Da casa à praça pública: a espetacularização das festas juninas

Janio Roque Barros de Castro · Capítulo 6 de 9 · parte 2/4

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Da casa à praça pública: a espetacularização das festas juninas

Dinâmica e especificidades culturais das festas juninas espetacularizadas em espaço público

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Para evitar a experiência frustrante do final da década de 1970, quando os espadeiros inviabilizaram de forma abrupta o embrião das festas juninas urbanas de Cruz das Almas, os organizadores do evento reuniram-se com dezenas de apreciadores das espadas, buscando assim fazer um pacto de coexistência territorial entre as batalhas pirotécnicas e a festa concentrada na área urbana da cidade. Os espadeiros concordaram desde que a festa junina acontecesse em um novo espaço, buscando-se assim preservar a praça principal como o seu território apoteótico.

Na primeira experiência, a Praça do Parque Sumaúma estava envolta de áreas livres de edificação e o largo, pouco utilizado pela população, estava encoberto com gramíneas. Edificou-se no centro da praça uma casa de taipa típica como marco inicial das festas juninas concentradas de Cruz das Almas, buscando-se ambientar esteticamente o espaço como um simulacro de área rural tradicional do Nordeste brasileiro.

Na concepção dos organizadores do evento festivo, o casebre de sopapo estaria envolto de uma simbologia, através da qual se fazia uma ponte entre o passado predominantemente rural das festividades do período junino, que progressivamente eram cooptadas pelo espaço urbano. Do ponto de vista estético, a casa de taipa destoava na praça pública, cujo entorno apresentava edificações recentes e em processo de construção.

Com a consolidação do caráter espetacular da festa, montou-se um palco maior, com a frente voltada para as principais vias de canalização do fluxo de foliões juninos, o que significou uma mudança na dimensão escalar do evento festivo, que passou, aos poucos, a apresentar um raio de abrangência regional.

Considerando a cronologia gestionária em Cruz das Almas, pode-se afirmar que as festas juninas na Praça do Parque Sumaúma iniciaram-se no final da década de 1980 como uma iniciativa do prefeito Lourival José dos Santos e que foi mantida pelo seu sucessor, Carmelito Barbosa (1993-1996), que mudou o nome do evento para Forró Na morar, como estratégia de criar uma nova identidade vernacular a uma experiência festiva urbana que se mostrava exitosa. O prefeito Raimundo Jean Cavalcante (1997-2004) se preocupou mais em potencializar a espetacularização e midiatização da festa. O atual prefeito, Orlando Peixoto Filho (2005-2012) manteve a estrutura de espetacularidade, mas procurou introduzir elementos, como uma cidade cenográfica, e elegeu como tema da festa forró da cultura popular. Procurou-se valorizar manifestações culturais locais no contexto da megafesta junina e descentralizou-se o espaço de deflagração festiva, montando-se um palco com apresentações em uma praça recém inaugurada na entrada cidade.

Nota-se, portanto, que houve progressivamente uma ampliação espacial da festa. Entretanto, não ocorreram mudanças substanciais na logística desse evento. A mudança de nome do evento, assim como a opção pela composição estética de uma festa popular no espaço urbano, não deixa de serem ações de caráter político.

A temática Na morar, utilizada nos anos 1990 ocorreu em um contexto de valorização da sensualidade na ginga cantante e dançante das festas, tanto da axé music, quanto de alguns segmentos do forró eletrônico. Na década citada, especificamente em 1997, os organizadores das festas juninas de Amargosa publicaram no boletim informativo da prefeitura uma temática chamativa para a festa na Praça do Bosque: É São João, vem namorar!

A proposição de festas juninas concentradas na área urbana de Cruz das Almas atraiu algumas pessoas que ainda se mostraram temerosas em relação à possibilidade daquele evento ser inviabilizado abruptamente pela ação de espadeiros. Muitos foliões juninos locais e de outras cidades não acreditavam no pacto de convivência pacífica entre a prática da guerra de espadas e a festa em espaço público aberto. Nas altas horas da noite do primeiro dia de edição da festa no Parque Sumaúma, alguns espadeiros vestidos estilisticamente para batalhas pirotécnicas – utilizando uma indumentária que parece uma armadura com capacete, blusões, luvas etc. – começaram a se deslocar para a praça festiva. Essa atitude representava um crédito de confiança ao esboço de reconfiguração dos espaços festivos juninos de Cruz das Almas ou o fato desses espadeiros se deslocarem para a praça festiva com a roupa das batalhas de espadas significava uma forma de demarcar corporal e esteticamente aquela área como território simbólico? Apesar de não negar a segunda acepção, acredita-se que o tempo indicou a primeira leitura como sendo a mais plausível. Entretanto, as duas questões se interpenetram.

Superada a tensão das desconfianças em relação à atitude dos espadeiros, a festa se firmou e inseriu-se no calendário junino como o evento de maior notoriedade da cidade. É importante salientar que o pacto de coexistência territorial previamente acordado foi respeitado. Alguns espadeiros até orientavam as pessoas que perguntavam como chegar ao “Arraiá do Laranjá”, uma vez que a praça festiva situava-se em um bairro, na época, de eclosão habitacional recente.

No ano de 1997, o então prefeito Raimundo Jean Cavalcante (1997-2004) utilizou o contexto de comemorações dos 100 anos de emancipação política para investir na ampliação da festa junina concentrada. Tratava-se de um contexto político e cultural de grande efervescência cívica, por isso, mobilizou-se dezenas de artistas e grupos musicais famosos, além de investir na divulgação midiática, consolidando Cruz das Almas como polo festivo. Do ponto de vista da notabilidade do lugar festivo, o São João do Centenário se constituiu em uma alavanca midiática, assentada em uma estratégia de city marketing lastreada por uma panfletagem regional e extrarregional. Procurou-se “vender” a imagem da festa junina de Cruz das Almas para além das espadas e, para isso, colocaram-se outdoors em locais estratégicos, como as margens de rodovias e em cidades importantes, como Salvador.

Outro aspecto a se destacar do São João urbano de Cruz das Almas é o papel das orquestras filarmônicas Euterpe Cruzalmense e a Lira Guarani. No passado, eram as pessoas que se deslocavam até a sede das filarmônicas para participar dos tradicionais bailes carnavalescos, vestidos de forma estilizada. No presente, as filarmônicas através dos seus integrantes, vão ao encontro dos festeiros em praça pública, como parte do São João urbano no Parque Sumaúma.

A temática adotada pela gestão pública de Cruz das Almas, desde 2005, é o São João da Cultura Popular. Trata-se de uma estratégia midiática de cooptar para o município aqueles foliões juninos que valorizam as festividades que homenageiam as matrizes culturais do povo brasileiro, notadamente aquelas ligadas às práticas festivas. Trata-se de uma de uma política de valorização das dimensões culturais do ciclo junino, mesmo no contexto da espetacularização das festas populares.

Além disso, um dos projetos enviados pela prefeitura ao Programa Fazcultura, do Governo do Estado, para obter patrocínio de parte da festa, foi encaminhado em uma pequena caixa de madeira, com o tradicional licor da cidade, um charuto - o Recôncavo é uma importante região fumageira - e com outros produtos locais. O projeto foi enviado também para alguns órgãos de imprensa importantes do estado da Bahia, para divulgar a marca da festa. Apesar da iniciativa de inserir facetas culturais locais/regionais, a festa junina concentrada de Cruz das Almas apresenta uma matriz programática fundamentalmente assentada nas grandes atrações e na espetacularidade.

As festas juninas de Cruz das Almas se ampliaram espacialmente e atualmente se constituem nos eventos festivos mais expressivos daquele município, tanto do ponto de vista da sua inserção no desenho urbano da cidade, como será analisado posteriormente, quanto do ponto de vista do city marketing que é explorado pelos seus gestores públicos.

 

Amargosa: a invenção da tradição do São João

urbano e a política cultural de promoção das

festas juninas

As festas juninas concentradas na Praça do Bosque em Amargosa começaram a ser realizadas no ano de 1991, quando a cidade completou um século de emancipação política na administração do prefeito Francisco Rabelo de Souza (1989-1992). Ampliou-se espacialmente ganhando dimensão regional e notabilidade ao longo dos anos 1990, sobretudo na gestão da prefeita Iraci Silva (1993-1996).

A partir da percepção dos gestores de que a promoção das festas juninas era uma iniciativa exitosa, passou-se a valorizar, em uma perspectiva de turistificação do lugar, manifestações da cultura popular local/regional, como estratégia para satisfazer aqueles turistas que reclamam a perda de uma suposta da autenticidade do São João do presente. Essa preocupação com a valorização do São João tradicional é enfatizada no trecho do informativo da prefeitura do ano de 1993, na gestão de Iraci Silva:

Amargosa vai fazer o melhor São João de sua história e um dos mais concorridos da Bahia! Para tanto, a comissão organizadora do evento tem trabalhado no sentido de consolidar a participação popular, preparando-se para receber um número recorde de visitantes, entre turistas e filhos da terra que hoje residem em outras cidades. A idéia básica é valorizar ao máximo a tradição junina, deixando de fora os ritmos carnavalescos e os apelos estranhos à autêntica cultura do forró. (AMARGOSA , 1993, p.1)

Em meados da década de 1990, um informativo da Prefeita, destacou que, além de incrementar o comércio e de atender o seu objetivo maior que seria entretenimento, lazer e confraternização, o São João de Amargosa tinha como meta a divulgação do nome da cidade. Isso justificaria os investimentos públicos, ou seja, a festa junina espetacularizada seria o veículo de difusão midiática da cidade, em um contexto temporal de valorização da atividade turística no estado da Bahia.

Os prefeitos de Amargosa que promoveram as festas juninas a partir dos anos 1990 procuraram preservar determinados elementos tradicionais para que esses eventos não se transformassem em festas de largo, por isso a prefeita Iraci Silva proibiu a execução de músicas diferentes do forró durante a festa junina, medida também adotada por seu sucessor, Rosalvo Jonas Borges Sales, que acrescentou também concursos de quadrilhas em meio à espetacularidade da festa concentrada.

Em relação à participação popular na organização das festas juninas, dos três polos festivos analisados, apenas Amargosa esboçou uma horizontalização no planejamento e promoção desses eventos, através de comissões anuais formadas por representantes de segmentos locais. Na administração de Rosalvo Borges Sales, a organização das festas passou a ser de responsabilidade de grandes produtoras de eventos de Salvador, o que contribuiu para o aumento da espetacularidade e da projeção midiática desses eventos na capital baiana. Uma estratégia adotada era a divulgação em grandes eventos de massa como o carnaval soteropolitano através de um chamariz peculiar: “depois de tanto pulo só vai dar arrasta-pé”.

A partir do fim das comissões organizadoras da festa, o São João urbano de Amargosa passou a apresentar o mesmo viés verticalizante de Cachoeira e Cruz das Almas, ou seja, a festa era de responsabilidade da prefeitura local, que escolheria um organizador (a) que assumiria a logística do evento. Esta prática se mantém em diversas cidades da Bahia, independente de filiação político-ideológica do gestor público.

É muito comum acontecerem comparações entre as festas juninas promovidas por diferentes gestões nos principais polos juninos do território baiano, como Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas. São recorrentes frases de efeito no período pré-eleitoral: “Se o candidato X for eleito vai acabar com a festa!” Passadas as eleições as escaramuças políticas continuam: “A festa junina não é mais aquela, o prefeito Y foi eleito e acabou com a festa!”. As diferentes gestões públicas municipais apresentam diferentes formas de promover as festas, mas, em termos de aproveitamento da potencialização da projeção política promovida por esses eventos, todos falam a mesma língua.

Em Amargosa, por exemplo, algumas pessoas falam que o São João na Praça do Bosque foi inventado pelo ex-prefeito Francisco Rabelo, mas que a festa ganhou a dimensão turística e espetacular com a ex-prefeita Iraci Silva (ambos falecidos). O ex-prefeito Rosalvo Sales é visto, por alguns, como o empreendedor que profissionalizou a festa, delegando a responsabilidade pela sua promoção às produtoras de Salvador e também como responsável pela maior difusão midiática do evento, enquanto que ao atual prefeito Valmir Sampaio (2005-2008 e 2009-2012) atribui-se a iniciativa do resgate das raízes históricas, culturais e rurais do São João, tanto do ponto de vista imaterial – homenagem a Ariano Suassuna em 2006 e à cultura do Recôncavo em 2007, quanto estético-material (cidade cenográfica representando arraial interiorano e uma fazendinha). Manteve-se a espetacularidade do evento, ampliou-se a midiatização em diferentes meios de comunicação, inclusive com cobertura ao vivo por algumas redes de TV. Todavia, buscou-se valorizar manifestações culturais locais e aspectos da vida rural no Brasil no contexto da cenarização do evento.

As festas juninas espetacularizadas, como tradições inventadas em Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas, podem ser consideradas como manifestações festivas consolidadas no calendário festivo dessas cidades citadas. Qual o político, no exercício do executivo municipal, que tentaria retirar do calendário festivo o São João espetacularizado, transferindo os seus dividendos político-eleitorais para os seus adversários? Nos principais polos juninos, as megafestas de São João, quando bem organizadas, promovem a imagem da cidade e pode consolidar ou projetar um político local, todavia, em caso de insucesso, os prejuízos eleitorais também podem ser consideráveis.

Na primeira gestão do prefeito Walmir Sampaio (2005-2008), adotou-se uma política assentada na valorização de aspectos das manifestações culturais locais mais sistematizadas. Não se abraçaria a causa do São João de valorização das raízes culturais nordestinas no sentido macro-regional (Região Nordeste) e regional (Recôncavo baiano) de forma mecânica e ingênua; a organização da festa fez pesquisas de campo no ano de 2006, que demonstraram que 54% dos turistas juninos visitantes da cidade eram oriundos de Salvador. Por isso os organizadores das festas juninas de Amargosa preocupam-se em não transformar aquele evento em uma extensão das grandes festas de largo de Salvador. No ano de 2005, a temática foi à literatura de cordel; em 2006 fez-se uma homenagem a Ariano Suassuna; em 2007 fez-se uma apologia à cultura do Recôncavo baiano; em 2008 a temática central da festa foi o teatro de bonecos enquanto que em 2009 o tema da festa foi “Amargosa de Todos os Santos”, fazendo-se assim uma clara alusão toponímica tanto a uma das mais importantes baías do Brasil quanto à expressividade do catolicismo popular. Sobre essa questão da valorização de aspectos da diversidade cultural local, consta no Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Amargosa, como um dos programas da Secretaria de Educação:

Programa A “Burrinha” de Amargosa – com a perspectiva de

resgatar e divulgar manifestações culturais do município, a

Secretaria municipal de Educação tem um projeto de formar

grupos de teatros nas escolas municipais para atender a grande

parte das crianças e adolescentes em situação de risco através

do teatro itinerante, levando a conhecimento de todos o folclore

da cidade. (AMARGOSA , 2006, p. 46)

Levar ao conhecimento de todos o folclore da cidade? Como levar a cultura para quem produz cultura? Infelizmente, muitas pessoas de Amargosa desconhecem a “burrinha”, uma manifestação cultural cujas principais exibições, na atualidade, são feitas durante o ciclo junino na Praça do Bosque para os visitantes. Se as manifestações culturais são produzidas, experienciadas pelos povos e transmitida de geração para geração, essa leitura se aplica à concepção de manifestações culturais em plano turístico. Segundo Angelo Serpa, “há um nítido deslocamento da esfera da experiência para a esfera da vivência, transformando determinadas práticas e manifestações culturais e tornando-as residuais no cotidiano de cada lugar”. (SERPA, 2007a, p. 179)

Como consta do PDDU, a Secretaria de Educação de Amargosa procura valorizar e estimular nas escolas os trabalhos com temáticas e questões atinentes à cultura local, expressa pelas suas várias manifestações. Evidentemente que para se valorizar uma determinada manifestação cultural deve-se conhecê-la, por isso as festas populares de elevada visibilidade pública e midiática, como o São João espetáculo, se constituem no espaço/tempo de divulgação de determinadas modalidades de manifestações culturais locais, como a burrinha e o samba de roda da zona rural do município, que também se apresenta na praça festiva no ápice do ciclo junino, mas sem a mesma relevância e notoriedade daqueles grupos tradicionais de cidades, como Cachoeira e São Félix.

A burrinha é um folguedo popular que retrata aspectos do mundo rural, exibidos em nucleações urbanas incipientes imersas em um entorno rural, como indica o trecho de uma música cantada pelo senhor Miguel da Luz Leal, que durante décadas dançou a burrinha de Amargosa:

A burrinha é de macha pisada,

De dia no campo, de noite na estrada,

Mas de garupa ela vive cansada

Da boca noite até madrugada.

(AUTOR DESCONHECIDO)

No estado da Bahia, além de Amargosa, nota-se a tradição da burrinha em municípios como Irará, Jaguaribe, Santo Amaro, Saubara e Taperoá. Em algumas localidades, a burrinha aparece guiando o boi no conhecido folguedo popular chamado de bumba-meu-boi, ao som de pandeiros, triângulos, sanfonas e zabumbas, instrumentos típicos do tradicional forró nordestino. Como mostra o trecho da música, a sua exibição está relacionada ao espaço rural, onde se concentravam as principais festas juninas do passado, daí o interesse em imiscuir esse folguedo popular nas festas juninas espetacularizadas no espaço urbano: dotar esses megaeventos de certa auraticidade ou marco identitário capaz de ligar o passado ao presente.

A mulinha, como é chamada no vale do São Francisco, pode ter cor branca, assemelhando-se à indumentária utilizada em festas religiosas de origem européia, ou apresentar um colorido forte, entornado de fitas, como as burrinhas do Recôncavo, o que indica um realce estético de matriz afro-baiana. Um importante documentário da TV Educativa da Bahia mostra a mescla entre as exibições da burrinha e as apresentações do samba de roda do Recôncavo e a estética e ginga dos cultos afro-brasileiros das baianas. Em Cachoeira, as burrinhas, juntamente com o bumba-meu-boi, as caiporas, pessoas fantasiadas de macaco e os mais variados tipos de ternos de diversas ruas faziam parte da rica e diversificada extensão profana da Festa de Nossa Senhora da Ajuda, que ainda existe, e do São João na Feira do Porto nos anos 1970.

A burrinha de Amargosa pode ser considerada uma espécie de manifestação cultural residual que não faz parte do cotidiano lúdico da coletividade daquela localidade. Trata-se da iniciativa pessoal do senhor Miguel da Luz Leal, que manteve esse folguedo parcialmente ativo, fazendo exibições locais em outras cidades da Bahia. O senhor Miguel Leal ensinou a ginga dançante da burrinha para o seu filho, que faz exibições na Praça do Bosque durante os festejos juninos, e para uma filha e neta, que ainda mantêm essa prática cultural residual, apesar desse folguedo não se constituir em uma manifestação comunitária típica do bairro Santa Rita, na área urbana de Amargosa, onde morava o seu criador. Trata-se de uma iniciativa individual que ainda é preservada na dimensão familiar. A burrinha de Amargosa se apresentava informalmente em diferentes períodos festivos da cidade, incluindo-se o ciclo junino. A prefeitura formalizou o convite para que esse folguedo popular passasse a se exibir na cidade cenográfica em horários programados, como parte de uma política de “resgate” e “preservação” de manifestações culturais, explicitada no Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano. A “revitalização” da “burrinha” de Amargosa no período junino faz parte de um projeto de busca de invenção da especificidade do lugar turístico, com vistas a manter aquela cidade nos patamares superiores da hierarquia festiva do calendário baiano.

No contexto atual da espetacularização da cultura urbana, tanto na perspectiva da materialidade, como através de suas manifestações festivas, tornou-se recorrente a utilização de palavras como cenário e arena festiva. No Plano Diretor Urbano de Amargosa nota-se uma passagem enfática: “Não se pode perder de vista que cultura é o cenário”. No mesmo trecho salienta-se que “o motor da cultura é a criatividade do povo em movimento”; destaca-se o papel do Estado como um financiador do desenvolvimento cultural. Evidentemente que essa concepção rompe com uma postura autonomista, horizontalizada, na concepção das festas populares urbanas como o São João, que é um evento cultural para ser visto ou dançado como ocorre em outros polos festivos do Recôncavo Sul da Bahia, como Cruz das Almas e Cachoeira.

Do ponto de vista das festas populares da contemporaneidade, acredita-se que o estado está mais para máquina de captura, expressão utilizada por Deleuze e Guattari (1997a), que coopta as manifestações festivas ativas ou manifestações folclóricas residuais e muitas vezes as transforma em pastiches para serem apreciados por turistas “ávidos por espetáculo” como destacou Lefebvre (1991b). Entretanto, nesse contexto, existe um pacto de cumplicidade entre alguns grupos culturais e os segmentos institucionais estatais. Expressões como espetacularização e cenarização estão diretamente associados à passividade, à falta de participação dos festeiros na organização das festas populares.

Um grande desafio que se impõe na perspectiva de concepção, organização, acompanhamento e avaliação de grandes eventos festivos urbanos é a busca de mecanismos de participação efetiva, crítica, e propositiva de segmentos da sociedade. No caso específico das festas juninas urbanas de Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas, pode-se afirmar que se trata de espetáculos que têm início, meio e fim e estão ajustados a um calendário cultural, racionalizado pelas municipalidades ou determinados a partir da urdidura de órgãos do estado ligados ao fomento do turismo na Bahia, articulados com a iniciativa privada. Como as comunidades locais poderão participar de megaeventos urbanos elaborados a partir de um cartilhamento fundamentado na turistificação do lugar? Em Amargosa, por exemplo, existem sindicatos, associações de moradores, um campus da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, uma ONG ligada à preservação do patrimônio ambiental, que poderiam participar de comissões para promover a festa. A participação desses segmentos pode ser um desafio a ser colocado em um contexto preditivo.

Pode-se afirmar que até os anos 1990 a grife “cidade-jardim” trazia a reboque a marca da tradição inventada do São João espetáculo na Praça do Bosque. Atualmente, no entanto, como está explícito no Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e nos últimos projetos para o São João, a grife junina se sobrepôs e ao mesmo tempo se mesclou com a marca de cidade-jardim, produzindo um marketing urbano assentado em um híbrido multi-identitário. A produção de “uma marca forte”, de uma imagem-síntese de Amargosa, capaz de destacar aquela cidade no contexto regional e, em âmbito estadual, apresentando uma natureza bipolar, priorizando-se, no entanto, a espetacularidade festiva sazonal, pela sua dimensão espacial e o seu lastro midiático. Constam do PDDU como prioridades municipais os seguintes itens relacionados à “questão cultural”:

[...]

• Incentivo à cultura local;

• Criação de alternativas de lazer;

• Criação de um centro cultural e desportivo municipal e

descentralização dos espaços de cultura e lazer nos bairros [...].

(AMARGOSA, 2006, p. 149)

Do ponto de vista institucional, os gestores públicos de Amargosa ressaltam a importância do incentivo à cultura, planejando em um cenário prospectivo a edificação de centro cultural que seria uma constatação tangível da opção pela valoração cultural enfatizada na retórica política e no Plano Diretor Urbano.

A expressão resgate cultural é aplicada quando faz menções a manifestações folclóricas residuais, como a burrinha, todavia, quando se destaca o papel dos poderes públicos em âmbito federal, estadual ou municipal, retoma-se o debate acerca do papel das prefeituras como promotoras/tutoras de manifestações culturais ou como agentes de turistificação de folguedos locais. Entretanto, quando o gestor público municipal não valoriza essas manifestações culturais locais, critica-se a sua postura considerada conservadora.

A questão cultural, notadamente aquela assentada na espetacularização sazonal das cidades, é considerada na atualidade como grande mote turístico e midiático, por isso cidades como Amargosa e Cruz das Almas, que não possuem o mesmo potencial histórico, arquitetônico e imaterial de Cachoeira, destacaram com tanta relevância essa temática nas suas proposições institucionais. Além do estímulo a folguedos populares, a atual política cultural de valorização das raízes culturais de Amargosa se expressa na materialidade através da edificação de uma cidade de uma fazendinha cenográfica, que serão analisadas no transcurso deste capítulo.

A excessiva concentração provocada pelas festas juninas atuais pode contribuir de certa forma para que se busquem estratégias para desconcentração que impliquem estímulo aos forrós rurais e às festas comunitárias de bairro? A resposta para esse questionamento passa também por questões de natureza política e abarcam aspectos atinentes ao dinamismo social em uma perspectiva horizontal, participativa, ao movimento comunitário, sindical e das representações sociais diversas, que estão além da dualização na promoção de eventos festivos espetaculares, que transitam da promoção privada à pública como está sendo analisado neste trabalho. Como as festas juninas espetacularizadas na área urbana de cidades como Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas se inserem no desenho físico-espacial dessas cidades? Como o espaço físico é dimensionado, edificado ou adaptado sazonalmente nos principais polos juninos do Recôncavo Sul da Bahia? Estas questões serão desdobradas analiticamente no capítulo em curso.

 

Festas juninas urbanas no/do espaço público na

atualidade: desenho, dinâmica e proposições

Tornou-se lugar comum afirmar-se que as festas populares da atualidade estão cada vez mais racionalizadas pelos gestores públicos ou mercantilizadas pela sanha lucrativa de comerciantes e empresários que enxergam nesses eventos a oportunidade de ampliação de negócios. No presente trabalho, evita-se partir de acepções maniqueístas acerca de uma suposta perda de espontaneidade das práticas festivas da contemporaneidade, como também não se omite o viés mercadológico na invenção de tradições ou na retradicionalização de determinadas manifestações festivas. Opta-se por buscar na dinâmica espacial das festas juninas os múltiplos fatores que determinam a reinvenção do entretenimento festivo no espaço urbano.

Nas festas juninas espetacularizadas a massa festiva se concentra em uma determinada praça, como ocorre em Amargosa e Cruz das Almas, ou estende-se de forma alongada, acompanhando a regularidade das edificações, como ocorre em Cachoeira. Isso acontece porque, nas festas da atualidade, prioriza-se a fixidez em vez do deslocamento, ou como salienta Deleuze e Guattari (1997a) no seu tratado de nomadologia, para o homem sedentário o ponto é mais importante que o trajeto, enquanto que para o nômade é o contrário. No caso específico das festas juninas espetacularizadas em espaço público, o deslocamento, a circularidade festiva inter-regional, interurbana ou mesmo intraurbana é importante e expressiva, entretanto a natureza dos fluxos e o desenho dos itinerários são determinados pelo macroponto: a praça festiva. Depreende-se, portanto, que apesar da intensa mobilidade, na dimensão da escala regional, pode-se considerar um turista de eventos do período junino como um antierrante.

As festas populares, que eram pensadas e organizadas nos meios populares, ocorriam em um calendário festivo pré-estabelecido, mas, em uma atmosfera de experienciação direta. O que se nota na atualidade é uma racionalização tanto da festa em espaço público quanto no privado. Como lembra Arendt (2000), a sociedade exclui a possibilidade de ação e a substitui por um certo tipo de comportamento normatizado por regras, o que compromete a perspectiva autonomista dos grupos sociais na construção dos seus projetos. Ou seja, para essa autora, o comportamento passivo, meramente contemplativo, é um contraponto ao sujeito da ação. Na concepção de Lefebvre (1991a), a ideologia do consumo apagou a imagem do homem ativo, colocando no seu lugar a imagem do consumidor como imagem, como razão de felicidade. Para o referido autor, não é o consumidor e nem o objeto a ser consumido que tem importância no mercado de imagens; é a representação do consumidor e do ato de consumir, transformado em arte de consumir. Nesse contexto caracterizado no sentido macro, como se insere o dinamismo das festas juninas da área urbana?

Em Amargosa, a Praça do Bosque, que é utilizada para atividades burocráticas de órgãos da prefeitura e de colégios, é também o espaço de passagem e lugar de lazer no cotidiano urbano local. Sazonalmente essa praça se transforma em espaço da festa junina espetacularizada. Sobre as formas de uso do espaço público urbano, Carlos destaca que:

Uma primeira aproximação alude a idéia de que o espaço

público volta-se a uma pluralidade de usos, mas

fundamentalmente este espaço da cidade é aquele do encontro

de pessoas – direta ou indiretamente –, é aquele de visibilidade

das ações. Não se trata de opor o público ao privado, na

realidade o espaço público tem uma multiplicidade de sentidos

para a sociedade em função da cultura, hábitos, costumes. Em

muitos trabalhos os espaços públicos se referem àqueles dos

equipamentos coletivos, mas estes espaços têm sentido outro

enquanto possibilidades de apropriações múltiplas, funcionando

como lugar de encontros – desencontros – são também lugar

da comunicação, do diálogo, de morar, de brincar, de namorar,

de se expor, de conversar, de reivindicar, por isso referem-se a

usadores e não a usuários de equipamentos coletivos, uma

diferença fundamental [...]. (CARLOS, 2001, p. 65-66)

Um das marcas do urbanismo modernista foi o zoneamento urbano, aplicado, sobretudo, a grandes cidades, no qual se buscava racionalizar o uso dos espaços, dotando-os de funcionalidades específicas. Evidentemente que além da materialidade representada pelas edificações e do traçado das vias públicas para os trajetos funcionais do cotidiano, existem as múltiplas formas de apropriação e uso desses espaços edificados ou livres de edificações. Esse espaço concebido é também o espaço vivido, apropriado e relacionado a uma miríade de significados. Partindo-se para uma exemplificação concreta relacionada às festas populares, pode-se afirmar que há uma tendência à racionalização dos espaços festivos, de lazer, de trabalho, fragmentando as práticas cotidianas. A noção de usuário está diretamente relacionada ao consumo, enquanto que a de usador estaria relacionada à apropriação e às perspectivas lúdicas.

As pessoas não utilizam os espaços públicos urbanos apenas para cumprir atividades burocráticas ou apenas para consumir produtos. Entretanto, como lembra Lefebvre (1991a; 1991b), no mundo moderno cada vez mais dissocia-se cartesianamente o cotidiano das formas de lazer, o repouso se opõe ao trabalho, assim como a cotidianidade se opõe às férias, em um cartesianismo espaço-temporal. Um desafio colocado por este autor é a ruptura revolucionária com o cotidiano, que anularia dicotomizações impositivas. No caso específico das festas populares, esse hiato entre festas e cotidianidade deve ser relativizado na medida em que o que é o espaço-tempo da festa para uns pode ser o espaço-tempo do trabalho para outros. A deflagração de eventos festivos em um determinado local pode causar tensão conflitiva entre o tempo/lugar festivo e o tempo/lugar da funcionalidade cotidiana.

A proliferação de festas em arenas privadas separadas do cotidiano urbano, tanto do ponto de vista temporal, calendários turisticamente inventados, quanto espacial, assim como a promoção de megafestas no espaço público, provocam impactos no entorno não-festivo, na medida em que se sabe que a festa se amplia muito além do seu espaço topológico de deflagração, expandindo-se através de elementos intangíveis como a sonoridade excessiva ou mesmo através de processos visíveis, ligados à extrapolação da capacidade de carga do entorno festivo, como engarrafamentos ou mesmo a sobrecarga do sistema elétrico. Esses problemas exemplificados comprovam que o entretenimento festivo de uns pode implicar problemas para outros, na medida em que a cotidianidade funcional intra-residencial (trabalhar no computador, assistir a TV ou simplesmente dormir) ou extra-residencial, como circular ou trabalhar, podem ser comprometidos.

No presente trabalho, utiliza-se a expressão bairro apenas para tipificar determinados recortes espaciais no desenho urbano, na medida em que esse conceito pouco se aplica em algumas cidades de pequeno porte, como Amargosa e Cachoeira. Nas pesquisas de Ana Fani Carlos, aplicadas à cidade de São Paulo, a noção de bairro aparece relacionada a unidades espaciais marcadas pela vivência direta do cidadão onde se podem ler os itinerários a partir dos quais se localiza e se realiza a vida urbana e onde se tecem as relações sociais (CARLOS, 2001). Essa concepção de bairro foi elaborada a partir da leitura da dinâmica urbana de um espaço metropolitano. A análise da concepção de bairro em unidades urbanas de pequeno porte deve ser feita considerando-se determinadas especificidades, por isso alguns topônimos nessas cidades muitas vezes podem ter um caráter mais cultural ou outro referencial de caráter estatístico ou administrativo. Em qual bairro de Amargosa está localizada a Praça do Bosque, onde ocorre a apoteose do São João urbano? Alguns moradores afirmam que a Praça do Bosque fica no centro. A Fazenda Colibri, onde acontece o Forró Piu Piu, por exemplo, está situada nas imediações do bairro Catiara, em uma área periurbana. Entretanto, os limites espaciais desse bairro são imprecisos. Apesar de alguns problemas de ordem empírica e conceitual, a noção de bairro é menos complicada de ser adotada na área urbana de Cruz das Almas.

Em Amargosa e Cruz das Almas as festas juninas concentradas acontecem em praças públicas. Em Cachoeira, a Feira do Porto acontece em uma rua alongada bordejando o rio Paraguaçu, com três praças contíguas que se constituem em espaços festivos complementares. A praça, com toda sua simbologia, talvez seja o lugar da cidade que marca a ressignificação cultural das festas juninas que tinham como espaço estruturante e protagonista a unidade residencial e seu entorno. Segundo Lamas (2000, p. 102):

A praça é o lugar intencional do encontro, da permanência, dos

acontecimentos, de práticas sociais, de manifestações de vida

urbana e comunitária e de prestígio, e, conseqüentemente, de

funções estruturantes e arquiteturas significativas.

Na concepção de Lamas, a praça é um elemento morfológico das cidades ocidentais e pressupõe a vontade e o desenho de uma forma e de um programa, constituindo-se assim em espaços de convivência projetados intencionalmente, enquanto que os largos seriam espaços não traçados intencionalmente, mas que surgem ocasionalmente na desembocadura de determinadas vias de circulação ou confluência de traçados.

No estado da Bahia, a expressão festas de largo se aplica a grandes eventos festivos abertos que acontecem no espaço público, atraindo milhares de pessoas que apreciam a axé music, o samba de roda, o pagode, entre outras modalidades musicais. A palavra largo, nesse sentido, está relacionada ao espaço público que pode ser uma rua, um largo na acepção de Lamas ou mesmo uma praça. Muitas festas de largo de Salvador se constituem em extensões profanas de festividades religiosas tradicionais e passaram a apresentar feições espetaculares. Segundo o professor Ordep Serra (1999), uma festa de largo compreende sempre um rito ou um conjunto de ritos sacros, cujo foco espacial é o templo. No entanto, esse autor destaca que além das cerimônias sagradas centradas no templo, ocorrem apresentações de folguedos populares nas imediações da edificação religiosa, geralmente num largo, como indica a denominação. Complementa Serra (1999), que, a periferia do templo é o espaço dos folguedos e do comércio associado ao evento e de um conjunto de equipamentos e signos festivos (enfeites, bandeirolas, gambiarras).

Muitos críticos das festas juninas concentradas da atualidade afirmam que o São João no interior se transformou em uma mera transposição das festas de largo de Salvador. Essa crítica ocorre não apenas por causa da musicalidade, como também pela dimensão espacial desses eventos espraiados em praças públicas, adequando-se a um arranjo físico pré-existente e ao mesmo tempo determinando o seu desenho e a sua composição estética em importantes polos festivos do ciclo junino.

Em Amargosa, assim como em outras cidades que promovem o São João espetáculo, anualmente faz-se uma readequação do espaço urbano ao abrupto incremento da sua capacidade de carga, além do reordenamento do trânsito e do fechamento de ruas que desembocam na Praça do Bosque. Existem projetos para inserir edificações permanentes cuja funcionalidade principal estará ligada às festas juninas.

As formas efêmeras inseridas nas praças do Bosque, em Amargosa, do Sumaúma, em Cruz das Almas, e no espaço e praças festivas de Cachoeira atuam como estruturantes do fluxo de foliões e, juntamente com as edificações perenes, desenham canais de circulação que desembocam nos espaços abertos. As festas espetacularizadas impactam o espaço urbano de Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas em diferentes intensidades:

a) Muito intenso: praça festiva e entorno imediato;

b) Medianamente intenso: algumas vias e ruas que acessam o

espaço festivo;

c) Fracamente intenso: locais distantes da área festiva;

d) Esporadicamente intenso: locais eventualmente utilizados

por grupos de foliões juninos, que podem ser um bar, barraca

ou mesmo o entorno de um veículo de pequeno porte com

sonorização pesada.

O desenho em escala ampliada das festas juninas concentradas de Cruz das Almas e Amargosa revela uma configuração radial incompleta porque existem assimetrias na volumetria de fluxo nas vias que desembocam nas praças festivas. Através de algumas vias o fluxo é concentrado entre as 21 e 24 horas no afluxo festivo, e no refluxo a partir das 3 horas da manhã; em outras, no entanto, a passagem de foliões varia de intermitente a esporádica. No caso de Cruz das Almas, o fluxo de festeiros juninos é bem mais concentrado através da principal artéria viária do bairro Lauro Passos, que liga a praça festiva à via arterial Crisógno Fernandes. As vias de acesso que desembocam na Praça do Bosque apresentam uma morfologia de fluxo mais equitativa por causa da inserção centralizada daquele logradouro na morfologia urbana.

Em Cachoeira o rio Paraguaçu é um elemento de ordem geográfica que determina o desenho linear da festa. As festas juninas nos principais polos festivos do Recôncavo Sul impactam, redesenham e reinventam os espaços públicos, influenciando diretamente nas proposições de intervenção física e estética nas cidades que promovem o chamado São João espetáculo.

 

Espaço físico da festa junina concentrada de

Cachoeira: potencialidades paisagísticas e arquitetônicas

A festa junina de Cachoeira e a Feira do Porto acontecem na Rua Virgílio Reis, que corresponde à orla fluvial urbana. Como pontos em comum com as festas de Amargosa e Cruz das Almas, o São João urbano de Cachoeira tem a concentração de pessoas, a espetacularização da festa e a montagem de dois palcos: o principal (maior) e o secundário. No entanto, alguns aspectos tornam peculiar a festa cachoeirana: a realização da feira junina e o desenho do evento festivo que é alongado, diferindo, portanto, dos outros polos festivos que apresentam uma concentração com uma morfologia quadricular determinada pelo arranjo espacial das edificações que compõem a praça festiva.

O espaço urbano de Cachoeira apresenta sobrados e casarões históricos, que se constituem em formas que testemunharam um passado próspero. Algumas dessas construções ou perderam a sua função ao longo do tempo, ou foram refuncionalizadas. Procura-se articular o turismo urbano de eventos espetaculares cíclicos com a utilização das seculares formas espaciais urbanas integrando festas profanas com a “museificação” da cidade. Essa estratégia redesenha a dinâmica do espaço urbano de Cachoeira durante as festas juninas, a partir da inserção de formas efêmeras intercalando espaços públicos entornados por sobrados e casarões antigos. Segundo Santos:

Cada lugar combina variáveis de tempos diferentes. Não existe

um lugar onde tudo seja novo ou onde tudo seja velho. A

situação é uma combinação de elementos com diferentes

idades. O arranjo de um lugar, através da aceitação ou rejeição

do novo, vai depender da ação dos fatores de organização

existentes nesse lugar, quais sejam, o espaço, o local e o

cultural. (SANTOS , 1988, p. 98)

A postura preservacionista de alguns moradores e empresários e a postura modernizadora de outros não geram, na cidade em questão, uma relação conflitiva, uma vez que os segmentos sociais e empresariais da cidade desejam a mesma coisa: a consolidação de Cachoeira como cidade turística a partir da exploração dos seus atributos culturais. Além disso, as proposições modernizadoras encontram seus limites legais no tombamento do conjunto edificado da cidade. Nos últimos anos, por causa das intervenções do Programa Monumenta, que na sua segunda etapa financiou a restauração de edificações particulares, notou-se uma abrupta revalorização de imóveis deteriorados.

Através da leitura da dialética novo/velho proposta por Santos (1988), pode-se compreender a dinâmica sociocultural e econômica dos armazéns de fumo como formas espaciais refuncionalizadas em cidades como Cachoeira, Cruz das Almas, Governador Mangabeira e Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo baiano. Pode-se fazer uma leitura de formas espaciais refuncionalizadas do ponto de vista econômico e cultural, como as arenas festivas, a partir da leitura dialética de Santos (1988) e da abordagem de Debord (1997), acerca da luta entre tradição e inovação para compreender o desenho dos novos processos urbanos da contemporaneidade. Especificamente em Cachoeira, a questão tradição/inovação pode ser verificada tanto no seu patrimônio cultural intangível - folguedos, festas populares como o São João - quanto na morfologia urbana em termos do seu conjunto e das suas unidades individualizadas.

A logística espacial e a relação das festas juninas de Cachoeira com o seu substrato físico-espacial e seu entorno se contrapõem à dinâmica espacial dos outros polos festivos citados. Primeiramente, é importante salientar mais uma vez que Cachoeira é tombada desde 1971, como patrimônio histórico nacional, por isso as intervenções em arruamentos e nas edificações encontram um impeditivo legal ligado à esfera federal.

Em segundo lugar, a localização geográfica da cidade, situada as margens do rio Paraguaçu e a inserção da área urbana em um substrato geomorfológico acidentado e entornado por morros se constituem em impeditivos naturais que inviabilizam a possibilidade de mudança do lugar festivo nos limites do sítio urbano. No entanto, mais do que a disposição do relevo e os dispositivos legais, o componente histórico-cultural é o principal elemento que concorre no sentido de manter a festa junina na Rua Virgílio Reis. Através da temática da festa junina procura-se fazer uma homenagem toponímica a um evento cultural secular: a Feira do Porto.

No Plano de Desenvolvimento Integrado do Turismo Sustentável (PDITS ) – Polo Salvador e entorno, Cachoeira é considerada como uma âncora turística na categoria patrimônio histórico-cultural, dessa forma depreende-se que esse documento institucional prioriza eventos culturais lastreados historicamente, ficando para um segundo plano aquelas manifestações festivas importantes, mas que foram concebidas a partir de uma logística institucional intencional e gestada externamente, como ocorrera com o São João do Porto, promovido inicialmente pela Bahiatursa.

A festa e a Feira do Porto se inserem na morfologia urbana de Cachoeira como eventos culturais que se interpenetram e se alongam pela orla fluvial, estendendo-se por áreas livres de edificação, constituindo uma passarela cultural de entretenimento festivo com três reentrâncias correspondentes às seguintes praças: Ubaldino Assis, onde se monta um parque infantil, Góes Calmon, onde se situa o palco fixo, e Teixeira de Freitas. A praça Teixeira de Freitas e a Rua 25 de junho formam um largo contínuo onde se instala o palco secundário, utilizado nas festas juninas pelos artistas locais/regionais. O palco principal é montado em um largo que margeia a rua festiva.

Do ponto de vista da materialidade que sustenta a logística do evento festivo, pode-se afirmar que as festas juninas de Cachoeira são viabilizadas a partir da inserção de formas efêmeras no espaço urbano, como toldos para barracas, camarotes, arquibancadas e palco, que configuram uma estetização racional e intencional em um conjunto arquitetônico e artístico também intencional, mas que apresenta um desenho estético diferente, evidenciando, assim, a necessidade de se levar em conta a contextualização temporal e sociocultural das formas espaciais e da sua estética.

No auge do ciclo junino, procura-se adequar o espaço urbano de Cachoeira ao abrupto incremento de veículos e pessoas em um sítio urbano secular. O trânsito fica congestionado e as alternativas para circulação de um extremo ao outro na área urbana fica limitada com o fechamento da Rua Virgílio Reis ao tráfego motorizado. A artéria viária situada no miolo urbano, formada pela junção das ruas Lauro de Freitas e Prisco Paraíso, é a principal via estruturante do sistema viário local e fica sobrecarregada e esporadicamente congestionada. Essas vias canalizam o tráfego da BA-420 (Santo Amaro – Cachoeira), de onde vem a maioria dos turistas de eventos oriundos de Salvador para a ponte Dom Pedro II, que acessa o município de São Félix, além de outras cidades do Recôncavo Sul e, por outra conexão viária à rodovia BR-101, na localidade de Capoeiruçu.

Dentre as várias manifestações culturais e festivas que acontecem na área urbana de Cachoeira, as festas juninas são as que mais sobrecarregam a capacidade de carga da cidade, alterando a sua dinâmica cotidiana de fluxo de pessoas e veículos. A montagem do espaço festivo, na orla do rio Paraguaçu em Cachoeira, canaliza compulsoriamente o trânsito na sua principal via arterial, em uma cidade cujo desenho urbano, com arruamentos estreitos, expressa a morfologia do espaço público urbano de uma época na qual inexistiam veículos automotores e não se formavam as grandes aglomerações como na atualidade. A extrapolação da capacidade de carga das principais vias de circulação de tráfego e as eventuais obstruções da fluidez obrigam a prefeitura a colocar guardas de trânsito temporários ao lado de policiais militares para viabilizar a trafegabilidade.

Além dos fatores de ordem legal e de natureza cultural que inviabilizam qualquer possibilidade de mudança do local da festa, entende-se que a moldura paisagística do entorno do espaço festivo é um forte chamariz de turistas de eventos. A composição estética do entorno festivo é constituída pelo rio Paraguaçu, tendo do outro lado a histórica cidade de São Félix, pelo conjunto arquitetônico que forma a configuração edificada e pela secular ponte Dom Pedro II; o espaço festivo é, portanto, hiper-visível. A grande concentração, produzindo uma massa festiva que se distribui pelos interstícios da Rua Virgílio Reis, praças e entorno, tem um significado imagético e estético. As proposições de descentralização do espaço festivo são desconsideradas tanto por causa dos acréscimos nos custos das festas, determinados por uma obrigatória reengenharia logística, como também porque a concentração que produz a massa festiva é intencional por causa dos seus efeitos para a imagem da cidade, em um contexto de muita valorização de questões ligadas ao city marketing, à visibilidade e à estética urbana, a partir do conjunto edificado.

Consta do PDDU de Cachoeira uma proposição de criação de um centro de animação na orla do rio Paraguaçu. Nesse trecho, que abarca a Rua Virgílio Reis e as praças contíguas a esta artéria viária, ocorrem as festas juninas concentradas e a Feira do Porto. Trata-se de uma obra financiada com recursos federais do programa Monumenta. Pretende-se perenizar o fluxo turístico através da implantação de bares com músicas ao vivo e espaços para shows.

As obras de requalificação urbana da orla fluvial de Cachoeira, com reforma da pavimentação de pedras, de iluminação, redesenho de partes das praças e construção de duas faixas de calçamento para caminhadas e corridas, procuraram preservar as principais características físicas, morfológicas e sintáticas, segundo o Programa Monumenta. Pelo viés da atividade turística, a festa de São João, que acontece naquele espaço, teria um importante papel no sentido de atrair milhares de pessoas para conhecerem as potencialidades da cidade, incluindo a sua nova orla fluvial multifuncionalizada em termos de modalidades de lazer. As diversas formas de entretenimento a serem alocadas ao longo da orla do rio Paraguaçu, conforme proposição do Plano Diretor Urbano, seriam de responsabilidade da iniciativa privada. A implantação do calçadão constitui-se em uma modalidade de intervenção física e estética no espaço público, visando estimular a circularidade turística e apropriação pelos moradores de Cachoeira, que incorporariam a orla fluvial no seu itinerário de lazer. As intervenções empreendidas na Rua Virgílio Reis e entorno segue uma tendência importante da atualidade: a restauração do estoque edificado no seu conjunto e a recuperação de vias de circulação, com vistas à formação dos chamados “corredores culturais”, que estimulam a “pedestrianização”.

Busca-se assim estimular o caráter contemplativo na cidade histórica, a partir de uma diminuição da velocidade de deslocamento do passante. Por isso, vislumbra-se proibir a circulação de veículos motorizados. As proposições de atividades de lazer para a orla do rio Paraguaçu, oscilam de modalidades ubíquas, como os cafés e as lan houses, a outras peculiares, como charutarias, que são tradicionais em algumas cidades do Recôncavo, como São Félix, que, assim como Cachoeira, integrava a chamada zona fumageira.

De acordo com o PDDU de Cachoeira, a área da orla fluvial pós-requalificação se constituiria em um elemento aglutinador do convívio da comunidade local com os turistas. Adotando-se a política de requalificação urbana, que contempla a malha de espaços públicos (ruas, praças e avenidas), busca-se formar e consolidar um “corredor cultural” informal, com a possibilidade de circulação e apropriação permanente, em um espaço físico notabilizado como “corredor festivo” formal, de apropriação sazonal. A leitura dessas propostas de intervenção e de otimização especificamente ligadas ao espaço onde ocorrem as festas juninas, evento cultural de maior chamariz turístico da cidade na dimensão quantitativa, indica que o “São João espetáculo” está consolidado territorialmente no espaço da Feira do Porto. Como se trata de área tombada historicamente depreende-se que parte dessas atividades seriam viabilizadas a partir da refuncionalização e readequação de algumas edificações, na medida em que as modalidades de lazer oferecidas serão perenes, diferentes, portanto, daquelas atinentes à promoção das festas juninas nas quais se inserem formas espaciais efêmeras, para a prática de uma modalidade festiva urbana transitória. Entretanto, é importante ressaltar que as novas proposições para a gestão das cidades tombadas se contrapõem àquela acepção corrente ligada à petrificação física da estrutura edificada, permitindo-se intervenções racionais, que não comprometam o conjunto arquitetônico e que estimulem modalidades de apropriações para o lazer urbano. Por outro lado, ressaltam-se no PDDU os riscos da espetacularização imagética do patrimônio imaterial urbano.

Do ponto de vista das formas espaciais perenes, as festas juninas espetacularizadas no espaço público de Cachoeira não apresentaram um rebatimento espacial destoante no último decênio. Tanto na referida cidade quanto em Cruz das Almas, edificou-se um palco fixo que é utilizado para outras atividades ao longo do ano e não se reestruturou o espaço festivo de forma mais efetiva como ocorrera em Amargosa, onde retiraram canteiros e planearam a praça festiva. O palco fixo de Cachoeira é utilizado ao longo do ano para outras manifestações artísticas, culturais e religiosas – católicas, candomblecistas, sincréticas e evangélicas... – e profanas de modo geral.

As alterações no espaço festivo em Cachoeira limitaram-se às mudanças da localização dos palcos. No entanto, o PDDU da referida cidade é explícito ao apontar possíveis intervenções mais agudas na Rua Virgílio Reis, onde ocorre a festa junina de Cachoeira, com vistas a consolidar aquela área como espaço turístico, festivo e área de lazer para os moradores locais. No ano de 2008, concluíram-se importantes etapas das obras de requalificação urbana da rua e das praças onde ocorrem as festas juninas concentradas em Cachoeira, que foi feita com recursos do governo federal, através do programa Monumenta. As questões atinentes a essa intervenção física serão analisadas no transcurso do livro.

 

O espaço físico público das festas juninas

concentradas de Cruz das Almas

O local onde ocorre a atual festa junina de Cruz das Almas, o Parque Sumaúma, no bairro Lauro Passos, é uma área plana situada no perímetro urbano da cidade e que, no passado, era a sede de uma fazenda de laranja de propriedade do ex-prefeito da cidade, Lauro de Almeida Passos, falecido em 1982.

Com o desmembramento da área, que se transformou em loteamento, abriram-se ruas largas e uma praça sem arborização. Com o objetivo de preservar uma árvore de sumaúma (ceiba pentandra), transferiu-se a nova praça para as proximidades da sede da antiga fazenda, uma área ampla e mais arborizada. Essa área passou a se chamar Parque Sumaúma e a referida árvore secular que inspirou o topônimo foi preservada, sendo recentemente tombada como patrimônio ambiental do município. A praça é arborizada e no seu entorno pode-se observar tanto as unidades residenciais, como também edificações de serviços, como escolas de ensino fundamental e médio, que surgiram a partir dos anos 1980. Trata-se de uma área habitada predominantemente por pessoas das classes média e média alta. Diferentemente da Praça do Bosque de Amargosa, a Praça do Parque Sumaúma apresenta uma localização mais periferizada no desenho urbano de Cruz das Almas. Do ponto de vista da forma de apropriação, os usuários utilizam o referido logradouro público para práticas esportivas, caminhadas ou simples contemplação. A morfologia da citada praça e o desenho da festa estimulam o deslocamento circular ou eventualmente diagonal do folião junino em direção ao palco principal.

Continuar: parte 3 de 4