Como a Democracia Chega ao Fim
2. Catástrofe!
2.
Catástrofe!
Por toda parte, a sombra da morte. Os agricultores falavam das muitas
doenças em suas famílias. Na cidade, os médicos estavam cada vez mais
intrigados com novos tipos de doença que assolavam seus pacientes.
Muitas mortes súbitas e inexplicadas ocorriam, não só entre adultos mas
também entre as crianças, que caíam enquanto brincavam e morriam em
poucas horas. E ainda reinava um estranho silêncio. As aves, por exemplo
— onde tinham ido parar? […]. As estradas estavam ladeadas por uma
vegetação castanha e esturricada, e dominadas pelo silêncio, abandonadas
por qualquer criatura viva. Mesmo nos cursos d’água a vida estava
ausente. Nenhum pescador em suas margens, pois todos os peixes tinham
morrido. Nas sarjetas e debaixo dos beirais, e nas frestas dos telhados,
podiam-se ver manchas de um pó granulado branco; poucas semanas
antes, esse pó tinha caído, como neve, nos telhados e nos gramados, nos
campos e nos rios. Não tinha sido um feitiço, nem uma ação inimiga, que
extinguira a vida naquele mundo agonizante. Era obra das próprias
pessoas. 1
Essas são as linhas iniciais de “Silent Spring” [Primavera silenciosa], conto de Rachel Carson publicado na revista New Yorker em junho de 1962. Ela descreve uma comunidade fictícia assolada por uma série de acontecimentos reais. Cada um dos desastres que enumera tinha acontecido em algum lugar, só que não todos no mesmo local e ao mesmo tempo. Aparentemente, o texto de Carson sobre uma sociedade que se mata aos poucos tem muito pouco a ver com o destino da democracia. Fala de uma calamidade ambiental, e não política. No entanto, também é uma visão de como a democracia pode acabar. A comunidade que ela imagina fica nos Estados Unidos, uma sociedade democrática. Se a vida acabar, a democracia acaba. E, como diz Carson, o desastre não acometia a comunidade de fora para dentro. “Era obra das próprias pessoas.”
“Primavera silenciosa” foi o segundo de três longos artigos publicados na New Yorker nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial e que exerceram uma profunda influência sobre a maneira como imaginamos o apocalipse. O primeiro foi “Hiroshima”, de John Hersey, publicado em agosto de 1946. Descrevia a experiência da guerra nuclear na perspectiva das vítimas.
Do alto da pilha, o sr. Tanimoto viu um panorama espantoso. Não só um
trecho de Koi, como ele esperava, mas toda a área de Hiroshima que ele
avistava emitia um miasma espesso e pavoroso. Grumos de fumaça, mais
próximos ou mais distantes, começavam a brotar da poeira que cobria
tudo. Ele se perguntou como estragos tão extensos podiam ter sido
produzidos a partir de um céu silencioso […]. Casas próximas
queimavam, e quando imensas gotas d’água, do tamanho de bolas de
gude, começaram a cair, ele teve a impressão de que deviam estar vindo
das mangueiras dos bombeiros que combatiam os incêndios. (Na verdade,
eram gotas de umidade condensada, caindo do torvelinho vertical de
poeira, calor e fragmentos de fissão que subira milhares de metros pelo ar
nos céus acima de Hiroshima.)2
O relato de Hersey, baseado no depoimento de testemunhas oculares, ajudou a convencer seus leitores de que as armas nucleares não eram simplesmente um modo de forçar o inimigo à submissão. Eram um portão para o inferno.
O terceiro artigo sobre o fim dos tempos foi “Eichmann em Jerusalém”, de Hannah Arendt, que a New Yorker publicou em quatro partes, em semanas
consecutivas, a partir de meados de fevereiro de 1963.3 A intenção de Arendt era ajudar seus leitores a entender como um homem de gestos contidos, usando óculos de armação tartaruga, podia ser responsável pela destruição de todo um povo. Ela própria se esforçava para entender. E cunhou uma frase que se transformou na senha da sua tese: “a banalidade do mal”. Adolf Eichmann não era um monstro estranho a nós. Era um homem sem imaginação, incapaz de um pensamento independente. O que o tornou capaz de uma crueldade monstruosa quando surgiu a ocasião. Arendt não afirmava que existe um Eichmann em cada um de nós — não somos todos nazistas em estado latente. Mas existem Eichmanns em todas as sociedades, inclusive a nossa. Em tempos normais, podem ocupar postos administrativos desimportantes, adequados à sua falta de imaginação. O que os torna tão perigosos é sua incapacidade de resistir a uma ideia realmente terrível. Os agentes da destruição não se destacam em meio ao resto da população. Já estão no meio de nós.
Essas são as maneiras pelas quais a civilização moderna pode acabar destruída. Pode ser devastada por armas de destruição em massa. Pode se suicidar pelo envenenamento fatal de seu ambiente. Ou pode se deixar contagiar pelo mal, que suas instâncias administrativas desprovidas de mente própria se encarregam de espalhar pelo sistema com a ajuda de burocratas sem rosto.
Em nenhum desses casos a democracia é a principal culpada. Hersey não achava que o povo americano decidira desencadear os horrores de Hiroshima. Ninguém lhe deu essa escolha. Truman, que tinha herdado a presidência com a morte de Roosevelt em 1945, quando ainda estava no cargo, tomou em segredo a decisão de usar a arma, criada num programa secreto. Só mais tarde falaria dela para o público. Hersey queria que o povo dos Estados Unidos se desse conta do que fora feito em seu nome. A questão não era a aprovação do apocalipse nuclear por uma sociedade democrática: ninguém em seu juízo perfeito jamais votaria a favor dele. A questão era saber se a sociedade democrática ainda detinha o poder de barrá-lo.
Carson não acreditava que ninguém tivesse votado a favor da destruição do meio ambiente. O uso excessivo de pesticidas nunca foi objeto de eleição ou referendo. Ele só ocorria graças à desatenção generalizada. As pessoas não se davam conta do que vinha acontecendo à sua volta. Arendt não disse que o Holocausto foi uma escolha ativa dos cidadãos alemães. Os alemães viviam sob uma ditadura totalitária que se empenhou em alterar sua percepção das coisas. Mas o exemplo terrível de Eichmann mostrava como essa distorção obedecia à lógica da burocracia moderna. As democracias também têm burocracias.
Hersey, Carson e Arendt, cada um a seu modo, usaram calamidades como um meio de despertar a consciência dos leitores. Descreveram fatos e desdobramentos realmente estarrecedores para levar seus leitores a pensar sobre o pior que poderia acontecer. Ninguém quer realmente que o mundo acabe. A questão é saber se iremos perceber como contribuímos para o seu fim antes que seja tarde demais. Em meados do século XX, esperava-se que a ideia de uma calamidade pudesse ter um efeito mobilizador sobre a política democrática. Podia despertar as pessoas para os perigos que corriam. E o destino da democracia pode depender do quanto isso ainda é verdade.
Desenlaces catastróficos desse tipo são muito diferentes de golpes de Estado. Quando um golpe acontece, é uma calamidade para a democracia, mas a vida continua. A sociedade sobrevive. O que Eichmann ajudou a infligir ao mundo foi outra coisa. Foi uma calamidade para a existência de todos. E chegou perto de destruir tudo que tinha algum valor. Para Arendt, a pergunta crucial proposta pela política moderna — de que Eichmann ainda era um representante assustador — era o que seria necessário para “este
planeta continuar a ser um lugar adequado à ocupação humana”.4 O que vai bem mais longe que assegurar a sobrevida de um determinado tipo de regime político. Trata-se de preservar a finalidade da existência dos homens.
O problema é que pensar nesses termos torna difícil manter as coisas em perspectiva. A possibilidade de uma catástrofe poderia facilmente deixar à margem a sorte da democracia. Ela pode se tornar descartável. Afinal, a democracia pode se extinguir sem que tudo o mais pereça ao mesmo tempo. A sociedade grega sobreviveu à morte da democracia grega. Por outro lado, podemos salvar a democracia e destruir o mundo. O dilema existencial a que Trump ainda pode obrigar seus comandantes militares é uma versão desse mesmo problema. Segundo as regras do Estado nuclear do país, a decisão quanto ao uso de força extrema é exclusiva do presidente. Ele pode desencadear um cataclismo global sem que ninguém tenha meios de detê-lo. A existência do arsenal nuclear lhe dá essa capacidade, e a Lei da Energia Atômica (Atomic Energy Act), de 1946 — criada com a intenção de preservar a democracia de generais rápidos no gatilho —, consagra esse mecanismo. A pretexto de salvar sua República, o comandante em chefe tem o poder de destruí-la.
Por outro lado, conjecturar sobre catástrofes não irá funcionar como exercício para despertar a consciência se elas tornarem a democracia irrelevante. As pessoas precisam crer que seus atos ainda fazem diferença. De outro modo, tendem a se sentir impotentes. O desafio para qualquer um que queira assustar as pessoas para incitá-las à ação é não as paralisar de medo, reduzindo-as à inação. Se a democracia for vista como uma questão acessória, os cidadãos das democracias podem se sentir desconsiderados. E podem tornar a perder o interesse.
Arendt dizia que a democracia do século XX continha um certo grau de irracionalidade. A criação da democracia moderna demandou a construção de um grande aparato administrativo que opera de maneira mecânica, obedecendo a regras e regulagens próprias. Nesse sistema, a especialização técnica prepondera sobre os valores humanos. A democracia antiga era diferente. O poder era de fato do povo. O grande perigo da democracia moderna é que ela se desliga da atividade humana significativa que lhe deu origem e adquire uma vida artificial própria. Ainda são os seres humanos que tomam as decisões cruciais, mas sem um discernimento criativo. Limitam-se a executar os movimentos recomendados. Ou respondem só por impulso. O que Arendt descobriu, analisando Eichmann, foi que se limitar a essa repetição mecânica pode abrir a porta para os nossos impulsos mais destrutivos. Paramos de pensar por conta própria.
É a insensatez que liga a catástrofe ambiental à guerra nuclear e à inconsciência genocida. Essa insensatez pode assumir diferentes formas. Pode ser uma espécie de extravio da nossa atenção — enquanto cuidamos de gozar a vida, deixamos de perceber que estamos destruindo o habitat de que depende o nosso futuro. Ou pode ser um tipo de atenção intensificada — a dissuasão nuclear é transformada numa disputa técnica de retaliações e vantagens que perde de vista os riscos para todos se tudo der errado. Ou pode ser apenas a obediência impensada a um curso de ação desastroso, que também seguimos porque é o que todo mundo está fazendo. Em qualquer desses casos, precisamos de alguma coisa que quebre o feitiço.
Será a democracia? Ou será que a democracia virou justamente o feitiço?
A ameaça de uma calamidade ambiental é maior hoje do que em 1962. Ainda assim, estranhamente, perdeu parte do seu poder de mobilização — a sombra da morte tanto se espalhou quanto recuou ao mesmo tempo.
O perigo primário que Carson sublinhava era o uso insensato de pesticidas como o DDT, segundo ela acompanhado de uma compreensão muito imperfeita dos seus riscos, que superavam em muito os benefícios. Em resposta, os fabricantes dessas substâncias transformaram Carson em alvo de zombaria, retratando-a como uma inimiga irrefletida do progresso. Em outubro de 1962, a empresa Monsanto, a gigante industrial hoje mais conhecida pelo desenvolvimento de produtos agrícolas geneticamente modificados, publicou uma paródia de “Primavera silenciosa” intitulada “The Desolate Year” [O ano da desolação]:
Em silêncio, então, começou o ano da desolação. Poucos pareciam se dar
conta do perigo. Afinal, no inverno, mal se via uma mosca. Que mal
podiam fazer uns poucos insetos, aqui e ali? Como é que uma vida
próspera podia depender de algo aparentemente tão trivial como um
inseticida? Onde estavam os insetos, de qualquer maneira?
Estavam em toda parte. Invisíveis. Inaudíveis. Incrivelmente
universais. Em cada metro quadrado de terra, ou debaixo dele, em cada
hectare, em cada condado, estado e região por toda a extensão dos Estados
Unidos. Em cada casa e em cada celeiro, em cada prédio de apartamentos
e em cada galinheiro, e ainda nas peças de madeira, nas fundações e nos
arremates. Por baixo da terra, debaixo das águas, em torno e por dentro de
galhos, ramos e brotos de planta, dentro de árvores, animais e outros
insetos — sim, e dentro dos homens.5
E uma série de calamidades se desenrola, à medida que as pequenas criaturas devoram toda a comida e devastam a terra. E a Monsanto afirmava que, embora o panorama traçado fosse fictício, todas essas coisas já teriam acontecido em algum ponto dos Estados Unidos — antes da invenção dos pesticidas.
Carson ganhou a discussão. Seus argumentos chamaram a atenção do presidente Kennedy, que entregou seu estudo a uma Comissão Científica de Aconselhamento Presidencial sobre os pesticidas em 1963. O relatório da comissão concluiu que as advertências de Carson tinham amplo fundamento. Os pesticidas constituíam um risco sério para a saúde humana, e vinham provocando danos ambientais de longo alcance. A regulação foi implementada, e as evidências relativas a danos e benefícios se tornaram passíveis de uma apreciação sistemática do governo. Dez anos mais tarde, o uso do DDT foi banido.
Carson também obteve sucesso em seus esforços para despertar as consciências. A publicação de seu livro Primavera silenciosa foi um momento-chave para o surgimento do movimento ecológico, que continuou a exercer pressão no sentido de um aumento da ação governamental. O sucesso desse tipo de pressão política depende da liberdade de informação, da liberdade de associação e da confiança no império da lei. É um fenômeno amplamente democrático. Nessas condições, os poluidores podem ser chamados a responder por seus atos.
Ao longo das décadas seguintes, as democracias estabelecidas criaram mecanismos de acompanhamento destinados a enfrentar a contaminação ambiental, de longe mais eficientes que os de qualquer sistema rival de governo. Nos regimes autocráticos, a poluição tende a ser muito pior. O ar corrosivo que pairava sobre boa parte da Europa Oriental durante a época comunista era um indício claro dessa diferença. As democracias têm duas grandes vantagens em seu modo de lidar com o risco ambiental. Um é o poder efetivo dos grupos de pressão, que podem sempre divulgar verdades inconvenientes. O segundo é a economia de mercado, que pode experimentar soluções alternativas. Os pesticidas não foram banidos por completo depois da publicação de Primavera silenciosa. Só alguns deles. A maioria se tornou mais eficiente, além de mais segura. Os inovadores e os defensores dos interesses das empresas tendem a se estranhar, como ocorreu com Carson e a Monsanto em 1962. Numa democracia saudável, essa desconfiança é produtiva: cada lado impele o outro à ação.
Hoje, essa vantagem da democracia vem se diluindo. A poluição do ar é um problema gigantesco em muitas cidades da China. Mas é uma ameaça equivalente, se não pior, na Índia democrática. O crescimento industrial muito acelerado, alimentado pela queima de carvão em grande escala, envenena a atmosfera, qualquer que seja o regime dominante. Enquanto isso, o governo federal dos Estados Unidos vem recuando em muitas das medidas de proteção ambiental que Carson deixou como legado, embora alguns governos estaduais ainda façam o possível para resistir. A democracia começa a se mostrar cada vez mais errática quanto à conservação de condições ambientais adequadas para a vida humana.
Carson conseguiu ser ouvida pelo governo dos EUA e pelo público em geral; mas hoje seus avisos já não ressoam mais como antes. E isso ocorre por três motivos. O primeiro é o sucesso: temos menos a temer, depois de já termos lidado com os medos anteriores. Hoje, o maior risco é a complacência. Tendo neutralizado uma ameaça, somos tentados a achar que qualquer novo perigo está sendo exagerado, esquecendo o que nos salvou da primeira vez. Segundo, as medidas de regulação ambiental produzem muito mais controvérsia que meio século atrás. O economista Paul Krugman afirma
que a desigualdade crescente é parte da explicação.6 Uma ação concertada contra as ameaças ambientais requer algum acordo quanto ao valor dos bens públicos. Uma sociedade mais desigual torna esse acordo mais difícil de conseguir, pois a distribuição de custos e benefícios é muito menos equitativa. Em 1970, ainda no primeiro mandato do presidente Nixon, a Lei do Ar Limpo (Clean Air Act) foi aprovada no Senado por 73 votos a zero. A unanimidade em qualquer questão, sobretudo uma questão ambiental, é quase inimaginável no clima político de hoje. O terceiro motivo para a mudança é que o pior que podia nos acontecer, na visão de Carson, foi há muito superado por uma ameaça de outro tipo. O espaço para a preocupa-ção com uma calamidade ambiental foi totalmente ocupa-do pela ideia da mudança climática. O perigo é maior que o dos pesticidas. Mas não nos ameaça da mesma forma.
Não que faltem escritores tentando nos meter medo e nos impelir à ação.
A produção ficcional contemporânea está repleta de visões de um mundo cada vez mais quente, plenamente comparáveis ao horror da distopia de Carson: nelas, o que nos espera são paisagens esturricadas, sobreviventes que vagueiam pelas estradas, instituições sociais destruídas e a explosão da violência. Só que num futuro imaginado. Carson tentou descrever o que já estava acontecendo. A catástrofe da mudança climática vindoura ainda é, para muitos, uma previsão fácil de ignorar. A situação pode estar começando a mudar nas regiões costeiras do sul dos Estados Unidos. E mudanças também vêm sendo sentidas em algumas das partes mais pobres do mundo, onde os efeitos da mudança climática se manifestam de maneira mais imediata. Mas ainda não afetam o mundo inteiro. Parte da genialidade de Carson foi transmitir uma sensação de ameaça universal. A catástrofe podia acontecer em qualquer lugar. Em contraste, a mudança climática mais nos divide que nos une.
O jornalismo contemporâneo tentou emular Carson e catalogar os males que a mudança climática já causou, especialmente no mundo em desenvolvimento, onde os recursos são mais escassos e as pessoas, mais vulneráveis. No entanto, para os habitantes das regiões mais prósperas, faltam a essas descrições o sentido de urgência e a especificidade do relato de Carson. E lhes falta também a novidade. Ficamos relativamente imunes às descrições apocalípticas do nosso futuro porque temos sido expostos a muitas delas. É nítida a presença de uma fadiga apocalíptica.
O resultado é que o medo da mudança climática não teve o mesmo efeito produzido pelo medo dos pesticidas numa geração anterior. A ameaça do aquecimento global é mais onipresente, só que mais vaga e difusa. Não é aguda como a outra. Em vez de quebrar o feitiço da suspeita e da conspiração, só fez reforçá-lo. Muitas das teorias da conspiração mais intragáveis dos dias de hoje têm a ver com a mudança climática, frequentemente descrita como uma falcatrua. O raciocínio é o seguinte: para justificar sua ambição, as elites ocultas que querem instituir um governo mundial precisam de um problema que demande ação coletiva em escala global. A mudança climática é exatamente um problema desse tipo e, portanto, as elites ocultas devem tê-lo inventado e comprado os cientistas. Essa é a resposta que você obtém uma vez que a pergunta primária na política se tornou: “quem se beneficia?”.
Se formos perguntar quem se beneficia dessa tentativa de desacreditar o estudo científico da mudança climática, a resposta é clara: a indústria dos combustíveis fósseis. As teorias da conspiração de um lado encontram equivalentes do outro. E ainda existem as conspirações verdadeiras: a ExxonMobil financiou boa parte da pesquisa que deixou o consenso científico em dúvida. Mas suspeita gera mais suspeita, de maneira que os ambientalistas também recorrem a explicações conspiratórias para justificar por que sua causa não avança. E essa quebra da confiança passou a produzir seu próprio reforço, em vez de corrigir seus rumos. Discussões cada vez mais furiosas em torno de quem está enganando quem quanto à mudança climática vêm envenenando a democracia.
E também fomentam a ampliação do poder do Executivo. Foi o caminho adotado por Obama, depois de constatar a impossibilidade de aprovar leis ambientais no Congresso (chama a atenção pensar que Nixon obteve com tanta facilidade o que Obama não conseguiu). Como solução política, recorrer a decretos presidenciais para cuidar dessa questão tem dois grandes defeitos. Primeiro, o que um presidente faz, outro presidente pode desfazer. O legado de Obama em relação ao clima foi muito mais fácil de desmontar que seu legado na saúde pública, porque Trump pôde rescindir os decretos presidenciais do antecessor simplesmente assinando os próprios decretos. Segundo, a tentativa de evitar o partidarismo do legislativo só torna esse partidarismo pior. Se ninguém se empenha em negociar, ninguém tem nada a perder fincando o pé. A política democrática é sempre prejudicada pela tentativa de contornar seu funcionamento.
Não se pode mais argumentar que o que é necessário é mais conscientização. Em matéria de mudança climática, o público não desconhece os riscos. Faz muitos anos que eles nos vêm sendo enfiados goela abaixo. Carson fez um mundo indiferente tomar consciência dos perigos que corria ao ignorar os danos ambientais de longo prazo. Já nós sabemos o que estamos fazendo. Só que muitos preferem não saber.
A maior parte dos chamados à consciência vêm agora do outro lado. Na arena da política do clima, os contendores mais apaixonados são os que negam a mudança climática, preferindo ver a questão como um complô liberal. Muita energia democrática vem sendo investida numa contestação frenética da realidade da mudança climática. A situação é profundamente improdutiva. Como Arendt sugeriu, a política moderna pode nos fazer entrar num estado maníaco e, ao mesmo tempo, num transe. No caso da mudança climática, a democracia lembra cada vez mais o feitiço, e não a cura. A chegada de Trump à Casa Branca e seu desejo declarado de remover os Estados Unidos do Acordo de Paris — deixando o país numa situação de minoria isolada — redirecionaram uma parte da energia política contra quem põe a mudança em dúvida. Mas não fizeram nada para dissipar o miasma da desconfiança.
Se — e quando — as obras de ficção que falam de uma calamidade ambiental se transformarem em realidade, é possível esperar que a política democrática saia do transe. Estes são um dos pontos fortes da democracia: o caos e a violência sempre despertam o que ela tem de melhor. Foi mais fácil lidar com a questão ambiental na década de 1960 porque as principais democracias do mundo ainda conviviam com a memória de uma guerra mundial que quase provocou a destruição de tudo. Hoje, à diferença daquela época, em que envenenávamos os rios e matávamos as aves, o problema é que as provas decisivas dos nossos malfeitos parecem estar chegando tarde demais. Quando finalmente quisermos saber, veremos que o conhecimento sempre esteve lá. A essa altura, porém, vai nos servir de pouco.
E o medo de um apocalipse nuclear? Onde nos encontramos hoje em relação a ele? Hiroshima continua a ser muito lido, especialmente por crianças em idade escolar. Sua descrição do que acontece quando uma arma nuclear é detonada sobre uma área urbana nunca foi superada, porque a experiência nunca se repetiu — salvo uma única vez, alguns dias mais tarde, em Nagasaki. Essa história de horror é menos datada que a de Carson, pois não temos nada com que compará-la. Ela se mantém visceralmente imediata. Num outro sentido, porém, é ainda mais remota. Faz mais de setenta anos que o mundo se viu obrigado a contemplar os efeitos concretos de um ataque nuclear sobre a vida humana. Nesse meio-tempo, o perigo de conflito nuclear aumentou muito, pois as armas se tornaram muito mais potentes e mais difundidas. Mas o medo que elas nos inspiram perdeu parte da capacidade de nos incitar à ação. Ainda é apavorante, mas apenas teórico. E só chega a nós através das advertências técnicas de certas elites informadas. Não se funda mais numa experiência concreta.
Durante a Guerra Fria, a ameaça de uma guerra nuclear total permaneceu concreta o suficiente para despertar uma resistência popular generalizada. O lobby antinuclear se compara, na escala e no alcance, ao movimento ecológico. No Reino Unido, a Campanha para o Desarmamento Nuclear (CND, de Campaign for Nuclear Disarmament) chegou a reunir em seu auge mais de 2 milhões de membros, tornando-se uma das maiores organizações civis de toda a Europa. A participação em massa coincidiu com o aumento da tensão nuclear entre as superpotências, e teve seus picos no início da década de 1960, à época da Crise dos Mísseis em Cuba, e no início da década de 1980, quando o governo Reagan tentava ganhar a corrida armamentista. Depois disso, não se repetiu mais.
Hoje, a CND é uma lembrança do que foi, contando apenas com poucos milhares de membros e quase nenhuma visibilidade pública. A ironia é que um dos seus defensores mais entusiásticos, Jeremy Corbyn, foi eleito líder do Partido Trabalhista em 2015, e ainda pode acabar como primeiro-ministro da Grã-Bretanha. O desarmamento nuclear ainda é uma causa que motiva Corbyn, mas quase não encontra ressonância entre seus seguidores da geração mais nova, que têm poucas memórias da Guerra Fria. Corbyn foi obrigado a disputar a eleição geral britânica de 2017 com base num manifesto que comprometia o Reino Unido a manter seu programa de dissuasão nuclear, o Trident. A abolição das armas nucleares na lista de prioridades do Partido Trabalhista vinha muito abaixo do ensino gratuito. Corbyn ainda pode mudar a posição oficial do partido sobre o programa Trident, mas se o fizer será levando em conta seu legado ideológico, e não a pressão da opinião pública. O desarmamento nuclear perdeu sua urgência como causa do povo.
Atualmente, essa causa sobrevive adotada por um grupo de elite de operadores políticos sem mandato, e foi transformada numa questão de governança internacional. A dupla ironia é que, enquanto Corbyn se vê obrigado a conviver com a bomba, Henry Kissinger está empenhado em se livrar dela. A pressão mais forte na direção do desarmamento nuclear, nos últimos anos, vem de um grupo de ex-dirigentes políticos estadunidenses — Kissinger, George Shultz, William Perry e Sam Nunn —, “os quatro
cavaleiros do apocalipse nuclear”, como foram apelidados pela revista 7 Time .
Os dois primeiros foram secretários de Estado; Perry foi secretário da Defesa; Nunn, que foi senador, é o único a já ter tido um mandato eletivo. Os quatro figuram entre os expoentes da estratégia da Guerra Fria que consideravam as armas nucleares fiadoras da paz. Com o fim da Guerra Fria, passaram a ver as armas nucleares como a maior das ameaças à segurança internacional, desejando vê-las abolidas. Sua argumentação é convincente. Mas praticamente desprovida de credenciais democráticas. O desarmamento nuclear foi transformado em mais um dos problemas reservados aos adultos presentes na sala.
No auge da Guerra Fria, as armas nucleares atiçavam a paranoia política. A obra-prima de Stanley Kubrick, Dr. Fantástico ou: Como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba, de 1964, é a maior representação cinematográfica do estilo paranoico na política dos Estados Unidos. Satiriza o mundo das teorias da conspiração, e ajudou a alimentá-las ainda mais. Os segredos inevitáveis de um Estado nuclear o deixam vulnerável aos tipos mais desvairados de suspeita — no universo de pernas para o ar da doutrina de Destruição Mútua Assegurada (em inglês, MAD, de Mutually Assured Destruction), nada era louco demais para ser crível. Hoje, embora vivamos numa época em que teorias da conspiração se espalham por toda parte, poucas delas envolvem o arsenal nuclear. A paranoia bateu asas e seguiu viagem. Kissinger, que já foi o maior símbolo da sinistra face oculta da democracia estadunidense, hoje é só mais uma figura do passado no circuito internacional de palestras. Quando foi divulgado que Kissinger vinha assessorando Trump nos bastidores, pouca gente se apavorou. Pelo contrário, muitos se sentiram levemente tranquilizados. Eis o quanto as coisas mudaram.
A ameaça de uma calamidade nuclear é uma versão invertida da ameaça representada pela mudança climática. Ambas perderam força como causa política devido à incerteza que as rodeia. No caso da mudança climática, a incerteza tem a ver com o futuro — possíveis catástrofes são sugeridas, mas não sabemos ao certo o que acontecerá, nem quando, o que torna difícil encontrar um ponto focal para a ação política. No caso das armas nucleares, a incerteza diz respeito ao passado — não sabemos exatamente como conseguimos sobreviver até aqui. Foi habilidade política? Foi sorte? Na Guerra Fria, foram muitas as situações em que estivemos à beira de uma calamidade nuclear, o que a maioria do público nem soube à época. Aviões quase caíram; ordens militares foram embaralhadas; comandantes se embebedaram. Será a história de nossa existência pacífica até hoje uma série sem sentido de momentos em que estivemos por um triz, passíveis de ser aniquilados por algum acidente ou decisão terrível? Da próxima vez que uma arma nuclear for detonada com seres humanos na linha de fogo, tudo irá mudar. Até que isso aconteça — ou até que as armas nucleares sejam abolidas — nada muda de verdade. A incerteza persiste.
A ironia é que, hoje, o uso de armas nucleares é mais provável que uma geração atrás. Não vivemos mais num mundo em que a destruição mútua é garantida. Uma guerra nuclear pode ocorrer sem destruir o planeta. Versões rudimentares de armas nucleares podem cair nas mãos de terroristas, caso em que qualquer tabu contra seu uso perderia o sentido. Do mesmo modo, as versões hipersofisticadas hoje à disposição dos militares estadunidenses podem levar um comandante em chefe a vê-las como uma forma estendida de guerra convencional, com sua capacidade de precisão tática e a possibilidade de conter os efeitos dos resíduos radioativos. Ainda assim, as repercussões seriam incalculáveis. O tabu tem sua razão de ser.
A mudança climática não tem apelo político para a imaginação por ser muito gradual. O apocalipse ambiental é uma catástrofe que só acontece aos poucos. Por isso podemos encará-lo como um rumor. Já a catástrofe nuclear não tem apelo porque é um fenômeno do tipo tudo ou nada. Não há nada que possa torná-la real sem ameaçar tornar todo o resto sem sentido. É uma calamidade tamanha que não conseguimos imaginá-la. Por isso, cruzamos os dedos e torcemos para a nossa sorte persistir.
E, finalmente, o que dizer do mal? Temos medo suficiente dessa ameaça?
A eleição de Trump para a presidência fez muita gente se preocupar de novo com o nazismo. E voltamos a olhar para a década de 1930 em busca de inspiração. Em 2017, o historiador Timothy Snyder publicou Sobre a tirania: Vinte lições do século XX para o presente, em que adverte que não devemos imaginar que o pior não possa se repetir. A lição da Alemanha de Weimar é que a democracia não se salva por conta própria. No fim das contas, foram suas credenciais democráticas que a deixaram indefesa contra uma investida hostil. Na verdade, o necessário para salvar a democracia de si mesma é a presença de cidadãos ativos.
Snyder recorre a Arendt em sua argumentação. Lembra que a filósofa nos adverte contra um mundo corroído pelas teorias da conspiração, no qual “somos seduzidos pela ideia de realidades ocultas e conspirações sinistras que explicam tudo”. Isso marca os primórdios do totalitarismo — “A pós-verdade”, diz Snyder, “é o pré-fascismo”. E enfatiza os perigos que existem em simplesmente nos deixar levar — a insensatez do conformismo. “Houve quem matasse por convicção homicida. Mas muitos dos que mataram só tinham medo de se destacar pela diferença. Havia outras forças em ação, além do conformismo. Sem os conformistas, porém, as grandes atrocidades teriam
sido impossíveis.”8
Invocar a sombra sinistra do Holocausto eleva o alcance e a ousadia do argumento, mas também aumenta as chances de gritar “lobo!” e provocar um alarme infundado. Dizer que as teorias da conspiração prenunciam o totalitarismo deixa de levar em consideração que muitos produtores de teorias da conspiração no século XXI se veem como a última linha de defesa contra o totalitarismo. Uma das regras de resistência recomendadas por Snyder é: “Investigue. Desvende as coisas por conta própria”. E é exatamente o que muitos partidários de Trump acreditam que estão fazendo. São eles os não conformistas. São eles que pensam por conta própria. E se Snyder afirma que são idiotas iludidos — porque se limitam a agir de acordo com notícias falsas que recebem pela internet —, eles responderiam que ele é o conformista. É ele quem defende o ridículo estereótipo liberal de que Trump é um proto-Hitler.
Essa divergência não terá chegado a um desfecho quando o verdadeiro horror finalmente se revelar. As democracias do século XXI, como os Estados Unidos, podem seguir adiando esse momento. O lobo não irá chegar. Se Trump nunca se transformar em Hitler — e ele não vai —, todo mundo pode alegar que estava certo desde o início.
Numa época marcada pelo populismo, enquanto alguns ansiosos defensores da democracia invocam a banalidade do mal, outros se dedicam a vituperar o mal da banalidade. Para muitos populistas, a burocracia insensata não corre o risco de ser invadida por uma ideia realmente terrível a que não tenha meios de resistir. Para eles, a própria burocracia insensata já é a ideia terrível, e a resposta democrática correta é resistir a ela. Nesse ambiente político, os dois lados — tanto os populistas quanto os antipopulistas — acreditam estar travando o bom combate para salvar a democracia de si mesma. A divisão central do nosso tempo não é a que opõe a democracia à teoria da cons-piração. É a que opõe a teoria da conspiração à teoria da conspiração em nome da democracia. Não é a repetição da década de 1930. É a década de 1890, sem perspectiva de solução.
Invocar o espectro de Hitler combina duas maneiras diferentes de como a democracia pode chegar ao fim. O nazismo foi a morte da democracia na medida em que extinguiu um regime político democrático — a República de Weimar — e o substituiu por uma ditadura. A sociedade alemã, mal ou bem, sobreviveu. O nazismo também foi uma visão do abismo, do lugar em que tudo se despedaça. Depois da colisão entre o nazismo e o stalinismo, o pior aconteceu. Nas “terras de sangue” da Europa Central e Oriental, descritas com detalhes dilacerantes por Snyder em seu livro de mesmo nome, a vida
humana perdeu efetivamente todo o sentido.9
Em meados do século XX, a morte da democracia como forma de política era a precursora de uma possível morte da civilização. No século XXI, porém, o que ocorre é o contrário. A democracia sobrevive porque muito poucas coisas poderiam hoje provocar sua morte enquanto forma de política. Pode ser preciso que ocorra antes a morte da civilização. Tanto os conformistas quanto os não conformistas fazem tudo que podem para manter a democracia em funcionamento, desqualificando furiosamente os esforços do outro lado. Enquanto isso, a ameaça da calamidade, intacta, segue pairando sobre nós.
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Existe algum modo de pensar construtivamente sobre o fim do mundo? Não podemos ignorar as hipóteses apocalípticas dos chamados “cenários do Juízo Final” — o que seria altamente irresponsável. Mas se formos passar tempo demais pensando no pior dos casos, não nos restará tempo para as outras coisas que importam. Como os hipocondríacos, vamos nos preocupar só com a morte, o que pode distorcer seriamente nossa perspectiva de vida.
O problema é que uma catástrofe total não é apenas um pouco pior que uma catástrofe parcial — a diferença entre as duas é extrema. O fim de tudo supera todo o resto. O filósofo Derek Parfit elabora a questão da seguinte maneira. Imaginem três cenários:
1. Todos os humanos morrem.
2. 99% dos humanos morrem.
3. Nenhum ser humano morre.10
O primeiro cenário é exponencialmente pior que o segundo, enquanto o segundo só é relativamente pior que o terceiro. Se o que está em jogo é a preservação das coisas de fundamental valor humano, passar de uma taxa de mortalidade de zero a 99% não é tão ruim quanto ir de 99% a 100%. A ideia soa impiedosa, e é difícil de conciliar com a noção de que todo indivíduo humano tem valor — no segundo cenário, afinal, quase todo mundo morre! Mas a diferença é que no primeiro cenário, em que absolutamente todo mundo morre, não há possibilidade de recuperação nem sobra ninguém para avaliar o resultado. Tudo se perde.
Uma resposta a esse problema é conhecida como “o princípio da precaução”, e afirma que precisamos de um esforço especial para nos prevenir contra resultados difíceis de avaliar, mas potencialmente catastróficos. O princípio da precaução costuma ser muito aplicado aos riscos ambientais. Por exemplo, não sabemos o quão desastrosos seriam os efeitos em cascata de uma mudança climática — podem representar tanto uma ameaça concreta à existência da civilização humana quanto não ser tão danosos como tememos. Mesmo que as chances de a primeira hipótese ocorrer sejam bem pequenas — especialmente quando não temos uma ideia precisa de como medir essa probabilidade —, vale a pena tomar um cuidado especial. Nossa incapacidade de ter certeza quanto aos riscos que corremos é motivo para tomar uma atitude imediata, e não ficar à espera de ter certeza para então reagir. Se agirmos e nosso esforço se mostrar desperdiçado, será possível viver com os custos. Se não agirmos e o pior acontecer, será impossível. É uma versão da Aposta de Pascal, que afirma que nunca vale a pena correr o risco da danação eterna.
O princípio da precaução tem muitos críticos, que dizem que ele pode distorcer nosso julgamento, nos levando a menosprezar outros tipos de risco. Se algum risco excepcional se destaca dos demais, pode ficar difícil levar a sério os riscos não excepcionais. O que também tem seus custos. Por exemplo, adotar uma ação preventiva para resistir à mudança climática produz por sua vez riscos significativos — pode sufocar o crescimento nos países em desenvolvimento, causando perdas de vida (o crescimento econômico melhora os cuidados de saúde), inquietação social e conflitos políticos. São situações a que as pessoas sobrevivem — se não fossem, a raça humana dificilmente teria chegado até aqui. Mas acreditamos de fato que, mesmo na pior das hipóteses, a mudança climática irá extinguir toda a vida humana? Na medida em que qualquer catástrofe admite sobreviventes, não há motivo para dizer que ela não se compara a outros riscos. Só os casos em que tudo estaria perdido merecem um tratamento especial.
Um termo novo foi cunhado para assinalar essa distinção definitiva. O “risco para a existência” (também chamado de “risco existencial”, mais próximo do inglês existential risk) designa ocorrências das quais realmente não há volta. Em matéria de risco para a existência, mesmo a morte de todos os humanos não constitui a última das calamidades. Podemos fazer ainda pior: destruir o planeta e extinguir toda a vida na Terra. Podemos ir ainda mais além e destruir o universo inteiro, se alguma experiência física mais ambiciosa der muito errado. E isso não daria cabo apenas da nossa existência, mas de formas de vida que nem sequer conhecemos ainda. A ideia pode soar extremamente exagerada. Mas se houver uma chance, mesmo que mínima, de que cientistas tentando interferir nas leis da física possam encolher todo o universo às dimensões de uma bolinha minúscula, a teoria do risco para a existência diz que devemos nos prevenir para que isso não ocorra.
Em contraste com a extinção do universo, a morte da demo-cracia parece uma preocupação banal. Muitos dos que defendem essa maneira de pensar veem a democracia como uma das coisas que deveríamos fazer o possível para preservar das cinzas. Ela contribui para tornar a vida digna de ser vivida. Mas isso é diferente de supor que a democracia é o que irá nos preservar. Diante de um risco para a existência, a democracia se torna, em última análise, descartável. Precisamos fazer o que for necessário. Se isso é um exercício de tomada de consciência, seus alvos são cientistas, dirigentes políticos, filósofos. No fim das contas, não faz diferença quem decide o que acontecerá na sequência. O que importa é o que será decidido. Ou existe uma sequência, ou não existe.
No século XXI, isso significa que o panorama da catástrofe final coincide com algumas visões do apocalipse originárias do século XX, mas vai bem mais longe. O holocausto nuclear ainda ocupa lugar de destaque — se uma pequena fração dos milhares de armas nucleares armazenadas por todo o planeta fosse detonada ao mesmo tempo, pouco sobraria. A mudança climática surge como uma forma potencialmente catastrófica de aquecimento ou resfriamento global — o efeito estufa e os ciclos de feedback negativo ainda podem fazer o planeta acabar consumido pelo fogo ou pelo gelo. A bioengenharia também é um risco para a existência, especialmente se der origem ao bioterrorismo. Mas os medos mais agudos dos nossos dias têm a ver com o poder descontrolado de novas tecnologias. Essa é a versão mais recente do apocalipse. Em pouco tempo, podemos estar correndo o risco de dar origem a máquinas que não teremos como controlar.
Essas máquinas podem ser minúsculas — uma das ansiedades mais persistentes relacionadas à nanotecnologia está relacionada à possível criação de diminutos robôs autorreplicantes que acabariam envolvendo o planeta numa gosma cinzenta. Ou então podem ser perceptivelmente semelhantes a nós, mas com a supressão de alguma coisa importante. Os rápidos progressos no campo do aprendizado de máquina (em inglês, machine learning) possibilitam a criação de aparelhos capazes de imitar a inteligência humana, sem o senso de perspectiva que nos torna humanos. Dependendo da ordem que lhes for dada, essas máquinas podem destruir tudo em seu esforço para cumpri-la — se lhes disserem que precisam maximizar a produção de clipes de papel, por exemplo, elas podem afogar o mundo num mar de clipes. Sempre podemos desligá-las. Mas e se não tiverem um interruptor para desligar? E se o interruptor for controlado por outras máquinas? E se as máquinas concluírem que, para nos impedir de desligá-las, precisam nos desligar?
Parece complacência discutir quem votou em favor do que quando robôs assassinos estão chegando. Na atmosfera rarefeita do risco para a existência, falar sobre política mal tem cabimento. Em vez disso, as soluções putativas têm seu foco em possíveis soluções técnicas — como a construção de interruptores que não possam ser alterados. As escolhas significativas para os seres humanos acabam reduzidas a decisões das poucas pessoas que entendem como funciona a tecnologia — é a elas que cabe fazer a coisa certa. Só quem tem a capacidade de construir máquinas assim tem a capacidade de fazê-las parar. Todos os outros não passam de espectadores.
A ideia de que o risco para a existência cobra um preço alto à democracia não é inteiramente nova. Certos pensadores políticos acreditam que a democracia acabou quando a bomba atômica passou a existir. Os eleitores são volúveis demais; as armas são terríveis demais. Medidas especiais sempre serão necessárias para manter as armas fora do alcance deles. Por esse motivo, a democracia não tem como coexistir com o poder de destruição desencadeado em Hiroshima. Teórica social de Harvard, Elaine Scarry define a natureza dessa escolha no seu recente livro Thermonuclear Monarchy: Choosing between Democracy and Doom [Monarquia termonuclear: A escolha entre a democracia e o fim do mundo]. “As armas nucleares acabam com os governos e qualquer coisa que se possa chamar de democracia”, ela diz. “Tínhamos uma escolha: abrir mão das armas nucleares ou abrir mão do
Congresso e dos cidadãos. Abrimos mão do Congresso e dos cidadãos.”11
Scarry quer trazer a democracia de volta à vida abolindo o Estado nuclear.
Mas isso não vai acontecer. Há dois motivos para isso. Primeiro, se é fato que a democracia foi destruída pelas armas nucleares, a democracia não está mais em posição de se livrar delas. As pessoas só podem acompanhar seu próprio resgate na condição de espectadoras. Segundo, mesmo que nos livremos das armas nucleares, há muitos outros riscos para a existência que podem, cada um deles, barrar a democracia. À medida que os humanos acumulam mais capacidade de dar cabo do seu habitat, a guerra nuclear perde sua posição singular como totem do nosso poder destrutivo. Se não somos qualificados para lidar com a bomba, tampouco seremos para lidar com a inteligência artificial (IA); ou com a bioengenharia; ou com o Grande Colisor de Hádrons. As armas nucleares deram início à era dos riscos para a nossa existência, mas não são mais o que a define. Podíamos devolver um dos gênios à garrafa. Não conseguiremos devolver todos.
A democracia não tem como controlar os riscos para a existência. O máximo que pode desejar é ser poupada de seus efeitos. E é assim que a democracia acaba sendo tratada pela indústria da gestão desses riscos: com luvas de pelica, como alguma relíquia de valor histórico que ainda pode vir a ter alguma utilidade incidental. Ninguém quer descartar sumariamente a democracia. Seria terrível vê-la desaparecer, assim como seria terrível imaginar o Louvre explodindo numa nuvem de fumaça. Desse modo, continuamos a trazê-la conosco na viagem da nossa existência.
Nick Bostrom, filósofo baseado no Instituto do Futuro da Humanidade, em Oxford, é um dos maiores expoentes da ideia de que a gestão normal de risco é ineficaz para lidar com as tecnologias que representam uma ameaça para a vida no século XXI. Ele está especialmente preocupado com o possível impacto das máquinas “superinteligentes”, dotadas de IA, que operem sem qualquer controle humano. Preocupa-se também com a guerra nuclear e com uma catástrofe ambiental. Bostrom reconhece o valor da democracia. Só não a considera prioritária. É possível que a difusão da democracia ajude a preservar a espécie humana, por tornar a paz mais provável que a guerra. Mas dedicar muito tempo aos cuidados com a democracia também pode ser um risco quando existem outras coisas, mais práticas, que precisam ser feitas. “Com recursos limitados”, escreve Bostrom, “é crucial adotar o critério certo para estabelecer nossas prioridades. Um milhão de dólares podem, hoje, fazer uma grande diferença para a quantidade de pesquisa sobre os riscos para a nossa existência; gastar o mesmo montante com o incremento da paz mundial
seria uma gota d’água no oceano.”12
Ao mesmo tempo, Bostrom teme que a democracia possa atrapalhar nosso resgate. Em sociedades democráticas, é difícil convencer as pessoas a concentrar seu foco no risco de coisas que ainda não aconteceram e provavelmente jamais virão a acontecer. A tendência dos eleitores é dar prioridade ao que já conhecem. É possível que a sobrevivência de todos dependa de ações preventivas contra perigos que ainda irão se manifestar. “As democracias acharão difícil adotar medidas decisivas antes da manifestação visível do risco que correm. E a escolha não pode ser ficar à
espera desse sinal, porque ele já pode ser o fim.”13
Bostrom é uma pessoa incomum, e desperta um fascínio profundo na indústria da tecnologia. Um perfil dele publicado na revista New Yorker em 2016 o retrata como um homem que vê mais longe que as outras pessoas, e por isso nem sempre percebe o que está bem à sua frente. Dado o ritmo da mudança tecnológica, imaginar como a vida será daqui a vinte anos é incrivelmente difícil para a maioria de nós. Bostrom acredita que tem a obrigação de pensar na vida como ela deverá ser dentro de 1 milhão de anos. E também cogita evitar a morte. Como um dos seus amigos declarou: “O interesse dele pela ciência é basicamente derivado do seu desejo
compreensível de viver para sempre”.14
O título do artigo da New Yorker é “The Doomsday Invention” [A invenção do dia do Juízo Final], um eco dos exercícios de conscientização do apocalipse que a revista empreendeu em meados do século XX. Mas o tom é completamente diferente. O perfil de Bostrom é elegante, irônico, e seu autor demonstra ter se divertido até certo ponto com a ambição intelectual de um homem “convencido de que sua obra pode tornar ínfima a importância moral de todo o resto”. Há algo de estranho no desembaraço com que Bostrom discute cenários aparentemente absurdos. Os defensores de Bostrom comparam suas previsões quanto ao potencial catastrófico da IA à Primavera silenciosa de Carson. Mas não é a impressão que ele dá, muito longe disso. Em “The Doomsday Invention”, a política nem é mencionada.
Voltemos então às armas nucleares. Aqui, permanece um enigma. Se esse risco para a existência significa o fim da democracia, o que aconteceu depois de Hiroshima?
Durante as quatro décadas de duração da Guerra Fria, quando o mundo precisava conviver com a ameaça diária de destruição, a democracia parecia florescer. Foi o período do grande progresso democrático: a democracia se difundiu, se estabilizou e prosperou. Uma era que culminou com a afirmação de Fukuyama de que tínhamos chegado ao fim da história com o predomínio da democracia liberal. Mesmo que não acreditemos mais nisso, é claro que a democracia moderna teve seus melhores anos na mesma época em que o Estado nuclear se encontrava em ascensão. Se as armas nucleares são fatais para a democracia, como a democracia conseguiu conviver tão bem com elas?
Parte da resposta é: a forma de pensar que confunde o que desejamos com a realidade, o wishful thinking. O tipo de democracia que floresceu ao longo da Guerra Fria não operava no nível das escolhas decisivas para a nossa existência. Limitava-se a questões mais comezinhas: assistência social, empregos, educação. O Estado nuclear, arcando com o peso do destino final do mundo, dava ao Estado democrático espaço para respirar. Ainda assim, essa separação não era total. A bomba ainda se infiltrava nas discussões democráticas. Os vibrantes movimentos antinucleares do início das décadas de 1960 e 1980 deram mostras do seu poder de mobilizar inúmeros cidadãos conscientes. O desarmamento chegou a ser uma das questões das disputas eleitorais, tanto quanto a ameaça comunista. Os eleitores não eram totalmente indiferentes aos riscos que corriam.
A democracia prosperou nessas condições porque as questões ligadas à nossa existência puderam ser reduzidas ao nível da política mais imediata. No momento das eleições, a questão em jogo não era o destino do mundo. E nunca é. O que conta é o que as pessoas acham dos políticos que tomam decisões em seu nome, tanto as maiores quanto as menores. É sempre esta a questão básica da democracia representativa: o que pensamos sobre essas pessoas que decidem por nós? O que está em jogo nem sempre importa muito. Pode ser tanto o apocalipse nuclear quanto o preço do pão.
Em outubro de 1962, entre a publicação de “Primavera silenciosa” e “Eichmann em Jerusalém”, o mundo chegou o mais perto que jamais esteve de uma calamidade nuclear. Durante os treze dias da Crise dos Mísseis em Cuba, as duas superpotências nucleares pareciam dispostas a desencadear o inimaginável. À medida que se aproximavam de um clímax, e navios de combate russos e estadunidenses avançavam numa aparente rota de colisão, o destino da civilização humana estava em jogo. No último instante, Kennedy e Khruschóv encontraram um meio de recuar da beira do abismo, por uma combinação de habilidade e sorte. Dez dias mais tarde, os eleitores dos Estados Unidos tiveram a oportunidade de dar um veredito sobre sua incrível boa sorte nas eleições de meio de mandato para o Congresso. E como recompensaram o presidente? Os democratas de Kennedy perderam cadeiras tanto na Câmara quanto no Senado. A questão que mais incomodava os eleitores nos distritos onde o presidente foi castigado pelas urnas: o preço dos cereais.
Quando as pessoas se frustram com um grupo ou outro de políticos, recorrem às ferramentas que têm à mão. A política nuclear, assim como a política ecológica, pode ser um veículo para lembrar os políticos de que temos uma opinião própria, o que não significa que a democracia seja capaz de dar conta das ameaças à nossa existência. Significa apenas que essas ameaças são às vezes uma boa maneira de atingir os políticos num ponto sensível. Hoje, quando boa parte do establishment político se empenha em levar a sério a ameaça da mudança climática, rejeitá-la é um modo que as pessoas fartas de tudo têm de se fazer ouvir. É sempre um erro imaginar que, numa disputa democrática, um dos lados se importa com o destino do planeta e o outro lado nem liga. Os dois lados se importam, e nenhum dos dois liga. Os dois se importam porque ninguém deseja o fim do mundo. Nenhum dos dois liga porque a democracia é assim mesmo: o que realmente importa para as pessoas é quem irá lhes dizer o que devem fazer.
Tampouco os especialistas gostam muito que lhes digam o que fazer. Sabendo que a política democrática corria o risco de infectar a estratégia nuclear de irracionalidade, tentou-se, durante a Guerra Fria, abrir um espaço à parte para a tomada de decisões que pudessem pôr em risco a nossa existência. A especialidade da economia conhecida como “teoria da escolha racional” foi aplicada às questões ligadas à dissuasão nuclear. A finalidade era garantir a adoção da melhor estratégia em todas as ocasiões. Algo tão sério quanto um conflito nuclear deveria ser imune à volubilidade das decisões humanas em relação a quem decide o quê. A melhor maneira de chegar a esse ponto seria tratar a dissuasão nuclear como uma espécie de jogo regido por regras à parte. É essa a abordagem satirizada pelo filme Dr. Fantástico: a pretexto de salvar o mundo, devemos estar preparados para destruí-lo várias vezes, se isso for ditado pelas regras da estratégia nuclear. É a Destruição Mútua Assegurada: MAD. Mas faz sentido, em seus próprios termos.
Ainda assim, a teoria dos jogos e a democracia não têm como se manter totalmente separadas. Elas se interpenetram. Em parte porque a democracia se revelou útil no caso de certos jogos. Uma das maneiras de encarar a dissuasão nuclear é pensar em uma daquelas disputas em que dois motoristas aceleram na direção um do outro para ver qual dos dois desvia primeiro. Nesse caso, a melhor estratégia é aparentar irracionalidade, para que o adversário seja o primeiro a desviar. Se dois carros correm diretamente um para o outro, é provável que o motorista do carro que desvia acredite que o outro é louco a ponto de não desviar nunca. Se os presidentes dos Estados Unidos não tinham liberdade total de entregar a estratégia nuclear aos especialistas, por respeito à volúvel opinião pública democrática, isso podia ser uma vantagem estratégica. Faria os russos pensar duas vezes. Do ponto de vista da teoria dos jogos, a tomada de decisões numa democracia é muitas vezes idiota. Mas pode ser uma idiotice útil.
Ao mesmo tempo, os estudiosos da teoria dos jogos tinham ambições políticas próprias. Depois de transformar a guerra nuclear num nicho à parte para os jogos dos especialistas técnicos, por que parar por aí? Se a democracia se comporta como um idiota, deveríamos impor regras mais estritas a outras áreas da vida política. O Estado de bem-estar social, o sistema educacional e o próprio sistema democrático pareciam prontos para a injeção de um pensamento novo, frio, analítico e desprovido de sentimentalismo. Se cada pessoa fosse tratada como um agente racional em busca das maiores vantagens possíveis para si própria, boa parte da vida poderia ser poupada da confusão da democracia.
Em consequência, o pensamento que tinha encontrado uma posição segura no Estado nuclear começou a se espalhar. A partir do final da década de 1970, a política democrática se viu infestada de modelos advindos da teoria dos jogos dizendo como a economia deveria funcionar. A desordem reinante na vida política foi suplantada pela aparente limpeza de uma concorrência perfeita e de mercados eficientes, que se mostravam notavelmente eficazes enquanto a desordem da democracia pudesse ser mantida sob controle. Sua ascendência coincidiu com o período em que muitos concluíram não só que a história tinha chegado ao fim como a alternância de crises e surtos de prosperidade também se convertera em coisa do passado. Modelos de como o mundo deveria funcionar na teoria passaram a ganhar preferência em relação a modelos de como ele funciona na prática. Depois de algum tempo, a história atualizou esses modelos. Após o crash financeiro de 2008, a desordem da democracia voltou, ainda mais acentuada. E ainda produz seus efeitos nos dias de hoje.
Se o problema da democracia é que ela pode transformar um impasse nuclear na política mais comezinha, o problema da teoria dos jogos é que ela pode transformar a política mais comezinha num impasse nuclear. Para ela, as opções enfrentadas pelos indivíduos podem ser modeladas em termos definitivos para a existência: eu ganho, você perde e o contexto é irrelevante. A simplicidade é absurda. Mas a democracia não é simples. Tratá-la como se fosse não serve para domesticá-la. Só serve para aumentar a incerteza.
A lição da Guerra Fria e de suas consequências é que a democracia pode coexistir com o risco para a nossa existência, mas não em termos que façam sentido para qualquer um dos lados. Imaginar o fim do mundo vai além da capacidade da democracia, mas não basta para acabar com ela. A democracia persiste, na companhia infeliz de um parceiro que, na verdade, ela não pode tolerar.
Não estamos mais no mundo do dr. Strangelove. Fiquei algum tempo na companhia de pessoas que passam seus dias preocupadas com os riscos para a nossa existência. Os pesquisadores que estudam esse futuro dos robôs inteligentes, dos supervírus e da destruição planetária são pessoas de modos gentis e ótimas intenções. Não são hostis à democracia e, quando a ocasião pede, são capazes de pagar o devido tributo às suas virtudes. Mas a verdade é que não se interessam pela política, que lhes parece uma forma de desviar nossa atenção da questão fundamental do século XXI: saber se a raça humana conseguirá sobreviver.
O que tira o sono de muitas dessas pessoas é o pesadelo das máquinas inteligentes fora de controle. É a versão extrema da banalidade do mal: robôs indiferentes destruindo tudo com que se deparam. Mas não era essa a banalidade do mal de que falava Arendt. Esta não tem dimensão política. Não há modo de despertar essas máquinas, fazê-las sair do seu transe. Não passam de máquinas. O problema é técnico, não político. Basta encontrar o interruptor e desligá-las.
Tentar impedir que a política atrapalhe o projeto de salvar o mundo é um impulso nobre. Mas é um erro. A democracia não pode ser confinada a um canto bem cuidado do jardim. Enquanto ela sobreviver, não há como evitar que se espalhe para além desses limites. As democracias não reagem bem ao confinamento. Isso causa nas pessoas a sensação de que estão sendo desconsideradas. Não se conformam com especialistas bem-intencionados tomando decisões importantes em seu nome. O que achamos da entrega do comando a essas pessoas? Em pouco tempo, estaremos entregues ao ressentimento que tivermos à mão.
Ao longo do século XX, muitas das piores coisas que poderiam acontecer com a democracia obtiveram dela a melhor resposta possível — guerras, crises financeiras e outros desastres fizeram as pessoas tomar consciência dos riscos que corriam. Por outro lado, à medida que os riscos para a nossa existência começaram a sobrepujar os outros tipos de ameaça, a democracia se enfraqueceu. O risco para a nossa existência suscita o que a democracia tem de pior. O poder popular e a especialização técnica tendem a se afastar, sem chegar a romper de todo. Nenhum dos dois lados desiste de trazer o outro de volta aos trilhos. Coexistem numa relação desconfortável de semisseparação. Enquanto o pior não acontece, esse casamento gélido pode perdurar por muitos anos.
Existe outro medo que assombra a imaginação política do século XXI. É o medo da interconexão. Temos a incômoda sensação de que nosso mundo se tornou vulnerável ao colapso porque tudo está ligado a todo o resto. Se uma única coisa falhar, tudo pode vir abaixo. Os sistemas globais de finanças, energia, comunicações, saúde e transporte estão ligados de maneiras que ninguém controla e ninguém entende por completo. Nessa escala, a complexidade é frágil, porque os choques podem se transmitir pelo sistema antes que alguém tenha tempo de reagir. Uma pandemia pode se espalhar por todo o planeta em poucas horas graças ao imenso volume de viagens aéreas. Uma crise localizada, num dos cantos do sistema financeiro internacional, pode desencadear efeitos desastrosos em toda parte. Uma falha no suprimento de energia elétrica pode resultar num apagão generalizado.
O que torna as redes assustadoras é a ideia de que podem entrar em colapso sem aviso prévio. E nem precisa haver intervenção humana intencional. As redes podem simplesmente sair do ar. Como não existe um ponto de controle único — um interruptor para desligar tudo —, qualquer parte de uma rede pode se revelar seu elo mais fraco. A força das redes é o que as torna perigosas: não há nada nem ninguém encarregado do próximo acontecimento.
A ficção contemporânea é o espaço em que esse medo adquire vida. Em A estrada, de 2006, de Cormac McCarthy, o apocalipse é provocado por um acontecimento que não é explicado, e ocorre em algum ponto do horizonte distante. Tudo o que ficamos sabendo é que houve “um longo rasgo de luz, e
depois uma série de pancadas surdas”.15 É tudo que precisamos saber. Alguma coisa acontece, e as reverberações não deixam nada intacto. E essa coisa pode ser qualquer uma. Em The Bone Clocks [Os relógios de osso], de David Mitchell, lançado em 2014, a mudança climática precipitou a queda de todos os aviões. As comunidades ficaram desligadas umas das outras, porque a rede de comunicações também entra em colapso. Não nos dizem como nem por quê. Não faz diferença. Reconhecemos que uma civilização como a nossa pode vir abaixo sem que ninguém entenda plenamente qual foi a causa.
Somos vulneráveis a forças que ultrapassam nosso poder de controle. Tudo depende do sistema — da rede — da máquina. Ele precisa continuar
funcionando. Até o dia em que para.16
Esse medo da interconexão já existe há um bom tempo. Em seu conto “A máquina para”, escrito mais de cem anos atrás, E. M. Forster imagina uma
distopia que poderia caber no século 17 XXI . Descreve a existência estéril de indivíduos isolados num mundo em rede do futuro, que chega ao fim quando o mecanismo de que todos dependem deixa de funcionar. Essas pessoas só podem se comunicar umas com as outras através de uma forma de mensagem de texto. Têm pouco a compartilhar além das suas fantasias. Seus prazeres respondem ao aperto de um botão. Não têm experiências próprias de verdade. O colapso da máquina que rege suas vidas é uma morte e uma libertação.
Forster acreditava que os seres humanos deviam “apenas se conectar” e não se interconectar. O perigo terrível de tudo estar ligado a todo o resto é a perda de qualquer senso de perspectiva. Não temos meios de decidir o que realmente importa, porque nada é irrelevante e nada tem importância concreta. A história só pode acabar de um modo: com o colapso de todo o sistema. Estamos à mercê de coisas que nos ligam uns aos outros porque não temos meios de lidar com o mundo sem a mediação delas. Libertar-se é quebrar a corrente. A partir daí, tudo se desfaz.
A versão atual desse pesadelo não envolve apenas as redes de informação. Somos ligados por um ecossistema compartilhado, redes complexas de fornecimento de energia, mercados financeiros interligados que operam mais depressa do que o pensamento, sistemas de transporte que funcionam o tempo todo no limite de sua capacidade. Sabemos que um contratempo bastaria para produzir um congestionamento e um colapso. Todos já tivemos uma experiência assim em algum momento da vida: ficar à espera num aeroporto onde nada funciona; ou num hospital lotado além de sua capacidade; ou diante da tela apagada de um computador que parou de funcionar. Não sabemos o que um congestionamento ou um colapso total representaria se afetasse tudo de uma vez. Mas podemos imaginar.
Nessas histórias de terror, há pouco ou nenhum espaço para a política. O que motiva os nossos medos é a sensação de impotência perante a complexidade. É por isso que tantos autores de distopias contemporâneas nem perdem tempo em explicar como, daqui, chegamos àquele ponto. Simplesmente aconteceu. As questões básicas que animam a democracia — o que queremos fazer? quem queremos que faça? aonde queremos ir depois daqui? — tornam-se irrelevantes quando nos vemos à espera do dia em que a máquina vai parar.
As representações dos seres humanos entregues a forças que eles não têm mais o poder de controlar muitas vezes os mostram numa espécie de transe. Uma existência mecânica, hiperconectada, é estéril. E também pode ter um efeito sedativo. Parecemos estar em plena ação, mas não temos muita ideia do que estamos fazendo. Só nos movemos a esmo.
A ideia de que podemos estar caminhando como sonâmbulos rumo ao desastre é uma lição que historiadores extraem dos horrores do século XX. O livro Os sonâmbulos: Como eclodiu a Primeira Guerra Mundial, publicado em 2013 por Christopher Clark, é o relato contemporâneo definitivo da grande calamidade involuntária da era moderna: a irrupção da Primeira
Guerra Mundial.18 Era uma guerra que ninguém queria. Ninguém sabia como acabar com ela. Nada foi predeterminado. Escolhas fortuitas, motivadas por circunstâncias particulares, levaram alguns indivíduos a cometer o que, em retrospecto, só pode ser visto como uma série de erros catastróficos. Esses políticos não estavam simplesmente em algum tipo de transe hipnótico, cumprindo o que o sistema esperava deles. Deslocavam-se decididos em seu sono, aos trancos incontroláveis, cheios de vida e energia, e sem qualquer consciência do quadro geral. Caminhavam como sonâmbulos rumo ao desastre, à semelhança dos viciados em jogo, cegos para sua incapacidade de controlar seu destino.
Ecos dessa história de horror podem ser ouvidos na política contemporânea. Não há como fugir à sua sombra. Se os Estados Unidos e a Coreia do Norte entrarem em guerra, será porque seus atores foram incapazes de despertar para os riscos que corriam. A possibilidade de algum erro catastrófico que só fique claro a posteriori está sempre presente.
Ainda assim, o medo da interconexão também pode produzir o efeito contrário. Longe de adormecidos, muitos políticos da atualidade vivem em alerta permanente contra o perigo de cometer um erro sem volta. Na verdade, mostram-se hiperatentos aos riscos que correm. Conscientes de que o maior perigo seria perturbar o bom funcionamento da máquina, operam com o máximo de cuidado, avançando pé ante pé com extrema cautela. Não são sonâmbulos, mas funâmbulos: equilibristas da corda bamba.
Se estivéssemos simplesmente adormecidos, a solução para os nossos problemas seria óbvia. Dizem que nunca se deve acordar um sonâmbulo, mas isso não se aplica quando ele se aproxima de uma calamidade. Claro que precisa ser acordado! O risco das consequências de dar um susto num sonâmbulo não se compara ao que pode ocorrer se ele continuar não sabendo onde pisa. Um susto forte pode ser exatamente o necessário. Mas um susto forte quase nunca é uma boa ideia para alguém numa corda bamba. O necessário, no caso, é calma: nada de movimentos bruscos ou passos em falso. Quem caminha na corda bamba dá um passo de cada vez.
Tanto caminhar como um sonâmbulo quanto andar na corda bamba são comportamentos comuns na democracia contemporânea. E é isso que dá à nossa política sua peculiar qualidade ambígua de atenção e descuido.
No período que antecedeu ao crash financeiro de 2008, políticos eleitos e dirigentes dos bancos centrais pareciam dormir ao volante. Os riscos puderam se acumular no sistema porque ninguém pensava no quadro mais amplo com a devida intensidade. Muitos dos principais envolvidos atuavam como jogadores de olhos vidrados, incapazes de enxergar além da aposta seguinte. Mas isso acabou. Depois do crash, o comportamento dos encarregados de comandar o sistema passou a lembrar mais um equilibrista na corda bamba. O programa em que embarcaram, de flexibilização quantitativa (quantitative easing, em inglês) e suprimento de dinheiro barato, é muito arriscado — ninguém sabe quais podem ser suas consequências a longo prazo. Não tem precedente histórico. Mas nem os banqueiros nem os políticos ignoram esses riscos. Sabem que é uma política perigosa. E é por isso que se mostram tão sensíveis aos perigos de um passo em falso. Avançam com cuidado, os olhos fixos em frente, evitando olhar para baixo.
A solução que Varoufakis tentou encontrar para a crise grega submergiu na tensão entre esses dois estados de espírito. Sua ideia foi despertar a Europa para a ameaça iminente. Mas as forças que enfrentava — a UE, o BCE, o governo alemão — não estavam adormecidas ao volante. Plenamente despertas, entenderam a política ruidosa e potencialmente destrutiva que ele propunha como um perigo para o delicado equilíbrio do sistema, que tentavam preservar.
Cada lado dessa disputa é visto pelo antagonista como alguém em transe. Para Varoufakis, a troika era um trio de sonâmbulos, incapazes de enxergar além da esquina seguinte, onde espreitava o desastre. Para a troika, Varoufakis era o jogador obcecado, incapaz de perceber a verdadeira natureza das apostas. Como a situação era política, os dois lados eram impelidos por contingências que se esforçavam por controlar. Ainda assim, qualquer político que se comporte como num transe alimenta teorias da conspiração. A criatura está dormindo, mas se move com certa intenção. Só pode haver alguém controlando os cordões.
São esses os perigos da democracia de espectadores. Nela, o público precisa combater seus próprios impulsos conflitantes: agir além da conta ou menos do que devia. Quando os políticos parecem adormecidos, é tentador gritar para lhes dar um susto e ver o que acontece. Mas se os políticos estão despertos e com medo de olhar para baixo, ouvir o público fazer barulho não terá o efeito desejado. Um funâmbulo não depende do som da plateia. Ao contrário, é treinado para seguir no arame e ignorar o barulho. Seu estado, semelhante a um transe, só faz se aprofundar enquanto os espectadores se impacientam. Podem parecer paralisados, receosos tanto de avançar quanto de recuar. O que acontece então? Os espectadores podem gritar mais alto. Ou podem desistir e ir embora.
Andar no arame pode ser um ato de criação. O documentário O equilibrista, de 2008, reconstitui a caminhada de Philippe Petit por um cabo esticado entre as duas torres do World Trade Center no verão de 1974. Petit batizou seu número de “le Coup” (“o golpe”) — foi organizado em segredo e executado com um pequeno grupo de colaboradores que o ajudaram a invadir os edifícios no meio da noite e montar o equipamento de que precisava. Petit caminhou de torre a torre a mais de quatrocentos metros de altura, cobrindo oito vezes a distância entre elas. Uma plateia embasbacada se reuniu abaixo dele, e Petit contaria mais tarde que escutava cada um de seus murmúrios e aplausos. Hoje, é possível admirar como a façanha de Petit é assombrosa. Parte desse impacto se deve à destruição das torres gêmeas. No entanto, também vem da espontaneidade do ato em si. O coup de Petit não foi cauteloso nem descuidado. Foi uma autêntica manifestação expressiva.
A democracia contemporânea é assombrada pela sensação do que perdeu. Parte dessa perda é a da capacidade de se expressar de maneira autêntica. Não andamos no arame. São outros que andam por nós, servidores públicos motivados pela aspiração ansiosa de não cair. O barulho dos espectadores não é parte integral do espetáculo. É mais um risco a ser enfrentado na tentativa de se manter equilibrado e caminhando em frente. Ninguém chega ao outro lado e então se vira para voltar só porque quer. A finalidade do número é simplesmente se manter no ar.
A política democrática ainda tem seu lado destemido. Elegemos políticos que prometem mudar tudo porque o espetáculo passou a significar pouco para nós: reduziu-se a um desempenho estéril e artificial. Trump não é um alegre artista do arame. É um jogador sonâmbulo, e não se incomoda de assistir à queda dos outros. Esperar que ele ande no arame é acreditar numa de duas coisas: ou estenderam uma rede de segurança, ou o número todo é de mentira.
Ao mesmo tempo, continuamos a consumir distopias, que também têm seu poder sedativo. É impossível ler A estrada e não ser profundamente tocado. A história da luta de um pai e um filho sem nome por uma sobrevivência mínima numa sociedade devastada fala da fragilidade da vida, da força do espírito humano e dos horrores que o futuro ainda pode nos reservar. Muitos leitores contam ter sido motivados a reagir diante desse livro impressionante. Pais se levantaram no meio da noite para acordar seus filhos e lhes dizer o quanto os amavam. Depois disso, dormiam melhor. Imaginar o pior tem um estranho poder alentador. Mas não tem força política. A estrada não nos mobiliza para a ação política. É uma parábola estranhamente reconfortante para uma sociedade de sonâmbulos e funâmbulos.