homem, às vezes como lobo, até cruzar a fronteira. Fui parar no meio do acampamento de lobisomens, empunhando a adaga, e exigi encontrar em combate o licantrope que me mordera e me transformara em um deles. Rindo, eles me apontaram para o líder do clã. Com as mãos e os dentes ainda sangrentos da caça, ele se levantou para me encarar.
“Nunca tinha sido muito fã de combate individual. Minha arma era o arco e flecha; eu tinha mira e visão excelentes. Mas nunca havia sido muito bom em batalhas de curta distância. Eu só queria morrer, e levar comigo a criatura que me arruinara. Acho que pensei que, se conseguisse me vingar, e matar os lobos que tinham matado o pai dele, Valentim sentiria a minha perda. Enquanto lutávamos, às vezes como homens e às vezes como lobos, vi que ele se surpreendeu com a minha ferocidade. Enquanto a noite se transformava em dia, ele começou a se cansar, mas minha fúria não se abateu. E, quando o sol começou a baixar novamente, enfiei a adaga no pescoço dele e ele morreu, deixando-me ensopado de sangue.
“Esperava que o bando fosse partir para cima de mim e me estraçalhar. Mas se ajoelharam aos meus pés e exibiram as gargantas em sinal de submissão. Os lobos têm uma lei: quem matar o líder do clã assume seu lugar. Fui ao local dos lobos e, em vez de encontrar morte e vingança, encontrei uma nova vida.
“Deixei minha antiga vida para trás e quase me esqueci de como era ser um Caçador de Sombras. Mas não me esqueci de Jocelyn. Ela, em meus pensamentos, era minha constante companhia. Temia por ela, em virtude da presença de Valentim, mas sabia que se me aproximasse do casarão o Ciclo me perseguiria até me matar.
“No fim das contas, ela veio até mim. Eu estava dormindo no acampamento quando meu segundo no comando disse que uma jovem Caçadora de Sombras queria me ver. Imediatamente soube quem era. Eu podia ver o ar de reprovação nos olhos deles enquanto corria para encontrá-la. Todos eles sabiam que eu já havia sido um Caçador de Sombras, é claro, mas isso era considerado um segredo vergonhoso, jamais mencionado. Valentim teria rido.
“Ela estava esperando por mim do lado de fora do acampamento. Não estava mais grávida, e tinha uma aparência pálida e esgotada. Ela tivera o filho, um menino, e o batizara de Jonathan Christopher. Ela chorou ao me ver. Estava brava por eu não tê-la avisado de que ainda estava vivo. Valentim dissera ao Ciclo que eu me matara, mas ela não acreditara. Ela sabia que eu jamais faria isso. Senti que a fé dela em mim não tinha garantias, mas estava tão aliviado em vê-la novamente que não a contradisse.
“Perguntei como ela havia me encontrado. Ela disse que havia boatos em Alicante sobre um lobisomem que já havia sido Caçador de Sombras. Valentim também escutara os boatos, e ela tinha vindo para me alertar. Ele veio logo depois, mas me escondi dele, como os lobisomens podem fazer, e ele foi embora sem qualquer derramamento de sangue.
“Depois disso, comecei a me encontrar com Jocelyn em segredo. Era o ano dos Acordos, e todo o Submundo estava alvoroçado por conta deles, e por conta dos prováveis planos de Valentim para interrompê-los. Ouvi dizer que ele havia discutido fervorosamente na Clave contra os Acordos, mas sem sucesso. Então o Ciclo pensou num novo plano, elaborado em sigilo. Eles se aliaram aos demônios — os maiores inimigos dos Caçadores de Sombras — para conseguir armas que pudessem entrar no Grande Salão do Anjo sem serem detectadas, onde os Acordos seriam assinados. E, com a ajuda de um demônio, Valentim roubou o Cálice Mortal. Em seu lugar, deixou uma cópia. A Clave levou meses para perceber que o Cálice havia desaparecido, e àquela altura era tarde demais.
“Jocelyn tentou descobrir o que Valentim pretendia fazer com o Cálice, mas não conseguiu. Mas ela sabia que o Ciclo pretendia avançar sobre os membros do Submundo desarmados e assassiná-los no Salão. Depois de um massacre daquela natureza, os Acordos falhariam.
“Apesar do caos, de um jeito estranho, aqueles foram dias felizes. Eu e Jocelyn enviamos mensagens dissimuladamente para as fadas, os feiticeiros e até mesmo os velhos inimigos dos lobos, os vampiros, alertando-os quanto aos planos de Valentim, e anunciando que deveriam preparar-se para a batalha. Trabalhamos juntos, lobisomem e Nephilim.
“No dia dos Acordos, assisti escondido enquanto Jocelyn e Valentim deixavam o casarão. Lembro-me de como ela se abaixou para beijar a cabeça loura, quase branca, do filho. Lembro-me do sol iluminando a cabeça dela; lembro-me do sorriso.
“Eles foram para Alicante de charrete; fui atrás correndo sobre quatro patas, e meu bando correu comigo. O Grande Salão do Anjo estava lotado com todos os membros da Clave e fileiras e fileiras de membros do Submundo. Quando os Acordos foram apresentados para assinatura, Valentim se levantou, e o Ciclo se levantou com ele, tirando as capas para sacar as armas. Quando o Salão se transformou em um caos, Jocelyn correu para as portas duplas do Salão e as abriu.
“Meu bando era o primeiro à porta. Invadimos o Salão, rasgando a noite com nossos uivos, seguidos por guerreiros do reino das fadas com armas de vidro e chifres tortos. Depois deles, vieram os Filhos da Noite com as garras expostas, e feiticeiros com ferro e chamas. Enquanto as massas em pânico fugiam do Salão, atacamos os membros do Ciclo.
“O Grande Salão do Anjo jamais havia testemunhado um banho de sangue daqueles. Tentamos não ferir os Caçadores de Sombras que não faziam parte do Ciclo; Jocelyn os havia marcado, um a um, com o encanto de um feiticeiro. Mas muitos morreram, e temo que tenhamos sido responsáveis por algumas mortes. Certamente, depois disso, fomos responsabilizados por muitas. Quanto ao Ciclo, havia muito mais deles do que imaginávamos, e eles combateram os integrantes do Submundo ferozmente. Passei pela multidão até Valentim. Ele era meu único pensamento — que talvez eu pudesse ser o responsável por sua morte, que poderia ter essa honra. Finalmente, eu o encontrei ao lado da grande estátua do Anjo, matando um cavaleiro do reino das fadas com um golpe certeiro da adaga suja de sangue. Ao me ver, ele sorriu, brutal e feroz.
“— Um lobisomem que luta com espadas e adaga — ele disse — é tão artificial quanto um cachorro que come com garfo e faca.
“— Você conhece a espada, você conhece a adaga — falei. — E sabe quem eu sou. Se tiver que se dirigir a mim, use o meu nome.
“— Não uso nomes de semi-homens — disse Valentim. — Tive um amigo, um homem de honra que morreria antes de permitir que seu sangue se poluísse. Agora um monstro inominável com o rosto dele está na minha frente. — Ele ergueu a espada. — Deveria tê-lo matado quando tive a chance — ele gritou, e correu em minha direção.
“Interceptei o golpe, lutamos pelo estrado, enquanto a batalha fervilhava a nosso redor, e os membros do Ciclo caíam, um a um. Vi os Lightwood largarem as armas e fugirem; Hodge já havia desaparecido, fugiu logo no início. Depois vi Jocelyn correndo para cima das escadas em minha direção, seu rosto era uma máscara de medo.
“— Valentim, pare! — ela gritou. — É Luke, seu quase irmão...
“Com um rosnado, Valentim a pegou e colocou-a na frente dele, com a adaga no pescoço dela. Larguei minha lança. Não arriscaria a segurança dela. Ele viu o que havia nos meus olhos.
“— Você sempre a quis — ele sibilou. — Agora vocês dois tramaram me trair. Vocês vão se arrepender do que fizeram, pelo resto da vida.
“Com isso, ele arrancou o cordão do pescoço de Jocelyn e o jogou para mim. O cordão de prata me queimou como um açoite. Gritei e caí para trás, e naquele momento ele desapareceu no campo de batalha, levando-a com ele. Fui atrás, queimado e sangrando, mas ele foi rápido demais, cortando caminho pela multidão e pelos mortos.
“Cambaleei até o luar. O Salão estava queimando e o céu estava aceso com fogo. Podia enxergar por todos os campos verdes da capital, até o rio escuro, e a estrada pela margem do rio, onde as pessoas fugiam noite afora. Encontrei Jocelyn na margem do rio, finalmente. Valentim havia desaparecido, e ela estava desesperada por Jonathan, desesperada para voltar para casa. Encontramos um cavalo, e ela partiu. Transformando-me em lobo, fui atrás.
“Lobos são velozes, mas um cavalo descansado é ainda mais. Logo fiquei para trás, e ela chegou ao casarão antes de mim.
“Enquanto me aproximava, eu sabia que alguma coisa estava terrivelmente errada. Lá também o cheiro de fogo estava pesado no ar, e havia algo se sobrepondo a ele, algo espesso e doce — o cheiro de feitiço demoníaco. Tornei-me homem novamente e fui mancando pela estrada, branca ao luar, como um rio de chumbo prateado... em ruínas. O casarão fora reduzido a cinzas, camada sobre camada de brancura, espalhadas na entrada pelo vento noturno. Só os alicerces, como ossos queimados, ainda eram visíveis: uma janela aqui, uma chaminé caída ali — mas a essência da casa, os tijolos e a argamassa, os livros de valor inestimável e as tapeçarias antigas, passadas de geração em geração de Caçadores de Sombras, tudo havia virado pó, que estava voando sob a face da lua.
“Valentim havia destruído a casa com fogo demoníaco. Só podia. Nenhum fogo neste mundo queima tanto, ou deixa tão pouco para trás.
“Fui até as ruínas que ainda queimavam. Encontrei Jocelyn ajoelhada no que talvez tivessem sido os degraus de entrada. Estavam escurecidos pelo fogo. E havia ossos. Escurecidos, mas reconhecidamente humanos, com pedaços de tecido aqui e ali, e fragmentos de joias que o fogo não tinha levado. Fios dourados e vermelhos ainda nos ossos da mãe de Jocelyn, e o calor do fogo havia derretido a adaga do pai dela em sua mão esquelética. Entre outra pilha de ossos, brilhava o amuleto prateado de Valentim, com a insígnia do Ciclo ainda queimando no rosto dele... e, entre os restos, espalhados como se fossem frágeis demais para se manter juntos, havia os despojos de uma criança.
“Vocês vão se arrepender do que fizeram, Valentim dissera. E, ao me ajoelhar com Jocelyn no pavimento de pedras queimadas, sabia que ele estava certo. Eu me arrependi, e me arrependi todos os dias desde então.
“Voltamos pela cidade naquela noite, entre os incêndios que ainda queimavam e as pessoas berrando, depois pela escuridão do campo. Jocelyn levou uma semana para voltar a falar. Fugimos para Paris. Não tínhamos dinheiro, mas ela se recusou a ir ao Instituto de lá para pedir ajuda. Ela não queria saber mais de Caçadores de Sombras, ela me disse, não queria mais saber do Mundo de Sombras.
“Sentei em um hotel pequeno e barato, em um quarto que tínhamos alugado, e tentei devolver-lhe o juízo, mas não adiantou nada. Ela era obstinada. Finalmente me disse por quê: estava grávida novamente, e sabia disso. Ela faria uma vida nova para ela e para o novo bebê, e não queria que qualquer menção de Clave ou Pacto envenenasse seu futuro. Ela me mostrou o amuleto que havia retirado da pilha de ossos; no mercado de pulgas de Clignancourt, ela o vendeu e com aquele dinheiro comprou uma passagem de avião. Ela não quis me dizer para onde estava indo. Quanto mais longe de Idris conseguisse ficar, ela me disse, melhor.
“Eu sabia que deixar a antiga vida para trás significava me deixar para trás também, e argumentei com ela, mas não adiantou nada. Eu sabia que, se não fosse pelo bebê que ela estava esperando, ela teria se matado e, como perdê-la para o mundo dos mundanos era melhor do que perdê-la para a morte, finalmente concordei com o plano, embora relutante. Então me despedi dela no aeroporto. As últimas palavras que Jocelyn me disse naquela terrível despedida me deram calafrio na espinha: “Valentim não está morto.”
“Depois que ela se foi, voltei para meu bando, mas não encontrei paz. Havia um vazio doloroso e constante em mim, e eu sempre acordava com o nome dela nos lábios. Não era mais o líder de outrora; isso eu sabia. Eu era justo e correto, mas contido; não conseguia fazer amigos entre os lobos, tampouco tinha uma parceira. No fim das contas, eu era excessivamente humano — excessivamente Caçador de Sombras — para encontrar sossego entre os licantropes. Eu caçava, mas a caça não trazia satisfação; e quando chegou a hora de os Acordos serem finalmente assinados, fui até a cidade.
“No Salão do Anjo, limpos do sangue, os Caçadores de Sombras e as quatro espécies de semi-humanos sentaram novamente para assinar os papéis que selariam a paz entre nós. Fiquei chocado ao ver os Lightwood, que pareciam tão chocados quanto eu pelo fato de eu não estar morto. Eles mesmos, disseram, junto com Hodge Starkweather e Michael Wayland, foram os únicos membros do antigo Ciclo a escapar da morte naquela noite no Salão. Michael, abalado pela dor de ter perdido a mulher, se refugiara em seu próprio estado com o filho. A Clave havia punido os outros três com o exílio: estavam sendo enviados para Nova York, para dirigirem o Instituto de lá. Os Lightwood, que tinham conexões com as famílias mais importantes da Clave, receberam uma sentença muito mais leve que a de Hodge. Ele havia sido amaldiçoado: iria com eles, mas, se algum dia saísse dos confins do Instituto, seria instantaneamente morto. Ele estava se dedicando aos estudos, eles disseram, e se tornaria um bom tutor para os filhos deles.
“Quando assinamos os Acordos, levantei da minha cadeira e saí do salão, fui até o rio onde havia encontrado Jocelyn na noite da Ascensão. Observando o fluxo das águas escuras, soube que nunca encontraria paz na minha própria terra: precisava estar com ela ou em lugar nenhum. Resolvi que iria procurá-la.
“Deixei meu bando, indicando um sucessor para ocupar meu lugar; acho que ficaram aliviados com a minha partida. Viajei como um lobo sem bando viaja: sozinho, à noite, mantendo-me próximo às estradas. Voltei a Paris, mas não achei pista alguma por lá. Depois fui a Londres. De lá, peguei um barco para Boston.
“Passei um tempo nas cidades, depois nas Montanhas Brancas do norte congelado. Viajei bastante, mas cada vez mais me via pensando em Nova York, e nos Caçadores de Sombras exilados de lá. Jocelyn, de certa forma, também estava exilada. Logo cheguei à Nova York, com apenas uma mochila, e sem a menor ideia de onde procurar sua mãe. Teria sido muito fácil encontrar um bando de lobisomens ao qual me juntar, mas resisti. Como havia feito em outras cidades, enviei mensagens pelo Submundo, procurando qualquer sinal de Jocelyn, mas não havia nada, nenhuma pista, era como se ela simplesmente tivesse desaparecido na realidade mundana sem deixar rastros. Comecei a me desesperar.
“No fim das contas, eu a encontrei por acaso. Estava nas ruas do SoHo, a esmo. Enquanto pisava sobre o asfalto de pedras da Broome Street, um quadro na vitrine de uma galeria chamou minha atenção.
“Era uma paisagem que reconheci imediatamente: a vista da janela do casarão da família dela, o gramado verde passando entre as árvores que escondiam a estrada além. Reconheci seu estilo, as pinceladas, tudo. Bati à porta da galeria, e dessa vez vi a assinatura. Foi a primeira vez que vi seu novo nome: Jocelyn Fray.
“Antes daquela noite, eu já a encontrara, morando no quinto andar de um prédio sem elevador, naquele refúgio dos artistas, o East Village. Subi as escadas pouco iluminadas com o coração na garganta, e bati à sua porta. Quem abriu foi uma garotinha com tranças ruivas e olhos inquisitivos. Então, atrás dela, vi Jocelyn caminhando em minha direção, com as mãos sujas de tinta e o rosto idêntico à época em que éramos crianças...
“O resto, você já sabe.”