Covid-19: Guia Prático de Infectologia
07. Isolamento social
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Isolamento social
Isabel Cristina Melo Mendes
► INTRODUÇÃO
Até o momento, não existem evidências científicas que apoiem o uso
de opções medicamentosas específicas como tratamento ou profilaxia de
COVID-19. Da mesma forma, ainda não há vacinação disponível. Sendo
assim, dois dos pilares para o controle da epidemia são as práticas de
isolamento e distanciamento social e o uso de medidas preventivas pela
população. O Quadro 1 sintetiza e compara as principais medidas que
serão descritas aqui mais detalhadamente a seguir1.
► ISOLAMENTO SOCIAL
Isolamento é a separação de pessoas doentes de pessoas não doentes,
podendo ser realizado em regime hospitalar ou domiciliar. Para ser bem-
sucedido, ele deve ser iniciado o mais precocemente possível2. Dessa
forma, casos suspeitos de COVID-19 devem ser isolados assim que
identificados.
Atualmente, a orientação do Ministério da Saúde, que segue as
recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), é que os
casos suspeitos de COVID-19 que tenham apenas sintomas leves, sem
sinais de gravidade, mantenham isolamento social, preferencialmente em
domicílio. A medida poderá ser determinada por prescrição médica por
um prazo máximo de 14 dias, podendo se estender por igual período, de
acordo com resultado laboratorial que comprove o risco de transmissão.
Agentes de vigilância epidemiológica também podem recomendar
isolamento em domicílio para contactantes próximos a pessoas sintomáticas ou portadoras assintomáticas enquanto a investigação
epidemiológica estiver em curso3.
▷Quadro 1 Intervenções de saúde pública não farmacêuticas para controlar surtos de
doenças infecciosas
Definição Objetivos Desafios Observações
Isolamento Separação das pessoas infectantes Impedir a Detecção Efetivo para
de pessoas não infectadas transmissão precoce dos prevenir doenças
para casos transmissíveis de suscetíveis pessoa a pessoa
Inefetiva se houver
muitos casos
assintomáticos
transmissores
Distanciamento Intervenção aplicada a toda uma Reduzir o Potenciais riscos Depende de
social comunidade, cidade ou região, com o contato de à liberdade de ir educação e
fim de reduzir interações e pessoas e vir comunicação movimentos pessoais. Envolve infectadas Necessidade de capazes de cancelamento de reuniões públicas, não estratégias pré- convencerem as fechamento de escolas, trabalho em identificadas definidas de pessoas a aderirem casa, uso comunitário de máscaras com funcionamento às medidas faciais e até o fechamento de cidades membros da urbano Eventualmente, ou áreas inteiras comunidade Necessidade de medidas restritivas
não ajustes nos legais coercitivas infectados sistemas de podem ser
produção e necessárias geração de
renda
Quarentena Restrição de pessoas Reduzir a Quanto mais Indicada em
presumivelmente expostas a doenças transmissão longa a situações nas quais contagiosas, mas que não estão potencial a quarentena, a detecção de casos doentes, porque não foram infectadas suscetíveis mais os é rápida, os ou porque ainda estão no período de por pessoas envolvidos contatos podem ser incubação expostas necessitarão de rastreados em curto
antes que apoio espaço de tempo os sintomas psicológico, Podem ser ocorram comida, água e necessárias as
suprimentos medidas legais para
domésticos e impor quarentena a
médicos indivíduos que não
aceitem participar
voluntariamente,
mas representem
risco à saúde
pública
Fonte: adaptada de Cetron e Simone, 20041.
A decisão de manter um paciente com caso suspeito de COVID-19 em
casa deve considerar a condição clínica, a presença de fatores de risco
para doença grave, a possibilidade de respeitar as práticas de isolamento
social recomendadas e o acesso a serviço de saúde em caso de piora
clínica.
As medidas preconizadas baseiam-se primariamente em redução do
contato da pessoa infectada com outras pessoas, adesão adequada a
práticas de higienização e cuidados com o ambiente.
As principais recomendações, segundo a OMS4 e o Centro de Controle
e Prevenção de Doenças Europeu3, são descritas a seguir.
Medidas gerais
Limitar o número de cuidadores da pessoa com caso suspeito, idealmente centrando os
cuidados em uma única pessoa, que deve ser saudável e não pertencer a nenhum grupo com
fatores de risco para doença grave, como idosos, pessoas com comorbidades descompensadas
ou indivíduos com imunossupressão.
Evitar visitas no domicílio enquanto o paciente estiver no período de isolamento social e/ou
sintomático.
O paciente deve permanecer sozinho em um quarto bem ventilado. Se não for possível que
fique sozinho, outros residentes do mesmo domicílio devem manter distância mínima de 1
metro (inclusive dormir em camas separadas). Manter, preferencialmente, as janelas abertas.
Limitar a circulação do paciente na casa e o uso de espaços compartilhados, como salas de
estar ou jantar, banheiros ou cozinha. Se possível, o paciente deve usar banheiro exclusivo.
Garantir que os espaços compartilhados sejam bem ventilados e que superfícies
frequentemente tocadas nesses espaços, como maçanetas, mesas e interruptores, sejam
higienizadas regularmente.
Realizar a higiene das mãos de forma frequente, especialmente após contato com o paciente ou
com qualquer superfície por ele tocada regularmente.
Evitar compartilhar utensílios de uso pessoal (p. ex., toalhas e escova de dentes) e talheres com
o paciente.
O banheiro utilizado pelo paciente deve ser limpo diariamente, com solução de hipoclorito de
sódio 0,05-0,1% (diluição de 20 mL de água sanitária em 1 L de água). O quarto também deve
ser limpo de forma regular, preferencialmente com material descartável. Se não for possível, o
material de limpeza utilizado deve ser desinfectado em solução de hipoclorito de sódio 0,05-
0,1%.
A pessoa responsável pela limpeza do ambiente em que o paciente está isolado deve utilizar
máscara cirúrgica e luvas descartáveis. Pacientes com sintomas leves podem ser orientados a
fazer a limpeza de seus quartos de forma adequada.
Vestimentas e roupas de cama e banho devem ser acondicionadas em saco ou recipiente
separado das demais no próprio quarto do paciente até que sejam lavadas. Evitar agitar as
roupas ao manuseá-las. A lavagem pode ser realizada com produtos usuais de limpeza ou água
sanitária, preferencialmente com ciclos de água quente (90 °C).
O paciente deve manter lixeira ou saco de lixo próprio em seu quarto, que deve ser fechado ao
ser retirado. Esse lixo não deve ser esvaziado em outro saco ou recipiente e pode ser
desprezado, fechado, junto com o restante do lixo da casa.
Orientações ao paciente para evitar transmissão
Evitar contato físico com familiares, como abraços, beijos e apertos de mão.
Utilizar máscara cirúrgica cobrindo boca e nariz o máximo de tempo possível, principalmente
em áreas compartilhadas. A máscara cirúrgica deve ser trocada regularmente e sempre que
estiver suja ou úmida.
Retirar a máscara pelas tiras, sem tocar a parte da frente. Higienizar as mãos imediatamente
após a retirada.
Higienizar as mãos com frequência com preparações de álcool 70% ou com água e sabão.
Secar as mãos preferencialmente com toalhas descartáveis. Quando estas não estiverem
disponíveis, a toalha utilizada pelo paciente deve ser mantida separada da toalha dos demais
habitantes do domicílio.
Utilizar talheres separados e lavá-los cuidadosamente após cada uso.
Orientações ao cuidador para evitar contaminação
Evitar contato próximo com o paciente e manter distância mínima de 1 metro dele.
Higienizar as mãos frequentemente, em especial após contato com o paciente e com qualquer
objeto com que ele tenha estado em contato.
Utilizar máscara cirúrgica quando estiver no mesmo ambiente ou quando em contato próximo
com o paciente. Trocar de máscara a cada uso ou quando estiver suja ou úmida.
Retirar a máscara pelas tiras, sem tocar a parte da frente. Higienizar as mãos imediatamente
após a retirada.
Higienizar as mãos com frequência com preparações de álcool 70% ou com água e sabão.
Secar as mãos preferencialmente com toalhas descartáveis. Quando estas não estiverem
disponíveis, trocar regularmente de toalhas.
Usar luvas descartáveis enquanto prestar cuidados ao paciente ou quando entrar em contato
com fluidos corporais. Trocar de luvas a cada uso ou quando estiverem sujas ou com
integridade comprometida. Higienizar as mãos após a retirada.
► DISTANCIAMENTO SOCIAL
O objetivo da prática de distanciamento social é diminuir as interações
entre as pessoas na comunidade, em que indivíduos podem ser
transmissores assintomáticos ou sintomáticos não isolados5.
No contexto do SARS-CoV-2, as evidências até o momento apontam
para transmissão aérea por gotículas e transmissão indireta, como as
principais formas de contágio. Gotículas eliminadas pelas vias
respiratórias de uma pessoa infectada ao falar, tossir ou espirrar podem
se depositar em superfícies ou diretamente sobre uma pessoa que esteja
próxima. Assim, para doenças por transmissão por gotículas e contato, higienização frequente das mãos e manutenção de distanciamento de
pelo menos 1 metro entre as pessoas são consideradas medidas
essenciais de prevenção6.
Entretanto, embora ainda não provado, especula-se que o SARS-CoV-2
também possa ser transmitido em ambiente comunitário por meio de
aerossóis. Para este tipo de transmissão, medidas protetivas em
ambientes incluem aumentar a taxa de ventilação usando ventilação
natural, evitar recirculação de ar e minimizando o número de pessoas
compartilhando o mesmo espaço interno7.
► ETIQUETA RESPIRATÓRIA
A chamada etiqueta respiratória tem por objetivo diminuir a
transmissão pessoa a pessoa que ocorre por meio de gotículas. Pessoas
com sintomas respiratórios devem seguir as seguintes medidas8:
Cobrir a boca e o nariz quando tossir ou espirrar com lenço descartável;
Descartar os lenços utilizados no lixo logo após o uso;
Na ausência de lenços descartáveis, usar o cotovelo para cobrir boca e nariz quando tossir ou
espirrar;
Lavar as mãos após contato com secreções e objetos.
► OUTRAS MEDIDAS PREVENTIVAS
Além de cuidados com o ambiente e da prática de distanciamento
social, deve-se ressaltar a importância da higienização das mãos, de
forma adequada e frequente. Para ser efetiva, a higienização deve ser
feita com água e sabão por um período de 40-60 segundos ou com
preparações alcoólicas a 70% por 20-30 segundos9.
Diante do contexto de transmissão comunitária e de escassez de
equipamentos de proteção individual, o Ministério da Saúde sugeriu, por
meio de Nota Informativa, o uso de máscaras caseiras pela população
geral como forma de prevenção9. Estudos mostraram que máscaras de
tecido são capazes de fornecer algum grau de proteção contra a aquisição
de infecções respiratórias, embora menor que máscaras cirúrgicas10,11.
Segundo as sugestões do Ministério da Saúde12, as máscaras podem ser
usadas por indivíduos assintomáticos em situações em que há
probabilidade de aglomerações, podendo ser confeccionadas pela própria
população. Devem cobrir totalmente nariz e boca e estar bem ajustadas ao rosto, sem espaços nas laterais. Indivíduos sintomáticos, seus
cuidadores e profissionais da saúde devem usar máscara cirúrgica.
Os tecidos recomendados para confecção de máscaras, em ordem
decrescente de capacidade de filtragem de partículas virais, são:
Tecido de saco de aspirador.
Cotton (composto de poliéster 55% e algodão 45%).
Tecido de algodão (como em camisetas 100% algodão).
Fronhas de tecido antimicrobiano.
Apesar das diferentes capacidades de filtração, os tecidos mais
adequados para a confecção de máscaras caseiras seriam as fronhas de
tecido antimicrobiano e tecido de algodão, com preferência pelo tecido
de algodão, considerado o material com maior probabilidade de gerar
uma máscara com adequada vedação12.
Os indivíduos que fizerem uso de máscara caseira devem ser
corretamente orientados em relação a manuseio e higienização. Os
principais cuidados são:
Não compartilhar a máscara com outras pessoas. A máscara de tecido deve ser individual.
A máscara deve cobrir nariz e boca e presa de forma a minimizar os espaços entre o rosto e a
máscara.
Evitar tocar a máscara, principalmente na parte da frente.
Remover a máscara pelas tiras ou pelo laço ou nó na parte traseira, evitando tocar a parte da
frente.
Higienizar as mãos com água e sabão ou com preparação alcóolica 70% antes e imediatamente
após a retirada da máscara.
Para limpeza, a máscara deve ser imergida em solução de água e água sanitária (2,0-2,5%) por
30 minutos. Essa solução pode ser obtida com diluição de água sanitária em água potável na
proporção de 1:5 (p. ex., 10 mL de água sanitária para 500 mL de água potável).
Após esse tempo de imersão, a máscara deve ser enxaguada em água corrente e lavada com
água e sabão.
Higienizar as mãos após lavar a máscara.
Após secagem da máscara, passar ferro quente e guardá-la em saco plástico. A máscara deve
estar seca para ser reutilizada.
Trocar a máscara sempre que apresentar sujidades ou estiver úmida. Recomenda-se que cada
indivíduo possua mais de uma máscara.
Descartar a máscara sempre que apresentar sinais de desgaste ou tiver sua funcionalidade
comprometida.
É importante lembrar que o uso de máscaras é uma medida protetiva
complementar, devendo sempre estar aliada à higienização frequente das
mãos, à etiqueta respiratória e ao distanciamento social12.
Ê Á
► REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. Cetron M, Simone P. Battling 21st-century scourges with a 14th-century toolbox. Emerg Infect Dis. 2004;10:2053-4. 2. Wilder-Smith A, Chiew CJ, Lee VJ. Can we contain the COVID-19 outbreak with the same measures as for SARS?
Lancet Infect Dis. Lancet Infect Dis. 2020;20(5):e102-e107.
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people with suspected or confirmed coronavirus disease (COVID-19) [Internet]. 2020. Disponível em:
https://www.ecdc.europa.eu/en/publications-data/infection-prevention-control-household-management-covid-19. [Acesso
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Disponível em: https://www.who.int/publications-detail/home-care-for-patients-with-suspected-novel-coronavirus-(ncov)-
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style public health measures in the novel coronavirus (2019-nCoV) outbreak. J Travel Med. 2020;27(2). 6. European Centre for Disease Prevention and Control. Guidelines for the use of non-pharmaceutical measures to delay and
mitigate the impact of 2019-nCoV [Internet]. 2020. Disponível em: https://www.ecdc.europa.eu/en/publications-
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2020;139:105730.
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Guideline for Isolation Precautions: Preventing Transmission of Infectious Agents in Healthcare Settings [Internet].
Disponível em: http://www.cdc.gov/ncidod/dhqp/pdf/isolation2007.pdf. [Acesso 5 mai 2020.] 9. Nota Técnica n. 04/2020 GVIMS/GGTES/ANVISA – atualizada em 31/03/2020 [Internet]. Disponível em:
https://www20.anvisa.gov.br/segurancadopaciente/index.php/alertas/item/nota-tecnica-n-04-2020-gvims-ggtes-anvisa-
atualizada. [Acesso 5 mai 2020.]
10. Davies A, Thompson K-A, Giri K, Kafatos G, Walker J, Bennett A. Testing the efficacy of homemade masks: would they
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among the general population. PLOS ONE. 2008;3(7):e2618.
12. Nota Informativa n. 3/2020-CGGAP/DESF/SAPS/MS – atualizada em 04/04/2020 [Internet]. Disponível em:
https://www.saude.gov.br/images/pdf/2020/April/04/1586014047102-Nota-Informativa.pdf. [Acesso 5 mai 2020.]
OceanofPDF.com