Cidade dos Ossos

Cassandra Clare · Capítulo 20 de 29

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Cidade dos Ossos

17. A Flor da Meia-Noite

17

 

A Flor da Meia-Noite

À meia-luz, as enormes salas vazias que atravessaram a caminho do telhado pareciam tão desertas quanto palcos vazios, os móveis cobertos de branco erguendo-se à luz como icebergs através da fumaça.

Quando Jace abriu a porta da estufa, o cheiro atingiu Clary, suave como o toque da patinha de um gato: algo escuro e carregado de terra, e o cheiro mais forte de flores noturnas brotando — daturas, trombeteiros, maravilhas — e algumas que ela não reconhecia, como uma planta que trazia um botão amarelo em forma de estrela cujas pétalas eram cheias de pólen dourado. Através das paredes de vidro do recinto, ela podia ver as luzes de Manhattan queimando como joias.

— Uau. — Ela virou lentamente, absorvendo aquilo tudo. — É muito lindo à noite!

Jace sorriu.

— E temos o lugar só para nós. Alec e Isabelle detestam vir aqui. Eles são alérgicos.

Clary tremeu, embora não estivesse com frio.

— Que espécie de flor é esta?

Jace deu de ombros e sentou, cuidadosamente, ao lado de um arbusto verde lustroso cheio de botões de flores.

— Não faço ideia. Você acha que eu presto atenção à aula de botânica? Não vou ser arquivista. Não preciso saber nada disso.

— Você só precisa saber como matar coisas?

Ele olhou para ela e sorriu. Ele parecia um anjo louro de um quadro de Rembrandt, exceto por aquela boca diabólica.

— Isso mesmo. — Ele pegou um pacote embrulhado em um guardanapo do saco de papel e ofereceu a ela. — Além disso — ele acrescentou —, faço um sanduíche de queijo delicioso. Prove um.

Clary sorriu com certa relutância e sentou-se na frente dele. O chão de pedra da estufa estava frio contra suas pernas nuas, mas era agradável, depois de ter passado por tanto calor. Do saco de papel, Jace tirou algumas maçãs, uma barra de chocolate com frutas e amêndoa, e uma garrafa de água.

— Até que não foi um saque qualquer — ele disse, admirando o próprio piquenique.

O sanduíche de queijo estava morno e um pouco mole, mas o gosto era bom. De um dos incontáveis bolsos da jaqueta, Jace pegou uma faca com cabo de osso que parecia capaz de cortar um urso pardo. Ele começou a partir as maçãs em oito pedaços.

— Bem, não é um bolo de aniversário — ele disse, dando um pedaço a ela —, mas espero que seja melhor do que nada.

— “Nada” era exatamente o que eu estava esperando, então, obrigada. — Ela mordeu um pedaço. A maçã tinha gosto verde e fresco.

— Ninguém deveria ficar sem nada no aniversário. — Ele estava descascando a segunda maçã, a casca saía em tiras curvilíneas. — Aniversários têm que ser especiais. Meu aniversário sempre era o dia que meu pai dizia que eu podia fazer o que eu quisesse.

— Qualquer coisa? — ela riu. — E que tipo de coisa você queria fazer?

— Bem, quando fiz 5 anos, quis tomar banho com espaguete.

— Mas ele não deixou, certo?

— Não, aí é que está. Ele deixou. Disse que não era caro, e por que não, se era o que eu queria? Ele mandou os empregados encherem uma banheira com água fervendo e macarrão, e quando esfriou... — Ele deu de ombros. — Eu tomei banho.

Empregados?, pensou Clary. Em voz alta, ela disse:

— Como foi?

— Escorregadio.

— Aposto que sim. — Ela tentou imaginá-lo como um garotinho, gargalhando, com macarrão até os ouvidos. A imagem não se formava. Certamente ele nunca gargalhara, nem aos 5 anos. — O que mais você pedia?

— Armas, na maioria das vezes — ele disse —, tenho certeza de que isso não a surpreende. Livros. Eu lia muito, sozinho.

— Você não ia para a escola?

— Não — ele disse, e agora falava lentamente, quase como se estivessem se aproximando de um tópico que ele não quisesse discutir.

— Mas os seus amigos...

— Eu não tinha amigos — ele disse. — Só o meu pai. Ele era tudo que eu precisava.

Ela olhou fixamente para ele.

— Nenhum amigo?

Ele encontrou o olhar dela.

— Na primeira vez em que encontrei o Alec — ele disse —, quando tinha 10 anos, foi a primeira vez que encontrei outra criança da minha idade. A primeira vez que tive um amigo.

Ela abaixou o olhar. Agora uma imagem estava se formando, nem um pouco bem-vinda, na cabeça dela: ela pensou em Alec, no jeito que ele olhara para ela. Ele não diria isso.

— Não sinta pena de mim — disse Jace, como se estivesse adivinhando os pensamentos dela, embora não fosse dele que ela estava sentindo pena. — Ele me deu a melhor educação, o melhor treinamento. Ele me levou por todo o mundo. Londres. São Petersburgo. Egito. Adorávamos viajar. — Os olhos dele estavam sombrios. — Não fui a lugar algum desde que ele morreu. Nenhum lugar além de Nova York.

— Você tem sorte — disse Clary. — Nunca saí deste estado na vida. Minha mãe não me deixava nem ir a passeios da escola em Washington. Acho que agora sei por quê — ela acrescentou.

— Ela tinha medo de que você pirasse? Começasse a ver demônios na Casa Branca?

Ela mordeu um pedaço do chocolate.

— Tem demônios na Casa Branca?

— Eu estava brincando — disse Jace. — Eu acho. — Ele deu de ombros filosoficamente. — Com certeza alguém teria dito alguma coisa.

— Acho que só não queria que eu ficasse muito longe dela. Minha mãe, quero dizer. Depois que o meu pai morreu, ela mudou muito. — A voz de Luke ecoou em sua mente. Você nunca mais foi a mesma desde que aconteceu. Mas Clary não é Jonathan.

Jace ergueu a sobrancelha para ela.

— Você se lembra do seu pai?

Ela balançou a cabeça.

— Não. Ele morreu antes de eu nascer.

— Sorte sua — ele disse. — Assim você não sente falta dele.

Se fosse qualquer outra pessoa, teria sido horrível dizer isso, mas pela primeira vez não havia qualquer amargura em seu tom de voz, só a dor da solidão pela ausência do próprio pai.

— Alguma hora desaparece? — ela perguntou. — A falta dele, quero dizer.

Ele olhou para ela de forma oblíqua, mas não respondeu.

— Você está com saudades da sua mãe?

Não. Ela não ia pensar na mãe desse jeito.

— Do Luke, para falar a verdade.

— Não que esse seja o nome dele. — Ele mordeu a maçã pensativamente e disse: — Tenho pensado nele. Alguma coisa a respeito de seu comportamento não faz sentido.

— Ele é um covarde. — A voz de Clary era amarga. — Você o ouviu. Não vai se posicionar contra Valentim. Nem pela minha mãe.

— Mas é exatamente isso... — Uma longa reverberação metálica o interrompeu. Em algum lugar, um sino soava. — Meia-noite — disse Jace, repousando a faca. Ele se levantou, esticando a mão para puxar Clary para o lado dele. Seus dedos estavam levemente grudentos com o sumo de maçã. — Agora observe.

O olhar dele estava fixo no arbusto verde ao lado do qual eles estavam sentados, com duas dúzias de botões fechados. Ela começou a perguntar para onde deveria olhar, mas ele levantou a mão para contê-la. Os olhos dele estavam brilhando.

— Espere — ele disse.

As folhas no arbusto continuavam imóveis. De repente, um dos botões começou a tremer. Inchou, atingindo o dobro do tamanho original e abriu. Era como assistir a um filme de uma flor brotando em alta velocidade: as folhas verdes abrindo para fora, libertando as pétalas internas. Estavam cheias de pólen dourado tão leve quanto talco.

— Oh! — Clary exclamou e olhou para cima, então viu Jace observando-a. — Elas brotam toda noite?

— Só à meia-noite — ele disse. — Feliz aniversário, Clarissa Fray.

Ela estava estranhamente comovida com aquilo.

— Obrigada.

— Tenho uma coisa para você — disse. Ele colocou a mão no bolso e retirou algo, que apertou contra a mão dela. Era uma pedra cinza, levemente irregular, gasta em alguns pontos.

— Hum — disse Clary, virando a pedra nos dedos. — Uma pedra? Um rubi ou uma esmeralda?

— Muito interessante, minha amiguinha sarcástica. E não é uma pedra, exatamente. Todos os Caçadores de Sombras têm uma pedra com símbolos enfeitiçados.

— Ah. — Ela olhou para a pedra com interesse renovado, fechando os dedos ao redor dela, como tinha visto Jace fazer na adega. Ela não tinha certeza, mas achou ter visto um flash de luz emitido através dos próprios dedos.

— Vai te trazer luz — disse Jace —, mesmo nas sombras mais escuras deste mundo e de outros.

Ela guardou a pedra no bolso.

— Bem, obrigada. Foi gentil em me dar alguma coisa. — A tensão entre eles pareceu pressioná-la como ar úmido. — Muito melhor do que um banho de espaguete.

Ele falou sombriamente:

— Se você dividir essa informação com alguém, posso ser obrigado a matá-la.

— Bem, quando eu tinha 5 anos, queria que minha mãe me deixasse entrar na secadora para ficar dando voltas com as roupas — disse Clary. — A diferença é que ela disse não.

— Talvez porque entrar em uma secadora ligada pode ser fatal — destacou Jace —, ao passo que banho de macarrão raramente acaba em morte. A não ser que o macarrão tenha sido feito pela Isabelle.

A flor da meia-noite já estava perdendo as pétalas. Elas caíam ao chão, brilhando como pedacinhos de estrelas.

— Quando eu tinha 12 anos, queria uma tatuagem — disse Clary. — Minha mãe também não deixou.

Jace não riu.

— A maioria dos Caçadores de Sombras recebe as primeiras Marcas aos 12 anos. Devia estar no seu sangue.

— Talvez. Mas duvido que a maioria dos Caçadores de Sombras faça uma tatuagem do Donatello das Tartarugas Ninja no ombro esquerdo.

Jace parecia abismado.

— Você queria uma tartaruga no ombro?

— Queria cobrir uma cicatriz de catapora. — Ela puxou a manga gentilmente, mostrando a marca branca em forma de estrela. — Viu?

Ele desviou o olhar.

— Está ficando tarde — ele disse. — É melhor descermos.

Clary puxou a alça de volta, embaraçada. Como se ele fosse querer ver aquelas cicatrizes estúpidas!

As palavras seguintes saíram da boca de Clary de forma natural:

— Você e Isabelle já... namoraram?

Agora ele olhava para ela. A luz do luar realçava os olhos dele. Agora eram mais prateados do que dourados.

— Isabelle? — retrucou, de forma evasiva.

— Eu pensei... — Agora ela estava se sentindo ainda mais embaraçada. — Simon estava se perguntando.

— Talvez ele devesse perguntar a ela.

— Não sei se ele quer — disse Clary. — De qualquer forma, deixe pra lá. Não tenho nada a ver com isso.

Ele sorriu.

— A resposta é não. Quero dizer, pode ser que já tenha havido alguma época em que um ou outro tenha considerado essa possibilidade, mas ela é quase uma irmã para mim. Seria esquisito.

— Quer dizer que você e Isabelle nunca...

— Nunca — disse Jace.

— Ela me odeia — observou Clary.

— Não, ela não te odeia — ele disse, para a surpresa dela. — Você só a deixa nervosa, porque ela sempre foi a única menina no meio de meninos que a adoravam, e agora não é mais.

— Mas ela é tão linda!

— Você também — disse Jace. — E muito diferente dela, e ela não pôde deixar de notar isso. Ela sempre quis ser pequena e delicada. Detesta ser mais alta do que a maioria dos meninos.

Clary não respondeu nada, porque não tinha nada a dizer. Linda. Ele a tinha chamado de linda. Ninguém nunca dissera isso a respeito dela na vida, exceto Jocelyn, o que não contava. Mães têm a obrigação de achar os filhos lindos. Ela olhou fixamente para ele.

— Acho que deveríamos descer — ele disse outra vez. Ela sabia que o estava deixando desconfortável, olhando para ele daquele jeito, mas não conseguia parar.

— Tudo bem — disse ela, afinal. Para seu alívio, a voz soou normal. Foi um alívio ainda maior parar de olhar para ele ao se virar de costas. A lua, exatamente acima deles agora, iluminava tudo com um brilho quase diurno. Entre um passo e outro, ela viu um brilho branco sendo emitido de alguma coisa no chão: era a faca que Jace havia utilizado para cortar as maçãs, repousada sobre a lateral. Ela foi subitamente para trás para não pisar, e seu ombro bateu no dele, ele pôs a mão para ajudá-la a se equilibrar, bem na hora em que ela se virou para se desculpar. Em seguida, de algum jeito, ela estava nos braços dele, e ele a estava beijando.

Inicialmente, foi quase como se ele não quisesse beijá-la: a boca dele estava dura, inflexível; depois ele colocou os dois braços em volta dela, e a puxou para perto. Os lábios suavizaram. Ela podia sentir os batimentos rápidos do coração dele, o gosto doce da maçã ainda na boca. Ela pôs as mãos nos cabelos dele, como quisera fazer desde a primeira vez em que o vira. Os cabelos dele se enrolaram nos dedos dela, finos e sedosos. O coração dele batia forte, e ela ouviu um ruído nos ouvidos, como asas batendo...

Jace afastou-se com uma exclamação espantada, embora continuasse com os braços em volta dela.

— Não entre em pânico, mas temos plateia.

Clary virou a cabeça. Empoleirado no galho de árvore mais próximo estava Hugo, observando-os com olhos negros e brilhantes. Então o barulho que ela tinha ouvido realmente fora de asas batendo, e não fruto de sua imaginação. Isso foi decepcionante.

— Se ele está aqui, Hodge não está longe — murmurou Jace. — É melhor irmos.

— Ele está te vigiando? — sibilou Clary. — Hodge, quero dizer.

— Não. Ele só gosta de vir aqui em cima para refletir. É uma pena, nós estávamos tendo uma conversa tão boa. — Ele riu consigo mesmo.

Eles desceram por onde haviam subido, mas para Clary a travessia parecia inteiramente diferente. Jace continuou segurando a mão dela, enviando pequenas correntes elétricas pelas veias e por todos os lugares onde a tocava: os dedos, o pulso, a palma da mão. Sua mente estava explodindo com perguntas, mas ela estava com medo de quebrar o clima fazendo alguma delas. Ele disse que fora uma pena, então ela concluiu que a noite havia acabado, pelo menos a parte do beijo.

Eles chegaram à porta do quarto dela. Ela se apoiou na parede, olhando para ele.

— Obrigada pelo piquenique de aniversário — ela disse, tentando manter o tom neutro.

Ele parecia relutante em soltar a mão dela.

— Você vai dormir?

Ele só está sendo educado, ela disse a si mesma. Mas este era Jace. Ele nunca era educado. Ela resolveu responder a uma pergunta com outra.

— Você não está cansado?

Sua voz veio baixa.

— Nunca estive tão acordado.

Ele se inclinou para beijá-la, puxando o rosto dela com a mão livre. Os lábios se tocaram, inicialmente de forma suave, depois com uma pressão mais intensa. Foi exatamente nesse instante que Simon abriu a porta do quarto e entrou no corredor.

Ele estava piscando muito, e com o cabelo no rosto, e sem óculos, mas podia enxergar muito bem.

— Que diabos é isso? — ele perguntou, tão alto que Clary saltou para longe de Jace, como se o toque dele queimasse.

— Simon! O que você está fazendo... quero dizer, pensei que você estivesse...

— Dormindo? Eu estava — ele disse. As maçãs de seu rosto estavam completamente vermelhas, sobressaindo no bronzeado, como sempre ficavam quando ele estava envergonhado ou irritado. — Depois acordei e você não estava lá, então pensei que...

Clary não conseguia pensar em nada para dizer. Por que não ocorrera a ela que isso poderia acontecer? Por que ela não havia sugerido que fossem para o quarto de Jace? A resposta era tão simples quanto terrível: ela se esquecera completamente de Simon.

— Sinto muito — ela disse, incerta quanto a quem estava se referindo. Com o canto do olho, ela pensou ter visto Jace lançar-lhe um olhar de raiva, mas, quando olhou para ele, ele estava do mesmo jeito de sempre: calmo, confiante, e ligeiramente entediado.

— No futuro, Clarissa — ele disse —, seria uma boa ideia mencionar que já tem um homem na sua cama, para evitar situações desse tipo.

— Você o convidou para a sua cama? — perguntou Simon, parecendo abalado.

— Ridículo, não é mesmo? — disse Jace. — Nunca caberíamos os três.

— Eu não o convidei para a minha cama — irritou-se Clary. — Só estávamos nos beijando.

— Só nos beijando? — O tom de Jace zombava dela com uma falsa tristeza. — Como você desqualifica assim o nosso amor?

— Jace...

Ela viu a malícia nos olhos dele e parou de falar. Não tinha por quê. O estômago dela pareceu subitamente pesado.

— Simon, está tarde — ela disse com a voz cansada. — Sinto muito por tê-lo acordado.

— Eu também. — Ele voltou para o quarto, batendo a porta atrás de si.

O sorriso de Jace parecia tão comum quanto torrada com manteiga.

— Vá em frente, vá atrás dele. Passe a mão na cabeça dele e diga que ele continua sendo seu carinha mais do que especial. Não é isso que você quer fazer?

— Pare com isso — ela disse. — Pare de agir desse jeito.

O sorriso dele se alargou.

— De que jeito?

— Se você está irritado, apenas diga que está. Não aja como se nada nunca o atingisse. Parece até que você nunca sente nada.

— Talvez você devesse ter pensado nisso antes de me beijar — ele disse.

Ela olhou para ele, incrédula.

— Eu beijei você?

Ele olhou maliciosamente para ela.

— Não se preocupe — ele disse —, também não foi tão memorável assim para mim.

Ela o observou enquanto ele se afastava, e sentiu, ao mesmo tempo, vontade de começar a chorar e de correr atrás dele com o único propósito de chutá-lo na canela. Sabendo que qualquer ação lhe traria imensa satisfação, ela não fez nem uma coisa nem outra; apenas voltou para o quarto.

Simon estava no meio do quarto, parecendo perdido. Ele pusera os óculos de volta. Ela ouviu a voz de Jace mentalmente, dizendo passe a mão na cabeça dele e diga que ele continua sendo seu carinha mais do que especial em tom de desdém.

Ela deu um passo em direção a ele, depois parou quando percebeu o que ele estava segurando. O caderno, aberto na página do último desenho que ela estivera fazendo, que retratava Jace com asas de anjo.

— Bonito — ele disse. — Todas aquelas aulas de arte estão surtindo efeito.

Normalmente, Clary teria brigado com ele por estar olhando o caderno, mas não era hora para isso.

— Simon...

— Admito que correr para o seu quarto pode não ter sido a melhor das manobras — ele interrompeu, jogando o caderno de volta na cama. — Mas eu tinha que pegar as minhas coisas.

— Para onde você vai?

— Para casa. Já passei tempo demais aqui, em minha opinião. Mundanos como eu não pertencem a lugares como este.

Ela suspirou.

— Simon, sinto muito, tudo bem? Não tinha a intenção de beijá-lo; aconteceu. Sei que você não gosta dele.

— Não — Simon disse ainda mais secamente. — Eu não gosto de refrigerante sem gás. Eu não gosto de música pop de boy bands. Eu não gosto de ficar preso no trânsito. Eu não gosto de dever de matemática. Eu odeio Jace. Percebe a diferença?

— Ele salvou a sua vida — disse Clary, sentindo-se uma fraude. Afinal, Jace só tinha ido ao hotel Dumort porque ficou com medo de se encrencar se ela morresse.

— Detalhes — disse Simon desconsiderando. — Ele é um idiota. Pensei que você fosse melhor do que isso.

Clary se irritou.

— Ah, e agora você vai bancar o superior para cima de mim? — disse. — Era você que ia convidar a menina com “o melhor corpo” para a festa da escola. — Ela imitou o tom despreocupado de Eric. A boca de Simon se contraiu em irritação. — E daí que Jace banque o idiota às vezes? Você não é meu irmão, não é meu pai, você não precisa gostar dele. Eu nunca gostei de nenhuma das suas namoradas, mas pelo menos tive a decência de guardar isso para mim.

— Isso — Simon disse entre dentes cerrados — é diferente.

— Como? Diferente como?

— Porque eu vejo o jeito como você olha para ele! — gritou. — E eu nunca olhei para qualquer daquelas garotas desse jeito. Era só um passatempo, uma maneira de praticar, até...

— Até o quê? — Clary tinha a leve noção de que estava sendo péssima, a situação toda era péssima; eles nunca haviam tido uma briga mais séria do que uma discussão sobre quem comera a última bala da caixa na casa da árvore, mas ela não parecia conseguir se controlar. — Até Isabelle aparecer? Eu não posso acreditar que você esteja me passando um sermão a respeito de Jace quando bancou o idiota por ela! — A voz de Clary se elevou a um grito.

— Eu estava tentando deixá-la com ciúmes! — gritou Simon, em resposta. Seus punhos estavam cerrados. — Você é tão idiota, Clary. Você é tão idiota, será que não consegue enxergar nada?

Ela o encarou completamente espantada. Mas que diabos ele estava querendo dizer?

— Tentando me deixar com ciúmes? Por que você faria uma coisa assim?

Ela percebeu imediatamente que essa era a pior coisa que poderia ter perguntado.

— Porque — ele disse, tão amargamente que a chocou — sou apaixonado por você há dez anos, então achei que era hora de descobrir se a recíproca era verdadeira. O que, por sinal, vejo que não.

Foi como se ele tivesse lhe dado um chute no estômago. Ela não conseguia falar; o ar tinha saído de seus pulmões. Ela o encarou, tentando formular uma resposta, qualquer resposta.

Ele a interrompeu bruscamente.

— Não. Não há nada que você possa dizer. — Ela o observou indo até a porta como se tivesse sido paralisada, sem conseguir se mover para contê-lo, por mais que quisesse. O que ela poderia dizer? “Também amo você”? Mas ela não o amava, amava?

Ele parou na porta, com a mão na maçaneta, e virou para olhar para ela. Os olhos por trás dos óculos pareciam mais cansados do que furiosos agora.

— Você realmente quer saber o que mais a minha mãe disse sobre você? — ele perguntou.

Ela balançou a cabeça.

Ele não pareceu perceber.

— Ela disse que você partiria meu coração — ele lhe disse, e saiu. A porta se fechou atrás dele com um clique definitivo e Clary se viu sozinha.

Depois que ele foi embora, ela voltou para a cama e pegou o caderno. Ela o abraçou com força, não queria desenhar, apenas ansiava pelo cheiro de coisas familiares: tinta, papel, lápis de cera.

Ela pensou em correr atrás de Simon, tentando alcançá-lo. Mas o que diria? O que poderia dizer? Você é tão idiota, Clary, ele dissera a ela. Será que não consegue enxergar nada?

Ela pensou em centenas de coisas que ele tinha dito ou feito, piadinhas que Eric e outras pessoas faziam a respeito deles, conversas interrompidas quando ela entrava na sala. Jace sabia desde o começo. Estava rindo porque declarações de amor me entretêm, sobretudo quando não há reciprocidade. Ela não tinha parado para pensar no que ele estava querendo dizer, mas agora sabia.

Mais cedo ela dissera a Simon que só tinha amado três pessoas na vida: a mãe, Luke e ele. Ela ficou imaginando se era realmente possível, no espaço de uma semana, perder todas as pessoas que amava. Imaginou se seria possível sobreviver àquilo. E, mesmo assim, naqueles breves instantes no telhado com Jace, ela se esquecera da mãe. Esquecera Luke. Esquecera Simon. E tinha se sentido feliz. Isto era o pior de tudo: ela tinha se sentido feliz.

Talvez isso, ela pensou, perder Simon, talvez isso seja o meu castigo pelo egoísmo de me sentir feliz, mesmo que por um segundo apenas, quando a minha mãe continua desaparecida. Nada daquilo havia sido real. Jace podia até beijar muito bem, mas ele não gostava dela. Ele mesmo dissera.

Ela abaixou o caderno lentamente para seu colo. Simon tinha razão; era um belo desenho de Jace. Ela havia conseguido retratar a linha rígida de sua boca, aqueles olhos estranhamente vulneráveis. As asas pareciam tão reais que ela imaginou que, se passasse os dedos nelas, elas seriam macias. Ela deixou a mão passar pela página, com a mente vagando.

E levou a mão para trás, olhando fixamente. Seus dedos tocaram não a página seca, mas a maciez das penas. Ela olhou para os símbolos que havia desenhado no canto da folha. Estavam brilhando, do jeito que ela vira brilharem os símbolos que Jace desenhava com a estela.

O coração de Clary começou a bater acelerado, firme e rígido. Se um símbolo podia dar vida a um desenho, então talvez...

Sem tirar os olhos do desenho, ela procurou os lápis. Sem fôlego, ela passou as folhas, procurando uma página nova, limpa, e apressadamente começou a desenhar a primeira coisa que veio à sua mente. Foi a xícara de café repousada na cabeceira ao lado da cama. Acessando as lembranças das aulas de desenho de natureza-morta, ela desenhou nos mínimos detalhes: a aba borrada, a rachadura na alça. Quando terminou, a figura era tão precisa quanto ela podia fazer. Guiada por alguma espécie de instinto que ela não conseguia entender muito bem, ela pegou a xícara e colocou-a sobre o papel. Depois, cuidadosamente, começou a desenhar os símbolos ao lado dela.