Covid-19: Guia Prático de Infectologia
03. Manifestações clínicas
3
Manifestações clínicas
Alberto dos Santos de Lemos
Leonardo Flavio Nunes dos Santos
► PATOGÊNESE
O SARS-CoV-2 é transmitido de uma pessoa para outra primariamente
por gotículas ou fômites em contato com a mucosa nasal, oral ou
conjuntival. A transmissão por aerossóis também pode ocorrer,
principalmente em ambiente hospitalar, quando são realizados
determinados procedimentos. Sabe-se que nem todos os infectados pelo
vírus desenvolverão a doença COVID-19. Entretanto, pelo fato de ser
um fenômeno tão recente, a infecção ainda não foi totalmente descrita.
Já é sabido que o SARS-CoV-2 tem sua entrada nas células mediada
pelo receptor da ECA2, presente em células do pulmão, do coração, dos
intestinos, dos rins e do fígado além de neurônios e células do sistema
imune1. Portanto, embora o órgão-alvo principal da doença seja o
pulmão, a COVID-19 é uma doença essencialmente sistêmica.
Uma vez internalizado o vírus, inicia-se o período de incubação,
assintomático, que dura uma mediana de 5 dias (entre 2 e 14 dias na
maioria dos acometidos). O tempo médio entre o início dos sintomas e a
morte foi estimado em 9 dias, com a maioria dos casos se concentrando
entre 4 e 13 dias2,3. Após o período de incubação, alguns indivíduos
evoluem para doença, enquanto outros permanecem assintomáticos. O
mecanismo fisiopatológico determinante na definição de que indivíduos
permanecerão sem sintomas ou evoluirão para quadros leves ou graves
ainda não foi totalmente descrito.
Estudos preliminares sugerem que há rápida taxa de replicação viral no
início da infecção, o que levaria à apoptose de células endoteliais com
consequente liberação de quimiocinas e citocinas pró-inflamatórias4. O SARS-CoV-2 também poderia causar piroptose de macrófagos e
linfócitos, o que implicaria a reconhecida linfopenia descrita na COVID-
194. Mais detalhes sobre a dinâmica da viremia em diferentes fases da
doença são escassos e de difícil extrapolação para a clínica. Todavia,
sabe-se que a carga viral em amostras respiratórias pode ser mais
precocemente detectada e chegar a ser 60 vezes maior nos casos graves
quando comparados com casos leves. A duração da positividade da carga
viral em amostras respiratórias é estimada em 10 dias para casos leves e
por tempo indeterminado em casos graves, podendo permanecer até a
morte ou após a recuperação5,6.
Por analogia com o SARS-CoV, acredita-se que o SARS-CoV-2 possa
envolver um mecanismo de downregulation da ECA2, causando injúria
pulmonar aguda, aumentando a permeabilidade vascular e causando
disfunção do sistema renina-angiotensina4. Ademais, as citocinas
liberadas também causariam a redução da expressão da ECA2
pulmonar4. Além das lesões pulmão-centradas, há evidências de que os
casos que evoluem com gravidade podem ter a chamada síndrome de
tempestade de citocinas, um estado de hiperinflamação que, se mais bem
compreendido, poderá levar a estratégias terapêuticas mais eficazes e
mudar a história da doença. A interleucina-6 (IL-6) parece estar
marcadamente elevada nos casos de síndrome respiratória aguda grave
(SRAG)4.
A avaliação de pacientes chineses permitiu verificar que certas
citocinas séricas se encontram marcadamente elevadas em casos graves
quando comparados com pacientes não graves, marcadamente a IL-6, a
IL-10 e o fator de necrose tumoral alfa (TNF-α)7. Paralelamente, foi
demonstrada a redução de linfócitos T-CD4+, T-CD8+ e NK na periferia,
de forma proporcional à gravidade dos casos, apesar do frequente
aumento do total de leucócitos7,8. O momento de início da tempestade de
citocinas ocorre na maioria das vezes entre o sétimo e o décimo dias de
doença7.
A hiperativação de macrófagos e monócitos também é um evento
frequentemente verificado nos casos mais graves. A descrição desses
mecanismos é importante para a seleção de drogas candidatas para o
tratamento da doença. De forma simplificada, os modelos animais
sugerem que o recrutamento sustentado de monócitos da periferia para os pulmões, que posteriormente se diferenciam em macrófagos, ocorre
por diferentes vias, a saber9:
Ativação pelo fator estimulador de colônias de granulócitos-macrófagos (GM-CSF), fator de
necrose tumoral e interferon-γ produzidos por linfócitos T e NK.
Acúmulo de fosfolipídios oxidados (OxPLs) nos pulmões infectados e ativação via receptor
Toll-like 4.
Via Janus quinase (JAK).
Acesso do vírus ao citoplasma com ativação do inflamassoma NLRP3 com consequente
liberação de interleucinas que perpetuam a ativação.
Formação de complexos imunes com IgG anti-S (proteína da espícula).
O desencadeamento de reações inflamatórias do hospedeiro também
resulta em efeitos pleiotrópicos, incluindo lesão endotelial e consequente
estado pró-trombótico. Neutrófilos são recrutados por células endoteliais
ativadas e ativam plaquetas para amplificar a hipercoagulabilidade9. Os
estudos iniciais demonstraram que evidências de coagulopatia, como o
aumento do D-dímero e do tempo de atividade da protrombina, ocorrem
com maior fequência em pacientes que evoluem para o óbito, por volta
do décimo dia de doença10. Fenômenos tromboembólicos são mais
comuns em pacientes graves em comparação com pacientes pouco
sintomáticos10.
Acredita-se que a apoptose das células endoteliais também promove
graves danos à microcirculação, decorrentes de aumento da
permeabilidade vascular e infiltração de células inflamatórias10. A
presença de microangiopatia e microtromboses também pode predispor o
paciente a hipóxia e infartos em múltiplos órgãos, como fígado, coração
ou rim, exacerbando ainda mais a disfunção multiorgânica11.
Evidências de lesão cardíaca podem ocorrer precocemente, o que pode
ser detectado pelo aumento da liberação de troponina e está associado a
mau prognóstico. Uma pequena proporção de pacientes pode ter
envolvimento cardíaco direto, incluindo miocardite, insuficiência
cardíaca, arritmias e alargamento do intervalo QT pela própria doença11.
O SARS-CoV-2 também pode invadir o sistema nervoso e danificar
certos núcleos e circuitos neurais, provavelmente utilizando as
terminações existentes nas conjuntivas, papilas gustativas ou mucosa
nasal, por via hematogênica ou linfática, ou pelo ramo do nervo vago,
que inerva o trato respiratório12. É possível inclusive que o acometimento do sistema nervoso tenha um papel na fisiopatologia da insuficiência
respiratória. Por outro lado, hipóxia tecidual, inflamação e
hipercoagulabilidade podem justificar manifestações como cefaleia,
crises convulsivas e eventos cerebrovasculares.
A maioria das pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2 produz anticorpos
específicos, mas aparentemente de forma heterogênea. Tampouco não há
dados robustos sobre títulos protetores e sua capacidade de neutralização
do vírus. Dessa forma, não se sabe ainda se todos os infectados
desenvolverão imunidade protetora e se há diferença de intensidade e
durabilidade de proteção. Em curto prazo, a proteção parece ser efetiva,
e o soro de pessoas convalescentes vem sendo testado como terapia para
pacientes graves13.
Ainda não se sabe se alguns achados encontrados no estudo da
infecção pelo SARS-CoV em modelos murinos podem ser aplicados por
analogia à infecção pelo SARS-CoV-2. Porém, é importante que certos
mecanismos sejam investigados detalhadamente, como o achado de
alguns pacientes que, particularmente, produzem anticorpos
precocemente e acabam desenvolvendo um quadro de inflamação e
injúria pulmonar persistentes4. É proposto que exista um mecanismo de
amplificação da infecção dependente de anticorpos cuja atividade seria
insuficiente, mas são necessários mais estudos em humanos para
descrever tal fenômeno no curso da COVID-194.
A transmissão do SARS-CoV-2 parece ocorrer mais intensamente em
pessoas com sintomas. O período de transmissibilidade dura desde a
incubação e pode se manter até a morte de indivíduos que evoluem com
doença muito grave, embora não esteja ainda bem definido um tempo
médio. A transmissão por pessoas assintomáticas já foi descrita, mas sua
frequência ainda não foi estabelecida14,15. A existência de indivíduos
assintomáticos capazes de transmitir o vírus traz um problema adicional
para a elaboração de estratégias de controle.
► APRESENTAÇÃO CLÍNICA
É importante reconhecer que os estudos que descrevem séries de casos
e suas evoluções devem ser interpretados com cuidado. Em todos as
séries estudadas, além dos cuidados de suporte clínico, algum tipo de tratamento experimental foi utilizado pelo menos em uma fração dos
casos. Tais interferências podem ter alterado o curso clínico da doença
de formas diferentes em cada centro. De forma mais homogênea, pode-
se ressaltar a predominância de casos no sexo masculino e na faixa etária
adulta2,7,16-20. Entre os sintomáticos, sabe-se que cerca de 80% dos casos
seguem curso leve ou moderado e não necessitam de internação
hospitalar. Cerca de 20% dos casos evoluem com gravidade, e 6% do
total de sintomáticos evoluem com curso gravíssimo e precisam de
cuidados intensivos16. A maioria dos casos graves evolui com pneumonia
e síndrome respiratória aguda grave (SRAG), e a insuficiência
respiratória acaba sendo o principal motivo para internação2,3,16. A
letalidade real, que é um indicador difícil de ser estimado, foi abordada
com mais detalhes no Capítulo 2.
O curso inicial da doença é indiferenciado de outras infecções das vias
aéreas superiores. Não se sabe o percentual exato de pessoas que
evoluem com pneumonia, pois há relatos de casos em que foram
verificadas alterações radiológicas compatíveis em fases muito iniciais
da doença ou até em assintomáticos21. A história de contato com caso
confirmado ou suspeito é importante principalmente nos momentos
iniciais, em que não há transmissão comunitária do vírus. Na fase atual
da epidemia no território brasileiro, esse dado ainda deve ser obtido na
anamnese, mas sua ausência não deve justificar a exclusão da hipótese
diagnóstica.
Não há sinal ou sintoma comum a todos os casos. Os sintomas mais
comumente relatados pelas coortes publicadas são2,16-21:
Febre (temperatura axilar superior a 37,5 °C na maioria dos estudos).
Tosse seca.
Astenia.
Fadiga.
Mialgias.
Dor na garganta.
Pode haver início do quadro com tosse produtiva (até 30%) e
hemoptise. Os sintomas de infecção respiratória alta, como coriza e
congestão conjuntival, podem ocorrer antes da clara definição do quadro
de pneumonia ou durante sua ocorrência, bem como anorexia e
cefaleia2,16,17. Embora não destacado nos primeiros estudos realizados na China, os distúrbios do olfato e do paladar também foram relatados
como sintomas comuns22. O exame físico do paciente pode não
apresentar alterações evidentes. A presença de taquidispneia, crepitações
à ausculta respiratória ou taquicardia é sinal de alarme. Hipotensão
arterial, cianose e saturação periférica de oxigênio inferior a 93% em ar
ambiente indicam a presença de pneumonia ou SRAG. Pode-se observar
dissociação entre a queixa de dispneia e a oxigenação aferida. Na
maioria das vezes, a hipóxia é maior que a percebida pelo paciente,
tornando importante a utilização da oximetria como medida objetiva de
acompanhamento2,23.
Deve-se salientar que manifestações gastrointestinais não são
incomuns – náuseas, dor abdominal e diarreia podem acometer até 13%
dos sintomáticos17. Em coorte italiana, houve o significante relato de
inúmeras manifestações cutâneas em 20,4% dos casos, incluindo
urticária, livedo reticular e rash eritematoso, vesicular, petequial ou
morbiliforme, predominantes no tronco, sem aparente correlação com a
gravidade24. Em casos de coagulação intravascular disseminada também
foras descritas lesões de isquemia acral24. Tanto os achados
gastrointestinais quanto dermatológicos podem ser confundidos com
outros quadros virais que cursam mais frequentemente com esses sinais e
sintomas, mas sua presença definitivamente não exclui a hipótese de
COVID-19.
A incidência de manifestações neurológicas da SARS-CoV-2 ainda não
é conhecida, mas já é sabido que pacientes com quadros graves são mais
propensos a apresentar sintomas neurológicos que aqueles com formas
leves. Além dos sintomas neurológicos inespecíficos já mencionados,
como cefaleia e anosmia, manifestações neurológicas graves têm sido
descritas, como rebaixamento agudo ou subagudo do nível de
consciência, delirium, crises convulsivas, encefalopatia necrosante
hemorrágica aguda, síndrome de Guillain-Barré, trombose dos seios
venosos encefálicos e eventos cerebrovasculares25. Os casos relatados de
acometimento do sistema nervoso central são indiferenciáveis de outras
etiologias infecciosas, como Chikungunya, dengue, enterovírus, herpes
simplex e HIV25.
O impacto da COVID-19 em pacientes imunossuprimidos, incluindo as
pessoas que vivem com HIV, ainda é importante lacuna no conhecimento.
► ALTERAÇÕES EM EXAMES COMPLEMENTARES
Exames complementares podem apresentar desde resultados normais a
variações inespecíficas, e seus achados variam conforme o estudo e a
população analisada. O diagnóstico etiológico da COVID-19 é abordado
no Capítulo 4. A avaliação dos exames complementares inespecíficos é
descrita a seguir16-20.
1. Hemograma: pode ocorrer leucopenia (25%) ou leucocitose (35%). O achado de linfopenia é
muito frequente e está associado a pior prognóstico.
2. Hepatograma: a disfunção hepática é esperada entre 15 e 50% dos casos, pela doença ou por
toxicidade medicamentosa. A principal alteração é o aumento de aminotransferases,
geralmente leve.
3. Avaliação da função renal: na maioria dos casos, não ocorre injúria renal aguda. Contudo,
insuficiência renal é fator de mau prognóstico.
4. Marcadores inflamatórios: a proteína C-reativa e a procalcitonina aumentam ao longo do curso
da doença, indicando evolução desfavorável.
5. Outros exames que, quando alterados em valores elevados, indicam mau prognóstico são:
troponina, D-dímero, tempo de protrombina, ferritina, creatinofosfoquinase e lactato-
desidrogenase.
Não é possível diferenciar a pneumonia causada pelo SARS-CoV-2 de
outras etiologias apenas com dados clínicos. A forma grave mais comum
da doença é manifesta como pneumonia bilateral. Alterações
radiológicas podem ocorrer em praticamente 100% dos casos,
independentemente do curso da doença16.
Não há descrição de nenhum sinal radiológico patognomônico da
COVID-19. O Quadro 1 lista os achados mais frequentes em exames de
imagem de pacientes em diferentes fases da doença. Exemplos de
alterações são expostos no Anexo, ao final deste livro.
Em pacientes com sintomas neurológicos, a ressonância magnética do
crânio é importante ferramenta, pois determina a localização anatômica e
eventualmente fornece pistas sobre o mecanismo fisiopatológico
envolvido nas lesões encontradas26.
▷ Quadro 1 26 Alterações torácicas em exames de imagem na COVID-19
Radiografia simples
Consolidações
Infiltrado intersticial peri-hilar
Infiltrado reticular periférico
Broncograma aéreo
Derrame pleural (< 10%)
Tomografia computadorizada
Opacidades em vidro fosco
Pavimentação em mosaico
Consolidações
Infiltrado peribroncovascular
Espessamento de septos interlobulares
Padrão nodular, opacidades arredondadas
Espessamento da parede brônquica
Broncograma aéreo
Bolhas
Nódulos irregulares
Sinal do halo
Sinal do halo reverso
Aumento linfonodal hilar
Derrame pleural ou pericárdico
Sinais de fibrose (na convalescência)
Ultrassonografia
Linhas B coalescentes nos segmentos superiores e anteriores
Consolidações
Broncograma aéreo
Derrame pleural
A presença de consolidações em bases e de infiltrados pulmonares
bilaterais do tipo “vidro fosco” na tomografia de tórax2,16,17 foi
marcadamente identificada entre o quinto e o oitavo dias de início dos
sintomas e associada a piora da febre e da dispneia. Apresentações
atípicas, como infiltrado periférico e espessamento de fissura interlobar,
também foram descritas26. Em pediatria, os achados mais frequentes são
pequenas opacidades nodulares em vidro fosco, ocasionalmente
acompanhadas de consolidação com halos circundantes26. A piora tardia
de um exame radiológico (tomografia computadorizada, ressonância magnética, radiografia ou ultrassonografia) associada à piora dos
sintomas pode sugerir infecção secundária, por isso deve ser pesquisada.
► COMPLICAÇÕES
As principais complicações decorrentes da infecção pelo SARS-COV-2
são SRAG em 17 a 29% dos casos, lesão miocárdica aguda (12%) e
infecção secundária (10%)16,20-27. A evolução para SRAG ocorre quando,
além dos sintomas gripais, ocorre associação com dispneia e/ou esforço
respiratório e/ou queda da saturação periférica de oxigênio para menos
de 93% em ar ambiente ou necessidade de oxigenoterapia acima de 3-5
L/min. Podem estar presentes também cianose, rebaixamento do nível de
consciência e choque.
São considerados fatores de risco que levem à progressão para
complicações e óbito2,19,20:
Doenças cardiovasculares.
Diabetes mellitus.
Hipertensão arterial.
Doença pulmonar crônica.
Doença renal crônica.
Neoplasias.
Obesidade.
Idade superior a 60 anos.
Como a evolução para SRAG pode ser súbita e de rápida evolução,
pessoas com fatores de risco para complicação, mesmo estáveis, devem
ser submetidas à reavaliação médica em até 48 horas. Caso não seja
possível, deve-se proceder à internação hospitalar e à monitorização
contínua. Uma vez diagnosticada a síndrome, o rápido manejo, incluindo
suporte respiratório, é decisivo para o prognóstico do quadro.
São achados laboratoriais associados a mau prognóstico16,20-27:
Linfopenia.
Aumento da creatinina.
Aumento de aminotransferases.
Aumento da LDH.
Aumento da CPK;
Aumento da ferritina.
Aumento da proteína C-reativa.
Aumento da troponina.
Aumento do tempo de protrombina.
Aumento do D-dímero.
Aumento da interleucina-6 plasmática.
Também pode ocorrer infecção secundária, que deve ser tratada como
quadro de sepse, com rápida instituição de antibioticoterapia em menos
de 1 hora, abrangendo patógenos respiratórios atípicos e influenza.
► SITUAÇÕES ESPECIAIS
Crianças
Em crianças, a infecção assintomática é mais comum, sendo estimada
em 94% dos casos, mas pode haver a ocorrência de casos leves com
febre, tosse, dor na garganta, coriza, cefaleia e diarreia em 5% dos
pacientes, e progressão para pneumonia e SRAG em 1%28. O primeiro
caso de SRAG em uma criança foi relatado na China e,
excepcionalmente, iniciou a doença com sintomas gastrointestinais e
progrediu rapidamente para insuficiência respiratória28. São considerados
sinais de alerta em crianças28,29:
Tosse.
Dispneia.
Cianose central ou SatO < 90%. 2
Febre persistente.
Dificuldades na amamentação ou ao beber líquidos.
Letargia.
Convulsões.
Taquipneia
< 2 meses: ≥ 60 ipm.
2-11 meses: ≥ 50 ipm.
1-5 anos: ≥ 40 ipm.
Gestantes
A infecção por SARS-CoV-2 ainda é pouco estudada, e a maioria do
conhecimento atual ainda é extrapolado da SARS e MERS. Não há
evidência de transmissão intrauterina de mãe para o feto ou relato de
parto prematuro. Porém deve-se acompanhar a gestante bimestralmente
para atentar-se a possíveis complicações de forma precoce30. As
manifestações clínicas pareceram mais inespecíficas e brandas,
retardando ou dificultando o diagnóstico. Não houve diferenças
laboratorial e radiológica significantes em comparação ao grupo-controle. A maioria dos casos evoluiu com bons desfechos para a mãe e
o feto30.
Imunodeprimidos
Em geral, infecções respiratórias tendem a ser mais graves nesses
pacientes, porém não há evidências clínicas de que a COVID-19 seja
mais agressiva31. Em pequena coorte de pessoas imunossuprimidas por
HIV ou por imunossupressão terapêutica para outras doenças, verificou-
se, além de expressiva ocorrência de casos atípicos, a evolução para
síndrome de ativação macrofágica (SAM) ou linfo-histiocitose
hemofagocítica secundária ou estados de desregulação imunológica
similares31,32. Outro ponto controverso é se a terapia antirretroviral é
eficaz na prevenção de formas graves, porém não há estudos que
corroborem essa hipótese no momento.
► DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
As síndromes gripais complicadas com pneumonia e SRAG são bem
conhecidas. A infecção pelo SARS-CoV-2 entrou na lista de etiologias
possíveis. O Quadro 2 apresenta as principais etiologias que podem
apresentar quadro clínico muito semelhante ao da COVID-19.
Dados a respeito de coinfecções têm aumentado em frequência na
literatura, especialmente com outros vírus respiratórios.
▷ Quadro 2 Principais etiologias infecciosas que podem ter a mesma apresentação
respiratória da COVID-19
Vírus
Outros coronavírus (incluindo MERS-CoV)
Influenza
Parainfluenza
Vírus sincicial respiratório
Adenovírus
Bocavírus
Enterovírus (Echovirus, Coxsackievirus)
Metapneumovírus
Rhinovírus
Hantavírus
Bactérias
Streptococcus pneumoniae
Chlamydia pneumoniae
Mycoplasma pneumoniae
Legionella spp.
Coxiella burnetii
Haemophilus influenzae
Moraxella catarrhalis
Staphylococcus aureus
Anaeróbios
Mycobacterium tuberculosis
Fungos
Pneumocystis jirovecii
Histoplasma capsulatum
Dados a respeito da possível associação entre a doença de Kawasaki e
a infecção pelo SARS-CoV-2 emergiram em maio de 2020. Já era
descrita na literatura a ocorrência dessa doença no curso de outras
viroses respiratórias em crianças, inclusive causadas por outros
coronavírus. Por ter curso subagudo, e por ocorrer predominantemente
numa população em que se esperam poucos sintomas da COVID-19, a
doença de Kawasaki pode ser um diagnóstico diferencial ou uma
manifestação da coronavirose em crianças, o que poderá ser esclarecido
conforme mais séries de casos forem publicadas33.
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