Covid-19: Guia Prático de Infectologia
Apresentação
A melhora das condições de vida da população e das medidas de
higiene e saneamento básico, além do desenvolvimento de vacinas e
antibióticos, permitiu a redução do impacto das doenças infecciosas
sobre a população, de maneira que a geração dessa estabilidade ilusória
chegou a fazer parte da paisagem da pós-modernidade. Contudo, a
natureza falaciosa dessa percepção era conhecida de longa data pelos
envolvidos no estudo da infectologia e da vigilância em saúde.
Não foi surpresa para nós. Sabíamos que ocorreria, mas não prevíamos
o momento. Enfim, no último dia de 2019, a Organização Mundial da
Saúde anunciou ao mundo um surto de casos de pneumonia de causa
desconhecida na China. A doença viria a ser chamada COVID-19 e iria
se tornar uma pandemia de características sem precedentes.
Ainda sem tratamentos efetivos ou vacinas disponíveis, as principais
formas de contenção dessa doença concentram-se na redução da
transmissão do vírus, sobretudo por meio de medidas de distanciamento
social, redução da circulação de pessoas, isolamento de portadores de
infecção confirmada ou suspeita, higienização frequente das mãos e
utilização de máscaras pela população, além de educação relativa às
medidas de etiqueta respiratória. Fronteiras foram fechadas, viagens
canceladas, famílias separadas, deslocamentos proibidos, tudo com o
intuito de reduzir a circulação do vírus.
Passamos a viver em meio a pandemia de uma doença altamente
transmissível e potencialmente grave, da qual não se sabe praticamente
nada, e que certamente terá impacto profundo na forma de vida das
sociedades contemporâneas. Desde então, a corrida por produção de
conhecimento a respeito dessa doença assumiu velocidade extremamente
rápida, de forma até então inédita. Apesar do grande número de
publicações, o nível de evidência das conclusões é baixo no geral.
Sabemos que os profissionais de saúde envolvidos no enfrentamento
da pandemia deparam-se com um dos maiores desafios de suas vidas. Falta de evidências científicas sólidas, sistemas de saúde em colapso e
número insuficiente de leitos, equipamentos, insumos e recursos
humanos para atender todos os infectados resultam em altos níveis de
estresse físico e emocional, intensificado por risco ocupacional de
exposição à infecção, medo do adoecimento e possibilidade de
transmissão da doença no ambiente domiciliar.
Esta publicação aborda, à luz das evidências científicas disponíveis até
o momento de sua criação, pontos fundamentais para o manejo dos
pacientes com COVID-19. Os capítulos descrevem as características do
patógeno e sua origem, as manifestações clínicas e a história natural da
doença, os aspectos diagnósticos e terapêuticos, além de cuidados de
biossegurança, dentro e fora do ambiente de assistência à saúde, e as
perspectivas futuras no enfrentamento da pandemia.
Quem aqui escreveu o fez em meio a muito trabalho. Todos, em
variável nível de exposição, estão envolvidos com o combate à
pandemia. Todos já se paramentaram e desparamentaram para atender
casos confirmados. Todos são parentes, amigos ou colegas de trabalho de
pessoas gravemente acometidas pela COVID-19. Todos estão com medo,
afastados de suas famílias, vivendo diariamente o desafio de se manter
atualizados e, ao mesmo tempo, dispostos para trabalhar. Todos desejam,
com máxima sinceridade, que esta publicação reflita na melhoria do
cuidado das pessoas doentes e que os textos que se seguem possam
rapidamente ser atualizados e acrescidos de respostas às dúvidas por eles
apresentadas.
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