Covid-19: Guia Prático de Infectologia
08. Perspectivas futuras
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Perspectivas futuras
Paula Pereira de Souza Reges
► INTRODUÇÃO
As predições em relação às respostas nacional, regional e global à
pandemia gerada pelo SARS-CoV-2 baseiam-se, sumariamente, na
elaboração de perguntas científicas assertivas, que preencham lacunas do
conhecimento. Não são alicerçadas em raciocínios circulares, nos quais
as respostas são o conteúdo, e sim em ferramentas operacionais,
prezando-se por objetividade.
Buscando o aconselhamento científico e o gerenciamento global da
pandemia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) concebeu a
estratégia de gestão em Pesquisa e Desenvolvimento como um diagrama
ativo, com mobilizações internacionais céleres em diversos âmbitos,
incluindo setores técnico-científicos, políticos, econômicos e éticos. Tal
programa é chamado de WHO R&D Blueprint1 e baseia-se em um
mapeamento ativo de questões em saúde global. Com base nessa
estratégia, ainda em fevereiro de 2020, foi estruturado o Fórum Global
em Pesquisa e Inovação acerca dos enfrentamentos em relação à
COVID-192. Partindo da consulta externa de especialistas e de
instituições de pesquisa e desenvolvimento (P&D) de todo o mundo,
foram desenhados os pontos cruciais de atuação cooperativa, que, apesar
de reestruturados com a velocidade das publicações sobre a temática,
ainda seguem como áreas-guia à pesquisa2:
1. Vírus: história natural, transmissão e diagnóstico.
2. Pesquisa em ambiente e foco animal: origem do vírus, medidas de interface humano-animal-
hospedeiro.
3. Estudos epidemiológicos.
4. Caracterização e manejo clínico.
5. Controle e prevenção de infecções, incluindo proteção aos profissionais de saúde.
6. Pesquisa e desenvolvimento em candidatos terapêuticos.
7. Pesquisa e desenvolvimento em candidatos a vacinas.
8. Considerações éticas para pesquisa.
9. Ciências sociais no contexto de resposta ao surto.
10. Coordenação e perspectivas financeiras.
As discussões perpassam a interdisciplinaridade e o multilateralismo
necessários às resoluções. Cooptar esforços e recursos tornou-se motriz
aos eixos de investigação e diligência. A Figura 1 expressa, de forma
simplificada, os vínculos variados do Fórum Econômico Mundial
associados à COVID-19.
Ao se traçar perspectivas adiante, o primeiro ponto a se perceber é o
tempo requerido. Atuações em diagnóstico e tratamento recebem
preferência, visto o potencial e esperado impacto a seguir. Ao mesmo
tempo, o manejo adequado e diplomático em saúde global é
especialmente requisitado e colocado em foco ao se manejar uma
pandemia. A predileção mencionada ao início passa, então, a ser
inferência presuntiva.
▷Figura 1 Frentes de atuação interdisciplinar contra a COVID-19, segundo o Fórum
Econômico Mundial.
Ó
► DESAFIOS ACERCA DO DIAGNÓSTICO
A ampliação do número de teste diagnósticos para SARS-CoV-2 é
medida epidemiológica essencial ao reconhecimento da situação real de
infecções de um dado local. Impacta em todas as políticas públicas de
saúde a serem desenhadas, visando à contenção do espalhamento viral.
Inclui a identificação de potenciais clusters de infecção, o potencial viral
de infecção e transmissão, a alocação de recursos e suporte, o
planejamento de rede assistencial, as expectativas sobre isolamento e
distanciamento físico, a restrição às movimentações globais, o desgaste
econômico e, por conseguinte, a avaliação das próprias medidas que
estejam sendo aplicadas.
A disponibilidade dos testes, entretanto, ainda esbarra em limitações
relacionadas às prioridades definidas, à escassez de kits e à sua
validação.
É importante destacar que testes diferentes servem a propósitos
diferentes no gerenciamento dessa pandemia: enquanto o teste de RNA
viral ( RT-PCR) atua como point-of-care para a detecção aguda de
pessoas infectadas com SARS -CoV-2; à medida que o tempo passa, o
potencial dos testes sorológicos para rastreamento de contatos é cada vez
mais valorizado, com esforços para produzi-los em larga escala.
Alguns cientistas manifestam preocupações sobre a precisão dos kits
sorológicos usados em muitos estudos, porque a maioria não foi avaliada
rigorosamente para confirmar que são confiáveis. Uma análise do sangue
de cerca de 3.300 pessoas que vivem no condado de Santa Clara
(Estados Unidos), no início de abril, descobriu que uma a cada 66
pessoas havia sido infectada com SARS-CoV-2. Com base nessa
descoberta, os pesquisadores estimam que entre 48 mil e 82 mil dos
cerca de 2 milhões de habitantes do município estavam infectados com o
vírus na época – números que contrastam fortemente com a contagem
oficial de casos de cerca de mil pessoas relatadas no início de abril,
segundo análise publicada e ainda não submetida à revisão por pares em
20 de abril de 20203. A OMS também está conduzindo um estudo global
de prevalência sorológica, conhecido como Solidarity II4, buscando
validação da precisão.
Ainda também não está claro se todas as pessoas que tiveram COVID-
19 desenvolvem anticorpos protetores. Até agora, os pesquisadores
dizem que não viram nenhuma evidência de que as pessoas possam se
infectar novamente com o vírus. Os macacos rhesus infectados com
SARS-CoV-2 não puderam ser infectados pouco menos de 1 mês após a
infecção inicial, de acordo com um estudo não revisado5 de
pesquisadores da Peking Union Medical College.
Contudo, o fato da maioria dos testes sorológicos, amplamente
disponíveis, não detectar anticorpos neutralizantes também é relevante,
haja vista as ideias de que tais exames sejam usados para aqueles com
infecções pregressas por COVID-19 possam interagir em sociedade
normalmente, o chamado “passaporte da imunidade”. Os pesquisadores
ainda estão se esforçando para determinar se os anticorpos detectados
pelos kits atuais podem atuar como procuração da imunidade protetora6.
Também não se sabe o significado dos exames sorológicos em relação à
redução da transmissibilidade, uma vez que já foi demonstrado que o
RNA viral diminui lentamente após a detecção de anticorpos no sangue,
podendo significar que a pessoa ainda está lançando vírus infeccioso6.
No presente momento, no Brasil, também existem esforços para
validação dos diagnósticos sorológicos e produção de novos insumos,
como o que está sendo feito na Fundação Oswaldo Cruz e que, em breve,
estará disponível para consolidação de dados.
► DESAFIOS ACERCA DO TRATAMENTO
Até o presente momento, não existe nenhum esquema terapêutico
específico para a COVID-19. Portanto, o incentivo à pesquisa e à
inovação na área é fundamental. Os esforços têm convergido para a
realocação de medicamentos previamente testados, seguros e
conhecidos. Basicamente, é nesse preceito que os principais ensaios
clínicos têm surgido.
Em um esforço global sem precedentes, a OMS propôs o ensaio clínico
chamado SOLIDARITY7, que busca capturar dados robustos,
representativos, significativos e em curto espaço de tempo. O desenho é
simples e adaptativo, e até o momento há cinco braços propostos de tratamento, dentre os quais pacientes hospitalizados nos sítios em
questão são randomizados.
Remdesivir: análogo de nucleotídeo, especificamente um análogo de adenosina, que se insere
nas cadeias virais de RNA, causando seu término prematuro; testado anteriormente na
epidemia de ebola.
Lopinavir/ritonavir: inibidor de protease, desenvolvido inicialmente para tratamento HIV/aids.
Lopinavir/ritonavir + interferon-beta-1A: combina as drogas anteriores ao anticorpo
monoclonal, utilizado especialmente na esclerose múltipla.
Cloroquina ou hidroxicloroquina: atuam diminuindo a acidez nos endossomos e,
possivelmente, têm alguma atividade contra o SARS-CoV-2, mas em doses geralmente altas e
potencialmente tóxicas.
Tratamento-padrão hospitalar de suporte.
O Brasil instituiu o protocolo SOLIDARITY por intermédio do
Ministério da Saúde e atribuiu ao Instituto Nacional de Infectologia
Evandro Chagas, unidade da Fundação Oswaldo Cruz, a função de
centro coordenador no país. As inclusões no centro foram iniciadas em
31 de março de 2020, tendo sido o primeiro local das Américas a fazê-lo.
Conta-se com mais 15 centros nas cinco regiões do país, com expectativa
de expansão. Até 20 de abril de 2020, mais de mil pacientes já haviam
sido inscritos. Os resultados do desempenho do protocolo são analisados
constantemente por um conglomerado de especialistas da OMS, unindo
dados globais de entrada. Concomitantemente, avaliações no território
nacional também estão sendo conduzidas.
Ademais, outros ensaios clínicos estão sendo conduzidos no país, o que
em breve ampliará o conhecimento sobre a resposta terapêutica, com
provável impacto na mortalidade, tempo de internação ou de necessidade
de suporte intensivo7,8.
► MEDIDAS SOCIAIS
Muitas são as previsões relacionadas à COVID-19 que usam modelos
matemáticos. No entanto, análises pormenorizadas são complexas, pois
cada país ou mesmo região interna coleta dados de maneiras diferentes e
utiliza políticas de testagem e controle diferentes. As lacunas de
conhecimento são múltiplas e permitem amplo horizonte de desenhos de
estudo envolvendo mortalidade, letalidade, hospitalizações,
sintomatologia, capacidade hospitalar, infectividade, padrão de contágio,
duração da infecção e diversos outros aspectos.
Um dos artigos mais emblemáticos em termos de modelos preditores,
diretamente marcados por determinantes políticos, sociais e econômicos
em saúde, é a peça de Thomas Pueyo, The Hammer and the Dance9. Há
a explicação por meio de campanha visual e narrativa exposta na Figura
2, com exemplificações de como as medidas intensas de
contingenciamento não devem ser muito duradouras, mas o suficiente
para permitir que não haja grande pico de infecções a seguir. As
propostas feitas têm custo razoável para a dinâmica da sociedade e são
capazes de salvar milhões de vidas. Se não realizadas tais proposições,
dezenas de milhões serão infectados, muitos morrerão, e o sistema de
saúde entrará em colapso.
Sequencialmente, há estudos epidemiológicos10,11, que, além de
pontuarem a importância fundamental das medidas de distanciamento
físico, combinadas à ampliação diagnóstica, demonstram como a
modificação do comportamento populacional impacta na real redução
dos contatos infecciosos. Pesquisas na China, por exemplo, mostram que
os cidadãos de Wuhan e Xangai relataram ter entre sete e nove vezes
menos contatos diários típicos com outras pessoas durante as medidas de
distanciamento social impostas pelas autoridades12.
▷Figura 2 Campanha The Hammer and the Dance9.
Apesar de já registrado o impacto das medidas de distanciamento físico
na redução da velocidade de expansão viral, seja com aplanamento ou
inversão da curva de infecções, ainda não se sabe concretamente por
quanto tempo o distanciamento social terá de permanecer no local, pelas
preocupações amplas com a economia e a saúde física e mental dos
cidadãos cooptados. O distanciamento social reduzirá a propagação do
vírus por enquanto, mas suspender essas medidas pode permitir uma
segunda onda da pandemia no final do ano ou no próximo ano10.
► DIPLOMACIA EM SAÚDE GLOBAL
O conceito de Diplomacia em Saúde Global é posto em voga em
situações como a vivenciada no contexto atual. Condiz com a percepção de que seja um instrumento de política externa, no qual o objetivo é
promover a saúde universal como um bem comum entre as nações,
redefinindo o papel do Estado em um período de globalização,
comercialização e individualização13,14. Busca, ainda, apoiar o
desenvolvimento de uma abordagem mais sistemática e proativa para
identificar e entender as principais mudanças atuais e futuras que afetam
a saúde pública global, criando mecanismos de capacitação aos países e
de apoio às ações coletivas necessárias para aproveitar as oportunidades
e mitigar os riscos à saúde15.
Num contexto de pandemia, acordos internacionais envolvem
importações de insumos, equipamentos, força de trabalho, tecnologia,
medicamentos e afins, ressaltando aqui a cadeia global de produção e
dispersão de produtos e pessoas16. Articulações políticas e solidariedade
global assumem papel preponderante nos rumos da infecção e
transmissão, visto a legitimidade global de disseminação e de impacto
multifacetado.
Ao conglomerar massas pensantes, atenção midiática, fundos
financeiros, organizações civis e científicas, a OMS atua como peça-
chave na formação de hubs de investimento e de atuação.
Apesar de ser um órgão de autoridade pública global como corpo
extensor da Organização das Nações Unidas, a OMS não tem poderes
coercitivos ou punitivos aos estados-membros que não cumprem suas
recomendações e depende da contribuição dos corpos institucionais para
seu funcionamento. É uma organização passível de falhas e que,
merecidamente, deve passar por modificações e ajustes, porém não há
justificativa para o desmonte nos repasses e para o falseamento de sua
credibilidade.
O corte de verbas repassados à OMS, proposto por determinadas
potências17, exerce um passo arriscado à segurança global, visto que os
subsídios dados para a organização não são revertidos somente ao
combate da COVID-19, como também são utilizados para fortalecer
sistemas de saúde e o acesso à saúde em países menos afortunados; para
a luta contra pólio, sarampo, malária, ebola, HIV, tuberculose,
desnutrição, câncer, diabetes, saúde mental e muitas outras condições18.
A ajuda à saúde não deve ser vista nem como comportamento gentil e
impecável nem como cavalo de troia de atores beligerantes. Nesse momento de incerteza global, a diplomacia em saúde oferece
oportunidades para construir novas narrativas de amigos e inimigos,
vítimas e perseguidores, ajudantes e adversários. Não é necessário que
isso afete e molde as opiniões dos formuladores de políticas em um
determinado país: a população deve ser sempre o foco.
A luta contra a pandemia de SARS-CoV-2 não se trata apenas de salvar
vidas e economias, mas também de construir narrativas pós-COVID-19,
que já estão sendo criadas e alimentadas durante a pandemia. Essas
narrativas hegemônicas tentarão silenciar outras pessoas ou negar sua
existência, a fim de legitimar esforços particulares e garantir a
sobrevivência de um sistema internacional específico.
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