Cidade dos Ossos

Cassandra Clare · Capítulo 15 de 29

Páginas do PDF

Cidade dos Ossos

13. Lembranças Brancas

13

 

Lembranças Brancas

— Minha mãe fez isso comigo? — Clary perguntou, mas sua surpresa não soava convincente, nem para ela própria. Olhando em volta, ela viu pena no olhar de Jace e no de Alec; até Alec sentia pena dela. — Por quê?

— Não sei. — Magnus esticou as longas mãos brancas. — Perguntar não faz parte da minha função. Eu faço o que sou pago para fazer.

— Nos limites do Pacto — Jace o lembrou, com a voz macia como pelo de gato.

Magnus inclinou a cabeça.

— Nos limites do Pacto, é claro.

— Então o Pacto concorda com isso tudo, com essa violação da mente? — Clary perguntou amargamente. Como ninguém respondeu, ela afundou na ponta da cama de Magnus. — Foi só uma vez? Havia alguma coisa específica que ela queria que eu esquecesse? Você sabe o que era?

Magnus andou de um lado para o outro, impacientemente, até a janela.

— Acho que você não entende. Na primeira vez em que a vi, você devia ter mais ou menos 2 anos. Eu estava olhando por esta janela — ele cutucou o vidro, liberando uma nuvem de poeira e lascas de tinta — e a vi correndo pela rua, segurando algo embrulhado em um cobertor. Fiquei surpreso quando parou à minha porta. Ela parecia tão comum, tão nova.

A luz do luar tocou o perfil dele, iluminando-o em tom prateado.

— Ela desembrulhou o cobertor quando entrou pela minha porta. Era você que estava dentro do embrulho. Ela colocou-a no chão e você começou a fazer bagunça, pegando coisas, puxando o rabo do meu gato, você gritou como uma Banshee quando o gato a arranhou, então perguntei para a sua mãe se você era parte Banshee. Ela não achou graça. — Ele fez uma pausa. Todos olhavam intensamente para ele agora, até mesmo Alec. — Ela me disse que era Caçadora de Sombras. De nada adiantaria mentir a respeito; marcas do Pacto aparecem, mesmo quando já desbotaram com o tempo, como fracas cicatrizes prateadas contra a pele. Elas se mexiam quando ela se movia. — Ele esfregou a maquiagem ao redor dos próprios olhos. — Ela me disse que tivera a esperança de que você tivesse nascido com um Olho Interno cego: alguns Caçadores de Sombras têm de ser ensinados a enxergar o Mundo de Sombras. Mas ela vira você naquela tarde provocando uma fada que havia ficado presa nas plantas. Ela sabia que você podia ver. Então me perguntou se era possível cegá-la da Visão.

Clary emitiu um pequeno ruído, soltou uma respiração dolorida, mas Magnus prosseguiu sem qualquer remorso.

— Eu disse a ela que aleijar essa parte da sua mente poderia deixá-la com sequelas severas, possivelmente até louca. Ela não chorou. Não era o tipo de mulher que chorava facilmente, a sua mãe. Perguntou se havia outro jeito, e eu disse que poderia fazê-la esquecer dessas partes do Mundo de Sombras que podia ver, mesmo enquanto as via. O único incômodo seria ela ter que vir até mim a cada dois anos, quando os efeitos do feitiço começassem a diminuir.

— E ela veio? — perguntou Clary.

Magnus anuiu com a cabeça.

— Eu a vejo a cada dois anos desde a primeira vez. Pude vê-la crescer. Você foi a única criança que vi crescer desse jeito, sabia? No meu âmbito profissional, as pessoas não são muito receptivas a crianças humanas.

— Então você reconheceu Clary quando entramos — observou Jace. — Deve ter reconhecido.

— Claro que reconheci. — Magnus parecia exasperado. — E foi um choque, também. Mas o que você teria feito? Ela não me conhecia. Não deveria me conhecer. Só o fato de que estava aqui significava que o feitiço começara a perder o efeito, aliás, tínhamos uma visita marcada há cerca de um mês. Até fui à sua casa quando voltei da Tanzânia, mas Jocelyn disse que vocês haviam brigado e você tinha fugido. Ela disse que me telefonaria quando você voltasse, mas — deu de ombros elegantemente — nunca ligou.

Uma onda fria de lembrança perfurou a pele de Clary. Ela se lembrou de estar no saguão ao lado de Simon, tentando se lembrar de alguma coisa que passeava no limite de sua visão... Achei que tivesse visto o gato de Dorothea, mas foi só um truque da luz.

Mas Dorothea não tinha um gato.

— Você estava lá naquele dia — disse Clary. — Eu o vi saindo do apartamento de Dorothea. Lembro-me dos seus olhos.

Magnus parecia a ponto de ronronar.

— Sou inesquecível, é verdade — ele se regozijou. Depois balançou a cabeça. — Você não deveria se lembrar de mim — ele disse. — Lancei um feitiço duro como uma parede assim que a vi. Você deveria ter dado de cara com ele, psicologicamente falando.

Se você der com a cara em uma parede psíquica, fica com hematomas psíquicos?

— Se você retirar o feitiço de mim, vou conseguir me lembrar de todas as coisas que esqueci? Todas as lembranças que você me roubou? — perguntou Clary.

— Não posso retirá-lo de você. — Magnus parecia desconfortável.

— O quê? — Jace parecia furioso. — Por que não? A Clave exige que você...

Magnus olhou friamente para ele.

— Não gosto que me digam o que fazer, Caçadorzinho de Sombras.

Clary podia perceber o quanto Jace detestava ser chamado de “inho”, mas, antes que ele pudesse disparar uma resposta, Alec falou. Com a voz suave, contemplativa.

— Você não sabe como revertê-lo? — ele perguntou. — O feitiço, quero dizer.

Magnus suspirou.

— Desfazer um feitiço é muito mais difícil do que criá-lo. A complexidade deste, o cuidado que imprimi em criá-lo... se eu cometesse um erro, por menor que fosse, ao desfazê-lo, a mente dela poderia ficar comprometida para sempre. Além disso — ele acrescentou —, já começou a passar o efeito. Eles vão desaparecer sozinhos com o tempo.

Clary lançou-lhe um olhar decidido.

— E, quando passar, vou recuperar minhas lembranças? Seja o que for que tenha sido retirado da minha cabeça?

— Não sei. Podem voltar todas de uma vez, ou aos poucos. Ou você pode nunca se lembrar do que esqueceu ao longo dos anos. O que sua mãe me pediu para fazer foi algo único na minha experiência. Não faço ideia do que vá acontecer.

— Mas eu não quero esperar. — Clary cruzou os braços com força, os dedos juntos com tanta firmeza que as pontas ficaram brancas. — Passei a vida inteira achando que havia alguma coisa errada comigo. Alguma coisa faltando ou estragada. Agora eu sei...

— Eu não estraguei você. — Foi a vez de Magnus interromper, com os lábios contraídos pela raiva, exibindo dentes brancos e afiados. — Todos os adolescentes do mundo se sentem assim, arrasados ou estranhos, diferentes de algum jeito, algo como um rei nascido em uma família de camponeses por engano. Talvez não melhores, mas diferentes. E não é fácil ser diferente. Você quer saber como é quando seus pais são boas pessoas frequentadoras de igreja e você nasce com a marca do demônio? — Ele apontou para os próprios olhos, dedos chanfrados. — Quando seu pai se contrai ao vê-lo e sua mãe se enforca no celeiro, levada à loucura pelo que fez? Quando eu tinha 10 anos, meu pai tentou me afogar no rio. Reagi atacando-o com todas as minhas forças e o incinerei onde ele estava. Fui até os padres da igreja e pedi abrigo. Eles me esconderam. Dizem que ter pena é uma coisa ruim, mas é melhor do que ódio. Quando descobri que na verdade só era parte humano, tive ódio de mim mesmo. Qualquer coisa é melhor do que isso.

Formou-se um silêncio quando Magnus parou de falar. Para a surpresa de Clary, foi Alec quem o quebrou.

— Não era culpa sua — ele disse. — Você não pode mudar a forma como nasceu.

A expressão de Magnus era séria.

— Já superei isso — ele disse. — Acho que você me entendeu. Diferente não quer dizer melhor, Clarissa. Sua mãe estava tentando protegê-la. Não tenha raiva disso.

As mãos de Clary relaxaram.

— Não me importo em ser diferente — ela disse. — Só quero ser quem realmente sou.

Magnus resmungou em alguma língua que ela não conhecia. Soava como chamas consumindo a madeira.

— Muito bem. Ouça. Não posso desfazer o que já fiz, mas posso lhe dar outra coisa. Um pedaço do que teria sido seu se você tivesse sido criada como uma verdadeira filha de Nephilim. — Ele atravessou o quarto até a estante e pegou um livro pesado com a capa de veludo verde desbotada. Folheou as páginas, levantando poeira e alguns pedacinhos de tecido escurecido. As páginas eram finas, quase um pergaminho transparente, cada qual marcada com um símbolo azul.