Como anda Salvador e sua região metropolitana

Inaiá Maria Moreira de Carvalho · Capítulo 2 de 10 · parte 2/3

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Como anda Salvador e sua região metropolitana

A economia de Salvador e a formação de sua Região Metropolitana

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

implantado (o Centro Industrial de Subaé, também em 73).9

O presente texto já chamou a atenção para o fato de que a ausência de uma base industrial diversificada e complexa, reunindo empresas de diversos ramos e tamanhos e operando com externalidades positivas geradas por sua própria expansão, explica, em grande parte, a relativa estagnação econômica de Salvador nos anos 1990-2000 e, por conseguinte, seus recordes de desemprego. Como se viu, a "industrialização", dos anos 1950-1980, apesar dos efeitos multiplicadores dos seus investimentos, não criou essa base. É importante sublinhar que isso não se deveu exclusivamente ao caráter capital-intensivo da nova indústria, caso se entenda, por isso, de um modo simplista, uma elevada relação técnica capital/trabalho. É preciso lembrar que a hiperconcentração setorial e da propriedade do capital, nessa indústria, reduziu também seus efeitos indiretos e induzidos. Primeiro, porque sua natureza de "quase enclave" implicou "vazamento" extra-regional da sua própria demanda de insumos; segundo, porque a concentração dos rendimentos do capital reforçou a concentração da renda do trabalho implícita na limitada geração de empregos diretos, com postos inicialmente bem remunerados, mas acessíveis apenas a uma minoria de trabalhadores qualificados; e, terceiro, porque implicou "fugas" e "vazamentos" extra-regionais do excedente, na medida em que os grandes grupos econômicos envolvidos usaram seus lucros locais para impulsionar seus investimentos em outros estados e países. Todos esses elementos ficaram mais evidentes nos anos entre 1990-2000, quando a ampliação da indústria petroquímica regional (expansão da RLAM e do COPEC) se fez em paralelo à redução do já limitado emprego direto, do uso intensivo do outsourcing, da reconcentração do capital e de seu controle e da mudança das sedes de empresas locais para o Sudeste.

Diga-se, ainda, que tais efeitos multiplicadores só não foram menores na medida em que a tributação sobre a nova indústria incrementou os gastos públicos estaduais com custeio e investimento. Coube, em princípio, ao governo estadual, através desses novos recursos ou do endividamento que eles permitiram, ampliar os efeitos indiretos e induzidos da nova indústria, não apenas na RMS, mas, também, em outras regiões do estado. O problema é que esse processo também foi limitado pelo fato de o executivo estadual ter de bancar o grosso dos incentivos fiscais no período seguinte, marcado não apenas pelo colapso dos antigos mecanismos nacionais de financiamento (FINOR, SFH etc.), mas, sobretudo, pela omissão federal em relação aos programas regionais de industrialização.

 

A economia de Salvador entre 1950 e 1980 -

impacto limitado da nova agricultura estadual

Em contraste com a nova indústria, a produção agrícola baiana cresceu lentamente após 1950, compensando, parcialmente, a queda da fertilidade natural dos solos, secularmente utilizados, com a expansão mais acelerada da área cultivada. A fronteira agrícola foi ampliada, estendendo-se em direção às regiões do vale do São Francisco, Extremo-Sul e Oeste do estado. É fato ainda que, na década de 1970, acelerou-se a transformação das relações de produção no campo, com a expansão da força de trabalho assalariada e volante, residente na periferia de cidades do interior -os "bóias-frias". Mas a modernização da produção ocorreu vagarosamente na maior parte das lavouras e, esse atraso tecnológico, só seria revertido a partir da década de 1980, com a expansão da sojicultura mecanizada nos cerrados da região de Barreiras, no Além-São Francisco, da fruticultura irrigada (melão, manga, uvas) no norte do vale do mesmo rio e da produção de celulose no sul do estado.

Entre 1950 e 1980, os principais produtos agrícolas exportados pela Bahia foram cacau (amêndoas, manteiga e torta), sisal e algodão (fibras), mamona (óleo) e fumo. Foi somente por volta de 1985 que a pauta de exportações agrícolas começou a se expandir, com o café, a soja e algumas frutas (mamão e laranja). Os principais alimentos cultivados foram mandioca, feijão, milho e cana-de-açúcar. No setor pecuário, destacou-se somente a criação de gado bovino para corte e, apenas como atividade subsidiária, para leite.

A Bahia continuou concentrando cerca de 90% da produção brasileira de cacau, destinando-o, principalmente, à exportação (idem, p. 138). Em 1962, o governo federal criou a CEPLAC -Comissão Executiva do Plano de Recuperação Econômico-Rural da Lavoura Cacaueira, órgão de pesquisa, desenvolvimento e financiamento da produção, que introduziu, em vinte anos, novas espécies, de maior produtividade, forneceu fertilizantes e defensivos e apoiou a renovação dos cacauais antigos, conseguindo, através dessas medidas, elevar a produtividade por hectare na cacauicultura baiana. A produção voltou a crescer a partir da segunda metade da década de 1960, depois de ter permanecido estagnada entre o imediato pós-guerra e 1965. A cacauicultura baiana, entretanto, não recuperou jamais a posição privilegiada que detinha no mercado internacional até os anos de 1930. Na segunda metade dos anos 80, após vários anos de boom, puxado por uma extraordinária alta dos preços internacionais, seria quase dizimada por uma praga oriunda da Amazônia, a vassourade-bruxa, provocada por um fungo, o Crinipellis perniciosa.

A produção estadual de cana-de-açúcar, ainda concentrada no Recôncavo, cresceu lentamente no pós-guerra. Foram necessários cerca de 20 anos (1950-1970) para que dobrasse. Áreas tradicionalmente produtoras do Recôncavo foram abandonadas, em razão da extração do petróleo e da implantação das novas indústrias, ou como conseqüência da fragmentada estrutura fundiária regional, que retardou a mecanização da lavoura ao exigir prévia concentração da propriedade da terra. A expansão da área cultivada total, bastante apreciável entre o início dos anos 60 e a primeira metade da década de 1970, ocorreu graças à difusão da cana em outras regiões do estado, que não objetivava, necessariamente, o crescimento da produção usineira de álcool ou açúcar, mas a elaboração artesanal ou semi-artesanal de aguardente, rapadura e forragem para o rebanho bovino. A produtividade média por hectare, que já era baixa, continuou caindo, e isso apesar do uso mais intenso de fertilizantes e defensivos nas poucas fazendas controladas por usinas. Praticamente até meados dos anos 70, não havia ocorrido introdução de novas variedades mais rentáveis, nem progresso técnico considerável nas atividades de plantio e colheita (idem, p. 143).

O número de usinas de açúcar decresceu consideravelmente. Das 20 usinas em funcionamento em 1920, no Recôncavo, restavam 10, em 1965, e apenas 5, no início da década de 70 (CONDER, 1973, p. 81). E só duas sobreviveram até a virada do século. A Bahia, um dos maiores centros açucareiros do mundo durante o período colonial, tornou-se importadora de açúcar refinado. Alguns poucos projetos canavieiroaçucareiros, desenvolvidos no estado a partir dos anos de 1970, optaram pelas regiões de fronteira no vale do São Francisco. Mais grave: a produção de álcool-combustível não se viabilizou como alternativa real para a recuperação da atividade, pois as novas usinas de álcool-cana se concentraram em outras regiões do país, dotadas de uma lavoura canavieira mais avançada tecnicamente e próxima dos principais mercados para o produto.

Outras atividades agropecuárias floresceram na Bahia entre 1960 e 1980, sendo que algumas delas foram, inicialmente, consideradas muito promissoras. Todavia, após algum crescimento, perderam quase todo o dinamismo inicial, exceção feita à cafeicultura, beneficiada pela política federal de descentralização dos cafezais e protegida pelo crédito subsidiado. Na região de Guanambi, o algodão sofreu com a praga do "bicudo" e a instabilidade de preços. No Recôncavo, a citricultura e a avicultura foram esmagadas pela concorrência nordestina (laranja) ou paulista e mineira (laranja e aves). Nas áreas de horticultura (principalmente tomate e cebola), o grande entrave foi o lento crescimento da indispensável irrigação e do sistema estadual de comercialização e crédito. A Bahia, e Salvador particularmente, continuaram importando de outras regiões do país uma parcela relevante dos alimentos consumidos, fato que as estiagens, isoladamente, não podiam explicar.

Como a utilização de matérias-primas regionais foi limitada, basicamente, ao aproveitamento de parte das reservas minerais do estado, especialmente o petróleo, a nova indústria estabeleceu conexões pontuais com a agropecuária baiana. É verdade que o processamento da produção agropecuária regional avançou entre 1950 e 1980, pois surgiram novas empresas agroindustriais exportadoras, voltadas para o processamento do cacau, de óleos vegetais (dendê e mamona), celulose e papel, fibra de sisal e frutas (sucos e concentrados). Além disso, modernizou-se a produção de alimentos destinados aos mercados locais, com a implantação de matadouros industriais e frigoríficos, granjas modernas e fábricas de leite pasteurizado e em pó. Mas o processamento agroindustrial continuou sendo realizado de forma limitada, esbarrando sempre nos baixos níveis de produtividade e de volume de produção alcançados pela produção baiana de matérias-primas agrícolas, pouco capitalizada e sujeita, ciclicamente, aos efeitos das secas.

É necessário lembrar, ainda, que os focos e surtos de desenvolvimento agroindustrial se desenvolveram em regiões do estado cada vez mais distantes de Salvador. No hinterland metropolitano, o quadro, no período, foi de rápido esvaziamento da economia rural, e isso apesar de uma ou outra atividade agropecuária ter se desenvolvido pontual e temporariamente.

No Litoral Norte da capital, uma região marcada pela concentração fundiária, a decadência da produção açucareira levou a tentativas efêmeras de exploração da citricultura para suco, do coco e da madeira (primeiro para carvão vegetal e, depois, para celulose). Mas nenhuma dessas atividades tem relevância econômica, no início deste século XXI, voltando-se essa microrregião para uma relativamente bem sucedida combinação de indústria, serviços e veraneio (Camaçari) e de veraneio e turismo em destinos como Praia do Forte e Sauípe, no município de Mata de São João, beneficiados pela implantação de uma rodovia litorânea unindo Salvador à fronteira de Sergipe - a Estrada do Coco, aberta na metade dos anos 70, e sua extensão, a Linha Verde, ou BA-099, inaugurada em 1993.

Nas microrregiões do Paraguaçu (Feira de Santana), nos tabuleiros do Recôncavo e no Recôncavo Sul, a evolução da agricultura foi definida pelo declínio continuado dos complexos da cana-de-açúcar, baseado na grande propriedade, e do fumo, assentado no minifúndio, cujos eventos símbolos foram o fechamento de tradicionais usinas e manufaturas de charutos. Houve ensaios localizados de substituição dessas lavouras, com maior ou menor sucesso, como nos casos da exploração do dendê (Cachoeira), da celulose do bambu (Santo Amaro), da citricultura (Cruz das Almas) e da avicultura (Conceição de Feira). No entanto, a única atividade rural, praticada em larga escala, que sustentou um dinamismo moderado no período foi a pecuária bovina de corte, centrada em Feira de Santana e voltada para o abastecimento de Salvador.

Nessas três últimas microrregiões, isso é, no tradicional arrière-pays de Salvador, a transição do século XX para o XXI seria marcada, assim, pelo esvaziamento do campo e pela aposta em combinações restritas de investimentos industriais e atividades de serviços. Na indústria de transformação, vale a pena lembrar a implantação do já citado distrito de Feira de Santana, o Centro Industrial de Subaé, extensão do CIA, e, no período seguinte (entre os anos de 1990-2000), de algumas fábricas de calçados dispersas em pelo menos cinco municípios do Recôncavo. No caso dos serviços, é necessário notar a permanência do tradicional pequeno centro de varejo de Santo Antônio de Jesus, a expansão do ensino superior em Feira de Santana e outras cidades, com uma universidade estadual (UEFS), campi da UNEB e faculdades privadas e o crescimento dos serviços de saúde (em Feira). Além disso, desde o início dos anos 80, acreditou-se no estímulo ao turismo (Cachoeira e vários outros municípios), ainda que isso tenha mostrado uma performance sempre aquém da esperada e bem distante do movimento alcançado pelos destinos turísticos da RMS e do Litoral Norte.

Feitas todas essas ressalvas, é possível admitir que o aparecimento, na Bahia, de uma nova agroindústria, ainda que muito dispersa e também fortemente subsidiada, não deixou de repercutir positivamente sobre a economia de Salvador. De fato, as exportações agroindustriais ajudaram a sustentar o movimento do porto da capital e das atividades de serviços relacionadas ao comércio de exportação. Além da sustentação da atividade de exportação na capital, é importante ressaltar que o comércio de Salvador absorveu parte da demanda indireta e induzida por esses núcleos agroindustriais, o que também foi facilitado pela expansão e asfaltamento da rede rodoviária estadual, notadamente com a construção das BRs 101 e 242 - a primeira acompanhando o litoral e religando o estado ao Centro-Sul e ao Nordeste do país e, a segunda, unindo Salvador à Chapada Diamantina, aos cerrados do Além São Francisco e à Brasília. No entanto, esses efeitos foram limitados pelo caráter quase sempre pontual dos novos empreendimentos agroindustriais.

A opção por uma indústria de processo contínuo, automatizado, como a petroquímica, extremamente concentrada, não apenas do ponto de vista espacial, mas também no que diz respeito à propriedade do capital e à geração de renda, combinou com o relativo atraso, quase conseqüente, haja vista a escassez de recursos, da transformação agroindustrial do campo baiano. A Bahia, que não conseguiu construir uma agropecuária capitalista moderna na primeira metade do século XX, também não o fez nas três décadas que se seguiram ao pós-guerra. Na medida em que a agroindústria foi a principal atividade industrial criadora de empregos, no final do século XX, esse atraso cobrou seu preço em termos de êxodo rural e taxas elevadas de desemprego rural e urbano.

Vale a pena lembrar, ainda, que o declínio das duas principais lavouras de exportação do hinterland de Salvador não levou ao esperado desenvolvimento de um verdadeiro "cinturão verde", que melhorasse as condições de abastecimento da cidade e, ao mesmo tempo, permitisse o fortalecimento de uma nova classe média rural. As causas foram várias, a começar pela permanência de uma estrutura agrária polarizada entre a grande propriedade e o minifúndio. Além disso, corroboraram a falta de políticas governamentais consistentes e permanentes de financiamento e apoio tecnológico, as prioridades dadas ao uso do solo e da água (industrialização e abastecimento urbano), o incremento do preço da terra, a ausência de tradição cultural, tanto para a produção quanto para o consumo de hortícolas e, last but not least, a opção pela construção de um sistema público de abastecimento alimentar (Cesta do Povo, 1979; Empresa Baiana de Alimentos, 1980), fundado em uma estratégia de compras nacionais, exceção feita da farinha de mandioca adquirida localmente (ver, por exemplo, Maluf, 1999).

 

A economia de Salvador entre 1950 e 1980 -

urbanização concentrada e expansão dos novos

serviços

Acompanhando a implantação da nova indústria, a urbanização na Bahia ganhou novo ritmo após 1950. Essa aceleração do crescimento urbano, um processo concentrado em Salvador e seu entorno, se deu simultaneamente ao desenvolvimento de um "terciário moderno", para adotar a terminologia da época. A visão convencional descreve essa retomada da expansão urbana, e o conseqüente desenvolvimento dos serviços na capital, como resultado exclusivo da "industrialização", que se traduz numa determinada representação do funcionamento da economia regional, dominante desde os anos de 1960 e, ainda hoje, entre técnicos e policy makers baianos, a saber: o modelo de "base exportadora". Segundo essa representação, a grande indústria, sempre dinâmica porque voltada para a exportação, leva a reboque um "terciário" de crescimento derivado e sempre dependente da demanda local.

Os efeitos multiplicadores dos investimentos industriais no CIA e no COPEC foram mais que significativos, como se viu, e não podem ser negados. Contudo, para explicar o ritmo da urbanização e o avanço da terciarização na RMS deve-se levar em conta, além dos novos investimentos industriais, as transferências federais e os investimentos estatais e privados em outros segmentos da economia baiana, bem como as dinâmicas próprias, autônomas, de várias atividades dos novos serviços, algumas das quais - o melhor exemplo é o turismo - desde sempre voltadas também para o mercado extra-regional.

Na segunda metade do século XX, a Bahia permaneceu um dos estados menos urbanizados do país - tinha, em 1980, segundo os elásticos critérios do IBGE, um grau de urbanização ainda muito inferior à média do Brasil, com 49,25% da sua população residindo em cidades, enquanto 67,57% da população brasileira já se encontrava nessa situação (IBGE, 1983). Esse fato refletia, de um lado, a peculiar estrutura agrária e agrícola da Bahia, com forte presença da pequena propriedade e lento progresso da produtividade, e, de outro, a inexistência de uma rede de cidades médias no estado, dado o baixo dinamismo das atividades econômicas em boa parte de suas microrregiões. Esse baixo dinamismo desviou parte do fluxo migratório oriundo do campo baiano para outros pólos do país, notadamente São Paulo, reduzindo as taxas de crescimento das cidades de porte intermediário na Bahia (Borges, 1993). O atraso da urbanização no interior não impediu, contudo, o avanço da "metropolização" de Salvador nas décadas de 1960 e 1970, um fenômeno, então, comum a várias das capitais brasileiras.

A população da Região Metropolitana de Salvador atingiu a marca dos 1,8 milhão de habitantes, em 1980, dos quais quase 1,5 milhão na capital. No resto do estado existiam, no mesmo ano, apenas oito centros urbanos com população superior a 60 mil habitantes e, desses, só três com mais de 100 mil (Almeida; Damasceno, 2005b). Essa situação se confirmou nos anos de 1980 e 1990. Das 10 cidades do interior do estado com população superior a 100 mil habitantes, em 2000, duas - Feira de Santana e Vitória da Conquista- cresceram a taxas semelhantes à verificada na capital na última década do século XX e apenas quatro se expandiram mais rapidamente - Barreiras, Camaçari, Lauro de Freitas e Juazeiro. Mas, desse conjunto de seis cidades médias que apresentaram algum dinamismo demográfico, duas delas, Camaçari e Lauro de Freitas, pertenciam a RMS e uma, Feira de Santana, a segunda cidade do estado, com cerca de 430 mil habitantes, era quase satélite de Salvador, sobretudo no que diz respeito à dependência da oferta de serviços superiores: serviços empresariais, ensino de pós-graduação, transporte aéreo etc. Além disso, é necessário frisar que a terceira cidade baiana em termos demográficos, Vitória da Conquista, tinha, em 2000, apenas 225 mil habitantes. Em síntese, num estado que praticamente não contava com aglomerações urbanas de porte médio, a capital, que havia crescido a taxas anuais de 3% a 5%, entre os anos de 1950-1990, começaria o século XXI na condição de metrópole absoluta.

A RMS, que alcançaria o patamar de pouco mais de 3,0 milhões de habitantes em 2000, 80% dos quais residindo na capital, constituiu-se num dos maiores mercados urbanos do país. Algumas razões para isso serão listadas a seguir; parte delas guarda relação longínqua com os efeitos indiretos ou induzidos pela nova indústria.

Salvador era a sede política e administrativa do estado, abrigando, além disso, instituições do governo federal e uma grande prefeitura, logo, um número considerável de funcionários públicos - cerca de 10% da população ocupada da cidade no final dos anos de 1980 (8,1% apenas na administração pública, segurança e defesa) (ver Almeida; Damasceno, 2005b). O desequilíbrio da malha urbana do estado não deixaria de reforçar esse efeito "capital" sobre a economia soteropolitana, que se traduziria, de saída, na presença de uma importante classe média empregada, integral ou parcialmente, pelo Estado.

Apesar da pobreza da maioria de sua população, e de uma elevada concentração de renda, mesmo para os altos padrões nacionais, o tamanho de Salvador permitiu, por si só, o desenvolvimento de uma pequena indústria urbana (alimentos, materiais de construção, construção residencial, mobiliário, gráficas) e assegurou a expansão de serviços pessoais, atraindo, inclusive, grupos econômicos não-industriais já instalados no eixo Rio-São Paulo. Esses grupos avançaram sobre setores até então controlados pelo capital de origem regional, como comércio varejista, serviços financeiros e entretenimento, impulsionando sua já iniciada modernização. Destaque-se, nesse movimento, a rápida transformação do varejo, impulsionada pela concorrência e materializada na expansão das lojas de departamento, supermercados e shopping centers, entre os anos de 1960 e 1970. Ainda que parte desse processo deva ser associada aos efeitos multiplicadores do CIA e do COPEC, é preciso reconhecer que se tratava de inovações organizacionais difundidas nos EUA a partir dos anos de 1920, as quais, mais cedo

ou mais tarde, acabariam por chegar também à capital da Bahia.10

Os investimentos da Petrobrás e a montagem de plantas industriais na Bahia e em outros estados do Nordeste permitiram a expansão de empresas baianas de construção civil pesada. Essas empresas, das quais o exemplo paradigmático foi a Odebrecht, cresceram, ainda, com o incremento do gasto público com obras de infra-estrutura - estradas, pontes, barragens, abastecimento de água, saneamento e avenidas -, entre o final dos anos 60 e a década de 80. No mesmo período, em Salvador, ocorreram a expansão da construção civil residencial e a valorização da terra urbana nos novos bairros de classe média (Pituba, Caminho das Árvores e outros), ambas impulsionadas pela criação do Sistema Financeiro de Habitação. A expansão residencial, por sua vez, incentivou o desenvolvimento dos serviços imobiliários, dos serviços pessoais e do varejo de bairro, bem como da pequena indústria e do comércio de materiais de construção.

O desenvolvimento do transporte aeroviário no país e o asfaltamento da estrada Rio-Bahia (1963) colocaram Salvador no mapa do turismo nacional: em 1968, foi criada a estatal Bahiatursa -Empresa de Turismo da Bahia. Nos anos seguintes, a implantação de unidades de cadeias hoteleiras, nacionais e internacionais, eliminaria o gargalo que era a falta de grandes hotéis na cidade, ressalvada a existência do Hotel da Bahia, construído pelo governo baiano e inaugurado em 1949. Assim, em meados dos anos 70, estavam dadas as condições para o primeiro grande boom do turismo soteropolitano (1974-1979), que resultaria em novos investimentos, com destaque para a construção do Centro de Convenções da Bahia, em 1979, e na consolidação do marketing turístico local, assentado no mix praia/música/carnaval (ver Spinola, 2000).

A educação superior - outro setor vital para a futura economia soteropolitana - também começaria a se desenvolver desde os anos de 1950-70. Em 1946 foi criada a Universidade Federal da Bahia, que cresceu até o final da década de 1970; nos anos 50, surgiram as primeiras faculdades privadas, inclusive a importante Escola Baiana de Medicina; em 1961, implantou-se a Universidade Católica de Salvador; e, em 1972, a FACS, que daria origem, nos anos 90, à UNIFACS, primeira universidade privada e laica do estado. A partir daí, inauguraram-se novas unidades privadas isoladas e, pouco mais tarde, entre 1983 e 1986, uma universidade pública estadual, a UNEB, com campi em várias cidades baianas, inclusive na capital, onde também se localiza sua reitoria. Tais empreendimentos tiveram um múltiplo papel para a economia soteropolitana, qualificando a força de trabalho local, incrementando sua capacidade empreendedora e atraindo recursos públicos federais e estaduais. Além disso, Salvador pôde dar continuidade a uma de suas mais tradicionais vocações: a acolhida de estudantes de outras regiões, que contribuíam para dinamizar não apenas a vida econômica da cidade, mas, também, sua vida cultural. No final dos anos de 1980, a Bahia contava com quase 50 mil estudantes matriculados no 3º grau, a esmagadora maioria dos quais concentrados em Salvador (ver Almeida, 2002a, 2002b).

É necessário lembrar ainda que, num estado monocêntrico como a Bahia, a capital tendeu a concentrar quase todas as sedes de médias e grandes empresas operando regionalmente. Esse fato teve grande importância para a economia local, na medida em que os centros administrativos empresariais favorecem a expansão dos serviços superiores, criando empregos diretos para trabalhadores altamente qualificados, consumindo serviços empresariais terceirizados e sustentando o turismo de negócios e as viagens profissionais. Ainda que Salvador viesse a perder sedes de importantes organizações no período seguinte (Banco Econômico, Banco do Estado da Bahia, Supermercados Paes Mendonça, Odebrecht), como conseqüência da privatização de empresas públicas estaduais, da globalização e da reconcentração terciária em São Paulo, ela ainda manteria, nesse campo, a primeira posição em relação ao Norte e Nordeste, disputando corpo a corpo com Recife. Em 1990, abrigava 234 sedes empresariais entre as 6.250 mais importantes do país, número que passaria para 264, em um total de 9.131, em 2001, vale dizer, 3% dos quartéis-generais de empresas do país e 20% do Norte e Nordeste (ver Almeida; Britto; Mendonça, 2004).

Na virada do século XX para o século XXI, esse amplo conjunto de atividades industriais e "terciárias" - e não exclusivamente a nova indústria - criou as condições para a rápida expansão e diversificação dos serviços empresariais. Como em toda metrópole contemporânea, são esses serviços - business services ou, mais precisamente, business-to-business services (B2B) - que constituirão a coluna vertebral da economia soteropolitana a partir dos anos de 1990. Esse tema será, todavia, desdobrado em outra seção. Por enquanto, o foco será deslocado para o impacto das transformações aqui tratadas sobre a inserção espacial de Salvador.

 

Declínio do recôncavo e formação da RMS

Houve, primeiramente, uma mudança qualitativa nas relações de Salvador com o Recôncavo Baiano - seu arrière-pays imediato. A conclusão e o asfaltamento da BR-116 (1949-63), ligando Salvador às regiões industriais do Centro-Sul do país, e a implantação de uma malha rodoviária no Recôncavo, a partir dos investimentos da Petrobrás, desarticularam as antigas redes de transporte regionais, de base ferroviária e flúvio-marítima. Os investimentos nas fábricas do CIA e do COPEC completaram essa desarticulação, na medida em que reduziram a importância da já declinante economia agroexportadora regional. A decadência do açúcar e do fumo, contemporânea da ascensão do caminhão como principal meio de transporte de carga, marcou também o declínio - emblemático - dos saveiros, dos "vapores" da Companhia Baiana de Navegação e das feiras, que faziam da capital um duplo mercado, de demanda e oferta, para o entorno da Baía de Todos os Santos (BTS). Foram morrendo à míngua os antigos portos dessa orla: Cachoeira, Nazaré, Santo Amaro, Maragogipe. O tiro de misericórdia na navegação tradicional da BTS foi dado pela construção da Ponte do Funil e pela implantação de sistema de ferry-boat, ligando a Ilha de Itaparica ao continente por via rodoviária, no início dos anos 70. Cresceram, em contrapartida, as cidades que conseguiram passar de entroncamentos ferroviários para cruzamentos rodoviários - Cruz das Almas, Santo Antônio de Jesus e, sobretudo, fora do Recôncavo, mas ancorada na BR-116 e, mais tarde, também na BR-101, Feira de Santana (ver SEI, 2003).

Abstraindo-se o caso de Feira de Santana, pode-se falar de um deslocamento do centro de gravidade econômico e, conseqüentemente, da hierarquia urbana regional do Recôncavo Sul (cana-de-açúcar) e dos tabuleiros do Paraguaçu (fumo), para os municípios que abrigaram a nova indústria. No Recôncavo Norte, São Francisco do Conde, Candeias, Simões Filho; no Litoral Norte, atlântico, Lauro de Freitas e Camaçari. Como se viu, o deslocamento neste último sentido foi reforçado pela implantação da Estrada do Coco (1975) e da Linha Verde (1993), que asseguraram a multiplicação dos imóveis de veraneio e dos equipamentos turísticos, inclusive grandes resorts internacionais, ao longo da costa.

Decorreu, dessas mudanças, na estruturação do espaço econômico regional, a criação, em 1973, da Região Metropolitana de Salvador, reunindo, em princípio, uma dezena de municípios, mas, de fato, apenas a capital e sua periferia industrial (São Francisco do Conde, Candeias, Simões Filho, Camaçari, Dias D'Ávila e Lauro de

Freitas).11 A RMS passou a ser o lugar privilegiado da intervenção governamental, com o Conselho de Desenvolvimento do Recôncavo, criado em 1967, transformado em Companhia de Desenvolvimento da RMS, com a mesma sigla - CONDER - não antes de produzir o primeiro Plano de Desenvolvimento Integrado da nova região. Conseqüência simétrica e indesejada desse processo foi o abandono do Recôncavo e da BTS como espaços de planejamento e de investimento público e privado. A capital da Bahia "deu as costas" ao seu litoral tradicional e seus governantes só se deram conta do erro quando, a partir dos anos de 1990, a necessidade de combater a poluição da baía e a importância da Bahia de Todos os Santos para a náutica de lazer e para o turismo

de base ecológica e cultural ficaram evidentes.12

Ocorreu, nas mesmas décadas, uma mudança na qualidade dos laços de Salvador com seu hinterland em sentido amplo, as regiões do interior do estado da Bahia. A redução do peso econômico das atividades agropecuárias, que passaram a representar pouco mais de 10% , em média, do PIB estadual, foi um primeiro fator a enfraquecer as relações entre a capital e as regiões mais distantes do estado. Outro elemento de grande significado foi o desvio de parte da emigração rural do estado para as cidades situadas nas suas fronteiras econômicas e geográficas - Barreiras, Juazeiro, Porto Seguro e Teixeira de Freitas, principalmente. Além disso, o desenvolvimento de uma malha rodoviária nacional, o fortalecimento relativo do governo federal e o maior dinamismo econômico de algumas metrópoles situadas em estados vizinhos, contribuíram para reforçar as forças centrífugas exercidas, principalmente, nessas mesmas regiões limítrofes. O caso mais evidente foi o dos cerrados do Além São Francisco, ocupados pela soja e pela colonização gaúcha, com vínculos crescentes com o pólo agroindustrial e de serviços do eixo Brasília-Goiânia. Mas esse tipo de força esteve também presente no São Francisco (Juazeiro/ Petrolina), no Sul e no Extremo-Sul, com seus tradicionais laços com o Espírito Santo e o Rio de Janeiro, bem como no Sudoeste,

com suas também tradicionais ligações com a economia mineira. 13 É necessário levar em conta, ainda, os efeitos espaciais diretos da nova indústria e da terciarização na RMS. Como se observou, a indústria baiana se desenvolveu, até os anos de 1990, com base em políticas nacionais de "desconcentração industrial". Tais políticas criaram uma indústria produtora de bens intermediários mais que dependente dos capitais e mercados do Centro-Sul e do exterior do país. Fortes laços econômicos se desenvolveram, a partir disso, com outras grandes cidades e, particularmente, com São Paulo. A chegada de grandes firmas de origem nacional ou estrangeira, a modernização, a desnacionalização e a expansão de empresas locais em vários setores (supermercados, construção civil, telecomunicações, publicidade e outros) reforçaram e aprofundaram os vínculos com outras metrópoles. O desenvolvimento do turismo, nacional e internacional, com Salvador se consolidando não apenas como pólo receptivo, mas também emissor, completou esse novo quadro.

Tais mudanças colocam um duplo desafio para a Salvador do século XXI: para a capital da Bahia, como para toda metrópole contemporânea, as relações econômicas e culturais com outras grandes cidades tendem a se tornar mais importantes do que a preservação dos vínculos tradicionais que a ligam com seu próprio hinterland. A evidência mais material desse fato é a crescente importância do aeroporto (de vocação internacional) da cidade diante dos que eram seus portões de entrada tradicionais para

carga e pessoas - o porto e o terminal rodoviário. 14 Mas, por outro lado, a afirmação de Salvador como metrópole regional passa, antes de tudo, pela hegemonia sobre o seu próprio "interior". Ainda que a posição de pólo da capital seja fortalecida pela inexistência de uma rede estadual de cidades de tamanho médio, a relativa perda de importância dos vínculos sociais e econômicos estabelecidos entre a capital e seu hinterland e as forças centrífugas exercidas por metrópoles vizinhas sobre as fronteiras baianas exigem um novo tipo de soldagem, que vá além daquela criada pelo êxodo rural, o seu comércio e o porto. É possível que a solução venha a estar na exportação intra-estadual de serviços superiores, vale dizer, serviços intensivos em conhecimento, em serviços sociais (saúde, educação superior) ou prestados a empresas.

As transformações que redefiniram a inserção nacional e regional de Salvador na geografia econômica brasileira, na virada do século XX para o XXI, também foram responsáveis por mudanças no espaço econômico interno dessa metrópole. Em Salvador, do mesmo modo que em qualquer grande cidade das últimas décadas do século XX, o processo de diversificação, expansão e modernização dos serviços se materializou espacialmente sob a forma de um novo Central Business District (CDB). Na capital baiana, o abandono do antigo centro e a migração de organizações públicas e privadas para o novo pólo intra-urbano de serviços foi o resultado de uma intervenção orquestrada pelo governo estadual e pelo grande capital imobiliário local. A ação começou entre o final dos anos 60 e o início da década seguinte. Primeiro, novas avenidas foram abertas para criar um novo eixo Sul-Norte, que ligasse espaços ainda vazios -mas já apropriados por empresas imobiliárias - ao aeroporto e aos novos bairros residenciais destinados às novas classes médias, assalariadas, da cidade. Em seguida, o governo implantou seu novo núcleo administrativo (o CAB, Centro Administrativo da Bahia) sobre o corredor principal do novo eixo (a Avenida Paralela), a meio caminho entre o aeroporto e o antigo centro comercial, situado no entorno do porto. Enfim, o Estado e o capital imobiliário instalaram alguns equipamentos estratégicos no coração do futuro CDB: a nova estação rodoviária, um grande shopping center regional, o primeiro hipermercado da capital e alguns dos primeiros prédios de escritórios (ver Scheinowitz, 1998). Começa, então, a migração das empresas do centro histórico. O êxodo, que se inicia na segunda metade dos anos 70, se acelera nos anos 80 e se completa na década de 90: uma pesquisa, realizada em 2001, revelou que 36% das firmas do novo CDB tinham começado aí suas atividades, 43% eram originárias do velho centro e, as outras, na maior parte, eram filiais de empresas oriundas de outras metrópoles brasileiras (Almeida e Norberto, 2001).

Ainda que a implantação do novo CDB tenha sido planejada pelo Estado e pelo grande capital, é importante evitar uma certa visão "conspiratória" desse processo. O fato é que havia se esgotado as possibilidades de expansão para os imóveis empresariais no antigo centro. No início dos anos de 1970, o problema mais citado eram os engarrafamentos nas ruas e avenidas muito estreitas, herdadas do século XIX, quando não do período colonial. Além desse, os empresários locais listavam outros problemas: falta de acessibilidade (estacionamentos), ausência de hotéis, serviços de alimentação e opções de lazer para executivos, distância do aeroporto e, sobretudo, inexistência de espaço disponível para novos prédios de escritórios, não apenas em razão da escassez de grandes terrenos livres, mas, também, em função da presença de áreas de preservação arquitetônica, submetidas à legislação de proteção do patrimônio histórico. Que a transferência dos serviços empresariais tenha se dado por uma linha Sul-Norte atlântica - e não pela alternativa de contornar a BTS, acompanhando a BR-324, que liga Salvador a Feira de Santana, e as BR-116 e 101, no eixo industrial da RMS - parece, nesse contexto, uma solução bastante lógica, haja vista a dependência dos novos serviços em relação ao aeroporto, as ambições turísticas da cidade e a maior valorização imobiliária dos bairros do litoral oceânico da cidade, fator fundamental para empresas dependentes de status e imagem.

Completa-se, assim, a conformação espacial da cidade, sua integração ao seu novo hinterland - a RMS - e sua abertura para novas relações nacionais e internacionais.

Tratou-se, em resumo, como destaca a SEI (2003, p. 157-158), das transformações da rede viária, sobretudo a construção das "avenidas de vale" e da via Paralela, que permitiram a criação de novos bairros residenciais e do novo CDB, deslocando o coração econômico e cultural da cidade, primeiro, para o pólo Iguatemi-Pituba e, mais tarde, na sua extensão norte, também para o eixo Avenida Tancredo Neves-Paralela, sempre em direção ao aeroporto. Acompanhando esse movimento, ocorreu a priorização da orla atlântica para os empreendimentos turísticos, a infraestrutura (telecomunicações, iluminação, saneamento) e os investimentos sociais (esporte, lazer, cultura), com "fortalezas de moradia" e "ilhas de excelência" (Porto; Carvalho, 2001), agrupando hotéis, condomínios fechados e shopping centers, entre manchas sempre presentes de bairros proletários, favelas e "invasões". Tratou-se, ainda, da ocupação da orla suburbana da Baía de Todos os Santos, do eixo da BR324 e do "miolo" (os bairros proletários entre os dois vetores de expansão, a BR e a Avenida Paralela), por uma imensa massa de "habitações construídas sem licença oficial", em vales insalubres, encostas e palafitas.

Nesse contexto, resta lembrar que o encarecimento da terra em Salvador levou os novos emigrantes pobres a procurar moradia nas favelas fronteiriças de dois municípios vizinhos - Lauro de Feitas e Simões Filho. O encontro de habitações proletárias daí resultante confirma, de modo perturbador, a conurbação metropolitana.

 

A economia de Salvador entre 1980 e 2005 -

impacto da globalização e da reestruturação

produtiva

Pode-se dizer que, no período entre 1950-1980, a Bahia não se industrializou, apesar de ter se tornado o principal pólo industrial do Nordeste e disso ter implicado o fim da hegemonia do capital mercantil regional sobre o processo de acumulação no estado. Vale dizer: não se formou, no estado, um setor industrial com movimento próprio, diversificado e integrado, capaz de acelerar a urbanização, alterar a distribuição do emprego em favor do setor secundário, elevar significativamente o nível da renda regional e redefinir o papel e os métodos de produção da agricultura regional. O desenvolvimento da agroindústria e da produção industrial de bens finais foi limitado: a nova indústria era, basicamente, produtora de insumos e divisas, sustentando-se nas exportações intra-regionais e internacionais de produtos intermediários petroquímicos. Sua evolução estava, desse modo, subordinada à dinâmica da acumulação do grande capital financeiro e industrial concentrado no pólo econômico do país. A nova indústria não eliminou, portanto, o atraso relativo da economia regional diante da economia do "pólo" nacional; ela apenas o repôs num patamar mais elevado. E, como se viu, ela tampouco criou a massa de empregos prometida.

Segundo a Pesquisa de Emprego e Desemprego - PED, a taxa de desemprego aberto em Salvador saltou de 8,9%, nos anos de 1987-88, para 12,6%, em 1997-98, e 15,2%, em 2003-04 (Almeida; Damasceno, 2005a). No conceito de desemprego aberto, que inclui os que não procuram emprego em razão do "desalento", tais porcentagens foram, respectivamente, 15,7%, 21,8% e 26,0%. Isso significa que, no início do século XXI, após meio século de "industrialização", um em cada quatro soteropolitanos estava sem ocupação (ver Almeida; Damasceno, 2005a). Tais taxas fizeram de Salvador a metrópole brasileira recordista em desemprego na virada do século e, isso, não apenas segundo a PED, mas também segundo a Pesquisa Mensal de Emprego - PME, do IBGE (ver Almeida, 2002d).

Por que a capital da Bahia, principal pólo industrial do Norte e Nordeste, não conseguia ocupar 1/4 da sua População Economicamente Ativa no início dos anos 2000?

Para responder a essa questão é necessário - mas não suficiente -levar em conta a conjuntura nacional após 1980. No novo contexto mundial, aberto pelas crises do petróleo (1973-1979), o esgotamento do chamado "modelo de substituição de importações" ficou evidenciado com o fracasso parcial do segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (1975-1979). A substituição de importações, financiadas pelo endividamento externo e interno, levou a uma crise que combinou inflação e desaquecimento da economia brasileira. Como a nova indústria baiana dependia, essencialmente, dos capitais e mercados do pólo industrial do país, esse desaquecimento nacional se traduziu em queda significativa das taxas de crescimento dos PIBs da Bahia, da RMS e de Salvador. De fato, a economia baiana, que havia crescido, em média, 8,8% a.a., no intervalo 1975-1980, cresceu apenas 2,4% anuais, na década de

1980, e 2,5% no decênio seguinte.15 Estimativas do IPEA confirmam a desaceleração paralela da economia de Salvador a partir de 1985. Entre 1970 e 1985, Salvador esteve entre as metrópoles mais dinâmicas do país, ao lado de Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Curitiba, Fortaleza e Belém. Contudo, o crescimento do PIB da capital da Bahia e da sua região metropolitana se desacelerou, em relação aos produtos das capitais mais ativas do país, entre 1985 e 1996, perdendo terreno em relação a Curitiba, Belo Horizonte, Brasília e Fortaleza. Concretamente, e ainda segundo o IPEA, o PIB de Salvador teria crescido, em média, 9,1% a.a. entre 1970 e 1975, 11,3%, em 1975-80, 3,3%, em 1980-85, 5,7%, em 1985-90, e apenas 1%, entre 1990 e 1996 (Almeida; Damasceno, 2005b).

Continuar: parte 3 de 3