Cidade dos Ossos

Cassandra Clare · Capítulo 16 de 29

Páginas do PDF

Cidade dos Ossos

* Gray significa “cinza” em inglês. (N. do T.)

As sobrancelhas de Jace se ergueram.

— É uma cópia do Livro Gray?*

Magnus, folheando as páginas fervorosamente, não disse nada.

— Hodge tem um — observou Alec. — Ele me mostrou uma vez.

— Não é cinza. — Clary se sentiu na obrigação de destacar. — É verde.

— Se existisse literalismo terminal, você teria morrido ainda na infância — disse Jace, esfregando a poeira do parapeito da janela e olhando-o como se estivesse analisando se estava limpo o suficiente para se sentar. — Gray é abreviação de “Gramarye”. Significa “magia, sabedoria oculta”. Nele, há uma cópia de cada símbolo escrito pelo Anjo Raziel no Livro do Pacto original. Não existem muitas cópias, pois cada uma teve de ser feita especialmente. Alguns dos símbolos são tão poderosos que queimariam páginas normais.

Alec pareceu impressionado.

— Não sabia de nada disso.

Jace subiu no parapeito da janela e balançou as pernas.

— Nem todos nós passamos as aulas de história dormindo.

— Eu não...

— Ah, dormia sim. Além disso, ainda babava na mesa.

— Calem-se — disse Magnus, embora de forma bastante branda. Ele pôs o dedo entre duas páginas do livro e foi até Clary, colocando-o cuidadosamente sobre o colo dela. — Bem, agora, quando eu abrir o livro, quero que você estude a página cuidadosamente. Olhe até sentir alguma coisa em sua mente mudar.

— Vai doer? — Clary perguntou apreensiva.

— Todo conhecimento dói — ele respondeu e se levantou, deixando o livro se abrir em seu colo. Clary encarou a página limpa com a Marca preta estampada. Parecia algo como uma espiral alada, até ela inclinar a cabeça, e então parecia um bastão envolvido por vinhas. Os cantos mutáveis da estampa mexiam com a mente dela como penas tocando uma pele sensível. Ela sentiu uma leve reação, que fez com que quisesse fechar os olhos, mas os manteve abertos até arderem e embaçarem. Estava prestes a piscar quando sentiu um clique na mente, como uma chave girando na fechadura.

O símbolo na página pareceu entrar em foco, e ela pensou involuntariamente, Lembre-se. Se o símbolo fosse uma palavra, teria sido essa, mas havia mais significado naquilo do que em qualquer palavra que ela pudesse imaginar. Era a primeira lembrança de uma criança, de luz atravessando as barras de um berço, o cheiro da chuva e das ruas da cidade, a dor de uma perda não esquecida, a picada de uma humilhação lembrada e o esquecimento cruel da velha idade, quando as lembranças mais antigas se destacam com precisão clara e agonizante e os incidentes mais próximos ficam perdidos além de qualquer possibilidade de recordação.

Com um leve suspiro, ela virou para a página seguinte, e a próxima, permitindo que as imagens e as sensações fluíssem por ela. Tristeza. Reflexão. Força. Proteção. Graciosidade — depois gritou com surpresa repreensiva enquanto Magnus retirava o livro do colo.

— Basta — ele disse, recolocando-o na prateleira. Ele limpou o pó das mãos nas calças coloridas, deixando linhas cinzentas. — Se você ler todos os símbolos de uma só vez, vai ficar com dor de cabeça.

— Mas...

— A maioria das crianças Caçadoras de Sombras cresce aprendendo um símbolo de cada vez em um período de anos — disse Jace. — O Livro Gray contém símbolos que nem eu conheço.

— Imagine só uma coisa dessas — disse Magnus.

Jace o ignorou.

— Magnus mostrou o símbolo da compreensão e da lembrança. Ele abre a mente para ler e reconhecer o resto das Marcas.

— Também serve como um gatilho para ativar memórias dormentes — disse Magnus. — Elas podem voltar mais depressa do que voltariam em outro caso. É o melhor que posso fazer.

Clary olhou para o próprio colo.

— Continuo não me lembrando de nada a respeito do Cálice Mortal.

— É por isso que fizeram isso tudo? — Magnus parecia genuinamente abismado. — Vocês estão atrás do Cálice? Olhe, já passeei pelas suas lembranças. Não havia nada nelas sobre os Instrumentos Mortais.

— Instrumentos Mortais? — ecoou Clary, espantada. — Eu pensei...

— O Anjo deu três itens aos primeiros Caçadores de Sombras. Um cálice, uma espada e um espelho. Os Irmãos do Silêncio têm a espada; o cálice e o espelho estavam em Idris, pelo menos até a chegada de Valentim.

— Ninguém sabe onde está o espelho — disse Alec. — Há anos ninguém sabe.

— É o Cálice que nos preocupa — disse Jace. — Valentim está procurando por ele.

— E vocês querem encontrá-lo antes dele? — perguntou Magnus, erguendo as sobrancelhas.

— Pensei que você tivesse dito que não sabia quem era Valentim — disse Clary.

— Eu menti — admitiu Magnus sinceramente. — Não sou um dos visionários, saiba. Não tenho que ser verdadeiro. E só um louco se colocaria entre Valentim e sua vingança.

— É disso que você acha que ele está atrás? Vingança? — disse Jace.

— Diria que sim. Sofreu uma grande derrota, e ele não me parecia, não me parece, o tipo de homem capaz de aceitar uma derrota com elegância.

Alec olhou com mais firmeza para Magnus.

— Você estava na Ascensão?

Os olhos de Magnus encontraram os de Alec.

— Estava. Matei diversos do seu bando.

— Membros do Ciclo — disse Jace, rapidamente. — Não nossos...

— Se você insiste em repudiar aquilo que é disforme sobre o que vocês fazem — afirmou Magnus, ainda olhando para Alec —, nunca aprenderá com os próprios erros.

Alec, mexendo na colcha, enrubesceu com tristeza.

— Você não parece surpreso de ouvir que Valentim ainda está vivo — sugeriu, evitando o olhar de Magnus.

Magnus abriu os braços.

— E você está?

Jace abriu a boca, depois a fechou novamente. Ele parecia realmente perplexo. E acabou dizendo:

— Então você não vai nos ajudar a achar o Cálice Mortal?

— Não ajudaria se pudesse — disse Magnus —, coisa que, por sinal, não posso. Não faço ideia de onde esteja, nem quero saber. Só um louco, como já disse.

Alec se sentou ereto.

— Mas sem o Cálice não podemos...

— Fazer mais de vocês. Eu sei — disse Magnus. — Talvez nem todos encarem isso como o desastre que vocês pensam. Fiquem sabendo — ele disse — que, se eu tivesse que escolher entre a Clave e Valentim, escolheria a Clave. Pelo menos eles não juram dizimar a minha espécie. Mas a Clave nunca fez nada que conquistasse minha lealdade incondicional. Então, não, vou ficar de fora dessa. Agora, se já tivermos concluído o assunto, gostaria de voltar para a minha festa antes que os convidados comecem a devorar uns aos outros.

Jace, que estava abrindo e fechando as mãos, parecia prestes a dizer alguma coisa agressiva, mas Alec, de pé, pôs a mão em seu ombro. Clary não poderia afirmar em decorrência da pouca luz, mas parecia que Alec estava apertando com força.

— É algo provável? — ele perguntou.

Magnus estava olhando para ele com um quê de divertimento.

— Já aconteceu antes.

Jace murmurou alguma coisa para Alec, que o soltou. Depois veio até Clary.

— Você está bem? — perguntou em tom baixo.

— Acho que sim. Não me sinto em nada diferente...

Magnus, parado na porta, estalou os dedos impacientemente.

— Vamos logo, adolescentes. A única pessoa que pode afagar no meu quarto é o magnífico eu.

— Afagar? — repetiu Clary, que nunca tinha ouvido essa palavra num contexto desses antes.

— Magnífico? — repetiu Jace, que estava apenas sendo petulante. O rosnado parecia um “Saia daqui”.

Eles saíram, Magnus atrás deles, enquanto parava para trancar a porta do quarto. A festa parecia sutilmente diferente a Clary. Talvez fosse apenas a visão ligeiramente alterada: tudo parecia mais claro, pontas cristalinas completamente definidas. Ela observou um grupo de músicos no pequeno palco no centro da sala. Vestiam roupas esvoaçantes em profundos tons de dourado, roxo e verde, e tinham vozes afinadas e etéreas.

— Detesto bandas de fadas — murmurou Magnus enquanto a banda começava outra música assombrosa. A melodia era tão delicada e translúcida quanto um cristal. — Só tocam baladas.

Jace, olhando ao redor da sala, riu.

— Onde está Isabelle?

Uma onda de preocupação culpada atingiu Clary. Esquecera-se de Simon. Ela girou, procurando os ombros magros familiares e os cabelos escuros.

— Não estou vendo. Eles, quero dizer.

— Lá está ela. E cuidado com o Puca.

— Cuidado com o Puca? — repetiu Jace, olhando na direção de um homem magro de pele marrom com um colete verde que encarava Isabelle contemplativamente enquanto ela passava.

— Ele me beliscou quando passei por ele mais cedo — disse Alec rigidamente. — Em uma área altamente pessoal.

— Detesto dizer isso a você, mas, se ele está interessado nas suas áreas altamente pessoais, provavelmente não está interessado nas da sua irmã.

— Não necessariamente — disse Magnus. — Fadas não são muito exigentes.

Jace contraiu o lábio fazendo uma careta na direção do feiticeiro.

— Você ainda está aqui?

Antes que Magnus pudesse responder, Isabelle aproximou-se, com o rosto rosado e manchado, e cheirando a álcool.

— Jace! Alec! Onde vocês estavam? Procurei por vocês em toda...

— Cadê o Simon? — interrompeu Clary.

Isabelle cambaleou.

— Ele é um rato — disse sombriamente.

— Ele fez alguma coisa com você? — perguntou Alec, cheio de preocupação fraternal. — Ele tocou em você? Se ele tiver tentado alguma coisa...

— Não, Alec — disse Isabelle, irritadiça. — Não é isso. Ele é um rato.

— Ela está bêbada — disse Jace, começando a se virar, enojado.

— Não estou não — Isabelle disse indignada. — Bem, talvez um pouco, mas a questão não é essa. A questão é que Simon tomou um daqueles drinques azuis, eu disse para não tomar, mas ele não me ouviu, e se transformou em um rato.

— Um rato? — Clary repetiu, incrédula. — Você não quer dizer...

— Quero dizer um rato — afirmou Isabelle. — Pequeno. Marrom. Com rabo comprido.

— A Clave não vai gostar nada disso — disse Alec dubiamente. — Tenho certeza de que transformar mundanos em ratos é contra a Lei.

— Tecnicamente ela não o transformou em um rato — disse Jace. — O máximo de que podem acusá-la é negligência.

— Quem se importa com a droga da Lei? — gritou Clary, agarrando o pulso de Isabelle. — Meu melhor amigo é um rato!

— Ai — Isabelle tentou puxar o pulso de volta —, me solte!

— Não até você me dizer onde ele está. — Ela nunca tivera tanta vontade de agredir alguém como estava com vontade de agredir Isabelle naquela hora. — Não posso acreditar que você o abandonou, ele deve estar apavorado...

— Se não tiver sido pisoteado — acrescentou Jace, que não estava ajudando em nada.

— Eu não o larguei. Ele correu para baixo do bar — protestou Isabelle, apontando. — Solte, você está estragando a minha pulseira.

— Sua vaca — Clary disse irritada, e empurrou, com força, a mão de Isabelle, que estava completamente surpresa. Ela não parou para ver a reação; correu em direção ao bar. Caindo de joelhos, espiou no espaço escuro embaixo. Na sombra com cheiro de mofo, ela achou que via um par de olhos brilhando.

— Simon? — ela perguntou, com a voz engasgada. — É você?

Simon, o rato, caminhou para a frente, com os bigodes tremendo. Ela podia ver o formato das pequenas orelhas redondas, achatadas na cabeça, e a ponta afiada do nariz. Conteve uma sensação de repulsa (nunca tinha gostado de ratos, com aqueles dentes amarelos e quadrados, prontos para morder). Ela gostaria que ele tivesse se transformado em um hamster.

— Sou eu, Clary — disse lentamente. — Você está bem?

Jace e os outros chegaram atrás dela, com Isabelle agora mais irritada do que chorosa.

— Ele está aí embaixo? — Jace perguntou, curioso.

Clary, ainda agachada sobre as mãos e os joelhos, fez que sim com a cabeça.

— Shhh. Você vai assustá-lo. — Ela colocou os dedos cautelosamente embaixo do limite do bar, e balançou-os. — Por favor, saia, Simon. Vamos pedir para Magnus reverter o feitiço. Vai ficar tudo bem.

Ela ouviu um chiado, e o focinho cor-de-rosa do rato apareceu por baixo do bar. Com uma exclamação de alívio, Clary pegou o rato nas mãos.

— Simon! Você me entendeu!

O rato, aconchegado na curva da mão dela, manifestou-se por meio de chiados. Feliz da vida, ela o abraçou.

— Ah, pobrezinho — ela disse, como se ele fosse um animal de estimação. — Pobre Simon, vai ficar tudo bem, eu prometo...

— Eu não sentiria tanta pena dele assim — aconselhou Jace. — Isso deve ser o mais perto que ele já chegou de uma garota.

— Cale a boca! — Clary olhou para Jace furiosamente, mas ela abrandou a força do abraço no rato. Os bigodes dele tremiam, se era de raiva ou agitação, ou simplesmente medo, não havia como saber. — Vá buscar Magnus — disse, em tom de desafio. — Temos que transformá-lo em humano outra vez.

— Não vamos nos precipitar. — Jace estava sorrindo como um idiota. Ele esticou o braço em direção a Simon, como se fosse acariciá-lo. — Ele fica bonitinho assim. Veja só o narizinho cor-de-rosa dele.

Simon exibiu os dentes amarelos para Jace e fez um movimento de ataque. Jace puxou de volta a mão esticada.

— Izzy, vá buscar nosso magnífico anfitrião.

— Por que eu? — Isabelle perguntou, em tom petulante.

— Porque o mundano virou um rato por culpa sua, idiota — ele disse, e Clary espantou-se com a raridade com que qualquer um deles, exceto Isabelle, usava o verdadeiro nome de Simon. — E não podemos deixá-lo aqui.

— Você ficaria feliz em deixá-lo se não fosse por ela — disse Isabelle, conseguindo injetar na palavra monossilábica veneno suficiente para contaminar um elefante. Ela partiu, com a saia comprida esvoaçando ao redor dos quadris.

— Não acredito que ela o deixou beber o negócio azul — Clary disse para o rato Simon. — Viu só o que conseguiu por ser tão superficial?

Simon chiou irritado. Clary ouviu uma risada e olhou para cima, para ver Magnus inclinado sobre ela. Isabelle estava atrás dele, com uma expressão furiosa.

— Rattus norvegicus — disse Magnus, olhando para Simon. — Um rato marrom comum, nada exótico.

— Não me importa o tipo de rato que ele é — Clary disse, irritada. — Eu o quero humano novamente.

Magnus coçou a cabeça pensativamente, derrubando purpurina.

— Não tem por quê — ele disse.

— NÃO TEM POR QUÊ? — gritou Clary, tão alto que Simon escondeu a cabeça embaixo do polegar dela. — COMO VOCÊ PODE DIZER QUE NÃO TEM POR QUÊ?

— Porque ele vai voltar ao normal em algumas horas — disse Magnus. — O efeito dos coquetéis é temporário. Não há por que fazer um feitiço de transformação; isso só vai traumatizá-lo. Mágica demais afeta muito os mundanos, porque os organismos não estão acostumados.

— Também duvido que o organismo dele esteja acostumado a ser um rato — ressaltou Clary. — Você é um feiticeiro. Não pode simplesmente reverter o feitiço?

Magnus refletiu sobre a pergunta.

— Não — ele disse.

— Quer dizer que não quer?

— Não de graça, querida, e você não tem condições financeiras de me bancar.

— E também não posso levar um rato no metrô — disse Clary. — Vou deixá-lo cair, ou algum policial do metrô vai me prender por levar uma peste em transporte público. — Simon chiou, irritado. — Não que você seja uma peste, é claro.

Uma garota que estava gritando perto da porta acabara de receber a companhia de seis ou sete outras. O som de vozes irritadas sobressaiu ao barulho da festa e à música. Magnus revirou os olhos.

— Com licença — ele disse, voltando para a multidão, que se fechou atrás dele imediatamente.

Isabelle, cambaleando sobre as sandálias, suspirou.

— Que bela ajuda a dele!

— Quer saber? — disse Alec. — Você pode muito bem colocar o rato na sua mochila.

Clary o encarou severamente, mas não conseguiu encontrar nada de errado para dizer. Afinal, ela não tinha bolso algum onde pudesse guardá-lo. As roupas de Isabelle não permitiam bolsos; eram justas demais. Clary ficava impressionada por vestirem a própria Isabelle.

Tirando a mochila das costas, ela encontrou um esconderijo para o pequeno rato marrom que outrora fora Simon, aninhado entre um casaco e um caderno. Ele se encolheu sobre a carteira dela, com um ar de reprovação.

— Desculpe — ela pediu, triste.

— Não se incomode — replicou Jace. — A razão pela qual os mundanos tomam para si culpas que não têm é um verdadeiro mistério para mim. Você não forçou o drinque na garganta desse tolo.

— Se não fosse por mim, ele nem teria vindo para cá — disse Clary, baixinho.

— Não seja convencida. Ele veio por causa de Isabelle.

Com raiva, Clary fechou a mochila e se levantou.

— Vamos sair daqui. Estou cheia deste lugar.

Descobriu-se que os responsáveis pelos gritos à porta eram mais vampiros, facilmente reconhecíveis pela palidez e pela negritude morta dos cabelos. Aposto que pintam, pensou Clary, não podiam ser todos naturalmente morenos. Além disso, alguns deles tinham sobrancelhas louras. Estavam reclamando em voz alta das motocicletas vandalizadas, e do fato de que alguns amigos estavam desaparecidos, e ninguém sabia deles.

— Provavelmente estão bêbados e desmaiados em algum lugar — disse Magnus, acenando os longos dedos brancos de maneira entediada. — Vocês sabem como a sua espécie costuma se transformar em morcegos e montes de poeira quando tomam Bloody Marys demais.

— Eles misturam vodca com sangue de verdade — Jace disse no ouvido de Clary.

A pressão da respiração dele fez com que ela tremesse.

— Sim, entendi isso, obrigada.

— Não podemos sair por aí pegando todos os montes de poeira que aparecerem para o caso de serem o Gregor de manhã — disse uma garota com a boca raivosa e as sobrancelhas pintadas.

— Gregor vai ficar bem. Eu raramente varro o chão — atenuou Magnus. — Será um prazer enviar qualquer um que ficar para trás de volta ao hotel amanhã; em um carro com janelas pretas, é claro.

— Mas e as nossas motos? — indagou um menino magro cujas raízes louras apareciam sob a tintura de cabelo malfeita. Um brinco de ouro em forma de estaca pendurava-se da orelha esquerda dele. — Levaremos horas para consertá-las.

— Vocês têm até o amanhecer — disse Magnus, claramente perdendo a paciência. — Sugiro que comecem logo. — Ele levantou o tom de voz. — Muito bem, CHEGA! Acabou a festa! Todo mundo: rua! — Ele balançou os braços, derrubando purpurina por todos os lados.

Com uma única batida sonora, a banda parou de tocar. Uma lamúria em alto volume foi emitida pelos convidados, mas eles acabaram se dirigindo para a porta, obedientes. Nenhum deles parou para agradecer a Magnus pela festa.

— Vamos — Jace empurrou Clary para a saída. A multidão era densa. Ela segurou a mochila na frente do corpo, com as mãos embrulhando-a de forma protetora. Alguém esbarrou em seu ombro, com força, e ela cambaleou e foi para o lado, afastando-se de Jace. Uma mão tocou a mochila dela. Ela levantou o olhar e viu o vampiro com o brinco de estaca sorrindo maliciosamente para ela.

— Olá, bonitinha — ele cumprimentou. — O que você tem na mochila?

— Água-benta — disse Jace, reaparecendo ao lado dela como se tivesse sido conjurado, como um gênio da lâmpada mágica. Um gênio louro e sarcástico com problemas de comportamento.

— Uhhhh, um Caçador de Sombras — disse o vampiro. — Que medo! — Com uma piscadela, ele voltou para a multidão.

— Vampiros são tão exibicionistas. — Magnus suspirou da porta. — Sinceramente, não sei por que dou estas festas.

— Por causa do seu gato — Clary o lembrou.

Magnus se recompôs.

— É verdade. O Presidente Miau merece todos os meus esforços. — Ele olhou para ela e para o grupo de Caçadores de Sombras logo atrás. — Vocês estão saindo?

Jace anuiu com a cabeça.

— Não queremos abusar da sua hospitalidade.

— Que hospitalidade? — indagou Magnus. — Eu diria que foi um prazer conhecê-los, mas não foi. Não que não sejam charmosos, e quanto a você... — Ele deu uma piscadela para Alec, que parecia perplexo. — Me liga?

Alec enrubesceu e gaguejou, e provavelmente teria ficado ali parado a noite inteira se não fosse Jace, que o pegou pelo cotovelo e o arrastou para a porta, com Isabelle logo atrás. Clary estava prestes a seguir quando sentiu um toque no braço; era Magnus.

— Tenho um recado para você — ele disse. — Da sua mãe.

Clary ficou tão surpresa que quase derrubou a mochila.

— Da minha mãe? Quero dizer, ela pediu para você me falar alguma coisa?

— Não exatamente — disse Magnus. Seus olhos felinos, rasgados pela única linha vertical que eram as pupilas, como fissuras em uma parede verde-dourada, pareciam sérios pela primeira vez. — Mas eu a conheci de um jeito que você não conheceu. Ela fez tudo isso para mantê-la fora de um mundo que ela odiava. Toda a sua existência, as fugas, os esconderijos, as mentiras, como você as chamou, foram para protegê-la. Não desperdice os sacrifícios dela arriscando a própria vida. Ela jamais iria querer isso.

— Ela não desejaria que eu a salvasse?

— Não se para isso você tivesse que correr perigo.

— Mas eu sou a única pessoa que se importa se acontecer algum mal a ela...

— Não — disse Magnus. — Não é, não.

Clary piscou os olhos.

— Não estou entendendo. Existe... Magnus, se você sabe de alguma coisa...

Ele a interrompeu com precisão brutal.

— E uma última coisa. — Os olhos dele desviaram-se para a porta, através da qual Jace, Alec e Isabelle haviam desaparecido. — Tenha em mente que, quando a sua mãe fugiu do Mundo de Sombras, não era dos monstros que ela estava se escondendo. Não era dos feiticeiros, dos lobisomens, das fadas, nem dos próprios demônios. Era deles. Era dos Caçadores de Sombras.

Eles estavam esperando por ela do lado de fora do armazém. Jace, com as mãos nos bolsos, estava apoiado no corrimão da escada e observando enquanto os vampiros passeavam em volta das motocicletas quebradas, reclamando e xingando. Ele tinha um sorriso suave no rosto. Alec e Isabelle estavam um pouco afastados. Isabelle estava esfregando os olhos, chorando, e Clary sentiu um ódio irracional — Isabelle mal conhecia Simon. Não era uma desgraça para ela. Clary era a única com o direito de se sentir daquele jeito, não a Caçadora de Sombras.

Jace desgrudou do corrimão quando Clary surgiu. Ele foi para o lado dela, sem falar nada. Parecia perdido nos próprios pensamentos. Isabelle e Alec, apressados na frente, pareciam estar discutindo um com o outro. Clary apressou o passo, esticando o pescoço para ouvi-los melhor.

— Não é culpa sua — dizia Alec. Ele parecia esgotado, como se já tivesse passado por aquilo com a irmã anteriormente. Clary imaginou quantos namorados ela já havia transformado acidentalmente em ratos. — Mas deveria te ensinar a não ir a tantas festas do Submundo — ele acrescentou. — Dão mais prejuízo do que lucro.

Isabelle fungou.

— Se alguma coisa tivesse acontecido a ele, eu... eu não sei o que teria feito.

— Provavelmente o que quer que fosse que você fazia antes — disse Alec com a voz entediada. — Afinal de contas, você nem o conhecia tão bem assim.

— Isso não quer dizer que eu não...

— O quê? Que o ama? — Alec levantou a voz. — É preciso conhecer alguém para poder amar.

— Mas não é só isso. — Isabelle soava quase triste. — Você não se divertiu na festa, Alec?

— Não.

— Achei que você pudesse gostar do Magnus. Ele é legal, não é?

— Legal? — Alec olhou para a irmã como se ela fosse louca. — Filhotes de gatos são legais. Feiticeiros... — ele hesitou. — Não são — concluiu sem qualquer originalidade.

— Achei que vocês pudessem se dar bem. — Os olhos maquiados de Isabelle brilharam com lágrimas quando olhou para o irmão. — Tornar-se amigos.

— Eu tenho amigos — disse Alec, e olhou por cima do ombro, quase como se não pudesse evitar, para Jace.

Mas Jace, com a cabeça dourada para baixo, perdido em pensamentos, não percebeu.

Impulsivamente, Clary esticou a mão para abrir a mochila e dar uma olhada — e congelou. Estava aberta. Ela voltou mentalmente para a festa — ela levantara a mochila e fechara o zíper. Tinha certeza disso. Ela abriu ainda mais, com o coração acelerado.

Ela se lembrou da ocasião em que roubaram sua carteira no metrô. Ela se lembrava de ter aberto a mochila, não ter visto a carteira dentro, e a boca secando em sinal de surpresa — Será que eu a deixei cair? Será que a perdi? Até que se deu conta: não estava mais lá. Foi assim, só que mil vezes pior. Com a boca seca de nervoso, Clary revirou a mochila, jogando as roupas e o caderno de lado, as unhas arranhando a base. Nada.

Ela havia parado de andar. Jace estava pouco à frente dela, aparentando impaciência, Alec e Isabelle já estavam um quarteirão à frente.

— O que houve? — perguntou Jace, e ela percebeu que ele estava prestes a acrescentar alguma coisa sarcástica. Mas deve ter reparado no olhar estampado no rosto dela, pois nada disse. — Clary?

— Ele se foi — ela sussurrou. — Simon. Ele estava na minha mochila...

— Ele saiu sozinho?

Não era uma pergunta insensata, mas Clary, exausta e completamente em pânico, reagiu de forma insensata.

— É claro que não! — ela gritou. — Qual é, você acha que ele quer ser esmagado por um carro, morto por um gato...

— Clary...

— Cale a boca! — ela gritou, balançando a mochila na direção dele. — Foi você que disse para não perder tempo mudando o feitiço...

Com um reflexo, ele pegou a mochila enquanto ela a balançava. Retirando-a da mão de Clary, ele a examinou.

— O zíper está arrebentado — ele disse. — Pelo lado de fora. Alguém rasgou essa mochila para abri-la.

Sacudindo a cabeça, completamente atordoada, Clary só conseguia sussurrar:

— Eu não...

— Eu sei. — A voz dele era delicada. Em seguida gritou: — Alec! Isabelle! Podem ir na frente! Alcançaremos vocês.

Os dois, já adiantados, pararam; Alec hesitou, mas Isabelle o pegou pelo braço, empurrando-o com firmeza para a entrada do metrô. Algo pressionou as costas de Clary: era a mão de Jace, virando-a gentilmente. Ela deixou que ele a levasse para a frente, tropeçando em rachaduras na calçada, até estarem de volta na entrada do prédio de Magnus. O cheiro de álcool e o inconfundível aroma doce que Clary passara a associar ao Submundo preenchiam o ambiente. Tirando a mão das costas dela, Jace apertou a campainha sobre o nome de Magnus.

— Jace — ela disse.

Ele olhou para baixo, para ela.

— O quê?

Ela buscou as palavras certas.

— Você acha que ele está bem?

— Simon? — ele hesitou e ela pensou nas palavras de Isabelle: não faça nenhuma pergunta a ele se não puder suportar a resposta. Em vez de falar alguma coisa, ele limitou-se a apertar a campainha outra vez.

Dessa vez, Magnus respondeu, a voz ecoando sombria pela entradinha.

— QUEM OUSA PERTURBAR MEU DESCANSO?

Jace parecia quase nervoso.

— Jace Wayland. Lembra? Sou da Clave.

— Ah, sim. — Magnus pareceu se acalmar. — Você é o de olhos azuis?

— Ele está perguntando se você é o Alec — explicou Clary.

— Não. Os meus geralmente são descritos como dourados — Jace falou ao interfone. — E luminosos.

— Ah, esse — Magnus parecia desapontado. Se Clary não estivesse tão chateada, teria rido. — Acho que é melhor você subir.

O feiticeiro abriu a porta trajando quimono de seda estampado com dragões, um turbante dourado e tinha uma expressão de irritação quase incontrolável.

— Eu estava dormindo — disse com cara de travesseiro, então Clary o interrompeu.

— Desculpe incomodá-lo...

Algo pequeno e branco passou pelos calcanhares do feiticeiro. Tinha listras de cor cinza em ziguezague e orelhas rosadas que o faziam parecer mais um rato grande do que um gato pequeno.

— Presidente Miau? — adivinhou Clary.

Magnus anuiu com a cabeça.

— Ele voltou.

Jace olhou para o pequeno animal com uma careta no rosto.

— Isso não é um gato — observou ele. — É do tamanho de um hamster.

— Vou fazer a gentileza de esquecer que você falou isso — disse Magnus, utilizando o pé para colocar aqui Presidente Miau atrás dele. — Agora, para que exatamente vocês vieram aqui?

Clary esticou a mochila rasgada.

— Simon. Desapareceu.

— Ah — disse Magnus, delicadamente —, desapareceu como?

— Desapareceu — repetiu Jace —, sumiu, está ausente, destacado por sua falta de presença, desapareceu.

— Talvez ele tenha fugido e se escondido embaixo de alguma coisa — sugeriu Magnus. — Não deve ser fácil acostumar-se a ser um rato, principalmente para alguém tão pouco sagaz.

— Simon não é pouco sagaz — Clary protestou, furiosa.

— É verdade — concordou Jace. — Ele só parece pouco sagaz. Na verdade, a inteligência dele está bem na média. — Seu tom era leve, mas os ombros ficaram tensos quando ele se voltou para Magnus. — Quando estávamos indo embora, um dos seus convidados esbarrou na Clary. Acho que ele rasgou a mochila dela e pegou o rato. Simon, quero dizer.

Magnus olhou para ele.

— E?

— E eu preciso descobrir quem é — Jace disse com firmeza. — Suponho que você saiba. Você é o Magnífico Feiticeiro do Brooklyn. Acho que não se passa muita coisa que você não saiba no seu próprio apartamento.

Magnus inspecionou uma unha.

— Você não está enganado.

— Por favor, nos conte — disse Clary. A mão de Jace apertou o pulso dela. Ela sabia que ele queria que ela ficasse quieta, mas isso era impossível. — Por favor.

Magnus suspirou.

— Tudo bem. Eu vi um dos vampiros motoqueiros sair com um rato marrom nas mãos. Honestamente, achei que fosse um deles. Às vezes os Filhos da Noite se transformam em ratos ou morcegos quando ficam bêbados.

As mãos de Clary estavam tremendo.

— Mas agora você acha que era o Simon?

— É só um palpite, mas parece provável.

— Tem mais uma coisa — Jace falou com calma, mas já estava alerta, do jeito que estivera no apartamento, quando encontraram o Renegado. — Onde é a toca deles?

— O quê?

— A toca dos vampiros. Eles foram para lá, não é?

— Suponho que sim. — Magnus parecia querer estar em qualquer outro lugar.

— Preciso que você me diga onde é.

Magnus balançou a cabeça.

— Eu não vou me indispor com os Filhos da Noite por um mundano que nem sequer conheço.

— Espere — interrompeu Clary. — O que eles poderiam querer com Simon? Achei que não pudessem machucar pessoas...

— Meu palpite? — disse Magnus, sem ser ofensivo. — Eles devem ter achado que era um rato domado e pensaram que seria engraçado matar o animal de estimação de um Caçador de Sombras. Eles não gostam muito de vocês, independente do que digam os Acordos, e não há nada no Pacto sobre não matar animais.

— Eles vão matá-lo? — perguntou Clary, olhando fixamente para ele.

— Não necessariamente. — Magnus apressou-se em dizer. — Podem ter pensado que ele era um deles.

— Nesse caso, o que acontecerá com ele? — perguntou Clary.

— Bem, quando ele voltar a ser humano, vão matá-lo assim mesmo. Mas você pode ter mais algumas horas.

— Então você precisa nos ajudar — Clary disse ao feiticeiro. — Caso contrário, Simon morrerá.

Magnus a olhou de cima a baixo com uma espécie de simpatia.

— Todo mundo morre, querida — ele disse. — Você deveria se acostumar com isso.

Ele começou a fechar a porta. Jace esticou o pé, mantendo-a aberta.

— O que foi agora?

— Você ainda não nos falou onde é a toca — disse Jace.

— E não vou dizer. Eu falei...

Dessa vez, foi Clary que interrompeu, colocando-se na frente de Jace.

— Você mexeu com o meu cérebro — ela disse. — Tomou minhas lembranças. Você não pode fazer nada por mim?

Magnus franziu os olhos de gato. Em algum lugar a distância, o Presidente Miau estava chorando. Lentamente, o feiticeiro abaixou a cabeça e a esfregou uma vez, com força, contra a parede.

— No Hotel Dumort — ele disse. — Na parte norte da cidade.

— Eu sei onde é. — Jace parecia satisfeito.

— Precisamos chegar lá agora mesmo. Você tem um Portal? — perguntou Clary, dirigindo-se a Magnus.

— Não. — Ele parecia irritado. — É muito difícil construir portais que não representem um risco pequeno ao dono. Coisas ruins podem passar por eles se não forem adequadamente protegidos. Os únicos que conheço em Nova York são os da casa da Dorothea, e um que fica em Renwick, mas ambos ficam longe demais para fazer valer o esforço de tentar chegar até eles, mesmo que você tivesse certeza de que os proprietários permitiriam que você utilizasse, algo que provavelmente não aconteceria. Entendeu? Agora podem ir embora — Magnus olhou em tom desafiador para o pé de Jace, que continuava bloqueando a porta. Jace não se moveu.

— Mais uma coisa — disse Jace. — Tem algum lugar sagrado por aqui?

— Boa ideia. Se você vai enfrentar uma toca inteira de vampiros sozinho, é melhor rezar antes.

— Precisamos de armas — disse Jace secamente. — Mais do que temos conosco.

Magnus apontou.

— Há uma igreja católica na Diamond Street. Serve?

Jace anuiu com a cabeça, dando um passo para trás.

— Isso...

A porta fechou na cara deles. Clary, sem fôlego, olhou fixamente para ela até Jace pegá-la pelo braço e arrastá-la pelas escadas noite adentro.

Nota