Cidade dos Ossos

Cassandra Clare · Capítulo 26 de 29

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Cidade dos Ossos

22. A Ruína de Renwick

22

 

A Ruína de Renwick

Por um longo instante depois que Luke acabou de falar, fez-se silêncio na sala. O único som era o fraco ruído da água correndo pelas paredes de pedra. Finalmente, ele falou:

— Diga alguma coisa, Clary.

— O que você quer que eu diga?

Ele suspirou.

— Talvez que entende?

Clary podia ouvir o sangue latejando nas orelhas. Ela se sentia como se a própria vida tivesse sido construída em uma folha de gelo, fina como papel, e agora o gelo estava começando a rachar, ameaçando lançá-la na escuridão gelada abaixo. Na água escura, ela pensou, onde todos os segredos da mãe navegavam pelas correntes, os restos esquecidos de uma vida naufragada.

Ela olhou para Luke. Ele parecia hesitante, indefinido, como se ela estivesse olhando por um vidro embaçado.

— Meu pai — ela disse. — Aquela foto que a minha mãe sempre guardou na lareira...

— Aquele não era o seu pai — disse Luke.

— Ele nem sequer existia? — A voz de Clary se levantou. — Algum dia existiu um John Clark ou minha mãe o inventou também?

— John Clark existiu, mas ele não era seu pai. Ele era o filho de dois dos vizinhos de sua mãe quando vocês moravam no East Village. Ele morreu em um acidente de carro, como sua mãe te contou, mas ela nunca o conheceu. Ela tinha a foto dele porque os vizinhos encomendaram uma pintura sua com o uniforme do exército. Ela entregou o retrato pintado, mas guardou a foto, e fingiu que aquele homem era seu pai. Imagino que ela tenha achado que seria mais fácil assim. Afinal de contas, se ela tivesse alegado que ele tinha fugido ou desaparecido, você iria querer procurá-lo. Um homem morto...

— Não contradiz nenhuma mentira — Clary concluiu amargamente. — Ela nunca pensou que pudesse ser errado, todos esses anos, me deixar pensar que meu pai estava morto, quando meu verdadeiro pai...

Luke não disse nada, deixando que ela mesma encontrasse a conclusão daquela frase, deixando que ela ousasse concluir aquilo sozinha.

— É Valentim. — A voz dela tremeu. — É isso que você está me dizendo, não é? Que Valentim era, é, meu pai?

Luke fez que sim com a cabeça. A tensão nos dedos era o único indício do que ele estava sentindo.

— É.

— Meu Deus. — Clary se levantou, sem conseguir ficar sentada ali, parada. Ela foi ofegante até as grades da cela. — Não é possível. Simplesmente não é possível.

— Clary, por favor, não se chateie...

— Não me chatear? Você está me dizendo que meu pai basicamente é uma espécie de príncipe do mal e quer que eu não me chateie?

— No início, ele não era mau — disse Luke, soando praticamente apologético.

— Ah, sinto em discordar. Acho que ele era claramente malvado. Tudo aquilo que ele pregava sobre manter a raça humana pura e a importância do sangue puro, ele era como um daqueles líderes nazistas. E vocês dois caíram na dele.

— Não era eu que estava falando em membros “lodosos” do Submundo há alguns minutos — disse Luke. — Ou sobre como não se pode confiar neles.

— Não é a mesma coisa! — Clary podia ouvir os soluços na própria voz. — Eu tive um irmão — ela prosseguiu, com a voz acompanhando. — Avós também. Eles estão mortos?

Luke assentiu, olhando para baixo, para as mãos, abertas sobre os joelhos.

— Estão mortos.

— Jonathan — ela disse suavemente. — Ele seria mais velho do que eu? Um ano mais velho?

Luke não disse nada.

— Sempre quis ter um irmão.

— Não — ele disse. — Não se martirize. Você pode perceber por que sua mãe escondeu isso tudo de você, não pode? Que bem teria feito saber de tudo o que você perdeu antes mesmo de nascer?

— Aquela caixa — lembrou Clary, com a mente a mil por hora e — com as iniciais J.C. Jonathan Christopher. Era por isso que ela vivia chorando, aquela mecha de cabelo, do meu irmão, não do meu pai.

— É.

— E, quando você disse “Clary não é Jonathan”, você estava falando do meu irmão. Minha mãe era protetora daquele jeito porque já tivera um filho morto.

Antes que Luke pudesse responder, a porta da cela se abriu e Gretel entrou. O “kit de primeiros socorros” que Clary imaginava ser uma caixa de plástico com uma cruz vermelha era, na verdade, uma bandeja de madeira com ataduras dobradas, vasilhas cheias de vapor com líquidos não identificados e ervas que exalavam um odor cítrico forte. Gretel repousou a bandeja ao lado da cama e gesticulou para Clary sentar, e ela obedeceu sem vontade.

— Boa menina — disse a mulher loba, molhando um pedaço de pano em uma das vasilhas e levantando-o para o rosto de Clary. Gentilmente, ela limpou o sangue seco. — O que aconteceu com você? — ela perguntou em tom de reprovação, como se suspeitasse que Clary tivesse posto uma sanduicheira no rosto.

— Estava me perguntando a mesma coisa — acrescentou Luke, assistindo aos acontecimentos com os braços cruzados.

— Hugo me atacou — Clary tentou não franzir o rosto enquanto o líquido ardia em seus ferimentos.

— Hugo? — Luke piscou.

— O pássaro de Hodge. Pelo menos eu acho que era o pássaro dele. Talvez fosse de Valentim.

— Hugin — Luke disse suavemente. — Hugin e Munin eram os pássaros de estimação de Valentim. Os nomes significam “Pensamento” e “Memória”.

— Bem, deveriam significar “Atacar” e “Matar” — sugeriu Clary. — Hugo quase arrancou meus olhos.

— Ele é treinado para fazer isso. — Luke estava batendo os dedos de uma das mãos no outro braço. — Hodge deve ter ficado com ele depois da Ascensão. Mas ele ainda seria uma criatura de Valentim.

— Assim como Hodge — disse Clary, franzindo o rosto enquanto Gretel limpava a longa ferida no braço, que estava cheio de sujeira e sangue ressecado. Depois Clary começou a fazer o curativo.

— Clary...

— Não quero mais falar sobre o passado — disse com determinação. — Quero saber o que vamos fazer agora. Agora que Valentim está com a minha mãe, Jace e com o Cálice. E nós não temos nada.

— Não diria que não temos nada — disse Luke. — Temos um poderoso bando de lobisomens. O problema é que não sabemos onde Valentim está.

Clary balançou a cabeça. Fios de cabelos caíram em seus olhos, e ela os sacudiu, impaciente. Nossa, como ela estava suja. O que ela mais queria na vida, mais que qualquer coisa — quase qualquer coisa —, era um banho.

— Valentim não tem uma espécie de esconderijo? Uma toca secreta?

— Se ele tem — disse Luke —, realmente a manteve em segredo.

Gretel soltou Clary, que mexeu o braço cautelosamente. O líquido verde que ela havia passado no machucado de fato havia minimizado a dor, mas o braço ainda estava rígido e desajeitado.

— Espere aí — exclamou Clary.

— Nunca entendi por que as pessoas dizem isso — disse Luke, a ninguém em particular. — Eu não estava indo a lugar algum.

— Será que Valentim pode estar em algum lugar de Nova York?

— Possivelmente.

— Quando o vi no Instituto, ele veio por um Portal. Magnus disse que só há dois Portais em Nova York. O de Dorothea e o de Renwick. O de Dorothea foi destruído, e eu não consigo imaginá-lo escondido por aí, então...

— Renwick? — Luke parecia espantado. — Renwick não é um nome de Caçador de Sombras.

— Mas e se Renwick não for uma pessoa? — disse Clary. — E se for um lugar? Renwick. Tipo um restaurante, ou... ou um hotel, ou alguma coisa.

Os olhos de Luke se arregalaram repentinamente. Ele se voltou para Gretel, que estava avançando em sua direção com o kit de primeiros socorros.

— Traga-me uma lista telefônica — ele disse.

Ela parou onde estava, segurando a bandeja em sua direção com uma expressão de reprovação.

— Mas, senhor, seus ferimentos...

— Esqueça os ferimentos e me traga uma lista telefônica — ele pediu. — Estamos em uma prisão, deve haver várias por aqui.

Com um olhar de exasperação desdenhosa, Gretel repousou a bandeja no chão e marchou para fora do quarto. Luke olhou para Clary por cima dos óculos, que haviam escorregado pelo nariz.

— Bem pensado.

Ela não respondeu. Havia um nó no seu estômago. Ela se viu tentando respirar apesar dele. Um pensamento incipiente passou pela mente de Clary, querendo transformar-se em uma percepção concreta. Mas ela o afastou em definitivo. Ela não podia gastar energia e recursos com nada além do problema imediato.

Gretel voltou com páginas amarelas de aparência mofada e jogou-as para Luke. Ele examinou o livro de pé, enquanto a mulher lobo atacava o lado ferido com ataduras e vidros de remédio.

— Há sete Renwicks na lista telefônica — ele disse afinal. — Nenhum restaurante, hotel ou outros locais. — Ele empurrou os óculos para cima; eles voltaram a escorregar instantaneamente. — Não são Caçadores de Sombras — ele disse — e me parece improvável que Valentim fosse montar um quartel-general na casa de um mundano ou de um membro do Submundo. Mas talvez...

— Você tem um telefone? — interrompeu Clary.

— Não comigo. — Luke, ainda com a lista telefônica na mão, olhou para Gretel por baixo dela. — Você pode pegar o telefone?

Com um ronco desdenhoso, ela descartou os pedaços de pano sangrentos que estava segurando no chão e saiu do recinto uma segunda vez. Luke pôs a lista na mesa, pegou o rolo de atadura e começou a enrolá-la em torno do corte diagonal na área das costelas.

— Desculpe — ele disse enquanto Clary o encarava. — Sei que é repugnante.

— Se pegarmos Valentim — ela perguntou abruptamente —, podemos matá-lo?

Luke quase derrubou as ataduras.

— O quê?

Ela estava mexendo em um pedaço de barbante que estava saindo do bolso da calça jeans.

— Ele matou o meu irmão. Ele matou meus avós. Não foi?

Luke colocou as ataduras na mesa e puxou a camisa para baixo.

— E você acha que matá-lo fará o quê? Acha que vai apagar tudo isso?

Gretel voltou antes que Clary pudesse responder. Ela estava com uma expressão martirizada e entregou a Luke um telefone celular de aparência estranha e antiquada. Clary ficou imaginando quem pagava as contas.

Clary estendeu a mão.

— Deixe-me dar um telefonema.

Luke parecia hesitante.

— Clary...

— É sobre Renwick. Vai demorar um segundo.

Ele entregou o telefone cautelosamente. Ela digitou o número e virou meio de costas para ele, a fim de criar uma ilusão de privacidade.

Simon atendeu no terceiro toque.

— Sou eu.

Sua voz subiu uma oitava.

— Você está bem?

— Estou. Por quê? Ouviu alguma coisa de Isabelle?

— Não. O que eu teria ouvido de Isabelle? Tem alguma coisa errada? É o Alec?

— Não — respondeu Clary, não querendo mentir e dizer que Alec estava bem. — Não é ele. Olhe só, eu preciso que você pesquise uma coisa na internet para mim.

Simon bufou.

— Você está brincando. Eles não têm um computador aí? Quer saber, não precisa responder. — Ela ouviu os ruídos de uma porta se abrindo, e o miado agressivo do gato da mãe de Simon ao ser expulso de seu lugar nos teclados do computador. Ela podia enxergar Simon mentalmente com toda a clareza enquanto se sentava, e os dedos se moviam rapidamente sobre as teclas. — O que você quer que eu procure?

Ela disse a ele. Ela podia sentir o olhar preocupado de Luke em cima dela enquanto falava. Eram os mesmos de quando ela tinha 11 anos e contraiu uma gripe com febre alta. Ele trouxera pedras de gelo para ela chupar e teve de ler todos os seus livros preferidos, fazendo todas as vozes diferentes.

— Você tem razão — disse Simon, retirando-a de seus devaneios. — É um lugar. Pelo menos era um lugar. Está abandonado agora.

O telefone escorregou por suas mãos suadas e ela segurou com mais força.

— Conte mais.

— O mais famoso asilo de lunáticos, prisão de devedores e hospital construído na Ilha Roosevelt no século XIX — Simon leu. — O Hospital de Varíola Renwick foi projetado pelo arquiteto Jacob Renwick e pretendia abrigar em quarentena as vítimas mais pobres da epidemia incontrolável de varíola em Manhattan. Durante o século seguinte, o hospital foi abandonado. O acesso público às ruínas é proibido.

— Tudo bem, isso é o bastante — disse Clary, com o coração acelerado. — Tem que ser isso. Ilha Roosevelt? Mas não há pessoas morando lá?

— Nem todo mundo mora na corte, princesa — disse Simon, com um razoável grau de sarcasmo. — Mas, então, você precisa que eu te dê mais uma carona, ou algo assim?

— Não! Estou bem, não preciso de nada. Só queria a informação.

— Tudo bem. — Ele soou um pouco magoado, Clary pensou, mas disse a si mesma que não tinha importância. Simon estava a salvo em casa, e era isso que importava realmente.

Ela desligou, e voltou-se para Luke.

— Há um hospital abandonado no sul da Ilha Roosevelt chamado Renwick. Acho que Valentim está lá.

Luke levantou os óculos novamente.

— A Ilha de Blackwell. É claro.

— Como assim, de Blackwell? Eu disse...

Ele a interrompeu com um gesto.

— É como a Ilha de Roosevelt se chamava. Blackwell. Pertencia a uma família de Caçadores de Sombras. Eu deveria ter adivinhado. — Ele virou para Gretel. — Vá buscar Alaric. Vamos precisar de todo mundo aqui o quanto antes. — Seus lábios estavam curvados em um meio sorriso que fez com que Clary se lembrasse do sorriso frio que Jace usava enquanto lutava. — Diga a eles para se prepararem para a batalha.

 

Eles subiram para a rua por um labirinto de celas e corredores que eventualmente se abriam no que outrora havia sido uma delegacia de polícia. O prédio estava abandonado agora, e a luz do fim da tarde formava estranhas sombras nas escrivaninhas vazias, as cabines fechadas a cadeado cheias de buracos pretos de cupim, os tacos rachados no chão soletravam o lema da Polícia Federal de Nova York: Fidelis ad Mortem.

— Fidelidade até a morte — explicou Luke, seguindo o olhar de Clary.

— Deixe-me adivinhar — disse Clary. — Do lado de dentro, é uma delegacia abandonada; por fora, os mundanos só veem um prédio condenado, ou um lote vago, ou...

— Na verdade, parece um restaurante chinês visto de fora — disse Luke. — Só para a viagem, sem serviço de mesa.

— Um restaurante chinês? — ecoou Clary, descrente.

Ele deu de ombros.

— Bem, estamos em Chinatown. Este já foi o prédio do Distrito.

— As pessoas devem achar estranho o fato de não haver qualquer telefone para os pedidos.

Luke sorriu.

— Tem telefone, sim. A gente só não atende muito. Às vezes, quando estão entediados, alguns lobinhos entregam porco mu shu.

— Você está brincando.

— De jeito nenhum. As gorjetas são extremamente úteis — ele abriu a porta da frente, deixando um fio de luz solar entrar.

Ainda incerta sobre ele estar brincando ou não, Clary seguiu Luke pela Baxter Street para onde o carro dele estava estacionado. O interior da picape era confortavelmente familiar. O cheiro fraco dos pedaços de madeira, de papel velho e sabão, o par desbotado de dados dourados que ela lhe dera quando tinha 10 anos porque eles pareciam o par de dados pendurados no espelho retrovisor da Millennium Falcon. Os papéis velhos de chiclete e os copos de café vazios no chão. Clary subiu no banco do passageiro, ajeitando-se com um suspiro. Ela estava mais cansada do que gostaria de admitir.

Luke fechou a porta atrás dela.

— Fique aqui.

Ela observou enquanto ele falava com Gretel e Alaric, que estavam nos degraus da velha delegacia de polícia, esperando pacientemente. Clary se entreteve deixando os olhos entrarem e saírem de foco, vendo o feitiço aparecer e desaparecer. Primeiro era uma velha delegacia de polícia, depois uma fachada de loja dilapidada que dizia JADE WOLF CULINÁRIA CHINESA.

Luke estava gesticulando para o número dois e o número três na linha de comando, apontando para a rua. A picape era a primeira de uma linha de vans, motos, jipes e até um ônibus escolar estragado. Os veículos se estendiam por uma linha pelo quarteirão, dobrando a esquina. Um comboio liderado por lobisomens. Clary imaginou como eles imploraram, pegaram emprestado, roubaram ou comandaram tantos veículos em um espaço de tempo tão curto. Pelo menos não teriam de ir no bonde aéreo.

Luke aceitou um saco de papel branco de Gretel e, com um aceno de cabeça, voltou para a picape. Curvando-se atrás do volante, ele entregou o saco a ela.

— Você está encarregada disso.

Clary olhou desconfiada para o saco.

— O que tem aqui? Armas?

Os ombros de Luke sacudiram com uma risada silenciosa.

— Pães no vapor, para falar a verdade — ele disse, conduzindo a picape para a rua — e café.

Clary rasgou o saco enquanto iam para a parte norte da cidade, com o estômago roncando furiosamente. Ela abriu um dos pães, degustando o sabor rico e salgado da carne suína, e a maciez do pão. Ela tomou um gole de café preto superadoçado, e ofereceu um dos pães a Luke.

— Quer um?

— Claro. — Era quase como nos velhos tempos, ela pensou, enquanto entravam na Canal Street, quando iam buscar os bolinhos quentes da Padaria Golden Carriage e comiam a metade no caminho sobre a Manhattan Bridge.

— Então, me fale sobre esse Jace — pediu Luke.

Clary quase engasgou com o pão. Ela esticou a mão para pegar o café, sufocando a tosse com o líquido quente.

— O que tem ele?

— Você tem alguma ideia do que Valentim possa querer com ele?

— Não.

Luke franziu o rosto ao sol poente.

— Pensei que Jace fosse um dos Lightwood...

— Não. — Clary mordeu o terceiro pedaço de pão. — O sobrenome dele é Wayland. O pai dele era...

— Michael Wayland?

Ela fez que sim com a cabeça.

— E quando Jace tinha 10 anos, Valentim o matou. Michael, quero dizer.

— Parece mesmo algo que ele faria — disse Luke. O tom era neutro, mas havia alguma coisa na voz que fez com que Clary o olhasse de lado. Será que ele não estava acreditando nela?

— Jace o viu morrer — ela informou, como se quisesse legitimar a alegação.

— Que horror — disse Luke. — Pobre menino perturbado.

Eles estavam dirigindo sobre a Fifty-Ninth Street Bridge. Clary olhou para baixo e viu o rio todo em dourado e sangue pelo sol que se punha. Ela podia ver o sul da Roosevelt Island de lá, embora fosse só um pouco ao norte.

— Ele não ficou tão mal — ela disse. — Os Lightwood cuidaram bem dele.

— Posso imaginar. Sempre foram próximos de Michael — observou Luke, entrando na pista da esquerda. No retrovisor lateral, Clary podia ver a caravana de veículos que seguiam alterando a rota para acompahá-los. — Eles quereriam cuidar do filho dele.

— O que acontece quando a lua sobe? — ela perguntou. — Você vai virar um lobo de repente ou o quê?

A boca de Luke se contraiu involuntariamente.

— Não exatamente. Somente os mais jovens, os que acabaram de se transformar, não conseguem controlar as alterações. A maioria de nós já aprendeu como fazer, ao longo dos anos. Só uma lua no auge de sua fase cheia consegue forçar uma transformação sobre mim agora.

— Então, quando a lua está parcialmente cheia, você só se sente um pouco lobo? — perguntou Clary.

— Pode-se dizer que sim.

— Bem, você pode ir em frente e colocar a cabeça para fora da janela se quiser.

Luke riu.

— Sou um lobisomem, não um golden retriever.

— Há quanto tempo você é líder do clã? — ela perguntou repentinamente.

Luke hesitou.

— Há cerca de uma semana.

Clary se virou para olhar para ele.

— Uma semana?

Ele suspirou.

— Eu sabia que Valentim tinha levado sua mãe — ele disse sem muita inflexão. — Sabia que sozinho tinha poucas chances contra ele, e que não poderia esperar qualquer ajuda da Clave. Levei um dia para localizar o bando mais próximo de licantropes.

— Você matou o líder do clã para tomar o lugar dele?

— Foi a maneira mais rápida que consegui imaginar para adquirir um número substancial de aliados em um curto período de tempo — disse Luke, sem qualquer arrependimento no tom de voz, apesar de também não demonstrar orgulho algum. Ela se lembrou de tê-lo espiado na casa dele, de ter notado arranhões fundos nas mãos e no rosto dele, e da maneira como ele mexia o braço. — Já fizera isso antes. Tinha quase certeza de que poderia fazer outra vez. — Ele deu de ombros. — Sua mãe havia sumido. Eu sabia que tinha feito com que você me odiasse. Não tinha nada a perder.

Clary apoiou os tênis verdes sobre o painel do carro. Através do para-brisa, por cima da ponta dos dedos dos pés, a lua subia por cima da ponte.

— Bem — ela disse. — Agora você tem.

O hospital na ala sul da Roosevelt Island estava iluminado à noite, com os contornos fantasmagóricos curiosamente visíveis contra a escuridão do rio e a majestosa iluminação de Manhattan. Luke e Clary se silenciaram enquanto a picape entrava na pequena ilha, e a estrada pavimentada em que estavam se transformava em cascalhos e finalmente em sujeira acumulada. A estrada seguiu a curva de uma cerca alta de correntes, cujo topo estava cheio de pontas de fios que pareciam lâminas com laços de fita festivos.

Quando a estrada se tornou esburacada demais para conseguirem dirigir por ela, Luke parou a caminhonete e apagou os faróis. Ele olhou para Clary.

— Alguma chance de você me esperar aqui se eu pedir?

Ela balançou a cabeça.

— Não necessariamente seria mais seguro no carro. Quem sabe o que Valentim deixou patrulhando esse perímetro?

Luke deu uma risada suave.

— Perímetro. Ouça você. — Ele saiu do carro e ficou ao lado dela para ajudá-la a descer. Ela poderia ter saltado da caminhonete sozinha, mas aquilo era bom, o mesmo jeito que a ajudava quando era pequena demais para descer sozinha.

Os pés dela atingiram o chão sujo, levantando nuvens de poeira. Os carros que vinham atrás estavam parando, um a um, formando uma espécie de círculo ao redor da caminhonete de Luke. Os faróis varreram a visão dela, iluminando a grade de corrente, deixando-a com uma cor branco-prateada. Além da cerca, o hospital em si era uma ruína banhada por uma luz crua que acentuava seu estado dilapidado: as paredes sem teto se erguendo a partir de um chão como dentes quebrados, os parapeitos de pedra ofuscados por um tapete verde de grama excessivamente crescida.

— Que coisa descuidada. — Ela se ouviu dizer suavemente, com um quê de apreensão na voz. — Não vejo como Valentim poderia estar se escondendo aqui.

Luke desviou o olhar para o hospital.

— É um grande feitiço — ele disse. — Tente olhar através das luzes. — Alaric estava andando na direção deles pela estrada, a leve brisa fazendo com que sua jaqueta jeans abrisse, exibindo o peito com cicatrizes abaixo. Os lobisomens andando atrás deles pareciam pessoas completamente normais, pensou Clary. Se os tivesse visto todos juntos em grupo em algum lugar, ela poderia ter pensado que se conheciam de algum lugar; havia certa semelhança não física, uma rudeza naqueles olhares, uma força nas expressões. Ela poderia ter pensado que fossem fazendeiros, pois pareciam mais bronzeados, corcundas e ossudos do que pessoas típicas da cidade, ou talvez tivesse pensado que formassem uma gangue de motoqueiros. Mas não pareciam monstros, de jeito algum.

Logo vieram em uma rápida conferência perto da caminhonete de Luke, como um grupo de jogadores de futebol discutindo uma estratégia antes de a bola entrar em jogo. Clary, sentindo-se muito excluída, virou para olhar novamente para o hospital. Dessa vez, ela tentou olhar em volta das luzes, ou através delas, do jeito que às vezes é possível olhar por cima de uma camada de tinta para ver o que há embaixo. Como geralmente acontecia, pensar em como a desenharia ajudou. As luzes pareceram diminuir, e agora ela estava olhando através de um campo de carvalhos, uma estrutura ornamentada gótica que parecia erguer-se sobre as árvores como o baluarte de um grande navio. As janelas dos andares inferiores eram escuras e blindadas, mas a luz vinha forte através dos arcos mitrados das janelas dos três andares, como uma linha de chama queimando sobre a crista de uma cadeia de montanhas. À frente, havia uma varanda de pedras que ocultava a porta de entrada.

— Está vendo? — Era Luke, que se havia aproximado por trás dela com a graça de... bem, um lobo.

Ela ainda o estava encarando.

— Parece mais um castelo do que um hospital.

Pegando-a pelos ombros, Luke virou Clary de modo que ela o encarasse.

— Clary, ouça. — As mãos dele eram tão firmes que a machucaram. — Quero que você fique perto de mim. Mexa-se quando eu me mexer. Segure na manga da minha roupa se precisar. Os outros vão ficar em torno de nós, protegendo-nos, mas, se você sair do círculo, não poderão tomar conta de você. Eles vão nos guiar até a porta. — Ele tirou as mãos dos ombros dela e, quando se mexeu, ela viu o brilho metálico de alguma coisa na jaqueta dele. Ela não havia percebido que ele estava trazendo uma arma, mas depois ela se lembrou do que Simon tinha dito sobre o conteúdo da mochila verde de Luke e concluiu que fazia sentido. — Você promete que vai fazer o que eu disser?

— Prometo.

A cerca era real, não fazia parte do feitiço. Alaric, ainda à frente, tocou-a experimentalmente, depois levantou uma mão preguiçosa. Longas garras surgiram sob as unhas das mãos, e ele rasgou a grade com elas, fatiando o metal. Eles caíram em uma pilha, como brinquedos de lata.

— Vão. — Ele gesticulou para os outros passarem. Eles avançaram como se fossem uma única pessoa, um mar de movimento coordenado. Agarrando o braço de Clary, Luke empurrou-a à frente dele, abaixando-se para seguir. Eles se esticaram do lado de dentro, olhando para cima, para o hospital de varíola, onde sombras escuras aglomeradas na varanda estavam começando a se mover escadaria abaixo.

Alaric estava com a cabeça levantada, farejando o ar.

— O cheiro de morte está pesado no ar.

O ar de Luke deixou os pulmões em uma onda sibilante.

— Renegados.

Ele empurrou Clary para trás dele; ela foi, cambaleando um pouco sobre o solo desigual. O bando começou a se mover em direção a ela e Luke; enquanto se aproximavam, caíram sobre os quatro membros, com os lábios se contraindo para trás, exibindo as presas brilhantes, braços e pernas se esticando em extremidades longas e peludas, roupas dando lugar à pelugem. Algumas vozes instintivas deixaram Clary alerta: Lobos! Fuja! Mas ela combateu os instintos e ficou onde estava, embora pudesse sentir as mãos tremendo.

O bando os cercou, olhando para fora. Mais lobos se juntaram ao círculo por todos os lados. Era como se ela e Luke fossem o centro de uma grande estrela. Assim, eles começaram a se mover em direção à varanda da frente do hospital. Ainda atrás de Luke, Clary nem sequer viu os primeiros Renegados quando atacaram. Ela ouviu um lobo uivar como se sentisse dor. O uivo aumentou, logo se tornando um rugido. Houve um ruído de batida, depois um grito e um som que parecia papel rasgando...

Clary se pegou imaginando se os Renegados eram comestíveis.

Ela olhou para Luke. O rosto dele estava rígido. Ela podia vê-los agora, além do anel de lobos, a cena iluminada pela luz do hospital e pelo brilho de Manhattan, cauterizada por símbolos que pareciam lesões. Eles tinham olhos vazios enquanto se transformavam em lobos, e os lobos deram de cara com eles, com as garras afiadas, dentes grandes e imponentes. Ela viu um dos guerreiros Renegados — uma mulher — cair para trás, com a garganta rasgada, e os braços ainda tremendo. Outro atacou um lobo com um braço enquanto o outro estava jogado ao chão, a mais de um metro de distância, com o sangue pulsando do tronco aberto. Sangue negro, como a água de pântano viajava em correntes, molhando a grama, de modo que os pés de Clary escorregavam nela. Luke pegou-a antes que ela pudesse cair.

— Fique comigo.

Estou aqui, ela queria dizer, mas nenhuma palavra saía de sua boca. O grupo ainda estava se movendo pelo gramado em direção ao hospital, em um ritmo agonizantemente lento. O punho de Luke era rígido como ferro. Clary não conseguia perceber quem estava ganhando, se é que alguém estava. Os lobos tinham tamanho e velocidade em seu favor, mas os Renegados se moviam com uma determinação que era surpreendentemente difícil de acabar. Ela viu um lobo enorme que era Alaric matar um passando uma rasteira, e atacando sua garganta. Continuou se movendo mesmo desintegrado, com o machado abrindo um longo corte vermelho no pelo brilhante de Alaric.

Distraída, Clary quase não percebeu o Renegado que penetrou o círculo protetor até que ele se ergueu na frente dela, como se tivesse crescido da grama aos pés dela. Com olhos brancos e cabelos emaranhados, levantou uma faca.

Ela gritou. Luke girou, arrastando-a de lado, pegou a coisa pelo pulso e girou. Ela ouviu o rompimento de um osso, e a faca caiu no chão. A mão do Renegado estava pendurada, quebrada, mas ele continuou vindo na direção deles, sem mostrar qualquer sinal de dor. Luke estava gritando rouco para Alaric. Clary tentou alcançar a adaga no cinto, mas Luke a estava segurando com muita força. Antes que ela pudesse gritar para que ele a soltasse, uma linha de fogo prateado passou entre eles. Era Gretel. Ela aterrissou com as patas da frente no tórax do Renegado, derrubando-o no chão. Um rugido firme de ira surgiu da garganta de Gretel, mas o Renegado era mais forte; ele a derrubou de lado como uma boneca de pano e se levantou.

Alguma coisa levantou Clary dos próprios pés. Ela gritou, mas era Alaric, meio lobo, meio homem, com as mãos com garras afiadas. Mesmo assim, elas a seguraram gentilmente quando ele a lançou ao ar nos braços dele.

Luke estava acenando para eles.

— Tire-a daqui! Leve-a até a porta! — ele estava gritando.

— Luke! — Clary girou nas garras de Alaric.

— Não olhe — Alaric rugiu.

Mas ela olhou. O bastante para ver Luke avançar em direção a Gretel, com uma espada nas mãos, mas ele não foi rápido o suficiente. O Renegado pegou a própria faca, que havia caído na grama suja de sangue, e enterrou-a nas costas de Gretel, repetidas vezes, enquanto ela arranhava, lutara, até que finalmente sucumbiu, a luz nos olhos prateados se apagando pela escuridão. Com um grito, Luke atacou a garganta do Renegado com a espada...

— Eu disse para não olhar — rosnou Alaric, girando para que o campo visual dela fosse bloqueado por sua forma. Eles estavam correndo para cima de uns degraus agora, o som das patas de garras arranhando o granito como unhas no quadro-negro.

— Alaric — chamou Clary.

— Sim?

— Desculpe-me por ter jogado uma faca em você.

— Não peça desculpas. Foi um golpe bem aplicado.

Ela tentou olhar através dele.

— Onde está Luke?

— Estou aqui — respondeu ele. Alaric virou. Luke estava subindo os degraus, guardando a espada de volta na capa, que estava presa à lateral de seu corpo, por baixo da jaqueta. A lâmina estava escura e grudenta.

Alaric deixou Clary escorregar para a varanda. Ela aterrissou, virando de costas. Ela não podia ver Gretel ou o Renegado que a havia matado, apenas uma massa de corpos pesados e metal brilhante. Estava com o rosto molhado. Ela levantou uma mão livre para ver se estava sangrando, mas percebeu que estava chorando. Luke olhou curioso para ela.

— Ela era apenas um membro do Submundo — ele disse.

Os olhos de Clary queimavam.

— Não diga isso.

— Entendi. — Ele virou para Alaric. — Obrigado por ter cuidado dela. Enquanto continuamos...

— Vou com vocês — disse Alaric. Ele completou boa parte da transformação para homem, mas ainda tinha olhos de lobos, e lábios contraídos exibindo dentes tão longos quanto palitos. Ele flexionou as mãos com as unhas compridas.

Os olhos de Luke estavam perturbados.

— Alaric, não.

A voz rosnada de Alaric era seca.

— Você é o líder do bando. Sou seu segundo na linha de comando agora que Gretel morreu. Não seria correto deixá-lo ir sozinho.

— Eu... — Luke olhou para Clary, depois para o campo na frente do hospital. — Preciso de você aqui, Alaric. Sinto muito. É uma ordem.

Os olhos de Alaric brilharam com raiva, mas ele recuou. A porta do hospital era feita de madeira pesada ornamentada, estampas familiares a Clary, as flores de Idris, símbolos curvilíneos, sóis raiados. Cedeu com o barulho explosivo de um fecho quebrado quando Luke a chutou. Ele empurrou Clary para a frente enquanto a porta se abria amplamente.

— Entre.

Ela cambaleou para a frente dele, voltada para a entrada. Ela viu rapidamente Alaric olhando para eles, com os olhos lupinos brilhando. Atrás dele, o gramado em frente ao hospital estava cheio de corpos, a poeira manchada de sangue, preto e vermelho. Quando a porta se fechou atrás dela, interrompendo sua visão, ela ficou agradecida.

Ela e Luke estavam em uma entrada de pedra pouco iluminada, onde havia uma única tocha acesa. Após a tensão da batalha, o silêncio era como uma capa sufocante. Clary se viu ofegante, inalando grande quantidade de ar, de um ar que não era espesso com umidade e cheiro de sangue.

Luke segurou-a pelo ombro com a mão.

— Você está bem?

Ela limpou as bochechas.

— Você não deveria ter dito aquilo. Sobre Gretel ser apenas um membro do Submundo. Eu não acho isso.

— Fico feliz em ouvir. — Ele pegou a tocha pelo apoio de metal. — Detestei a ideia de os Lightwood terem transformado você em uma cópia deles.

— Bem, não fizeram isso comigo.

A tocha não soltou na mão de Luke. Ele franziu o cenho. Catando no bolso, Clary pegou a pedra lisa que havia recebido de Jace como presente de aniversário, e a levantou alto. Luz brilhou entre os dedos dela, como se ela tivesse rachado uma semente de escuridão, libertando a luminosidade que estava presa em seu interior. Luke soltou a tocha.

— Pedra enfeitiçada? — ele perguntou.

— Jace me deu. — Ela podia senti-la pulsando na mão, como os batimentos cardíacos de um passarinho. Ela imaginou onde Jace estaria nessa pilha cinzenta de pedras que eram os quartos, se ele estava assustado, se ele tinha pensado se a veria outra vez.

— Há anos que não luto com pedra enfeitiçada — disse Luke, e começou a subir as escadas. Os degraus rangiam sonoramente sob as botas dele. — Siga-me.

O brilho flamejante da pedra formava as sombras deles, alongadas de uma forma estranha, contra as paredes lisas de granito. Eles pararam em um andar de pedras curvado sob um arco. Sobre eles, ela pôde ver luz.

— Era assim o hospital, há centenas de anos? — sussurrou Clary.

— Ah, os ossos da construção de Renwick ainda estão aqui — disse Luke. — Mas imagino que Valentim, Blackwell e os outros tenham reformado o lugar para que correspondesse um pouco mais ao gosto deles. Olhe isso aqui. — Ele passou a bota no chão: Clary olhou para baixo e viu um símbolo esculpido no granito sob os pés deles; um círculo em cujo centro havia um lema em latim: In Hoc Signo Vinces.

— O que isso significa? — ela perguntou.

— Significa “Por este sinal, venceremos”. Era o lema do Ciclo.

Ela olhou para cima, em direção à luz.

— Então eles estão aqui.

— Eles estão aqui — disse Luke, e havia ansiedade em seu tom de voz. — Vamos.

Eles subiram a escadaria em espiral, sob a luz, até que esta estivesse ao redor deles, por todos os lados, quando chegavam à entrada de um longo e estreito corredor. Tochas brilhavam ao longo da passagem. Clary fechou a mão em torno da pedra enfeitiçada, que piscou como uma estrela apagada.

Havia portas dispostas em intervalos ao longo do corredor, todas lacradas. Ela imaginou se teriam sido alas nos tempos em que este lugar era um hospital, ou talvez quartos privados. Enquanto desciam pelo corredor, Clary viu marcas de pegadas, cheias de lama, do gramado lá de fora, marcando a passagem. Alguém havia passado por ali recentemente.

A primeira porta que tentaram abriu com facilidade, mas o quarto estava vazio: apenas um chão polido de madeira e paredes de pedra, acesas pela forte luz do luar que vazava pela janela. O rugido fraco da batalha do lado de fora preenchia o quarto, tão ritmado quanto o som do oceano. O segundo quarto estava cheio de armas: espadas, cedros e machados. O luar corria como água prateada sobre todas as fileiras de aço impecável. Luke assobiou para si mesmo.

— É uma coleção e tanto.

— Você acha que Valentim usa tudo isso?

— Pouco provável. Desconfio que sejam para o exército particular dele. — Luke virou-se de costas.

O terceiro quarto era efetivamente um quarto. As cortinas sobre a cama eram azuis, o tapete persa tinha estampa azul, preta e cinza, e a mobília era pintada de branco, como os móveis de um quarto de criança. Uma camada fina e fantasmagórica de poeira cobria tudo, brilhando fraca ao luar.

Sobre a cama, dormindo, estava Jocelyn.

Ela estava com a barriga para cima, com uma das mãos colocadas sobre o peito, e os cabelos espalhados no travesseiro. Estava com uma espécie de camisola branca que Clary nunca tinha visto, e respirava calma e uniformemente. Através da luz perfurante do luar, Clary podia ver os movimentos das pálpebras da mãe enquanto ela sonhava.

Com um gritinho, Clary se lançou para a frente — mas os braços velozes e atentos de Luke a pegaram pelo peito como uma barra de ferro, impedindo que ela avançasse.

— Espere. — A voz dele próprio estava tensa com o esforço. — Precisamos ter cuidado.

Clary olhou fixamente para ele, mas ele estava olhando através dela, com a expressão furiosa e sofrida. Ela seguiu o traço do olhar dele e viu o que não quis ver antes. Correntes prateadas prendendo os pulsos e os pés de Jocelyn, cujas pontas estavam enterradas fundas no chão de pedra em ambos os lados da cama. A mesa de cabeceira estava coberta por um estranho arranjo de tubos e garrafas, jarras de vidro e instrumentos longos e absurdamente afiados brilhando com aço cirúrgico. Um tubo de borracha corria de uma das jarras de vidro até uma veia no braço esquerdo de Jocelyn.

Clary se livrou da mão de Luke e avançou até a cama, passando os braços em volta da mãe, que não respondia. Mas era como tentar abraçar uma boneca que não havia sido montada adequadamente. Jocelyn se mantinha parada e rígida, a respiração lenta permanecia inalterada.

Há uma semana, Clary teria chorado como na primeira noite terrível em que descobriu que a mãe estava desaparecida — chorado e gritado. Mas nenhuma lágrima veio agora, ao soltar a mãe e se recompor. Agora não havia terror, nem pena de si mesma: apenas uma raiva amarga e a necessidade de encontrar o homem que fizera isso, o responsável por tudo.

— Valentim — ela disse.

— É claro. — Luke estava ao lado dela, tocando levemente o rosto de Jocelyn, erguendo suas pálpebras. Os olhos abaixo eram brancos como mármore. — Ela está dopada — ele disse. — Alguma espécie de feitiço, imagino.

Clary soltou o ar em um soluço.

— Como podemos tirá-la daqui?

— Não posso tocar nas algemas — disse Luke. — Prata. Você tem...

— O quarto das armas — disse Clary, levantando-se. — Vi um machado lá. Vários. Poderíamos cortar as correntes...

— Essas correntes são inquebráveis. — A voz que falou da porta era grave, arenosa e familiar. Clary se virou e viu Blackwell. Ele estava sorrindo agora, vestindo as mesmas roupas cor de sangue de antes, com o capuz para trás, botas sujas de lama visíveis sob a borda. — Graymark — ele disse. — Que bela surpresa!

Luke se levantou.

— Se você está surpreso, é porque é um idiota — ele disse. — Minha chegada não foi exatamente silenciosa.

As bochechas de Blackwell enrubesceram, com uma cor escura, quase roxa, mas ele não se moveu em direção a Luke.

— Mais uma vez líder do clã, certo? — perguntou, e deu uma risada desagradável. — Não consegue quebrar o hábito de pegar gente do Submundo para fazer seu trabalho sujo? As tropas de Valentim estão ocupadas espalhando pedaços deles por todo o gramado, e você está aqui em cima, a salvo com suas meninas — ele franziu o rosto na direção de Clary. — Essa aí parece um pouco jovem para você, Lucian.

Clary enrubesceu de raiva, com os punhos cerrados, mas a voz de Luke, ao responder, foi educada.

— Eu não chamaria aquilo de tropas, Blackwell — ele disse. — São Renegados. Atormentados outrora humanos. Se minha memória não falha, a Clave condena veementemente essas coisas, torturar pessoas, executar magia negra. Acho que não ficarão muito satisfeitos.

— Problema da Clave — rosnou Blackwell. — Não precisamos deles, nem da tolerância que têm a mestiços. Além disso, os Renegados não serão Renegados por muito tempo. Depois que Valentim utilizar o Cálice com eles, serão Caçadores de Sombras tão bons quanto o restante de nós, melhores do que a estirpe que a Clave tem aprovado como guerreiros atualmente. Malditos amantes de membros do Submundo. — Ele mostrou os dentes.

— Se é esse o plano dele para o Cálice — disse Luke —, por que ainda não o colocou em prática? O que ele está esperando?

As sobrancelhas de Blackwell se ergueram.

— Você não soube? Ele...

Uma risada divertida o interrompeu. Pangborn havia aparecido, todo vestido de preto, com uma alça de couro no ombro.

— Basta, Blackwell — ele disse. — Você fala demais, como sempre. — Ele sorriu para Luke com dentes afiados. — Manobra interessante, Graymark. Não achei que tivesse estômago para conduzir seu novo bando em uma missão suicida.

Um músculo se contraiu na face de Luke.

— Jocelyn — ele disse. — O que ele fez com ela?

Pangborn deu uma risada sonora.

— Pensei que você não se importasse.

— Não sei o que ele quer com ela agora — prosseguiu Luke, ignorando a provocação. — Ele está com o Cálice. Ela não tem mais utilidade alguma. Valentim nunca foi de cometer assassinatos despropositados. Assassinatos com um propósito, sim. Bem, isso seria outra história.

Pangborn deu de ombros, demonstrando indiferença.

— Não faz a menor diferença para nós o que ele fez com ela — informou. — Ela era mulher dele. Talvez a odeie. Isso é um propósito.

— Deixe-a ir — disse Luke — e nós iremos com ela, levando o clã. E vou te dever uma.

— Não! — O grito furioso de Clary fez Pangborn e Blackwell voltarem os olhares para ela. Ambos pareciam completamente chocados, como se ela estivesse falando uma língua estranha. Ela olhou para Luke. — Também tem o Jace. Ele está aqui em algum lugar.

Blackwell estava rindo.

— Jace? Nunca ouvi falar em Jace — declarou. — Bem, eu poderia pedir a Pangborn para soltá-la. Mas prefiro não fazê-lo. Ela sempre foi péssima comigo, sempre foi. Achava que era melhor do que o resto de nós, por causa da aparência e da linhagem. Uma vadia com pedigree, só isso. Ela só se casou com ele para poder afetar o resto de nós...

— Ficou decepcionado por você próprio não ter conseguido se casar com ele, Blackwell? — Foi tudo o que Luke respondeu, embora Clary pudesse perceber uma ira velada em seu tom de voz.

Blackwell, com o rosto quase roxo, deu um passo furioso para dentro do quarto.

E Luke, movendo-se tão suavemente que Clary quase não percebeu, pegou um bisturi na mesa de cabeceira e o arremessou. Girou duas vezes no ar e afundou a ponta na garganta de Blackwell, interrompendo o rugido. Ele se engasgou, os olhos giraram até ficarem completamente brancos, e ele caiu de joelhos, com as mãos na garganta. Líquido escarlate pulsava entre os dedos dele. Ele abriu a boca como se fosse falar, mas só uma linha fina de sangue saiu. As mãos escorregaram para fora da garganta, e ele sucumbiu ao chão como uma árvore caindo.

— Oh, Deus — disse Pangborn, olhando fixamente para o corpo caído de seu camarada com um desgosto contido. — Que desagradável!

O sangue da garganta cortada de Blackwell estava se espalhando pelo chão em uma poça vermelha viscosa. Luke, com a mão no ombro de Clary, sussurrou algo a seu ouvido. Não significou nada. Clary só conseguia perceber um zumbido entorpecido na própria cabeça. Ela se lembrou de outro poema da aula de inglês, alguma coisa sobre como, depois da primeira morte que você testemunha, nenhuma outra importa. Aquele poeta não sabia do que estava falando.

Luke soltou-a.

— As chaves, Pangborn — ele disse.

Pangborn cutucou Blackwell com o pé e olhou para cima. Ele parecia irritado.

— O quê? Você vai atirar uma seringa em mim? Só havia uma espada na mesa. Não — ele acrescentou, alcançando atrás do próprio ombro e sacando uma espada longa e imponente —, acho que, se você quiser as chaves, terá que vir pegá-las. Não porque eu me importe com Jocelyn Morgenstern, de um jeito ou de outro, entenda, mas apenas porque eu, particularmente, estou ansioso para matá-lo... há anos.

Ele arrastou a última palavra, saboreando-a com uma deliciosa exaltação enquanto avançava no interior do quarto. Sua espada brilhou, um feixe de luz ao luar. Clary viu Luke estender a mão para ela — uma mão estranhamente alongada, culminando em unhas que pareciam pequenas adagas — e ela percebeu duas coisas: que ele estava a ponto de se transformar, e que o que ele havia sussurrado ao ouvido dela fora uma única palavra.

Corra.

Clary correu. Ela se desviou de Pangborn, que mal olhou para ela, saltou o corpo de Blackwell, e já tinha atravessado a porta e chegado ao corredor, com o coração acelerado, antes que a transformação de Luke se completasse. Ela não olhou para trás, mas ouviu um uivo, longo e penetrante, o ruído de metal em metal, e uma queda estilhaçada. Vidro quebrando, ela pensou. Talvez tivessem derrubado a mesa de cabeceira.

Ela atravessou o hall para a sala das armas. Lá dentro, ela alcançou um machado de aço encharcado. Estava preso firmemente à parede, e não importava a força com que o puxasse. Ela tentou uma espada, depois uma lança — até uma pequena adaga —, mas nem uma única arma se soltava em sua mão. Finalmente, com as unhas destruídas e os dedos sangrando com o esforço, ela teve de desistir. Havia magia nessa sala, e não a magia dos símbolos: alguma coisa selvagem e estranha, alguma coisa sombria.

Ela saiu de lá. Não havia nada nesse andar que pudesse ajudá-la. Ela mancou pelo corredor — estava começando a sentir a dor da exaustão nos braços e nas pernas — e se encontrou no meio de uma escadaria. Para cima ou para baixo? Embaixo, ela se lembrou, estava completamente escuro. É claro que ela tinha a pedra enfeitiçada no bolso, mas algo nela estremecia só de pensar em se meter naqueles espaços escuros sozinha. Lá em cima, ela viu o brilho de mais luzes, e o flash de alguma coisa que poderia ter sido um movimento.

Ela subiu. As pernas doíam, os pés doíam, tudo doía. Os ferimentos dela haviam recebido curativos, mas isso não impedia que ardessem. Seu rosto doía onde Hugo a havia atacado, e sua boca tinha um gosto amargo e metálico.

Ela chegou ao último andar. Era singelamente curvado, como a proa de um navio, e tão silencioso quanto o andar de baixo; nenhum barulho de luta lá fora alcançava o campo auditivo de Clary. Outro longo corredor se estendia à sua frente, com as mesmas portas múltiplas, mas aqui algumas se abriam, derramando ainda mais luz no corredor. Ela avançou, e algum instinto a levou para a última porta à esquerda. Cautelosamente, ela espiou o lado de dentro.

Inicialmente, o quarto a fazia lembrar de uma das amostras de períodos de reconstrução do Museu Metropolitan. Era como se ela tivesse entrado no passado — as paredes brilhavam como se tivessem sido polidas recentemente, assim como a mesa de jantar infinitamente longa posta com porcelana delicada. Um espelho com a moldura dourada ornamentava a parede oposta, entre dois quadros de pintura a óleo em molduras pesadas. Tudo brilhava sob a luz da tocha: os pratos sobre a mesa, cheios de comida, as taças em forma de lírio, os descansos tão brancos que quase cegavam. No fim do quarto, havia duas largas janelas, com cortinas pesadas de veludo. Jace estava em uma das janelas, tão parado que por um instante ela pensou que ele fosse uma estátua, até perceber que podia ver a luz brilhando em seus cabelos. A mão dele segurava a cortina aberta, e na janela escura ela viu o reflexo de dúzias de velas no interior do quarto, brilhando no vidro como pirilampos.

— Jace. — Ela chamou. Ela ouviu a própria voz como se estivesse a distância: espanto, gratidão, ansiedade tão forte que era quase dolorosa. Ele virou, soltando a cortina, e viu o olhar inquisidor no rosto dele.

— Jace! — Ela chamou novamente, e correu em sua direção. Ele a segurou quando ela se lançou para cima dele. Seus braços a envolveram gentilmente.

— Clary. — A voz dele era quase irreconhecível. — Clary, o que você está fazendo aqui?

A voz dela foi abafada pela camisa dele.

— Vim atrás de você.

— Não deveria ter feito isso. — O abraço dele se soltou subitamente; ele deu um passo para trás, segurando-a um pouco afastada dele. — Meu Deus — ele exclamou, tocando o rosto dela. — Sua tola, que coisa estúpida de se fazer. — A voz dele tinha tom de fúria, mas o olhar que passou pelo rosto dela, os dedos que empurraram o cabelo dela para trás com toda gentileza, eram afáveis. Ela nunca o tinha visto assim; havia certa fragilidade nele, como se não pudesse ser apenas tocado, mas machucado. — Por que você nunca pensa? — ele sussurrou.

— Eu estava pensando — ela disse. — Estava pensando em você.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Se alguma coisa tivesse acontecido a você... — As mãos dele contornaram os braços dela gentilmente, até os pulsos, como que para se certificar de que ela realmente estava lá. — Como você me encontrou?

— Luke — ela respondeu. — Eu vim com ele. Para resgatá-lo.

Ainda segurando-a, ele olhou do rosto dela para a janela, com uma leve contração se formando no canto da boca.

— Então aqueles são... você veio com um clã de lobisomens? — ele perguntou, com um tom estranho na voz.

— Do Luke — ela disse. — Ele é um lobisomem, e...

— Eu sei — Jace interrompeu-a. — Eu deveria ter adivinhado... as algemas — ele olhou em direção à porta. — Onde ele está?

— Lá embaixo — Clary disse lentamente. — Ele matou Blackwell. Subi para procurar você...

— Ele vai ter que ordenar que o clã pare — disse Jace.

Ela olhou para ele com total incompreensão.

— O quê?

— Luke — disse Jace. — Ele vai ter que cancelar a missão do bando. Houve um mal-entendido.

— O que exatamente, você se sequestrou? — Ela queria que aquilo soasse como uma provocação, mas a voz saiu fraca demais. — Ora, Jace...

Ela tentou se soltar de seus braços, mas ele resistiu. Ele estava olhando fixamente para Clary, e ela percebeu com assombro o que não tinha notado com a primeira onda de alívio.

Da última vez em que o vira, ele estava cortado e machucado, as roupas manchadas de sangue, o cabelo sujo e empoeirado. Agora estava vestido com uma camisa branca larga e calças escuras, com o cabelo limpo caindo no rosto, dourado e esvoaçante. Ele afastou alguns fiapos do olho com a mão livre, e ela viu que o anel estava de volta no dedo dele.

— Essas são as suas roupas? — ela perguntou, espantada. — E... você parece muito saudável. — Ela parou de falar. — Valentim parece estar cuidando muito bem de você.

Ele sorriu para ela com afeição esgotada.

— Se eu te contasse a verdade, você me chamaria de louco — ele disse.

Ela sentiu o coração batendo forte no peito, como as asas velozes de um canarinho.

— Claro que não chamaria.

— Meu pai me deu essas roupas — ele disse.

O coração acelerou ainda mais.

— Jace — ela disse cuidadosamente —, seu pai está morto.

— Não. — Ele balançou a cabeça. Ela tinha a sensação de que ele estava contendo algum sentimento majestoso, como horror ou deleite... ou ambos. — Pensei que estivesse, mas não está. Foi tudo um grande equívoco.

Ela se lembrou do que Hodge dissera sobre Valentim, e o talento que ele tinha para contar mentiras tentadoras e convincentes.

— Isso é alguma coisa que Valentim contou a você? Porque ele é um mentiroso, Jace. Lembre-se do que Hodge disse. Se ele está dizendo que seu pai está vivo, é uma mentira para conseguir com que você faça o que ele quer.

— Eu vi o meu pai — disse Jace. — Falei com ele. Ele me deu isso. — Ele puxou a camisa nova, limpa, como se fosse uma prova irrefutável. — Meu pai não está morto. Hodge mentiu para mim. Durante todos esses anos, pensei que estivesse, mas não estava.

Clary olhou em volta, descontroladamente, para o quarto com a porcelana brilhante, tochas acesas, completamente vazio, cheio de espelhos.

— Bem, se o seu pai se encontra realmente aqui, onde ele está? Valentim o sequestrou também?

Os olhos de Jace estavam brilhando. O colarinho da camisa estava aberto e ele podia ver as cicatrizes brancas e finas que cobriam a clavícula, como rachaduras na pele dourada.

— Meu pai...

A porta do quarto, que Clary havia fechado atrás de si, abriu com um rangido, e um homem entrou.

Era Valentim. O cabelo prateado e aparado brilhava como um capacete de aço, os lábios numa linha rígida. Ele tinha um revestimento no cinto grosso, e o cabo de uma longa espada estendia-se dele.

— Então — ele disse, colocando uma das mãos no cabo enquanto falava —, já juntou as suas coisas? Nossos renegados só podem conter os lobos por...

Ao ver Clary, ele interrompeu a frase no meio. Ele não era o tipo de homem que era pego de surpresa com frequência, mas ela viu um leve indício de espanto nos olhos dele.

— O que está havendo? — ele perguntou, voltando o olhar para Jace.

Mas Clary já estava apalpando a cintura à procura da adaga. Ela a pegou pelo cabo, retirando-a da capa, e levantou a mão. Raiva latejava em seus olhos como uma batida musical. Ela poderia matar aquele homem. Ela iria matar aquele homem.

Jace a segurou pelo pulso.

— Não.

Ela não pôde conter a própria incredulidade.

— Mas Jace...

— Clary — ele disse, com firmeza. — Este é o meu pai.