Como a Democracia Chega ao Fim

David Runciman · Capítulo 7 de 13

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Como a Democracia Chega ao Fim

Conclusão - É assim que a democracia chega ao fim

Conclusão

É assim que a democracia chega ao fim

 

Todas as democracias — todas as sociedades — comparam seu destino com a sorte dos outros Estados, na esperança de vislumbrar seu próprio futuro. Quando um rival se põe em marcha, queremos saber se isso significa que estamos prestes a ser eclipsados. Quando outra democracia começa a desmoronar, queremos saber se estamos diante de um aviso sobre nosso possível destino. A política democrática é ávida por fábulas com moral, contanto que sejam vividas por outros.

No final da década de 1980, muitos comentaristas do Ocidente viam o Japão como o poder emergente: o século XXI seria o século japonês. Francis Fukuyama cita o Japão, ao lado da União Europeia, como a ilustração mais provável do que se pode esperar do fim da história: o triunfo da democracia se revela estável, próspero, eficiente e tedioso. Em seguida, a bolha japonesa estourou — derrubando a Bolsa de Tóquio — e o futuro passou a pertencer a outros. O Japão, por sua vez, viu-se transformado numa fábula sobre os perigos da húbris. Enquanto o país ingressava em suas décadas perdidas de crescimento zero e estagnação política, sinalizava um aviso enfático para os outros. Bolhas podem estourar em toda parte.

Em 2010, foi a Grécia que acendeu a luz vermelha. A UE deixava de ser um lugar tedioso — e ficava muito alarmante. Políticos de todo o Ocidente viam na Grécia um exemplo do que podia acontecer quando as democracias perdessem o controle sobre as suas dívidas. Quando assumiu o cargo de Chancellor of the Exchequer (o equivalente a ministro da Economia no Reino Unido) em 2010, George Osborne usou a crise financeira grega como a fábula das fábulas. “Podemos ver na Grécia o exemplo de um país que não enfrentou seus problemas, e este é o resultado que pretendo evitar”, disse ele, lançando a Grã-Bretanha num programa de austeridade destinado a durar uma

década.1 Hoje essa década já está quase no fim e a Grécia perdeu boa parte de sua capacidade de assustar as crianças. O país não caiu num abismo. A austeridade não fez tanta diferença quanto disseram. A vida continua.

Atualmente o Japão e a Grécia raramente são invocados por políticos de outras democracias como exemplos do possível destino que nos aguarda. Não funcionam mais como fábulas de advertência porque sua mensagem ficou ambígua demais. O Japão segue atolado num impasse político e econômico, mas continua a funcionar perfeitamente como uma sociedade estável e afluente que zela por seus cidadãos. Imagine que você sorteou um bilhete na grande loteria da vida com demarcação de tempo e lugar em que irá viver, algum ponto de toda a extensão da história humana. Se o bilhete disser: “Japão, início do século XXI”, você ainda se sentiria como se tivesse tirado o grande prêmio. A Grécia atravessa dificuldades piores, mas ainda assim continua próspera e pacífica diante dos padrões históricos. Existem muitos lugares piores do que esses. A crise nunca foi solucionada, mas o pior tampouco jamais aconteceu.

Então saímos à procura de novos exemplos do que pode estar por vir. A China suplantou o Japão como o gigante asiático que assombra a imaginação política do Ocidente. A China pode estar a ponto de nos ultrapassar; por outro lado, pode ser o lugar do estouro da próxima bolha gigante. A Venezuela substituiu a Grécia como o lugar cujas tristes circunstâncias atuais servem como advertência contra brincar com o fogo do populismo. Em seu discurso de outubro de 2017 no congresso do Partido Conservador, o atual Chancellor of the Exchequer do Reino Unido, Philip Hammond, falou da possibilidade de desabastecimento e violência nas ruas, “ao estilo venezuelano”, caso Jeremy Corbyn se tornasse primeiro-ministro. Qualquer possível Presidente ou Primeiro-Ministro de Esquerda pode ser apontado como um Maduro em gestação, assim como qualquer Presidente ou Primeiro-Ministro de Direita pode ser pintado como um potencial Orbán, ou pior ainda, um projeto de Trump. Queremos que nossos perigos sejam claros: só assim, e com a graça de Deus, a democracia pode subsistir.

No entanto, ironicamente, o Japão e a Grécia são países que hoje nos apresentam as melhores indicações de como a democracia pode chegar ao fim, mesmo bem depois de terem deixado de servir aos políticos em busca de um argumento fácil. As democracias estáveis preservam sua extraordinária capacidade de evitar o pior, mesmo sem dar cabo dos problemas que antes representavam uma ameaça catastrófica. A crise grega foi tantas vezes empurrada para diante que só podemos concluir que tem pela frente um caminho muito mais longo do que se acreditava. Quem sabe onde irá acabar? No momento em que escrevo, a economia grega lentamente recomeça a crescer pela primeira vez em mais de oito anos. O peso da dívida é maior do que nunca. O primeiro-ministro Tsipras é mais impopular que em qualquer outro momento de seu governo. O partido grego de centro-direita, que presidiu a primeira fase da crise sem fim, pode estar perto de uma volta ao poder. Varoufakis acaba de lançar mais um livro.

A Grécia e o Japão são países onde a vida é muito diferente, mas têm alguns traços em comum. São duas das sociedades mais antigas da face da Terra: o Japão é um dos poucos países com uma proporção mais alta de habitantes idosos que a Grécia. Metade de sua população tem 47 anos ou mais. As duas nações precisam desesperadamente de um influxo de juventude. Na falta de um arranque sério na taxa de natalidade — e é muito difícil imaginar o que a esta altura poderia ter esse efeito —, a solução óbvia é a imigração. Ainda assim, nos dois países, aceitar mais imigrantes — especialmente homens jovens — é politicamente tóxico e, na prática, muito difícil de administrar. Em algum momento, algo terá de mudar. Talvez, se esperarem o suficiente, robôs passem a responder pela maior parte do trabalho antes feito pelos jovens, deixando que os idosos passem seus dias jogando no computador e se preocupando com a saúde. Pode ser dessa maneira que, ao final, todos nos tornaremos japoneses. Existem destinos bem piores.

O Japão também é uma das sociedades menos violentas do planeta. A taxa de homicídios no país é a mais baixa do mundo desenvolvido. A política japonesa volta e meia é sacudida por um escândalo — acusações de corrupção nunca estão muito longe de atingir um ou outro dos políticos do país —, mas rebeliões e violência nas ruas são quase desconhecidas. O conflito político é ao mesmo tempo corrosivo e desprovido de dentes. A Grécia tem taxas de criminalidade bem mais altas que as do Japão, mas a violência lá também é rara, não só pelos padrões históricos mas inclusive em comparação com outros países da Europa (a taxa de homicídios na Grécia é mais baixa que no Reino Unido). Quase uma década de depressão econômica brutal alterou pouco esse quadro. A Grécia se despedaçou sem cair aos pedaços. Sua política se tornou maldosa sem ficar violenta. Certas democracias, ao que parece, têm uma alta capacidade de resistência à dor.

As histórias do Japão e da Grécia acabaram sendo muito diferentes do que se podia temer, ou mesmo do que se poderia esperar. Falta alguma coisa para que sirvam como fábulas edificantes. E o que lhes falta é a moral da história. Em vez de um drama que chega a um clímax, a democracia persiste numa espécie de agachamento congelado, aguentando firme, esperando o pior passar, mesmo que não haja muita clareza quanto ao que as pessoas estão esperando. Depois de algum tempo, a própria espera se converte no objetivo do exercício. Alguma coisa vai acabar acontecendo. É sempre assim.

Mas essa história não está completa, é claro. Muitas democracias, mesmo no Ocidente, são menos idosas que as do Japão e da Grécia, mais voláteis, mais impacientes, e potencialmente muito mais violentas. E nem precisamos ir a Caracas para ter um vislumbre de um futuro alternativo. Chicago dá conta do recado.

A afirmação de que a violência vem sofrendo um declínio generalizado — feita com maior ressonância por Steven Pinker em Os anjos bons da nossa natureza, de 2011 — está subjacente a boa parte da minha argumentação

neste livro.2 Esse retrato ficou mais complicado nos anos recentes. Uma parte significativa do que diz Pinker está baseada na queda da taxa de criminalidade em todo os Estados Unidos, do ponto mais alto nas décadas de 1970 e 1980 aos pontos historicamente mais baixos da década de 2010. Mas a proporção de homicídios subiu quase 10% nos últimos dois anos, e boa parte desse aumento vem de umas poucas cidades: Las Vegas, Baltimore e Chicago. Na média, mais de cinquenta pessoas são mortas à bala por mês em Chicago. A proporção de fatalidades na cidade é muito mais alta, mesmo em relação à notoriamente violenta década de 1920.

Esse recente aumento da violência é muito desigual. Enquanto algumas cidades vivem altas dramáticas, outras permanecem mais ou menos na mesma. Em 2016, a taxa de criminalidade em Nova York ainda era a menor de todos os tempos. Em Chicago, a violência deixa boa parte da cidade em paz: dos mais de setenta distritos policiais, apenas cinco respondem por dois terços no aumento das mortes. É possível viver ao lado de um banho de sangue e, ainda assim, viver mais ou menos imune a chacinas desse tipo.

O homicídio à moda de Chicago não é a irrupção de violência mais dramática que atinge os Estados Unidos nos dias de hoje. Uma contagem ainda maior de mortes é autoinfligida. A proporção de suicídios vem crescendo muito esta década, especialmente nas áreas rurais. Atualmente, mais estadunidenses se matam a tiros do que matam outros. A epidemia de opioides que vem galopando em partes do país tem ceifado mais vidas que a violência armada, e não dá sinais de diminuir. As mortes no trânsito também vêm aumentando. Por isso, os Estados Unidos são o primeiro país do mundo desenvolvido a ver um declínio na expectativa de vida. Mais de 100 mil habitantes morreram no ano passado de overdose ou num acidente de trânsito. Essa é a verdadeira carnificina dos Estados Unidos.

O que os EUA vêm atravessando no momento poderia ser chamado de uma cauda longa de violência: é abundante, mas em sua maior parte só afeta determinados grupos. Raramente é uma experiência coletiva. A violência não desapareceu. Em vez disso, espalhou-se e tornou-se mais rara, afetando algumas vidas individuais de inúmeras maneiras que mal são percebidas pelas pessoas não diretamente afetadas por ela. Boa parte dessa violência é privatizada, domesticada ou institucionalizada em lugares planejados para ficar fora das mentes da maioria. O sistema carcerário do país, em que se encerram mais de 2 milhões de prisioneiros, entre os quais uma quantidade imensamente desproporcional de jovens afro-americanos, é uma gigantesca fábrica de violência que trata de excluí-la da esfera política. Longe dos olhos, longe da mente.

Ao mesmo tempo, a sombra de algum cataclismo indizivel-mente violento paira sobre todo o país. Certos atos individuais de violência — especialmente quando perpetrados por terroristas — são tratados como prenúncios de um colapso generalizado. Um movimento em falso e podemos todos morrer. Trump é uma tradução desse fenômeno. Costuma praticar dois tipos de violência: a variedade friccional, de baixo impacto, que se traduz em insultos pessoais; e a ameaça de um Armagedom nuclear. Em toda distribuição do tipo cauda longa, juntamente com a proliferação de eventos menores, existe certo número de eventos mais impressionantes. Trump parece incapaz de qualquer gesto de apoio aos milhões de estadunidenses que correm o risco diário de violência. No entanto, é capaz, ele mesmo, de destruir milhões deles.

A cauda longa da violência é emblemática do aperto que a democracia vem atravessando: as ameaças que tem pela frente ou são grandes demais, ou pequenas demais. O que a epidemia de opioides e uma possível guerra nuclear com a Coreia do Norte têm em comum é a dificuldade que a política democrática tem para enfrentar tanto uma como a outra. O espaço entre o pessoal e o apocalíptico, que é onde tradicionalmente se desenvolve a política democrática, transformou-se num campo de batalha para visões de mundo rivais constituídas de expectativas pessoais ou apocalípticas do pior que pode acontecer. O que está faltando é uma política de nível médio. Em qualquer distribuição em forma de cauda longa, é a parte média a atingida com mais

força.3 A democracia contemporânea não é uma exceção. Macroeventos e microexperiências ocupam todo o espaço, e excluem a possibilidade de um meio-termo razoável. Quando as pessoas procuram instituições que poderiam facilitar essa intermediação, descobrem que foram esvaziadas pela pressão de inquietações e pelas frustrações políticas grandes demais ou pequenas demais para se ajustar a elas.

Apesar disso, um motivo que a democracia tem para persistir é o fato de conservar suas potencialidades negativas. As frustrações têm seus usos, por mais vazios que sejam os espaços em que costumem fazer barulho. Quando as pessoas ficam absolutamente fartas de certos políticos, sempre podem substituí-los por outros. Os péssimos líderes — ou “maus imperadores”, como costumavam ser chamados na China — podem ser despachados mais ou menos sem dor. Partidos políticos moribundos acabam despejados nos pátios dos ferros-velhos. Uma democracia realmente desatenta ou intimidada pode achar que um mau imperador pode se infiltrar em suas instituições, tornando mais difícil se livrar dele. Erdogan está em cena na Turquia já há dezoito anos, e não dá sinal de que esteja indo embora. Mas o mesmo não irá acontecer com Trump. A democracia dos Estados Unidos não está intimidada, nem é desatenta a ponto de permitir que ele permaneça no cargo além de 2025. E é muito pouco provável que chegue até mesmo a essa data.

As democracias continuam a ser eficazes em evitar a hora mais difícil. Sua incapacidade de se posicionar ou manter as coisas em proporção é útil para adiar o pior, ainda que a frustração possa ser profunda quando se tenta fazer melhor que isso. Empurrar o problema para diante é o melhor que as democracias fazem. E é por isso que o caminho que ainda têm pela frente pode se revelar bem mais comprido do que achamos.

O problema da democracia no século XXI é que suas virtudes positivas estão se esgotando. Evitar o desastre, por si só, não basta. Para a democracia florescer, ela precisa preservar sua capacidade de combinar resultados benéficos com reconhecimento pessoal, o que não está mais acontecendo. Ainda há benefícios e ainda há o reconhecimento: só não ocorrem ao mesmo tempo. As soluções para os nossos problemas comuns, que dependem cada vez mais da especialização técnica, tendem claramente no sentido da tecnocracia. As demandas de reconhecimento, cada vez mais manifestas na linguagem da identidade pessoal, estão indo no sentido oposto, rumo a alguma coisa que lembra o anarquismo. Ao longo do século XX, a experiência coletiva da luta política — tanto para resolver os problemas comuns quanto para enfatizar o reconhecimento democrático — manteve a democracia intacta. No século XXI, a experiência dispersa da fúria política está contribuindo para que se despedace.

Os partidos políticos foram os instrumentos primários para combinar as virtudes positivas da democracia. Hoje, esses partidos também tendem a se desfazer, à medida que as aspirações de reconhecimento pessoal alimentam a frustração política com a mecânica da representação democrática. Por se tratar de uma democracia, ninguém quer dizer abertamente o quanto ela ficou difícil. Os políticos, à época das eleições, ainda prometem de tudo para todos: esse movimento social irá resolver seus problemas pessoais; aquele culto à personalidade irá restaurar a grandeza do seu país. Essas promessas vazias acabam lesando os políticos pouco tempo depois, ponto em que são trocados por outros. Mas a democracia não melhora.

A revolução digital vem acelerando esse processo. E também é emblemática. Os “solucionadores” mais grandiloquentes são quase sempre os titãs das empresas de tecnologia, convencidos de que suas máquinas têm a capacidade de lidar com os problemas intratáveis do mundo. Esses chefes de um culto do novo solucionismo, acompanhados de muitos devotos, não têm nada contra a democracia porque têm certeza de que qualquer coisa que aumente nossa capacidade de resolver problemas é uma vantagem para a democracia. Ao mesmo tempo, cultivam a confiança de que sua tecnologia basta para proporcionar o reconhecimento democrático a todos os quadrantes: é ela que dá voz a quem não tem. O que não sabem dizer é como essas duas coisas se combinam. Porque a verdade é que não coadunam.

Por isso, Mark Zuckerberg é uma ameaça mais séria do que Donald Trump para a democracia dos Estados Unidos. Zucker-berg não tem desígnios malévolos em relação às instituições democráticas; na verdade, parece ter bem poucas queixas da democracia. Tem boas intenções. E é esta a ameaça que ele representa. O desafio crucial que a democracia tem pela frente é encontrar um modo de reconectar o que vem se desmanchando, o que significa antes de mais nada perceber que se limitar a aumentar a pressão dos dois lados da vida democrática, sem conectá-los, não pode levar a nada de bom. A democracia dos Estados Unidos pode sobreviver a Trump porque tem virtudes negativas, de resistência, que acabarão por tirá-lo de cena. Mas essas virtudes negativas não servem para despachar Zuckerberg, porque isso demandaria algo de mais positivo. As instituições de que precisamos para enfrentar o vazio político que sentimos cada vez maior são as mesmas que vêm sendo esvaziadas pelo solucionismo exagerado e pelo hiperestímulo à expressão pessoal.

E é provável que seja este o destino da democracia: os Trumps vêm e vão; os Zuckerbergs seguem em frente. Não estamos diante de nenhuma ameaça terrível porque o Zuckerberg não quer que nada de terrível aconteça. Muitos problemas serão solucionados, mas muitos novos problemas serão também criados. Muitas entre as pessoas hoje isoladas terão uma oportunidade de encontrar sua voz. E, devagar mas sempre, a democracia chegará ao fim.

Qual é a minha solução? A essa altura de qualquer livro sobre o mal-estar da democracia contemporânea, é comum os leitores esperarem que o autor sugira algumas correções. Não tenho nada a sugerir. Se o solucionismo é parte do problema, simplesmente propor soluções não será a maneira de corrigir nada.

Prefiro, em vez disso, apresentar algumas lições para o século XXI. Não devem ser vistas como um guia para o futuro. São, na verdade, um modo de tentar entender o ponto em que nos encontramos no momento. Seja qual for o nosso futuro, precisamos saber de onde partimos.

 

• A democracia ocidental madura está em declínio. Passou do seu apogeu.

Precisamos reconhecer este fato: uma modalidade dinâmica e

extremamente bem-sucedida de regime político, que gozou de um sucesso

notável por cem anos, vem aos poucos chegando ao fim nos lugares onde

seu sucesso foi maior. O que ainda deixa espaço para muitas escolhas

significativas. Se a parte final dessa história ainda está por vir, muita coisa

ainda pode acontecer. Os anos de declínio de qualquer um são às vezes os

mais satisfatórios de sua vida. Mas isso só irá ocorrer se conseguirmos sair

da confusão em que nos encontramos no momento, quando empregamos

um tempo excessivo em esforços para recapturar a juventude perdida.

 

• Ao mesmo tempo, não podemos nos permitir uma preocupação constante

com a morte. A política democrática está sendo sufocada pelas intimações

de mortalidade que aprendeu a identificar. Em muitos sentidos, é justo

sentirmos medo: um acontecimento terminal pode estar à nossa espera

depois da próxima esquina. Uma confiança inabalável no futuro seria

ridícula a esta altura. Temos muito mais a temer do que o medo em si.

Mas também precisamos reconhecer que, se ainda resta vida à

democracia, ela precisa ser vivida. Se formos desperdiçar o período que

ainda nos resta preocupados com o fim, o tempo simplesmente passará

como um borrão.

• A morte não é mais a mesma. O fim definitivo de uma vida se transformou

em algo mais parecido a um processo gradual. Isso se aplica

individualmente aos seres humanos, que podem ter algumas funções

preservadas bem depois de outras características essenciais da vida terem

deixado de existir. A demência pode despojar uma pessoa de sua

identidade sem danificar sua integridade corpórea. Uma meia vida como

essa pode durar muito tempo. Ao ritmo atual dos progressos tecnológicos,

podemos esperar que certas meias vidas cheguem a durar mais que muitas

vidas plenas. O mesmo se aplica aos nossos sistemas políticos. É quase

certo que o fim da democracia será prolongado. Aperfeiçoamentos

artificiais, adiamentos e remendos técnicos podem mantê-la quase

indefinidamente num estado de animação suspensa. A força da

democracia reside em sua capacidade de desmantelar os problemas de

maneira a torná-los administráveis, o que significa que a democracia

deverá ser capaz de desmantelar sua própria morte. E de poder adiá-la,

peça por peça.

 

• A democracia não somos nós. A extinção da democracia não é a nossa

extinção. A analogia entre uma vida humana e a vida de um sistema

político só vai até certo ponto. À medida que a democracia entra em

declínio, corremos o perigo de um excesso compensatório em nossas

tentativas de mantê-la funcionando. Podemos chegar a salvar a

democracia e destruir o mundo. Não temos alternativas melhores no

momento, mas isso não significa que nenhuma seja possível. Se

continuarmos a insistir que a democracia é sacrossanta — em especial, se

insistirmos em pensar que seguir em frente, eleição a eleição, irá fazê-la

recobrar a centelha da vida —, acabaremos por perder de vista qualquer

finalidade. Só estaremos repetindo gestos vazios.

 

• A história da democracia não terá um ponto final singular, a menos que

também seja o fim de toda a vida humana. Haverá casos em que seguirá

bem-sucedida, especialmente nos lugares onde a democracia ainda

conserva parte de sua promessa juvenil. Haverá também claros desastres

— algumas democracias correm o risco de entrar em colapso, como já

lhes aconteceu no passado. No momento em que escrevo, a democracia

brasileira parece particularmente vulnerável. Cerca de metade dos

brasileiros declarou, numa pesquisa recente, seu apoio a uma “intervenção

militar temporária”4 para enfrentar a atual crise política e econômica do

país. Golpes de Estado continuam a acontecer, embora tendam a se tornar

mais raros, haja vista a quantidade de maneiras como a democracia pode

ser usada para encobrir sua própria erosão gradual. Mas as democracias

ocidentais maduras precisam parar de se mirar em outras nações para

entender o que ocorrerá com elas: o Brasil não é a nova Grécia. Não

podemos viver através dos outros, assim como não podemos morrer

através dos outros. Precisamos atravessar tudo isso nós mesmos.

 

A democracia ocidental irá sobreviver à sua crise da meia-idade. Com sorte, sairá dela só um pouco baqueada. Mas é improvável que saia dela revivida. Afinal, esse não é o fim da democracia. Mas é assim que a democracia chega ao fim.