Como a Democracia Chega ao Fim
Epílogo - 20 de janeiro de 2053
Epílogo
20 de janeiro de 2053
Existe alguma coisa que podemos saber com segurança quanto ao que irá acontecer na segunda metade do século XXI? O horizonte de vinte anos da transformação tecnológica, por mais que venha sendo adiado, faz com que tudo além desse período nos pareça extremamente nebuloso. É quase impossível imaginar como haverá de ser a vida cotidiana se a linha entre a inteligência humana e a inteligência das máquinas for atravessada; nem importa o que venha a ocorrer com a política. Mesmo que não atravessemos essa linha, o ritmo da mudança não deve perder a velocidade. Fazer previsões é uma atividade arriscada mesmo no melhor dos momentos. Na era digital, só um idiota se arriscaria.
Yuval Noah Harari afirma que a revolução digital assinala o verdadeiro fim da história, porque equivale à extinção da iniciativa humana como determinante primária da mudança social. Não temos como imaginar o que irá ocorrer no resto do presente século porque desconfiamos que não dependerá de nós. As máquinas é que lhe darão forma, o que tornará muitas das categorias básicas da existência humana obsoletas. Harari acredita que a individualidade, a consciência, as decisões morais e a escolha democrática se transformarão todas em meros resíduos do passado histórico. E é isso que torna impossível, para as pessoas que somos hoje, conhecer o futuro. O progresso será medido pelo uso eficiente da informação. A experiência humana será reduzida a uma série de elementos isolados num conjunto de
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Pode ser. Apesar disso, para chegarmos a essa distopia, ainda precisamos ir daqui até lá. E permanece a dúvida quanto ao que acontecerá nesse trajeto. Nossos piores pesadelos sempre podem ser bloqueados pelos obstáculos que os resíduos da história lhes opõem. Poucos fenômenos sociais têm um fim abrupto. A maioria ainda atravessa uma prolongada meia vida. A democracia não é uma exceção.
Farei a seguinte previsão: no dia 20 de janeiro de 2053, haverá uma cerimônia em Washington para celebrar a posse de um presidente dos Estados Unidos devidamente eleito. Poucas outras datas do calendário do futuro, se é que se pode dizer o mesmo de algumas delas, nos permitem um grau equivalente de certeza. Os estadunidenses deram posse a um presidente no auge de uma terrível guerra civil, em pleno decurso de duas guerras mundiais e nas profundezas de uma calamitosa depressão econômica. A revolução digital, por si só, não será suficiente para tirar esse evento dos trilhos. O mundo precisaria estar próximo do fim.
A democracia dos Estados Unidos terá sobrevivido à presidência de Donald Trump. À exceção de um desastre dos desastres, nenhum golpe terá ocorrido, nem o império da lei terá sofrido um colapso. A política democrática, ainda que puxando de uma perna, terá seguido em frente. A história terá continuado. O futuro da política é impossível de conhecer, mas daqui a uma geração ela ainda será reconhecível como uma relíquia do passado.
Segunda-feira, 20 de janeiro de 2053, foi mais um belo dia em Washington. O frio foi moderado, e, no palanque, eram poucos os que precisavam recorrer a sobretudos e cachecóis. Janeiro era agora reconhecido como o melhor mês para visitar a cidade — um breve período de trégua antes da chegada das chuvas.
O novo presidente irradiava confiança e tranquilidade. Foi eleito com apenas 28% dos votos populares, o menor total de um candidato vitorioso em toda a história. Ainda assim, a vitória foi confortável. Nenhum de seus seis principais rivais chegou a dez pontos percentuais de distância. O Colégio Eleitoral reformado, que lhe deu uma bonificação pela vitória no voto popular, ajudou. Mas ele conquistou um número suficiente dos estados não reformados, onde o vencedor ganha com todos os votos eleitorais, para fazê-lo cruzar a linha de chegada com uma proporção tão reduzida do total dos votos.
O presidente Li, como a essa altura já era tradicional, venceu encabeçando seu próprio movimento pessoal contra os partidos políticos estabelecidos. Sua mensagem era simples: estava determinado a enfrentar o poder das gigantescas empresas de tecnologia. Tanto os democratas quanto os republicanos tinham escalado dois candidatos cada, tendo sido mais uma vez incapazes de concordar quanto ao processo que adotariam para escolher um nome único, aceitável por todo o partido. Os dois partidos pareciam definitivamente acabados, embora isso viesse sendo dito há muitos anos. Li também havia derrotado a magnata da energia solar que bancara sua própria campanha e o artista popular, sustentado por um crowdfunding, que acabou chegando num distante segundo lugar. O último dos debates da campanha, que tinha acabado num verdadeiro vale-tudo, não havia feito muito pela campanha de ninguém.
Todos concordavam que o presidencialismo dos Estados Unidos tinha virado um tumulto. A prolongada campanha pela reforma do sistema eleitoral, com a finalidade de adotar dois turnos de votação — nos moldes da extinta Quinta República da França —, não dera em nada. Muitos eleitores se mostravam saudosos do tempo em que as eleições presidenciais propunham sempre uma escolha binária; ainda assim, tinha sido impossível chegar a um acordo para mudar a Constituição. Precisavam se virar com o sistema que tinha sido produzido.
Alguns estados voltaram a adotar cédulas de papel, depois do escândalo das “eleições eletrônicas” de oito anos antes, que levaram dois anos para ser resolvidas nos tribunais. Ao fim desse período, decidiu-se permitir que o presidente Chan-Zuckerberg continuasse no cargo, com base num acordo que restaurava os direitos de cada estado a formas próprias de apuração eleitoral. A Califórnia decidira continuar usando o sistema de reconhecimento facial que estava na origem de todo o problema. Em Minnesota, os eleitores agora precisavam comparecer pessoalmente às suas seções, comprovando sua identidade com amostras de DNA.
A chegada do presidente Li ao cargo tinha sido acossada por rumores que o davam por um fantoche do governo chinês. Mas essas acusações não lhe causaram muito prejuízo. Fazia tempo que a maioria dos eleitores aprendera a desconsiderar histórias desse tipo. De qualquer maneira, para muitos deles, ter um presidente ligado à China era uma vantagem, dada a quantidade de conexões chinesas que todos também tinham. Li também sobrevivera a um escândalo de proporções modestas quando se soube que, na juventude, tinha trabalhado por algum tempo no Facebook, antes de abrir seu próprio negócio. Sua explicação tinha sido que, para domar o monstro, precisava antes entender como ele funcionava por dentro. O que não era verdade. Li tinha sido apenas um contador a mais na divisão de finanças da empresa. Não tivera a oportunidade de formar uma ideia geral de como a empresa funcionava.
Li tinha estimulado quem lhe dava apoio a se desconectar da internet nas semanas anteriores à eleição presidencial, para que o resultado não fosse conhecido antes da hora. Sua estratégia tinha dado certo, e milhões de pessoas atenderam sua recomendação. “Vote, não compartilhe!” se transformou num slogan decisivo para a campanha. Mas o resultado da eleição não foi surpresa para ninguém — a queda dramática da atividade na internet já tinha deixado claro que Li iria vencer, além de revelar exatamente quem planejava votar nele. Quando voltaram a se conectar, no dia seguinte à eleição, seus apoiadores foram recebidos com mensagens congratulatórias de seus servidores.
A viga mestra da campanha de Li tinha sido sua defesa do dólar muito enfraquecido, que ele chamava de “moeda do povo”. Prometia retomar a impressão de cédulas de papel, para serem gastas localmente em território estadunidense. Foi uma ideia bem recebida pelas vítimas da grande deflação das criptomoedas, entre eles profissionais endividados pelo pagamento dos estudos que muito antes já haviam desistido de encontrar algum emprego permanente.
A coalizão de Li era composta pelos “fica-em-casa”, sustentados pela escassa renda universal que recebiam, e os “viajantes”, que se deslocavam de estado em estado à procura de trabalho ocasional sem vínculo. Teve menos apoio entre os cidadãos com mais de oitenta anos, preocupados com a conversão de sua aposentadoria em dólares. Os mais idosos continuavam aferrados aos seus bitcoins. Mas não precisavam ter medo — durante a transição, o presidente do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, já tinha explicado ao presidente eleito que seria impossível produzir um papel-moeda à prova de falsificações. Li tinha sido obrigado a abandonar a ideia. E ainda estava à procura de outra.
Era pouca a expectativa de que Li conseguisse fazer muita coisa, tendo em vista o Congresso eleito junto com ele. Os partidos divididos, e o número cada vez maior de candidatos independentes que tinham conquistado seus mandatos, haviam fraturado ainda mais o panorama político. Os tão sofisticados freios e contrapesos da Constituição dos Estados Unidos, ainda intactos, tornavam mais fácil para o Legislativo barrar do que promover a criação de novas leis, o que era saudado pelos libertários. Os muitos outros que deploravam a situação não viam caminho possível para contornar o problema básico — a Constituição, que criava tantas oportunidades de veto, tinha vetado o processo de sua própria reforma. No passado, uma emergência nacional poderia ter removido algumas dessas barreiras. A essa altura, porém, o panorama político estava desagregado demais até para isso.
Nem todos os rivais de Li compareceram à sua posse. Três preferiram não ir, alegando que aquela eleição vencida por tão poucos votos era uma farsa sem sentido. Fez pouca diferença. A ocasião foi prestigiada por uma multidão entusiasmada, e os protestos foram reduzidos a um mínimo. Os comandantes militares estavam presentes, bem como vários líderes do Congresso e juízes da Suprema Corte. Tudo correu do jeito certo. A cerimônia chegou ao fim sem qualquer sobressalto.
Li não estava de posse dos códigos nucleares, mas não tinham sido entregues a nenhum presidente nos últimos trinta anos, desde que o Congresso atribuíra a decisão final sobre o uso do arsenal nuclear do país a uma comissão tripartite, composta pelo comandante do Estado-Maior, o presidente da Câmara e um nome indicado pela Casa Branca, por convenção o chefe de gabinete do presidente. Esses três indivíduos permaneciam conectados o tempo todo por uma rede particular, e nenhuma decisão podia ser tomada sem a concordância de todos. Logo ficaram conhecidos como “os Três Sábios”, ou “os Três Reis Magos”, não sem alguma ironia, tendo em vista quantas vezes os Estados Unidos se viram à beira de um conflito nuclear desde então. Agora, pela primeira vez na história, os três seriam mulheres.
O discurso de posse de Li foi curto e animado. O palco estava decorado com bandeiras de verdade, não as virtuais que drapejavam nas posses anteriores. Sua eleição, disse ele, tinha sido o momento em que o poder começava a ser transferido de volta dos donos das redes sociais globais para os representantes do povo congregados em Washington. As decisões que pudessem afetar todos os estadunidenses seriam tomadas tendo em vista o interesse de todos os estadunidenses. Os Estados Unidos da América, reiterou, ainda eram, antes e acima de tudo, uma democracia. E haveriam de ser para sempre uma democracia.
Ao deixar o palanque, alguém ouviu seu predecessor comentar com seu vizinho de assento: “Ele protesta demais”.