Crianças, adolescentes e crack
9. Uma rede em construção no município de Porto Alegre
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
decorrência da necessidade de consumir a droga. Adoeceu. Indagada sobre como classificaria a sua saúde física e mental nos últimos 30 dias, em pleno acolhimento institucional, Laura refere estar com boa saúde, não tendo nenhum problema nos últimos tempos – nem físico e nem mental.
Sua vida na rua teve muitas idas e vindas. Por dois meses, viveu
na rua e consumiu crack com uma irmã mais velha, de quem é muito amiga: “Onde minha irmã estava, eu estava sempre junto”, tanto é que uma vez retornou à casa, mas voltou a viver na rua com essa irmã. Decidiu ir morar em casa de outra irmã, com quem ficou pouco tempo até retornar para a rua, porque “parece que na rua tu fica mais calma, não estressada e triste com as coisas que acontecem em casa”. Entretanto, Laura percebe que morar na rua era “bem perigoso” e decidiu voltar para casa de uma tia. Esse perigo estava relacionado à dívida de alguns jovens do grupo com traficantes de drogas.
Felipe, 17 anos, é um adolescente em abrigo institucional. Relata
que atualmente, a sua vida está boa porque estuda no quarto ano e irá começar um emprego de empacotador no supermercado local em breve.
Conta que sua irmã mais velha, no momento com 22 anos, usou
drogas na adolescência por curiosidade: “Tu sabe como é que é vida de adolescente, quer experimentar isso, quer experimentar aquilo, tu acaba querendo usar”. Considera que ela foi um mau exemplo. Hoje em dia, essa irmã, que não mais consome substâncias psicoativas, o auxilia a parar com o vício.
Felipe usava cocaína e maconha antes de iniciar o consumo de
crack aos 12 anos, quando, então, juntou “com a gurizada pela rua” e decidiram “usar uma droga diferente”. O uso do crack fez com que precisasse consumir cada vez mais a substância, de forma que começou a roubar para sustentar o vício. Mas o afastamento da família pelo uso do crack o afetou sobremaneira de forma que decidiu fazer alguma coisa para reconquistar a mãe – “amor de mãe é só um”. Parou de usar o crack e sua mãe retomou o contato, fato que o deixa muito feliz.
Os efeitos do uso das drogas são danosos para Felipe. Refere
que seus familiares e amigos se afastaram de tal forma que, ao final, “só está tu ali, tu naquele mundo, tu e a droga”. Somente seu irmão mais novo continuou relativamente próximo. Parou de estudar e também teve problemas com a polícia, de quem muito apanhou. Nessa época, resolveu se internar, mas esse movimento durou pouco. Na clínica, diz: “não é os médicos que vão me dopar de remédios, me dar injeção, que eu vou largar [as drogas], eu tenho que largar do coração para fora”. Hoje em dia, aconselha os outros a não se drogarem e tem orgulho de dizer que está limpo.
Felipe não se reporta aos vínculos afetivos, sociais e/ou
profissionais para o auxiliar na descontinuação do uso da droga. Entretanto, Melotto (2009) refere uma interdependência entre a noção de força de vontade, de sustentação do querer com a importância do auxílio que o usuário precisará ter dos outros.
O jovem relata perda de memória (“comecei esquecendo as
coisas”) e emagrecimento acentuado (“antes eu era uma taquara, bem magrinho de tanto crack”) como consequências do uso do crack.
Felipe conta sobre a época em que viveu na rua. Optou por morar
na rua porque passava por “um período familiar com muita confusão” e tensão, em decorrência da união de sua mãe com o padrasto, com quem discutia muito. Já fumava crack e maconha escondido, quando morava em casa. Mas, ao sair, “já comecei a usar de tudo”. Sua mãe se preocupava e ia atrás dele, procurava auxílio no Conselho Tutelar. Passou um Natal na rua com a irmã e decidiu retornar para casa após o pedido da mãe. “Começou a ficar tudo bem”, mas meteu-se em “encrencas” com o tráfico (“era bonde”) e não pôde mais voltar para casa. Conseguiu sair dessa vida e afastar-se do local (“caí na real”) após quase ser morto por traficantes.
A fala de Felipe e de Laura sobre aos motivos da saída deles às
ruas remete ao estudo de Neiva-Silva (2008) com crianças e adolescentes em situação de rua. Nessa pesquisa, identificam-se “diversão e liberdade” (63%) como os motivos mais frequentes de ida às ruas, seguido por violência doméstica (34% – somatório de “discussões em casa”, “apanhava em casa” e “abuso sexual”), busca de sustento para si e para a família (12,5%), morte dos pais (7,4%) e uso de álcool e outras drogas pelos pais (3,7%).
João, 17 anos, é outro adolescente que no momento estudava no
quarto ano do ensino fundamental e fazia curso de informática. Já esteve internado na Fase e, posteriormente, numa clínica; mas, para “sair das drogas” veio para o abrigo, onde se encontrava há dois anos e meio.
Relata que o tio paterno fez uso de crack e, no momento da
entrevista, encontrava-se internado numa clínica. Quanto ao uso pessoal de drogas, João iniciou com o cigarro, em seguida a maconha, que fumou por muito tempo. Aos 12-13 anos começou a fumar pitico (maconha misturada com crack) junto com amigos. O uso do pitico, fumado na forma de baseado parece ser, de acordo com Domanico (2006: 18),
a maneira menos danosa psiquicamente, pois a “noia” (paranoia), um dos
efeitos do crack, é minimizada pelo efeito da maconha, e isso pode ser
importante na medida em que administrar a paranoia parece ser um dos
principais problemas dos usuários de crack. Trata-se de um sentimento de
perseguição que pode levar à violência. Sob a paranoia os usuários
desconfiam de tudo e de todos, ouvem vozes e sons que lhes provocam
medo e pavor.
João fumou crack na lata por pouco tempo. A mãe adoeceu
quando era pequeno e sua irmã adolescente cuidou dele e do irmão. Com 7 anos, começou a trabalhar para o traficante, seu “ex-patrão”, como olheiro, até os 15 anos: “Criança, eu andava com um revólver na cintura”. Foi preso por traficar.
Conta que usava crack e cocaína inalada para se divertir em
festas com amigos, “ficava mais loucão”, mas que tem sequelas neurológicas devido ao uso do crack e do cheirinho da loló. Morou durante uns meses na rua, após fugir da clínica onde se encontrava internado por seu pai pelo uso da maconha.
Durante a entrevista, João apresentava problemas sérios na fala
e, às vezes, no entendimento do conteúdo indagado. Segundo ele próprio, seu estado era decorrente do uso abusivo do crack, também fumado junto com maconha e misturado com soda cáustica.
Pedro, irmão mais velho de João, refere que atualmente, a família
é composta pelos dois irmãos e o pai. A mãe faleceu quando eles eram crianças. Pedro, narra a sua própria história de uso de drogas. Foi morar com o pai com 13-14 anos e iniciou o uso de drogas por intermédio de João, que trouxe maconha para casa e fumaram juntos. Com o tempo, buscou droga mais forte e experimentou o crack. Por causa do uso, que ainda era ocasional, conheceu um traficante (“pessoas que fazem coisa errada”) e iniciou, juntamente com o irmão e mais dois amigos “que já morreram por causa de drogas”, a assaltar pedestres “com arma de brinquedo”. Aos poucos, conhecendo “traficantes poderosos, comecei a fazer coisas mais pesadas”, traficar drogas e praticar assalto à mão armada em ônibus. Por isso, precisou sair da vila onde o tráfico se dava. Não retornou para casa, morou na rua e furtou mercadorias de supermercados para sobreviver. Pedro saiu da vida das drogas quando seu pai, vindo de outro município para Porto Alegre, o internou numa clínica. Considera que foram as amizades que o levaram a usar drogas, mas comenta que na adolescência muitos querem experimentar substâncias psicoativas.
Quanto às consequências e aos efeitos do uso do crack na sua
própria vida, Pedro esclarece que o “crack enlouquece a pessoa que perde o caráter, perde tudo”. No seu caso, “começou com a droga e passou para o crime”. Referindo-se a João, Pedro afirma que “o mental/psicológico dele se estragou”. Comenta que o irmão sempre teve dificuldade para aprender. Pedro tentou ensiná-lo a ler inúmeras vezes, “só que tem uma coisa nele que ele não consegue aprender porque tem um problema mental e de fala”.
João foi acolhido no abrigo quando Pedro ainda ali se encontrava.
Considera estar sendo um tempo bom para João (está há dois anos no abrigo), porque não usou drogas: “Aqui deu resultado”. Pedro considera que, no seu caso pessoal, o abrigo e a clínica o auxiliaram a largar as drogas. Ficou abrigado dos 17 aos 18 anos e “eu aprendi bastante coisa”. Também esteve internado numa clínica psiquiátrica onde era medicado. Não sabe quanto tempo permaneceu lá porque foi internado mais de uma vez.
Camila, 18 anos, a quarta adolescente entrevistada, presa por
tráfico de drogas para manter o uso compulsivo de crack, não cumpriu o estipulado na audiência com o juiz sobre a medida de liberdade assistida e, por isso, foi internada em regime fechado na Fase. Fazia tratamento no Caps ad cumprindo exigência daquela instituição. No momento da entrevista pretendia sair da internação, que se daria no dia seguinte, e voltar para casa para recomeçar uma vida sem o crack: “Só me fez mal isso aí”. Camila veio algemada da Fase para a entrevista no Caps ad, atitude que não encontra precedente nas premissas contidas no ECA.
Tem um tio que bebia pesado, mas foi obrigado a parar por
questões de saúde. Camila relata que sua mãe começou a usar o crack há um ano e mostra-se angustiada com isto: “Eu pensei: ela vai passar por tudo que eu estou passando. Todo dinheiro que ela tiver, ela vai querer comprar aquilo ali. Ela não vai pensar mais nos filhos, não vai pensar em comer, ela não vai estar nem aí com nada”. Acha que a mãe precisa de ajuda para parar o uso. Pretende voltar para casa e auxiliá-la nessa empreitada. Fazem um pacto de não se drogarem quando Camila sair da Fase. Mas reconhece: “Eu sei que não é fácil; eu estou há três meses porque eu estou presa, não tenho mesmo como usar. Eu não sei se estou a fim”.
Relata violência intrafamiliar com abuso físico do pai em relação à
mãe e a ela própria. Denunciou-o para o Conselho Tutelar, com o intuito de mantê-lo afastado. Nessa convivência permeada pela violência, Camila abusava do uso de droga. Tem cinco irmãos, dos quais três estavam em abrigos há um ano, pelo fato de a mãe usar droga e negligenciar os cuidados aos filhos.
Camila iniciou o consumo da droga com 13 anos, usando o crack
fumado com cachimbo (que logo se tornou compulsivo), por curiosidade, com uma vizinha. O dinheiro acabou e ela começou a se empenhar para poder usar a droga: “Eu acabei com a minha vida, parei de estudar”. Cursava a sexta série. Não mais se cuidava, porém se internou por vontade própria, mas logo saiu. Arranjou um namorado com quem roubava para conseguir dinheiro para o uso do crack.
A jovem observa que se não tivesse entrado para o mundo das
drogas poderia estar estudando e trabalhando e talvez sua mãe não tivesse iniciado o uso da droga: “Porque foi por eu me afastar dela assim que tudo aconteceu; quando eu cheguei, meu pai já não estava mais em casa”. Para ela, é muito triste ver a adicção da mãe, com quem já fez uso do crack. É triste porque ela conhece as consequências deletérias de tal consumo:
A pessoa deixa de ser responsável; se a pessoa tem um compromisso, acaba
perdendo a hora usando droga; amanhece o dia, com os dias não come, não
se alimenta, acaba fazendo besteira, e tem gente que acaba até pegando
uma doença, fazendo coisa que não deve, se vendendo para usar o crack.
Quanto aos efeitos do uso da droga em sua saúde física e mental,
Camila considera que o uso da substância a deixa irritada e o desejo de fumar crack aparece em pesadelos noturnos. Percebe modificação na memória de curto e médio prazos: “Se me perguntar uma coisa que eu fiz semana passada eu não me lembro mais; de hoje só lembro de ontem.” Relata que não esquecerá as suas experiências de uso do crack e não sabe se conseguirá parar de usá-lo.
Para Camila, viver na rua estava associado à necessidade de
roubar, prostituir-se, traficar várias drogas. Às vezes, usava crack com cigarro e álcool.A adolescente comenta:
Se pudesse virar dois, três dias fumando, eu virava fumando, por mais que eu
não tivesse mais vontade de usar droga, eu conseguia mais para fumar de
novo, porque eu estava fraca já, sem comer nada, só usando droga e
bebendo, mas eu queria mais.
Como se pode perceber nos relatos anteriores, três dos
adolescentes entrevistados mencionaram a “curiosidade” como um motor para o uso do crack. Essa característica é própria da adolescência, que, aliada à busca de novas sensações prazerosas, como a descoberta da sexualidade, da afetividade, das amizades e também do compartilhar do uso de drogas, torna, em muitos casos, o adolescente vulnerável por não atinar sobre os perigos que poderão daí resultar (Schenker & Minayo, 2005).
No estudo de Neiva-Silva (2008), o principal motivo encontrado de
uso de drogas ilícitas foi a curiosidade (63%), seguida da influência dos pares (44,6%). Constata-se também que as drogas lícitas foram experimentadas, em sua maioria, quando as crianças e os adolescentes ainda estavam em casa; ao passo que as ilícitas, depois de irem para a rua – solventes (84,9%), maconha (63,3%) e crack (80,6%).
Melotto (2009) traz uma reflexão, com base na pesquisa
qualitativa que empreendeu em seu estudo com usuários de crack em São Leopoldo/RS, acerca da curiosidade pelo uso do crack, aliada ao conhecimento da droga, pois as pessoas moravam num contexto de facilidade de uso e acesso a ela. Em suas palavras,
a ‘curiosidade’ enfatizada compreende a vontade de experimentar algo
desconhecido, mas que no contexto vivido representa um ‘desconhecido’ de
alguma forma conhecido através das relações de proximidade com o crack e
com pessoas usuárias em suas comunidades, como se pode observar nas
falas de alguns entrevistados. Assim, a curiosidade coloca-se para além de
uma disposição individual, constituindo-se relacionalmente em um meio onde
o acesso ao crack é facilitado pelo contato cotidiano com pessoas que o
utilizam ou vendem. A grande oferta e a facilidade de acesso à droga são
questões mencionadas em todos os relatos coletados. (Melotto, 2009: 50)
Três dos adolescentes consideraram o uso de crack problemático
a partir do momento que afetou seus laços afetivos. A quebra do vínculo com a família, principalmente a ruptura com a mãe, foi enfatizada por Felipe. A mãe também surge como figura fundamental para Camila. E a separação dos pais foi traumática para Laura. De forma semelhante, a pesquisa de Melotto (2009) mostra que o uso de crack foi percebido como um problema para os sujeitos, quando passou a acarretar dificuldades ou perdas relacionadas principalmente ao trabalho e aos vínculos afetivos.
Na fala dos adolescentes da pesquisa, a família é considerada
instituição importante, seja no início do uso da droga, seja como recurso a se buscar quando há dificuldades, e também para compartilhar das alegrias. Vários estudos apontam a família como um fator de risco e/ou de proteção ao uso de drogas de seus membros (Schenker & Minayo, 2003; Schenker & Minayo, 2004; Schenker, 2011). Neiva-Silva (2008) ressalta que o vínculo familiar foi a variável “preditora” de maior peso em relação ao uso de drogas ilícitas pelos participantes de sua pesquisa, e também em relação aos motivos identificados para que os adolescentes deixassem de frequentar as ruas.
A violência, aliada ao tráfico de drogas, roubo e prostituição (seja
praticada por crianças e adolescentes na rua ou da qual eles são alvos), fez parte da trajetória de vida dos adolescentes da pesquisa em foco. Os sujeitos do estudo de Melotto (2009) também tinham a noção de que a violência era um fator de risco associado ao consumo do crack. Em nosso estudo, a fala dos quatro adolescentes e também a de Pedro, irmão de João, revelam a velocidade da deteriorização da vida mental, orgânica e social do indivíduo, pelo uso de crack (Kessler & Pechansky, 2008).
Consequências do uso do crack para o familiar
do usuário acolhido
Sr. Leonardo é pai de adolescente acolhido em abrigo
institucional. Está separado da mãe do usuário (há 16 anos) com quem teve três filhos, dois meninos e uma menina. Casou-se novamente com uma mulher com dois filhos, que se dão bem com o adolescente usuário de crack. A convivência em casa é tranquila. Pessoas de sua família fizeram uso só de tabaco.
Para o sr. Leonardo, as consequências do uso do crack “são
péssimas” para o filho e para os demais familiares. Observa que o adokescente sem o uso da droga “é tranquilo, obedece, a gente conversa e ele entende”. Quando drogado, “ele faz tudo o que não é para fazer”. Sr. Leonardo explica que a família geralmente não sabe lidar com a situação, “a gente [família] não é especializado para lidar, às vezes mal sabe conduzir os filhos”. Por isso, é necessário o auxílio de pessoas especializadas.
Quanto aos efeitos do uso do crack nas diversas áreas da vida do
filho (amizades, estudo, família, saúde), sr. Leonardo nota primeiramente que ele tem facilidade para se relacionar com as pessoas, “para fazer boas e más amizades”, o que torna mais fácil o envolvimento com a droga.
A ideia expressa anteriormente pelo adolescente Felipe e aqui,
pelo sr. Leonardo, de que o uso de drogas é influenciado pelo grupo de amigos, nos faz lembrar que a identificação se dá ao revés: é o usuário de drogas quem se aproxima do grupo por semelhança (Oetting & Donnermeyer, 1998; Schenker & Minayo, 2003).
O filho do Sr. Leonardo estudou até o segundo ano do ensino
médio. Saiu da escola à época em que se mudou para a casa do pai (sempre morou com a mãe). O pai o matriculou em escola próxima à sua casa. Nos fins de semana, o filho ia visitar a mãe e retornava quase no meio da semana, de forma que praticamente não estudava. Na época já usava o crack (iniciou aos 10 anos com a maconha). Em decorrência do uso da droga, a mãe vendeu a casa onde morava para se afastar das amizades do filho e também porque “ali ele tem mais campo de ação, tem mais facilidade para tudo”.
A relação com a família ficou prejudicada pelo uso da droga, “com
a mãe dele, fazia horrores, vendia as coisas de dentro de casa, vendia as roupas dele, tudo que tinha dentro de casa”. Quando a casa foi vendida, já não havia mais móveis.
O usuário foi internado aproximadamente 16 vezes em clínicas
pela mãe, pelo pai, pelo serviço social da comunidade em que vivia, pelo posto de saúde, ele próprio também decidiu se internar. Não se nega a tratar, mas recai ao sair da internação. Sr. Leonardo relata que o filho está acolhido devido à dívida com traficantes no local onde morava, “e os caras queriam a cabeça dele”. A mãe gostaria que voltasse a morar com ela, mas teme pela vida dele. Além disso, ela “tem problemas de nervos, é nervosa”.
A visão dos profissionais da rede
Nove profissionais da rede em Porto Alegre foram entrevistados
individualmente, visando a conhecer melhor as crianças e adolescentes usuários de crack. A seguir, algumas informações acerca das causas e consequências do uso da droga, na visão de profissionais das áreas da assistência social, saúde e justiça.
Várias foram as causas apontadas referentes ao contexto
individual, familiar, grupal e social, bem como a questões relativas à educação da criança/adolescente e à falta de informação sobre o crack e seu uso.
No que se refere ao contexto individual, a coordenadora do Caps
ad A menciona uma predisposição genética do usuário, combinada com algum tipo de transtorno não tratado e desenvolvido na infância. Na adolescência, há a procura de um grupo de pertencimento em que a droga é um meio importante de comunicação. A assistente social do SAN ressalta que esse é um período conturbado em que o adolescente inicia a trajetória de rua para ajudar no sustento da casa e acaba por conhecer outra realidade, a da rua e das drogas. Estas dão prazer, porque “se elas não diminuíssem as dores, as dores da falta de afeto, a dor das dificuldades das relações, elas não entrariam na vida de menino”.
Sobre o contexto familiar, a “desestrutura” foi ressaltada por
quase a metade dos profissionais da rede, e descrita pela coordenadora do SAN como: relações familiares conturbadas; famílias numerosas com figura paterna quase inexistente; mulheres que têm vários companheiros, com filhos de cada um deles, podendo acarretar negligência. A coordenadora do Caps ad A acrescenta outros aspectos da estrutura e dinâmica familiar: filhos criados por avós; filhos colocados cedo na creche por causa da separação dos pais; a falta de pagamento de pensão alimentícia e, como consequência, a mãe precisa trabalhar e não pode dar atenção aos filhos, que são criados “meio soltos”; filhos criados sem limites devido à ausência do pai; e também violência, negligência familiar ou algum tipo de abuso moral, físico ou sexual.
A fala sobre a necessidade de colocação de limites pela
autoridade paterna numa família está relacionada a uma noção dicotômica do senso comum de que cabe ao homem a função da lei e da autoridade e à mulher, a do cuidado/afeto. Mas ambas as funções devem ser exercidas numa família por mãe e/ou pai (em famílias tradicionalmente casadas, recasadas ou uniparentais) ou pelos adultos que estiverem nesse lugar.
Cabe ressaltar que quase a totalidade das características
enunciadas também aparece em famílias em que ocorre uso abusivo de alguma substância psicoativa (não necessariamente o crack), conforme mostra estudo qualitativo de Schenker (2011) com famílias de usuários de drogas recrutadas de centros de tratamento ao uso indevido de drogas na cidade do Rio de Janeiro.
A coordenadora do Caps ad B levanta uma questão importante
sobre a relação do usuário com a família. Se o usuário dá sinais quando inicia o consumo de drogas, por que a mãe, que trouxe o filho usuário há cinco anos, não percebeu quando ele fumou o primeiro baseado ou pitico? Não observou que ele estava diferente? Não queria ir à escola, não foi mais à sua unidade de saúde? Essas inquietações remetem ao conceito de “cegueira sistêmica”, característica de famílias com adictos (Schenker, 1993: 206):
Como a droga entra no sistema familiar e instala-se, de forma abusiva, tão
sem cerimônia? As histórias peculiares a cada sistema convergem para uma
cegueira sistêmica; entretanto, esta é uma cegueira aparente na medida em
que o sistema retroalimenta o uso da droga – assim como a droga, usada de
forma abusiva, cumpre uma função na vida sem perspectivas, desmotivada,
frustrada, deprimida do indivíduo, também cumpre uma função no sistema
familiar: serve para obnubilar, anestesiar as sérias dificuldades que
perpassam as relações intergeracionais de seus membros.
No contexto grupal uma das causas que se destaca é o
envolvimento com pessoas que façam uso da substância. Como a droga dá prazer, “pode ser que ele desenvolva a dependência química” (coordenadora do Caps ad B).
De acordo com Schenker e Minayo (2003: 301),
Também os amigos e colegas de escola formam grupos de intimidade,
influenciando, de forma marcante, a transmissão de normas na fase da
adolescência. Por disporem de laços fortes e monitorarem, diretamente,
atitudes e comportamentos de seus membros têm um papel muito importante
nessa etapa da vida. Vários autores (Oetting e Donnermeyer, 1998) têm
encontrado forte ligação entre o uso de droga dos pares e o uso de droga
pelo adolescente, porém, as investigações também evidenciam que os
adolescentes não são cooptados por amigos antissociais, mas eles se tornam
atraentes pelo fato do meio familiar apresentar abundância de conflitos e
desengajamento interpessoal. Nesses casos, em geral, os pais não
implementam práticas efetivas de educação que equilibram afeto, atenção e
limites para os filhos.
Como fatores relevantes do contexto social mais amplo (estrato
social e suas características, vida em comunidade, tráfico, homicídio, entre outros), alguns atores da rede referem o uso do crack por pessoas de baixo poder aquisitivo oriundas de classes desfavorecidas, conforme estudos acerca do perfil do usuário de crack (Duailibi, Ribeio & Laranjeira, 2008). Entre esses fatores, segundo a assistente social do SAN, sobressaem: miserabilidade das comunidades, empregos precários e falta de qualificação para entrar no mercado de trabalho, fruto de questão social existente secularmente no país.
A gestora da Proteção Social de Alta Complexidade comenta a
vida em comunidade dessa população, ressaltando a falta de fronteiras entre o espaço público e o privado:
A comunidade é que determina muita coisa da sua cultura. Até pela falta de
delimitações de espaços físicos. Como eles moram muito aglomerados, as
casas meio juntas me dá uma ideia de que tem toda essa força do coletivo,
do público. Então, a vida nas comunidades é todo mundo muito junto,
fazendo a mesma coisa, dormindo, comendo, indo ao banheiro... sem
fronteiras. Dentro das casas é assim. Então me ocorre que é um pouco por aí
esse fenômeno. No momento em que o crack ou qualquer outra droga se
encontra dentro da comunidade, ele está por tudo, porque não existe ali o
privado. Somado a toda a situação de vulnerabilidade, falta de informação,
educação, saúde e falta de estrutura familiar.
O entendimento da gestora acerca da vida em comunidade das
classes populares remete a uma certa promiscuidade social, como se a constituição do espaço físico determinasse a forma de convivência. Mas a privacidade das relações familiares se mantém de acordo com as normas e regras de cada família. Talvez o que as classes populares constroem no seu cotidiano seja a solidariedade evidenciada na proximidade da vizinhança e no desvelo com o próximo.
Um contraponto à noção do consumo da droga pelas classes
populares surge na fala do conselheiro tutelar entrevistado, que ressalta como o crack atinge indiscriminadamente as diferentes classes sociais. O conselheiro menciona, entre outros, um caso de usuário de um estrato popular: “A casa estava no chão batido porque o pai tirou as tábuas para vender os pregos para consumir droga [crack]. Então, as três crianças estão indo para adoção”; e outro de um morador de um apartamento de classe média. O conselheiro encontrou as paredes abertas porque o usuário estava tirando os ferros da obra para vender e comprar a droga. “Com ele, morava uma criança”; “a mãe de classe média alta abandonou sua criança de dois anos trancada no quarto de um hotel [que ligou para o Conselho Tutelar]. A mãe tinha fugido de casa, sacado o dinheiro que tinha [R$ 2.000,00], sumido por dois dias para fumar crack direto e esqueceu essa criança no hotel”.
A coordenadora técnica do SAI ressalta, a partir de um relato de
caso de uma família com usuários há três gerações (incluindo a família extensa), que a família usuária serve de modelo para as gerações seguintes, especialmente quando vive em comunidade onde há tráfico de drogas. O tráfico e os homicídios são citados pelo juiz ao explicar que “a sociedade está doente”, porque antigamente os homicídios ou as tentativas de homicídio eram, na maior parte dos casos, crimes passionais, mas atualmente cerca de 80% dos processos de júri são de “traficantes matando traficantes”, e o crack veio reforçar essa situação.
Os últimos fatores mencionados pelos entrevistados incluem as
falhas decorrentes do processo educativo de cativar e cuidar das crianças e adolescentes, de forma a mantê-los na escola, e a falta de informação da família e da escola sobre o crack e seu uso (coordenadora do Caps ad B). O conselheiro tutelar argumenta que o senso comum promove um “marketing negativo com relação ao uso do crack”, principalmente para o sexo masculino, porque “o homem pensa que pode fumar uma pedra de crack e não se viciar, já que usou outras drogas e conseguiu parar”.
Várias foram as consequências mencionadas pelos profissionais
da rede para a vida dos usuários de crack, englobando o contexto individual, familiar e social, bem como questões relativas à educação, saúde e trabalho.
No contexto individual destaca-se o isolamento: “O crack traz
consigo o isolamento, e o usuário se comporta como se fosse um rato, uma coisa no escuro, do esgoto, da noite” (coordenadora de Caps ad B). Também foi mencionado, por uma assistente social do SAN, que a família e a comunidade costumam rotular o usuário, contribuindo para estigmatizá-lo.
No contexto familiar, surge a “desestrutura” familiar como
elemento relevante – causa e consequência do uso de crack, na visão dos profissionais da rede. O juiz comenta que as mães que usam crack têm um filho a cada ano, portanto, a família costuma ser numerosa (até oito crianças), e cada criança é cuidada por um ou mais familiares, sem que haja contato entre os irmãos. Em outros casos, a criança vai para um SAI, já que a mãe não tem condições de cuidar de sua prole. Também ocorre de os avós serem usuários de crack. O conselheiro tutelar observa que o relacionamento familiar é rompido porque os usuários são colocados para fora de casa ou decidem sair por não aceitarem o controle exercido pelos pais. Nas palavras da coordenadora de Caps ad A:
Em algum momento a família vai cansar. Vai ver que ele está pegando as
coisas de casa, está mentindo, quebrando todas as combinações. A família
ajuda uma vez, outra vez, e daqui a pouco ela se cansa. A mãe do usuário
pensa: preciso garantir o espaço para os outros ou para que eu possa
também não perder esse emprego, porque daqui a pouco, como é que eu vou
dar conta de tudo isso.
A experiência nesse Caps ad é que as mães desses adolescentes
buscam interná-los como “um descanso para elas ou uma segurança”. Outro aspecto relatado é que, inúmeras vezes, a família protege o usuário durante anos, até mesmo buscando a droga para não expor seu filho. A família superprotege o usuário.
Na esfera da educação, para quase metade dos profissionais da
rede, os usuários permanecem à margem da escola por evasão ou déficit cognitivo. Com baixa escolaridade, sem qualificação, têm dificuldades de inserção no mercado de trabalho.
Na área da saúde, quase metade dos atores da rede refere
deterioração da saúde dos usuários e da família. Os problemas de saúde comumente encontrados acometem cérebro, pulmão, além do risco de contrair HIV/Aids devido à promiscuidade sexual ou à prostituição. Domanico (2006: 20) enuncia os danos decorrentes do uso do crack:
são indubitáveis os problemas respiratórios causados pela inspiração de
partículas sólidas no ato de fumar essa droga. Por ser um estimulante, causa
também perda de apetite, falta de sono e agitação motora. Estes efeitos
dificultam, por sua vez, a ingestão de alimentos, podendo levar à desnutrição,
desidratação e gastrite. Observam-se, também, outros sintomas como
rachaduras nos lábios, causados pela falta de ingestão de água e de
salivação, cortes nos dedos das mãos causados pelo ato de quebrar as
“pedras” para uso, além de queimaduras nos dedos e, em alguns usuários,
no nariz, causadas pela chama usada para fumar o crack ou até mesmo pela
sua própria combustão.
A coordenadora do Caps ad B relata que a primeira instituição a
ser abandonada pelos usuários é a escola, seguida da saúde. E enumera vários comprometimentos na saúde do usuário: o emagrecimento excessivo traz prejuízos para a sua compleição física, pois a criança e o adolescente estão em fase de crescimento; a falta de higiene e cuidados com o corpo. Verificam-se também baixa autoestima; prejuízos neurológicos e psicológicos; e, quiçá, o desencadeamento de alguma doença mental que talvez não tivesse se desenvolvido se esse indivíduo em formação tivesse recebido cuidado a tempo e hora.
Os problemas de saúde adquiridos com o uso do crack aqui
relatados são ressaltados em diferentes trabalhos sobre o perfil dos usuários, o uso da pedra, o tratamento dos usuários, ou ainda sobre saúde pública, redução de danos e prevenção das infecções sexuais e sanguíneas (Duailibi, Ribeio & Laranjeira, 2008, Pulcherio et al., 2010, Elias & Bastos, 2011).
Na esfera do trabalho, dois atores da rede reportam que os
usuários abandonam o trabalho, os amigos e as relações/compromissos/normas familiares e sociais, por priorizarem o uso da substância. Apresentam ainda dificuldades em suportar as obrigações e o comando do superior numa rotina de oito horas de trabalho.
No contexto social mais amplo, foram ressaltadas questões como
a exploração sexual de meninas e meninos que se prostituem em troca de algumas pedras de crack e se envolvem em roubos para conseguir dinheiro para comprar a droga, prática que os levam, muitas vezes, para a Fase. Perdas e mortes de familiares usuários (da família nuclear e extensa) pelo envolvimento destas com o crack (uso e tráfico) foram também mencionadas. A assistente social do SAN observa que a violência na cultura do tráfico de drogas ceifa cedo a vida dos usuários, que não conseguem chegar aos 18 ou aos 20 anos.
Fatores de proteção ao uso abusivo do crack, que podem ajudar
“no resgate da pessoa”, foram mencionados pela assistente social do SAN: investimento na autonomia do usuário, tendo em mente que ele poderá sofrer recaídas ao longo do tempo; relações afetivas mais sustentáveis que os ajudem a se afastar do uso e nascimento de um filho. O estudo de Melotto (2009: 59) corrobora esse entendimento: “O fato do parceiro não ser usuário ou reprovar a prática, muitas vezes estabelece a busca pela descontinuidade dos usos. O que acontece também em relação à família e/ou filhos”.
A visão dos adolescentes, dos
familiares e dos profissionais sobre o
atendimento nos serviços de saúde e
de assistência social
Adolescentes: confiança e escuta como
elementos principais
Em função do uso de drogas, Laura menciona que antes do
acolhimento foi internada em hospital devido ao risco de perder o bebê. Considera que foi bem atendida. Ficou internada, tomando soro, e sugeriram que ela ficasse no hospital até ganhar o bebê. Laura não aceitou, fugiu, e começou a vender as roupas, tênis, tudo o que havia ganhado, para usar droga. Após ter tido o filho prematuro de 7 meses, decidiu parar, porque queria que o bebê ficasse ela. Foi, então, enviada para um SAI pelo Conselho Tutelar. A princípio não aceitou, mas sua irmã explicou que ela iria se tratar e isso seria bom. Hoje em dia, Laura “agradece a Deus” por ter tomado essa decisão, porque largou as drogas e está com o filho. Para ela é uma “vitória ter parado com tudo”.
O tema crack babies, como é provavelmente o caso do bebê de
Laura, tem se mostrado controverso, conforme mostrado no capítulo
1. Kessler e Pechansky (2008) referem que os bebês intoxicados pelo uso do crack de suas mães durante a gravidez podem sofrer, prematuridade, diminuição no crescimento do feto e outras alterações perinatais. E vão além, ao lembrar que os que nascem vivos podem apresentar retardo mental ou outros transtornos mentais e comportamentais.
Costa e colaboradores (2012) alegam que não é ainda bem
conhecido o impacto da exposição ao crack dentro do útero e o impacto pediátrico do uso de crack pela mãe. Os autores relatam que, após aproximadamente 20 anos de pesquisas, nenhuma causa ou distúrbio foi identificada que pudesse cunhar o fenômeno dos crack babies. Isso porque as mulheres grávidas que usam crack também consomem outras drogas psicoativas e, além disso, apresentam estilos de vida caóticos (roubo, troca de sexo por dinheiro/drogas, abandono do lar, soropositividade para HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis), tornando difícil a identificação de anormalidades causadas pelo crack per se.
Não é fácil isolar os efeitos do crack dessas outras variáveis,
evidenciando a natureza multifatorial do problema. Alguns técnicos, que participaram da pesquisa de Domanico (2006) sobre o atendimento a mulheres usuárias de crack e seus filhos, observaram que os crack babies estavam mais diretamente relacionados com as condições de exclusão social em que algumas dessas mães viviam do que com o seu uso do crack. Outro estudo (Van Gelder et al., 2009) apontou muito poucas sugestões de associações positivas entre o uso de droga ilícita na gravidez e a ocorrência de 20 categorias de deficiências (defects) de nascença.
Laura não procurou nenhuma outra instituição de saúde em busca
de ajuda. Também não passou por Comunidade Terapêutica nem teve acesso a nenhum serviço que fornecesse alimentação gratuita ou a unidades da previdência ou assistência social ou abrigo, a não ser os SAIs, após o nascimento do filho.
Perguntada sobre o que deveria constar de um serviço de
atendimento para usuários de crack, Laura considera que, primeiramente, os usuários deveriam ter o desejo de procurar internação para parar o uso da droga, se curar e, então, era necessário que o serviço providenciasse um trabalho para que eles se ocupassem e seguissem em frente. O serviço deveria dispor de educadoras que cuidassem, conversassem e explicassem para que as pessoas não fizessem “coisas erradas”, como ela tem no abrigo: “Sempre tem uma pessoa mais velha, que explica bem, fica querendo o teu bem, não querendo só o teu mal”.
Sobre o uso que faz de algum serviço para tratar da saúde, Felipe
conta que hoje em dia, busca espontaneamente auxílio, quando necessário, num posto de saúde perto do abrigo. Já quando usava crack, “não quis procurar [auxílio para a saúde], naquele tempo era só droga mesmo”.
Felipe relata nunca ter frequentado serviços específicos para
tratamento por dependência de crack nem ter sido abordado por profissional da saúde quando morava na rua, com proposta de redução de danos. Mas refere ter procurado o Projovem (Programa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome gerido pela Secretaria Municipal de Juventude de Porto Alegre), por indicação da equipe de um abrigo pelo qual passou, porque sentiu necessidade de conversar sobre os seus problemas. Conta que lá participou de consultas terapêuticas com uma agente de saúde a quem tudo relatava sem mentir, “porque foi uma pessoa que eu confiei assim”. Abandonou o tratamento quando essa agente saiu do programa.
Passou por três ou quatro abrigos, levado pelo Conselho Tutelar.
Numa dessas vezes, o pegaram em casa porque sua mãe passou um período internada e deixou os filhos menores sozinhos com ele para cuidar. Também cuidou dos irmãos no abrigo e não consumia drogas na frente deles: “Eu fugia do abrigo para fazer [uso de droga]”.
Felipe considera que um serviço de atendimento para usuários de
crack deveria proporcionar terapia individual, “conversar em particular”. Muitos usuários poderiam, a partir daí, refletir sobre a sua vida. O serviço deveria oferecer emprego também. Considera que toda pessoa merece ter mais chance na vida. Ele afirma: “Um bom trabalho, uma boa conversa com eles assim, de repente, vários largariam [o uso do crack] para ter uma família decente, que vários querem ter”.
João relata ter sido internado numa clínica pelo pai devido ao uso
de drogas e levado, pela equipe do atual abrigo, para a Cruz Vermelha, onde é bem atendido por uma psicóloga e toma medicamento. O adolescente considera importante que um serviço de saúde para quem faz uso de crack tenha cama e chuveiro quente, como o que tem no abrigo, e remédios.
Camila frequenta desde a sua entrada na Fase há três meses, por
iniciativa própria, o Caps ad com consultas semanais para tratamento de uso de crack. Não esteve em nenhum outro serviço de saúde. Considera que o atendimento no centro a ajuda muito. E também o atendimento no Creas, onde está engajada desde a medida judicial de liberdade assistida. Gosta do atendimento porque as técnicas “me entenderam, procuraram saber da minha vida, o que eu estava passando, os meus problemas”. Considera que a agente de saúde do Creas sabe conversar, entender o que os usuários de crack vivenciam e dar “bons conselhos”. Acha que hoje em dia, dá mais valor a essas conversas. Ia ao Creas mesmo quando estava na rua, usando crack: “Às vezes fora de hora, fora de dia, sem marcar data, mas eu ia”.
Segundo a jovem, um serviço de atendimento para uso/abuso de
crack deveria propiciar atendimento no local, um Consultório na Rua com agentes de saúde que abordassem os usuários e os incentivassem a uma mudança de atitude, porque há aqueles que estão nessa vida por não terem ninguém que se interesse por eles. Vivem na rua sozinhos, “largados”, desinteressados. Para ela, em um bom serviço de atendimento deveria haver, acima de tudo, pessoas que entendessem os usuários, conversassem e se preocupassem com eles.
Familiares: internação, psicoterapia e trabalho
como necessidades essenciais
Sr. Leonardo esclarece que a entidade com que pôde inicialmente
contar para o uso abusivo de drogas do filho foi o Conselho Tutelar, que sempre ajudou o usuário, na figura principalmente de uma conselheira dedicada em auxiliar pessoas com essas dificuldades, que fazia a ronda com uma Kombi da instituição. Sr. Leonardo conta já ter andado com ela para levar o filho em posto de saúde ou em clínica. O abrigo institucional em que o usuário se encontra há dois meses, é avaliado pelo pai como o melhor lugar que seu filho já esteve porque “ele conseguiu dar uma freada no uso, se estabilizou um pouco”. Sr. Leonardo relata que o filho também assistiu a palestras relativas ao uso de drogas numa instituição próxima ao abrigo atual, junto com ele. Nessa época fazia uso pesado de drogas e não podia andar sozinho.
Sr. Leonardo apenas fala dos encaminhamentos prestados ao
filho, mas não à sua família. O filho teve algum atendimento no local onde morava, mas era a comunidade onde ele estava “enrolado”. Foi o abrigo atual que o enviou para fazer exames clínicos a fim de avaliar danos decorrentes do uso do crack. Também frequenta um curso de informática por iniciativa do abrigo. Refere ainda o que deveria constar de um serviço de atendimento para uso/abuso de crack: um local “com toda uma estrutura formada”, que desse suporte à saúde dos usuários com médicos, enfermeiros (serviços de saúde no local), estudo e orientação para o futuro, “principalmente trabalhar, fazer curso quando ele tiver condições”. Pensa em uma colônia agrícola “que tivesse maquinário para o trabalho, para [o usuário] ter uma profissão como marcenaria, informática, enfim, como um colégio, para que ele saísse dali com uma formação, com uma profissão”. O pai considera o abrigo “muito pequeno pra resolver o problema de todos”, mas faz questão de frisar que é bom.
Na opinião de Pedro, irmão de João, a família deveria procurar,
para a pessoa que faz uso de drogas, internação e atendimento psicológico – psicoterapia, uma a duas vezes por semana. O estudo também é importante, bem como a formação profissional para posterior inserção no mercado de trabalho.
Segundo o jovem, um serviço de atendimento ao uso/abuso de
crack deveria dispor de um local para promover, além da internação, as seguintes atividades: palestras de pessoas que conseguiram parar de usar drogas e que servem de estímulo para os usuários; roda de conversa em que cada um conta a sua história; aprendizagem de um ofício, que serviria a dois propósitos – ocupação do tempo dentro do local e possibilidade de trabalho ao sair. Essa forma de proceder auxiliaria na mudança de pensamento de quem se encontra em um desses serviços.
Rede de saúde de assistência social: diferentes
formas de atendimento
A coordenadora do Caps ad A relata que 80% dos pacientes que
ingressam no serviço são trazidos por seus familiares, ou encaminhados por um órgão jurídico que os obriga a se engajarem num tratamento, ou ainda pela Fase, quando o adolescente chega algemado (atitude contrária aos preceitos do ECA). Quando o usuário é trazido por familiares, ele pode expressar o desejo de modificar o seu comportamento por perceber que tem causado problemas para a família, que ele não gostaria que a sua vida estivesse assim. Nesses casos, o Caps poderá construir, em conjunto com o usuário, alternativas para a sua vida: volta à escola, ao emprego.
Se ele quiser voltar para a escola, a equipe do Caps aciona uma instituição,
conversa, faz o encaminhamento e acompanha; se ele quiser um emprego,
“ah eu quero fazer um curso para me aprimorar e começar a trabalhar”, a
equipe aciona o Senac, por exemplo, e faz o acompanhamento.
A equipe desse Caps ad que oferece atendimento aos
adolescentes e adultos usuários de crack possui um psiquiatra, um clínico geral, uma enfermeira e dois técnicos de enfermagem, uma terapeuta ocupacional, uma assistente social, dois administrativos, uma pessoa da área da higienização e segurança e um coordenador dos serviços, no caso, uma assistente social.
A coordenadora de Caps ad B destaca outros serviços da rede
que atendem os adolescentes usuários: unidades básicas de saúde (UBS), alguns Creas e Cras, a Fundação de Proteção Especial/RS, a Fase e algumas ONGs. Estas últimas executam programas da assistência socioeducativa em meio aberto, em turno inverso da escola. Mas é bem difícil o seguimento nesses programas devido ao isolamento em que vivem os usuários do crack.
Há também duas clínicas que lidam com questões de saúde
mental e de uso de droga. Os atendimentos são efetuados nas emergências. Porto Alegre tem uma central de regulação de leitos feita por meio das emergências e não dos Caps. O Caps ad B não costuma encaminhar usuários para Comunidades Terapêuticas (o município tem convênio com duas), que em Porto Alegre têm cunho religioso, porque, de uma forma geral, os usuários não se adaptam a elas.
Ao chegar para internar o usuário nesse Caps ad, a família recebe
uma lista de atividades por ele oferecidas: atendimentos individuais, em grupo, oficinas, visitas domiciliares por assistentes sociais, o que tem evitado internações. Internação hospitalar para desintoxicação é feita quando necessário e depois ocorre o retorno ao Caps ad. É o único centro de Porto Alegre próprio do município. Há um federal e dois de orientação religiosa católica (conveniados da Prefeitura).
No Caps ad B há liberdade de gerir os casos de acordo com a
orientação teórica e técnica de cada profissional. A equipe é formada por dez profissionais: médica psiquiatra, médico clínico, dois assistentes sociais, dois psicólogos, uma enfermeira, dois técnicos de enfermagem e uma técnica de enfermagem. Há ainda muitos estagiários, tanto da UFRGS quanto do Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde. A coordenadora descreve que só permanecem em Caps ad os profissionais que se apaixonam pelo trabalho, do contrário não suportariam, porque além da dependência à substância, há inúmeras comorbidades, fato que exige do técnico que atende essa clientela formação e perfil, do contrário seria um sofrimento muito grande para ele. A equipe vem trabalhando na lógica da redução de danos (há outras estratégias cujos princípios são a abstinência e/ou a internação em Comunidade Terapêutica). Não existe uma receita mágica. O plano de tratamento é elaborado em consenso, levando-se em conta o que o paciente quer fazer com a sua dependência.
Cabe aqui um esclarecimento acerca da estratégia de redução de
danos, que consta da política do Ministério da Saúde para a atenção integral a usuários de álcool e outras drogas (Brasil, 2004). Ela não foi criada em substituição ao modelo da abstinência, tampouco nega esse objetivo. Conforme adverte Melotto (2009: 21):
situada no documento da política nacional como complementar, ela apenas
retira a centralidade da abstinência, ampliando a visão das possibilidades de
cuidados e de saúde para além dessa questão. Nesse sentido, são
valorizadas ações a fim de minimizar os riscos presentes no uso de drogas e
também atenuar os possíveis danos decorrentes dele.
Domanico (2006: 70) traz uma reflexão acerca dos objetivos de
uma abordagem centrada na redução de danos, contrapondo-a à da abstinência. A primeira estratégia
leva em consideração a complexidade do fenômeno, a diversidade dos usos
e as particularidades culturais dos usuários, possibilitando, desta forma, uma
melhor compreensão da hierarquia de riscos no cotidiano do uso de drogas.
A redução de danos parte do pressuposto que é impossível acabar com as
drogas no mundo, eliminando totalmente seu consumo. Comporta ações
voltadas para as drogas lícitas e ilícitas e suas intervenções não são
controladas exclusivamente pelos órgãos governamentais e policiais. Opõe-
se, portanto, ao modelo preventivo tradicional que, ao desconsiderar a
complexidade que envolve os diferentes usos de drogas, busca um objetivo
unívoco: a abstinência, meta esta idealizada e restritiva.
O SAN tinha, no momento da pesquisa, uma coordenadora, uma
técnica (assistente social), oito monitores, dois técnicos em enfermagem e dois profissionais de apoio de serviços gerais: cozinheira e porteiro. Sobre o atendimento oferecido aos adolescentes, a assistente social sugere que haja acompanhantes terapêuticos para garantir um envolvimento de qualidade de forma a poder “resgatar” o usuário de crack. Há que se melhorar o acolhimento nas instituições, porta de entrada fundamental para a permanência desse usuário no espaço institucional. Há que se acreditar que é possível investir nessa população e que haverá retorno, desde que respeitado o momento do usuário porque “muitas vezes, a instituição tem tudo muito organizado, consegue o acesso a determinado atendimento, consegue uma bolsa auxílio, mas se naquele momento o guri não estiver legal internamente de nada adianta”.