Como a Democracia Chega ao Fim
3. Revolução tecnológica!
3.
Revolução tecnológica!
Todo mundo ri quando Al Gore afirma ter inventado a internet. Com justiça. Não foi Gore. Foi Mahatma Gandhi.
O conto “A máquina para”, de E. M. Forster, foi publicado na Oxford and Cambridge Review em novembro de 1909. Gandhi, na época um jovem advogado e ativista em defesa dos direitos civis instalado na África do Sul, parece ter lido o texto em sua viagem de volta para casa desde Londres naquele mesmo mês (a Review devia figurar na biblioteca do navio, e todos a bordo deviam ter tempo de sobra, inclusive Gandhi). E ele ficou claramente afetado pelo texto. Gandhi passou a maior parte da viagem escrevendo Hind Swaraj, seu manifesto em favor da independência indiana. A estranha visão de Forster sobre nosso futuro interconectado ajudou a informar a ideia de Gandhi sobre qual seria o futuro da civilização ocidental e sobre os motivos pelos quais a Índia devia se libertar dele.
Em Hind Swaraj, Gandhi traça um retrato incrivelmente profético da era vindoura, dominada pela Amazon, pelo Uber e pelo HelloFresh. Inspirado por Forster, lamenta o ponto a que a tecnologia estava nos levando:
Os homens não precisarão mais usar suas mãos e seus pés. Apertarão um
botão e suas roupas lhes serão entregues. Apertarão um outro e receberão
seu jornal. Um terceiro, e um automóvel estará à sua espera. Terão uma
variedade de pratos à sua escolha. Tudo será feito por máquinas.1
Gandhi via a dependência crescente desses prazeres e confortos artificiais como uma das marcas da falência da nossa civilização. Ainda assim, escreve ele em Hind Swaraj, “isso é considerado o suprassumo da vida civilizada”.
Gandhi atribui boa parte da culpa do que deu errado à moderna democracia representativa. Um sistema político que depende de governantes eleitos para tomar decisões em nosso nome jamais conseguiria nos resgatar dessa existência artificial. Como poderia? A democracia representativa era totalmente artificial. Tornara-se escrava das máquinas. Operava através da máquina partidária, da máquina burocrática, da máquina do dinheiro. Os cidadãos se converteram em consumidores passivos do seu próprio destino político. Apertamos um botão e esperamos que o governo responda. Não admira que fiquemos decepcionados. Em vez de uma resposta, só recebemos promessas baratas e mentiras deslavadas.
Para Gandhi, o ideal era o retorno a algo mais parecido com a política cara a cara do mundo antigo, quando a interação humana independia da mediação de máquinas. Para ele, isso poderia acontecer numa Índia independente, se a sua democracia se organizasse em torno das comunidades dos vilarejos e dos tradicionais valores indianos de “autogoverno” (“Swaraj ”). A Índia conquistou a independência em 1947, mas essa versão da democracia segundo Gandhi nunca chegaria a existir. Hoje, embora ninguém questione a condição icônica de Gandhi como pai da nação, a democracia indiana é tão artificial quanto em toda parte. A máquina partidária, a máquina burocrática e a máquina do dinheiro continuam a imperar. A visão que Gandhi teve um século atrás, de uma sociedade governada por pessoas que apertam botões em nome de pessoas que apertam botões, acabou por se tornar real no lugar onde, esperava ele, seríamos resgatados dela. A vitória foi da máquina.
A maneira de fazer política preferida por Gandhi é exigente demais para a maioria dos cidadãos do século XXI. Ele queria acabar com nossa dependência da medicina moderna, dos advogados, dos meios mecânicos de transporte e das comunicações artificiais. Achava que os indivíduos deviam viajar só até onde suas pernas pudessem levá-los e se comunicar apenas até onde a voz alcançasse. Não temos como viver assim. Entretanto, reconhecemos instintivamente que Gandhi tinha razão quanto à situação a que a política chegou em nosso tempo. A democracia moderna é extremamente mecânica e profundamente artificial. Não proporciona uma alternativa aos sistemas complexos que supostamente se encarrega de regular. Ela copia seu comportamento, tornando-se ela própria cada vez mais complexa e artificial.
Existe sempre uma contrapartida ao medo do que pode acontecer caso a máquina pare. E Gandhi formula essa questão. O que acontece se a máquina não parar? Nesse caso, onde iremos parar? Gandhi foi um profeta improvável do futuro da tecnologia digital. Mesmo assim, mostrou-se mais competente na matéria do que muitos especialistas em tecnologia.
O que o historiador David Edgerton descreve como “o choque do antigo” se aplica tanto à tecnologia digital quanto a qualquer outro tipo de tecnologia
— a mudança raramente ocorre tão rapidamente quanto achamos.2 Ela ocorre num panorama no qual a maioria dos objetos ainda são os mesmos que conhecemos. O mundo prestes a anunciar o advento de automóveis que se dirigem sozinhos é o mesmo que também contém mais bicicletas do que nunca. Tendemos a exagerar a velocidade com que a transformação tecnológica se tornará evidente. E isso se aplica especialmente às pessoas com um algum interesse próprio em promover essa mudança. Querem que ela ocorra logo.
Ainda nos encontramos a alguma distância da prometida alvorada das máquinas com inteligência própria. Muitos pesquisadores de IA imaginam que a possibilidade de máquinas realmente inteligentes ainda se encontra uns vinte anos no futuro. E vêm dizendo a mesma coisa há pelo menos cinquenta anos. O advento da IA está sempre vinte anos no futuro. Assim como a democracia está destinada a chegar ao fim em algum momento, as máquinas inteligentes também acabarão surgindo, talvez até repentinamente. Mas ainda não chegamos lá. Estamos avançando depressa, mas não chegamos muito mais perto dos nossos sonhos mais fantásticos para o futuro. Os computadores são capazes de fazer coisas que eram inimagináveis vinte anos atrás, muito além do alcance da mente humana. Mas não são capazes de pensar como nós.
A espera de uma revolução de IA que nunca chega pode ser uma gigantesca atividade deslocada. Enquanto nos preocupamos com o advento de máquinas inteligentes, máquinas desprovidas de inteligência já respondem pela maior parte do trabalho. Os computadores podem não ter aprendido ainda a pensar por conta própria. Mas aprendemos a fazê-los pensar por nós.
A máquina não precisa ser inteligente para dar conta de tarefas que recaíam tradicionalmente no âmbito da inteligência humana. Basta que seres humanos transfiram esse trabalho para a máquina, depois de lhes ensinar o que fazer.
Máquinas desprovidas de inteligência própria, mas supereficientes, já fazem boa parte do trabalho nas democracias contemporâneas. Os partidos políticos contam com imensos bancos de dados automatizados para ajudar em suas campanhas. Cada vez mais, os governos utilizam imensos sistemas informatizados para administrar e franquear ao público cuidados de saúde e outros serviços. Essas máquinas não procuram nos subjugar. Não almejam nada para si mesmas — são incapazes desse nível de volição. Não são apenas nossas servidoras, mas nossas escravas. Nós nos servimos delas. Ainda assim, como os autores de obras sobre política vêm nos advertindo há mais de 2 mil anos, a escravidão também é ruim para os senhores de escravos, escravizados pela facilidade com que seus desejos são atendidos, o que os deixa à mercê dos seus caprichos.
O perigo das máquinas desprovidas de inteligência é que, à medida que se tornam mais úteis e potentes, convencem os inteligentes seres humanos a lhes confiar tarefas em excesso. A capacidade de aprendizado da máquina (machine learning) hoje faculta aos computadores minerar quantidades descomunais de dados à procura de conclusões a que nenhum humano teria como chegar. E captando as regras do jogo à medida que avançam. Não é um discernimento inteligente — falta às maquinas profundidade, percepção das nuances e ressonância emocional. Ainda assim, é a machine learning que permite a carros autodirigidos percorrer as ruas com mais segurança e firmeza que qualquer automóvel conduzido por um ser humano. É a machine learning que revela ao Google o que você quer encontrar antes que você mesmo saiba. Mesmo sem consciência do que estão fazendo, as máquinas conseguem navegar melhor do que nós mesmos pelo mundo que construímos.
Não é difícil imaginar uma versão distópica desse futuro. Ser capaz de empregar cavalos mecânicos que, embora incapazes de pensar, são muito potentes e sofisticados, é uma das coisas que nos torna gordos e preguiçosos, mental e quando não fisicamente. O carro nos guia; o Fitbit nos monitora; os polibots, robôs virtuais que espalham mensagens políticas nas redes, respondem por parte das nossas escolhas. Por que não confiar todas as decisões difíceis a máquinas que sejam capazes de processar por nós quantidades imensas de dados? Podemos agir assim por decisão consciente, desejando uma vida mais fácil; ou podemos fazê-lo inconscientemente, porque nossa dependência cada vez maior das máquinas nos tornou incapazes de saber quando parar. Todos conhecemos os sinais. Passamos horas enviando e respondendo e-mails insignificantes não em obediência aos nossos computadores, mas simplesmente porque nos falta a capacidade de quebrar o encanto. A única coisa que nos liberta é o surgimento de uma tecnologia ainda mais acessível e imediata. Aí nos viciamos nela. A conveniência sem custo é sua própria maldição.
Na versão política do pesadelo, nossa dependência dessa tecnologia nos deixa prontos para sermos explorados. Quem vai nos escravizar não serão os robôs assassinos. Bastam indivíduos inescrupulosos capazes de usar as máquinas em seu benefício. Em terra de dependentes da tecnologia, quem navega com esperteza é rei. E essa é a história de terror que hoje assombra a democracia ocidental, e voltarei a ela mais adiante, ainda neste capítulo. Seus sinais visíveis são as fake news e o microdirecionamento de mensagens aos eleitores, com conteúdo gerado por máquinas e construído de modo a apelar aos preconceitos de cada um. Se cair nas mãos erradas, o poder dos computadores de apertar nossos botões pode assinalar o fim da democracia.
Mas essa história não precisa ser distópica, e este capítulo não se limita ao pior que pode acontecer. As máquinas ainda são apenas máquinas. Existe gente má que pode fazer mau uso delas, mas as pessoas, em sua maioria, são indivíduos decentes. Mesmo que a vasta maioria dos cidadãos modernos não possa viver o ideal de vida ascética de Gandhi, isso não significa que eles tenham fracassado como seres humanos. Para essas pessoas — para nós —, a tecnologia pode contribuir para melhorar nossa experiência de estar no mundo. A conveniência e o conforto não são desprezíveis. Nem tentam tornar mais eficiente o funcionamento da democracia.
Na verdade, as máquinas muito potentes mas sem pensamento próprio não são realmente nossas escravas, porque não sofrem nas mãos dos seus senhores — nós. E não somos corrompidos por usá-las, como ocorre aos humanos quando usam seus semelhantes como meros objetos. Essas máquinas são de fato meros objetos. Podemos usá-las como quisermos.
Por que então não usá-las para aperfeiçoar nossa democracia em vez de destruí-la? Nossas instituições políticas atravessam dificuldades por não conseguirem achar soluções viáveis para problemas aparentemente inabordáveis. Tudo indica que a capacidade de aprendizado da máquina poderia ser usada em nosso benefício, em vez de nos prejudicar. Máquinas que não perdem o foco devido a reações emocionais podem ser exatamente do que precisamos. Nas democracias, o foco se perde com extrema facilidade. As pessoas sentem que as coisas devem ser dessa ou daquela maneira, independentemente do que lhes dizem. As máquinas, não. Seguem os fatos até onde eles as levarem.
As capacidades da nova tecnologia já contribuíram para melhorar o exercício de outras profissões. Certos computadores já são capazes de diagnosticar a doença de um paciente melhor que qualquer médico humano — porque a máquina tem acesso a um corpo muito maior de informações relevantes, o que não precisa desalojar médicas ou médicos de seus empregos. Pode tornar cada um melhor no exercício da medicina. A máquina soluciona o problema técnico; a médica ou médico humaniza a solução, usando sua inteligência e sua empatia para explicar ao paciente o que ele tem, frente a frente. Ainda falta muito para termos computadores capazes de empatia (embora alguns especialistas em IA possam dizer que isso está a apenas vinte anos no futuro). O mesmo poderia se aplicar à política. A máquina soluciona o problema; o representante político nos ajuda a entender o que a solução significa. Quem sabe assim a democracia funcione melhor.
Porém, para que isso possa ocorrer, outras coisas precisam acontecer primeiro. A política precisa recobrar certa medida de controle sobre essas máquinas, e sobre as pessoas que as controlam no momento. De outro modo, corremos o perigo de, em vez de usar máquinas para resolver nossos problemas, nos limitarmos ao tipo de problema que máquinas podem resolver. A tecnologia, por si só, não determina o nosso futuro. Mas pode determinar, se deixarmos.
Uma distopia é só um pesadelo, assim como uma utopia é um sonho bom — ambos são lugares que na verdade não existem. Um mundo povoado por máquinas imensamente poderosas e sem pensamento próprio não é um sonho. Já vivemos nele. Vivemos nele há um bom tempo. É o mundo moderno. A questão de como viver com essas máquinas sempre esteve no cerne da política moderna.
E Gandhi estava longe de ser o único a considerar a democracia ocidental dominada pela máquina política. Max Weber, o grande sociólogo alemão contemporâneo de Gandhi, pensava o mesmo. A diferença é que Weber reconhecia não haver muito que se pudesse fazer. Aceitava esse caráter da democracia moderna, que tendia a ser totalmente mecânica. Os partidos políticos eram “máquinas” — estruturas sem alma planejadas para resistir ao atrito diário do processo de conquista e manutenção do poder. A burocracia era uma “jaula de ferro”. À diferença de Gandhi, Weber não conseguia imaginar o funcionamento das nossas sociedades sem a presença dessas estruturas vastas e sem alma. A política democrática era uma atividade especialmente alienante. O que nos conferia uma voz era o mesmo que nos reduzia a engrenagens na máquina. Esta, para Weber, era a condição moderna.
Jeremy Bentham, filósofo e reformador da democracia, ativo um século antes de Weber e Gandhi, foi alvo da zombaria de seus críticos, que o viam como uma “máquina de calcular”. Bentham dava a impressão de ter reduzido a política à busca do algoritmo da felicidade humana. Queria saber quais alavancas acionar. Mas estava longe de ser insensível. Desejava ardorosamente que a política de seu tempo funcionasse melhor: fosse menos cruel, menos arbitrária e tratasse a diferença entre as pessoas com mais tolerância. O que significava torná-la mais democrática. Mas também significava torná-la dependente de fórmulas que a liberassem das ideias feitas. Bentham aceitava que, para humanizar a política, precisávamos nos dispor a desumanizá-la num primeiro momento.
Recuando ainda mais no tempo, a imagem definitiva da política moderna seria a representação de um robô, datada de meados do século XVII:
No Leviatã de Thomas Hobbes, de 1651, o Estado é descrito como um
“autômato”, criado graças ao princípio do movimento artificial.3 Esse Estado robótico não pensa por conta própria. Não tem qualquer pensamento além dos que lhe são trazidos pelas partes humanas que o compõem. Entretanto, se a estrutura estiver certa, o Estado moderno pode transformar essas contribuições humanas em resultados racionais, despindo-as de seu potencial de gerar uma intensa desconfiança. O robô de Hobbes precisa meter medo: medo suficiente para fazer qualquer indivíduo pensar duas vezes antes de enfrentá-lo. Mas também tem um efeito tranquilizador. O mundo moderno está repleto de máquinas de todo tipo. Essa máquina foi criada para dominá-las em nosso benefício.
Hobbes entendeu que o Estado precisava ser construído à imagem das coisas que pretendia controlar. Precisava de uma aparência humana, pois seria inútil se não conseguisse controlar os seres humanos. Mas também precisava funcionar como uma máquina: um robô com rosto humano. Esse robô era necessário para nos salvar dos nossos instintos naturais. Deixados por sua própria conta, os seres humanos tenderiam a destruir qualquer comunidade política. Para Hobbes, esta era uma das lições do mundo antigo: quando a política se baseia apenas na interação humana, sem qualquer mediação, redunda num violento vale-tudo. Todos os Estados antigos acabaram caindo. Nada tão puramente humano tem como durar. Mas uma máquina moderna pode resistir ao tempo.
Entretanto, havia dois grandes riscos em transformar o Estado num autômato gigante. O primeiro: ele não ser suficientemente poderoso. Outras criaturas artificiais que fossem mais implacáveis, mais eficientes, mais robóticas — e, por implicação, menos humanas — poderiam resultar mais fortes. O segundo: que ele acabasse parecido demais com as coisas que fora criado para regular. Num mundo de máquinas, o Estado poderia adotar o caráter dominante e se tornar totalmente artificial. Este é o medo original da era moderna: não o que acontece quando as máquinas ficam parecidas demais conosco, mas quando ficamos parecidos demais com as máquinas.
As máquinas que mais medo metiam em Hobbes eram as corporações. Estamos tão acostumados a conviver com as empresas que deixamos de reparar como elas têm uma natureza estranha e maquinal. Para Hobbes, eram mais uma espécie de robô. Existem para a nossa conveniência, mas podem adquirir vida própria. Uma corporação é uma reunião não natural de pessoas a que se confere uma vida artificial para que possa cumprir sua missão. O perigo era que os seres humanos acabassem cumprindo missões determinadas pelas corporações.
Muitas entre as coisas que nos inquietam quando imaginamos um mundo futuro de inteligências artificiais são as mesmas preocupações que as corporações vêm despertando há vários séculos. São monstros criados pelos homens. Não têm consciência porque não têm alma. Podem viver mais que as pessoas. Algumas parecem quase imortais. As corporações, como os robôs, podem emergir intactas de debacles catastróficas da atividade humana. Durante a primeira metade do século XX, a sociedade alemã passou por uma quase morte. A escala da destruição humana foi vertiginosa. Ainda assim, houve empresas alemãs que resistiram a todas as provações como se nem tivessem acontecido. Algumas das maiores empresa alemãs criadas no século XIX ainda estão entre as maiores da atualidade — a Allianz, a Daimler, o Deutsche Bank, a Siemens. É como se fossem inatingíveis pela loucura dos seres humanos.
Ao mesmo tempo, as corporações são dispensáveis. Algumas podem viver para sempre, mas a maioria tem uma vida útil muito curta. Os seres humanos as criam e as abandonam num piscar de olhos. Como não têm alma nem sentimentos, isso não importa. Certas empresas só têm uma existência de fachada. E nós as multiplicamos sem pensar. E elas também se multiplicam por conta própria. Empresas geram novas empresas — fachadas dentro de fachadas — simplesmente para dificultar o entendimento de como operam às pessoas comuns. Um dos cenários de pesadelo do nosso futuro robótico é o que aconteceria se os robôs pudessem se autorreplicar. Mas já temos uma ideia de como isso funciona — é o mundo corporativo.
Hobbes acreditava que a única forma de controlar as corporações era conferir poder ao Estado artificial. E tinha razão. Antes do século XVIII, Estados e corporações competiam por território e influência. E não havia garantia de que o Estado sairia vencedor. A Companhia Inglesa das Índias Orientais superou o desempenho e a importância do Estado britânico em muitas partes do mundo. Travou suas próprias guerras. Arrecadava impostos. Com base nessas atividades, acumulou um poder imenso, além de uma enorme riqueza. Mas o Estado moderno, à medida que foi adquirindo mais poder e autoridade, e especialmente conforme se tornou mais democrático nos últimos duzentos anos, acabou afirmando sua primazia. A Companhia das Índias Orientais foi estatizada pela Grã-Bretanha em 1858. A luta contra os trustes conduzida por Roosevelt no início do século XX, quebrando o poder monopolista das maiores empresas dos Estados Unidos, foi mais uma prova da confiança recém-adquirida pelo Estado democrático. No entanto, nem tudo foi obra pessoal de Roosevelt. Roosevelt era a face humana da vasta máquina política dos EUA. O Leviatã em ação.
Weber tinha razão: a democracia moderna não tem como escapar à máquina. O que Gandhi pretendia era utópico. Mas a máquina democrática pode ajudar a humanizar a artificialidade do mundo moderno, o que é uma das promessas mais antigas da política democrática. Até hoje, essa promessa vem sendo amplamente cumprida.
Uma queixa comum contra a democracia do século XXI é que ela perdeu o controle sobre o poder corporativo. As grandes empresas açambarcam riqueza e influência. Fomentam a desigualdade. Espoliam o planeta. Não pagam seus impostos. Para muitas empresas, esse tipo de queixa é inevitável — bancos e companhias petrolíferas convivem com elas há muito tempo. Mas os bancos e as companhias petrolíferas deixaram de ser as empresas mais poderosas do mundo. A faixa foi transmitida para as gigantes da tecnologia: Facebook, Google, Amazon e Apple. São empresas jovens e têm uma cara nova. Acreditam que o que fazem é bom. Não estão acostumadas a ser objeto de ódio. O Estado não sabe bem como lidar como monstros desse tipo.
Ainda assim, são apenas empresas. Se a democracia dos Estados Unidos encontrou forças para peitar titãs corporativos como a Standard Oil no início do século XX, por que não poderia enfrentar o Google e o Facebook nos dias de hoje? Mark Zuckerberg acumulou uma riqueza pessoal vertiginosa. Mas John D. Rockefeller foi, por alguns critérios, o homem mais rico de todos os tempos. Nem assim conseguiu salvar a empresa que criou. Todas as empresas têm um interruptor que as desliga. O Estado sabe onde fica. Ou pelo menos costumava saber.
Nenhuma empresa, por mais rica ou poderosa que seja, pode existir sem o apoio do Estado. As empresas são criadas de acordo com a lei, e operam em meio a um emaranhado de normas e regulações que o Estado cria para nortear sua atividade. A complexidade crescente das regras torna cada vez mais intimidador enfrentar qualquer grande empresa, e muitas empresas se especializaram em procurar a jurisdição mais adequada ao seu funcionamento. A existência de conjuntos diversos de regras criados por Estados rivais — ou por organizações não estatais, como a UE — torna ainda mais difícil esse esforço de regulação e controle. Ainda assim, ele não é impossível. Demanda vontade política. A máquina complexa do Estado moderno muitas vezes torna invisível a presença da vontade política. Nem sempre conseguimos encontrar o fantasma na máquina quando precisamos. Ainda assim, ele está presente em algum lugar.
No passado, as democracias encontraram determinação para enfrentar o poder corporativo. Terão como fazê-lo de novo? Pode ser. Entretanto, na era digital, essas analogias históricas podem representar um falso consolo. Os gigantes corporativos de hoje existem numa cultura política que se tornou muito tolerante com o seu poderio. Nos EUA, isso foi consolidado por uma decisão tomada em 2010 pela Suprema Corte, no caso da Citizens United, uma organização sem fins lucrativos, contra a Comissão Federal Eleitoral, estendendo às pessoas jurídicas o mesmo direito à liberdade de expressão dos cidadãos individuais. Na prática, isso significa que as empresas passaram a ter um direito ilimitado à compra de influência política. Se quisermos que a nossa criatura supere a criatura deles, precisamos impedir que seu destino caia nas mãos deles.
O Google e o Facebook são animais muito diferentes da Standard Oil. Ambos têm um alcance muito maior. Não se limitam ao monopólio de um tipo de bem. Monopolizam muitas coisas ao mesmo tempo. Fornecem uma coisa de que nos tornamos dependentes em nossas vidas cotidianas — contamos com suas plataformas e produtos para a nossa comunicação. Ao mesmo tempo, influenciam o que dizemos uns aos outros, pela maneira como dão forma ao que vemos e ouvimos. Zuckerberg é um industrial e, ao mesmo tempo, um magnata da mídia: Rockefeller e William Hearst numa só pessoa. Esse Cidadão Kane não é só proprietário das rotativas digitais. Também é dono dos poços de petróleo digitais.
Não há garantia de que esse poder vá perdurar — empresas nascem e morrem. Quando a revista The Economist quis criar uma ilustração de capa para representar essa escala de poder corporativo, recuou muito mais no tempo. Zuckerberg aparecia como um imperador romano que decidia a nossa sorte erguendo ou baixando o polegar. Já foi comparado também a um faraó egípcio, dotado de poderes aparentemente divinos. Se fosse realmente o caso, não teríamos tanto motivo de preocupação. A autoridade divina de antigos soberanos acabou se revelando uma ilusão. Um faraó não é páreo para a eficácia da máquina do Estado moderno. Todos os imperadores comparados aos deuses têm pés de barro, mesmo os do século XXI. A verdadeira ameaça surge quando o Facebook consegue copiar o comportamento do Leviatã.
Voltemos para a representação do Estado por Hobbes. Devidamente atualizada, podia ser uma imagem do Facebook. Basta pôr a cabeça de Zuckerberg no topo da máquina. Zuckerberg não é um imperador. É o soberano de uma imensa máquina corporativa cujas partes componentes consistem nas contribuições de imensas quantidades de indivíduos. São essas pessoas que dotam o Facebook de poder, mas compartilham elas próprias muito pouco desse poder. O que recebem em retribuição é a liberdade de se expressar como quiserem. Que também era a promessa do Estado de Hobbes. Hobbes não prometia aos cidadãos o controle sobre o monstro que tinham criado. O que lhes oferecia era o controle sobre a própria vida, em troca da vida que davam a uma criatura artificial capaz de sustentar sua existência coletiva. Propunha a troca do controle político pela liberdade individual.
Com o tempo, essa troca se revelou insuficiente. A maioria das pessoas queria um grau maior de controle. Especificamente, o que queriam era mais democracia: mais controle sobre seus senhores políticos, ou pelo menos a possibilidade de substituí-los por outros que preferissem, dada a oportunidade. O Estado moderno evoluiu e incluiu cada vez mais cidadãos em sua tomada de decisões, em vez de simplesmente admiti-los em seus domínios. O mesmo pode acontecer com o Facebook. Ele pode se democratizar com o tempo. No devido momento, usar seus serviços pode conferir a seus membros o direito de opinar sobre suas diretrizes, como ocorre nos Estados democráticos. A história nos ensina que o Leviatã pode ser domado.
No entanto, a história nunca se limita a uma única lição. O Leviatã de Hobbes precisou de cerca de trezentos anos para se transformar numa forma plenamente desenvolvida de democracia moderna. Na vida de uma empresa como o Facebook, trezentos anos são uma eternidade — trinta anos já podem ser um tempo de espera longo demais. Para que o Facebook seja domado num futuro próximo, isso precisará ser feito pelo poder de posse dos Estados, as máquinas que inventamos com essa finalidade. Não pode ser um simples embate entre o povo e o Facebook. O confronto terá de ocorrer entre Leviatã e Leviatã.
Qual dos gigantes vencerá? As condições da disputa não são iguais para os dois lados. O Leviatã de Hobbes é quem tem a espada. O Facebook não tem. Não pode obrigar ninguém à obediência pelo uso da força, ou ameaçando o uso da força. O que a criatura de Zuckerberg tem nas mãos é o smartphone, que tem um poder conectivo, não coercitivo. Precisa nos governar através do hábito, da persuasão e da distração. Os cidadãos modernos não podem decidir sair do Estado — faz parte do acordo hobbesiano não haver saída. Já um consumidor pode decidir deixar o Facebook a qualquer momento. O poder do Facebook depende de esvaziar cada vez mais essa escolha. Para Zuckerberg, é necessário que as pessoas sintam que não têm outro lugar para ir.
O poder da rede, a base do extraordinário poderio de Zucker-berg, opera pela atração. O Facebook continua a arregimentar novos membros porque seus membros já são muitos: o valor da adesão aumenta a cada nova pessoa que adere. Quanto mais o Facebook consegue se interpor nas relações que os indivíduos já mantêm, mais os outros indivíduos precisarão dele se quiserem preservar suas relações existentes. Não é o poder da força bruta. É simplesmente o peso dos números. Quando uma nova rede surge e tenta subtrair seus usuários, o Facebook a compra (como já fez com o Instagram, o WhatsApp e outros aplicativos). Quanto maior o Facebook, maior ele fica porque seu imenso poder de compra cria imensas barreiras ao surgimento de qualquer outra rede como ele.
É assim que o Facebook obtém uma compensação para a espada que lhe falta. Na imagem clássica do Leviatã (p. 137), ele não é só o gigante que sobressai acima da paisagem. Também começou a se transformar na cidade que vemos em primeiro plano. Está a ponto de se converter no lugar onde as pessoas vivem.
Se o embate se desse apenas entre um gigante e outro, o Estado venceria. O Estado não tem apenas um Exército, uma força policial e um sistema judiciário. Também tem o controle da moeda, a outra grande arma do arsenal. Para Hobbes, a capacidade de determinar o que vale como dinheiro é um dos poderes primários que um Estado pode possuir. Abandoná-lo equivaleria a abdicar do controle político, o que permanece verdadeiro. Os Estados delegam alegremente a autoridade monetária aos bancos centrais para manter o valor de sua moeda a salvo de interferências externas. Mas não a entregam a seus rivais corporativos.
Até que o Google e o Facebook criem moedas próprias, os dois têm bons motivos para temer o Federal Reserve, o banco central dos EUA. Dependem do Estado para lhes proporcionar uma reserva de valor. Sem ela, seu próprio valor é incerto. E é nisso que reside a atratividade de moedas digitais como o bitcoin para muita gente no ramo da tecnologia — elas abrem a possibilidade de libertá-los de sua dependência do Estado. Um dia, o Google e o Facebook podem muito bem vir a criar moedas próprias, ou pelo menos um equivalente próprio ao dinheiro que possa servir de reserva de valor, unidade contábil e meio de troca — o que é uma probabilidade tão mais realista do que algum dos dois criar um exército próprio. Mas isso ainda deve estar a uns vinte anos no futuro.
O poder sobre a espada e o poder sobre o dinheiro permitiram ao Estado derrotar corporações poderosíssimas no passado. Mas se esse novo confronto é de rede contra rede, as grandes empresas de tecnologia têm outras vantagens. O Facebook afirma ter quase 2 bilhões de membros, mais que qualquer Estado ou qualquer império. Pode se infiltrar na vida das pessoas com recursos que os Estados não têm. Como fornece o espaço em que elas compartilham suas experiências, tem a capacidade de dar forma à maneira como vivem. Os Estados obtêm esse efeito criando regras que podem reafirmar com o uso da força, em caso de necessidade. Já as redes sociais fazem o mesmo exercendo influência sobre o que as pessoas veem e escutam.
Ainda é possível imaginar o governo dos Estados Unidos decidindo encerrar o Facebook, se realmente desejasse e fosse capaz de reunir a devida vontade política. Ele tem poder para isso. O Facebook é uma empresa, e toda empresa tem um interruptor que permite desligá-la. Mas o Facebook também é uma vastíssima rede social. Você pode desligar a máquina. Mas não terá a mesma facilidade para tirar da tomada o lugar onde as pessoas vivem.
Ainda assim, o “choque do antigo” também se aplica à política. Ao mesmo tempo que o mundo vem sendo transformado por essas formas novas de poder corporativo, persistem padrões bem conhecidos do comportamento humano. Quando Trump conquistou a presidência dos EUA, convocou os dirigentes das principais empresas do Vale do Silício para um encontro na Trump Tower. A maioria atendeu ao convite. Zucker-berg não pôde comparecer, mas Sheryl Sandberg, diretora de operações do Facebook, esteve presente. Assim como os presidentes do Google, da Apple e da Amazon. Certas empresas foram deliberadamente ignoradas. Jack Dorsey, presidente do Twitter, não foi convidado. O Twitter pode ser o megafone de Trump, mas nem por isso ele se considera preso a qualquer obrigação moral.
Trump queria reafirmar a hierarquia tradicional. O Vale do Silício pode dar a impressão de ter um tipo de poder e alcance com que Washington só pode sonhar, mas nenhum mero executivo pode ditar nada ao presidente. Reunidos em volta da mesa de Trump, com o presidente no centro, todos tiveram de ouvi-lo. Ficou claro quem tinha a primazia.
Em seguida, os titãs da tecnologia se dispersaram. As consequências desse encontro foram quase nulas. Como boa parte da presidência de Trump, valeu apenas como espetáculo. Ele demonstrou o que queria — ele convoca, os outros comparecem. Mas isso, por si só, não quer dizer praticamente nada.
Trump pensa em termos hierárquicos — e faz questão que as pessoas saibam disso. Mas essa é só uma parte da política, e é por isso que Trump nos parece tão unidimensional. Relações verticais precisam ser suplementadas por relações horizontais, em que as pessoas trabalham juntas em busca de resultados. A incapacidade demonstrada por Trump para suplementar suas relações verticais é um dos principais motivos das grande dificuldades que encontra para conseguir que alguma coisa seja feita.
Os políticos mais bem-sucedidos na democracia atuam muito melhor: atraem as pessoas. A hierarquia é suplementada por uma rede. O Leviatã tem armas temíveis à disposição. Mas a verdadeira força do Estado democrático deriva da combinação de uma autoridade de cima para baixo com uma ampla inclusividade. A espada só funciona quando as pessoas sobre quem paira acreditam que o governo tem direito de usá-la em nome delas.
Como um Estado moderno, o Facebook é tanto uma hierarquia quanto uma rede. Na verdade, é bem mais marcado pela hierarquia que qualquer Estado democrático: Zuckerberg e seu círculo imediato exercem um nível extraordinário de controle pessoal. A situação lembra mais uma corte medieval que qualquer entidade política moderna. O poder flui de cima para baixo. Ao mesmo tempo, sua rede é mais ampla e inclusiva do que qualquer Estado poderia construir. O Facebook tem muito mais membros registrados que qualquer democracia. E seus usuários fazem mais coisas com o Facebook, e através dele, do que com qualquer instrumento político, ou através dele. O Estado nos provê serviços. O Facebook ajuda cada um a se tornar o curador da sua vida. O Estado pode nos dar a sensação de segurança. O Facebook pode dar a cada um a sensação de ser amado.
A principal fraqueza política do Facebook está na extrema desconexão entre sua hierarquia e sua rede. A estrutura organizacional da empresa, de cima para baixo, não coaduna com a gigantesca e maciça dispersão de sua rede social. Zuckerberg é um príncipe. Seus auxiliares bem podiam ser seus servos. Ele gosta de falar em “comunidade”, numa tentativa de promover a coesão da empresa. “Hoje, o progresso requer que a humanidade se organize não só em cidades ou nações, mas também numa comunidade global”, disse
ele na declaração de missão pessoal que divulgou em fevereiro de 2017.4 Pode soar como um empresário do século XXI, mas também soa como um papa, de tão pouco que seus pronunciamentos se mostram atentos à necessidade de prestar contas por suas opiniões.
Mas Zuckerberg pode ditar ordens ao presidente dos Estados Unidos? Não. Os 2 bilhões de usuários do Facebook podem suplantar, numa eleição, os 200 milhões de integrantes do eleitorado estadunidense? Não. Mas o Facebook pode solapar o funcionamento da democracia dos Estados Unidos? Sim. O desafio que representa não é direto, mas de segunda mão. A espada ainda vence o smartphone. O Facebook não derrotaria o Leviatã num combate mortal. Mas pode debilitar as forças que mantêm intacta a democracia moderna. Mesmo que não consiga harmonizar sua hierarquia interna com a sua rede, ainda teria meios de desconjuntar a hierarquia e a rede do Estado democrático.
Em 2013, Dave Eggers publicou o romance O Círculo, em que descreve a
operação de uma gigantesca empresa de tecnologia num futuro próximo.5 Essa empresa fictícia se chama “O Círculo”. Podia ser o Google ou o Facebook — parece ao leitor um amálgama dos dois. A empresa tem uma extraordinária difusão global, e sua finalidade é conectar os seres humanos em todas as suas atividades. Seu modo de operação é estimular os usuários a avaliar tudo o que fazem em suas plataformas, transformando-se assim na medida primária do valor de tudo que vivem. Ao mesmo tempo, as operações internas da organização são cercadas de segredos e mistérios. Ela é dirigida por seus fundadores, os “Três Sábios”, que se apresentam como gurus e exercem um poder imenso e arbitrário. O mundo inteiro se avalia em sua rede. E os Sábios decidem que usos dar a ela.
O Círculo é geralmente descrito como uma distopia, mas na verdade é uma sátira. Lança luz sobre a absurda incompatibilidade entre a comunidade universal supostamente criada por empresas como o Facebook e seu caráter excludente, à moda de um culto. Essas empresas empregam relativamente poucas pessoas. Trabalhar nelas é pertencer a uma superelite que quase não se integra à vida das comunidades cuja construção é o seu negócio. O Google transporta seus empregados para o trabalho em ônibus customizados que ligam as partes de San Francisco onde só eles têm recursos para morar com as partes do Vale do Silício onde só eles têm qualificação para trabalhar.
No verão de 2017, com a ideia de corrigir a percepção de que paira a uma certa distância do mundo cotidiano, Zuckerberg embarcou numa turnê pelos Estados Unidos destinada, segundo ele, a ouvir os outros. Sua meta era saber mais sobre a maneira como vivem as pessoas comuns: “Meu trabalho é conectar o mundo e dar voz a todos”, ele escreveu no Facebook em janeiro.
“Quero ouvir pessoalmente mais dessas vozes no ano que se inicia.”6 Sua chegada a várias cidades pequenas de localidades distantes dos Estados Unidos precisava ser preparada por uma guarda pretoriana de assessores de imprensa e seguranças, que isolavam restaurantes, examinavam famílias inteiras para aprovar o contato e procuravam descobrir as melhores locações. Isso permitiu a Zuckerberg dissertar copiosamente sobre Dakota do Norte — nas palavras de um jornalista, “como se fosse o próprio Cristóvão Colombo
tivesse acabado de descobrir a existência do estado”.7 Essa turnê, alardeada como uma grande ocasião, alimentou especulações de que ele tenha a ambição de se candidatar algum dia à presidência.
A missão declarada do Facebook é: “Dar às pessoas o poder de construir comunidades e tornar o mundo mais próximo”. No romance de Eggers, o mantra do Leviatã digital que o autor imagina é: “Fechando o Círculo”. A meta é a interconectividade total. Se cada um realmente se conectar a todas as outras pessoas, ninguém pode se sentir excluído. Um dos fundadores do Círculo aplica esse princípio à democracia. “Como sabemos bem, aqui no Círculo”, diz ele numa reunião da empresa, “com a plena participação vem o conhecimento pleno. Sabemos o que querem os participantes do Círculo porque estamos sempre perguntando […]. Queremos ficar mais próximos,
acredito, de uma participação de 100%. Cem por cento de democracia.”8 A maneira de consegui-lo é assegurar que todo mundo tenha uma conta no Círculo com a qual possa contar para as transações do dia a dia, e depois fechar as contas de qualquer um que não participe da tomada de decisão democrática. Ou você declara o que deseja, ou não deixamos que deseje em absoluto. Em consequência, a participação se torna universal. E a democracia se converte em tirania corporativa.
Uma empresa como o Facebook não tem como praticar a democracia melhor que um Estado nacional. O espaço que separa sua retórica inclusiva de suas práticas excludentes é um verdadeiro abismo. O que Eggers revela é não um risco direto, mas o perigo de danos colaterais. A ideia de fechar o círculo é ridícula. Mas um momento de frustração crescente com a democracia representativa também tem sua carga de sedução. A democracia moderna é cheia de falhas. Muitas pessoas se sentem ignoradas. Suas opiniões parecem contar pouco, e é raro seus representantes darem a impressão de algum interesse em ouvi-las. O populismo contemporâneo se alimenta dessa sensação de desligamento. Mesmo que as redes sociais não possam funcionar como substituto da democracia moderna, podem proporcionar maneiras tentadoras de tapar alguns buracos.
Uma das maiores causas de irritação profunda com a democracia representativa é o quanto ela pode se mostrar lenta e inoperante, especialmente se comparada às satisfações imediatas disponíveis na vida virtual. O Estado moderno continua a ser uma máquina imensa e canhestra. As comunidades online se movem muito mais depressa. A democracia, com seu sistema de freios e contrapesos, sua burocracia e suas regras, muitas vezes parece fraca demais para o século XXI.
Em O Círculo, Eggers imagina como essas frustrações podem se traduzir no campo da ação policial. Criminosos de alta periculosidade às vezes desaparecem, e o Estado burocrático é lento demais para alcançá-los. Por que não divulgar suas características na internet e ver se uma rede social de cidadãos conscientes não consegue localizá-los mais depressa? Na versão de Eggers, a assassina de uma criança é encontrada e linchada no espaço de vinte minutos, com a participação de 20 milhões de pessoas que assistem a tudo em tempo real pela internet. Um rosto anônimo é mostrado na tela; em pouco tempo, a multidão descobre sua verdadeira identidade e onde está escondida. Cidadãos munidos de câmeras se dirigem ao seu local de trabalho, a fim de confrontá-la com sua fúria punitiva. Para os executivos do Círculo, este é só mais um exemplo de democracia pura em ação.
A democracia pura é uma coisa apavorante. É muito fácil a multidão se voltar contra um indivíduo que a desagrada. Na Atenas antiga, as figuras públicas que caíam em desgraça podiam ser condenadas ao ostracismo ou assassinadas pelo demos. Alexis de Tocqueville, ao escrever sobre a democracia dos Estados Unidos em 1835, atribui o gosto de sua população pelo linchamento às origens democráticas do país. Tocqueville dava a isso o nome de “tirania da maioria”: se tiver uma oportunidade, a maioria se sente autorizada a descontar sua raiva e frustração em minorias vulneráveis. A longa história da democracia representativa moderna tem sido uma tentativa quase sempre bem-sucedida de controlar esses impulsos mais selvagens. Linchamentos não ocorrem mais. Não cobrimos mais ninguém com piche e penas. Não condenamos mais ao ostracismo. Exceto no Twitter.
A caça às bruxas nas redes sociais não é igual à da realidade. O linchamento é virtual. Mas a violência é real: ser alvo de um bando de linchadores virtuais é sofrer uma agressão da qual pode ser muito difícil se recobrar. As vítimas desses ataques sofrem danos físicos. Depressão e adoecimento são reações comuns. O suicídio pode vir em seguida. O Twitter é às vezes descrito como o Velho Oeste. Mas na verdade é o que temos de mais parecido com a democracia do mundo antigo: volúvel, violenta, empoderadora. As pessoas descobriram o efeito liberador de poder se mancomunar a um bando para atacar indivíduos que as desagradem. É revigorante. E pode ser mortífero.
Longe de independer da mediação das máquinas, a violência coletiva virtual se manifesta inteiramente através da máquina. Tem uma qualidade desumana. Na democracia antiga, pelo menos, ela se dava cara a cara: a massa era obrigada a olhar no olho da vítima. Quando não era assim — quando era convocada a julgar generais acantonados no estrangeiro —, achava muito mais fácil condenar. A versão da democracia direta no Twitter é mais perigosa, porque não se submete às limitações do espaço físico e do conhecimento pessoal.
Num dos exemplos mais notórios de caça às bruxas virtual, Justine Sacco, executiva de relações públicas de uma empresa, perdeu o emprego, os amigos e sua posição social depois de ter publicado no Twitter uma piada envolvendo questões raciais e aids antes de pegar um voo para a África do Sul. (“Indo para a África. Espero não pegar aids. Brincadeira. Eu sou
branca!” foi o texto que ela postou.)9 O mundo se ofendeu instantaneamente. Assim que pousou no seu destino, ela se descobriu alvo de uma torrente incontrolável de insultos e ameaças de morte. Seu trajeto foi o mesmo de Gandhi um século antes: entre Londres e a Cidade do Cabo. Estar livre de obrigações por algumas semanas no mar deu a Gandhi o tempo de organizar seus pensamentos. Pode ser que Sacco contasse fazer o mesmo durante seu curto voo. É o que muitos de nós fazemos. No fim das contas, essas dez horas de isolamento foram suficientes para destruir sua vida.
Chamar isso de democracia em ação pode parecer absurdo. Mas é precisamente a ameaça que representa: transformar a democracia numa paródia de si mesma. O Twitter não é um meio viável para a prática política. Na melhor das hipóteses, proporciona aos usuários uma pálida imitação de democracia, em que as pessoas têm a oportunidade de dar vazão às suas frustrações sem precisar responder pelas consequências. É o que faz o presidente dos Estados Unidos toda vez que lhe dá na veneta. Esse demagogismo grosseiro tem traços em comum com a democracia direta do passado, mas não as qualidades que a redimiam. A multidão perde o medo quando se exalta, e não poupa seus alvos. Suas vítimas podem ser cidadãos comuns. Assim como políticos de destaque. A noção de que uma afirmação inoportuna ou um gesto descuidado pode dar cabo do trabalho de toda uma vida tem um efeito inibidor para qualquer um. Exceto, talvez, para o presidente dos Estados Unidos.
Como os políticos devem reagir? Eggers sugere um modo, que é o da conciliação. A tecnologia digital possibilita prevenir as frustrações da multidão garantindo que nada lhe é escondido. Em O Círculo, um político especialmente pusilânime se oferece para usar uma câmera digital presa ao pescoço o tempo todo, ligada a uma conta de internet, para que todos possam acompanhar cada um dos seus encontros. Outros políticos, com razão, acham que isso é maluquice. Se nada for ocultado, nada de substancial pode ser discutido, porque tudo pode se tornar comprometedor. O efeito inibidor será total. Mas quando os políticos razoáveis tentam explicar essa questão ao público, a massa se volta contra eles. Por que não querem revelar o que fazem? O que tentam esconder? Em terra de transparência total, quem mantém privacidade parcial é bandido. Em poucas semanas, todos os políticos se veem obrigados a carregar uma câmera da honestidade, ligada o tempo todo.
A democracia representativa anseia pelo que não pode ter. Somos permanentemente tentados pela possibilidade de tapar os buracos que existem na vida política: torná-la mais honesta, mais responsável, mais completa. A tecnologia digital multiplica essa tentação. Por que não obrigar os políticos a prestar contas mais diretas de tudo o que fazem? Por que permitir que escondam a verdade das pessoas cujos interesses deveriam representar? Por que não desmascará-los?
Todos queremos políticos de confiança. Saber o que cada político faz o tempo todo pode parecer um modo de confiar plenamente em sua atuação. Mas não é uma forma de confiança e sim de fiscalização, o oposto da confiança. Se sabemos de tudo o que acontece, a confiança perde o sentido. Não temos necessidade de confiar em pessoas que jamais teriam como nos trair: na verdade, é como se elas fossem máquinas. A precondição para confiar em alguém é a possibilidade de acabar decepcionado. Eliminar essa hipótese é abrir mão de confiar em quem quer que seja. Vai contra a intenção original.
E também é uma ideia ilusória. Nunca poderemos saber de tudo. Os políticos sempre hão de achar algum lugar para se esconder. Quanto mais transparência pedirmos, mais eles precisarão se apegar aos seus segredos para manter certas coisas fora das nossas vistas. A insistência numa transparência absoluta só faz aumentar o valor de estratagemas e esconderijos seguros. Quando descobrirmos quais são, nossa fúria será assustadora.
A democracia representativa não tem como fechar o círculo. Ela depende do espaço que se mantém entre o povo e os políticos; entre a tomada de uma decisão e sua avaliação pelo público; entre o ato da vontade e o ato de julgar. Depende de um tempo suficiente para a reflexão sobre o que fazemos. Pressupõe a decepção. É profundamente frustrante. Mas é essa frustração — a fricção que a proximidade cria sem nunca chegar a nos unir — que garante a persistência da relação entre a rede e a hierarquia. Já o Facebook não admite a frustração.
Tudo que a democracia representativa pode fazer é tentar resolver o problema da quadratura do círculo. O que é impossível. Eis a questão.
Outra das frustrações persistentes com relação à democracia contemporânea, além de sua incapacidade de resposta imediata, é sua artificialidade inerente. Nada nos parece mais artificial que os partidos políticos. Como Gandhi assinalou, os partidos políticos existem para não deixar que as pessoas pensem por conta própria. O partido tenta dizer ao político que linha ele deve seguir. O partido tenta dizer ao eleitor em qual político ele deve votar. Os partidos impedem um encontro direto entre o povo e seus representantes, são ferramentas para a conquista do poder. São burocráticos e cheios de segredos. Sua tarefa é tornar a política o mais mecânica que puderem.
Ainda assim, quando trabalham bem, escondem essa artificialidade por trás de um rosto humano. Os líderes políticos carismáticos conseguem convencer os eleitores de que o partido é mais que uma simples máquina de arrecadar votos. Ele representa algo: a justiça, a segurança, a liberdade. Enquanto isso, os filiados a um partido político podem imbuir o mecanismo de alguma vida própria. Os partidos políticos de maior sucesso nos tempos modernos são os que conseguiram transmitir a seus membros uma autêntica sensação de pertencimento.
Mas esses dias parecem ter ficado para trás. Muitos partidos políticos de massa estão em declínio acentuado. Ao Partido Conservador Britânico, que chegou a mais de 3 milhões de filiados na década de 1950, mal restou 100 mil membros. E a idade deles é, em média, superior a 65 anos. Muitos de seus ex-membros tinham pouco interesse pela política. Viam o partido como um clube social, um lugar em que podiam ir dançar, fazer fofoca e, com alguma sorte, conhecer a futura esposa ou o futuro marido. Hoje, pertencer a um partido é sinal de um interesse muito peculiar pela política, dado o pequeno número de pessoas que o compartilha. Só os mais excêntricos usariam um partido político como um local para conhecer um par romântico. O que só faz aumentar seu ar de artificialidade. Sem seus membros, os partidos políticos parecem cada vez mais meras conchas vazias em relação ao que foram no passado.
Enquanto isso, a política dos partidos se torna cada vez mais partidária. Coalizões plurais do passado se transformaram em porta-vozes estridentes e intolerantes de determinados pontos de vista. Isso é mais fácil de perceber nos Estados Unidos, onde o sistema bipartidário sempre teve a tradição de comportar mais diferenças: tanto o Partido Republicano quanto o Democrata eram no passado vastas igrejas com alas tanto liberais quanto conservadoras, e havia significativas áreas de pontos de vista coincidentes. Hoje, os partidos dividem os eleitores em campos claramente demarcados. Um núcleo de membros de maior engajamento político puxa cada partido para longe do outro; ao mesmo tempo, os eleitores comuns tendem a um contato cada vez menor com gente do outro lado. Não existem mais republicanos e democratas morando nos mesmos distritos — pelo menos não nos distritos eleitorais cuidadosamente traçados sob medida pelos políticos dos partidos. Republicanos e democratas não têm mais vida social comum, nem assistem aos mesmos telejornais. Em 1980, só 5% dos republicanos diziam não desejar que suas filhas e seus filhos se casassem com um ou uma democrata. Em
2010, essa proporção tinha subido para 49%.10
O carisma também parece cada vez mais rarefeito nas esferas mais altas dos principais partidos políticos. Weber achava que parte da finalidade dos partidos políticos era distinguir os verdadeiros políticos de simples servidores públicos. Um autêntico líder político se elevava acima do rame-rame diário da política para transmitir uma visão do futuro. Todos os demais se apagavam ao fundo. Hoje, é cada vez mais difícil distinguir os líderes dos funcionários. A maioria dos políticos profissionais nunca teve qualquer outra profissão. Sobem por dentro da máquina, não se elevam acima dela.
Estamos falando de um declínio a longo prazo. No entanto, como em tantas outras situações, o declínio foi acelerado pela revolução das redes sociais. As comunidades da internet proporcionam várias maneiras de descobrir uma sensação de pertencimento. Não precisamos que a política se converta num clube social quando há tantos outros tipos em oferta. O rame-rame da política partidária convencional — participar de longas reuniões em cadeiras desconfortáveis e salas mal aquecidas, bater perna pelas ruas, organizar campanhas — pode parecer uma pálida imitação da gratificação disponível nas redes sociais. Claro, hoje também é possível usar a internet para algumas dessas atividades: as reuniões podem ser virtuais; bater de porta em porta pode ser feito através de um smartphone. Mas isso só acentua quantas outras coisas estão ao nosso alcance ao mero clique de um botão.
À medida que declina o apelo da política partidária à moda antiga, as pessoas que ainda preferem participar dela parecem destoar cada vez mais de todo o resto. A política se transformou numa atividade de grupelhos. Uma boa proporção dos insultos virtuais contra os políticos dos partidos se deve à sensação de que compõem um pequeno clube à parte. Por que outro motivo persistiriam na política, não fosse pelos encontros uns com os outros e com os doadores que bancam suas campanhas? Queremos políticos que não se comportem como políticos. Queremos que sejam pessoas de verdade, mas muitos deles parecem autômatos. Na era da máquina digital, a qualidade mecânica da política partidária se transformou em sua maldição.
Como resultado, muitos partidos políticos estabelecidos sofreram derrotas inéditas em eleições recentes. Nas eleições presidenciais francesas de 2017, nenhum dos dois principais partidos que dominaram a política francesa por mais de cinquenta anos, tanto de esquerda quanto de direita, chegou ao segundo turno. Os eleitores trataram esses partidos como relíquias do passado. Os socialistas foram quase aniquilados. Seu candidato, Benoît Hamon, mal obteve 6% dos votos. Nas eleições legislativas que se seguiram, o partido perdeu quase nove décimos de suas cadeiras no parlamento. Partidos tradicionais foram quase eliminados na Holanda, na Grécia e na Itália. Os partidos convencionais de esquerda e de direita parecem sujeitos a um destino similar em quase todos os países do mundo democrático.
Em contraste, os partidos políticos que mais fizeram sucesso nos anos recentes são os que se transformaram em movimentos sociais. Macron conquistou a presidência da França em 2017 à frente do En Marche, um movimento criado apenas um ano antes. Fazia questão de reafirmar que não se tratava de um partido político convencional. Seu projeto era ser espontâneo, autêntico e composto de pessoas de verdade, e de não políticos. Na Grã-Bretanha, o Partido Trabalhista evitou a tendência de declínio de outros partidos social-democratas ao se reinventar como um movimento social. Oferecendo a seus membros uma voz que podia ser usada contra os representantes do partido no parlamento, reanimou a filiação em massa de eleitores. Seu líder atual, Jeremy Corbyn, repete sempre que os membros não estão no partido para serem usados por seus deputados, mas justamente o contrário.
Nos Estados Unidos, Trump conquistou a presidência conduzindo um movimento político próprio contra a elite do Partido Republicano. Sanders, por sua vez, quase conseguiu o mesmo, em oposição ao establishment do Partido Democrata. Na Índia, Modi lidera tanto um movimento pessoal quanto um partido político. Assim como Erdogan na Turquia. Populistas estão na linha de frente da política dos movimentos. Mas essa tendência vai além do populismo. Macron, o suposto salvador da Europa do flagelo populista, usou sua política de movimento para derrotar Marine Le Pen, candidata da Frente Nacional, de extrema direita. Le Pen se viu derrotada em seu próprio jogo. Com o tempo, seu movimento se transformou em algo que mais parece um partido político.
O sucesso desses movimentos se beneficia da força dos efeitos de rede. Mais pessoas aderem porque outras pessoas aderem: querem estar na cena da ação. Os movimentos políticos usam as redes sociais e a comunicação digital para atrair eleitores. Crescem depressa, e proporcionam um envolvimento político mais imediato e direto que o disponível nos partidos políticos convencionais. Por enquanto, parecem ser a única forma de democracia representativa capaz de dar conta das exigências da era digital.
No entanto, dar conta de uma coisa não é a mesma coisa que geri-la. Os movimentos sociais correm o risco de se converter nas coisas que vêm tentando explorar. O En Marche não se limitou a usar o Facebook. Acabou parecido com ele. Sua rede é vasta, mas a hierarquia é altamente vertical. O homem que está no topo está sozinho. Macron foi ridicularizado quando se comparou ao deus romano Júpiter. No começo do seu mandato, reuniu os deputados do parlamento em Versalhes, e discursou para eles como se fosse um cruzamento entre De Gaulle e Luís XIV. Ainda assim, quem ele realmente lembra é Mark Zuckerberg. Usa a linguagem da comunidade enquanto acumula autoridade pessoal. Na falta de uma estrutura partidária convencional, Macron se esforça para encontrar meios de unir as duas coisas.
Sob o comando de Corbyn, o Partido Trabalhista Britânico demonstra uma destreza equivalente na propagação de sua mensagem através do Facebook e de outras redes sociais. Boa parte dessa atividade prescinde do envolvimento direto do partido: as páginas virtuais que divulgam as notícias do partido fazem muito esforço para borrar os limites entre o jornalismo, a caça aos cliques e a defesa de algumas causas. Ao mesmo tempo, o partido se tornou uma mescla desconfortável de democracia direta e culto à personalidade. Supostamente, são seus membros que comandam as ações. Mas o líder nunca erra. E ai de quem se interpuser entre ele e os outros.
A culpa pela intolerância de muitos dos movimentos políticos contemporâneos — seu desdém malévolo pela divergência — é muitas vezes atribuída ao pensamento de grupo que prolifera na internet. Mas tem uma relação equivalente com o problema estrutural básico que qualquer movimento precisa enfrentar na era digital. Tendo suplantado o partido político como instrumento de organização da política moderna, não lhe resta nada para fazer oposição à voz das suas próprias câmaras de eco. Esse era o papel do partido.
O cientista político e historiador Mark Lilla descreveu recentemente os partidos políticos como “máquinas de alcançar o consenso através de
concessões”.11 Como muitos outros, Lilla culpa a política identitária pela confusão em que os partidos políticos se encontram hoje. Cada vez mais a pureza da experiência política é considerada mais importante que o resultado do processo político. Mas também é verdade que estamos cada vez mais cansados da inautenticidade da máquina política, quando experiências coletivas aparentemente mais genuínas estão disponíveis no mundo virtual. Queremos uma política real, esquecendo que todas as versões hoje disponíveis são mediadas por máquinas.
À diferença dos movimentos políticos, os partidos políticos nunca pretenderam ser a democracia. Eram a cola que unia a democracia representativa. Não está claro se a democracia pode funcionar sem eles. Só nos restam as peças: as redes, os líderes, as multidões, as eleições, as identidades, as massas. Tente construir algo com isso.
As redes sociais conferiram uma aparência de falsidade à democracia representativa. As versões falsas que existem na internet nos parecem mais reais. Por enquanto, destruímos uma coisa sem saber como substituí-la. O único substituto que temos é uma versão esvaziada do mesmo que tínhamos antes. A máquina perdeu. A máquina venceu.
O que aconteceu com a promessa democrática de uma revolução na internet? Houve um momento em que a tecnologia digital deu a impressão de que poderia mudar as regras do jogo. Mesmo que não pudesse fechar o círculo da democracia, podia pelo menos nos proporcionar novas maneiras de cobrar responsabilidade dos políticos. O Estado moderno sempre monitorou seus cidadãos. Agora, finalmente, surgia uma tecnologia que parecia permitir aos cidadãos uma forma de, por sua vez, monitorar o Estado. E nem precisava instituir uma transparência total. Podia funcionar apenas como um modo de inverter os papéis. A beneficiária deveria ter sido a democracia.
Parte da inspiração de Hobbes para a ideia do Leviatã veio da criatura da mitologia grega conhecida como Argos Panoptes — o monstro com muitos olhos que nunca dorme. Hobbes queria que o seu Estado tivesse olhos atrás da cabeça. Só assim poderia existir uma verdadeira segurança, pois as crises políticas podem surgir nos lugares mais inesperados. Bentham criou uma versão diferente da mesma ideia. Imaginou uma prisão que batizou de Panóptico. Obedecia a um modelo circular que permitiria ao diretor a vigilância permanente de todos os presos.
O apelido que Edward Snowden deu à Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (NSA, de National Security Agency), cujas operações secretas de vigilância em massa ele revelou ao mundo, foi “o Panóptico”. O objetivo original de Bentham, ao imaginar sua prisão, era assegurar que os criminosos condenados não pudessem usá-la como uma oportunidade para conspirações. Como o diretor não podia escutar tudo, Bentham quis garantir que enxergasse sempre quem estava de conluio com quem. A NSA defendeu seu programa de vigilância, que segundo ela só tem acesso aos metadados das comunicações interpessoais. Não ouve as conversas particulares. Limita-se a registrar quem mantém contato com quem. O apelido de Snowden é perfeitamente adequado.
A democracia representativa sempre envolveu um jogo de vigilância mútua. Nós vigiamos os políticos para garantir que não tirem vantagens indevidas do poder que lhes demos. E eles nos vigiam para garantir que não vamos tirar vantagem da liberdade que nos deram. Por boa parte da história da democracia moderna, a primazia nessa relação sempre esteve com os políticos. Dispunham da sofisticada máquina do Estado para cuidar da vigilância por eles. A nós restavam outros poucos recursos. Eles podiam lançar mão de novas tecnologias para se manter sempre um passo à frente. Nós tínhamos telefones; eles podiam grampeá-los. Tínhamos a televisão; eles, imagens de circuito fechado. Estávamos do lado de fora, olhando para dentro; eles, do lado de dentro, olhando para fora. E então aconteceu a revolução digital.
Com o início da era da internet, a vantagem decisiva parecia na iminência de se transferir para os cidadãos. Com a tecnologia em rede, a informação não estava ao alcance do controle de quem quer que fosse. Tornou-se gratuita, era ilimitada. O Leviatã estava exposto. Podíamos examiná-lo em detalhes, descobrir seus segredos. Enquanto isso, cada cidadão podia ocultar seus próprios segredos nas vastidões do ciberespaço.
Ao final do século XX, no primeiro arroubo de euforia que acompanha qualquer revolução, a internet parecia anunciar o próximo passo do triunfo da democracia. As autocracias iriam cair. Todas as trapaças políticas seriam expostas. A informação poderia fluir dos pontos em que era armazenada para os pontos nos quais era necessária. As pessoas descobririam toda a verdade sobre os seus políticos. Eles guardavam mais segredos do que nós, por isso tinham mais a perder.
Finalmente ficaríamos em vantagem no jogo da vigilância.
Estávamos enganados. Nosso erro foi esquecer que a motivação deles para guardar os seus segredos é muito maior que a nossa. Não adianta ter mais informações novas ao nosso alcance se nos falta o desejo de buscá-las. Temos uma razão para descobrir mais: conhecimento é poder. Mas nos falta motivação, porque adquirir conhecimento continua a dar muito trabalho. E evitar trabalhar muito é parte da razão de ser da democracia representativa.
O outro recurso precioso que nos falta é o tempo. O cientista político Herbert Simon assinalou, mais de uma geração atrás, que, quando a informação é abundante, a atenção é que se converte no recurso escasso. Por isso, o Leviatã ainda tem a vantagem. Ele é programado para não perder o foco. Nós perdemos.
A internet proporciona a todos oportunidades renovadas de colher fartos conhecimentos que, no passado, teriam permanecido ocultos. O Estado continua muito mais bem equipado que qualquer cidadão particular para se aproveitar disso. Pode empregar servidores para fazer esse trabalho em tempo integral. Só indivíduos muito incomuns irão usar toda a sua energia pessoal para acompanhar cada ato do Estado. Tendemos a considerar essas pessoas muito estranhas. Às vezes os rotulamos de adeptos das teorias da conspiração. No entanto, os mais persistentes desses adeptos são os que trabalham no governo e nos espionam.
Estados democráticos como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha se revelaram grandes compiladores e armazenadores de metadados. O processo democrático desses países fez o possível para submeter essas atividades à supervisão judicial, mas isso não soluciona a questão da disparidade de resultados. Só faz replicar o problema. Não vigiamos o Estado enquanto ele nos vigia. Só podemos esperar que nossos servidores públicos sem mandato o vigiem em nosso nome, embora eles muitas vezes nem pareçam muito qualificados para a tarefa. Quem vigia os vigilantes é a pergunta para a qual a democracia representativa não tem uma boa resposta, uma vez que a atividade passa a requerer um imenso volume de trabalho árduo.
A questão da vigilância online ainda não adquiriu muito peso como questão eleitoral. Rand Paul, o aspirante a candidato republicano que fez o possível para tratar do tema em 2016, foi atropelado por Donald Trump com a facilidade de quem dá um tapa numa mosca. “Essas pessoas planejam nos matar”, declarou Trump em resposta a Paul ante uma plateia estridente, num dos primeiros debates pela candidatura à presidência, “e você se opõe ao fato
de querermos ouvir as conversas deles? Essa não! Essa não!”12
Enquanto o jogo da vigilância puder ser reduzido à procura de terroristas, é difícil se opor. O senso comum diz que quem não tem o que esconder não tem o que recear. A lógica da política mudou pouco desde a invenção do Leviatã. Ao contrário do esperado, a internet só fez reforçar essa lógica, em vez de enfraquecê-la.
A tecnologia digital também reforçou, em vez de enfraquecer, o domínio do poder em muitos regimes não democráticos. Governantes autoritários a empregam com grande eficácia. Longe de se converter numa arma decisiva para as forças resistentes, transformou-se numa ferramenta essencial para mantê-las sob vigilância. Muitos grupos de oposição, em países como a Etiópia e a Venezuela, descobriram que era muito mais fácil para os governos autoritários controlar suas atividades do que eles vigiarem os governos autoritários. Novamente, a diferença está nos incentivos, no tempo e nos recursos humanos. Mesmo os Estados corruptos e ineficazes tendem a superar seus adversários em todos esses aspectos, enquanto os oponentes ficam limitados pela necessidade de improvisar. Até aqui, a internet nunca desempenhou o papel de máquina de derrubar autocracias. Transformou-se em mais uma ferramenta útil para o poder.
O que mudou é nossa compreensão básica das ocasiões em que somos vigiados. Começamos a confundir a vigilância deles sobre nós com a nossa vigilância sobre eles. Mas não vivemos no mundo do Grande Irmão, a grande mentira que transforma a televisão de que você não tira os olhos na máquina que não tira os olhos de você. No caso de 1984, o disfarce é tão descarado que mal pode ser chamado de disfarce. O pesadelo orwelliano é estar submetido ao tipo de escrutínio que torna fútil qualquer tentativa de ocultação, porque não há onde se esconder. Já a vigilância pela internet torna a ocultação supérflua por ser muito difícil de distinguir a busca de um conhecimento genuíno. Revelamos quem somos não por nos mantermos passivos, mas por sermos tão curiosos.
Toda vez que entramos na internet em busca de novas infor-mações para nosso uso, acabamos fornecendo novas informações sobre quem somos a todo tipo de parte interessada. Primariamente, isso nos afeta como consumidores. O histórico das nossas buscas dá aos fornecedores a informação de que precisam para direcionar seus produtos a nós. Quando procuramos uma passagem de avião mais barata, o que fazemos, na realidade, é possibilitar às empresas de aviação fixar o preço que podemos estar dispostos a pagar, com base em nosso comportamento passado. Pesquisar é ser pesquisado. Procurar vantagem competitiva como consumidor individual é revelar seus segredos.
E existe um equivalente político. O volume de informação disponível online torna muito mais fácil para os eleitores escolher suas fontes de notícias. É fácil imaginar que isso seja a democracia em ação — ficar de olho! No entanto, e se o nosso gosto por certos tipos de notícia revelar aos outros as nossas preferências, e buscar por elas sirva simplesmente para revelar nossas inclinações? Nosso desejo de nos mantermos informados se transforma num meio de acompanharem nossos rastros. E torna possível ajustar as notícias de modo a garantir que jamais descobriremos nada de novo.
O medo da difusão de fake news reflete essa crescente ansiedade — como saber se a nossa busca de informações não irá se converter numa oportunidade para ainda mais manipulação? Uma operação sofisticada de notícias políticas pode transformar as eleições numa versão do que ocorre com os preços das passagens aéreas: só nos é mostrado o que já sabem que estamos dispostos a comprar. Tanto a eleição de Trump quanto o plebiscito sobre o Brexit no Reino Unido foram acompanhados por histórias assustadoras desse tipo. Uma empresa misteriosa chamada Cambridge Analytica, fundada por alguns destacados partidários de Trump, parece ter negociado o fornecimento de informações sobre eleitores com base em suas identidades virtuais. E isso teria determinado o direcionamento de conteúdo ao feed de notícias de cada usuário. É difícil saber se a ação fez alguma diferença. Mas a margem da vitória de Trump foi suficientemente estreita — apenas dezenas de milhares de votos em alguns estados-chave — para sugerir que pode ter feito.
Enquanto isso, o Kremlin redescobriu seu apetite por bombardear os eleitorados ocidentais com desinformações, com base numa extensa coleta de dados. No Twitter, programas-robô (bots) que simulam participar do debate sobre a democracia estão sendo programados para tornar esse debate impossível, transformando qualquer discussão política numa gritaria sem fim. Esses programas, que imitam muito mal a inteligência humana, podem ainda assim simular muito bem o comportamento de eleitores enfurecidos. Só precisam fazer muito barulho.
Sem dúvida, são muitos os riscos para a democracia nesse caso. Mas por enquanto podem estar sendo exagerados. A micromanipulação do eleitorado é certamente mais difícil do que parece — e muito do que a Cambridge Analytica vende não passa de conversa fiada. Temos uma tendência a superestimar a facilidade com que gente mal-intencionada consegue resultados monstruosamente complexos. Manipular os resultados de uma eleição sempre deu muito trabalho. Pessoas obcecadas por computadores tendem a se preocupar com o domínio do mundo por vilões de James Bond. Mas muito poucos vilões de Bond são eles próprios obcecados por computadores.
Muitos exemplos de fake news têm pouco a ver com alguma conspiração contra a democracia. Não passam de oportunismo, traço exuberante na internet. Várias das notícias falsas mais compartilhadas no Facebook durante a eleição presidencial de 2016 foram produzidas por um grupo de hackers adolescentes sediados na Macedônia (“O papa apoia Trump!” foi uma das mais populares). Eles não eram pagos pelo Kremlin. Simplesmente descobriram um meio de ganhar dinheiro rápido, criando notícias falsas de grande apelo para atrair a atenção do tráfego virtual.
A oportunidade de ganhar dinheiro com notícias falsas se deve ao modelo de negócio da internet, que é a publicidade. O jogo da vigilância se transformou numa concorrência pela atenção do usuário. Não importa de que maneira nosso interesse seja atraído, contanto que nos faça parar num ponto em que os anunciantes possam nos atingir. Notícias forjadas têm esse efeito. Assim como as notícias de verdade, se forem interessantes. Donald Trump foi muito útil tanto para o New York Times e para a CNN quanto para os hackers macedônios, porque todos queriam ler e ver notícias a seu respeito. Se tudo não passasse de manipulação, seria mais fácil de detectar. Mas como é uma disputa pela atenção dos usuários, a diferença entre o empenho ativo em buscar mais informações e uma atitude de simples recepção passiva fica difícil de distinguir.
Pútin até pode ser um gênio do mal, mas parece mais provável que seja apenas mais um oportunista. Assim como Trump. O Facebook — a começar por Zuckerberg — manifestou uma surpresa genuína ao descobrir de que maneira sua tecnologia pode ser usada para a difusão de notícias falsas. Os próprios arquitetos do sistema tropeçam tanto em suas armadilhas quanto o resto de nós. Temos todos os motivos para acreditar em Zuckerberg quando ele diz que deseja pôr fim à manipulação. Não era o que ele pretendia que acontecesse. Este é o problema: não era o intuito de ninguém. Não passa de um efeito colateral da inserção no negócio da publicidade.
A imagem mental de espectadores e atores que domina as concepções modernas de democracia é humanística demais para a era digital. Esses sistemas de coleta de dados não passam de máquinas, e as máquinas não observam o mundo como os seres humanos — limitam-se a acumular informação. Significamos pouco para elas como indivíduos porque elas nem sequer nos veem como indivíduos — somos apenas a entidade por acaso postada diante da tela. Pessoas assistem ao desempenho de outras pessoas. As máquinas as submetem a processamento. A ameaça à democracia não é a manipulação. É a indiferença.
Ainda assim, será que realmente importa à democracia representativa ser reduzida a uma forma de publicidade? Muitos autores suspeitam que na verdade nunca tenha passado disso. Em 1942, o economista Joseph Schumpeter definiu a democracia como uma competição entre equipes de
vendedores para fazer o eleitorado comprar seu produto.13 É como se comprássemos sabão em pó. Quando nos cansarmos da marca basta substituí-la por outra.
Em 1969, Joe McGinnis publicou The Selling of the President 1968 [A venda do presidente em 1968], em que descreve como Richard Nixon teve sua embalagem recriada pela Madison Avenue, onde se concentram as agências de publicidade nova-iorquinas, para torná-lo mais palatável ao
eleitorado dos Estados Unidos.14 Na época, parte dos leitores se declarou chocada com essa manipulação do processo democrático; poucos se espantariam nos dias de hoje. Na segunda metade do século XX, a ideia da democracia como espetáculo teatral foi suplantada pela ideia da democracia como publicidade. Primeiro o rádio e depois a televisão mudaram os termos da metáfora. Já a ideia subjacente não mudou muito. Eles produzem política; nós consumimos.
As eleições são a prova final de qual produto vende mais, e fortunas foram ganhas e perdidas prestando o serviço de ajudar os políticos a transitar nesse mercado. Empresas como a Cambridge Analytica estão fazendo algo muito diferente disso? Num certo sentido, não: esta é apenas a versão mais recente do concurso permanente para ver quem doura a pílula com mais eficiência. Noutro sentido, porém, a reviravolta foi fundamental. As técnicas de venda política no século XX obedeciam a um ritmo bem claro. A finalidade era sempre fechar o negócio no momento da eleição seguinte. Os vendedores batiam de porta em porta, e às vezes os deixávamos entrar. O mais comum, porém, era mandá-los embora. Nunca eram convidados a se estabelecer nas nossas casas.
A publicidade do século XXI obedece a outros imperativos. Fechar o negócio é menos importante que manter a porta sempre escancarada. A concorrência pela nossa atenção significa que a finalidade básica é nos prender aos meios de informação. A publicidade na internet é implacável. Ela nos acompanha por toda parte. Tenta nos manter num estado de alerta permanente.
Trump é o político ideal para essa versão da democracia. Embora fale sempre da importância de fechar as vendas, este nunca foi seu modo básico de atuar nos negócios. O que ele procura é atenção. Esperamos que os políticos mudem seu comportamento a partir do momento em que fecham sua venda. Depois da vitória, Trump permaneceu em modo de campanha. Domina a atenção do mundo inteiro, mesmo sem realizar nada. Como disse o neurocientista Robert Burton no New York Times, com uma ironia apenas parcial: “Donald Trump representa uma caixa-preta, o primeiro presidente da geração da inteligência artificial, movido apenas pelos dados que ele próprio
seleciona e por uma ideia de sucesso que varia sem controle”.15 É o tipo de bot que podemos encontrar antes do surgimento de uma inteligência artificial polivalente.
A publicidade do século XXI se alimenta das nossas predisposições cognitivas, adaptando-se a elas para nos manter concentrados no momento presente. O ser humano apresenta uma tendência congênita a preferir uma gratificação imediata a benefícios futuros; a querer se aferrar ao que já possui; a procurar reforço para as suas crenças; a superestimar a atenção alheia; a subestimar o quanto, no futuro, pode se tornar uma pessoa diferente. As redes sociais foram criadas para satisfazer a esses impulsos, assim como as máquinas que usamos para acessá-las. São todas planejadas para estimular nossa adição. Estamos sempre conferindo os celulares para descobrir o que há de novo, desde que essas novidades se harmonizem com a nossa ideia da verdade.
A intenção original da democracia representativa era funcionar contra as nossas predisposições cognitivas, por menos que estas fossem compreendidas na época. Impondo barreiras à gratificação imediata e tornando mais lenta a tomada de decisões. Deixando espaço para o comprador se arrepender. Os fundadores da República dos Estados Unidos fizeram o possível para submeter os impulsos políticos do povo ao filtro de instituições planejadas para corrigir suas propensões originais. Eis o que torna tão frustrante a democracia representativa: ela quase nunca é gratificante. Não é para isso que foi criada.
O arrependimento do comprador é relativamente incomum no mundo do comércio online, porque não tem tempo de ocorrer. O ato da compra é simplesmente seguido de mais uma compra, que nos é direcionada com base no que acabamos de comprar. E continuamos a comprar as mesmas coisas enquanto tentamos corrigir os seus defeitos, pois não temos como escapar às mensagens que rastreiam nossas preferências. Mas a política democrática que funciona segundo esse modelo não consegue se autocorrigir, tornando-se incapaz de cumprir suas promessas. Acaba como um tigre que corre atrás do próprio rabo. Como representação do fracasso da democracia, não tem paralelo histórico. O volume da escolha democrática aumenta. Sua futilidade também.
A democracia direta, do tipo praticado no mundo antigo, também tinha a finalidade de corrigir nossas predisposições. Seria esta uma solução para o problema da nossa desatenção coletiva? Desde Aristóteles, os filósofos afirmam que a melhor maneira de evitar erros individuais de julgamento é cotejar nossas opiniões, de modo que as decisões sejam tomadas pelo peso dos números. A tomada coletiva de decisões funciona melhor que as escolhas de qualquer indivíduo, pois nossas predisposições podem se cancelar mutuamente. Eis a sabedoria das massas.
A era da internet promoveu uma imensa renovação do interesse por essa ideia. Hoje, a tecnologia digital permite o cotejo de opiniões numa escala gigantesca. Coletivamente, podemos dar notas a produtos, prever desdobramentos futuros, resolver quebra-cabeças e até editar uma enciclopédia melhor do que qualquer um de nós poderia fazer por si. A internet também reduziu dramaticamente as barreiras à admissão. Para participar de uma decisão de grupo, não é mais preciso comparecer à praça do mercado. Podemos participar de pequenas decisões conjuntas em praticamente qualquer lugar: basta um clique aqui, uma busca ali. Por que não canalizarmos esses recursos para a política?
A resposta nos leva de volta à antiga Atenas. A democracia direta é uma forma de política muito difícil de administrar. Só dá certo em condições cuidadosamente controladas. Requer vários tipos de dispositivos para conter o comportamento por impulso, entre eles a ameaça de violência em caso de necessidade. E dá muito trabalho.
O mundo em rede que habitamos hoje, modelado pelos interesses de novas corporações gigantescas, alimentado pela nossa adição à vida virtual e rachado por reações impulsivas, não se enquadra nessa descrição. Não redescobrimos nosso apetite pelo trabalho político árduo nem o gosto pela violência política. E por que haveríamos de retomá-los, quando podemos obter outras gratificações muito mais fáceis?
Mas a democracia ainda não está morta. Resta vida ao Leviatã. Continua a ser possível recuperar o controle da máquina.
Como? Alguém precisa se dedicar ao trabalho árduo de recapturar o poder da tecnologia digital para a política democrática. Não vai acontecer por conta própria. Uma das maneiras seria nossos representantes eleitos usarem sua autoridade para dar apoio a experiências de democracia direta. Não temos como recriar a antiga Antenas. Mas podemos tentar tornar a democracia mais receptiva do que é nos dias de hoje.
E isso já começou em alguns lugares. Na Islândia, depois das consequências catastróficas do crash financeiro de 2008, foi dada aos eleitores a possibilidade de participar diretamente da elaboração de uma nova Constituição, e o controle do orçamento da cidade de Reykjavík passou aos cidadãos através de uma eleição via internet. Coisa parecida está em andamento em San Francisco, onde o orçamento participativo foi adotado em vários bairros. Em Estocolmo, eleições online são usadas para ajudar a selecionar os temas sobre os quais os políticos deverão deliberar. Na Espanha, na Austrália e na Argentina, criaram-se “partidos da rede”, cujos membros usam ferramentas digitais para decidir sobre as diretrizes partidárias. Na Itália, o movimento Cinco Estrelas, de Beppe Grillo, recorre à militância para a discussão de muitas de suas diretrizes, com resultados melhores ou piores. Assim como outros partidos “piratas” pelo mundo inteiro.
Ao mesmo tempo, a tecnologia digital pode trabalhar em prol da democracia encontrando as melhores soluções para questões tecnicamente complexas, sem necessariamente envolver a consulta direta aos eleitores. Em vez disso, os políticos podem usar o aprendizado de máquina para tornar mais fácil seu próprio trabalho, fazendo uso dele para testar previamente suas escolhas. Hoje, a maioria das soluções propostas para a política consiste apenas numa lista de coisas que os detentores de mandatos acham que podem funcionar. A questão é saber se os eleitores irão defendê-las. A nova tecnologia tem o potencial de testá-las antes que os eleitores precisem se pronunciar, tornando mais provável que aprovem o que lhes for oferecido no final.
Não há nada nem de longe espontâneo nessas maneiras de fazer política. Mesmo reforçada pela tecnologia digital, qualquer forma de democracia sempre dá muito trabalho. A internet, por si só, não será capaz de reanimar a política democrática. Precisa ser aprovada através do sistema político já existente. Só a política pode resgatar a política.
Infelizmente, o sistema político existente tanto pode bloquear quanto estimular essas iniciativas. Nossa política se mantém tribal. Para cada solução potencial, haverá sempre um grupo de pessoas prontas a reclamar, e um grupo de políticos prontos a apoiá-las. E a tecnologia digital corre o risco de reforçar esse tribalismo no mesmo momento em que tenta nos livrar dele.
Basta ver os lugares onde ocorrem experiências de democracia direta: San Francisco, Reykjavík, Estocolmo. Faz sentido, afinal. A “e-democracia” tem tudo a ver com meios urbanos que tendem a congregar cidadãos fluentes na tecnologia digital. Se a ideia deu certo em San Francisco, por que não espalhá-la para o resto dos Estados Unidos? Justamente porque, se deu certo em San Francisco, boa parte do restante do país nem vai querer saber do que se trata. Uma das coisas que define a política atual do Texas é um forte desejo de não virar uma Califórnia. E a definição californiana do que dá certo irá provocar a rejeição de muitos texanos.
Uma das maiores divisões da democracia ocidental do século XX é produzida pela educação. Se alguém tiver cursado ou não uma faculdade, isso será mais determinante para o seu voto do que a idade, a classe ou o gênero. Foi assim na eleição de Trump, no plebiscito sobre o Brexit e na eleição de Macron. As pessoas instruídas formam uma tribo. Tendem a se manter unidas. Podem achar que isso se deve ao fato de ter uma compreensão melhor de como o mundo funciona. Mas é por isso que provocam tanta rejeição do outro lado: parecem confundir seu tribalismo com uma maior sabedoria.
E esse é o problema fundamental em ver a tecnologia digital como um avanço para a democracia representativa. Os políticos não são como os médicos ou outros profissionais liberais. Esperamos deles mais que orientação e ajuda. Esperamos também que reflitam quem nós somos. E as formas superiores de conhecimento prejudicam essa identificação.
Numa visita aos Estados Unidos na primeira década do século passado, o alemão Max Weber perguntou a um grupo de trabalhadores por que votavam sempre em políticos aparentemente despreparados para a tarefa, que sempre acabavam por deixá-los na mão. E a resposta foi: “Cuspimos nesses ‘profissionais’, nessas autoridades. É uma gente que desprezamos. Mas se os cargos forem preenchidos por uma classe bem treinada e qualificada, como
acontece no seu país, as autoridades é que cuspiriam em nós”.16 Esse sentimento ainda se encontra presente na democracia representativa de hoje.
A revolução digital prometia muito para a política democrática, e até agora trouxe muito pouco. Ainda assim, seu potencial de transformação permanece praticamente ilimitado. E então precisamos enfrentar a pergunta mais difícil de todas. E se o que estiver entravando o progresso da política for a própria democracia? O que fazer?