Covid-19: Guia Prático de Infectologia
01. Etiologia e origem
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Etiologia e origem
Alberto dos Santos de Lemos
► ANTECEDENTES
O potencial pandêmico de viroses respiratórias emergentes e
reemergentes é objeto de estudo da comunidade científica há cerca de
um século, desde a grande pandemia de gripe espanhola. Em 2007, os
autores de uma relevante revisão sobre um coronavírus envolvido na
epidemia ocorrida em 2003 de síndrome respiratória aguda grave
(SARS, do inglês Severe Acute Respiratory Syndrome) já apontavam os
vírus dessa família como potenciais ameaças futuras, que poderiam ser
ainda mais devastadoras1. Durante a epidemia em 2003, iniciada na
província chinesa de Guangdong, foram reportados 8.096 casos e 774
mortes em mais de trinta países, nos cinco continentes1. A SARS era
caracterizada por uma grave pneumonia viral difusa, que eventualmente
evoluía para síndrome respiratória aguda grave (SRAG) e morte. O
coronavírus causador da SARS foi nomeado SARS-CoV.
Em 2012, na Arábia Saudita, foi confirmado novo surto de uma doença
respiratória que cursava inicialmente com sintomas leves, mas que
frequentemente evoluía com pneumonia, SRAG e insuficiência renal.
Foi identificado como agente etiológico da doença o coronavírus da
síndrome respiratória do Oriente Médio, ou MERS-CoV2, que ainda está
circulando. Até janeiro de 2020, a Organização Mundial da Saúde
(OMS) contabilizava 2.519 casos confirmados da doença, com 866
mortes relacionadas, a maioria em países do Oriente Médio3.
Em 31 de dezembro de 2019, 27 casos de pneumonia de etiologia
desconhecida foram identificados na cidade de Wuhan, província de
Hubei, na China, uma metrópole de mais de 11 milhões de habitantes4.
Os casos foram descritos como pneumonias bilaterais precedidas por síndrome gripal. Chamou a atenção o fato de que a maioria desses casos
iniciais aparentemente estava relacionada ao mercado de Huanan, que
comercializava animais vivos e carcaças de peixes, aves, morcegos,
cobras e outros animais selvagens4.
Após a detecção do surto de uma pneumonia viral associado ao
mercado de Huanan, um alerta epidemiológico foi lançado pela
autoridade local de saúde e o estabelecimento foi fechado em 1 de
janeiro de 2020, 59 casos suspeitos foram transferidos para um hospital
de referência, e uma equipe de especialistas foi formada5. Conforme o
número de casos aumentava, foi verificado que boa parte deles evoluiu
com SRAG e óbito. Em 7 de janeiro de 2020, o Centro Chinês de
Controle e Prevenção de Doenças detectou como agente causal da
doença um novo coronavírus, muito similar ao SARS-CoV. O vírus
então foi designado SARS-CoV-24. Em 11 de fevereiro de 2020, o
Diretor Geral da OMS, Tedros Adhanom, anunciou que a “doença
causada pelo SARS-CoV-2” ganharia a sigla COVID-194.
Investigações subsequentes sobre os primeiros casos diagnosticados
verificaram que os sintomas tiveram início por volta de 1 de dezembro
de 2019 e não tinham ligação direta com o mercado de Huanan2. Estudos
adicionais estão em andamento para determinar se infecções não
reconhecidas em humanos podem ter ocorrido em meados de novembro
de 2019 e averiguar se o vírus pode ter sido introduzido na população
humana por meio de uma fonte animal no mercado ou se um ser humano
infectado poderia ter introduzido o vírus no mercado, onde teria se
amplificado2.
► VIROLOGIA
Os coronavírus (CoVs) pertencem à família Coronaviridae, na ordem
Nidovirales. Seu nome se deve às espículas presentes na superfície do
vírus, o que lhes dá a aparência de uma coroa solar, como demonstrado
na Figura 1. Medem 65 a 125 nm de diâmetro e são envelopados e
compostos por uma fita única de RNA de sentido positivo2. Dentre as
diversas espécies, algumas podem causar doenças em humanos, como o
SARS-CoV, o MERS-CoV e o SARS-CoV-2, além de outros coronavírus envolvidos com infecções respiratórias altas de baixa gravidade em
humanos: HCoV-NL63, HCoV-229E, HCoV-OC43 e HCoV-HKU16.
As proteínas estruturais do SARS-CoV-2 são: proteínas das espículas
(S), proteínas do envelope (E), proteínas de membrana (M) e a
fosfoproteína nucleocapsídica. As proteínas não estruturais transcritas
incluem: orf1ab, ORF3a, ORF6, ORF7a, ORF10 e ORF87.
Cada espícula é composta por subunidades (S1 e S2), que se ligam a
receptores na membrana de células hospedeiras, iniciando uma cadeia de
sinais, que termina com a fusão do envelope viral com a membrana
celular, liberando o genoma viral no citoplasma8. Estudos recentes
demonstraram que a subunidade S1 se liga diretamente à peptidase da
enzima conversora de angiotensina 2 (ECA2). Quando a S1 se liga ao
receptor ECA2 do hospedeiro, um local de clivagem na S2 é exposto e é
desagregado pelas proteases do hospedeiro, facilitando a infecção viral9.
O conhecimento dessa interação do SARS-CoV-2 com a ECA2 é
fundamental para a discussão posterior sobre o uso de medicamentos
inibidores da ECA no curso da COVID-19.
Estudos tentam descrever melhor a relação da replicação viral com a
clínica. Resultados preliminares sugerem que a ORF8 e outras
glicoproteínas de superfície poderiam se combinar com a porfirina
humana formando um complexo. Simultaneamente, as proteínas orf1ab,
ORF10 e ORF3a promoveriam um ataque ao heme na cadeia 1-beta da
hemoglobina, para dissociar o ferro e formar mais porfirina7. O resultado
seria menor efetividade da respiração celular e inflamação de células
alveolares pulmonares, o que se expressaria clinicamente como
insuficiência respiratória e, tomograficamente, imagens em vidro fosco.
▷Figura 1 Composição ilustrativa do novo coronavírus.
► VIAS DE TRANSMISSÃO
O principal meio de infecção são as gotículas emitidas pela respiração
de pessoas doentes e, consequentemente, o contato com superfícies por
elas contaminadas. A transmissão ocorre quando uma pessoa está no
perímetro de 1 metro de outra pessoa sintomática (p. ex., tossindo ou
espirrando) e as gotículas entram em contato com as mucosas orais,
nasais ou conjuntivais. A persistência em superfícies reforça a
necessidade de instituição de precaução de contato durante o
atendimento de pacientes com COVID-19. Esses fômites são fontes
frequentes de infecção a partir do momento em que as mãos por eles
contaminadas entram em contato com as mucosas2,4,6.
Acredita-se que o SARS-CoV-2 compartilhe com os outros coronavírus
a capacidade de permanecer infectante em superfícies e materiais por até
nove dias10. O Quadro 1 exibe o tempo de persistência dos coronavírus
em diferentes superfícies, de acordo com os estudos mais recentes11.
▷ Quadro 1 Tempo de persistência de partículas viáveis dos coronavírus em
diferentes materiais10,11
Material da superfície Tempo estimado de persistência
Metais em geral Até 5 dias
Aço inoxidável Até 72 horas
Alumínio Até 8 horas
Cobre 4 horas
Papelão 24 horas
Plástico Até 9 dias
Vidro 5 dias
Látex 8 horas
A desinfecção das superfícies com hipoclorito de sódio (0,05 a 0,2%),
etanol (62 a 71%) ou peróxido de hidrogênio 0,5% por 1 minuto é
suficiente para reduzir significativamente a infetividade das partículas
virais10, informação valiosa para o planejamento de precauções no
ambiente hospitalar. A higienização correta das mãos com água e sabão
ou álcool gel 70% é capaz de inativar as partículas nelas presentes12,13. O
SARS-CoV-2 também pode ser transmitido por aerossóis, que
eventualmente são gerados em procedimentos como12,13:
Intubação e extubação.
Ventilação manual.
Ventilação com máscara facial.
Ventilação não invasiva (p. ex., BiPAP e CPAP).
Ventilação oscilatória de alta frequência.
Oxigenoterapia nasal de alto fluxo.
Nebulização.
Aspiração aberta da traqueia ou de vias aéreas superiores, como nariz e boca.
Inserção, remoção ou aspiração de traqueostomia.
Broncoscopia e endoscopia digestiva alta.
Procedimentos otorrinolaringológicos que exijam aspiração.
Ressuscitação cardiopulmonar.
Procedimentos cirúrgicos ou odontológicos que envolvam o uso de dispositivos de alta
velocidade.
Autópsia caso envolva o uso de dispositivos de alta velocidade.
Procedimentos terapêuticos e de reabilitação envolvendo laringectomia;
Procedimentos indutores de tosse, como indução de escarro e coleta de swabs de naso e
orofaringe.
Embora cada um desses procedimentos esteja relacionado com menor
ou maior risco de aerossolização de partículas infectantes, as medidas
específicas de proteção devem ser instituídas sempre que eles forem
realizados. Estima-se o SARS-CoV-2 permaneça viável em aerossóis por
um tempo médio de 3 horas11.
Por um lado, temperaturas mais altas inativam os coronavírus, e
acredita-se que, por analogia, também sejam capazes de inativar o
SARS-CoV-2. Temperaturas de 60°C por 30 minutos, 65°C por 15
minutos e 80°C por 1 minuto se mostraram suficientes para a
inativação14.
Por outro lado, temperaturas mais frias parecem favorecer a
persistência do vírus, que pode ser maior que 28 dias, por exemplo, para
alguns coronavírus veterinários a 4°C. Como a epidemia teve início
durante o inverno no hemisfério norte, há ainda incertezas a respeito do
comportamento do vírus em países tropicais, como o Brasil. Contudo, a
teoria de que temperaturas mais amenas resultariam em menor
transmissibilidade não encontra mais sustentação na atualidade. Embora
estudos experimentais mostrem uma relação entre temperaturas mais
altas, níveis de umidade e baixa sobrevivência de SARS-CoV-2 em
laboratório, ainda não houve demonstração de que isso possa alterar a
transmissibilidade populacional15.
Há diversas evidências de que alguns pacientes com infecção por
SARS-CoV-2 eliminam vírus vivos nas fezes, o que levanta a hipótese
da existência de transmissão fecal-oral. Até o momento, essa forma de
transmissão não foi comprovada16. Contudo, convém lembrar que a
convivência com pessoas infectadas no mesmo ambiente,
compartilhando banheiros e objetos de higiene de uso pessoal, permite a
transmissão pela contaminação das superfícies pelos fômites.
► ORIGEM ZOONÓTICA
Como todo RNA-vírus, o SARS-CoV-2 tem natureza instável e requer
vigilância contínua e verificação da ocorrência de mutações. Com base
no estudo de alguns genomas sequenciados em amostras de vítimas da
COVID-19, foi possível identificar que, em razão da pressão seletiva, o
vírus já se diferenciou em dois tipos: um com maior virulência e
capacidade de disseminação e outro de padrão menos agressivo e
supostamente mais antigo17. Ainda não se sabe se essas diferenças terão
impacto significativo do ponto de vista clínico ou epidemiológico, mas
essa vigilância poderá impactar o desenvolvimento de vacinas no futuro. ► OPERAÇÕES DE SAÚDE PÚBLICA NO BRASIL
Quando um novo vírus é descoberto, é importante entender sua origem.
Identificar e isolar a fonte pode impedir novas introduções do vírus na
população humana. Também é importante entender a dinâmica do surto,
para que sejam traçadas estratégias efetivas de saúde pública.
Compreender a origem do vírus também pode ajudar no
desenvolvimento de terapias e vacinas.
Os coronavírus que infectam humanos são provenientes de processos
evolucionários dos vírus de animais, como morcegos e roedores. O gado,
especialmente suíno, e outros animais domésticos costumam atuar como
hospedeiros intermediários entre os reservatórios naturais e os
humanos18. Esse mecanismo de salto zoonótico recebe, na literatura, o
nome em inglês de spillover e vem sendo responsável pela emergência e
reemergência de inúmeras doenças causadas por patógenos, como ebola,
influenza A (H1N1) pdm09 e os coronavírus19, o que torna a vigilância
da dinâmica desses vírus na natureza fundamental para a predição de
zoonoses potencialmente epidêmicas.
Fenômenos como urbanização, desmatamento, viagens humanas e
transporte internacional de alimentos, além de caça e comércio de
animais selvagens, facilitam essas transmissões interespécies. A chegada
desses vírus provenientes de spillovers a áreas densamente povoadas, a
partir do momento em que há transmissão inter-humana, pode gerar
epidemias explosivas, e a fase da globalização em que vivemos facilita a
disseminação mundial desses agentes em pouco tempo20.
No caso do SARS-CoV-2, estudos demonstram que está muito
relacionado a coronavírus de morcegos e pangolins e teria saltado para a
espécie humana durante o último trimestre de 20192,21. A hipótese mais
aceita na atualidade é a de que os pangolins seriam hospedeiros
intermediários, que permitiram o acesso dos vírus de morcegos aos
humanos. Do mesmo modo, é aceito que os dromedários são os
intermediários do MERS-CoV, e as civetas do SARS-CoV, entre
morcegos e humanos, conforme esquematizado na Figura 2.
Assim como no surto de SARS-CoV de 2003, quando vários animais
de estimação foram infectados, mas não adoeceram, não há, até o
momento, evidências de que animais infectados, inclusive cães e gatos
domésticos, possam infectar pessoas22.
Õ Ú Ú
Os governos mundiais estão trabalhando para estabelecer medidas para
conter as consequências potencialmente catastróficas da pandemia.
Agências governamentais, organizações supranacionais de saúde e
cientistas de todo o mundo trabalham incansavelmente na busca de mais
informações sobre os mecanismos de transmissão, as manifestações
clínicas, novos diagnósticos e estratégias terapêuticas e de prevenção da
COVID-19. Muitas incertezas permanecem, e o número de publicações
científicas sobre o tema aumenta de forma acelerada.
▷Figura 2 Ecologia dos coronavírus emergentes MERS-CoV, SARS-CoV e SARS-
CoV-2, que causaram doenças em humanos após terem circulado em hospedeiros
intermediários.
Fonte: adaptada de Jin et al., 202023.
Em 22 de janeiro de 2020, foi ativado o Centro de Operações de
Emergência em Saúde Pública (COE-COVID-19), do Ministério da
Saúde (MS), coordenado pela Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), com o objetivo de nortear a atuação do MS na resposta à emergência da
doença, buscando uma atuação coordenada no âmbito do SUS. O Brasil
adota a ferramenta de classificação de emergência em três níveis,
seguindo a mesma linha utilizada globalmente na preparação e resposta à
pandemia, os níveis e alerta, perigo iminente e emergência em saúde
pública de importância nacional. Toda medida deve ser proporcional e
restrita aos riscos vigentes24.
No momento em que esta publicação vinha sendo escrita, o Brasil já
estava no nível de resposta de emergência de saúde pública de
importância nacional (ESPIN), como previsto no Decreto n. 7.616, de 17
de novembro de 2011. De acordo com o COE-COVID-19, esse nível
“corresponde a uma situação em que há confirmação de transmissão
local do primeiro caso COVID-19, no território nacional, ou
reconhecimento de declaração de Emergência de Saúde Pública de
Importância Internacional (ESPII) pela OMS”24, e é capaz de ativar
específicas medidas de gestão, comunicação, vigilância, assistência e
suporte laboratorial.
Para a sistematização do registro e estudo dos casos para fins de
planejamento e pesquisa, a COVID-19 já recebeu código na CID-10,
apresentado no Quadro 2, acompanhado de outros códigos de interesse
para a prática médica no contesto da pandemia.
▷Quadro 2 Códigos na CID-10 relacionados à infecção pelo SARS-CoV-2
Condição Código (CID-10)
COVID-19 com confirmação laboratorial* U07.1
Infecção por coronavírus de localização não especificada B34.2
SRAG U04.9
Pneumonia viral de causa não identificada J12.9
Faringite aguda devida a outros microrganismos especificados J02.8
Exame especial de rastreamento de outras doenças virais Z11.5
Isolamento Z29.0
SRAG: síndrome respiratória aguda grave; SARS-CoV-2: novo coronavírus causador da síndrome respiratória
aguda grave.
* O uso do código de emergência da CID-10 U07.1 para a COVID-19 ainda não é exigido. Em razão da não
existência desse código na classificação do CID-10 em português e em manuais e protocolos de codificação,
esse código não está habilitado para inserção no Sistema de Informação de Mortalidade, portanto, não deve
ser utilizado em declarações de óbito. Nesse caso, a Coordenação Geral de Informações e Análises
Epidemiológicas solicita o uso do código da CID-10 B34.2.
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