Covid-19: Guia Prático de Infectologia

Alberto dos Santos de Lemos · Capítulo 1 de 10

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Covid-19: Guia Prático de Infectologia

Apresentação

 

A melhora das condições de vida da população e das medidas de

higiene e saneamento básico, além do desenvolvimento de vacinas e

antibióticos, permitiu a redução do impacto das doenças infecciosas

sobre a população, de maneira que a geração dessa estabilidade ilusória

chegou a fazer parte da paisagem da pós-modernidade. Contudo, a

natureza falaciosa dessa percepção era conhecida de longa data pelos

envolvidos no estudo da infectologia e da vigilância em saúde.

Não foi surpresa para nós. Sabíamos que ocorreria, mas não prevíamos

o momento. Enfim, no último dia de 2019, a Organização Mundial da

Saúde anunciou ao mundo um surto de casos de pneumonia de causa

desconhecida na China. A doença viria a ser chamada COVID-19 e iria

se tornar uma pandemia de características sem precedentes.

Ainda sem tratamentos efetivos ou vacinas disponíveis, as principais

formas de contenção dessa doença concentram-se na redução da

transmissão do vírus, sobretudo por meio de medidas de distanciamento

social, redução da circulação de pessoas, isolamento de portadores de

infecção confirmada ou suspeita, higienização frequente das mãos e

utilização de máscaras pela população, além de educação relativa às

medidas de etiqueta respiratória. Fronteiras foram fechadas, viagens

canceladas, famílias separadas, deslocamentos proibidos, tudo com o

intuito de reduzir a circulação do vírus.

Passamos a viver em meio a pandemia de uma doença altamente

transmissível e potencialmente grave, da qual não se sabe praticamente

nada, e que certamente terá impacto profundo na forma de vida das

sociedades contemporâneas. Desde então, a corrida por produção de

conhecimento a respeito dessa doença assumiu velocidade extremamente

rápida, de forma até então inédita. Apesar do grande número de

publicações, o nível de evidência das conclusões é baixo no geral.

Sabemos que os profissionais de saúde envolvidos no enfrentamento

da pandemia deparam-se com um dos maiores desafios de suas vidas. Falta de evidências científicas sólidas, sistemas de saúde em colapso e

número insuficiente de leitos, equipamentos, insumos e recursos

humanos para atender todos os infectados resultam em altos níveis de

estresse físico e emocional, intensificado por risco ocupacional de

exposição à infecção, medo do adoecimento e possibilidade de

transmissão da doença no ambiente domiciliar.

Esta publicação aborda, à luz das evidências científicas disponíveis até

o momento de sua criação, pontos fundamentais para o manejo dos

pacientes com COVID-19. Os capítulos descrevem as características do

patógeno e sua origem, as manifestações clínicas e a história natural da

doença, os aspectos diagnósticos e terapêuticos, além de cuidados de

biossegurança, dentro e fora do ambiente de assistência à saúde, e as

perspectivas futuras no enfrentamento da pandemia.

Quem aqui escreveu o fez em meio a muito trabalho. Todos, em

variável nível de exposição, estão envolvidos com o combate à

pandemia. Todos já se paramentaram e desparamentaram para atender

casos confirmados. Todos são parentes, amigos ou colegas de trabalho de

pessoas gravemente acometidas pela COVID-19. Todos estão com medo,

afastados de suas famílias, vivendo diariamente o desafio de se manter

atualizados e, ao mesmo tempo, dispostos para trabalhar. Todos desejam,

com máxima sinceridade, que esta publicação reflita na melhoria do

cuidado das pessoas doentes e que os textos que se seguem possam

rapidamente ser atualizados e acrescidos de respostas às dúvidas por eles

apresentadas.

 

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