Da casa à praça pública: a espetacularização das festas juninas

Janio Roque Barros de Castro · Capítulo 6 de 9 · parte 3/4

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Da casa à praça pública: a espetacularização das festas juninas

Dinâmica e especificidades culturais das festas juninas espetacularizadas em espaço público

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Como o São João na modalidade arraiás urbanos em Cruz das Almas é um fenômeno relativamente recente, optou-se por promovê-lo no Parque Sumaúna, dentro do perímetro urbano, um bairro novo com uma praça grande, várias ruas largas adjacentes e uma baixa densidade de edificações.

No Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) de Cruz das Almas, na parte das leituras comunitárias, afirma-se que “o São João perdeu a sua tradição com a festa no centro da cidade”. A

ideia de centralidade23 nesse caso está relacionada ao espaço urbano; uma outra expressão utilizada no Recôncavo baiano por algumas pessoas é eu vou para a festa lá na rua! Nesse caso a palavra rua significa tanto a cidade identificada pela contiguidade das edificações, pelos quarteirões e seu nível de conectividade com outras vias urbanas, como destaca Lamas (2000), quanto externalidade em relação à casa, ou seja, eventos, situações que ocorrem no espaço extradomiciliar. Inegavelmente, a dimensão estética e a sonoridade das festas juninas espetacularizadas em praças públicas despertam um grande fascínio imagético e um consequente “efeito de arraste” nas áreas periurbanas e rurais.

Diferentemente das intervenções espaciais mais bruscas verificadas em Amargosa, a Praça do Parque Sumaúma, onde ocorre a megafesta junina de Cruz das Almas, sofreu poucas alterações especificamente destinadas a otimizar aquele espaço público para o São João urbano. Consta de um dos mapas do PDDU uma proposição de requalificação urbana para o referido logradouro público; no entanto, nesse mesmo documento institucional, considera-se o bairro Alberto Passos como uma possível área na qual podem ocorrer as festas juninas concentradas, em caso de uma eventual relocação. Como a questão sobre a mudança do local das festas juninas em Cruz das Almas é polêmica, as menções no PDDU sobre o assunto são superficiais e discretas.

Apesar dos debates acirrados, nenhum grupo político quer correr o risco de uma manobra tão delicada, que é a mudança da logística espacial do evento cultural que notabiliza a cidade. Entretanto, muitas pessoas, representantes de diferentes segmentos sociais, acham normal a possibilidade de mudança do local da festa, mesmo tendo que se defrontar com a problemática da inserção territorial da guerra de espadas na área urbana.

Consta do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, na sua versão reformulada e atualizada, que Cruz das Almas possui oito praças, no entanto, o ponto nodal da espetacularização da festa junina intraurbana acontece na Praça do Parque Sumaúma e entorno, uma área periférica do ponto de vista do desenho urbano da cidade.

Do ponto de vista da deflagração festiva do ciclo junino, o Sumaúma é ponto que exerce o papel de centralidade e eixo articulador e estruturante da dinâmica festiva e territorial local. Entretanto, quando as festas juninas começaram a ser realizadas naquelas imediações, o número de edificações, notadamente residenciais, era muito menor, assim como era pouco expressivo o número de turistas de eventos que visitava a cidade durante os festejos juninos, ou seja, no início da década de 1990 o chamado “Arraiá do Laranjá” tinha uma projeção predominantemente local e precariamente subrregional.

Ao longo dos anos 1990 ocorreu o incremento do quantitativo de visitantes, enquanto que no mesmo período se notou um substancial aumento na densidade de edificações residenciais no entorno da Praça do Sumaúma, o que trouxe à baila discussões acerca das possibilidades de transferência da festa concentrada para outro espaço na área urbana. Procuram-se estratégias que evitem a polêmica de transferir a festa para a praça principal, o que necessariamente implicaria um sério embate com os espadeiros, que entenderiam essa prática como um processo de desterritorialização compulsória e dirigida de um evento festivo, seguido de reterritorialização ordenada previamente concebida e difusa.

Existem no perímetro urbano de Cruz das Almas alguns espaços que apresentam áreas livres de edificações nas quais se poderia organizar a festa junina; dentre estas, pode-se citar uma grande área nas proximidades do ginásio de esportes, no bairro Alberto Passos – setor leste da cidade; outra é a entrada da cidade, entre a rodovia BR-101 e a antiga estação ferroviária, próxima ao bairro Itapicuru – principal entrada da cidade – setor oeste . Uma outra opção seria o campus da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), que é uma área federal. O problema é que essas áreas livres de edificação, apesar de apresentarem conexões viárias que permitem uma intensificação do fluxo de veículos no auge da festa, apresentam uma localização periferizada em relação à praça principal. Teme-se que a relocação da festa para uma área periférica em um momento de apologia ao city marketing possa prejudicar a dinâmica crescente das festas juninas urbanas de Cruz das Almas. Pela ordem de prioridades do PDDU, em primeiro lugar estaria a área do antigo campo de futebol, no bairro Alberto Passos, que é a proposição mais problemática, na medida em que implica um incremento da circularidade de foliões juninos no espaço intraurbano em meio à pirotecnia das espadas, que não se restringe à praça principal. Em segundo lugar, está a área da antiga estação ferroviária, na entrada da cidade, e em terceiro lugar, o campus da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

A questão de uma eventual relocação da festa é um assunto que deve ser discutido de forma sistematizada. Surgem várias proposições que apontam para uma possível desconcentração da praça festiva, viabilizada a partir da atomização da festa, que passaria a ser multipolarizada, o que contribuiria para o fim das grandes concentrações e também estimularia a circulação de turistas pelas ruas da cidade. Nesse novo desenho da festa urbana, os palcos seriam menores e estariam situados nas principais praças da cidade, que teriam um papel de espaço nodal e estruturante dos fluxos de foliões juninos. A principal crítica direcionada à proposição dessa configuração difusa para os festejos juninos em alguns polos festivos como Amargosa e Cruz das Almas se fundamenta nas limitações da prefeitura, que não teria condições de promover uma infraestrutura necessária para atender a essas múltiplas manifestações festivas simultâneas no espaço urbano.

No caso específico de Cruz das Almas, o problema maior seria de natureza cultural: a guerra de espadas que cria territórios de confinamento na área urbana. A inserção de determinados eventos culturais na área urbana da cidade necessariamente terá que levar em consideração a dinâmica territorial da guerra de espadas, que não se limita à praça principal. Além disso, todas essas proposições devem ser lastreadas por estudos de impacto de vizinhança (EIV) e de viabilidade logística.

As festas juninas no Parque Sumaúma prejudicam os moradores daquelas imediações? Evidentemente que uma megafesta concentrada que reúne anualmente milhares de pessoas altera de forma abrupta o cotidiano bucólico de uma cidade de pequeno porte. Entretanto, para aqueles que procuram aproveitar a oportunidade para auferir lucros, a festa é uma grande oportunidade. Como as casas nas imediações da praça festiva são de pessoas da classe média e média alta, essas unidades habitacionais podem ser alugadas por preços exorbitantes, porque permitem uma visão privilegiada do espetáculo ou mesmo podem considerar-se parte dele.

A partir do entendimento de que a relocação da praça festiva é uma questão que deve ser agendada, discutida e planejada, os eixos estruturantes dos debates seriam: transferir a festa para onde? Deve-se continuar investindo na festa concentrada como megaevento ou distribuí-la de forma difusa ou bipolarizada? As proposições de descentralização da festa do Sumaúma, que esboce uma arranjo multipolarizado, se defrontam com um óbice de natureza cultural: as micro-batalhas de espadas que ocorrem nos bairros, como resultado tanto da saturação de espadeiros na praça principal como da dispersão destes após a apoteose pirotécnica na Praça Senador Temístocles Passos.

Além dos fatores de ordem econômica, cultural e política envolvendo uma eventual relocação da festa junina concentrada de Cruz das Almas, é importante lembrar que na Praça do Parque Sumaúma e entorno as ruas são largas, calçadas, iluminadas, o largo principal é arborizado e, além disso, a acessibilidade viária à praça festiva é múltipla; são várias artérias viárias que ligam as principais vias estruturantes – Rua Crisógno Fernandes e Avenida Alberto Passos – à entrada da cidade e à praça festiva. A contrapartida física da praça festiva, mesmo com sua capacidade de carga quase no limite, seria a sua infraestrutura e as condições de acessibilidade. Em caso de uma eventual transferência, questões de ordem técnica, como iluminação, segurança, eletrificação, transportes, assim como outras de ordem físico-espacial, como edificação de palcos, acessibilidade, entre outras, também teriam que ser descentralizadas, onerando o custo total do evento.

É importante salientar também o forte apelo imagético que causa a grande concentração de pessoas no largo do Sumaúma e nas artérias viárias adjacentes, o que demonstra o forte magnetismo festivo, que, evidentemente interessa aos políticos locais. Será que politicamente interessa aos gestores atuais dispersar essa massa festiva em uma ampla área plana, criando assim “grandes vazios” e linhas de descontinuidade no fluxo de foliões? Todas essas questões complexificam os debates acerca da relocação da praça festiva na sua natureza espetacular. Entretanto, e se a festa fosse produzida comunitariamente pelos moradores dos principais bairros das cidades, em uma ambiência participativa e horizontal, fugindo assim da verticalização da “grande festa” elaborada a partir da ingerência externa das municipalidades? Provavelmente essa modalidade de festa não agradaria nem à grande mídia e nem à maioria dos jovens que estão acostumados com o mundo hiperreal do espetáculo e dos artistas famosos.

Por trás da valorização de uma suposta tradição criada em gabinetes políticos, como a festa no Parque Sumaúna, pode estar velado o interesse em não abrir mão da urbanidade dessa área e de seu entorno. O espaço físico das ruas adjacentes e do entorno da referida praça festiva apresentam unidades habitacionais recentes, luminosidade, fácil acesso, além da proximidade em relação ao centro da cidade e aos serviços urbanos básicos. O bairro Lauro Passos, onde está situada a praça festiva, apresenta um traçado urbanís tico moderno, amplo, racionalizado, porque se trata de uma área de eclosão edificante recente e projetada. Antes mesmo das festas juninas serem realizadas naquele local, tentou-se inserir alguns equipamentos urbanos de uso público, mas, essa iniciativa acabou não sendo realizada por diferentes gestores, temendo-se os impactos durante o ciclo junino, quando circulam naquela área milhares de pessoas. Qualquer proposição de intervenção física na Praça do Sumaúma e entorno deverá levar em consideração o abrupto acréscimo de pessoas e equipamentos durante o ciclo junino, o que limita as modalidades possíveis de requalificação, apesar de existirem propostas concretas nesse sentido, conforme consta do PDDU que foi reformulado recentemente.

As proposições de mudança do local da festa junina concentrada de Cruz das Almas passaram ao largo nas discussões do PDDU local, que foi aprovado pela Câmara de Vereadores daquele município em 2001, na medida em que aquele documento expressava a dinâmica e os anseios da cidade em um contexto analítico influenciado pelos anos 1990, quando o processo de incremento das edificações e a consequente perda de espaços livres no bairro Lauro Passos não eram tão expressivos.

Ao referir-se às proposições de mudança de local das festas juninas de Cruz das Almas, utiliza-se a expressão “cenário”, porque esta palavra está relacionada conceitualmente tanto à dimensão espetacular assentada em um verticalismo das municipalidades na promoção de eventos dessa natureza, quanto à dimensão prospectiva.

A concepção, o planejamento e a logística das festas juninas espetacularizadas, que são um contraponto à dimensão participativa, insere-se no contexto da lógica concertada do pragmatismo dos eventos culturais popularizados ativos ou retradicionalizados da contemporaneidade. Por isso, a utilização de expressões como cenário, racionalidade, espetáculo e gestão é pertinente, ao passo que as dimensões participativas, autogestionária, comunitária, vernacular, constituir-se-iam em acepções conceituais que se aplicariam àqueles eventos estruturados espacialmente em uma dimensão mais horizontal.

No ano de 2009, a prefeitura municipal de Cruz das Almas confirmou a manutenção da festa junina concentrada no Parque Sumaúma e transferiu a cidade cenográfica e a feira do artesanato para as imediações de outra praça situada na entrada da cidade, em uma área recentemente requalificada, na qual se instalou alguns equipamentos de lazer.

A rarefação de áreas livres de edificação no entorno do Parque Sumaúma poderá provocar uma situação de saturação que implicaria em uma relocação da festa à revelia do dirigismo público municipal? Uma mudança dessa natureza só se processaria em uma atmosfera autogestionária que iria por abaixo a representatividade formal nos moldes atuais, para conceber um comunitarismo assentado na efetiva participação popular através de mecanismos legitimamente representativos como associações, sindicatos, grupos culturais, entre outros. Entretanto, a concepção de festas juninas dessa natureza em Cruz das Almas, assim como em Amargosa e Cachoeira, ainda está em uma dimensão utópica, mas não inatingível.

 

A Praça do Bosque como espaço físico do São

João espetacularizado de Amargosa

As festas juninas espetacularizadas de Amargosa são realizadas na Praça do Bosque, que apresenta uma dimensão física expressiva (29.000 m²), sendo a maior da cidade, e exerce um papel de centralidade geográfica, funcional, festiva e de lazer urbano. A Praça do Bosque é uma das maiores praças festivas juninas do interior da Bahia e está situada em uma área geograficamente privilegiada do espaço urbano, conectada através de vias intermediárias às avenidas estruturantes do sistema viário urbano que se articulam às duas entradas da cidade. Como destaca Lefebvre (1999), os lugares animados como as ruas são multifuncionais, no caso da Praça do Bosque existem funções que fazem parte da cotidianidade urbana, como as atividades educacionais, enquanto que outras são cíclicas ou sazonais, como as festas juninas.

A Praça do Bosque foi construída na década de 1950, ocupando uma área de circulação de pessoas e mercadorias através de um ramal da ferrovia Nazaré-Jequié, que se estendia até a área urbana de Amargosa.

No período junino, ornamenta-se a praça festiva e instalam-se barracas nas suas bordas, um grande palco, um palco secundário, uma cidade cenográfica e um parque de diversões, em um largo contíguo à praça festiva. Trata-se de uma praça ampla, centralizada e com várias vias de acesso para outras áreas da cidade.

É importante destacar que em Amargosa existem três praças com funções e formas de apropriação que se diferenciam e ao mesmo tempo se complementam. A Praça Lourival Monte é formada por um templo católico em estilo neogótico, que destoa na morfologia urbana, e por edificações históricas como os prédios da prefeitura e a Lira Carlos Gomes, que entornam um grande jardim em espaço público, bastante preservado como um patrimônio paisagístico local, que justificaria a imagem-síntese de “cidade jardim”, notabilizada em âmbito estadual. As duas praças citadas são utilizadas no cotidiano urbano para o lazer, namoros, encontros, caminhadas.

Durante o ciclo junino, a Praça do Bosque é o lugar que exerce um papel de centralidade do entretenimento e da festividade local. Além disso, existe uma preocupação em preservar a Praça da Matriz, considerada cartão postal da cidade. Essa gestão preservacionista de Amargosa em relação à praça-jardim é determinada a partir de uma ação normativa municipal, diferindo, portanto, de Cachoeira, onde as restrições atinentes às intervenções físicas nos seus espaços públicos e na fachada de edificações privadas são lastreadas pela legislação federal.

Uma terceira praça da cidade é a Iraci Silva – antiga Praça Tiradentes, conhecida localmente como Praça do Cristo – que exercia o papel de centralidade festiva sazonal no passado. Aos sábados, na referida praça, também acontecia a feira livre, que foi transferida para um local mais amplo nos anos 1990. A Praça do Cristo foi requalificada na referida década e teve sua função cultural redimensionada; a feira foi transferida, assim como as festas populares deixaram de ocorrer naquele espaço público, que, apesar de esporadicamente ser utilizado como local para passeios e repouso, é predominantemente um espaço de passagem e contemplação.

Como a Praça Iraci Silva já foi o principal espaço de deflagração de festas populares como o carnaval, pode-se utilizar a expressão reversão da centralidade festiva em Amargosa para caracterizar a consolidação do Bosque como principal área de lazer festivo na contemporaneidade? O São João espetáculo é a principal festividade urbana que notabiliza Amargosa para além da escala regional; no entanto, apresenta uma inserção pontualizada no calendário cultural local. Já a Praça Iraci Silva é um espaço de circulação, passagem, porque é onde confluem duas avenidas estruturantes do sistema viário, por isso é um importante ponto de referência. É também lugar onde ocorrem encontros, notadamente após a sua requalificação urbanística realizada nos anos 1990, e, esporadicamente, é espaço utilizado para pequenas concentrações de rua e pequenos eventos.

Na mesma década quando ocorreu a requalificação urbana dessa praça, a prefeitura colocou um marco do centenário na Praça do Bosque, consolidando aquele espaço público como área de deflagração das festas juninas espetacularizadas, ou seja, aliou-se à monumentalização material (marco do centenário), com a valorização de uma festa junina como tradição inventada, que se constituiria em um patrimônio cultural intangível, redesenhando ou hibridizando uma suposta identidade cultural local.

A opção pela espetacularização e a consequente turistificação das festas juninas de Amargosa determinou, em pequena escala, o redesenho morfológico da Praça do Bosque, com a demolição de uma edificação antiga, para criar uma quadra poliesportiva, que poderia ser utilizada no período junino como pista de dança. Esse projeto não chegou a ser implementado e o espaço livre de edificação é utilizado sazonalmente para montagem do grande palco principal do São João. A instalação de um palco secundário de menor porte, a relocação do palco principal, a distribuição espacial das barracas associadas à inserção da cidade cenográfica na Praça do Bosque, contribuíram para aumentar consideravelmente a densidade de turistas de eventos e de formas espaciais efêmeras na referida praça festiva. Em Cachoeira e Cruz das Almas, além do grande palco principal, que é uma forma espacial efêmera e sazonal, construíram palcos fixos que são utilizados por estudantes para atividades cênicas, no caso da primeira cidade, e como pista de skate, na segunda cidade.

A Praça do Bosque sofreu algumas intervenções estruturais e estéticas nas gestões de Iraci Silva (1993-1996) e de Rosalvo Borges Sales (1997-2003), objetivando qualificar espacialmente aquele logradouro público para a promoção das festas juninas concentradas. Em meados da década de 1990, a prefeitura de Amargosa ampliou a arborização e reestruturou o sistema de iluminação do Bosque, como estratégia estética de consolidação daquela área como principal espaço festivo da cidade. É importante salientar que na Praça do Bosque, além da arborização que inspirou o topônimo, o solo era encoberto por gramíneas, assemelhando-se a um imenso tapete verde; no entanto, a grande concentração de pessoas nas festas juninas anualmente comprometia aquele gramado, que foi retirado pela gestão municipal. Tratou-se de uma modalidade de intervenção de natureza estética, na qual se compromete parte de um potencial paisagístico com uma durabilidade mais extensa, em prol de um evento de forte apelo estético/imagético, com deflagração de caráter sazonal e efêmero.

Foi na primeira gestão de Valmir Sampaio (2005-2008) que se colocou em prática uma proposição de intervenção física na Praça do Bosque considerada mais ousada e polêmica na sua fase intermediária: retiraram-se canteiros, bancos e parte da vegetação, visando assim à ampliação dos espaços abertos para circulação de pedestres. Com essa obra, a primeira etapa de uma intervenção urbanística maior, começou a ser implementada no primeiro semestre de 2008, planeou-se a praça festiva, retirando as proeminências ou rugosidades, como canteiros que ornamentavam o referido espaço público, para se priorizar a espetacularização da festa, criando mais opções de circularidade e mobilidade para os foliões juninos e projetando-se materialmente a política de valorização cultural, inserindo-se uma cidade e uma fazendazinha cenográficas, que no ano de 2009 foi transferida para um terreno na borda da praça.

Essa reestruturação física foi acompanhada de melhorias na acessibilidade física à praça e de reformas no sistema de eletrificação, para permitir maior luminosidade no/do espaço festivo. Curiosamente, os canteiros retirados na reforma urbanística foram construídos pelo ex-prefeito Francisco Rabelo, que foi o pioneiro na realização de festas juninas na Praça do Bosque, e a referida intervenção física foi empreendida com o propósito de ampliação do espaço da festa que o citado ex-gestor criou. É importante destacar também que essa praça foi construída na década de 1950, como um dos marcos de estruturação da grife de cidade-jardim, ao lado da Praça Lourival Monte, e a sua reforma na atualidade procura fundir dois elementos de definição do city marketing atual: as festas juninas e a marca de cidade-jardim.

Apesar da perenidade do patrimônio paisagístico urbano, os eventos festivos sazonais são priorizados como elemento estruturante de uma eventual “identidade cultural” urbana.

A requalificação da Praça do Bosque foi feita com recursos do Ministério do Turismo e da Prefeitura Municipal de Amargosa. Com a reforma, a praça que é um espaço hiper-visível da cidade, passou apresentar melhores condições físicas e estéticas para inserção do São João espetáculo, servindo ao mesmo tempo como espaço apropriado para o lazer urbano por parte dos moradores ou esporadicamente por parte de visitantes. Fez-se uma recomposição paisagística com a introdução de novas árvores entremeadas por de gramíneas que passaram a recobrir o solo desnudo. Construíram-se dois quiosques que se projetam em uma superfície levemente elevada, com canalização de percurso sinuosa. A leitura da praça, indica um estímulo tanto uma apropriação circulante – espaço de passagem – quanto uma apropriação lúdica efêmera. Essa praça, no período junino, se transforma em espaço lúdico-festivo de estadia sazonal, quando a prefeitura promove as megafestas.

A gestão municipal de Amargosa aproveitou o quadro político federal e estadual favorável para investir no espaço público de maior importância para as práticas festivas locais, com destaque para o São João. A origem da maior parte dos recursos para requalificação da Praça do Bosque é o Ministério do Turismo, o que se constitui em um indicativo claro de que a atual administração deseja colocar em prática um desejo de gestores que a precederam, que é a perenização do fluxo turístico da cidade, a partir de um evento cultural estruturante: as festas juninas.

O projeto de requalificação da Praça do Bosque foi discutido inclusive no âmbito do Plano Popular Estratégico de Gestão e Afirmação Democrática por uma Amargosa Sustentável – Pegadas, um instrumento diagnóstico com enfoque participativo, utilizado com propósitos ligados ao planejamento urbano e rural. A reforma física, estética e funcional da Praça do Bosque evidentemente é utilizada pelos políticos da situação que procuram apresentar esse projeto de intervenção como marketing urbano no período de maior visibilidade pública e midiática da cidade que é o ciclo junino e como marketing político, figurante obrigatório das suas retóricas.

Tanto a reforma da Praça do Bosque, quanto a requalificação urbana da orla fluvial do rio Paraguaçu em Cachoeira, ambos espaços festivos nodais da espetacularização junina, inserem-se em uma política de reestruturação urbanística que promove uma dialogicidade transtemporal. A manutenção das árvores na Praça do Bosque como iniciativa da prefeitura de Amargosa e a preservação do entorno edificado como patrimônio tombado na Rua Virgílio Reis e entorno, em Cachoeira, representam o respeito a elementos do passado que se associarão a outros elementos que serão inseridos na composição estética do presente.

No caso específico de Amargosa, nas proximidades da Praça do São João espetáculo, encontram-se a fachada modernista e as ruínas do antigo Alvorada Tênis Clube, um tradicional espaço festivo local, construído na década de 1960 e que desabou no final dos 1990. Nos últimos anos surgiram proposições por parte dos gestores públicos para transformar aquela área em um centro cultural para exposições e eventos. Essa edificação expressaria a formalização físico-espacial da retórica da centralidade cultural de Amargosa, que atualmente encontra-se ancorada em um evento eminentemente sazonal: as festas do ciclo junino.

Em Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas, enquanto a prefeitura faz adequações, adaptações e reformas no espaço público visando a preparar a cidade para as festas juninas, na dimensão do privado as pessoas também reformam, ampliam, redesenham as suas casas para alugá-las no São João. No período pré-junino, nota-se uma intensificação de vendas de produtos nas lojas de material de construção, aquecendo o comércio formal local. Durante o período junino, os supermercados, lanchonetes, bares e restaurantes apresentam uma ampliação nas vendas.

Em Amargosa e Cachoeira, a festa junina acontece em espaços públicos centrais no desenho urbano. Em Cruz das Almas, a Praça do Parque Sumaúma pode ser considerada do ponto de vista do desenho urbano periferizada; entretanto, o referido logradouro público é por excelência o espaço que exerce uma centralidade festiva no clímax do ciclo junino urbano. A área física de projeção espetacular das festas juninas de Amargosa é uma peculiaridade importante para manutenção da polaridade dessa cidade no concorrido circuito junino da atualidade.

 

Composição estética das megafestas juninas da

atualidade

A composição estética de um espaço festivo não deve ser considerada apenas um pano de fundo neutro que só serve para ornamentar um determinado local; ela pode revelar elementos da dinâmica cultural desse lugar na morfologia dos seus componentes, nas suas formas de integração, interpenetração, de articulação. Independentemente das preferências atinentes às tipicidades estéticas das praças festivas do ciclo junino na atualidade, inexoravelmente existe uma configuração estética que é dada a priori e que remete a diferentes leituras do sujeito ou de grupos, cuja curva de variabilidade pode ser determinada por elementos como faixa etária, índice de escolaridade, entre outros fatores.

Como já foi dito, existe uma configuração espacial das praças festivas que é repetitiva: um palco armado e uma enorme massa festiva inserida nos interstícios das edificações. Entretanto, nesse cenário repetitivo, imiscuem-se elementos peculiares da cultura local, buscando-se, assim, construir uma suposta identidade cultural da festa, que se mescla e interage com a identidade urbana inventada, que se constituem em um constructo da diferenciação de lugares festivos como estratégia de potencialização da turistificação sazonal. Os organizadores das festas procuram unificar as potencialidades estéticas e paisagísticas que emolduram os lugares festivos.

Um dos aspectos que identificavam as festas juninas do passado era a ornamentação; tradicionalmente utilizam-se bandeirolas entremeadas por balões. Atualmente tem se notado que os organizadores das festas têm investido em uma ornamentação temática, na qual, através da composição estética, faz-se uma ponte entre os assuntos mais badalados na grande mídia, como eventos quadrienais mundialmente conhecidos como olimpíadas e a copa do mundo de futebol, que são associados às potencialidades socioculturais do lugar. Trata-se de um arranjo estético do presente – grandes temáticas do momento – que se articulam a aspectos da memória coletiva (artesanatos, mitos locais, indumentárias e instrumentos de som do passado).

Apesar das tematizações circunstanciais, pode-se afirmar que existe uma dialogicidade entre as práticas juninas do passado e do presente verificada em atos como acender fogueiras, em algumas manifestações míticas e folclóricas, e em parte na composição estética das festas, não como um resgate, mas como uma manutenção de algumas práticas que foram atualizadas ou hibridizadas. No entanto, nota-se uma leitura nostálgica das festas de São João, sobretudo por algumas pessoas acima de 40 anos de idade. Talvez o que cause certo estranhamento em pessoas que experienciaram o São João tradicional realizado nas casas seja a dimensão espacial ampliada do espaço festivo atual, constituído basicamente a partir da inserção de implementos infraestruturais móveis e de um substrato iconográfico expressivo. Todo esse conjunto físico e estético está adequado à morfologia dos arruamentos em Amargosa, Cachoeira ou Cruz das Almas.

Tanto a espetacularização quanto a arenização das festas juninas expressam a turistificação dos lugares. Alia-se um desejo de interiorização do turismo por parte do governo do estado aos interesses das municipalidades em inserir no calendário cultural e no circuito turístico estadual os seus respectivos municípios, viabilizando assim a racionalidade imagética do city marketing. A promoção dos espetáculos festivos juninos produzidos em massa, em diferentes cidades da Bahia, gera a sensação de cenários repetitivos, destacados alhures. Sobre esse viés padronizante da sociedade contemporânea, Guattari destaca:

No seio de espaços padronizados, tudo se tornou

intercambiável, equivalente. Os turistas, por exemplo, fazem

viagens quase imóveis, sendo depositados nos mesmos tipos

de cabine de avião, de pullman, de quartos de hotel e vendo

desfilar diante dos seus olhos paisagens que já encontraram

cem vezes em suas telas de televisão, ou em prospectos

turísticos. Assim a subjetividade encontra-se ameaçada de

paralisia. Poderiam os homens restabelecer relações com suas

terras natais? Evidentemente isso é impossível! As terras natais

estão definitivamente perdidas. Mas o que podem esperar é

reconstituir uma relação particular com o cosmos e com a vida,

é se “recompor” em sua singularidade individual e coletiva [...]

(GUATTARI , 1992, p. 169-170)

Os turistas de eventos muitas vezes são atraídos pelas propagandas e procuram explorar as peculiaridades naturais e culturais do lugar a partir das especificidades do ciclo junino no Recôncavo Sul. O desenho e o arranjo estético das festas se assemelham em cidades situadas a centenas de quilômetros de distância.

Segundo Maffesoli (1995), o reencantamento pós-moderno, pelo viés da imagem, do mito, da alegoria, suscita uma estética que tem a função agregadora, assentada na valorização da magia, do encanto, da visão, da aparição, que caracterizam o estilo contemporâneo. Como se falar em subjetividade em um mundo no qual se vê nos meios midíaticos uma incessante apologia à noção de cosmopolitismos e universalismo em um cenário globalizante? Como se configuram as festas urbanas neste contexto? Paradoxalmente, tanto se valorizam as acepções totalizantes na contemporaneidade, quanto se trazem à baila as questões ligadas a valorização da identidade, constantemente explorada pelos interesses mercadológicos no que tange às festas populares.

Partindo das concepções de Deleuze e Guattari (1997a; 1992) opta-se por se falar em multiplicidades e em totalidade segmentária em um mundo complexo, diverso, e em um contexto globalizante, no qual os particularismos locais/regionais são cada vez mais importantes para entendê-lo. O lugar e o mundo se interpenetram. Do ponto de vista da composição estética, em alguns polos festivos juninos nota-se uma sobreposição das verticalidades totalizantes sobre as peculiaridades locais/regionais. Ao fotografar do alto de um helicóptero as festas juninas de Cruz das Almas, de Amargosa, de Jequié e de Senhor do Bomfim, poder-se-á observar as similitudes estético-espaciais que configuram esses eventos. Por outro lado, os organizadores das festas juninas urbanas e os gestores públicos procuram explorar as peculiaridades de cada lugar.

Segundo Jeudy (2005), a estética não é fruto de uma reivindicação social ou cultural, e o reconhecimento de suas manifestações concretas envolve o observador, suas maneiras de ver e interpretar. Em meio a uma configuração físico-estética que se repete no sentido macro e se diferencia nas suas clivagens, é pertinente o questionamento: para que e para quem é feita a ornamentação dos espaços públicos de deflagração do São João espetáculo? A resposta parece óbvia: para os participantes da festa, notadamente para os visitantes. Levanta-se essa questão porque a racionalidade métrica das formas espaciais efêmeras introduzidas nas praças festivas, como o palco móvel, as barracas de toldos, os stands temáticos, são elementos constituintes dos espaços festivos da atualidade, dotados de uma determinada funcionalidade, mas, ao mesmo tempo, são considerados como elementos da composição estética do espaço festivo. Entretanto, muitas pessoas acham que esses elementos são destoantes do ponto de vista da simbologia estética e de uma suposta auraticidade junina que esteve assentada em um ambiente ruralizado, bucólico, com palcos de madeira e barracas de palha, como era o São João urbano de Cachoeira até a década de 1980.

Especificamente em relação à Cachoeira, a natureza destoante das linhas racionais dos toldos e dos camarotes se explicita como contraste dessas formas espaciais efêmeras com o conjunto edificado do entorno, constituído de unidades arquitetônicas seculares, com predomínio do traço barroco.

Essa leitura crítica em relação à inserção de formas efêmeras no São João espetáculo de Cachoeira, que geralmente é destacado por pessoas acima de 40 anos, traz à baila um outro questionamento: não seria o contraste estético, o antagonismo e a dialética visual entre o velho e o novo, o perene e o fugaz, uma das facetas da sociedade considerada pós-moderna por alguns pensadores contemporâneos? As assertivas funcionais badaladas pelos modernistas quanto às acepções complexas e contrastantes dos pós-modernistas – e também de alguns pré-modernistas - aplicadas ao entendimento da configuração estética dos espaços festivos podem se opor, complementar-se, avizinhar-se e, às vezes, sobrepor-se e submeter-se à leitura dos sujeitos sociais no/do espaço.

A inserção dos camarotes e toldos em um recorte paisagístico no qual o patrimônio arquitetônico é relevante e as potencialidades naturais chamam a atenção do observador, não expressaria uma não irregularidade estética intencional e que, por isso, agradaria ao usuário/festeiro? Por que os espaços festivos devem ser regulares esteticamente? Por que não dissonantes? Nem sempre a coerência formal ou a regularidade estética satisfazem o usuário/festeiro do espaço. Por outro lado, por que o desenho estético e a morfologia dos espaços festivos do ciclo junino são repetitivos? Deve-se respeitar a regularidade na composição estética dos espaços festivos como também a introdução de elementos peculiares que mostrem a diversidade. No caso específico de Cruz das Almas, a racionalidade do bairro Lauro Passos e da Praça do Parque Sumaúma, com ruas largas e edificações recentes, parecem que se ajustam à composição estética formal dos toldos e à estrutura metálica envolta de plástico dos camarotes e barracas.

Ao se observar as formas efêmeras no/do espaço festivo, nota-se claramente que essa parafernália é formada por linhas retas que demonstram a racionalidade da morfologia festiva, não só em termos do seu desenho, como também na perspectiva da sua concepção contemporânea. Aliás, a partir da década de 1990, notou-se um incremento considerável da chamada arquitetura de eventos, que envolvem feiras temáticas, exposições e megafestas em arenas privadas ou no espaço público. Segundo Lefebvre (1999), a exposição de objetos nas vitrines mostra como a lógica da mercadoria é acompanhada de uma contemplação passiva, por isso o referido autor chamou de “colonização do espaço urbano” o que se efetua na rua pela imagem, pela publicidade, pelo espetáculo dos objetos.

Qual a relação entre aspectos culturais locais ou regionais e a promoção das festas? O Recôncavo Sul da Bahia já foi conhecido no passado como região fumageira. A intensa produção e beneficiamento do fumo fez surgir expressivas edificações na área urbana de algumas cidades como Cachoeira, Cruz das Almas, Amargosa e Santo Antônio de Jesus: os grandes armazéns. A crise fumageira, notadamente a partir da década de 1980, fechou a grande maioria desses armazéns e estimulou a busca de atividades econômicas alternativas. Por outro lado, os armazéns aos poucos passaram a ser utilizados para outras atividades, caracterizando, assim, um processo de refuncionalização de formas espaciais.

 

Figura 5

Contraste entre os sobrados seculares e os toldos na festa junina de

Cachoeira

Fonte: (CASTRO , 2008)

Em Cruz das Almas, um grande armazém que se transformou em espaço para shows passou a apresentar um nome bem sugestivo:

Armazém do Forró.24 Externamente, a forma espacial desse espaço festivo não apresentou muitas alterações; no entanto, internamente, a estrutura físico-espacial apresentou grandes mudanças, como a demolição de salões onde o fumo era depositado para abertura de uma área livre para dança. Para se chegar até o palco, deslocava-se por uma entrada na qual se notava a preservação de grandes pilastras do antigo armazém. Nas laterais havia desenhos de forrozeiros em uma área mais periferizada da arena festiva e outros desenhos mais próximos ao palco que mostravam danças e estilos mais atuais, intercalados com propagandas de empresas e estabelecimentos comerciais. O arranjo estético desse espaço festivo denunciava a nova dinâmica sociocultural e econômica, uma vez que, como enfatiza Pallamin (2000), diferentemente do passado, quando o estético era visto como veículo, instrumento, embalagem, na atualidade a estetização do cotidiano é tramada em termos econômicos, integrada às estratégias de mercado. Em Cachoeira, partes de alguns antigos armazéns também foram refuncionalizados.

Na praça festiva de Cruz das Almas, uma imponente árvore de Sumaúma destoa no limite do arruamento em uma das extremidades do desenho quadriculado do referido logradouro público. Seguramente, pode-se afirmar que não existe uma tessitura de significados que possam configurar uma relação topofílica entre o lugar festivo e a temática da festa em Cruz das Almas, ou seja, não há um fato, evento ou trama histórica do passado que realimente uma rememoração cultural no presente, como ocorre com o São João da Feira do Porto, de Cachoeira.

Se, por um lado, a sexagenária Sumaúma inspirou a toponímia daquele espaço público, por outro, a inserção, ampliação e espetacularização das festas juninas notabilizaram aquele lugar e o seu topônimo, colaborando para o tombamento da árvore, que desde o final da década de 1980 e início dos anos 1990, além de ser ponto de referência e componente do paisagismo urbano, passou a ser também elemento integrante da composição estética da festa junina concentrada.

Cronologicamente pode-se afirmar que as edificações que compõem o espaço festivo de Cachoeira, Amargosa e Cruz das Almas apresentam temporalidades diferenciadas, correspondendo ao barroco dos séculos XVIII e XIX, modernistas do pós-anos 1950 e neo-modernistas do pós-anos 1980, respectivamente. Nesse quadro edificado, a inserção da arquitetura móvel e da composição estética pode parecer racional, congruente, convergente para o observador ou passante em Cruz das Almas, e destoante, incongruente, paradoxal, para outro passante ou observador em Cachoeira. Destoantes ou sincrônicas, a estética e as formas espaciais efêmeras agradam à grande maioria dos entrevistados que visitam essas cidades, conforme dados obtidos em trabalhos de campo nos anos de 2006 e 2007.

Especificamente em Cachoeira, a peculiaridade local, no passado, era exposta de maneira menos formal. As barracas que compunham o espaço festivo eram de palhas, com bancos de madeiras, e as especificidades da sua ornamentação caberiam ao seu proprietário. Era muito comum, inclusive, as barracas prestarem homenagem a um determinado clube de futebol, destacando especialmente a tradicional rivalidade entre o Bahia e o Vitória, os dois clubes de futebol mais tradicionais do estado. Atualmente, nota-se uma padronização de barracas e o incremento mercadológico explícito através da forte disputa entre grandes cervejarias. Na composição estética, portanto, procura-se variar de temáticas abrangentes da macro-escala, às facetas de manifestações culturais locais/regionais, apresentadas a partir de uma ornamentação fixa ou de estetização cênica.

 

Cidades cenográficas nos polos juninos:

simulacros do urbano como elemento de

rememoração

Com o objetivo de explorar uma eventual peculiaridade estética para o lugar festivo, os gestores públicos de Amargosa e Cruz das Almas inseriram cidades cenográficas no espaço festivo, buscando-se fazer uma ponte com os elementos de passado. Através de elementos cênicos como casinhas, coretos e igrejas, busca-se uma dimensão auriática a partir de um mito fundante da prática cultural, diferenciando, assim, a festa junina urbana de uma determinada localidade de outras festividades de largo da Bahia.

Apesar da inserção de cidades cenográficas no espaço da espetacularização junina de Amargosa e Cruz das Almas ser uma prática recente, no “Arraiá da Capitá”, uma tradicional festa de arena de Salvador, já se utiliza desse artifício estético há alguns anos. A partir de 2005 passou-se a montar uma cidade cenográfica no centro da Praça do Bosque de Amargosa, ponto nodal da festa junina daquela cidade, que combinava as formas espaciais estilizadas de uma cidade do interior, um mini-zoológico com animais da pecuária regional e as unidades produtivas tradicionais, como uma casa de farinha. Evidentemente que a inserção da cidade cenográfica no meio da massa festiva que se forma no amplo espaço aberto não edificado é uma estratégia na qual se mostra, através da composição estética, que as municipalidades valorizam o chamado São João tradicional com suas raízes interioranas, todavia, pela dimensão física do palco principal e pela logística da festa como um todo, depreende-se que a prioridade é a espetacularidade do evento. No ano de 2009, por causa da reforma da Praça do Bosque, a cidade cenográfica de Amargosa foi transferida para uma área nas imediações da praça festiva.

Segundo Baudrillard (1995), na sociedade de consumo o homem destrói a natureza e depois planta algumas árvores no local procurando restituí-la como signo. Essa restituição é material porque plantam-se determinadas espécies de árvores para dar uma sugestão de natureza, e também simbólica, na medida em que a toponímia de algumas localidades é inspirada em elementos da natureza, como a Praça do Bosque (Amargosa) e o Parque Sumaúma (Cruz das Almas). Será que os elementos culturais das festas juninas do passado, seus espaços e contexto, também não foram aniquilados pelo viés espetacularizante, mercadológico e massivo da sociedade de consumo atual, restando apenas os signos cenografizados para apreciação dos festeiros/turistas?

Para análise e entendimento da dinâmica das festas juninas espetacularizadas da atualidade evitam-se acepções molares e generalizantes. Existem sim elementos que ligam as megafestas do presente a aspectos e/ou situações do passado que nem sempre podem ser dimensionados materialmente. O nível de interação entre os foliões juninos e os elementos e manifestações nas cidades cenográficas, que são fotografadas, apreciadas, comparadas, as festas em família e a musicalidade tradicional que ainda são apreciadas mesmo nas grandes festas de rua comprovam que não ocorreu um hiato entre práticas juninas do passado e práticas do presente. Acredita-se mais em uma reinvenção dos sentidos do festejar junino do que em rupturas mais abruptas.

A cidade cenográfica montada no Parque Sumaúma em Cruz das Almas, a partir de 2005, constituiu-se de edificações como uma igreja católica, casinhas entornando a praça e um coreto ao centro que funciona como terceiro palco, onde grupos de forró tradicional se apresentam cantando músicas antigas que marcaram época. A prefeitura local dotou de funcionalidade aquelas formas espaciais com atividades que relembram o passado (venda de artesanatos), entremeadas por uma prática de ponta do presente (lan house). Uma peculiaridade da cidade cenográfica de Cruz das Almas é que a sua principal forma espacial é uma réplica da igreja matriz de Nossa Senhora do Bonsucesso, padroeira daquela cidade, o que demonstra uma preocupação dos organizadores em representar edificações locais importantes na história cultural do lugar.

Já a cidade cenográfica de Amargosa inicialmente foi montada como um cenário aberto no centro da Praça do Bosque e é constituída por casinhas estilizadas, praça, igreja, coreto, réplica da prefeitura local, e uma casa de farinha que durante a festa funciona produzindo beiju – uma iguaria feita com massa de mandioca, muito apreciada na Região Nordeste do Brasil – além de casas de taipa e adobe, plantação de milho, currais com gado bovino, aves e outros animais. Posteriormente a cidade cenográfica passou a ser montada em uma área na borda da Praça do Bosque.

Neste cenário urbano ruralizado, algumas pessoas da comunidade dramatizavam situações cotidianas envolvendo personagens como o padre, as beatas, os soldados de polícia, o dono da mercearia, o coronel, entre outras tramas típicas de uma pequena cidade do interior do Nordeste. Além de entreter o visitante, o teatrinho amador teria o objetivo de evitar uma eventual petrificação museificada que caracterizaria essa modalidade de composição estética. Na festa junina de 2008, apresentaram-se, na cidade cenográfica de Amargosa, grupos de quadrilhas, trios de sanfoneiros, Terno de Reis da terceira idade, grupos de capoeira, samba de roda, mamulengos e outros folguedos locais.

Cria-se, reinventa-se ou retradicionaliza-se práticas nos principais polos festivos do ciclo junino e a composição estética tem um importante papel na projeção imagética dessa relação entre passado e presente. A edificação de cidades cenográficas no centro da praça festiva, como em Amargosa, ou na sua borda, como em Cruz das Almas, é um exemplo material da busca por essa dialogicidade transtemporal. A cidade cenográfica de Cruz das Almas, chamada de Praça do Artesanato, faz uma apologia às edificações significativas locais, com réplicas da igreja matriz e de um coreto tradicional, que é um simulacro de um ainda existente situado na Praça da Matriz e a rememoração de outro que foi demolido. Nesse espaço são vendidos objetos de cerâmica, roupas e adereços para ornamentação. Essa homenagem ao artesanato local pode ser entendida também como uma forma de promover e valorizar essa prática cultural do lugar, que é considerada como uma das mais importantes manifestações culturais do polo turístico Salvador e entorno, especificamente em Cachoeira, segundo o Plano de Desenvolvimento Integrado do Turismo Sustentável da Bahia (PDITS ).

A inserção da réplica da igreja matriz de Cruz das Almas na cidade cenográfica pode ser entendida como uma estratégia de cunho simbólico e estético de promover a turistificação de marcos identitários locais, buscando, assim, fugir da cenarização repetitiva, que produz composições estéticas similares. É importante destacar que, para os visitantes noturnos, o acesso à igreja da padroeira local é inviabilizado no clímax junino, por causa da apoteose pirotécnica dos espadeiros; para essas pessoas resta a contemplação do simulacro do templo religioso.

Os gestores públicos de Amargosa explicitam, tanto nos projetos das suas festas juninas quanto no Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, a opção pela priorização da festa junina tradicional, com a valorização de elementos culturais locais/regionais, inseridos no contexto de grande espetacularização imagética das festividades juninas do espaço público; a cidade cenográfica é parte disso.

As municipalidades adotam estratégias para atrair o maior número possível de turistas de eventos, por isso diversifica-se a matriz programática da festa junina urbana, que, no caso de Amargosa, varia da festa considerada elitizada de Arena – “Forró do Piu Piu” na Fazenda Colibri – passando pela festa em amplos espaços públicos. Nos interstícios desses megaeventos, coexistem algumas festas comunitárias itinerantes, a exemplo do “Arraiá da Rurá”, que é parcialmente itinerante, além de eventos diurnos como as exibições da burrinha de Amargosa, na pracinha da cidade cenográfica, durante o dia.

A cidade cenográfica de Amargosa, portanto, se diferencia daquela montada em Cruz das Almas, tanto no sentido da sua inserção no desenho da festa urbana, quanto na perspectiva da sua caracterização estética e de sua dinâmica cênica. No entanto, as duas apresentam-se como simulacros e espaços de encenação, que são duas características típicas dos lugares turísticos e turistificados da contemporaneidade.

Na cidade cenográfica de Amargosa ocorrem exibições cênicas, como o teatro amador. É a representação substituindo a criação, como pontuou Lefebvre (1991a), produzindo, assim, os espectadores passivos, não só na apreciação da dramaturgia de rua, como também como consumidores de cidades. Na mesma obra citada, Lefebvre destaca que o turismo é um devorador do passado projetado em objetos como obras de arte, além de cidades e estilos de vida. Se a cidade bucólica e ruralizada não existe mais ou está distante dos focos midíaticos, monta-se a cidade cenográfica como um simulacro urbano.

Figura 6

Aspecto da cidade cenográfica de Cruz das Almas

Fonte: (CASTRO , 2008)

A composição estética do espaço festivo e de seu entorno em Amargosa, Cruz das Almas e Cachoeira, a despeito da racionalização padronizante que configura o cosmopolitismo estético, procura expressar traços da ruralidade brasileira, a partir tanto da perspectiva material, através da edificação de cidades cenográficas, quanto imaterial, com as músicas juninas e as exibições de folguedos populares, que fazem apologia à vida no campo, como a burrinha de Amargosa. Segundo Amaral (1998), enquanto a festa do peão de boiadeiro investe na construção de uma identidade associada aos caubóis americanos, a festa de São João, no Nordeste, investe na versão mais brasileira dessa identidade rural, relacionada ao caipira, ou seja, as festas de São João, mesmo em meio à espetacularidade urbana atual, expressam especificidades culturais do povo brasileiro.

As molduras cenográficas inseridas em alguns polos juninos representam e estimulam o consumo visual dessas cidades no seu apogeu turístico. O conjunto de edificações cenográficas da Vila Amargosa, na cidade de mesmo nome, e a Praça do Artesanato, de Cruz das Almas, se constituem em simulacros de nucleação urbana, mas não no sentido apontado por Jean Baudrillard (1996; 1995), de substituição do real e sim na perspectiva apontada por Subirats (1989), que destaca que a palavra simulacro está relacionada etimologicamente a imagem, representação, imitação e cópia da realidade.

Apesar da cidade cenográfica chamada de Vila Amargosa fazer uma inferência topofílica, não se trata de um simulacro em pequena escala da cidade de mesmo nome. Quanto ao papel de destaque para a questão cultural no arranjo estético de Amargosa e Cruz das Almas, trata-se da valorização das várias facetas da cultura nordestina no sentido macro-regional (Nordeste), regional (Recôncavo) e sub-regional (Vale do Jequiriçá), assentada em uma política cultural dos governos do Partido dos Trabalhadores. Esse tipo de política procura valorizar e proporcionar maior visibilidade a folguedos locais, como a burrinha de Amargosa e o samba de enxada, o artesanato e algumas festas juninas comunitárias em comunidades rurais da zona rural de Cruz das Almas. É importante destacar que as festas juninas concentradas de Cachoeira valorizam a diversidade cultural desde as suas primeiras edições no início da década de 1970.

 

Dinâmica territorial das espadas no espaço

urbano de Cruz das Almas

Apesar de ser uma manifestação lúdica polêmica e de dividir opiniões em Cruz das Almas, a Guerra de Espadas foi utilizada em gestões anteriores como um ícone cultural da cidade e continua tendo um papel de destaque como imagem/marca que traz a reboque do seu poder de difusão na grande mídia as menções à cidade de origem. Inicialmente a espada era queimada na zona rural, amarrada a um ponto fixo, geralmente uma árvore, e estourava ao término da queima da pólvora. Ao longo do século XX, as brincadeiras com as espadas do entorno residencial foram aos poucos se transformando em pequenas batalhas lúdicas entre amigos e familiares no espaço público das ruas.

Com o passar do tempo, aumentou-se a extensão, o diâmetro e o poder de fogo desse artefato. Eventualmente, a queima das espadas poderia significar também uma homenagem aos amigos ou mesmo um ato simbólico. Muitos espadeiros, no entanto, passaram a demarcar os seus territórios no espaço extra domiciliar, deslocando-se para um determinado ponto –casa de familiares, amigos ou no sentido da praça principal – ou às vezes, de forma errante.

As batalhas no passado eram mais espontâneas porque não havia demarcação específica de áreas proibidas para queimar espadas, como ocorre atualmente, quando se nota claramente o aumento do poder de fogo desses artefatos. No entanto, mesmo no passado existiam rivalidades, disputas territoriais e ação ofensiva, buscando ampliar ou preservar o território de um determinado grupo, que geralmente era demarcado simbolicamente no entorno da fogueira.

Historicamente os gestores públicos de Cruz das Almas evitaram um confronto com os espadeiros, o que criaria uma atmosfera conflitiva e, consequentemente, um desconforto junto à população por causa da importância dessa prática lúdica como um ícone cultural que notabilizava a cidade, por isso muitos policiais faziam vistas grossas às espadas. Entretanto, na década de 1960, um juiz de Direito proibiu a queima de espadas, mandando inclusive encarcerar aqueles espadeiros mais exaltados que insistiam em descumprir as normas estabelecidas.

Continuar: parte 4 de 4