Como a Democracia Chega ao Fim
Introdução - 20 de janeiro de 2017
Introdução
20 de janeiro de 2017
Assisti à posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos numa tela grande, num salão de conferências de Cambridge, na Inglaterra. A plateia estava repleta de estudantes estrangeiros, bem agasalhados contra o frio — as salas de Cambridge nem sempre são muito bem aquecidas, e havia tanta gente de casaco e cachecol dentro do salão quanto no palanque das autoridades em Washington, D.C. Mas o clima entre os estudantes não era nada gélido. Muitos riam e faziam piadas. Reinava uma atmosfera festiva, como ocorre em grandes funerais públicos.
Quando Trump começou a discursar, os risos foram morrendo. Na tela grande, que tinha como pano de fundo colunas e bandeiras estadunidenses ao vento, o efeito era estranho e desagradável. Ficamos com medo. O modo de falar de Trump, parecendo que latia, somado a seus gestos expressivamente crus — cortando o ar com seus dedos gorduchos, erguendo um punho cerrado no clímax de sua fala —, fez com que a mesma ideia ocorresse a muitos de nós: o que vemos é uma versão caricatural do fascismo. A semelhança com uma cena de um dos filmes de Batman — em que o Coringa discursa para os cidadãos aterrorizados de Gotham — era tão grande que chegava a parecer um clichê. O que não anula a analogia. Os clichês são aonde a verdade vai para morrer.
O discurso de Trump foi chocante. Ele usou expressões apocalípticas que ecoavam as fronteiras menos civilizadas e mais enfurecidas da política democrática, a faixa em que a democracia pode começar a se transformar em seu oposto. Deplorou “as fábricas enferrujadas, espalhadas como pedras tumulares pela paisagem da nossa nação […] o crime, as gangues e as drogas”. Ao clamar por um renascimento do orgulho nacional, lembrou a seus ouvintes que “todos nós sangramos o mesmo sangue vermelho dos patriotas”. O que soou como uma ameaça pouco velada. Acima de tudo, ele pôs em dúvida a ideia básica do governo representativo: os cidadãos conferem aos políticos eleitos o poder de tomar decisões em seu nome. Trump preferiu fustigar os políticos profissionais por terem enganado o povo estadunidense e traído a sua confiança:
Já faz tempo demais que um pequeno grupo, reunido na capital de nossa
nação, vem gozando dos benefícios do governo, enquanto o povo arca
com as despesas.
Washington floresceu — mas as pessoas não compartilharam sua
riqueza.
Os políticos prosperaram — mas os empregos foram embora, e as
fábricas fecharam.1
Trump reafirmou que sua eleição assinalou o momento em que o poder deixou de ser transmitido apenas de presidente a presidente, ou de um partido para o outro, mas de Washington, a capital da república, de volta para o povo. Pretendia mobilizar a fúria popular contra qualquer político profissional postado em seu caminho? Quem seria capaz de detê-lo? Quando terminou o discurso, foi saudado, em nosso salão de Cambridge, por um silêncio atônito. E não fomos os únicos surpreendidos. O predecessor de Trump na presidência, George W. Bush, foi flagrado murmurando, ao deixar o palanque: “Que porra mais estranha”.
Em seguida, como vivemos numa era em que tudo que é consumido pode ser instantaneamente reconsumido, resolvemos assistir de novo ao discurso. Da segunda vez, foi diferente. Já sabendo aonde iria chegar, achei o discurso menos chocante. Senti que minha primeira reação tinha sido excessiva. Trump disse essas coisas, mas não quer dizer que sejam reais. Seu discurso assustador destoou da civilidade fundamental da cena. Afinal, caso o país estivesse tão fraturado quanto ele descrevia, não existiria uma grande dificuldade de acompanhar educadamente a sua posse até o fim? E destoou também da ideia que eu sempre fiz dos Estados Unidos. Os EUA não são uma sociedade partida, certamente não, se comparados a qualquer padrão histórico.
A despeito de alguns picos recentes, a violência vem declinando por toda parte. A prosperidade aumenta, embora a distribuição da riqueza continue muito desigual. Se as pessoas acreditassem de fato no que Trump dizia, teriam votado nele? Teria sido um gesto de grande coragem, nesse caso, tendo em vista o risco de pane total da sociedade. Talvez tenham votado nele porque, no fundo, não acreditam no que ele diz?
Levei uns bons quinze minutos para me aclimatar à ideia de que essa retórica tinha passado a ser a nova normalidade. Os autores dos discursos de Trump — Steve Bannon e Stephen Miller — não puseram em sua boca nenhuma palavra explicitamente antidemocrática. Foi um discurso populista, mas o populismo não é o inverso da democracia. Ele se propõe, isso sim, a resgatá-la das elites que a traíram. Nada que Trump tenha dito questionou a premissa fundamental da democracia representativa: a ideia de que, no momento certo, as pessoas têm o direito de dizer que estão fartas dos políticos que vêm tomando decisões por elas. Trump ecoava uma convicção óbvia dos seus eleitores: está na hora de dizer chega.
Quando assisti ao discurso pela segunda vez, me concentrei menos em Trump e mais nas pessoas distribuídas à sua volta. Melania Trump parecia alarmada por se ver no mesmo palanque que o marido. O presidente Obama se limitava a uma expressão de desconforto. Hillary Clinton, mais afastada, parecia atônita. Os comandantes das Forças Armadas exibiam semblantes estoicos e impassíveis. A verdade é que, depois do juramento, havia pouco o que Trump pudesse dizer para ameaçar diretamente a democracia dos Estados Unidos. Foram só palavras. O que conta, na política, é o momento em que as palavras se convertem em ação. As únicas pessoas com o poder de dar cabo da democracia dos EUA no dia 20 de janeiro de 2017 estavam sentadas ao lado de Trump. E não estavam fazendo nada.
Como podia ter sido diferente? A definição mínima de democracia afirma simplesmente que, numa eleição, os perdedores aceitam a derrota. Entregam o poder sem recorrer à violência. Noutras palavras, dão um sorriso amarelo e aguentam firme. Se isso acontece uma vez, temos todo o potencial de uma democracia. Se acontece duas vezes, temos uma democracia feita para durar. Nos Estados Unidos, já ocorreu 57 vezes de os derrotados numa eleição presidencial aceitarem o resultado, embora aqui e ali tenha sido por pouco (especialmente na muito discutida eleição de 1876 e em 2000, quando a presidência foi conquistada pelo derrotado no voto popular — o mesmo caso de Trump). Em 21 ocasiões, os EUA assistiram à transmissão pacífica do poder de um partido para o outro. Uma única vez, em 1861, a democracia do país deixou de passar nesse teste — quando um grupo de estados do Sul não se conformou com a ideia de Abraham Lincoln ser o presidente legítimo, e lutou contra ela por quatro anos.
Noutras palavras: a democracia é a guerra civil sem o combate armado.2 A democracia fracassa quando as batalhas simbólicas se transformam em combates de verdade. Consumada a vitória de Trump, o maior perigo para a democracia do país teria sido uma oposição do presidente Obama ou de Hillary Clinton em relação ao resultado. Clinton venceu no voto popular por uma boa margem — 2,9 milhões de votos, mais que qualquer outro candidato derrotado na história do país — e ainda assim perdeu devido às regras arcaicas do Colégio Eleitoral. Na noite das eleições, Clinton teve dificuldade em aceitar que tinha sido vencida, como tantos outros candidatos derrotados. Obama ligou para ela e insistiu que devia admitir o resultado o mais depressa possível. Disso dependia o futuro da democracia dos Estados Unidos.
Quanto a isso, um discurso mais significativo que o da posse de Trump foi o pronunciado por Obama no gramado da Casa Branca em 9 de novembro, o dia seguinte à eleição. Pela manhã, Obama tinha encontrado muitos de seus auxiliares em lágrimas, desolados porque oito anos de trabalho árduo estavam prestes a ser anulados por um homem que lhes parecia totalmente desqualificado para o cargo ao qual se elegera. Fazia poucas horas que o resultado fora proclamado, e democratas enraivecidos já questionavam a legitimidade de Trump. Obama escolheu outra abordagem:
O caminho que este país vem seguindo, vocês sabem, nunca foi uma linha
reta. Fazemos nossos zigue-zagues, e às vezes alguns acham que estamos
seguindo em frente enquanto outros acreditam que andamos para trás, mas
não há problema […]. A questão é que todos avançamos presumindo a
boa-fé dos nossos concidadãos, porque a presunção da boa-fé é essencial
para uma democracia vibrante e funcional […]. E é por isso que confio no
prosseguimento dessa incrível jornada de que participamos como
americanos. E farei o que puder para garantir o sucesso do nosso próximo
presidente em relação a isso.3
Não é difícil entender por que Obama julgou que sua única escolha fosse dizer o que disse. Qualquer outra coisa teria posto em dúvida os fundamentos da democracia. Mas talvez valha a pena perguntar: quais são as circunstâncias em que um presidente, no exercício do mandato, pode se sentir obrigado a dizer algo diferente? Quando é que a fé nos zigue-zagues da política democrática deixa de ser uma precondição do progresso e começa a se transformar na entrega do futuro às forças do acaso?
Caso Clinton tivesse vencido a eleição de 2016 — especialmente se tivesse conseguido vencer no Colégio Eleitoral, mesmo perdendo no voto popular —, é improvável que Trump se mostrasse tão magnânimo. Durante toda a campanha, deixou claro que sua disposição a aceitar o resultado dependia de ele ser ou não o vencedor. Um Trump derrotado podia muito bem ter desafiado a premissa fundamental da democracia: nas palavras de Obama, “se perdemos, aprendemos com os nossos erros, lambemos as
feridas, sacudimos a poeira e voltamos para a arena”.4 Lamber as feridas não é do estilo de Trump. Se o pior cenário possível para uma democracia é uma eleição em que os dois lados discordam quanto à validade do resultado, a democracia dos Estados Unidos evitou um grande perigo em 2016.
É fácil imaginar que Trump, em caso de derrota, pudesse ter preferido boicotar a posse de Hillary Clinton. Seria um desdobramento feio, mesquinho e com certo potencial de violência, mas não seria necessariamente fatal ao predomínio da Constituição. A República poderia ter resistido, apesar das dificuldades. Por outro lado, se Obama tivesse recusado a permissão para a investidura de Trump, por ainda ser o ocupante da Casa Branca ou por planejar dar posse a Clinton, a democracia estaria liquidada nos Estados Unidos, ao menos por ora.
Existe uma outra definição sumária de democracia funcional: é quando quem tem armas não faz uso delas. Os eleitores de Trump possuem muitas armas e, tivesse ele perdido, parte dessas pessoas podia ter sucumbido à tentação de usá-las. Ainda assim, existe uma grande diferença entre um candidato de oposição que se recusa a aceitar a derrota e um presidente em fim de mandato que se recusa a deixar o cargo. Por maior que seja o poder de fogo dos eleitores do perdedor contrariado, o Estado terá sempre mais. Se não tiver, não será mais um Estado em condições de funcionar. “Quem tem armas”, nessa definição mínima de democracia, são os políticos que controlam as Forças Armadas. A democracia entra em falência quando uma autoridade eleita com poder de comando sobre os generais se recusa a desistir desse poder. Ou quando os generais se recusam a obedecer.
Isso significa que os outros atores com a capacidade de desferir um golpe mortal na democracia em 20 de janeiro também estavam sentados perto de Trump: os comandantes militares dos EUA. Caso se recusassem a acatar as ordens de seu novo comandante em chefe — por exemplo, se decidissem que ele não merecia receber os códigos de acionamento do arsenal nuclear —, não haveria cerimônia capaz de esconder que a posse era uma encenação vazia. Um dos motivos para a atmosfera de relativa hilariedade em nosso salão de conferências de Cambridge era o rumor, rapidamente espalhado, de que Trump já tinha o controle dos botões desde o café da manhã. E a piada é que era uma sorte ainda estarmos vivos. Mas nenhum de nós acharia graça se os comandantes militares tivessem preferido deixar o novo presidente no escuro. Mais alarmante ainda que um novo presidente errático de posse de tanto poder de destruição é a ideia de que os generais decidissem que esse poder ficaria só com eles.
Ainda assim, em relação aos generais vale a pena perguntar o mesmo que perguntamos quanto ao presidente em exercício: a partir de que momento seria apropriada a desobediência às ordens de um comandante em chefe eleito conforme as regras? Trump tomou posse cercado de boatos de que estava sob influência de uma potência estrangeira. Sua inexperiência era óbvia, sua irresponsabilidade, provável, e seu comprometimento, possível. A democracia dos Estados Unidos já sobreviveu a coisas piores — se a inexperiência e a irresponsabilidade nas relações internacionais impedissem alguém de chegar à presidência, a história de seus governos teria sido outra. E é por sabermos que a democracia dos EUA sobreviveu a coisas piores que é tão difícil entender como devemos reagir agora. Em Cambridge, demos algumas risadas mas depois ficamos sentados num silêncio soturno. Em Washington, aconteceu o mesmo.
A posse de Trump nos permite esboçar três versões diferentes de como uma democracia como a dos Estados Unidos poderia falhar. A primeira é mais ou menos inimaginável: Trump vence, de acordo com as regras, mas o Estado se recusa a reconhecer sua vitória. As chaves da Casa Branca lhe são negadas pelo presidente em exercício, e os militares rejeitam sua autoridade. Esse caminho leva à guerra civil. E Obama excluiu essa possibilidade praticamente no momento em que se soube o resultado. A segunda é algo que podia ter ocorrido, mas não aconteceu: Hillary vence e Donald se recusa a reconhecer sua vitória. O que se segue não é necessariamente uma guerra civil. Tudo depende de quanta violência os decepcionados eleitores de Trump estarão dispostos tanto a infligir quanto a suportar. Jamais saberemos a resposta a essa pergunta. Meu palpite é de que, a despeito de todas as declarações inflamadas, o uso da violência nunca foi provável. Pode haver gente disposta a matar por Trump. Mas morrer por ele? Aí já é muito diferente.
O terceiro cenário é o que realmente aconteceu: Trump vence, e o establishment político dos Estados Unidos resolve sorrir amarelo e aguentar firme. Alguns embarcam com relutância em seu governo, na esperança de poder exercer uma influência estabilizadora. Outros fazem caretas e esperam que o pior não dure muito. Acreditam que as palavras de Trump ainda podem ser absorvidas e domesticadas pela flexibilidade das instituições democráticas. É uma aposta — e se Trump for indomesticável? —, mas nem tão arriscada assim. A alternativa — recusar-se a reconhecer Trump como presidente — parece muito mais perigosa. O risco da aposta não é tão catastrófico quanto o que o establishment político alemão decidiu correr em 1932-1933, quando os políticos que se achavam capazes de domesticar Hitler acabaram devorados por ele. Os Estados Unidos do século XXI não lembram em nada a Alemanha de Weimar. Suas instituições democráticas se fortaleceram com a experiência de mais batalhas. Sua sociedade é muito mais próspera. Sua população tem coisas muito melhores a fazer do que pegar em armas contra a democracia.
No momento em que escrevo, ainda não se sabe no que deu a aposta. Mas a vantagem parece estar ao lado da sobrevivência da democracia. Pode-se até dizer que, por Trump ter sido eleito, a democracia dos Estados Unidos está funcionando como deve. Existe um conflito em curso entre a ameaça destruidora de Trump e um sistema criado para suportar um grande potencial destrutivo, especialmente quando provém de um demagogo. O demagogo começa a descobrir o mundo de diferença entre as palavras e os fatos. É tolhido por instituições que resistem às suas cobranças de lealdade pessoal.
O Congresso não se mostrou tão dócil quanto ele pode ter esperado. Os tribunais também ergueram uma barreira contra decretos do Executivo. Sempre que surgem novas vagas, Trump as preenche, com algum sucesso, com juízes simpáticos à sua causa, por assim dizer. Isso contrasta com sua incapacidade, ou sua falta de disposição, para repovoar a burocracia da administração federal, onde muitos postos continuam vagos. Ainda assim, o número de tribunais e juízes é grande demais para que essa estratégia possa se mostrar decisiva a curto prazo. Como ocorreu com todos os outros presidentes dos EUA, os efeitos do seu impacto sobre o Judiciário só serão sentidos bem depois do fim do seu mandato. Qualquer revolta populista que espere contar com os tribunais para conseguir seus objetivos tende à frustração. Trump tem seus acólitos e seus companheiros de viagem, mas todos os presidentes também tinham. Além de seu círculo imediato, que não para de encolher, as instituições da democracia do país se mostram relativamente resistentes a toda tentativa de captura.
Para os partidários mais encarniçados de Trump, porém, esse resultado não difere muito do primeiro cenário. Dizem eles que o Estado não se recusou a lhe entregar o poder, deixando de reconhecer sua vitória, porque não precisava de uma atitude tão explícita. Em vez disso, o “Estado profundo” decidiu minar a presidência de Trump desde o seu primeiro dia de mandato. A traição corre solta nos bastidores. Segundo essa narrativa, a democracia já parou de funcionar há muito tempo, porque nenhum presidente decidido a desafiar o establishment político jamais conseguiria se sair bem. Não houve um golpe contra Trump. Ainda assim, fala-se com insistência de golpe desde a sua posse: simpatizantes acusam os inimigos de seu próprio partido, além do establishment liberal, de participação num complô para obrigá-lo à submissão. O inflamado comentarista político conservador Rush
Limbaugh fala de um “golpe silencioso”.5 Parece até que ninguém mais sabe o que significa um golpe de Estado.
Para os opositores mais ferrenhos de Trump, em contraste, vivemos uma variante modificada do segundo cenário. Embora Trump tenha vencido, ele jamais aceitou a principal consequência de sua vitória: começar a se comportar como um presidente. Nem sequer admite que tenha perdido no voto popular, alegando ter sido vítima de fraude. Pela primeira vez na história, o vencedor se recusa a aceitar o resultado de uma eleição presidencial. A ciência política tem pouco a dizer a respeito porque o fato não se enquadra em nenhuma teoria conhecida sobre a democracia. O presidente Trump não tolera críticas, e não há fato que não conteste, se isso for do seu interesse. Começou ainda na posse, quando divulgou que o público presente era imenso, apesar de todos os indícios em contrário. Trump governa sem respeitar os limites da civilidade democrática, que obriga qualquer um a reconhecer que pode haver verdade do outro lado. Ele faz pouco do próprio sistema que o tolera.
Assim, enquanto Trump trava uma batalha permanente com as instituições democráticas de seu país, há outro debate em andamento entre pessoas que se recusam a aceitar que essa seja a verdadeira história. Vivem no mundo das sombras das teorias da conspiração e dos fatos alternativos. Um mundo que se baseia no pressuposto de que um retrato verdadeiro do que acontece só pode ser compreendido imputando motivações antidemocráticas aos principais atores em cena. Pode parecer que a democracia está funcionando, mas a verdade é que não, porque o outro lado não está mais jogando conforme as regras. Nos termos dessa forma de intolerância mútua entre as partes, a ordem política já entrou em colapso, mas ninguém admite ainda. Em vez de uma guerra civil sem combate, temos embates verbais sem guerra civil.
A existência desse submundo de conflitos partidários torna difícil avaliar o tamanho dos problemas que a democracia dos EUA atravessa. Se houvesse uma série de cadeiras vazias no palanque no dia da posse de Trump — ou se não tivesse havido cerimônia alguma —, a ameaça à democracia seria bem visível. As linhas de batalha teriam sido claramente definidas, e ninguém poderia duvidar delas. O mesmo seria verdade se o evento tivesse rebentado em violência, como alguns temiam. Saberíamos onde estamos. Mas nada aconteceu aquele dia para sinalizar que o jogo tenha acabado. A afronta à democracia foi só caricatural. Todo o resto aconteceu da maneira esperada, de acordo com as regras do jogo. Os protestos foram irados, mas respeitosos. Os dignitários preservaram sua dignidade mais ou menos intacta. Se existe alguma coisa profundamente errada na democracia dos Estados Unidos, ela está escondida bem à vista de todos.
Como muita gente, passei boa parte do tempo desde a posse de Trump pensando em Trump. O que talvez seja um erro. Os Estados Unidos podem não ser o lugar certo para antecipar o fim da democracia, por mais que seu presidente atual chame a nossa atenção. O mundo assistiu a tudo em transe, no dia 20 de janeiro de 2017, porque era difícil desviar os olhos. O teatro da presidência de Trump é irresistível, e absurdo. Versões menos irresistíveis e menos absurdas do mesmo drama vêm sendo apresentadas em outros lugares. As linhas de batalha podem ser traçadas com mais clareza nos países onde as eleições foram vencidas por políticos antiestablishment mais de esquerda do que de direita, ou onde as instituições democráticas são menos entrincheiradas, ou mais fáceis de cooptar. Se a extinção da democracia requer, em última instância, um enfrentamento total entre militares e civis, ou uma clara tomada do poder por forças autoritárias, existem muitos países onde a probabilidade de que ela aconteça é bem maior que nos Estados Unidos. Este livro, portanto, não vai falar apenas dos EUA: vamos olhar também para Delhi e Istambul, para Atenas e Budapeste. A presidência de Trump pode acabar desviando nossa atenção de ameaças mais graves enfrentadas pela democracia noutras paragens.
Mas os Estados Unidos ainda contam. E se a verdadeira história for o que consideramos menos digno de atenção? Não digo isso como um adepto de teorias da conspiração poderia argumentar. Não estou sugerindo que as momices de Trump sejam uma tentativa deliberada de desviar nossa atenção de alguma agressão mais articulada às instituições democráticas. Ainda acredito que Trump é exatamente o que parece. O problema é que é difícil entender o que ele parece. Ele é cômico e ameaçador, familiar e estranho, está tanto dentro quanto fora dos limites do que a democracia pode tolerar. Minha reação confusa à sua posse — um choque seguido de uma ausência de choque, tudo no espaço de quinze minutos — não se limitou àquele momento. É assim que ainda me sinto. Trump, mais que qualquer outro político da história democrática recente, evoca ao mesmo tempo emoções contraditórias. É ridículo e terrivelmente sério. É incompreensível e transparente como uma criança. É motivo para pânico e motivo para manter a calma e seguir em frente.
Trump importa a partir do momento em que entra em cena na história da democracia dos EUA: não no fim, mas em algum ponto intermediário, que ainda vai se revelar como o começo do fim. Os Estados Unidos não são apenas a democracia mais importante do mundo; são também uma das mais antigas. Discute-se muito qual seria a data do início da democracia no país. Parte dela começou ainda no princípio, com a fundação da República em 1776. Mas uma República baseada na escravidão não pode ser considerada uma democracia no sentido moderno. Mesmo com o fim da escravatura, muitos cidadãos ainda viviam sem plenos direitos. Foi só no século XX, com a emancipação das mulheres e, mais tarde, com o movimento dos direitos civis, que finalmente começou algo parecido com o que hoje chamamos de democracia. Feita a conta, a democracia atual dos EUA tem menos de cem anos, e talvez não mais do que cinquenta ou sessenta. Em termos políticos, não é uma idade avançada. Mas tampouco é a juventude, haja vista a quantidade de democracias extintas antes de nem sequer ter a chance de começar. A democracia dos Estados Unidos está na meia-idade. A democracia da antiga Atenas viveu duzentos anos antes de expirar. Em comparação, a estadunidense nem se encontra no meio do caminho.
Nunca é fácil pensar na morte — muito menos na morte de quem pensa.
Mas a meia-idade é o momento em que ela passa a frequentar nossos pensamentos. Você sabe que a morte está vindo — não é mais possível acreditar, como na juventude, que a mortalidade só afeta os outros. Chegar à meia-idade é ter sobrevivido o suficiente para aprender a reconhecer os sinais. Um colapso dramático é possível — acontece com muita gente. Ao mesmo tempo, tratar cada dor e incômodo como um sinal de que o fim está próximo é francamente ridículo. A hipocondria, por si só, é uma doença. A vida ainda pode ser vivida, e o melhor pode ainda estar por vir. Eis o ponto em que se encontra a democracia dos Estados Unidos.
A história do pensamento político está coalhada de comparações entre a vida artificial dos Estados e a condição natural dos seres humanos. Essas analogias são muitas vezes mal construídas, e nem inspiram respeito. Refletir sobre a mortalidade do corpo político pode ser apenas uma desculpa para defender sua continuidade a qualquer preço. “O rei está morto! Longa vida ao rei!” Ainda assim, a política pode aprender alguma coisa com a maneira como as pessoas envelhecem. A democracia dos EUA chegou à meia-idade cansada e com muitos achaques. Não é imune à hipocondria. Ter medo da morte por qualquer motivo ínfimo não é a mesma coisa que pensar seriamente sobre a morte. E esse medo torna uma ação refletida mais difícil, porque tende a gerar uma sensação de desamparo. E também pode dar origem ao tipo de destemor produzido pela convicção de que temos pouco a perder. Há muitas maneiras diferentes de viver uma crise da meia-idade. Os Estados Unidos podem estar experimentando várias delas ao mesmo tempo.
O defeito mais evidente de qualquer analogia entre a vida dos regimes políticos e a dos seres humanos é que sabemos mais ou menos quanto tempo os seres humanos conseguem viver. Ou pelo menos julgamos saber. No caso dos Estados, não temos a menor ideia. Só porque a democracia ateniense morreu aos duzentos anos não quer dizer que essa seja a condição natural da democracia. Mesmo que a democracia dos EUA se encontre em algum ponto intermediário de sua existência, não dispomos de nenhum modo seguro de saber se está mais próxima do início ou do seu fim.
Ao mesmo tempo, começam a crescer as dúvidas sobre o lado humano da equação. Em alguns lugares, entre eles o Vale do Silício, um pequeno número de privilegiados está começando a contemplar sua eventual imortalidade. O progresso tecnológico parece indicar que os primeiros indivíduos a transformar radicalmente a duração natural da vida — seja estendendo suas vidas por duzentos anos, ou 2 mil, ou mesmo para sempre — podem já estar vivos. Em breve, é possível que a democracia dos EUA comece a dar mais sinais de mortalidade que algumas das pessoas que nela vivem. A necessidade de manter vivo o Estado sempre partiu da premissa de que ele sobrevivia aos seus cidadãos: eis de onde vinha o imperativo de morrer por ele quando convocados à guerra. E se agora for a vez de o Estado morrer por eles? A lógica da longevidade pode estar mudando.
O protagonista da posse de Donald Trump foi um velho com a personalidade política de uma criança, assumindo a chefia de um Estado no desconforto de sua meia-idade, num momento em que a mortalidade humana não é mais um dado absoluto. É tempo de repensar o que significa, para a democracia, viver ou morrer.
Voltaremos a Washington. Mas, antes, precisamos passar por Atenas.