Da casa à praça pública: a espetacularização das festas juninas

Janio Roque Barros de Castro · Capítulo 6 de 9 · parte 4/4

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Da casa à praça pública: a espetacularização das festas juninas

Dinâmica e especificidades culturais das festas juninas espetacularizadas em espaço público

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Para garantir o cumprimento da proibição da guerra de espadas, solicitaram-se reforços do batalhão da polícia militar de Feira de Santana, segundo o professor e militar aposentado Antônio Batista, devido à dimensão conflitiva que se desenhava durante as festas do ciclo junino. A proibição, na verdade, foi encarada por alguns espadeiros como um convite à transgressão e fez que com que a Guerra de Espadas se constituísse em um desafio à ordem jurídica instituída. Paradoxalmente, a proibição momentânea da Guerra de Espadas estimulou essa prática entre os jovens de Cruz das Almas e de alguns municípios circunvizinhos, que se seduziram pelo caráter transgressivo em contexto sociopolítico castrador e persecutório da ditadura militar em âmbito nacional. Posteriormente, as batalhas pirotécnicas de espadas foram liberadas.

As espadas atuais são maiores, mais rápidas e potentes que aquelas de décadas passadas. Entretanto, muitos espadeiros ainda não estão satisfeitos com o poder de fogo desse artifício pirotécnico e potencializam a sua força substituindo o bambu por tubos de PVC e colocando pedaços de ferro junto com a pólvora, transgredindo, assim, as normas elaboradas a partir de reuniões feitas entre representantes dos espadeiros e segmentos representativos dos poderes públicos da esfera municipal. Normatizar as dimensões das espadas não é tarefa laboriosa, mas disciplinar espacialmente o seu uso e fiscalizar as micro-batalhas é uma tarefa muito complexa, inexequível para o poder público municipal.

Um outro problema também está relacionado à origem e à qualidade do material utilizado para fazer as espadas, bem como nos equipamentos de segurança, que devem ser utilizados nas batalhas e que, na maioria das vezes, acabam sendo negligenciados. Para alguns espadeiros, a Guerra de Espadas precisa retomar a disputa pelo protagonismo estético das festas juninas, ou seja, as pessoas queimavam espadas para apreciar a sua ginga errante, a sua beleza, a sua sonoridade explosiva. As pessoas que faziam o São João de casa, após degustarem pratos e bebidas típicas, convidavam os donos da casa e demais visitantes para apreciarem a beleza das espadas e a ginga dos espadeiros em meio às micro-batalhas esporádicas. Infelizmente, algumas pessoas utilizam a espada como uma arma para provocar ou mesmo para se vingar de um eventual desafeto.

Como foi mencionado, pode-se afirmar que a queima de espadas em Cruz das Almas era uma prática difusa, predominantemente circunscrita ao entorno residencial e à ambiência familiar até meados dos anos 1950. Progressivamente o fabrico das espadas caseiras foi se tornando uma prática banal e, ao mesmo tempo, o espaço de deslocamento desse artefato aumentou, juntamente com sua potência, o que evidentemente colaborou para que se atingissem casas adjacentes e ruas próximas, estimulando, assim, o revide por parte de algumas pessoas que também fabricavam espadas.

A partir da segunda metade do século XX, a prática atomizada da queima de espadas desloca-se para a praça principal de Cruz das Almas, apresentando um considerável crescimento no número de adeptos, passando a se configurar como um grande evento deflagrado no espaço público, chamado de Guerra de Espadas. No contexto da divisão espacial do trabalho no universo dos espadeiros, pode-se afirmar que a casa e seu entorno tiveram sua função redimensionada: de local de deflagração da queima de espadas para lugar do fabrico da munição de batalha. A praça, que era lugar de passagem, passou a significar para o espadeiro, território apoteótico do espetáculo das espadas, no auge do ciclo junino. O aumento da bitola desses artefatos, no entanto, contribuiu para o abandono das imediações próximas à casa (terreiro, quintal, varanda...), que, aos poucos, foi perdendo status de espaço de deflagração pirotécnica, uma vez que a potência dessa modalidade de fogos de artifício contribuía para que facilmente as espadas pudessem adentrar as unidades residenciais, causando prejuízos.

Dessa forma, entende-se que o aumento do poder de fogo e de deslocamento das espadas, associado à “descoberta” das ruas e da praça principal da cidade como espaços públicos do lazer e da transgressão momentânea, contribuíram efetivamente para a desterritorialização da Guerra de Espadas dos múltiplos espaços do entorno residencial para o espaço público aberto da Praça Senador Temístocles Passos (praça principal). A apropriação da praça pelos espadeiros pode ser considerada como um processo de reterritorialização, determinado por outro processo de desterritorialização atomizada de uma prática lúdico-cultural que foi reinventada a partir de dois processos espaciais: a concentração e a ampliação territorial.

A problemática envolvendo a fiscalização da produção artesanal das espadas gera muitas polêmicas em Cruz das Almas. Como racionalizar normativamente o fabrico de uma modalidade de artefato pirotécnico que pode ocorrer em qualquer uma das várias unidades residenciais rurais e urbanas do município? Alguns pesquisadores do fabrico das espadas argúem que os governantes deveriam racionalizar compulsoriamente o tamanho das espadas, proibindo, inclusive, o espontaneísmo do uso indiscriminado do pedaço de bambu de qualquer tamanho, mas, a padronização das dimensões físicas da espada não impediria os excessos na composição do artefato, por isso algumas pessoas propõem inclusive algo mais polêmico: a fabricação das espadas seria de responsabilidade de empresas, sob a fiscalização do Ministério do Exército, sendo distribuídas posteriormente pelas municipalidades em Cruz das Almas e Senhor do Bomfim, outra cidade na qual existe essa tradição pirotécnica. Percebe-se, portanto, que, além desses questionamentos relacionados à logística da fiscalização da produção de espadas, existem outros complexos atinentes à natureza das batalhas.

As proposições para racionalização institucional da Guerra de Espadas no espaço intraurbano de Cruz das Almas, elencadas anteriormente, dificilmente lograrão êxito, porque a prática de se reunirem os grupos para irem às matas ou bambuzais da zona rural ou imediações periurbanas para extração do bambu, assim como as atividades subsequentes como o transporte, o fracionamento do bambu, a composição das espadas e, por fim, os testes desses artefatos, são fases importantes na prática pirotécnica e festiva, por isso é muito comum os espadeiros participarem dessas atividades, que são trabalhosas, cantando, brincando, divertindo-se, ou seja, as etapas descritas anteriormente podem ser tipificadas como modalidades de sociabilidades do lazer festivo, que transitam pelos espaços rurais, periurbanos e urbanos. Os espadeiros começam a construir a sociabilidade do lazer festivo no mês de abril, quando os grupos de amigos se deslocavam para a mata para procurar o bambu, que é a matéria-prima principal.

Um segundo momento dessa sociabilidade é o fabrico do artefato. O teste das espadas é uma terceira etapa, enquanto que a guerra de espadas aberta em espaço público é o clímax desta sociabilidade de grupos, que podem ser abertos, semiabertos ou fechados, independentemente dos estratos sociais dos sujeitos. Nos grupos abertos, permitem-se livremente adesões momentâneas. Nos semiabertos, permite-se a adesão de pessoas conhecidas e que integram outros grupos. Já aqueles fechados restringem a participação de outras pessoas, não com uma barreira física, mas com um relativo distanciamento afetivo, ou seja, erguem-se fronteiras simbólicas.

Sobretudo a partir dos anos 1990, as gestões municipais de Cruz das Almas têm procurado normatizar não apenas a fabricação e a comercialização de espadas, como também de outros tipos de fogos no município. Existem normas federais que proíbem a instalação de barracas de fogos próximas a postos de gasolina e no mínimo a 50 metros uma da outra. Em Cruz das Almas, o comércio informal e sazonal desses produtos ocorre na entrada da cidade, afastado das áreas de maior densidade habitacional. Apesar dos vários casos de desobediência a essas normas, geralmente essas medidas são parcialmente cumpridas. Entretanto, como normatizar o uso do espaço público urbano no clímax da pirotecnia explosiva das espadas? O que adianta proibir a queima de espadas no Parque Sumaúma, onde acontece a festa-espetáculo reunindo milhares de pessoas, se no entorno e em acessos secundários as batalhas inibem a circularidade de pessoas? Como ampliar essa zona neutra pactuada com os espadeiros há duas décadas sem gerar uma eventual tensão territorial? Como conduzir uma discussão que aponte para um rearranjo territorial da Guerra de Espadas em caso de uma eventual mudança de local das festas? São questões atinentes à inserção de duas modalidades distintas do entretenimento festivo do ciclo junino, que deverão ser analisadas, discutidas em uma dimensão dialógica e horizontal, contemplando os vários segmentos envolvidos.

Em 2005, através do decreto municipal nº 267/05, os gestores locais procuraram complementar as normatizações atinentes à inserção das batalhas de espadas no espaço urbano dos anos 1990, regulamentando as dimensões das espadas, cujo tamanho deverá ter um diâmetro de 55 mm para os artefatos com um mínimo de 25 centímetros, e de 55 a 65 mm para aqueles com um mínimo de 30 centímetros de extensão. A relação entre o comprimento da espada, o seu diâmetro e o furo propulsor da mobilidade pirotécnica está diretamente associada ao seu poder de fogo, ao potencial de circularidade e a um eventual caráter explosivo desse artefato. A gestão pública municipal busca formas de controlar a pirotecnia urbana das espadas, para que essa prática não produza enclaves territoriais cíclicos na área urbana no clímax junino, o que poderia prejudicar a circularidade dos turistas de eventos e dos moradores.

É importante ressaltar que desde os anos 1960 os poderes públicos constituídos de Cruz das Almas vêm tentando disciplinar as guerras de espadas na área urbana, com atos de prefeitos, debates, determinações judiciais, entre outras medidas. As regulamentações dos anos 1980 e 1990 e normatizações mais recentes podem ser consideradas como desdobramentos de velhas discussões contextualizadas na atualidade frente às especificidades do presente.

A normatização, padronização e terceirização do fabrico das espadas seriam uma tentativa de estriamento de uma prática cultural historicamente relacionada ao espaço liso da perspectiva analítica de Deleuze e Guattari (1997a)? A resposta a esse questionamento não poderá ser afirmativa, abrupta, na medida em que no passado existia um manual do espadeiro que orientava de forma didática a fabricação caseira das espadas e que era cumprido pela maioria dos fabricantes, geralmente eram os tradicionais fogueteiros locais. Tratava-se, portanto, de uma atividade racionalizada externamente, ou seja, através de um centro regulador, estriador.

Atualmente, pode-se afirmar que o desregramento no fabrico desses artefatos, assim como as batalhas, que se ampliaram para além do entorno familiar, espraiando-se no espaço público e apresentando uma dinâmica mais transgressora, o que obrigou as autoridades municipais a demarcar áreas para a deflagração. Muitos espadeiros encaram a prática da queima de espadas como um desafio e uma guerra envolta em uma atmosfera de entretenimento. O espontaneísmo das batalhas, apreciado e observado no passado, caracterizaria o espaço liso trabalhado por Deleuze e Guattari e natureza lúdica preconizada por Henri Lefebvre (1991b), enquanto que as tentativas de racionalização espaço-temporal do presente se configurariam como espaço estriado?

Primeiramente, é importante enfatizar que muitas pessoas que queimavam espadas em Cruz das Almas, nas décadas de 1950 e 1960, também seguiam regras de ordem familiar, ou até mesmo um código de conduta oculto, portanto não se pode considerar de forma tão contundente que a Guerra de Espadas do passado era uma prática totalmente relacionada ao espaço liso, enquanto que essa prática hoje estaria relacionada ao espaço estriado, até mesmo porque Deleuze e Guattari (1997a) destacam que essas duas acepções conceituais são intercambiáveis e se interpenetram dialeticamente; o liso pode ser estriado assim como o estriado pode ser liso. Os momentos de transgressão nas guerras de espadas da atualidade é um importante indicativo de que, apesar dos esforços das autoridades, essa prática se configura como um breve exercício de desconstrução da ordem instituída. Dessa forma, pode-se afirmar que as Guerras de Espadas são eventos culturais ligados predominantemente ao espaço liso, que foi progressivamente estriado, inicialmente pelos próprios espadeiros ao optarem pela centralidade, pontualização e concentração em um espaço específico (praça), e, posteriormente, pelas municipalidades, ao determinarem áreas específicas para a sua deflagração.

A pirotecnia das espadas em Cruz das Almas além de ser uma prática lúdica e cultural, é uma atividade econômica que gera polêmicas e conflitos de ordem social e política. Essa prática está arraigada no imaginário coletivo do morador da cidade, que não se mostra indiferente quando nas rodas de conversa essa temática é abordada: ou se é radicalmente contra ou se posiciona como um fiel defensor. Ficam em cima do muro, em uma posição intermediária, alguns políticos locais que temem desagradar uma massa que gostaria de ver o fim das batalhas ou mesmo aqueles que fabricam e queimam as espadas.

A diversão pirotécnica tanto pode proporcionar votos como pode tirá-los, por isso alguns políticos evitam radicalizar a discussão. A questão era tão polêmica nas décadas de 1960 e 1970 que se dizia que o juiz estava contra as espadas, mas o prefeito estava a favor; essa situação gerava outra discussão entre os moradores: quem efetivamente “manda na cidade?”. A Câmara Municipal, que também evitava entrar na polêmica, abrigava de vereadores espadeiros até parlamentares radicalmente contra as espadas, no entanto, todos concordavam em um ponto: espadas tanto podiam ser cabos eleitorais quanto algozes de políticos afoitos. Portanto, deveriam ser tratadas com cuidado. Se do ponto de vista institucional a relação entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário em Cruz das Almas era relativamente harmônica, na dimensão popular ocorriam embates verbais entre pessoas contrárias e a favor da Guerra de Espadas.

Nesse quadro peculiar, no qual as dimensões culturais e político partidária se entrelaçam, surgem histórias, mitos e verdades envolvendo as batalhas de espadas.

 

Dimensões físicas do território dos espadeiros

O principal espaço da pirotecnia festiva das espadas em Cruz das Almas é a Praça Senador Temístocles Passos, que é um espaço amplo, compartimentado em três blocos, no qual desembocam várias artérias intraurbanas e que exerce um papel de centralidade devido à diversidade de serviços ligados a atividades econômicas e buro cráticas. Inegavelmente o seu papel de espaço de fluxos multidirecionais e a sua funcionalidade pragmática na cotidianidade urbana diurna, fazem com que a Guerra de Espadas na praça principal se configure como uma prática lúdica de natureza transgressiva para muitos espadeiros. A transposição funcional de caráter sazonal da praça, de espaço de ações e práticas cotidianas a espaço festivo e pirotécnico, colaborou para a territorialização daquele espaço público pelos espadeiros.

Estão situados na praça principal a Igreja Matriz, a Prefeitura Municipal, bancos e uma importante loja de departamentos, entre outros estabelecimentos. Entre os bustos tombados na área urbana, dois estão situados nas praças festivas: o do ex-prefeito Lauro Passos, no bairro de mesmo nome, na entrada da Praça do Parque Sumaúma, e do primeiro prefeito da cidade, o Cônego Antônio Oliveira França, este último na praça principal, próximo à Igreja Matriz, que também é considerada como patrimônio material municipal, no centro nervoso da apoteose pirotécnica das espadas. Tanto os bustos como a edificação religiosa citada são marcados anualmente pelos rabiscos das espadas.

No passado, sob o ponto de vista da sua apropriação lúdica, a Praça Senador Temístocles Passos apresentava uma dinâmica de territorialização múltipla, tanto do ponto de vista da modalidade de uso do espaço público, como da espacialidade, temporalidade, tipologia e dinâmica dessa territorialização. Anualmente a praça era território da multiplicidade de manifestações culturais, que se avizinhavam, complementavam-se, mas, ao mesmo tempo, disputavam a atenção do público nos tradicionais carnavais. Com a chegada do trio elétrico em meados dos anos 1960, acirram-se as disputas entre blocos carnavalescos. Esses eventos culturais deixaram de existir e apenas a guerra de espadas persiste.

Sobre a normatização do fabrico das espadas, os espadeiros argúem que não é o tamanho do artefato que vai determinar o seu poder de fogo, e sim a sua composição química, a qualidade do material e também a forma e o local onde são arremessadas. A partir de abril de 1994, a prefeitura municipal tornou obrigatório o cadastramento dos espadeiros e procurou racionalizar as áreas de deflagração das batalhas pirotécnicas, através do decreto 098/94, que determinou também que as espadas só poderão ser testadas a partir das 19 horas no período pré-junino e, a partir de 1º de junho, em locais autorizados e amarradas a uma base fixa. Segundo esse decreto, no dia 23 de junho a praça principal da cidade só poderia ser liberada para os espadeiros entre às 14 e às 18 horas. Tratava-se de uma medida que visava a preservar a circularidade de consumidores pelos estabelecimentos de comércio formal e informal, em um período no qual milhares de pessoas se deslocam para Cruz das Almas. É importante destacar que no entorno da praça estão situados importantes estabelecimentos comerciais locais, como lojas de departamentos, de tecidos, de material de construção, de utensílios domésticos e algumas agências bancárias; a feira livre também funciona em um largo contíguo à referida praça, onde desembocam duas artérias viárias paralelas ao mercado municipal, onde aos sábados se instala um dos mais importantes mercados periódicos do segmento informal do Recôncavo Sul da Bahia, que é consideravelmente ampliado durante o ciclo junino.

A tentativa de normatização do espaço público para o uso por parte dos espadeiros, que mantêm viva uma tradição centenária, às vezes acaba sendo um convite à transgressão. Durante o ciclo junino, as edificações residenciais ou de serviços situadas nos pontos de batalhas de espadas se transformam em fortificações entornadas com tábuas e telas de metal. Se ao longo do tempo o surgimento de edificações jurídico-burocráticas, como o fórum, de serviços básicos de saúde, como hospitais, e de prestação de serviços básicos, como postos de gasolina, estriaram o espaço de forma a limitar o raio de ação dos espadeiros, que passaram a ser demarcados por agentes externos, na atualidade as micro-intervenções de caráter estético e paisagístico inegavelmente devem levar em conta o poder de fogo e de deslocamento das espadas. As batalhas com esses artefatos pirotécnicos determinam as ações da gestão pública, a ponto da escolha de determinadas luminárias, de artefatos de ornamentação, objetos artísticos e de outros elementos da composição estética de alguns espaços públicos serem adaptados/ajustados à guerra de fogo dos espadeiros.

A Praça Senador Temístocles Passos, apesar de muito grande, apresenta um desenho retangular e próximo a uma de suas extremidades situa-se a igreja católica de Nossa Senhora do Bonsucesso, padroeira da cidade. No entanto, ao longo deste amplo espaço público não existem monumentos ou estátuas expressivos, nem em local de destaque, à exceção do busto de um ex-intendente local, para que não sejam alvejados pelo poder de fogo das espadas. Trata-se de uma praça ampla, arborizada. A prefeitura deveria indenizar as pessoas que tiveram prejuízos patrimoniais com a Guerra de Espadas? Não. Primeiramente porque a cidade não teria condições de custear gastos dessa natureza. Em segundo lugar, o mapeamento, intensidade e veracidade desses prejuízos seriam de difícil aferição.

Um dos fatores que ajudam a explicar a concentração de espadeiros na zona urbana é a pavimentação asfáltica ou o calçamento rochoso das vias (paralelepípedos), que permitem um melhor desempenho das espadas. Porém, mais importante do que o componente físico dos arruamentos da cidade é o fascínio e o simbolismo cultural e estético do espaço urbano, que provisoriamente se transforma em macroarena “desregrada” e ao mesmo tempo normatizada. Os riscos pretos das espadas nas casas, muros e demais edificações significam, para o espadeiro, o bom desempenho de seu produto. Diferentemente dos rabiscos dos grafiteiros urbanos, que apesar da espontaneidade irreverente esboçam intencionalidade no traço, os riscos das espadas são eminentemente errantes, tanto do ponto de vista das formas, quanto do quadro/moldura utilizada para impressão.

A Guerra de Espadas de Cruz das Almas atrai pessoas de outros municípios. Nas últimas décadas notou-se um relativo adensamento provocado pelos espadeiros locais e de cidades circunvizinhas, como Governador Mangabeira, Muritiba e Sapeaçu, que optam pelo espaço público aberto, apoteótico. Inegavelmente, as “rainhas loucas” da festa, expressão utilizada no documentário da TV Educativa da Bahia, estão ficando mais violentas. Esta situação tem colaborado para que alguns espadeiros retomem uma prática do passado e voltem a queimar espadas novamente nas proximidades das suas casas com familiares ou em grupos de amigos na frente das suas residências.

Os grupos de espadeiros se mesclam em momentos como o ato de acender as espadas ou mesmo na solidariedade a alguns feridos. No dia 23 de junho, a partir das 16 horas, começam a chegar espadeiros de outras cidades, que, juntamente com aqueles de Cruz das Almas, que são maioria, e turistas de cidades como Salvador e Feira de Santana, iniciam a Guerra.

Alguns espadeiros até lembram os proprietários de unidades comerciais da praça que a batalha está prestes a começar e por isso devem se apressar e fechar os seus estabelecimentos. Para muitos comerciantes e transeuntes a presença dos grupos de pessoas trajadas para a batalha já é o suficiente para que ocorra uma dispersão e casas e lojas do entorno fechem suas portas. A partir das 17 horas já se observa um maior número de pessoas vestidas com camisas de manga longa, calças jeans, meias, sapatos ou botinas, luvas e uma espécie de capanga na qual transportam as espadas. Não só a praça se transforma em palco de guerra, envolta em uma atmosfera de ludicidade, como também o corpo do espadeiro estilizado para a batalha pode ser considerado – uma máquina de guerra – no sentido do desregramento e da ousadia. Ao colocar a roupa para participar da batalha, cabe ao espadeiro defender seu corpo e seu território.

Os espadeiros ainda queimam espadas nas ruas, nas frentes das casas e na zona rural de Cruz das Almas, porém a área core da batalha é a praça principal. Apesar de ser um espaço apoteótico das espadas, a praça, nos últimos anos, vem passando por um processo de saturação que tem estimulado uma relativa desconcentração da Guerra de Espadas. Esse rearranjo espacial na pirotecnia lúdica é determinado tanto pelo aspecto quantitativo – excesso de espadeiros concentrados em um mesmo lugar – quanto qualitativo: os espadeiros ou grupos mais experientes exercem uma hegemonia territorial não por imposição, mas através da técnica, do manuseio das espadas e do tempo de apropriação da praça.

Ao observar a Guerra de Espadas na praça, podem-se notar nucleações grupais determinadas por laços de afetividade, parentesco, vizinhança ou convivialidade na rotina de trabalho. A distância física não se constitui em empecilho para organização dos grupos, porque além dos sites de relacionamentos pela internet existem grupos on-line para combinar os encontros na pirotecnia festiva, configurando, assim, um “território virtual”, que pode significar um continuum comunicativo no longo interregno entre um ciclo junino e outro. Existe um link na página oficial do São João de Cruz das Almas, através do qual ocorre um excelente debate entre espadeiros e pessoas que são contra ou a favor da Guerra de Espadas, como moradores e visitantes. Os espadeiros recriaram os seus territórios fazendo uso dos meios eletrônicos e muitos que residem em municípios próximos a Cruz das Almas reduziram a importância simbólica de seus espaços de experienciação imediata e de fixidez, ao tempo em que procuraram demarcar o seu território com seus grupos na área urbana – território material – e expandi-lo na dimensão imaterial – território virtual. Através de e-mails, Orkut, MSN e facebook comunicam-se, articulam-se, marcam encontros, debatem, inclusive com pessoas do exterior.

Nos anos de 2005 e 2006, a praça principal de Cruz das Almas passou por uma pequena reforma. A inserção de componentes materiais ou estéticos ao longo de um dos calçadões que bordejam aquele logradouro público foi feita levando-se em consideração a prática lúdica das batalhas de espadas. No ano de 2011 a praça passou por uma reforma mais ampla; trocaram-se assentos, pisos e inseriu-se um chafariz no centro. Como acontecerão as guerras de espadas no referido logradouro público a partir do ano de 2012? Deve-se buscar uma solução racional e equilibrada na qual se preserve tanto a tradição cultural local quanto a integridade física, estética e funcional do espaço público de maior circularidade e visibilidade do espaço urbano de Cruz das Almas.

Na dimensão do espaço privado, nota-se que as pessoas não colocam como uma de suas prioridades a pintura anual da fachada das casas, como é muito comum em cidades do interior do Nordeste brasileiro, sobretudo na época do São João e do Natal, ou seja, a prática cultural das batalhas de espadas influenciam de forma direta na composição estética das residências e do espaço público, notadamente nas áreas centrais da pirotecnia festiva.

A localização da festa junina espetacularizada em uma praça periferizada em relação ao desenho urbano e a inserção das principais batalhas de espadas na praça mais importante da cidade, indicam uma hierarquia na forma de uso e apropriação do espaço público em Cruz das Almas para a prática festiva junina, que expressa a importância dessa pirotecnia lúdica para a cidade em tela. Todavia, por mais paradoxal que possa parecer, existem algumas pessoas em Cruz das Almas que defendem a retirada compulsória da Guerra de Espadas da Praça Senador Temístocles Passos e a promoção da festa junina espetacularizada nesse referido logradouro público, o que provocaria um conflito territorial sem precedentes com os espadeiros. Uma eventual transferência do local da festa do Parque Sumaúma para praça a principal descaracterizaria a apoteose pirotécnica das espadas que notabiliza Cruz das Almas em um contexto atual no qual as peculiaridades culturais são extremamente relevantes para a construção de uma imagem-síntese da cidade, tão perseguida pelas municipalidades. Já um deslocamento da Guerra de Espadas da praça principal para uma área periferizada poderia significar a construção simbólica de

um “espadódromo”. 25

Nem as proposições atinentes a uma possível transferência da festa concentrada para a praça principal, nem a edificação de um “espadódromo” tendem a se concretizar, por causa das querelas de ordem política e cultural que envolve essas questões. Além disso, deve-se considerar que com o crescimento urbano da cidade e sua consolidação como centro sub-regional e acadêmico, ocorreu um processo de valorização do solo urbano e periurbano, que não inviabiliza, mas dificulta a possibilidade de macrointervenções para construções de obras expressivas, como um espaço festivo fechado ou um “espadódromo”, como será analisado posteriormente.

 

A guerra de espadas e a mobilidade festiva no

período junino

A tradicional Guerra de Espadas inviabilizaria o São João itinerante na área urbana de Cruz das Almas? Nos últimos anos, a prefeitura local tem procurado “disciplinar” as batalhas de espadas no espaço público da cidade, buscando não apenas a demarcação descontínua de áreas proibitivas, como também se busca inserir no desenho urbano, zonas livres para a prática do tradicional São João de casa em casa, que estaria sendo progressivamente comprometido com a proliferação difusa das batalhas. Essa postura dos gestores públicos significa o reconhecimento de que as batalhas de espadas criam “territórios de confinamento” na cidade? A tentativa de normatização dessa prática pirotécnica expressa um controle externo de uma manifestação cultural tradicional?

É importante lembrar que a Guerra de Espadas divide opiniões. Algumas pessoas são contra porque a consideram uma prática violenta que desestimula o turismo e o simples ato de flanar pelas ruas da cidade, ou seja, os visitantes não saem para conhecer a cidade temendo serem alvejados pelas espadas. Para muitas pessoas, esses artefatos pirotécnicos se constituem em um gargalo turístico, uma vez que aprisionam as pessoas em determinados locais da área urbana, obrigando os foliões juninos a se alternarem entre o local de hospedagem (casa, pousada, hotel...) e a Praça do parque Sumaúma, onde está armado o palco da festa espetacularizada. De certa forma, o temor às espadas contribui para formação de enclaves territoriais, uma vez que muitos visitantes circulam pouco pela cidade, circunscrevendo seu itinerário repetitivo.

Para muitos foliões juninos que se deslocam para Cruz das Almas, os espadeiros não só consolidaram territorialmente uma porção da cidade (praça principal), como ampliaram territorialmente sua área de atuação, quando lançam espadas acesas em áreas proibidas e impõem territórios compulsórios. As limitações de uso do espaço público de Cruz das Almas para o flanar lúdico-festivo no auge do ciclo junino existem há décadas, como comprovam os trechos do livro de crônicas e memórias de infância de Renato Passos Pinto Filho (1984, p. 111):

Não é somente no carnaval que o povo daqui coloca as

cadeiras do lado de fora, no passeio, para conversar e olhar o

movimento da praça ou de suas ruas; é quase todo o dia,

principalmente pela tardinha e todos os dias de festa, menos as

festas de São João e São Pedro, por causa das “espadas”. Nos

domingos e feriados eu acho uma coisa bonita à frente das

casas cheias de cadeiras no passeio com gente alegre e

simpática sentada esperando parentes e amigos para

conversar; e nas noites de luar; a praça toda parece que está

em festa porque todo mundo sai pra rua; é bonito demais o luar

daqui; ninguém resiste nem pode ficar dentro de casa... parece

que tudo fica coberto de prata. (Destaque com aspas do próprio

autor).

[...] Você também agora já sabe todas as novidades de não se

esquecer, de quem tem a oportunidade amanhecer e

entardecer num domingo e de muito sol nesta terra; mas nada

lhe falei do São João; é um frio danado e a chuvinha fina não

pára um minuto; os adultos prendem um pouco a gente por

causa das espadas malucas que soltam, fazendo guerra; na

praça é uma confusão enorme, e as frentes das casas ficam

riscadas de preto pelas rabeadas das espadas. Em algumas

casas seus donos chegam a forrar a frente com tábuas de

madeira durante as festas de São João e São Pedro. (PINTO

FILHO, 1984, p. 173)

No passado, a Guerra de Espadas no espaço urbano de Cruz das Almas tinha um efeito repulsivo para os não adeptos dessa prática, fazendo com que algumas pessoas se fechassem em casa ou se deslocassem para a zona rural ou para aquelas áreas mais distantes da cidade. A partir do final da década de 1980, inseriu-se um ponto fixo na cidade com forte chamariz imagético, midiático e espetacular: a festa concentrada no Parque Sumaúma. É importante destacar, para aqueles que temem o poder de fogo das espadas, que a guerra é deflagrada de forma concentrada e, ao mesmo tempo, dispersa, na área urbana, criando “territórios de confinamento” que podem se configurar em três dimensões espaciais:

a) Território aberto (Praça do Parque Sumaúma);

b) Território semiaberto em escala reduzida (casa alugadas,

unidades residenciais);

c) Território fechado sem linhas de conectividade com as

práticas festivas juninas da área urbana (pessoas que não

participam das festividades do ciclo junino, como alguns

evangélicos, e que se fecham em casa ou em templos

religiosos).

Tanto a casa quanto a Praça do Parque Sumaúma podem ser considerados “territórios de confinamento” para aquelas pessoas que temem as espadas. A praça festiva pública pode apresentar faixas de ampliação em direção à praça principal, onde acontece a apoteose pirotécnica, o que poderia gerar interfaces conflitivas em relação ao território dos espadeiros, mas, respeita-se o pacto de coexistência territorial entre as diferentes modalidades de entretenimento junino, à exceção de alguns incidentes isolados. Ao avistar um grupo de espadeiros identificados pela forma típica de se vestir (assemelhando-se a um soldado ou guerreiro em combate) muitas pessoas fecham as portas, criando um hiato entre a casa e a pirotecnia de rua. Por outro lado, muitos apreciadores dessa prática sentem-se honrados com a visita dos espadeiros itinerantes e oferecem comidas e bebidas típicas, que posteriormente são agradecidas com a queima de espadas em frente à residência, em homenagem ao dono ou à dona da casa.

Dessa forma, pode-se afirmar que a peculiaridade cultural do São João de Cruz das Almas, as batalhas de espadas, produziu ou reinventou a tradicional prática das festas juninas de casa em casa e, ao mesmo tempo, limitaram a mobilidade lúdica no espaço urbano da cidade em determinados horários, redimensionando temporal e espacialmente a prática do São João itinerante inter-residencial.

A Guerra de Espadas poderia coexistir com outras modalidades festivas juninas difusas na área urbana de Cruz das Almas ou para existência dessa prática é imprescindível uma segmentarização e uma compartimentação espacial como ocorre na atualidade? Em algumas edições das festas juninas, os horários correspondentes à apoteose pirotécnica propositadamente sincronizavam temporalmente com as performances dos artistas ou grupos de projeção nacional. Buscava-se com essa estratégia cooptar importantes quadros da Guerra de Espadas, visando não suprimi-la, pois reconhecia-se sua importância cultural para a cidade, mas, ao mesmo tempo, desejava-se diminuir o seu incessante incremento territorial em um polo junino no qual se debate seriamente as possibilidades de mudança do local da festa. Procurou-se simultaneamente racionalizar a Guerra de Espadas e, ao mesmo tempo, utilizá-la como veículo difusor da imagem da cidade.

Apesar de todas as questões que envolvem a inserção da pirotecnia das espadas na área urbana de Cruz das Almas e da importância cultural dessa prática, não se verificou, no primeiro Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) do município, um direcionamento logístico para a Guerra de Espadas em um contexto preditivo, o que inegavelmente alimentou acepções especulativas de pessoas que são contra ou a favor dessa prática secular, notadamente quando se aproxima o ciclo junino. Na versão atualizada do PDDU local, corrigiu-se em parte essa lacuna, na medida em que a questão das espadas foi mencionada, mas, sem se aventar uma sistematização mais efetiva em uma dimensão prospectiva. Consta do referido documento institucional como uma das metas da gestão de cultura e lazer local:

Implementação de medidas que promovam e valorizem as

manifestações culturais ligadas à comemoração do São João,

em particular a guerra de espadas, provendo-se a segurança

adequada e esclarecimento dos espadeiros quanto aos

procedimentos para a produção e uso dos fogos. (CRUZ DAS

ALMAS, 2001)

No PDDU, os gestores públicos de Cruz das Almas destacam a importância do fortalecimento de determinadas especificidades locais na comemoração das festas juninas, ao tempo em que propõem a criação de um projeto de discussão da prática da Guerra de Espadas em caráter permanente, que venha, portanto, eliminar o hiato temporal entre um ciclo junino e outro, quando os debates acerca da pirotecnia festiva das espadas voltam à baila, tanto nas discussões em âmbito institucional, quanto na cotidianidade do município. Um dos pontos mais relevantes desse projeto é a proposição de plenárias, seminários e consultas populares para discutir a logística das espadas na área urbana. Vislumbra-se, dessa forma, uma horizontalização nos debates atinentes a uma manifestação cultural reconhecida nacionalmente.

Segundo os defensores da coexistência entre a deflagração da festa junina concentrada de forma nucleada na Praça do bairro Lauro Passos (Sumaúma) e a pirotecnia das espadas, difusa pela área urbana da cidade, são os particularismos locais que atraem os turistas de eventos e não as similaridades entre os lugares, e, no caso de Cruz das Almas, a espada seria o carro-chefe da imagem da cidade, em um período de forte valorização do city marketing. Inegavelmente, esse argumento ganha força com as inserções de imagens e matérias sobre as espadas em telejornais das grandes redes de comunicação do país. Além disso, na abertura dos jogos Pan Americanos, que foram promovidos pela cidade do Rio de Janeiro no ano de 2007, vários países do mundo acompanharam ao vivo a menção e a inserção cenográfica da Guerra de Espadas como uma das facetas da rica diversidade cultural brasileira.

 

A territorialização dos espadeiros construída na

mobilidade no espaço intraurbano

A praça principal de Cruz das Almas é notabilizada no ciclo junino regional como território apoteótico da pirotecnia das espadas, como se destacou anteriormente. Entretanto, além do ponto, a territorialização festiva das espadas se expressa na mobilidade de grupos se deslocando a pé ou de bicicleta através de itinerários errantes, semierrantes ou no sentido ponto a ponto.

No passado, algumas pessoas faziam a festa junina itinerante pela área urbana de Cruz das Almas com alguns grupos tradicionais; mais recentemente alguns carros de som faziam um arrastão junino errante pelas ruas da cidade incluindo nesse trajeto vias públicas, nas quais a Guerra de Espadas estava cristalizada territorialmente. Havia um pacto de coexistência e respeito entre espadeiros e não espadeiros. Esse pacto social de coexistência na atualidade pode ser descumprido quando alguns interlocutores que exercem a hegemonia territorial tiverem com a lucidez comprometida pelo excesso de bebidas alcoólicas, por isso as gestões públicas de Cruz das Almas, a partir de 1989, e principalmente no transcurso da década de 1990, optaram pela demarcação de áreas específicas para a Guerra de Espadas e pela definição de um espaço oficial para a festa junina concentrada.

Uma batalha de espadas tradicional que altera em parte o cotidiano urbano de Cruz das Almas no período pré-junino, é o casamento do

CEAT 26 que consiste em um festival pirotécnico no qual estudantes do Centro Educacional Alberto Torres e espadeiros de Cruz das Almas e cidades vizinhas se deslocam daquela referida unidade de ensino, situada em uma área periferizada da cidade, em direção à praça principal. O objetivo inicial desse evento era testar a qualidade e o poder de fogo e de deslocamento das espadas, preparando-se para a apoteose nos dias 23 e 24 de junho.

O título do evento se justifica porque inicialmente seus organizadores dramatizavam o chamado casamento na roça, com noiva, noivo e convidados vestidos de forma estilizada, imitando um suposto casamento matuto forçado, no qual geralmente o homem se vestia de noiva e a mulher de noivo. Inicialmente, a dramatização era feita por alunos do Colégio e se limitava aos muros da escola. No entanto, como ficou difícil coibir a queima de espadas em um período no qual a produção desse artefato apresenta um incremento importante, sugeriu-se que a comemoração daquela atividade lúdica fosse realizada na rua, no espaço público, o que se constituiu em um estímulo ao desregramento, notadamente em décadas passadas, quando a disciplina escolar era mais rígida.

O casamento do CEAT significa, para os foliões apreciadores das espadas, o mesmo que os antigos “gritos” de carnaval ou de micaretas significavam, ou seja, o anúncio da aproximação de uma determinada festa e a divulgação desse evento. É o grito do espadeiro, alterando o cotidiano da cidade em um dia comum, o que descortina uma atmosfera de irreverência em espaço público e alimenta muitas críticas por parte daqueles que se opõem às guerras de espadas na área urbana. As contestações, na verdade, estimulam os espadeiros que reivindicam seu espaço sazonal através da territorialização efetivada na mobilidade.

Ao “tomar as ruas”, os integrantes do casamento do CEAT não se deslocam linearmente de um ponto (Colégio Alberto Torres) a outro (praça principal): apreciam, vivenciam, desregram transitoriamente o seu espaço de deslocamento. Os espadeiros aproveitam intensamente as andanças, e, ao chegar às imediações da praça principal, o movimento geralmente se dissipa o que demonstra que a especificidade daquela prática é a mobilidade territorial, ou seja, o front de batalha é uma construção contínua, consequentemente sua moldura e a composição estética se alteram ao longo do trajeto, contrapondo-se à fixidez de outras batalhas urbanas.

Este evento acontece em um período no qual é proibido queimar espadas, no entanto, a tradição dessa prática, inserida no calendário do espadeiro, sobrepôs-se à determinação judicial e destoou como um evento cultural em Cruz das Almas. Partindo-se do pressuposto de que a referida batalha de espadas acontece em um período no qual é proibida a queima de espadas, o casamento do CEAT pode ser considerado uma prática irreverente e desregrada? Existe a relevância do trajeto, assim como existem as menções referenciais dos pontos de saída (colégio) e chegada (praça), por isso essa prática festiva, na qual o trajeto é de grande relevância, estaria em uma situação de intermezzo; os espaços liso e estriado se interpenetram dialeticamente, na medida em que se desregra transitoriamente e se prioriza a mobilidade lúdica, em uma área considerada o ápice do estriamento espacial: a cidade.

 

Guerra de espadas: territorialização, ampliação e

proposições de arenização

As formas de uso e apropriação da Praça Senador Temístocles Passos em Cruz das Almas obedeceu a uma sincronização espaço-temporal que permitia determinadas sobreposições e simultaneidades, mas que inviabilizavam outras. Durante o carnaval, a praça era o espaço de uma diversidade de manifestações folclóricas, que apresentavam interfaces, zonas de vizinhança, pontos em comum e peculiaridades como os ternos de caretas, as rodas de samba e os cordões carnavalescos. Quatro meses depois, no mês de junho, a praça era dos espadeiros. Muitos foliões que integravam ternos carnavalescos participavam ativamente da guerra pirotécnica, mas não se atreviam a soltar espadas durante o carnaval. Depreende-se nesse contexto que a praça principal de Cruz das Almas se caracterizava como espaço de síntese cultural, reunindo agentes, práticas, tramas, situações e mitos do calendário religioso, folclórico e místico das especificidades locais e regionais e do patrimônio cultural brasileiro. Descortina-se desta forma o conceito de multiterritorialidade cultural.

As manifestações festivas na praça matriz de Cruz das Almas se relacionavam, complementavam e se misturavam em uma trama cênica e estética, na qual os territórios apoteóticos eram policentrados, polinucleados, atomizados e todos os agentes eram experienciadores das manifestações festivas. Para Benjamim (1996 apud SERPA, 2007a), a experiência está ligada à memória individual e coletiva e a tradição, dessa forma, as práticas culturais de um povo são ações envoltas nessa atmosfera de rememoração.

Um conceito levantado na presente pesquisa para nortear o enfoque analítico sobre a dinâmica espacial das espadas na área urbana de Cruz das Almas é o de ampliação territorial. A batalha ainda se constitui em um grande espetáculo pirotécnico na praça principal, porém nota-se que a partir dos anos 1990, algumas áreas da cidade que não tinham a Guerra de Espadas, passaram a apresentar manifestações dessa natureza, respeitando-se o esboço hierárquico de sincronia espaço-temporal na deflagração da guerra, predominantemente em horários que não coincidem com as principais batalhas na praça matriz. Entretanto, há relatos de sobreposições de horários entre as grandes batalhas e algumas menores, a exemplo daquelas que ocorrem nas bordas periféricas do desenho urbano. A dispersão das batalhas torna as formas de controle e normatização dessa prática mais difícil por parte dos órgãos controladores – prefeitura e polícia.

O esforço para demarcação de áreas onde há proibição de queima de espadas é sempre uma empreitada difícil pelo somatório de vários fatores, dentre os quais a própria concepção de espaço público, não só como categoria política de análise, mas como um constructo depreendido de forma equivocada por alguns segmentos citadinos, que entendem que o lugar público não é propriedade de ninguém e é, ao mesmo tempo, lugar de todo mundo. Muitas vezes entende-se que o espaço público, pelo seu caráter coletivo, deve ser permissivo e não normatizado, daí leitura do público como sendo o não regulado. É como se as pessoas vivessem em um mundo segmentarizado e estriado no seu trabalho, em casa, nas empresas e em instituições e, ao mesmo tempo, deslocassem-se de um ponto a outro, utilizando-se do espaço público que corresponderia a um mundo paralelo, lido como espaço liso, concebido como não normatizado, não regulado.

A concepção de espaço público como categoria política de análise revela que as ruas das cidades são exemplos claros de espaços estriados. Um outro fator que colabora para que alguns dos espadeiros não respeitem as áreas demarcadas é o desejo de desregramento, destacado alhures; de certa forma, vivemos imiscuídos em um corolário de normas que cartesianamente estriam o cotidiano, daí os espadeiros aproveitarem para extrapolar e transgredir no território normatizado, como estratégia para impor o seu território pessoal ou grupal ou promover uma distensão de um outro território já consolidado, constituindo, assim, a ampliação territorial, alimentando o desejo de posse do lugar público.

O conceito de lugar neste trabalho é concebido como recorte espacial para análise de uma determinada porção territorial do espaço urbano, ou seja, trata-se da referência a um determinado local específico como uma praça ou rua. Para Yi-Fu-Tuan (1983), o espaço é movimento, enquanto o lugar é repouso. Dessa forma, a especificação do local é uma maneira de trabalhar com o conceito de lugar, enquanto que espaço é um conceito que apresenta uma dimensão de análise mais densa, ampla e complexa. Outro aspecto importante que Tuan (1983) salienta, é que o espaço se transforma em lugar quando passa a ter significado para quem o ocupa por isso, a mesma Praça Senador Temístocles Passos, que é espaço de passagem e de serviços na cotidianidade urbana de Cruz das Almas, converte-se em templo sagrado para os praticantes da Guerra de Espadas. É território consolidado e lugar apropriado afetivamente durante as batalhas pirotécnicas.

A construção de um espadódromo poderia significar uma confirmação a partir de um marco espacial da turistificação, não só de lugares, como também das práticas festivas oriunda dos meios populares, cuja área festiva deve adequar-se às dimensões físico-espaciais de uma arena. Dessa forma, a Guerra de Espadas se transformaria em um espetáculo para turista ver e não em uma prática cultural e experienciada ativamente pelos seus praticantes. Como planejar e formalizar espacialmente uma prática festiva produzida horizontalmente na dimensão comunitária e familiar?

Os debates acerca da dimensão conflitiva entre o planejado e o espontâneo são recorrentes e extrapolam o mundo acadêmico. Um exemplo de racionalização formal do espaço festivo, citado por Vaz e Jacques (2006), é o sambódromo situado da cidade do Rio de Janeiro, que representa a formalização do carnaval carioca, que deixou de ser um evento espontâneo das ruas para se transformar em um produto da indústria do carnaval para ser vendido aos turistas. Evidentemente que se devem ressalvar determinadas especificidades no processo de cooptação de manifestações festivas pela indústria cultural em uma metrópole de projeção nacional e global, como o Rio de Janeiro, e em uma cidade pequena de projeção local e sub-regional, como Cruz das Almas. No entanto, há pontos comuns que podem ser desdobrados analiticamente, como os processos de espetacularização urbana, arenização festiva, turistificação dos lugares e não-participação da população através dos segmentos comunitários, representativos no que concerne a assuntos de interesse público, como as manifestações festivas que fazem parte do patrimônio cultural brasileiro.

O Rio de Janeiro há muito tempo é uma metrópole consolidada midiaticamente como um dos mais conhecidos pontos turísticos do planeta pelos seus atributos naturais, pelas potencialidades do seu acervo cultural material, como seus sítios históricos seculares, e pelo seu patrimônio imaterial, como danças, músicas e festas populares e o carnaval, que saiu da rua e foi para arena para ser visto pelos turistas que visitam a cidade ou pelas pessoas em casa sentadas em frente à televisão. Faz parte da mesma política de formalização física de espaços culturais, de modo geral, a construção de um espaço festivo especificamente destinado a abrigar a festa junina concentrada de Cruz das Almas, no caso de uma eventual transferência do local da festa. Trata-se de uma alternativa além daquelas analisadas anteriormente. Uma questão de ordem econômica: a cidade em questão teria condições de construir uma arena festiva para o São João espetáculo e um “espadódromo”? Inegavelmente, trata-se de uma edificação onerosa, o que implicaria em um alto investimento, por isso, uma obra dessa magnitude só seria viabilizada se consorciada entre a municipalidade e os governos estadual ou federal, uma vez que a parceria público-privada em pequenas cidades e centros urbanos de projeção sub-regional como Cruz das Almas ainda está em um estágio incipiente.

Muitos espadeiros afirmam que antes de existir a festa junina concentrada a Guerra de Espadas já atraia visitantes para a cidade, por isso, a festa-espetáculo do Parque Sumaúma surgiu e se ampliou às expensas da notabilidade e da relevância cultural da ludicidade pirotécnica. Paradoxalmente, a mesma Guerra de Espadas, que difunde a imagem da cidade de Cruz das Almas no período junino e fora dele, é aquela que se constitui em um gargalo administrativo para os gestores públicos. Enquanto as pessoas a favor das espadas argúem exatamente a importância dessa prática, os que são contrários alimentam o seu discurso a partir da crítica ao aumento de poder de fogo desses artefatos, que nas últimas décadas já provocaram até vítimas fatais. Como o hospital de Cruz das Almas tem um raio de abrangência sub-regional, muitos queimados de Governador Mangabeira, Sapeaçu e Cabaceiras do Paraguaçu se dirigem para aquela unidade de saúde, que atinge no ciclo junino o ápice da sua capacidade de carga, alimentando, assim, a retórica das pessoas que pedem a retirada das batalhas de espadas da área urbana.

A simples menção à mudança na logística espacial da pirotecnia das espadas é motivo para discussões, debates que transitam por vários segmentos sociais de Cruz das Almas. Algumas pessoas defendem o “espadódromo”, arguindo um eventual aproveitamento econômico mais racional dessa prática, enquanto que outros repudiam veementemente esse projeto, destacando que pode ocorrer uma descaracterização de uma manifestação cultural secular. Entretanto, alguns políticos preferem um tom mais moderado em relação ao assunto, temendo uma eventual impopularidade junto a um dois la dos. A problemática da racionalização espacial da Guerra de Espadas em Cruz das Almas abarca, portanto, uma diversidade de aspectos.

As especificidades culturais locais/regionais de Amargosa, Cachoeira e Cruz das Almas, descritas e analisadas ao longo deste trabalho, produziram e consolidaram uma polaridade festiva sazonal e de espectro escalar sub-regional, regional e transregional, constituindo, assim, áreas de influência que se sobrepõem, interpenetram-se e se complementam.