Como anda Salvador e sua região metropolitana
A economia de Salvador e a formação de sua Região Metropolitana
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Como se sabe, a resposta brasileira ao esgotamento da substituição de importações foi a abertura da economia nacional, a partir de 1990. Isso se traduziu em maior penetração no mercado nacional de produtos e capitais estrangeiros, com as empresas, no Brasil, sendo obrigadas a competir com o produto importado (e contrabandeado), em condições difíceis, haja vista a política de valorização cambial que se radicalizou entre 1994 e 1998. Essa política, além disso, favoreceu a entrada de novas empresas internacionais portadoras de novas tecnologias, inclusive organizacionais, e prejudicou, ao mesmo tempo, as exportações nacionais, como no caso das empresas petroquímicas da Bahia.
O resultado foi a quebra de muitas empresas brasileiras em vários segmentos. Ramos inteiros, a exemplo da indústria de brinquedos e do complexo têxtil-confecções, estiveram próximos do colapso. Eis uma primeira razão para a destruição do emprego formal: a crise dos setores prejudicados pelas políticas tarifárias e cambiais dos anos 1990-1998. A concorrência externa e o desemprego atingiram tanto os ramos exportadores, quanto os segmentos voltados para o mercado interno, que sobreviviam, até 1990, graças aos subsídios e tarifas protetoras.
Em segundo lugar, ocorreu significativa desnacionalização. A penetração do capital estrangeiro com base na aquisição de empresas nacionais privadas ou estatais resultou também em mais desemprego, pois esse capital trouxe consigo novas tecnologias e novos formatos organizacionais, implicando reengenharia e downsizing das estruturas herdadas. Na Bahia, como no resto do país, a nova onda de investimento estrangeiro se concentrou em alguns ramos de serviços: telefonia, bancos, supermercados, distribuição de energia elétrica, com impacto negativo sobre a ocupação em alguns desses setores. Note-se, por exemplo, a redução do peso, em Salvador, da ocupação nos serviços financeiros e serviços de utilidade pública (ver Almeida; Damasceno, 2005b).
Em terceiro lugar, a abertura da economia implicou rápida penetração, no Brasil, das novas tecnologias, especialmente das tecnologias da informação e comunicação (TICs), que alteraram tanto as condições de trabalho, quanto a localização do próprio trabalho. Seu impacto sobre a economia local se deu em pelo menos três planos.
Primeiro: empresas e outras organizações modificaram suas estruturas e processos, enxugando seus quadros superdimensionados face às novas tecnologias. Isso provocou grande desemprego, tanto na indústria quanto em segmentos terciários importantes, como serviços financeiros ou grande varejo. Na Bahia, o caso emblemático foi a redução da mão-de-obra direta, empregada no COPEC, para cerca de 1/3 do máximo alcançado nos anos de 1980, com larga utilização de trabalho terceirizado e temporário. Almeida e Damasceno (2005a) confirmam o avanço da terceirização não apenas na petroquímica, mas, também, na indústria metal-mecânica e em alguns importantes ramos de serviços da economia soteropolitana, como financeiros e de utilidade pública. A contrapartida dessa rápida expansão do outsourcing, na economia da RMS, foi a criação de um importante pólo de serviços empresariais em Camaçari e a expansão da oferta desses serviços em Salvador, conforme indica o crescimento dos segmentos de serviços auxiliares e especializados.
Segundo: as novas tecnologias permitiram que empresas e outras instituições se organizassem em redes de fornecedores e clientes operando online e com base no just-in-time, o que implicou elevação da produtividade, redução de custos e economia de força de trabalho. Esse tipo de movimento se processou aceleradamente em diversos setores e segmentos, como no caso das relações entre o grande comércio varejista (supermercados e outros ramos) com seus fornecedores de bens e de serviços (e.g. sistema bancário). A conseqüência mais direta foi a destruição do emprego nos departamentos de retaguarda (back-office) das empresas, com a extinção de postos em áreas como contabilidade, armazenagem etc. Esse processo foi aprofundado, nos anos 2000, com a introdução de unidades de "serviços compartilhados" em grandes organizações, permitindo maiores ganhos de escala nas atividades de retaguarda.
Finalmente, o uso das TICs, o barateamento das telecomunicações e do transporte, particularmente do aéreo, possibilitaram a relocalização de empresas e a montagem de redes inter-regionais e internacionais de suprimento (global sourcing). Estes últimos movimentos tiveram efeitos contraditórios sobre o mercado de trabalho local. Houve desaparecimento de postos de trabalho, por exemplo, em segmentos do setor financeiro e dos serviços de informática locais. Mas ocorreu, também, a atração de unidades produtivas, sobretudo quando empresas footloose puderam se beneficiar com custos mais baixos de mão-de-obra e incentivos
fiscais.16
Estima-se que a revolução tecnológica e organizacional tenha eliminado, entre 1990 e 2001, quase 11 milhões de postos de trabalho no Brasil. A abertura às importações, no mesmo intervalo, teria sido responsável por outro 1,5 milhão (ver Freitas; Kupfer; Young, 2004). Ainda que o crescimento (lento) do mercado doméstico e o avanço das exportações (somente a partir de 1999) tenham assegurado um saldo líquido positivo de pouco mais de 3 milhões de postos, esse crescimento não foi, até 2003, suficiente para reduzir as taxas de desemprego no país.
De qualquer modo, no Brasil ou em Salvador, a alta do desemprego só pode ser totalmente explicada quando são também considerados alguns fatores presentes no lado da oferta metropolitana de trabalho. Não se trata, principalmente, como no passado, do êxodo rural. Em Salvador, a proporção de recém-imigrados na PEA (imigrantes com menos de 3 anos de moradia na cidade) vem diminuindo. A PED revela uma proporção de recém-imigrados de 7,2%, na amostra de 1997-98, e de 6,1%, na de 2003-04 (ver Almeida; Damasceno, 2005). Trata-se, no entanto, do incremento da participação das mulheres na força de trabalho: em Salvador, ainda segundo a PED, de 44,6%, em 1987-88, para 48%, em 2003-04. E, sobretudo, do momento particular da demografia, que corresponde às décadas da virada do século, caracterizadas pelo rápido crescimento da quantidade de jovens e adultos jovens em busca de trabalho. Em Salvador, ainda segundo a mesma fonte, as faixas modais de idade da população total estavam entre 10 e 24 anos, em 1997-98, e entre 15 e 29 anos, em 2003-04, reunindo, respectivamente, 33,5% e 32% da população local em cada um dos períodos (2005).
Note-se que tais fatores ajudam a explicar os níveis de desemprego na capital da Bahia, mas não explicam o por quê do seu recorde negativo entre as principais metrópoles do país, em boa parte dos últimos quinze anos. Com efeito, todas as causas listadas acima também são válidas para as outras regiões metropolitanas e grandes cidades do país.
Viu-se que as deformações históricas da estrutura econômica da Bahia e da RMS podem ajudar a compreender o problema: 1º) a lenta expansão da agricultura capitalista stricto sensu no estado e a ausência de uma agroindústria dinâmica no hinterland imediato da capital; 2º) a ausência de uma base industrial diversificada e uma indústria produtora de bens intermediários, intensiva em capital e pouco integrada à economia local; e 3º) a renda pessoal hiperconcentrada (ver Almeida; Damasceno, 2005a, 2005b). É indispensável, contudo, agregar a essas causas dois outros fatores fundamentais: a ausência de uma política local de desenvolvimento e uma política estadual desenvolvimentista descolada da realidade econômica da cidade.
Em resposta ao esgotamento do modelo de substituição de importações, que havia permitido a implantação do COPEC, e ao fim das políticas nacionais de desenvolvimento industrial - um subproduto da crise fiscal brasileira e da hegemonia neoliberal a partir de 1985-90 - o governo baiano limitou-se, praticamente, a aderir à chamada "guerra fiscal". Como em outros estados, essa política obteve algum sucesso, pois ia ao encontro dos interesses de certos ramos industriais, que vinham se tornando cada vez mais footloose, graças à redução de suas necessidades de capital fixo e de giro (novas tecnologias, terceirização) e ao avanço da logística e das telecomunicações no país. Várias empresas industriais, atraídas pelos incentivos fiscais estaduais e pelos baixos salários pagos no Nordeste e, ao mesmo tempo, fugindo de deseconomias de aglomeração presentes no Centro-Sul, notadamente dos sindicatos fortes presentes nos pólos industriais dessa região, deslocaram fábricas para a Bahia. O caso mais evidente foi o da indústria calçadista; o mais espetacular, a atração do novo complexo automobilístico da Ford para Camaçari. Mas essa política atraiu também investimentos em ramos diversos, como montagem eletrônica (as "maquiladoras" do pólo de "informática" de Ilhéus), confecções, metalurgia, plásticos (com o programa Bahiaplast), celulose e química (inclusive o mega investimento da Monsanto, na produção de defensivos agrícolas em Camaçari).
Embora seja obrigatório reconhecer o relativo sucesso dessa estratégia, é indispensável destacar três pontos: primeiro, a localização dessa nova indústria footloose é descentralizada e/ou interiorizada, salvo exceções. Isso significa que ela impacta indiretamente sobre a economia de Salvador e o faz, sobretudo,
reforçando o peso dos 17 business services na capital; segundo, essa política tende a ter resultados declinantes, na medida em que é imitada por todos os estados brasileiros e se torna uma ameaça ao equilíbrio fiscal, haja vista que a "guerra" só pode ser vencida com incentivos e concessões cada vez maiores; e, terceiro, até por conseqüência, ela não soluciona o problema, que é definir uma nova política de desenvolvimento econômico para uma metrópole de 3 milhões de habitantes, com a economia centrada em serviços.
Da Cruz e Menezes (2000) calcularam que, em 1998, 82% do PIB de Salvador era gerado por atividades terciárias, sendo o comércio responsável por cerca de 12% e, os serviços, em sentido estrito, por 70%. Os mesmos autores descobriram ainda que, em Salvador, o crescimento do peso dos serviços no produto local ocorria, principalmente, em quatro segmentos: (a) hotelaria e serviços de alimentação; (b) transporte, armazenagem e comunicações; (c) serviços financeiros; e (d) serviços empresariais, vale dizer, business services. Dados mais recentes do IBGE e da PED confirmam, a grosso modo, essa distribuição. Segundo o IBGE (2005), os serviços já respondiam por mais de 75% do PIB de Salvador, em 2002 (Almeida; Damasceno, 2005b). De acordo com a PED, serviços e comércio seriam responsáveis por 87,4% da
ocupação na capital da Bahia, em 2003/04 (2005b).18
Apesar da evidente terciarização da economia soteropolitana, a visão industrialista tradicional, ainda hegemônica na Bahia, continuou a ver, nessa expansão dos serviços, uma evidência do atraso econômico da cidade. Loiola (1997, p. 23) lembra que, em razão da "longa hegemonia do paradigma industrializante, que fez da indústria o único vetor de desenvolvimento e modernidade, firmou-se, nos meios intelectuais e políticos [baianos], um acentuado ceticismo quanto ao futuro [de Salvador]". A especialização da cidade na produção de serviços era vista como fonte de problemas e não de oportunidades. O próprio Poder Público Municipal teria sido influenciado por esse tipo de visão. "A sua omissão quanto aos rumos do desenvolvimento econômico da cidade sempre foi justificada com base no argumento de que os fatores que poderiam estimular a economia, isto é, o setor secundário, não estavam sob seu controle."
É indiscutível o papel dos novos investimentos industriais para o incremento do produto da RMS. Somente o Complexo Amazon, da Ford, e seus desdobramentos devem implicar um impacto equivalente a algo entre 5% a 13% do PIB baiano, por volta de 2006 (Alban, 2000). Dito isso, é necessário reafirmar que o foco de uma estratégia de desenvolvimento para Salvador não pode ser o crescimento industrial. Os dados de estudos, como os de Da Cruz e Menezes, comprovam o que seria de se esperar para uma metrópole regional - a economia de Salvador é uma economia de serviços em transição de atividades de consumo corrente e local para atividades superiores exportáveis: serviços prestados às empresas, serviços sociais (saúde e educação), produção de conhecimento, cultura e turismo.
Felizmente, com o acúmulo das evidências, políticos e estudiosos de Salvador começaram a se convencer, ainda que lentamente, de que é possível pensar o desenvolvimento da cidade de forma relativamente autônoma, em relação ao parque industrial da RMS. A tradicional intervenção do governo estadual nos segmentos do turismo e entretenimento (reforçada pelo recente apoio ao seu clustering) e sua política de incentivos fiscais para a atração de empresas de telemarketing (call centers) foram dois exemplos de políticas alternativas, baseadas em vetores de serviços. Trata-se de seguir adiante nessa direção e, tendo em vista seu papel essencial, propor uma política específica para os segmentos de serviços prestados às empresas e, notadamente, para os serviços empresariais intensivos em conhecimento.
A opção por um enfoque em serviços superiores é uma decisão vital para o futuro da cidade. Do ponto de vista econômico e cultural, Salvador já é uma das duas principais metrópoles do Nordeste. Tem condições de manter e consolidar essa posição e, mesmo, ultrapassar Recife. Se não pode ambicionar o posto de cidade global do país, dividido entre São Paulo e Rio de Janeiro, pode se tornar a terceira metrópole gateway brasileira, sobretudo, se consolida sua vocação de centro turístico e cultural, firmando-se como portão (e portal) de entrada para o Norte e Nordeste do país. No entanto, uma política de sustentação, ao desenvolvimento local, de serviços superiores ou estratégicos não pode ficar limitada aos instrumentos tradicionais utilizados na chamada guerra fiscal, até aqui voltada basicamente para a atração de indústrias. Philippe, Léo e Boulianne (1998) e Philippe e Léo (1999), entre outros, chamaram a atenção para as dificuldades de construir uma política de "descentralização terciária".
De fato, em primeiro lugar, é necessário reconhecer que o relativo sucesso das políticas de atração de indústrias com base em incentivos fiscais se deveu, também, a um fato objetivo: empresas de alguns ramos industriais (e.g. calçados, montagem eletrônica) tendiam, de fato, à migração, pois pretendiam fugir das deseconomias de aglomeração e dos custos presentes em suas regiões de origem. Isso não ocorre com os serviços, particularmente com os superiores. Ao contrário, eles são, em geral, muito mais dependentes de economias de aglomeração e de uma infra-estrutura sofisticada, que só encontram nas maiores cidades. A idéia de que o desenvolvimento das novas tecnologias de informação e comunicação permitiria a migração de organizações produtoras de serviços para cidades de porte médio ainda está para ser comprovada. Há exceções e casos isolados, é claro. De qualquer modo, os parâmetros de decisão locacional de organizações produtoras de serviços superiores vão muito além do custo direto stricto sensu. O mesmo pode-se dizer, ainda com mais razão, no que diz respeito às sedes de grandes empresas. E, aliás, como se mostrou acima, a implantação do novo CDB de Salvador é uma forte evidência da importância desses outros fatores locacionais, que vão da proximidade de um grande aeroporto à imagem internacional da cidade.
Em segundo lugar, nos casos em que a atração é possível, por exemplo, nas operações de back-office, como telemarketing e processamento de dados, o caráter footloose dos serviços estandardizados aumenta o risco de políticas exclusivamente centradas em vantagens fiscais. Como lembram os autores citados, "[...] a extrema mobilidade dos serviços empresariais condena antecipadamente este tipo de política ao fracasso: a entrega de prêmios para [a localização no] território não garantiria em nada implantações estáveis" (Philippe; Léo; Boulianne, 1998).
Levando em conta esses obstáculos, a literatura internacional tem procurado desenhar uma estratégia alternativa para cidades de "segundo nível", baseada em dois ou três vetores e um foco bem determinado, que é a ênfase na expansão e diversificação da base de serviços empresariais já existentes. No caso de Salvador, vetores de grande potencial podem vir a ser serviços sociais exportáveis, como saúde de maior complexidade e ensino superior, além da expansão das atividades do seu complexo cultura/turismo/entretenimento, de dinamismo comprovado.
O futuro da economia soteropolitana: serviços
superiores, conhecimento e cultura
Segundo o IBGE, com pouco mais de 2,6 milhões de habitantes, em 2004, Salvador é a terceira cidade mais populosa do país. Cresce à taxa de 1,9% ao ano: mais rápido que Recife e Belo Horizonte, mas a uma velocidade inferior a de Fortaleza e Brasília. A capital da Bahia comanda a sétima mais populosa região metropolitana do Brasil, a RMS, com quase 3,3 milhões de habitantes (Almeida; Damasceno, 2005b).
A RMS era, de acordo com o IBGE, em 2002, a quinta região metropolitana do país e a primeira do Nordeste em termos de criação de valor, com um PIB de cerca de R$ 31 bilhões, a preços do ano, vale dizer US$ 11,5 bilhões, à taxa de câmbio de US$ 1 para R$ 2,70. Salvador, segundo a mesma fonte, era o nono PIB entre as capitais do país no mesmo ano, com R$ 9,3 bilhões ou US$ 3,4 bilhões (idem).
Note-se que todas essas estimativas, que confirmam Salvador e sua região metropolitana como um dos principais pólos econômicos do país e a mais importante economia metropolitana do Nordeste, estão significativamente subestimadas, principalmente porque ainda não incorporam o impacto direto e indireto sobre o PIB regional da Ford em Camaçari.
É claro que a importância do produto da RMS, em termos nacionais (pouco mais de 2% do PIB brasileiro) e, sobretudo, em termos regionais (maior PIB metropolitano do Nordeste), deve ser relativizada em face da pobreza da maioria da população e da extrema desigualdade socioeconômica que caracterizam Salvador e sua região metropolitana. A RMS apresentava, em 1999, um dos piores índices de desigualdade entre dez das mais importantes regiões metropolitanas do país. Além disso, o rendimento médio da população era bem inferior ao verificado nas capitais do Sudeste e Sul do país (idem). Essa situação não se alterou nos primeiros anos do século XXI: pelo contrário, como mostra a PED, os rendimentos médio e mediano mensais da população soteropolitana voltaram a cair, entre o final dos anos 1990 e o início da década seguinte, quando atingiram, respectivamente, os níveis de R$ 798,5 e R$ 401,00 (Almeida, Damasceno, 2005a).
Além disso, se a taxa de informalidade, da população ocupada em Salvador, parece ter se estabilizado, com o crescimento recente da proporção de trabalhadores assalariados com carteira assinada, ela o fez no patamar elevado que a precarização do trabalho impôs nas duas últimas décadas (2005a). Na RMS e em Salvador, 45% da força de trabalho estava na informalidade, no intervalo de 2003-04 (ou seja, era assalariada, sem carteira, ou autônoma, sem previdência social).
Apesar da informalidade, da desigualdade e independente dos níveis de renda médios per capita, que são baixos numa capital nordestina como Salvador, o tamanho absoluto da população, sua densidade e sua velocidade de crescimento - em torno de 1% ao ano nas próximas duas décadas, conforme prevê o novo Plano Diretor da cidade (ver PMS/SEPLAM, 2004) -, constituem, por si só, um indicador do seu potencial econômico. Como já se enfatizou neste texto, grandes cidades constituem grandes mercados, porque concentram população e criam, assim, condições para o desenvolvimento da chamada economia de urbanização: pequenas indústrias de alimentos, vestuário ou mobiliário residencial, comércio varejista, prestação de serviços pessoais, serviços de alimentação etc. A análise da estrutura econômica da RMS parece indicar um déficit considerável, particularmente no que concerne às indústrias de bens de consumo finais leves, embora seja possível que existam possibilidades inexploradas de substituição de importações regionais desses bens (e.g. confecções, mobiliário doméstico). Além disso, a economia de urbanização local continua a ser um poderoso fator de atração para investimentos de empresas de serviços nacionais e internacionais: cadeias de supermercados, franquias de varejo, redes de restaurantes fast-food etc. (ver Almeida, 2002d).
Porém, quando se trata de serviços estratégicos, os que importam não são os serviços de urbanização, destinados ao consumo final e à demanda local. É necessário insistir nesse ponto: o que interessa, estrategicamente, para a metrópole soteropolitana são três tipos de serviços:
· Business services, isso é, serviços de consumo intermediário,
que asseguram uma infra-estrutura capacitada a atrair e manter
investimentos, entre os quais se destacam os serviços
empresariais, intensivos em conhecimento;
· Turismo de lazer e de negócios, incluindo dois dos seus
segmentos mais dinâmicos - o turismo cultural e o de eventos;
· Serviços sociais de consumo coletivo, que podem ser
crescentemente exportados para outras regiões da Bahia e,
mesmo, para outros estados, notadamente nas áreas de
educação (ensino superior) e saúde (pólo médico).
São esses os setores da nova economia de serviços que podem levar Salvador, que já é uma das duas maiores metrópoles do Nordeste, da condição de centro terciário para a situação de centro nacional exportador de serviços superiores, cultura e conhecimento; para a condição de uma economia metropolitana quaternária ou quinária, baseada na gestão e difusão da informação e na geração de conhecimento, que pode expandir sua área de hegemonia no
Nordeste e, até, sobre outras regiões do país.19
Metrópoles regionais, como Salvador, são centros de produção de serviços diversificados. São pólos de poder político regional, abrigando organizações governamentais e centros de decisão de grandes e médias empresas. São centros de comércio nacional e internacional e de atividades de serviços de diversos tipos, tanto daquelas que produzem para o consumo pessoal, quanto daquelas que fornecem insumos intangíveis para empresas. São, também, pólos de educação superior e de produção de arte, cultura e entretenimento. Dessa forma, são ainda centros turísticos e, particularmente, de turismo de negócios - business tourism.
Para Salvador, metrópole regional no século XXI, uma política de desenvolvimento baseada nos serviços superiores é necessária por razões de ordem estratégica. A expansão dos serviços e suas novas relações com a indústria tendem a redefinir a hierarquia das regiões, com os territórios que concentram os serviços superiores -financeiros, empresariais e sociais - dominando aqueles especializados em funções industriais e serviços tradicionais (Ughetto; Du Tertre, 2000). Se Salvador pretende continuar mantendo o seu posto de metrópole regional, será preciso insistir nesse caminho.
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* Professor do Mestrado em Economia da Universidade Federal da Bahia, Doutor em Economia pela Universidade de Paris X, Nanterre.
1 Reconhecer a importância dessa "fuga" de parte do excedente não implica aceitar a tese de que em sua maior parte ela tenha sido provocada pela política cambial dos anos de 1950, que teria prejudicado as exportações agrícolas do Nordeste em benefício da importação de bens de capital para as indústrias de São Paulo. Essa tese, de "confisco cambial", proposta por Mariani (1958) e retomada por vários historiadores da economia baiana, já foi suficientemente relativizada, sobretudo por Wilson Cano (1977, 1981). Cano enxerga aí uma tentativa de representantes das elites baianas de passar para o "imperialismo paulista" uma parte de suas próprias responsabilidades com relação ao atraso econômico da Bahia.
2 Sobre este ponto, ver Cano (1977) e Souza (1980).
3 O que não desmerece em nenhum momento a qualidade da pesquisa desses grandes historiadores. Trata-se, em todo caso, de um discurso muito presente nos anos 1950-1970, que vai da "decadência baiana", de Mariani (1958), à "dependência baiana", de Ritz (1972), passando pelo famoso "enigma baiano", de Pinto de Aguiar (1958), e pela "involução industrial da Bahia", de Tavares (1966).
4 Na Bahia, como em geral no Nordeste, a passagem do trabalho escravo para o trabalho assalariado pleno levará várias décadas, graças à manutenção de formas de parceria, como a meia na agricultura e a quarta na pecuária, somada à persistência do minifúndio, da agricultura de subsistência e de sistemas arcaicos de abastecimento, como o "barracão", que também bloqueavam a monetarização da economia rural.
5 Pressionada no mercado nacional pela concorrência da indústria paulista, estrangulada no mercado regional pelo débil dinamismo das atividades agroexportadoras estaduais e pela reduzida penetração das relações capitalistas de produção no campo, a indústria baiana de bens não-duráveis conheceu uma taxa média de crescimento anual de apenas 0,2%, nas décadas de 1920 e 1930. Embora outros setores da indústria baiana - bens intermediários, duráveis e de capital - tenham apresentado taxas de crescimento bem mais elevadas, em torno de 8,0% ao ano, esse fato teve pouco significado: tais setores praticamente nada representavam no contexto da indústria regional da época. Em 1941, os ramos têxteis, fumageiro e de produção de alimentos (inclusive açúcar), ainda concentravam quase 80% do valor da produção industrial no estado (Azevedo, 1975, p. 39).
6 Como lembra Cavalcante (2004), ainda que o CIA seja freqüentemente associado à indústria de bens de consumo final, ele abrigou, na realidade, uma proporção considerável de indústrias produtoras de bens intermediários, particularmente na siderurgia, metalurgia e mecânica. Não foi por acaso que a Usina Siderúrgica da Bahia, do grupo Gerdau, foi a primeira grande indústria
7 Na verdade, o CIA conheceria alguma recuperação a partir de 1995, com novas empresas ocupando antigas plantas desativadas. Essa "revitalização" se daria, é importante frisar, em momento completamente distinto: o da migração de indústrias footloose, em busca de incentivos fiscais e salários baixos, nos anos da "guerra fiscal" interestadual, da virada do séculos XX para o XXI. Voltar-se-á a esse ponto mais adiante.
8 A retomada da centralização do capital no COPEC, nos anos 2000, fez da indústria química na Bahia um ramo praticamente subordinado a apenas duas grandes empresas - a Petrobrás e a Braskem, esta última controlada por dois grupos familiares baianos, o Odebrecht e o Mariani.
9 O significado da criação da RMS será discutido mais adiante.
10 É necessário evitar, assim, uma concepção excessivamente simplista da modernização dos serviços soteropolitanos na segunda metade do século XX. Dito de forma direta: o Shopping Center Iguatemi, maior shopping do Norte e Nordeste do país, inaugurado em Salvador no ano de 1975, não "resultou" apenas da nova indústria da RMS, como alguns economistas locais pretendem afirmar. O varejo, como outros segmentos dos serviços, tem também dinâmica própria, e é por isso, por exemplo, que um shopping como o Jequitibá Plaza pode surgir, no ano 2000, em Itabuna, principal pólo comercial da região cacaueira, em plena crise econômica provocada pela vassoura-de-bruxa. A visão convencional mistura uma interpretação mecanicista, do "modelo de base exportadora", com um forte preconceito em relação aos serviços, que supostamente não criariam "valor" e teriam crescimento dependente da renda gerada pela indústria ou pela agricultura (ver, sobre essa questão, Almeida, 1997). Na verdade, isso é desconhecer a própria origem de inovações como o shopping e o supermercado, que se difundiram nos Estados Unidos durante a Grande Depressão de 1929-1938.
11 Os outros municípios da RMS são Vera Cruz e Itaparica, situados na ilha de mesmo nome. Com economia assentada no turismo e no veraneio, responderam, em 2002, por apenas 0,5% do PIB da região.
12 Daí o mega projeto Bahia Azul, voltado para a construção de um sistema de saneamento urbano e para o controle da poluição industrial em Salvador e no entorno da BTS, com investimentos de cerca de US$ 600 milhões, bancados pelo BID, Banco Mundial, BNDES e governo estadual, entre outros financiadores. Para mais informações, consultar o site da EMBASA - Empresa Baiana de Águas e Saneamento S.A., em:
http://www.embasa.ba.gov.br/a_empresa/bazul.htm.
13 Um efeito paralelo dessas forças centrífugas é o esvaziamento econômico e populacional de áreas centrais do estado, prejudicadas pelo clima do semi-árido, e dependentes, portanto, de uma agropecuária de baixo dinamismo (e.g. sisal, caprinocultura). O turismo, estimulado principalmente na Chapada Diamantina, não se mostrou capaz de assegurar a geração de emprego e renda necessária para reverter esse quadro. Daí a continuidade da probreza e da emigração líquida, que leva, em alguns casos (municípios do Piemonte da Diamantina), à redução absoluta da população.
14 É importante sublinhar que o aeroporto de Salvador era, em 2001, o sexto do país em termos de movimentação de passageiros e o terceiro em carga aérea doméstica movimentada (Almeida, 2003)
15 Dados da SEI, ver: http://www.sei.ba.gov.br/. Ver também Carvalho JR; Pessoti; Pereira, que registram taxas de crescimento médio anual do PIB baiano de 6,5% em 1975/86, 0,1% em 1986/92 e 2,6% em 1992/00.
16 O termo "footloose" (livre para ir para onde se quer) tem servido para caracterizar a indústria e os segmentos dos serviços que se deslocam em busca de menores custos salariais e incentivos fiscais. Essas empresas têm maior liberdade de localização graças ao avanço da terceirização e subcontratação de serviços, à redução do valor imobilizado em capital fixo e ao uso de mão-de-obra pouco qualificada, num contexto de queda dos custos de transporte e telecomunicação. É o caso típico da indústria calçadista, que abandona o Rio Grande do Sul e São Paulo para se reinstalar na Bahia e no Ceará, ou ainda dos call-centers de telemarketing.
17 A desconcentração espacial da indústria talvez possa explicar a participação declinante das capitais brasileiras no PIB nacional, bem como o caso excepcional de Manaus, que continua concentrando a montagem eletrônica da sua Zona Franca. Com efeito, muito se falou do dinamismo de pólos no interior dos estados na virada do século, que teriam sido alavancados pelo boom do agronegócio e pela indústria footloose.
18 Os trechos seguintes deste texto estão largamente baseados em três dos nossos mais recentes trabalhos sobre a terciarização de Salvador. Ver Almeida (2002d, 2004a) e Almeida; Damasceno (2004).
19 No sentido dado por Foote e Hatt (1953): atividades quaternárias são entendidas como aquelas que se referem à produção e ao tratamento da informação ou, como se diz atualmente, fundadas nas TICs; e, as quinárias, como aquelas que se dedicam à produção de conhecimento e são englobadas, hoje, nas chamadas "indústrias criativas".