Como a Democracia Chega ao Fim

David Runciman · Capítulo 9 de 13

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Como a Democracia Chega ao Fim

Leituras recomendadas

 

Faz algum tempo que venho pensando nos muitos problemas que a democracia enfrenta. Muitos outros pensaram e escreveram sobre o mesmo tema. Além dos livros e artigos a que me refiro em meu texto, há muito mais que merece ser lido, e indico aqui algumas das obras que ajudaram a informar o meu pensamento. Não concordo com todas, e muitas vezes meu livro tenta dizer coisas bem diferentes. Mas são todas ricas em boas ideias e dignas de interesse.

Em relação às grandes questões que preocupam os cientistas políticos do nosso tempo — o que faz com que a democracia dure e o que a faz regredir —, uma resposta de peso é dada por Daron Acemoglu e James Robinson em Why Nations Fail: The Origins of Power, Prosperity, and Poverty (Nova

York: Crown Business, 2012; Londres: Profile, 2013).1 Eles apontam as instituições fidedignas como a chave para a estabilidade política. E esta é uma versão mais acessível do livro anterior deles, o clássico The Economic Origins of Dictatorship and Democracy (Cambridge: Cambridge University Press, 2005). O primeiro livro contém algumas equações. O segundo, não.

Francis Fukuyama — ainda conhecido principalmente por The End of

History and the Last Man 2 (Nova York e Londres: Free Press, 1992) — relata a seu modo a ascensão e a possível queda da democracia em The Origins of Political Order (Nova York: Farrar, Straus & Giroux; Londres: Profile,

2012)3 e em Political Order and Political Decay (Nova York: Farrar, Straus

& Giroux, 2014; Londres: Profile, 2015).4 O segundo volume, em especial, com sua preocupação em torno da inflexibilidade da “vetocracia” estadunidense, deveria dissipar qualquer ilusão que ainda resta quanto a Fukuyama ser um jovial otimista.

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt publicaram seu livro How Democracies Die: What History Tells Us about Our Future (Nova York: Crown; Londres: Viking, 2018) tarde demais para que eu pudesse responder a seus argumentos neste livro. Adotam uma linha diferente da que trabalho, usando a história da falência da democracia para servir de guia de como e por que a democracia dos Estados Unidos pode dar errado no presente e no futuro. É o relato mais atualizado que temos do que causa o “retrocesso” da democracia, e de como Trump deve ser avaliado desse ponto de vista. Espero que meu livro, com seu título semelhante mas com muitas diferenças, complemente o deles, e não o contradiga.

O periódico The Journal of Democracy vem publicando nos últimos anos muitos artigos poderosos sobre a questão das fraquezas atuais da democracia. Alguns são bastante sombrios. Além do artigo sobre os golpes de Estado de Nancy Bermeo, que discuto neste livro, dois artigos que muito me influenciaram foram “The Democratic Disconnect” [A desconexão democrática], de julho de 2016, e “The Signs of Deconsolidation” [Os sinais da desconsolidação], de janeiro de 2017, ambos de Yascha Mounk e Robert Stefan Foa. Eles enfatizam as pesquisas de opinião e outros indícios que sugerem um possível declínio do apego aos valores democráticos nas democracias estabelecidas, especialmente entre os jovens.

Existem muitos livros excelentes sobre o que deu errado com a democracia na década de 1930. Richard J. Evans, que hoje vê paralelos entre a falência da democracia no período de Weimar e a ascensão de Donald Trump, conta a história original em The Coming of the Third Reich (Nova

York: The Penguin Press, 2004; Londres: Allen Lane, 2003).5 O relato mais poderoso sobre como a democracia dos Estados Unidos chegou perto da catástrofe na década de 1930, e os entendimentos graças aos quais a catástrofe foi evitada, é o livro de Ira Katznelson, Fear Itself: The New Deal and the Origins of Our Time (Nova York e Londres: Liveright, 2014).

Voltando ainda mais no tempo, o livro de Paul Cartledge, Democracy: A Life (Nova York e Oxford: Oxford University Press, 2012, 2016), revive a política da antiga Atenas no presente, em toda sua complexidade e estranheza. Livro de tipo muito diferente é o de David A. Moss, Democracy: A Case Study (Cambridge, MA: Bellknap Press, 2017), em que o autor avalia episódios da história da democracia dos Estados Unidos — seus sucessos e fracassos — segundo os critérios de avaliação da Escola de Administração de Harvard. Não é uma abordagem que vá agradar a todos os gostos, mas revela o quanto as extensões do direito de participação foram instrumentais para tirar a democracia de seus entraves periódicos, e como pode ser difícil obter o mesmo efeito nos dias de hoje.

Na teoria política contemporânea, um livro de Nadia Urbinati, Democracy Disfigured: Opinion, Truth and The People (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2014), realiza um trabalho magistral ao distinguir as diferentes maneiras como a democracia contemporânea pode transformar o povo em espectadores. Junto com seu livro anterior, Representative Democ-racy: Principles & Genealogy (Chicago: University of Chicago Press, 2006), que caracteriza a democracia como a política do “pensando melhor”, a obra exerceu uma influência profunda sobre a maneira como entendo a política moderna.

Um grande número de livros mais recentes leva a sério o fenômeno das teorias da conspiração. Um dos primeiros, e ainda um dos melhores, é o de Kathryn Olmsted: Real Enemies: Conspiracy Theories and American Democracy, World War I to 9/11 (Nova York: Oxford University Press, 2009). O livro de Pankaj Mishra, Age of Anger: A History of the Present (Nova York: Farrer, Straus & Giroux; Londres: Allen Lane, 2017), conta uma longa história da fúria política popular que vem desde Jean-Jacques Rousseau e chega ao atual ataque às elites em todo o mundo. Mishra junta os pontos entre o nacionalismo italiano do século XIX, de um lado, e Trump e Modi, de outro. Jan-Werner Muller, em What is Populism? (Filadélfia: University of Pennsylvania Press, 2016; Londres: Penguin Books, 2017), traz um breve e vigoroso relato do que distingue o populismo contemporâneo como uma forma de política à parte.

O livro que ajudou a dar início à indústria do risco para a existência, ou “risco existencial”, foi a obra de Martin Rees, Our Final Century? Will the Human Race Survive the Twenty-First Century? (Londres: William Heinemann, 2003). A versão em brochura foi publicada sem o primeiro ponto

de interrogação.6 Nick Bostrom, em Superintelligence: Paths, Dangers,

Strate-gies 7 (Oxford: Oxford University Press, 2014), destaca os potenciais riscos catastróficos da inteligência artificial para um público amplo, inclusive o Vale do Silício. O livro de Sonia (S. M.) Amadae, Prisoners of Reason: Game Theory and Neolib-eral Political Economy (Cambridge: Cambridge University Press, 2016), faz a ligação entre a guerra nuclear, a teoria dos jogos e a economia contemporânea, e nos mostra que alguns tipos de risco para a nossa existência nada têm de novo.

Para outras reflexões sobre a história complexa da relação entre Estados e empresas — e os modelos híbridos que já existiram —, um estudo oportuno é International Order in Diversity: War, Trade and Rule in the Indian Ocean, de Andrew Phiips e J. C. Sharman (Cambridge: Cambridge University Press, 2015). Os autores acreditam que a hegemonia do Estado soberano é a exceção, e não a regra, mesmo na história relativamente recente. E podem ter razão.

Proliferam hoje livros que tentam dissecar o que a tecnologia digital significa para o funcionamento da democracia. A obra de Frank Pasquale, The Black Box Society: The Secret Algorithms That Control Money and Information (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2015), explica por que deixar que os algoritmos tomem decisões por nós será ruim para a democracia. Pelo lado positivo, o livro de Geoff Mulgan, Big Mind: How Collective Intelligence Can Change Our World (Princeton, NJ: Princeton University Press, 2017), explora o potencial de resolução de problemas criado pelo aprendizado de máquinas para a democracia. Em Political Turbulence: How Social Media Shape Collective Action (Princeton, NJ: Princeton University Press, 2015), Helen Margets e seus coautores desfazem algumas ilusões quanto às câmaras de eco e à prevalência do pensamento de grupo na internet. Como sempre, a história verdadeira é, ao mesmo tempo, melhor e pior do que podemos imaginar.

Neste livro, eu me refiro a romances, além de obras de não ficção. Um que não discuto é o romance de Philip Roth The Plot Against America (Boston:

Houghton Mifflin; Londres: Jonathan Cape, 2004).8 De muitas maneiras, esse romance vai contra os temas que tento abordar, porque Roth imagina uma versão alternativa dos Estados Unidos do início da década de 1940 em que um fascista consegue chegar à Casa Branca. Roth deseja nos fazer refletir sobre como algo que não aconteceu no passado pode ainda assim voltar a acontecer. Escreveu mais de uma década antes de Trump, no período de George W. Bush e da Lei Patriótica. Mesmo na era Trump, não acho que o passado alternativo de Roth seja o nosso futuro coletivo. Ainda assim, trata-se de uma das obras de ficção mais assustadoras e irresistíveis que já li na vida.