Covid-19: Guia Prático de Infectologia
06. Cuidados de biossegurança
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Cuidados de biossegurança
Alberto dos Santos de Lemos
Isabel Cristina Melo Mendes
Luiz Felipe de Abreu Guimarães
► INTRODUÇÃO
Os profissionais de saúde estão na linha de frente da batalha contra a‐
COVID-19. Inúmeros se infectaram ao atender e tratar pacientes
infectados e doentes, com alguns casos evoluindo a óbito. Profissionais
de saúde também podem transmitir a doença para outros pacientes
hospitalizados, outros profissionais de saúde dentro do ambiente
hospitalar e servir como vetores para a comunidade. As medidas de
biossegurança envolvendo a utilização de equipamentos de proteção
individual (EPI), a aplicação de procedimentos administrativos e de
trabalho específicos para controle da transmissão e a infraestrutura
hospitalar adequada para lidar com infecções respiratórias são, portanto,
fundamentais.
O papel da transmissão de gotículas, fômites e aerossóis para o SARS-
CoV-2, a proteção oferecida pelos diferentes EPI e a transmissibilidade
do vírus em diferentes estágios da doença permanecem incertos. Na
presença de transmissão generalizada da comunidade e sobrecarga dos
serviços de saúde, o uso racional dos EPI é crucial, e a higienização das
mãos deve ser exaustivamente relembrada e praticada.
Os autores agradecem às Comissões de Controle de Infecção
Hospitalar (CCIH) do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas
e do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho pelo direcionamento
a normas técnicas fundamentais.
► MEDIDAS ADMINISTRATIVAS
Todas as instituições de saúde devem elaborar, divulgar e garantir o
cumprimento de um plano de contingência que envolva1:
Estimar as necessidades de leitos de pacientes, suporte respiratório, EPI, equipe de
profissionais e recursos diagnósticos e terapêuticos.
Garantir que o diagnóstico virológico ocorra em tempo hábil, para posterior gestão de casos
confirmados de excluídos.
Definir estratégia para teste, gerenciamento e acompanhamento de profissionais de saúde com
sintomas respiratórios.
Garantir que todos os funcionários com sintomas compatíveis com COVID-19 parem de
trabalhar e permaneçam em isolamento social, devendo ser priorizados na política de testes
para poder voltar ao trabalho o mais rápido possível, uma vez que estejam recuperados da
infecção por SARS -CoV -2.
Instituir o treinamento dos profissionais para a avaliação diagnóstica segura e o gerenciamento
de pacientes com COVID-19; manter disponibilidade de EPI e produtos de higiene das mãos,
suporte laboratorial, limpeza e procedimentos adequados de gerenciamento de resíduos.
Limitar as visitas aos pacientes com COVID-19 ao mínimo absoluto.
A maioria dos procedimentos eletivos, inclusive consultas rotineiras,
deve ser adiada. Alternativas de cuidados remotos podem ser úteis,
quando possíveis de ser disponibilizadas. A comunicação com os
pacientes é fundamental para evitar danos colaterais do funcionamento
excepcional dos serviços de saúde.
Os estabelecimentos de saúde devem considerar a implementação de
políticas que exijam que todos que entram na instalação usem máscara
cirúrgica ou mesmo de pano (se tolerada) enquanto estiverem no prédio,
independentemente dos sintomas, e que, se precisarem tocar ou ajustar a
cobertura do rosto, devem executar a higiene das mãos imediatamente
antes e depois2. As máscaras não devem ser colocadas em crianças
menores de 2 anos ou pessoas com dificuldade para respirar ou
inconscientes ou incapazes de remover a máscara sem assistência2. Os
pacientes podem remover a máscara quando estão nos quartos, mas
devem colocá-la novamente quando saírem2. Os pacientes devem ser
admitidos idealmente em quarto de isolamento individual, com banheiro
privativo, pressão negativa e antecâmara2. No contexto em que grande
número de casos de COVID-19 precisar de hospitalização, os hospitais
devem considerar colocar pacientes confirmados de COVID-19 em ala
ou seção separada do hospital com equipe dedicada (coorte). Isso torna
possível economizar o uso de EPI, uma vez que os profissionais de saúde
podem usar a mesma proteção respiratória enquanto prestam assistência aos pacientes da coorte. Recomenda-se o uso de equipamento médico (p.
ex., manguitos de pressão arterial, estetoscópios, oxímetros e
termômetros) de modo separado1.
Não se deve circular pelo serviço de saúde utilizando os EPI. Estes
devem ser imediatamente removidos após a saída do quarto, da
enfermaria ou da área de isolamento.
O acesso à higienização das mãos – seja com dispensadores de álcool
gel ou pias com água, sabão e toalhas descartáveis – deve ser garantido
em todos os ambientes com máxima praticidade possível. Da mesma
forma, devem ser disponibilizados os EPI.
Os funcionários devem, preferencialmente, usar sapatos exclusivos no
trabalho, de forma que sejam deixados no hospital. No final do turno e
após a retirada apropriada do EPI, a equipe deve lavar as mãos
meticulosamente. Se possível, as instalações do chuveiro devem estar
disponíveis para os profissionais tomarem banho antes de sair do
trabalho1.
Profissionais devem ser alertados que equipamentos eletrônicos de uso
individual, em especial telefones celulares, devem ser higienizados
frequentemente1.
► HIGIENE DAS MÃOS
Pelo potencial de transmissão indireta por contato, a higienização das
mãos configura-se importante ferramenta de prevenção, sendo o item
principal das precauções-padrão e considerada a medida mais eficaz para
prevenir e controlar infecções3.
A capacidade de higienização das mãos em prevenir infecções está
relacionada à redução do número de patógenos viáveis que contaminam
transitoriamente as mãos. Tanto o uso de água e sabão quanto o de
preparações alcoólicas a 70% são indicados. Enquanto os primeiros
removem mecanicamente os agentes microbianos, as preparações
alcoólicas inativam vírus, incluindo os geneticamente relacionados e
com propriedades físicas semelhantes ao SARS -CoV -2. Em ambiente
hospitalar, dá-se preferência pelo uso de preparações alcoólicas4. A
concentração final da preparação alcoólica a ser utilizada em serviços de
saúde para esse fim deve estar entre 60% e 80% no caso de preparações sob a forma líquida e concentração final mínima de 70%, no caso de
preparações sob as formas gel, espuma e outras5.
Além dos cinco momentos clássicos em que se recomenda a
higienização das mãos (Figura 1), no contexto da assistência a casos
suspeitos e confirmados de COVID-19, especial atenção deve ser dada
ao momento de retirada dos EPI. Higienização das mãos deve ser feita
entre cada etapa do processo e sempre que o profissional julgar que
possa ter ocorrido contaminação.
▷Figura 1 Os cinco momentos de higienização das mãos3.
Para ser efetiva, a higienização deve ser feita com água e sabão por um
período de 40 a 60 segundos ou com preparações alcoólicas a 70% por
20 a 30 segundos6. Da mesma forma, as mãos e os antebraços devem
estar sem adornos e descobertos. Relógios, pulseiras, anéis e alianças
devem, portanto, ser retirados, e as mangas dos jalecos devem ser dobradas na altura próxima ao terço superior do antebraço. Locais
críticos, como embaixo das unhas e entre os dedos, não devem ser
esquecidos. A técnica correta está descrita a seguir e ilustrada na Figura
2.
▷Figura 2 Técnica para higiene das mãos com preparações alcoólicas e com água e
sabão5. (continua)
▷Figura 2 (continuação) Técnica para higiene das mãos com preparações alcoólicas e
com água e sabão5.
A técnica da higiene simples das mãos com água e sabonete líquido
deve seguir as seguintes etapas:
1. Retirar acessórios (anéis, pulseiras, relógio), uma vez que sob estes objetos acumulam-se
microrganismos não removidos com a lavagem das mãos.
2. Abrir a torneira e molhar as mãos, evitando encostá-las na pia.
3. Aplicar na palma da mão quantidade suficiente de sabonete líquido para cobrir todas as
superfícies das mãos (seguir a quantidade recomendada pelo fabricante).
4. Ensaboar as palmas das mãos, friccionando-as entre si.
5. Esfregar a palma da mão direita contra o dorso da mão esquerda, entrelaçando os dedos e vice-
versa.
6. Entrelaçar os dedos e friccionar os espaços interdigitais.
7. Esfregar o dorso dos dedos de uma mão com a palma da mão oposta, segurando os dedos, com
movimento de vaivém e vice-versa.
8. Esfregar o polegar direito, com o auxílio da palma da mão esquerda, utilizando movimento
circular e vice-versa.
9. Friccionar as polpas digitais e unhas da mão esquerda contra a palma da mão direita, fechada
em concha, fazendo movimento circular e vice-versa.
10. Enxaguar as mãos, retirando os resíduos de sabonete. Evitar contato direto das mãos
ensaboadas com a torneira.
11. Secar as mãos com papel toalha descartável. No caso de torneiras com contato manual para
fechamento, sempre utilize papel toalha.
A técnica da higiene simples das mãos com preparações alcoólicas
deve seguir as seguintes etapas:
1. Retirar acessórios (p. ex., anéis, pulseiras e relógio), uma vez que sob estes objetos acumulam-
se microrganismos não removidos com a lavagem das mãos.
2. Aplicar na palma da mão quantidade suficiente do produto para cobrir todas as superfícies das
mãos (seguir a quantidade recomendada pelo fabricante).
3. Friccionar as palmas das mãos entre si.
4. Friccionar a palma da mão direita contra o dorso da mão esquerda entrelaçando os dedos e
vice-versa.
5. Friccionar as palmas das mãos entre si com os dedos entrelaçados.
6. Friccionar o dorso dos dedos de uma mão com a palma da mão oposta, segurando os dedos e
vice-versa.
7. Friccionar o polegar direito, com o auxílio da palma da mão esquerda, utilizando movimento
circular e vice-versa.
8. Friccionar as polpas digitais e as unhas da mão esquerda contra a palma da mão direita,
fazendo movimento circular e vice-versa.
9. Friccionar até secar espontaneamente. Não utilizar papel toalha.
Ã
► EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL
Máscaras N95 ou PFF-2
Filtram pelo menos 95% de partículas veiculadas pelo ar que possuam
pelo menos 0,3 µm de tamanho. Algumas possuem válvulas, que
facilitam a respiração, e possuem o mesmo nível de proteção de
máscaras N95 sem válvula, mas não devem ser utilizados quando há a
necessidade de campo estéril no paciente, pois o ar exalado não é
filtrado7. Antes de usá-las, o profissional deve verificar se há vedação
adequada ao rosto.
Pessoas com maquiagem, barba ou pelos faciais devem retirá-los para
utilizar esse EPI corretamente7. Máscaras novas devem ser armazenadas
em locais livre de sujidades, insetos, umidade, calor ou frio excessivo.
Se estiverem sujas, úmidas, rasgadas ou amassadas, ou forem expostas a
sangue, secreções respiratórias ou qualquer outro fluido corpóreo de
pacientes, devem ser imediatamente descartadas.
Excepcionalmente, em situações de carência de insumos e para atender
a demanda da epidemia da COVID-19, a máscara N95 ou equivalente
poderá ser reutilizada pelo mesmo profissional, desde que cumpridos os
passos obrigatórios para sua retirada sem a contaminação do interior6.
Com objetivo de minimizar a contaminação da máscara N95 ou
equivalente, se houver disponibilidade, pode ser usado um protetor
facial. Se a máscara estiver íntegra, limpa e seca, pode ser usada várias
vezes durante o mesmo plantão pelo mesmo profissional (até 12 horas ou
conforme definido pela CCIH do serviço de saúde)6.
Máscaras cirúrgicas
Utilizadas como barreira de uso individual que deve cobrir nariz e
boca. Recomendada para todos os pacientes com sintomas respiratórios,
para diminuir a potencial transmissão de patógenos respiratórios para
outras pessoas8. Não deve ser reutilizada e deve ser substituída após 4
horas de uso contínuo ou quando estiver muito úmida ou tenha sido
contaminada com sangue, secreções respiratórias ou outros fluidos
corporais de pacientes2. Ao utilizar a máscara cirúrgica, o usuário deve
praticar higiene das mãos frequentemente e evitar ao máximo manipulá-
la.
Avental descartável
Deve cobrir a região do colo, do peito e dos braços do usuário, com
fecho na região das costas. Serve para proteger as roupas do operador
contra respingos e aerossóis com potencial infeccioso. Existem aventais
autoclaváveis e que poderão ser reutilizados após autoclavagem e
higienização, mas a maioria absoluta é individual e descartável.
Recomenda-se a utilização de aventais impermeáveis para
procedimentos em que o profissional possa se molhar ou se expor a
fluidos do paciente9.
Luvas
Luvas de látex devem ser colocadas antes do contato com o paciente e
removidas imediatamente após o término do atendimento. Não podem
ser reutilizadas sob nenhuma hipótese. As mãos devem ser higienizadas
antes e após o uso. Ao usá-las, deve-se evitar levar as mãos ao rosto. As
luvas estéreis devem ser reservadas para procedimentos que exijam
campo estéril9.
Óculos de proteção
Protegem as mucosas oculares. Se não forem descartáveis, devem ser
higienizados a cada uso. Não se recomenda a completa substituição dos
óculos de proteção pelos óculos de grau pessoais. Caso não promovam
vedação completa, é recomendado o uso simultâneo do protetor facial
(faceshield)1.
Protetor facial (faceshield)
Deve cobrir a face do operador, desde a região da testa até o queixo.
Além de prevenir o contato com gotículas, também impede que o
profissional leve as mãos ao rosto. Se fabricado sem espumas de apoio,
pode ainda ser reutilizado após correta desinfecção. Não é necessário
utilizar óculos de proteção durante o uso do protetor facial1.
Outros equipamentos de proteção individual
Dependendo das rotinas de cada unidade, outros EPI, como gorros,
propés, botas e macacões, podem ser exigidos.
O Quadro 1 lista os EPI indicados para as diferentes áreas dos serviços
de saúde de acordo com o recomendado pela Organização Mundial da
Saúde (OMS) e pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC),
além de outras medidas de biossegurança2,9 As Figuras 3 e 4 exibem as
normas de paramentação e desparamentação de acordo com a
recomendação da Anvisa6.
▷Quadro 1 Medidas de segurança indicadas de acordo com as atividades
Função Atividade Recomendação
Profissionais não envolvidos com o cuidado Administrativos, motoristas sem Distância de 1 metro
direto ao paciente contato com o paciente Máscara caseira ou
cirúrgica
Higiene das mãos
Profissionais de limpeza Limpeza e gerenciamento de resíduos Distância de 1 metro
infectantes Higiene das mãos
Máscara cirúrgica ou
N951 Avental
Botas
Luvas de limpeza
Gorro
Faceshield
Profissionais de saúde Assistência direta a pacientes Higiene das mãos
suspeitos ou confirmados Máscara cirúrgica ou
N951 Avental
Luvas descartáveis2 Gorro
Óculos de proteção
ou faceshield
Profissionais de laboratório Manuseio de espécimes respiratórios Higiene das mãos
Máscara cirúrgica
Avental
Luvas descartáveis
Gorro
Óculos de proteção
ou faceshield
Pacientes suspeitos ou confirmados Distância de 2 metros
Higiene das mãos
Máscara cirúrgica, se
tolerada
Pacientes sem suspeita ou excluídos Distância de 2 metros
Higiene das mãos
1. Máscara N95 nos ambientes em que há risco de transmissão por aerossóis (Quadro 2).
2. Luvas estéreis apenas quando necessárias.
▷ 10 Quadro 2 Procedimentos geradores de aerossóis
Intubação e extubação
Ventilação manual
Ventilação com máscara facial
Ventilação não invasiva (p. ex., BiPAP e CPAP)
Ventilação oscilatória de alta frequência
Oxigenoterapia nasal de alto fluxo
Nebulização
Aspiração aberta da traqueia ou de vias aéreas superiores, como nariz e boca
Inserção, remoção ou aspiração de traqueostomia
Broncoscopia e endoscopia digestiva alta
Procedimentos otorrinolaringológicos que exijam aspiração
Ressuscitação cardiopulmonar
Procedimentos cirúrgicos ou odontológicos que envolvam o uso de dispositivos de alta velocidade
Autópsia, caso envolva o uso de dispositivos de alta velocidade
Procedimentos terapêuticos e de reabilitação envolvendo laringectomia
Procedimentos indutores de tosse, como indução de escarro e coleta de swabs de naso e orofaringe
BiPAP: bilevel positive pressure airway; CPAP: continuos positive airway pressure.
► ENFERMARIAS DE COORTE
A acomodação dos pacientes em coorte, ou seja, separar em uma
mesma área os pacientes suspeitos ou confirmados, está indicada no caso
de não haver disponibilidade de quartos privativos. Contudo, algumas
recomendações são exigidas1,6:
Manter distância mínima de 2 metros entre os leitos.
Evitar ao máximo a permanência de casos suspeitos e confirmados na mesma enfermaria.
A coorte não deve ser realizada entre pacientes com doenças respiratórias de etiologias
diferentes.
Restringir ao máximo o número de acessos a essa área de coorte, inclusive visitantes.
Preferir banho no leito inclusive para acordados, para evitar o compartilhamento do banheiro.
▷Figura 3 Colocação de equipamento de proteção individual (EPI).
Proceder com limpeza terminal do banheiro após cada uso, antes do próximo paciente.
Pratos, copos e talheres devem ser descartáveis.
Os pacientes devem ser orientados a não compartilhar pratos, copos, talheres, toalhas, roupas
de cama ou outros itens.
Profissionais de saúde que atuam na assistência direta aos pacientes suspeitos ou confirmados
devem ser organizados para trabalharem somente na área de coorte, durante todo o seu turno
de trabalho, não devendo circular por outras áreas de assistência, nem prestar assistência a
outros pacientes.
Manter um registro de todas as pessoas que prestaram assistência direta ou entraram nas áreas
de assistência dos pacientes suspeitos ou confirmados de infecção pelo novo coronavírus.
▷Figura 4 Remoção de equipamento de proteção individual (EPI).
As instalações devem estar sinalizadas quanto às medidas de precaução a serem adotadas e ao
uso de EPI.
Imediatamente antes da entrada do quarto, enfermaria ou área de coorte, devem ser
disponibilizadas as condições para higiene das mãos (dispensador de preparação alcoólica a
70% e lavatório com dispensador de sabonete líquido, suporte para papel toalha, papel toalha,
lixeira com tampa e abertura sem contato manual), EPI apropriado e mobiliário para sua
guarda e descarte.
► RETIRADA DO PACIENTE DO ISOLAMENTO
Os critérios para retirada de um paciente com caso suspeito ou
confirmado de COVID-19 das precauções de isolamento são baseados na
evolução clínica do paciente, na disponibilidade de testes e nos
conhecimentos adquiridos até o momento sobre a dinâmica viral.
Estudos com detecção de material genético identificaram, ao longo da
infecção, RNA viral em amostras respiratórias de 1 a 2 dias antes do
início dos sintomas, com carga viral persistindo até 8 dias após o início
dos sintomas em casos leves, com pico com 11 dias nos casos mais
graves. Durante esse período, considera-se que indivíduos infectados
poderiam transmitir o vírus. Entretanto, a duração da transmissibilidade
em pacientes assintomáticos ou pré-sintomáticos e após a resolução de
febre é desconhecida, necessitando de mais estudos para sua
determinação11.
O desenvolvimento de anticorpos IgM e IgG ocorre 6 a 15 dias após o
início dos sintomas, mas os testes sorológicos disponíveis ainda não são
validados. Além disso, ainda não é conhecido se esses anticorpos são
adequados correlatos de imunidade e, com isso, não é possível fazer
afirmações em relação à duração de imunidade e à possibilidade de
reinfecção. Portanto, os resultados de testes sorológicos devem ser
avaliados com cautela11,12.
Com base nas evidências atuais, considera-se que o isolamento dos
pacientes com casos suspeitos ou confirmados de COVID-19 deve ser
estabelecido por um período mínimo de 8 dias para casos leves e
prolongado para 14 dias em casos mais graves12. Recomendações
específicas, entretanto, variam entre os diversos consensos
internacionais. Ressalta-se que não ter cumprido o período de isolamento
não é impeditivo para alta hospitalar naqueles que tiverem condições
clínicas para tal.
O CDC americano divide suas recomendações em dois cenários de
acordo com a disponibilidade de testes e recomenda coletas de amostras
respiratórias para realização de PCR-RT para SARS-CoV-2 de controle
em pacientes11:
Hospitalizados.
Imunossuprimidos graves.
Que serão transferidos para instituições de longa permanência.
Pacientes com suspeita de COVID-19 podem ser retirados das
precauções de isolamento caso tenham a suspeita descartada por meio da
realização de pelo menos um teste de PCR-RT com resultado negativo.
Contudo, se houver alta suspeição clínica do diagnóstico baseada nas
informações clínicas e radiológicas, deve-se considerar realizar novo
exame diagnóstico, mantendo o paciente em precaução até o novo
resultado. Se não houver possibilidade de testagem em casos suspeitos, o
CDC recomenda que a liberação das medidas de precaução seja feita de
acordo com a estratégia não baseada em testagem, conforme descrito no
Quadro 311.
▷ Quadro 3 Critérios para retirada de precauções de isolamento em casos
confirmados de COVID-19 pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC)11
Estratégia baseada em testagem Estratégia não baseada em
testagem
Resolução de febre sem uso de antitérmicos Resolução de febre sem uso de
antitérmicos há pelo menos 72 h
Melhora dos sintomas respiratórios (tosse, dispneia) Melhora dos sintomas respiratórios
(tosse, dispneia) há pelo menos 72
h
Dois resultados de PCR para SARS-CoV-2 de amostra respiratória Já tenham se passado pelo menos 7
consecutivos negativos, com intervalo de pelo menos 24 h entre as dias após o início dos sintomas
coletas
As recomendações europeias são apresentadas no Quadro 4. Para
pacientes hospitalizados em que há possibilidade de testagem,
recomenda-se a retirada de medidas de isolamento após resolução de
sintomas e dois resultados de PCR de amostras respiratórias negativo,
com diferença de pelo menos 24 horas entre eles. Caso não seja possível
realizar teste molecular, a retirada de isolamento pode ser feita se houver
resolução dos sintomas por pelo menos 72 horas e após 8 dias do início
dos sintomas para casos leves e 14 dias para casos graves.
▷ Quadro 4 Critérios para retirada de precauções de isolamento em casos suspeitos
ou confirmados de COVID-19 pelo European Centre for Disease Prevention and
Control (ECDC)12
Pacientes Resolução dos sintomas e dois resultados de PCR para SARS-CoV-2 de amostra
hospitalizados com respiratória consecutivos negativos, com intervalo de pelo menos 24 h entre as
possibilidade de coletas e pelo menos 8 dias do início dos sintomas
realização de testagem
Pacientes Resolução de febre há pelo menos 72 h e melhora dos outros sintomas e pelo menos
hospitalizados sem 8 dias do início dos sintomas em casos leves ou 14 dias para casos graves
possibilidade de
realização de testagem
Pacientes transferidos Quarto individual até pelo menos 8 dias do início dos sintomas, com melhora dos
para instituições de sintomas e resolução de febre há pelo menos 72 h
longa permanência ou
de privação de
liberdade
Pacientes Pelo menos 14 dias após o início dos sintomas e resolução de febre e de sintomas
imunossuprimidos por pelo menos 72 h
Profissionais de saúde Isolamento até resolução de febre por pelo menos 72 h e pelo menos 8 dias do início
dos sintomas. O retorno ao trabalho pode ser feito após esse prazo, com uso de máscara cirúrgica até completar 14 dias após o início dos sintomas. Recomenda-se que profissionais de saúde tenham prioridade para testagem
Pacientes transferidos para unidades de longa transferência ou
instituições de privação de liberdade devem ser alocados em quartos
individuais até pelo menos 8 dias após início dos sintomas, apresentar
resolução dos sintomas e estar afebris há pelo menos 72 horas. Pacientes
imunossuprimidos devem permanecer em isolamento por pelo menos 14
dias após o início dos sintomas1.
O Ministério da Saúde recomenda que pacientes imunossuprimidos ou
aqueles em internação prolongada por outras comorbidades sejam
testados novamente antes de serem liberados de isolamento,
independentemente da ausência de febre e sintomas hospitalares3.
► MANUSEIO DE AMOSTRAS LABORATORIAIS
A coleta de amostras respiratórias é um importante processo para a
confirmação do diagnóstico de COVID-19. É importante que o
profissional de saúde realize os procedimentos indicados em sua unidade
e atenda às medidas de biossegurança preconizadas para o manuseio de
amostras clínicas de pacientes com suspeita de infecção por SARS-CoV-
2, o que deve ser realizado em sala comum com a porta fechada. O
número de profissionais de saúde presentes deve ser limitado ao mínimo necessário. Os profissionais que estiverem presentes no momento da
coleta devem estar adequadamente paramentados com os EPI
recomendados: máscara N95 ou PFF2, proteção ocular, luvas e capote.
As superfícies da sala em que o procedimento foi realizado devem ser
limpas e desinfectadas13.
Para a coleta de amostras de sangue, recomenda-se que o profissional
adentre ao quarto do paciente já com todos os materiais necessários.
Tubos de coleta devem ser previamente identificados com os dados do
paciente e com sinalização de caso suspeito de COVID-19. Os EPI
necessários devem estar de acordo com o tipo de precaução a que o
paciente está submetido no momento (contato e gotículas ou aerossóis)13.
O transporte das amostras clínicas até o laboratório deve ser feito em
recipientes adequados à prova de vazamentos. Se houver risco de
perfuração ou contaminação do recipiente, este deve ser acondicionado
em um segundo recipiente também à prova de vazamentos14. Para
amostras de sangue, os frascos podem ser acondicionados em saco
plástico, que deve ser lacrado e colocado em recipiente rígido, à prova de
vazamentos, para transporte. As amostras respiratórias para diagnóstico
devem ser transportadas para os laboratórios de referência em recipiente
próprio14.
Uma vez no laboratório de análises clínicas, as medidas de
biossegurança e precauções devem ser seguidas com todo rigor.
Preferencialmente, as amostras devem ser manuseadas em cabine de
segurança biológica, classe II, validada e em boas condições de
manutenção, ou em equipamento de contenção primária, até realização
de procedimentos de inativação de agentes biológicos. Os profissionais
devem estar adequadamente paramentados, com luvas, gorro, proteção
ocular, capote impermeável de mangas compridas, calçados fechados e
máscaras N95 ou PFF2. A desinfecção de superfícies e equipamentos
deve ser realizada ao fim do dia de trabalho ou sempre que eles
estiverem visivelmente sujos ou contaminados. Deve-se observar o
tempo de contato recomendado, na diluição correta e dentro da validade
definida após o preparo da solução de trabalho5.
► LIMPEZA E DESINFECÇÃO DO AMBIENTE E DE EQUIPAMENTOS
Não há recomendação diferenciada para a limpeza e desinfecção de
superfícies em contato com casos suspeitos ou confirmados pelo
COVID-19. As seguintes recomendações se colocam1,16:
A limpeza concorrente deve ser realizada três vezes ao dia.
No caso de serviços de exames de imagem e endoscópicos, a limpeza concorrente deve ser
realizada após cada exame.
A limpeza terminal deve ser realizada em caso de alta, óbito, ou transferência do paciente, ou
após cada uso do banheiro no caso das enfermarias de coorte.
A limpeza terminal deve ser realizada ao fim de cada turno no caso de consultórios e salas de
exames.
A limpeza imediata deve ser realizada sempre que necessário.
No caso da superfície apresentar matéria orgânica visível, deve-se
inicialmente proceder à retirada do excesso da sujidade com papel ou
tecido absorvente e, posteriormente, realizar sua limpeza e desinfecção,
utilizando-se dos EPI indicados16.
A limpeza e a desinfecção dos materiais e equipamentos
compartilhados devem ser realizadas após a cada uso, com desinfetante
protocolado na instituição ou álcool a 70%16.
Os desinfetantes indicados incluem aqueles à base de cloro, alcoóis,
alguns fenóis, alguns iodóforos, biguanida e o quaternário de amônio. A
desinfecção de superfícies das unidades de isolamento, incluindo aquelas
próximas ao paciente como grades da cama, cadeiras, mesas de cabeceira
e de refeição, deve ser realizada após a sua limpeza, utilizando-se o
desinfetante preconizado em cada unidade16. Também está indicada a
desinfecção de superfícies consideradas de alto toque, como maçanetas,
interruptores de luz, superfícies de banheiros e mobiliário nos quartos
dos pacientes16.
Não há orientação especial quanto ao processamento de equipamentos,
produto para saúde ou artigos utilizados na assistência a pacientes
suspeitos ou confirmados de infecção pelo novo coronavírus6.
A reutilização de EPI deve ser orientada pela Comissão de Controle de
Infecção Hospitalar de cada unidade, que deve reforçar orientações cada
vez que as políticas sofrerem alguma modificação.
Os produtos para saúde contaminados devem ser manuseados de modo
a reduzir o risco de exposição ou contaminação de superfícies
ambientais. De preferência, devem ser transportados em recipientes cobertos, hermeticamente fechados, resistentes à perfuração, a fim de
prevenir o extravasamento de líquidos6. A pré-limpeza deverá ser
realizada o mais rápido possível após o uso, o mais próximo do local de
sua utilização. O processo de desinfecção dos materiais semicríticos
poderá ser manual ou automatizado6.
► ROUPARIA E GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS
Não é preciso adotar nenhuma recomendação específica para o
processamento de roupas provenientes dos ambientes de cuidado de
pacientes com suspeita ou confirmação para o novo coronavírus,
devendo seguir o mesmo processo estabelecido para as roupas
provenientes de outros pacientes6. É preciso, contudo, adotar cuidados
especiais6:
Retirar a roupa suja com o mínimo de agitação e manuseio, utilizando-se as medidas de
precauções.
Não manipular a roupa suja fora do local destinado para tal.
Roupas provenientes de áreas de isolamento não devem ser transportadas por meio de tubos de
queda.
De acordo com o que se sabe até o momento, o novo coronavírus pode
ser classificado como agente biológico classe de risco 3, sendo sua
transmissão de alto risco individual e moderado risco para a
comunidade. Portanto, todos os resíduos provenientes da assistência a
pacientes suspeitos ou confirmados de infecção pelo novo coronavírus
(COVID-19) devem ser enquadrados na categoria A16.
Os resíduos devem ser acondicionados, em sacos vermelhos (em
alguns estados brasileiros usam-se sacos brancos leitosos), com símbolo
de resíduo biológico, que devem ser substituídos quando atingirem dois
terços de sua capacidade. Os sacos devem estar contidos em recipientes
de material lavável, resistente à punctura, ruptura, vazamento e
tombamento, com tampa provida de sistema de abertura sem contato
manual, com cantos arredondados6. Os resíduos devem ser tratados antes
da disposição final ambientalmente adequada.
► SERVIÇOS DE DIÁLISE
Os serviços de diálise devem estimular a adesão à higiene respiratória,
à etiqueta da tosse e à higiene das mãos em profissionais e pacientes.
Também devem prover condições para higiene das mãos com preparação
alcoólica a 70% e com água e sabonete líquido. Todos os pacientes e
acompanhantes (casos excepcionais ou definidos por lei) devem ser
orientados a não compartilhar objetos e alimentos6.
Devem ser disponibilizadas máscaras cirúrgicas na entrada do serviço
aos pacientes, independentemente se sintomáticos ou não1, e eles devem
ser orientados a utilizar a máscara cirúrgica de forma adequada e durante
todo o período de permanência no serviço de diálise. Os profissionais
devem manter as medidas de precaução e uso de EPI.
As instalações devem manter no mínimo 1 metro de separação entre
pacientes. Pacientes suspeitos ou confirmados de infecção pelo novo
coronavírus devem preferencialmente ser dialisados em sala separada,
bem ventilada e com a porta fechada6. Essa sala deve sofrer limpeza e
desinfecção antes dos turnos e após seus términos, sendo importante
reforçar a limpeza e a desinfecção de todas as superfícies próximas ao
leito/cadeira de diálise6. Se não houver condições de colocar os pacientes
em sala separada, o serviço deve dialisá-los no turno com o menor
número de pacientes ou, no caso de haver muitos pacientes com COVID-
19 confirmada, o serviço deve remanejar os turnos de todos os pacientes,
de forma a manter aqueles com a doença dialisando em um turno
exclusivo6.
As linhas de diálise e máquinas utilizadas em pacientes suspeitos ou
confirmados de COVID-19 devem ser descartadas após o uso, não
podendo assim ser reaproveitados, nem mesmo para o próprio paciente6.
► SERVIÇOS DE HEMOTERAPIA
A Nota Técnica 5/2020 CGSH/DAET/SAES/MS estabelece que
pessoas que tiveram diagnóstico clínico ou laboratorial de infecção por
SARS-CoV-2 são consideradas inaptas por um período de 30 dias após a
completa recuperação da doença, quando estiverem sem nenhum
sintoma ou sequelas que possam contraindicar a doação17. Para os
candidatos que tiveram contato nos últimos 30 dias, com pessoa com diagnóstico clínico ou laboratorial do novo coronavírus, o período de
inaptidão é de 14 dias após o último contato17.
Por determinação da Anvisa, todos os doadores de medula óssea
devem ser testados cerca de 24 horas antes da coleta das células, sempre
que possível, ainda que estejam assintomáticos. Casos confirmados
devem ser considerados inaptos para doação até que o doador seja
testado duas vezes, com aproximadamente uma semana de intervalo
entre a realização dos testes, obtendo resultados negativos; ou, caso não
seja possível realizar a testagem, o doador precisa aguardar 28 dias após
o desaparecimento dos sintomas18. Com relação às coletas de células-
tronco hematopoiéticas de sangue de cordão umbilical e placentário para
doação para um receptor desconhecido, a agência recomenda que essas
coletas sejam suspensas enquanto durar o estado de pandemia18.
As medidas de precaução, limpeza e desinfecção desses serviços
devem seguir as recomendadas para serviços de exames de imagem ou
clínicas de diálise19.
Alguns serviços estão realizando coleta de plasma de pessoas
convalescentes para fins de uso em protocolos de pesquisa.
► TRANSPLANTE DE ÓRGÃOS SÓLIDOS
Constituem contraindicações absolutas para doação de órgãos e tecidos
a presença de infecção pelo SARS-CoV-2, com ou sem sintomas, e o
diagnóstico de SRAG sem etiologia definida20.
No caso de doadores vivos, é exigido para a captação um resultado
negativo de RT-PCR para SARS-CoV-2, realizado em até 24 horas. Para
doadores curados da COVID-19, além do exame, é exigida a ausência de
sintomas por pelo menos 28 dias20.
No caso de doadores falecidos, as recomendações do Ministério da
Saúde são listadas no Quadro 520.
▷Quadro 5 Critérios para validação de doador falecido de órgãos, tecidos oculares e
pele 20
Doador com teste de RT-PCR para Contraindicação absoluta para doação de órgãos e tecidos SARS -CoV-2 positivo,
independentemente do quadro
clínico
Doador com SRAG sem etiologia
definida e teste laboratorial não
disponível
Doador que teve contato com Contato há menos de 14 dias: descartar casos suspeitos ou confirmados de Contato há mais de 14 dias: pode ser validado para doação de COVID-19 órgãos mediante resultado de RT-PCR para SARS-CoV-2 negativo
realizado 24 h antes da captação
Doador com suspeita clínica, Sintomas há menos de 14 dias: descartar porém com resultado de teste Sintomas cessados há mais de 14 dias: o doador pode ser validado
laboratorial para SARS-CoV-2 para doação de órgãos mediante resultado de RT-PCR para SARS-
negativo CoV-2 negativo realizado 24 h antes da captação
Doador que teve COVID-19, com Pode ser validado para doação de órgãos mediante resultado de
regressão completa dos sintomas RT-PCR para SARS-CoV-2 negativo realizado 24 h antes da há mais de 14 dias captação
Doador sem suspeita clínica e sem Pode ser validado para doação de órgãos, tecidos oculares e pele
contato com casos suspeitos ou mediante resultado de RT-PCR para SARS-CoV-2 negativo confirmados de COVID-19 realizado 24 h antes da captação
Receptores de órgãos cujo doador teve contato com casos suspeitos ou
confirmados de COVID ou teve suspeita clínica e teste molecular para
SARS-CoV-2 negativo devem preferencialmente ser colocados em
isolamento respiratório e de contato após o transplante20.
Pacientes à espera do transplante que não apresentem quadro clínico de
COVID-19 deverão realizar RT-PCR para SARS-CoV-2 durante a
avaliação pré-transplante, sempre que possível. Em caso de positividade
do exame, deve ser temporariamente suspenso da lista de espera e
reavaliado após 28 dias20.
Procedimentos eletivos devem ser adiados.
► SERVIÇOS DE ODONTOLOGIA
Recomenda-se ao cirurgião dentista, que se não for clinicamente
urgente ou emergencial, o procedimento odontológico seja adiado, mas a
Anvisa assume que a urgência de um procedimento, durante a pandemia,
deve ser uma decisão baseada em julgamento clínico e ser tomada caso a
caso6.
Os cuidados recomendados no funcionamento de consultórios de
odontologia extra-hospitalares estão detalhadamente listados na Nota
Técnica GVIMS/GGTES/ANVISA N. 04/20206. É importante destacar
os seguintes:
Reforçar a limpeza de superfícies.
Realizar frequentemente, e entre a retirada de cada EPI, a higiene das mãos com água e
sabonete líquido ou preparação alcoólica a 70%.
Usar EPI (gorro, óculos de proteção, máscara N95/PFF2 ou equivalente, protetor facial,
avental impermeável e luvas de procedimento).
Realizar aspiração contínua da saliva residual e se possível com sistema de alta potência, além
de dique de borracha para reduzir a dispersão de gotículas e aerossóis.
Não utilizar aparelhos que gerem aerossóis, como jato de bicarbonato, canetas de alta e baixa
rotação e ultrassom.
Esterilizar em autoclave todos os instrumentais considerados críticos, inclusive canetas de alta
e baixa rotação.
Depois do atendimento, devem-se realizar os procedimentos adequados de limpeza
concorrente e desinfecção ambiental e das superfícies.
Ao final do dia, deverá ser realizada a limpeza terminal de toda a área.
► CENTROS CIRÚRGICOS
Todos os profissionais devem empregar as medidas de biossegurança e
usar os EPI de acordo com os protocolos indicados.
Recomenda-se um planejamento anestésico cuidadoso. A intubação e a
extubação são procedimentos geradores de aerossóis. O uso de
equipamento descartável para a intubação deve ser priorizado quando
possível. Técnicas de intubação com maior chance de sucesso pela
primeira vez devem ser preferidas para evitar instrumentação repetida
das vias aéreas21.
Após a intubação e a extubação, e no caso de risco de contaminação
pesada (vômito, tosse), todo o pessoal envolvido deve substituir
imediatamente seus EPI21.
Aspectos fundamentais no manejo cirúrgico do paciente com COVID-
19 são expostos no Quadro 621.
▷ Quadro 6 21 Diretivas operacionais para centros cirúrgicos
Todo o pessoal em contato com o paciente deve usar EPI
O transporte dos pacientes deve ser planejado com antecedência
O pessoal de transporte deve ser o mesmo desde a origem do transporte até o destino
Os pacientes infectados devem ser movidos o menos possível pelo hospital
A área para cirurgias deve ser separada e, de preferência, exclusiva
Material mínimo, de preferência descartável, deve ser usado para cada intervenção
Depois que o paciente entrar, as portas da sala de cirurgia deverão ser fechadas
Os profissionais devem permanecer na sala o menor tempo possível, mas não devem deixar a sala de
cirurgia durante o procedimento
Recomenda-se o uso de filtros HEPA
A documentação deve ser realizada fora da sala, após o término do procedimento
Ao final de cada intervenção, todos os materiais descartáveis devem ser colocados sobre a mesa e todas as superfícies e dispositivos precisam ser limpos e desinfetados com precisão
A sala e as áreas circundantes devem ser higienizadas assim que possível após cada procedimento
Após cada procedimento, todo o pessoal envolvido, sempre que possível, deve tomar banho
O pós-operatório imediato deve ser feito em enfermaria ou UTI
EPI: equipamento de proteção individual; HEPA: high efficiency particulate arrestance; UTI: unidade de terapia
intensiva.
► CUIDADOS RELACIONADOS AO ALEITAMENTO MATERNO
A transmissão de coronavírus de mãe para filho durante a gravidez é
improvável, mas, após o nascimento, o recém-nascido é suscetível à
disseminação de pessoa para pessoa22.
No caso de recém-nascidos internados com a mãe em alojamento
conjunto, os cuidados de distanciamento, higiene e limpeza devem ser
mantidos.
A gestante, bem como os profissionais de saúde envolvidos em seu
cuidado, devem decidir como iniciar ou continuar a amamentação. Caso
a lactante esteja sintomática, pode optar por amamentar diretamente,
usando máscara cirúrgica e higienizar as mãos antes e após cada
mamada, ou indiretamente, por meio de bombeamento do leite, seguindo
rigorosamente as recomendações para limpeza das bombas após cada
uso22.
A recomendação de doação de leite humano está mantida para
lactantes saudáveis e sem contato domiciliar com pessoa sintomática,
cabendo aos bancos de leite humano e postos de coleta de leite humano
orientar as candidatas à doação. É contraindicada a doação por mulheres
com sintomas compatíveis com síndrome gripal, infecção respiratória ou
confirmação de caso da COVID-19 e mulheres que tenham contatos
domiciliares de casos com síndrome gripal ou caso confirmado de
COVID-19. As normas técnicas disponíveis para ordenha, coleta,
processamento e controle de qualidade de leite humano são suficientes
para garantir a segurança biológica dos profissionais e do produto, não havendo necessidade de acréscimo de novas etapas de processamento e
coleta23.
► CUIDADOS POST MORTEM
Após a morte, as medidas de precauções-padrão e baseadas na
transmissão devem permanecer no manuseio do corpo. Embora o risco
seja menor do que com a assistência a pacientes vivos, considera-se que,
mesmo após a morte, ainda ocorra risco contínuo de transmissão por
contato, portanto os profissionais envolvidos no manuseio do corpo
devem utilizar EPI adequados.
O risco de contaminação estende-se além do período imediato após a
morte, de modo que medidas preventivas devem ser seguidas nos
procedimentos de autópsias e nas preparações para o sepultamento.
Autópsias devem ser evitadas em pacientes com casos suspeitos ou
confirmados de COVID-19 e, caso indispensáveis, devem ser realizadas
segundo normas de biossegurança, utilizando técnicas minimamente
invasivas. As agências funerárias devem ser notificadas sobre a suspeita
do diagnóstico para que tomem as devidas precauções (risco biológico
classe de risco 3). Recomenda-se que profissionais pertencentes a grupos
de risco para doença grave por COVID-19 (como os com mais de 60
anos, com comorbidades ou imunossuprimidos) sejam expostos a
atividades relacionadas ao manejo direto do corpo6.
As recomendações a seguir são baseadas na Nota Técnica da Anvisa
vigente até o momento em que esse material foi redigido6. Novas
recomendações podem ser feitas de acordo com o avanço no
conhecimento em relação à doença.
A preparação e o acondicionamento do corpo para transferência para
uma unidade de autópsia, necrotério/funerária, crematório ou local de
sepultamento devem respeitar a dignidade dos mortos, sua cultura,
religião e tradições. O preparo e o manejo apressados de corpos de
pacientes com COVID-19 devem ser evitados. Durante os cuidados com
o cadáver, só devem estar presentes os profissionais estritamente
necessários e todos devem utilizar os EPI indicados e ter acesso a
recursos para realizar a higiene das mãos com água e sabonete líquido ou preparações alcoólicas a 70%. Higiene das mãos deve ser realizada antes
e depois da interação com o corpo e o meio ambiente.
Todos os profissionais que tiverem contato com o cadáver devem usar
óculos de proteção ou protetor facial, máscara cirúrgica, avental ou
capote impermeável e luvas de procedimento. Se for necessário realizar
procedimentos que podem gerar aerossóis, como extubação, usar gorro e
trocar a máscara cirúrgica pela máscara N95/PFF2 ou equivalente.
Tubos, drenos e cateteres devem ser removidos do corpo, tendo cuidado
especial para evitar a contaminação durante a remoção de cateteres
intravenosos, outros dispositivos cortantes e do tubo endotraqueal.
Recomenda-se desinfetar e bloquear os orifícios de drenagem de feridas
e punção de cateter com cobertura impermeável, e os orifícios oral, retal
e nasal com compressas. Os resíduos perfurocortantes devem ser
descartados imediatamente em recipientes rígidos, à prova de perfuração
e vazamento e com o símbolo de resíduo infectante.
A movimentação e a manipulação do corpo devem ser as menores
possíveis. O cadáver deve ser acondicionado em saco impermeável, à
prova de vazamento e selado. É fundamental desinfetar a superfície
externa do saco com álcool líquido a 70%, solução clorada a 0,5% a 1%
ou outro saneante desinfetante regularizado junto à Anvisa, tomando-se
cuidado de não usar luvas contaminadas para a realização desse
procedimento.
O cadáver deve ser corretamente identificado. O saco de transporte
também deve ser adequadamente identificado com a informação relativa
ao risco biológico; no contexto da COVID-19: agente biológico classe de
risco 3. O saco com o cadáver deve ser transferido para o necrotério da
instituição.
Os profissionais que não tiverem contato com o cadáver, mas apenas
com o saco, deverão adotar as precauções-padrão (em especial, a higiene
de mãos) e usar avental ou capote e luvas. Caso haja risco de respingos
dos fluidos ou das secreções corporais, devem usar também máscara
cirúrgica e óculos de proteção ou protetor facial. A maca de transporte de
cadáveres deve ser utilizada apenas para esse fim e ser de fácil limpeza e
desinfecção. Após remover os EPI, todos os profissionais devem realizar
a higiene das mãos, conforme já descrito.
O número de pessoas autorizadas a permanecer na sala de autópsia
deve ser limitado às estritamente necessárias à realização dos
procedimentos, que devem ser realizados em salas com sistemas de
tratamento de ar adequados, incluindo sistemas que mantêm pressão
negativa em relação às áreas adjacentes e que fornecem um mínimo de
12 trocas de ar por hora e direção controlada do fluxo de ar. O ar
ambiente deve sair diretamente para o exterior ou passar por um filtro
HEPA (High Efficiency Particulate Arrestance), e as portas da sala
devem ser mantidas fechadas. Procedimentos que geram aerossóis
devem ser evitados. Caso sejam utilizados equipamentos como serra
oscilante, deve-se conectar uma cobertura de vácuo para conter os
aerossóis. Para a manipulação e o exame de amostras menores, devem-se
usar cabines de segurança biológica.
Os EPI para os profissionais que realizam a autópsia incluem: gorro,
óculos de proteção ou protetor facial, preferencialmente, máscaras de
proteção respiratória tipo N95 ou equivalente, avental ou capote
resistente a fluidos ou impermeável, luvas cirúrgicas duplas interpostas
com uma camada de luvas de malha sintética à prova de corte; e capas
impermeáveis para calçados ou botas impermeáveis. Antes de sair da
área de autópsia ou da antecâmara adjacente, o profissional deve retirar o
EPI, com atenção, para evitar a contaminação. Os resíduos devem ser
enquadrados na categoria A1. Imediatamente após retirar os EPI, os
profissionais devem realizar a higiene das mãos. Os instrumentos usados
durante a autópsia devem ser limpos e desinfetados imediatamente após
a autópsia, como parte do procedimento de rotina e de acordo com as
orientações dos fabricantes dos produtos. Devem-se realizar a limpeza e
a desinfecção rigorosas do local de autópsia, após o término de todos os
procedimentos. Durante esse processo, os sistemas de tratamento de ar
devem permanecer ligados.
Ao realizar o transporte para o local do funeral, o corpo deve estar em
saco impermeável, à prova de vazamento e selado. Deve-se desinfetar a
superfície externa do saco com álcool líquido a 70%, solução clorada a
0,5% a 1% ou outro saneante desinfetante regularizado junto à Anvisa,
tomando-se cuidado de não usar luvas contaminadas para a realização
desse procedimento. Nenhum equipamento ou veículo de transporte
especial é necessário. Quando for utilizado um veículo de transporte, este também deve ser submetido à limpeza e à desinfecção, segundo os
procedimentos rotineiros. Todos os profissionais que atuam no transporte
do corpo devem adotar as medidas de precaução-padrão. Aqueles que
tiverem contato com o cadáver ou com o saco do cadáver deverão adotar
as precauções-padrão (em especial, a higiene de mãos) e usar avental ou
capote e luvas.
Não é recomendada a preparação higiênica do cadáver, para evitar a
manipulação excessiva do corpo, mas, caso haja necessidade de
preparação do corpo, os profissionais deverão utilizar EPI apropriados,
como luvas, avental ou capote, máscara cirúrgica, óculos de proteção ou
protetor facial. A movimentação e a manipulação do corpo devem ser as
menores possíveis. Orienta-se que o corpo não seja embalsamado, para
evitar a manipulação excessiva do corpo. Deve-se realizar a desinfecção
externa do caixão com álcool líquido a 70% ou outro desinfetante, antes
de levá-lo para o velório, usando luvas limpas para realizar esse
procedimento.
Os cadáveres poderão ser cremados ou sepultados, de acordo com as
preferências e os costumes da família. Após o uso, os sacos de cadáver
vazios devem ser descartados como resíduos de serviços de saúde,
segundo legislação vigente. Velórios não são recomendados. Caso
ocorram, deverão ocorrer com o menor número possível de pessoas,
preferencialmente, apenas os familiares mais próximos, que devem
respeitar o distanciamento físico (maior que 1 metro), além de adotarem
a higiene respiratória/etiqueta da tosse durante a cerimônia. Devem ser
evitados apertos de mão e outros tipos de contato físico entre os
participantes.
O caixão deve ser mantido fechado durante todo o funeral, para evitar
contato físico com o corpo. Condições para a higiene das mãos de todos
que participam do funeral (água e sabonete líquido e álcool em gel a
70%) devem estar disponíveis. Os encarregados de colocar o corpo na
sepultura ou em pira funerária devem usar luvas e higienizar as mãos
com água e sabonete líquido após retirada das luvas.
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