Cidade dos Ossos

Cassandra Clare · Capítulo 14 de 29

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Cidade dos Ossos

12. A Festa de um Morto

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A Festa de um Morto

As instruções no convite os levaram a uma área totalmente industrial no Brooklyn, cujas ruas eram alinhadas com fábricas e depósitos. Alguns, Clary notou, haviam sido transformados em lofts e galerias, mas ainda havia alguma coisa proibitiva naquelas formas quadradas que traziam poucas janelas cobertas por cercas de ferro.

Eles saíram da estação do metrô, Isabelle encarregada da navegação com o Sensor, que aparentemente tinha um sistema de mapeamento embutido. Simon, que adorava apetrechos, estava fascinado — ou ao menos fingindo que era pelo Sensor que estava fascinado. Desejando evitá-los, Clary ficou atrás enquanto atravessavam um parque cuja grama mal conservada estava completamente queimada pelo calor do verão. À sua direita, os pináculos de uma igreja brilhavam em cinza e preto contra o céu noturno sem estrelas.

— Continue — disse uma voz irritadiça a seu ouvido. Era Jace, que ficara para trás para andar junto a ela. — Não quero ter que ficar olhando para trás para me certificar de que não aconteceu nada.

— Então não se incomode com isso.

— Na última vez em que a deixei sozinha, você foi atacada por um demônio — disse ele.

— Bem, eu certamente detestaria interromper sua agradável caminhada noturna com a minha morte súbita.

Ele piscou os olhos.

— Há uma linha tênue entre sarcasmo e pura hostilidade, e acho que você a cruzou. Qual é o problema?

Ela mordeu o lábio.

— Hoje de manhã uns caras estranhos e assustadores invadiram minha mente. Agora vou encontrar o cara estranho e assustador que invadiu minha mente em primeiro lugar. E se eu não gostar do que ele encontrar?

— O que faz você pensar que não vai?

Clary tirou o cabelo da pele, que já estava grudenta.

— Detesto quando você responde a uma pergunta com outra.

— Não detesta nada, acha um charme. Independentemente de qualquer coisa, você não prefere saber a verdade?

— Não. Quero dizer, talvez. Não sei — ela suspirou. — Você preferiria?

— Essa é a rua certa! — gritou Isabelle, já no meio do quarteirão seguinte. Eles estavam em uma avenida estreita alinhada com antigos depósitos, apesar de a maioria agora esboçar sinais de habitação humana: flores em janelas, cortinas balançando com o sopro da brisa noturna, latas de lixo plásticas na calçada. Clary cerrou os olhos, mas não tinha como saber se essa era a rua que ela vira na Cidade dos Ossos; afinal, a visão havia sido em um cenário coberto de neve.

Ela sentiu os dedos de Jace acariciarem seu ombro.

— Sem dúvida. Sempre — ele murmurou.

Ela olhou de lado para ele, sem entender.

— O quê?

— A verdade — ele disse. — Eu iria...

— Jace! — Era Alec. Ele estava no asfalto, não muito longe; Clary ficou imaginando por que a voz dele soara tão alta.

Jace virou, tirando a mão do ombro dela.

— O que foi?

— Acha que estamos no lugar certo? — Alec estava apontando para alguma coisa que Clary não conseguia ver; estava escondido atrás da sombra de um carro preto.

— O quê? — Jace se juntou a Alec; Clary ouviu-o rir. Circulando o carro, ela viu o que eles estavam olhando: diversas motocicletas, impecáveis e prateadas, com chassis baixos e pretos. Tubos de aparência oleosa e canos curvados enrolados sobre eles, como veias. Havia um ar singelo de alguma coisa orgânica nas motocicletas, como as biocriaturas de uma pintura Giger.

— Vampiros — disse Jace.

— Pra mim, parecem motos — disse Simon, juntando-se a eles com Isabelle ao lado. Ela franziu o cenho ao ver as motocicletas.

— E são, mas foram alteradas para funcionar com energia demoníaca — ela explicou. — São utilizadas por vampiros, permitem que se locomovam em alta velocidade. Não é exatamente legal, mas...

— Já ouvi falar em motos que voam — disse Alec, ansiosamente. Parecia Simon falando de um videogame novo. — Ou ficam invisíveis por meio de um interruptor. Ou funcionam embaixo d’água.

Jace havia pulado do meio-fio e estava circulando entre as motocicletas, examinando-as. Ele esticou a mão e arrastou-a por uma das motos pelo chassi suave e brilhante. Havia palavras pintadas na lateral, na cor prateada: NOX INVICTUS.

— Noite vitoriosa — ele traduziu.

Alec estava olhando para ele de um jeito estranho.

— O que você está fazendo?

Clary achou ter visto Jace colocar a mão rapidamente dentro do casaco.

— Nada.

— Vamos logo — disse Isabelle. — Eu não me arrumei toda para ficar vendo vocês no canto olhando um monte de motocicletas.

— São muito bonitas de se olhar — disse Jace, subindo novamente no meio-fio. — Isso, você tem que admitir.

— Eu também sou — disse Isabelle, que não parecia disposta a admitir nada. — Agora, vamos logo.

Jace estava olhando para Clary.

— Este prédio — ele disse, apontando para o armazém de tijolos vermelhos. — É este aqui?

— Só tem um jeito de descobrir — disse Isabelle, subindo os degraus a passos determinados. Os demais a seguiram, amontoando-se na entrada que cheirava mal. Uma lâmpada solitária pendurava-se em uma corda no teto, iluminando uma ampla porta metálica e uma fileira de campainhas na parede esquerda. Apenas uma tinha um nome escrito: BANE.

Isabelle apertou a campainha. Nada aconteceu. Ela tocou outra vez. Estava prestes a repetir o ato uma terceira vez quando Alec a segurou pelo pulso.

— Não seja mal-educada — ele disse.

Ela olhou para ele.

— Alec...

A porta se abriu.

Um homem esguio parado na entrada os analisou com curiosidade. Isabelle foi a primeira a se recuperar, exibindo um sorriso brilhante.

— Magnus? Magnus Bane?

— O próprio. — O homem bloqueando a entrada era tão alto e magro quanto um poste; a cabeça, uma coroa de densas pontas pretas. Clary supôs pela curva dos olhos sonolentos e pelo tom dourado da pele bronzeada de Magnus que ele tinha ascendência asiática. Ele trajava jeans e uma camisa preta coberta com dúzias de fivelas de metal. Seus olhos estavam cercados por uma máscara de guaxinim de brilho carbônico, e tinha os lábios pintados com um tom escuro de azul. Ele passou a mão cheia de anéis pelo cabelo espetado e os encarou pensativamente. — Filhos de Nephilim — ele disse. — Ora, ora. Não me lembro de tê-los convidado.

Isabelle pegou o convite e balançou como uma bandeira branca.

— Eu tenho um convite. Estes — ela indicou o restante do grupo com um grande aceno de braço — são meus amigos.

Magnus pegou o convite da mão dela e olhou para o papel com profundo desgosto.

— Eu devia estar bêbado — ele disse. Ele abriu a porta. — Entrem. E tentem não assassinar nenhum dos meus convidados.

Jace passou pela entrada, medindo Magnus com o olhar.

— Mesmo que algum deles derrube bebida nos meus sapatos novos?

— Mesmo assim. — A mão de Magnus foi para a frente com tanta rapidez que mal formou uma sombra. Ele pegou a estela da mão de Jace, a qual Clary nem sequer percebera que ele estava segurando, e ergueu-a. O rapaz pareceu remotamente espantado. — Quanto a isso — Magnus disse, colocando-a no bolso dos jeans de Jace —, deixe nas calças, Caçador de Sombras.

Magnus sorriu e começou a subir as escadas, deixando um Jace surpreso segurando a porta.

— Vamos — ele disse, acenando para que todos entrassem. — Antes que alguém pense que a festa é minha.

Eles passaram por Jace, rindo de nervosismo. Só Isabelle parou para balançar a cabeça.

— Tente não irritá-lo, por favor. Assim ele não vai nos ajudar.

Jace parecia aborrecido.

— Eu sei o que estou fazendo.

— Espero que sim. — Isabelle passou por ele com a saia balançando.

O apartamento de Magnus ficava no alto de uma escadaria perigosa. Simon se apressou em alcançar Clary, que estava reclamando de ter posto a mão no corrimão para se recompor. Estava grudento, com alguma coisa que brilhava em verde-claro.

— Eca — disse Simon, que ofereceu o canto da camiseta para ela limpar a mão. Ela o fez. — Está tudo bem? Você parece... distraída.

— É que ele me parece tão familiar. Magnus, quero dizer.

— Você acha que ele estuda na St. Xavier’s?

— Muito engraçadinho. — Ela olhou com amargura para ele.

— Você tem razão. Ele é velho demais para ser um estudante. Acho que foi meu professor de química no ano passado.

Clary gargalhou em voz alta. Imediatamente, Isabelle estava ao lado deles, respirando no pescoço dela.

— Estou perdendo alguma coisa engraçada? Simon?

Simon teve a sensibilidade de parecer envergonhado, mas não disse nada.

— Não está perdendo nada — murmurou Clary, e foi para trás deles. As botas de solas pesadas de Isabelle estavam começando a machucar seus pés. Ao chegar ao topo da escadaria, estava mancando, mas se esqueceu da dor assim que entrou pela porta da frente de Magnus.

O loft era imenso, e quase completamente desprovido de móveis. As janelas, que iam do chão ao teto, eram cobertas por uma camada grossa de filme de sujeira e tinta, bloqueando praticamente toda a luminosidade do recinto para a rua. Grandes pilares metálicos acabados com luzes coloridas sustentavam um teto arqueado e escurecido por fuligem. Portas arrancadas das dobradiças e dispostas sobre latas de lixo entalhadas formavam um bar artesanal no fim da sala. Uma mulher de pele lilás com um bustiê metálico estava preparando drinques no bar em copos altos e coloridos que pintavam o líquido interior: vermelho-sangue, azul-cianose, verde-veneno. Até para uma barwoman de Nova York, ela era surpreendentemente rápida — provavelmente ajudada pelo fato de que tinha outro par de longos braços além do normal. Clary se lembrou da estátua da deusa indiana de Luke.

O resto do público também era bem estranho. Um menino bonito com cabelos verdes e pretos sorriu para ela por cima de uma travessa que parecia carregar peixe cru. Ele tinha dentes afiados e serrados, como os de um tubarão. Ao lado dele, havia uma menina com longos cabelos louro-sujos, presos com flores. Sob a saia do vestido verde e curto, ela tinha pés como os de um sapo. Um grupo de jovens mulheres tão pálidas que Clary imaginou se estariam utilizando maquiagem branca, típica do teatro kabuki, tomava um líquido vermelho grosso demais para ser vinho em taças de cristal. O centro da sala estava abarrotado de corpos dançando ao som da batida eletrizante que exalava das paredes, embora Clary não enxergasse nenhuma banda em lugar algum.

— Está gostando da festa?

Ela virou para ver Magnus apoiado em um dos pilares. Seus olhos brilhavam na escuridão. Olhando em volta, ela reparou que Jace e os outros haviam sumido, engolidos pela multidão.

Ela tentou sorrir.

— É em homenagem a alguma coisa?

— Aniversário do meu gato.

— Ah. — Ela olhou em volta. — Onde está o gato?

Ele desgrudou do pilar, com olhar solene.

— Não sei. Fugiu.

Clary foi poupada de ter de responder a isso, graças ao aparecimento de Jace e Alec. Alec, como sempre, parecia não querer falar com ninguém. Jace estava usando um cordão de flores brilhantes em torno do pescoço e parecia satisfeito.

— Onde estão Simon e Isabelle? — perguntou Clary.

— Na pista de dança — ele apontou. Ela pôde enxergá-los entre corpos grandes e fortes. Simon estava fazendo o que sempre fazia em vez de dançar, que era remexer-se para cima e para baixo desconfortavelmente. Isabelle movia-se em círculo em volta dele, sinuosa como uma cobra, passando os dedos pelo seu peito. Ela olhava para ele como se estivesse planejando puxá-lo a um canto para transar. Clary cruzou os braços, as pulseiras bateram umas contra as outras. Se dançarem um pouquinho mais perto um do outro, não precisarão ir para o canto para transar.

— Olhe só — disse Jace, voltando-se para Magnus —, nós realmente precisamos conversar com...

— MAGNUS BANE! — A voz profunda e imponente pertencia a um homem surpreendentemente baixo, que parecia ter algo em torno de 30 e poucos anos. Ele era musculoso e compacto, a cabeça sem pelos, cuidadosamente raspada, e um cavanhaque pontudo. Ele levantou um dedo trêmulo para Magnus. — Alguém acabou de jogar água-benta no meu tanque de gasolina. Está estragado. Destruído. Todos os canos estão derretidos.

— Derretidos? — murmurou Magnus. — Que horror!

— Quero saber quem fez isso. — O homem exibiu os dentes, mostrando longos caninos afiados. Clary o encarou, fascinada. Não eram nada como ela imaginava que fossem os dentes dos vampiros: estes eram tão finos e afiados quanto agulhas. — Achei que você tivesse jurado que não haveria lobisomens aqui hoje, Bane.

— Não convidei nenhum dos Filhos da Lua — disse Magnus, examinando as próprias unhas brilhantes. — Justamente por causa dessa rixa entre vocês. Se algum deles tentou sabotar sua moto, não estava aqui a convite meu, portanto... — Ele deu um sorriso sagaz. — Não é minha responsabilidade.

O vampiro rugiu de raiva, apontando o dedo para Magnus.

— Você está tentando me dizer que...

O indicador de Magnus se moveu uma pequena fração, tão pouco que Clary quase pensou que não havia sequer se mexido. No meio do grunhido, o vampiro engasgou e pôs as mãos na garganta. A boca mexia, mas não emitia som algum.

— Você já abusou da minha hospitalidade — disse Magnus de maneira preguiçosa. Clary viu, com leve surpresa, que ele tinha pupilas finas e verticais, como as de um gato. — Agora vá — ele mexeu os dedos e o vampiro se virou, como se alguém o tivesse agarrado pelos ombros e o girado. Ele marchou de volta pela multidão, dirigindo-se à porta.

Jace assobiou para si mesmo.

— Isso foi impressionante.

— Aquela coisinha irritada? — Magnus voltou os olhos para o teto. — Eu sei. Qual é o problema dela?

Alec emitiu um som de engasgo. Após um instante, Clary reconheceu como uma risada. Ele deveria fazer isso mais vezes.

— Nós colocamos a água-benta no tanque de gasolina — disse ele.

— ALEC — disse Jace. — Cale a boca.

— Presumi que sim — disse Magnus, aparentando estar entretido. — Malditos seres vingativos vocês são, hein? Sabem que as motos funcionam com energia demoníaca. Duvido que ele consiga consertar.

— Menos um sanguessuga com transporte bacana — disse Jace. — Estou com o coração partido.

— Ouvi dizer que alguns conseguem fazer motos voarem — acrescentou Alec, que pela primeira vez parecia animado. Ele estava praticamente sorrindo.

— É só uma lenda — disse Magnus com os olhos de gato brilhando. — Então é por isso que queriam entrar de penetras na minha festa, para estragar a moto de um sanguessuga?

— Não. — Jace parecia novamente sério. — Precisamos falar com você. De preferência, em um local privado.

Magnus ergueu uma sobrancelha. Droga, pensou Clary. Mais um.

— Estou com problemas com a Clave?

— Não — disse Jace.

— Provavelmente não — disse Alec. — Ai! — ele olhou para Jace, que lhe dera um chute no tornozelo.

— Não — repetiu Jace. — Podemos falar com você sob o selo do Pacto. Se nos ajudar, qualquer coisa que disser será confidencial.

— E se não ajudar?

Jace abriu as mãos. Os símbolos tatuados nas palmas se destacaram em cor preta.

— Talvez nada. Talvez uma visita à Cidade do Silêncio.

A voz de Magnus era como mel entornado em pedras de gelo.

— É uma boa escolha que está me oferecendo, Caçadorzinho de Sombras.

— Não é escolha alguma — disse Jace.

— Sim — disse o feiticeiro. — É exatamente o que eu quis dizer.

O quarto de Magnus era todo colorido: lençóis em tom amarelo-canário e colcha jogados por cima de um colchão no chão, penteadeira azul-brilhante com mais potes de tinta e maquiagem do que a de Isabelle. Cortinas de veludo arco-íris escondiam a janela que se estendia do chão até o teto, e uma coberta de lã cobria o chão.

— Belo lugar — disse Jace, puxando de lado a cortina pesada. — Acho que paga bem ser o Magnífico Feiticeiro do Brooklyn.

— Paga — disse Magnus. — Não temos benefícios, contudo. Não temos plano odontológico. — Ele fechou a porta e se apoiou nela. Quando cruzou os braços, a camiseta subiu, mostrando uma barriga lisa e dourada, sem qualquer sinal que revelasse ser uma barriga humana. — Então — ele disse. — O que se passa nessas cabecinhas endiabradas?

— Não são eles, na verdade — disse Clary, encontrando a voz antes que Jace pudesse responder. — Sou eu que preciso falar com você.

Magnus voltou o olhar para ela.

— Você não é um deles — ele disse. — Não da Clave. Mas consegue enxergar o Mundo Invisível.

— Minha mãe era integrante da Clave — disse Clary. Era a primeira vez que dizia isso em voz alta e sabia que era verdade. — Mas nunca me contou. Manteve em segredo. Não sei por quê.

— Então pergunte a ela.

— Não posso. Ela... — Clary hesitou. — Ela se foi.

— E o seu pai?

— Morreu antes de eu nascer.

Magnus expirou, irritado.

— Como disse Oscar Wilde certa vez: “Perder um dos pais pode ser encarado como falta de sorte. Perder os dois parece descuido.”

Clary ouviu Jace emitir um singelo som sibilado, como o ar sendo sugado entre os dentes. Ela disse:

— Não perdi a minha mãe. Ela foi tirada de mim. Por Valentim.

— Não conheço nenhum Valentim — disse Magnus, mas seus olhos balançaram como chamas de uma vela, e Clary sabia que ele estava mentindo. — Sinto muito por suas trágicas circunstâncias, mas não vejo o que isso tem a ver comigo. Se você pudesse me dizer...

— Ela não pode dizer porque não se lembra — Jace disse, incisivo. — Alguém apagou suas lembranças. Então nós fomos até a Cidade do Silêncio para ver o que os Irmãos conseguiam extrair da cabeça dela. Eles acharam duas palavras. Acho que você consegue imaginar quais sejam.

Fez-se um curto silêncio. Finalmente, Magnus deixou a boca se mexer no canto. Seu sorriso era amargo.

— Minha assinatura — ele disse. — Sabia que estava defeituosa quando fiz. Um ato de hubris...

— Você assinou a minha mente? — Clary perguntou, incrédula.

Magnus levantou a mão, traçando as letras de fogo contra o ar. Quando soltou a mão, ficaram lá, quentes e douradas, fazendo com que as linhas pintadas de seus olhos e boca queimassem com o reflexo da luz. MAGNUS BANE.

— Fiquei orgulhoso do meu trabalho em você — ele disse, olhando para Clary. — Tão limpo. Tão perfeito. O que você visse se esqueceria, mesmo ao ver. Nenhuma imagem de fada ou duende ou fera de pernas longas permaneceria para atrapalhar seu sono mortal. Era assim que ela queria.

A voz de Clary era fraca e tensa.

— Assim que quem queria?

Magnus suspirou e, ao toque da respiração, as letras de fogo se transformaram em cinzas brilhantes. Finalmente ele falou — e, apesar de não se surpreender, de saber exatamente o que ele iria dizer, mesmo assim ela sentiu as palavras como um sopro contra o coração.

— Sua mãe — ele disse.