Covid-19: Guia Prático de Infectologia
04. Diagnóstico da COVID-19
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Diagnóstico da COVID-19
Marta Guimarães Cavalcanti
► INTRODUÇÃO
O SARS-CoV-2, agente etiológico da COVID-19, é um novo vírus da
família Coronaviridae que trouxe mudanças importantes no modo de
vida das populações humanas em todo o planeta. A COVID-19 teve
início na China continental, apresentando casos entre novembro e
dezembro de 2019, e foi declarada como pandemia pela Organização
Mundial da Saúde (OMS) em março de 2020. O rápido acometimento de
população não imune e a progressão para casos graves em grupos
afetados por outras comorbidades mostraram a necessidade do
diagnóstico acurado da infecção de modo a melhorar a tomada de
decisões tanto no âmbito individual quanto no comunitário.
A infecção pelo SARS-CoV-2 caracteriza-se por amplo espectro de
manifestações, incluindo quadros atípicos ou alterações pouco
específicas. Febre, tosse com ou sem alterações respiratórias, como
dispneia, e ausência ou presença de intensa fadiga são manifestações
frequentes. Podem estar também presentes congestão nasal, anosmia, dor
de garganta, mal-estar, mialgia e diarreia, associados ou não à síndrome
respiratória1,2. Desfechos como hospitalização, internação em unidade de
terapia intensiva (UTI) e morte associam-se a alguns fatores de risco, por
exemplo idade e comorbidades. Mas, a despeito da variabilidade do
quadro clínico, a infecção é predominantemente assintomática ou
oligossintomática na maior parte dos afetados não imunes ao SARS-
CoV-2. Em razão das apresentações clínicas tão distintas e dos sintomas
inespecíficos, o diagnóstico da COVID-19 é essencialmente
laboratorial1.
O método da reação em cadeia da polimerase-transcriptase reversa
(reverse transcriptase-polymerase chain reaction – RT-PCR) é
considerado o padrão-ouro no diagnóstico da infecção pelo SARS-CoV-
23. No momento, os testes para detecção de RNA viral são os
recomendados tanto para a confirmação da infecção pelo SARS-CoV-2,
em casos suspeitos na população geral e em trabalhadores da área de
saúde, como também para monitoramento e suspensão de medidas de
isolamento individual.
Recentemente introduzidos, os testes para diagnóstico imunológico
incluem métodos imunoenzimáticos, quimioluminescência e
imunocromatografia de fluxo lateral, os quais permitem a determinação
de exposição prévia, sendo então cogitados como ferramentas auxiliares
para controle de cura e vigilância epidemiológica.
► DESCRIÇÃO DA ESTRUTURA E DO GENOMA VIRAL
O SARS-CoV-2 possui estrutura viral composta de envelope externo, o
core (com RNA genômico), nucleoproteína e nucleocapsídeo (Figura 1).
No seu envelope externo, ancoram-se as seguintes proteínas: Spike (SP),
que promove a ligação com o receptor da célula hospedeira; Envelope
(EP), que é facilitadora da montagem da partícula viral e de sua
liberação da célula hospedeira; Membrana (MP), que faz parte da
estrutura da partícula viral. A Hemaglutinina esterase (HE) está presente
em algumas cepas de betacoronavirus e pode contribuir com a proteína S
durante a entrada na célula hospedeira. No nucleocapsídeo, a proteína N
permite a organização do genoma viral (RNA) (Figura 1A).
O genoma viral do SARS-CoV-2 é composto por RNA de fita simples
de aproximadamente 29 mil pares de bases. Tem de 6 a 11 ORP (open
reading frames). Cerda de dezesseis proteínas não estruturais (nsps) são
codificadas a partir da região genômica ORF 1, enquanto as demais
proteínas estruturais são expressas no restante das ORF (Figura 1B). Os
genes Rep 1a e 1b estão relacionados à replicação viral, enquanto as
regiões S, E, M e N codificam proteínas estruturais3.
Eliminação de RNA em compartimentos biológicos detectada por
RT-PCR em tempo real e resposta imune dependente de anticorpos por testes comerciais durante a evolução da COVID-
19
A detecção de partículas virais obtidas de secreção respiratória alta
(swab nasal) ocorre a partir do terceiro dia de doença, tendo o pico de
eliminação de 4 a 6 dias após início de sintomas e se estendendo por
mais de 3 semanas (de 8 a 37 dias)4,5. Entretanto, a eliminação de RNA
viral em vias respiratórias baixas (amostras de escarro) pode ser
detectável de 21 a 39 dias e, em amostras de fezes, por mais de 4
semanas (Figura 2)6,7. A janela de detecção de ácidos nucleicos estende-
se por um período médio de 12 a 19 dias após início de sintomas nas vias
respiratórias e de até 18 dias nas fezes8. A persistente eliminação de
RNA viral foi observada em pacientes que evoluíram para doença grave,
embora indivíduos assintomáticos ou com doença leve também possam
apresentar partículas virais detectáveis por longo tempo. Entretanto,
embora seja possível detectar a amplificação viral além de 3 semanas
após o início de sintomas, dados recentes mostram que a eliminação viral
persistente não se correlaciona com atividade replicativa, visto que
partículas virais ativas não são recuperáveis por isolamento após o oitavo
dia após início de sintomas9.
▷Figura 1 Estrutura viral. A) Capsídeo viral: projeções externas ao capsídeo proteico
(proteína Spike), dímero da hemaglutinina esterase (HE), proteína membrana (MP),
proteína de envelope (EP). Proteína do nucleocapsídeo (NP) e RNA estão
representados; B) regiões do genoma viral: Rep 1a e 1b, replicação; S, estrutural, E,
envelope; M, membrana; N, gene do nucleocapsídeo; Prom e ORF 1, 2 -6, regiões
promotora e open reading frame, respectivamente.
Em relação à resposta imune dependente de anticorpo, a IgM de fase
aguda pode surgir entre o 5° e o 7° dias do início de doença, porém esse
surgimento pode ser mais tardio (entre 10 e 30 dias, com pico no 28° dia
após início de sintomas). Por outro lado, a detecção de IgG pode ocorrer
entre 10 e 20 dia após início de sintomas3,8,10. A duração da resposta por
IgM e IgG ainda não está seguramente estabelecida em parte pela baixa
acurácia dos testes disponíveis.
▷Figura 2 Eliminação de partículas virais e resposta dependente de anticorpo na
infecção pelo SARS-CoV-2. Representação da duração provável da eliminação de
partículas virais (ensaio de detecção de ácidos nucleicos) em vias aéreas no período
pré-sintomático (pródromos) e após o início de sintomas. Seta delimita período de
eliminação de RNA viral e a sua consequente detecção por ensaios moleculares. A
resposta dependente de anticorpos está demonstrada por ensaio imunoenzimático.
Linha pontilhada corresponde ao limiar de detecção do teste molecular (RT-PCR em
tempo real).
* Janela de detecção de antígeno viral presumida.
► FERRAMENTAS DIAGNÓSTICAS ATUALMENTE EM USO
Testes baseados na detecção de ácidos nucleicos
Dos ensaios para detecção de RNA viral, o método da RT-PCR em
tempo-real tem sido o mais universalmente utilizado. A reatividade no
teste resulta da amplificação de algumas regiões genômicas com
sequências conservadas. Os testes ainda não são comerciais (in house),
por isso os laboratórios devem validar seus ensaios.
Atualmente, existem seis diferentes protocolos, sendo o desenvolvido
pela Charité Virology (Berlim, Alemanha) o adotado pela OMS como
referência, embora outros estejam disponíveis e podem ser usados, como o desenvolvido pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC –
Atlanta, Estados Unidos)3.
Os alvos gênicos escolhidos no protocolo Charité são os genes E e
RdRP2, usados para triagem e confirmação diagnóstica, respectivamente.
Nos demais protocolos, outros alvos foram utilizados (Quadro 1)3. Este
último pode ser substituído pelo gene N2, por exemplo, para aumentar a
sensibilidade do teste11. A RT-PCR pode alcançar 100% de
especificidade e não tem reatividade cruzada com as demais espécies de
coronavírus, como HCoV-229E12. Entretanto, a sensibilidade desse
ensaio varia conforme a região-alvo amplificada, o tempo de infecção e
o espécime clínico testado, sendo 32% a 95% (Quadro 1)13-15. Além do
ensaio convencional, já existem plataformas do tipo point-of-care a
serem disponibilizadas.
Diagnóstico imunológico
O diagnóstico imunológico abrange a detecção de antígenos virais e
anticorpos das classes IgA, IgM e IgG (Quadro 1). Nesse momento,
estão disponíveis comercialmente os testes rápidos (imunocromatografia
de fluxo lateral nas plataformas de point-of-care) ou testes convencionais
do tipo ELISA (ensaio imunoenzimático). Entretanto, o maior entrave é
a baixa acurácia dos testes atualmente disponíveis, consequentemente, a
necessidade de validação deles16. A detecção de IgM e IgG pode ser
realizada por meio de testes imunocromatográficos de fluxo lateral (teste
rápido), ensaios ELISA convencional, quimioluminescência e outros17. A
dosagem de IgA também é possível de ser realizada por meio de ELISA.
A detecção de antígeno viral em plataforma do tipo point-of-care está
sendo validada em diferentes laboratórios, sendo sua sensibilidade pouco
inferior a do RT-PCR. No momento, a OMS ainda não indica o uso fora
de protocolos de pesquisa, embora incentive os estudos que se
proponham a determinar sua acurácia18.
► INTERPRETAÇÃO DE RESULTADOS
Com base nos aspectos descritos, a escolha do teste diagnóstico
depende da sua confiabilidade. A performance dos testes, como os
ensaios para detecção de ácidos nucleicos, pode ser mudada, por exemplo, conforme o dia de doença em que a amostra foi coletada, o
espécime clínico usado, a técnica de coleta, do processamento da
amostra e outros. O aparecimento tardio e a curta duração de
imunoglobulinas de fase inicial aguda prejudicam o diagnóstico em
indivíduos sintomáticos com ausência de RNA viral detectável, por
exemplo. No Quadro 2, estão listadas as interpretações possíveis dos
testes atualmente disponíveis para o diagnóstico laboratorial da COVID-
19.
▷Quadro 1 Características dos testes diagnósticos da COVID-19
Ensaio para detecção de RNA viral (real time Imunodiagnóstico RT-PCR) (IgA, IgM, IgG)
Sensibilidade 32-95% IgA (S): 92,7%
(S) IgM (S): 85,4-87%
IgG (S):67-78%
Especificidade ≅ 100% IgA/IgM (E): 85.4-87%
(E) IgG (E):67-78%
Início de A partir 3° dia IgA/IgM: 5-7°dia
detecção IgG: 10-18°dia
(dia após
início de
sintomas)
Duração Via respiratórias altas: até 3 semanas IgA/IgM: ≅ 3 semanas (?)
detecção Baixas: > 5 semanas IgG: anos (?)
Fezes: > 4 semanas
Alvos de E, RdRP2, N1-3; ORF1 ab NP, E, ME, SP
detecção
Espécimes Swab nasofaringe, orofaringe Soro, sangue total, plasma
biológicos Escarro, lavado broncoalveolar
Fezes
Reatividade Ausência Vacinação prévia para influenza; DENV em
cruzada áreas endêmicas. Reatividade com outros
coronavírus humanos
Indicação do Diagnóstico de infecção ativa em indivíduos Vigilância epidemiológica
uso sintomáticos
Vantagens Teste confiável pp na janela de positividade. TR poderiam ser chave para tomada de
Sensibilidade aumentada com a utilização de decisão à beira do leito. Facilidade no mais de uma sequência -alvo do SARS-CoV- manuseio, análise e não requer treino 2. Plataforma de point-of-care em especializado desenvolvimento Ensaios ELISA convencionais são aplicáveis a
estudos populacionais Recuperação dos dados
de incidência em grupos de indivíduos
infectados/doentes, mas sem diagnóstico
confirmatório pelo ensaio detecção ácidos
nucleicos. Custo, em geral, é baixo
Limitações Acurácia do teste depende de variáveis como TR em geral tem a especificidade reduzida.
adequada coleta e armazenamento da Resultados limítrofes (indeterminados) podem
amostra, dia da infecção (janela de ter interpretação difícil. Atuais TR no mercado
positividade), validação interna. Não ainda têm baixa performance. Teste
amplificação pode não excluir infecção. convencional (ELISA) vem apresentando Ainda depende de profissionais qualificados acurácia mais baixa. Reatividade muito tardia
para realização. No momento, ausência de de resposta de fase aguda (IgM-dependente)
ensaios comerciais. Preço/teste pode limitar prejudica diagnóstico precoce em indivíduos
o uso para investigação de grandes cujas amostras não tinham amplificação viral
populações
▷Quadro 2 Interpretação (possível) dos resultados de testes diagnósticos
Dias após início de Testes diagnósticos Análise
sintomas
RT- IgA/IgM IgG
PCR
< 3 dias Reativo NR; NR; Indivíduo infectado assintomático ou período inicial de
NT* NT* sintomas
< 3 dias NR NR; NR; RT-PCR pode ser falso-negativo em fases iniciais
NT* NT*
> 4-10 dias Reativo Pos Neg Paciente em fase ativa (precoce) de infecção
> 10 dias Reativo Pos Pos Infecção recente
> 10 dias NR Pos Pos Indivíduo apresentou infecção/doença prévia;
convalescência; RT-PCR falso-negativo
> 21 dias Reativo Neg Pos Fase tardia de infecção
> 21 dias Reativo - - Detecção infecção persistente com eliminação de RNA nas
fezes
Após semanas Reativo - - Reativação? Reinfecção?
do final de sintomas
NR: não reagente; NT: não testado; * não indicado em vista da limitação do teste. Vide texto. Pos: positivo;
Neg: negativo.
► EMPREGO DOS TESTES DIAGNÓSTICOS PARA MANEJO DA COVID-19
O uso de ensaios moleculares e imunológicos ainda é objeto de
discussão quando se trata tanto do manejo individual quanto do
comunitário (Figura 3). A proposta para o uso de testes depende, em
última análise, da melhora da confiabilidade dos próprios testes e de sua
validação.
▷Figura 3 Fluxograma representando o uso dos testes diagnósticos da COVID-19.
RT-PCR rt: reação em cadeia da polimerase-transcriptase reversa em tempo real.
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