Da lavoura às biotecnologias: agricultura e indústria no sistema internacional
Capítulo 2: A substituição industrial do produto rural
Capítulo 2 - A substituição industrial
do produto rural
Introdução
Este capítulo acrescenta mais conteúdo teórico e empírico ao
conceito de substitucionismo que apresentamos na Introdução do
livro. Nela nós argumentamos que a substituição do produto rural e
a ação paralela de apropriacionismo constituem um movimento de
interação combinado do capital no processo gradual e ininterrupto
de troca das atividades rurais por atividades industriais.
Por razões já discutidas, o apropriacionismo e o substitucionismo
não atuaram sobre o processo rural de trabalho como um todo
unificado mas, antes, prosseguiram através de uma série de
transformações descontínuas e discretas. Um reflexo empírico
destas tendências é a crescente participação dos insumos agrícolas
industrializados, do processamento de produtos e sua distribuição
no valor líquido da produção agrícola. Entretanto, estes dados
setoriais referentes aos valores agregados são inadequados na
medida em que excluem atividades produtivas que, embora
tivessem tido anteriormente uma base rural, não são mais
consideradas partes do sistema agrícola produtor de alimentos e
fibras. Este ponto ilustra uma distinção essencial entre o
apropriacionismo e o substitucionismo, pelo menos em seu
movimento histórico.
Ainda que o apropriacionismo transforme as atividades rurais em
atividades industriais e, assim, afrouxe as limitações impostas pela
natureza, os capitais constituídos por esta dinâmica, entretanto,
retêm laços simbióticos com o processo de produção de base
rural51. Estes laços também caracterizam os setores de
processamento primário. A ação tendencial do substitucionismo, entretanto, é reduzir o produto rural a um simples insumo industrial,
abrindo caminho para a eliminação do processo rural de produção,
seja pela utilização de matérias-primas não-agrícolas, seja pela
criação de substitutos industriais dos alimentos e fibras. Seu
paradigma é dado pela indústria química e pelo desenvolvimento
dos sintéticos. A natureza, seja enquanto terra, espaço ou
reprodução biológica, já não mais representa uma limitação
intransponível à transformação capitalista do processo de produção
e da divisão social do trabalho. Biotecnologias avançadas
constituem a vanguarda desta ação tendencial no rumo da
dissolução da diferença entre “agricultura” e “indústria”. Neste
capítulo, examinamos o substitucionismo desde suas origens nos
setores básicos de processamento e nas indústrias alimentícias até
o advento das modernas inovações biotecnológicas, que
consideraremos no Capítulo 3.
A primeira seção, a seguir, concentra-se nos desenvolvimentos
ocorridos no processamento dos alimentos e das fibras antes de
1914 e termina com a invenção da seda artificial ou rayon. Na seção
seguinte, as novas formas de substitucionismo no processamento
de alimentos e seu impacto na agricultura constituem o tema
principal. Estas novas formas, particularmente as inovações que
estão por trás da rápida expansão dos produtos alimentícios
industrializados e das “comidas de conveniência”, estão diretamente
ligadas à crescente complementaridade tecnológica entre as
indústrias químicas, farmacêuticas e alimentícias. O rápido
progresso técnico na microbiologia industrial age para reforçar esta
complementaridade. A tendência à bioindustrialização, que está
rompendo as tradicionais cadeias agroalimentícias que há tanto
tempo definem os sistemas de produção, processamento e
comercialização, será examinada no Capítulo 5.
O substitucionismo no processamento de
alimentos e fibras antes de 1914
Processamento e preservação de alimentos em grande escala O contexto histórico em que se dá a emergência do processamento
de alimentos e de fibras como atividades industrializadas de grande
escala, transcendendo suas origens domésticas e artesanais, é
dado pelas inovações tecnológicas da Revolução Industrial e pela
integração dos mercados locais e regionais de produtos agrícolas
primários ao sistema econômico mundial. O advento da máquina a
vapor e o progresso da engenharia mecânica deitaram a base para
a produção mecanizada e trouxeram extensas mudanças nos
métodos tradicionais de processamento e preservação de alimentos
e de processamento de fibras. Com o crescimento da
industrialização e a rápida urbanização, a revolução nos transportes
e comunicações liberou a indústria capitalista na Inglaterra e na
Europa dos efeitos potencialmente ruinosos das ofertas ineslásticas
de bens de consumo urbano e matérias-primas. A “questão agrária”
foi resolvida pelo livre comércio e o dinamismo dos capitais
mercantis, que se agarraram às oportunidades criadas pelas novas
tecnologias de transporte e comunicações para trazer novas áreas
de produção de alimentos e fibras ao mercado mundial. Estes
capitais, quer estivessem envolvidos na coleta e transporte dos
produtos agrícolas primários a partir das novas áreas de produção
na periferia, quer organizando e financiando o comércio mundial a
partir do centro, tornaram-se, assim, estabelecidos nas atividades
de processamento de alimentos e de fibras 52.
A bem-sucedida transição para os métodos industriais de grande
escala em atividades básicas de processamento tais como a
moagem de farinha e o refinamento de açúcar foram de imensa
importância para o desenvolvimento do substitucionismo. Estas
inovações no processamento de produtos alimentícios
intermediários básicos (farinha, óleos vegetais comestíveis,
gorduras animais, açúcar, leite em pó) forneceram à emergente
indústria, manufatureira de alimentos, insumos padronizados e
homogêneos. Estas indústrias situadas a jusante, produzindo para o
consumo final, alcançaram, assim, uma liberdade muito maior para
diferenciar a forma, a composição e a embalagem do produto rural. Neste período inicial, o decisivo primeiro passo do substitudonismo
na indústria alimentícia foi interpor o processamento e a manufatura
industrial mecanizados entre a fonte de produção rural e o consumo
final. Dado este passo, a forma rural do produto agrícola e seus
componentes podia ser, então, modificada e “apagada”, facilitando
seu tratamento e apresentação como um produto industrial. Isto é,
um produto cujas propriedades, tais como o sabor ou o prazo de
consumo, e cuja “identidade”, iriam associar-se com um processo
industrial específico (leite condensado) e com uma marca registrada
(Nestlé, Borden).
A interposição do capital industrial entre o campo e a mesa
fornecem, portanto, uma nova fonte para produzir valor agregado
que, no início, foi alcançada simplesmente pelo aumento da escala
dos métodos herdados de processamento artesanal ou doméstico.
O que é mais significativo aqui é que o capital industrial conquistou
uma posição a partir da qual as práticas mecânicas e a investigação
científica podiam ser rotineiramente aplicadas à produção de
alimentos. O “alimento” podia, então, tornar-se uma mercadoria
(commodity) heterogênea dotada de propriedades características
que lhe foram conferidas pelas técnicas de processamento,
diferenciação de produtos e comercialização. Com esta base
estabelecida, em seus aspectos essenciais, entre 1870 e 1914, a
indústria de processamento alimentício pôde, subseqüentemente,
voltar sua atenção para a obtenção de mudanças qualitativas na
composição orgânica do alimento e na percepção geral do que é
alimento. No período que antecedeu 1914, o capital industrial,
portanto, tomou o caminho que iria conduzir a uma transformação
dos padrões de consumo, dos sistemas de distribuição e das rotinas
domésticas da vida quotidiana.
Embora os setores básicos de processamento e manufatura de
alimentos não tivessem ficado de fora da crescente aplicação da
ciência à tecnologia da produção, esta não foi a fonte principal do
substitucionismo no período anterior a 1914. Melhor dizendo, o
progresso técnico, no início, ocorreu principalmente através de
inovações mecânicas que tornaram possível estender os métodos fabris de produção em massa às técnicas de processamento de
alimentos cujos rudimentos já eram conhecidos há muitos anos e,
em muitos casos, há séculos. Entretanto, além destas
continuidades, certamente ocorreram inovações significativas nas
técnicas de separação e preservação de alimentos, incluindo o
enlatamento, a refrigeração e a desidratação. Estes novos métodos
transformaram processos de produção específicos e criaram “novos”
produtos mudando a forma (carne enlatada, leite em pó) e os
atributos do produto rural, tais como as condições de manuseio e
armazenagem e o prazo de vali dez para o consumo. Nas páginas
seguintes apresentamos, brevemente, diversos estudos de casos
para ilustrar estes desenvolvimentos e a emergência de novas
indústrias.
Moagem de farinha
Na moagem de farinha de trigo, as operações em maior escala e a
padronização do produto, tornadas possíveis pelo sistema
automático de moagem à base de rolos movidos a vapor (automatic
roller-milling), foram decisivas na transição de uma estrutura
atomizada de moinhos espalhados pelo campo para a produção
centralizada. Com a disseminação deste novo método, reforçada
pela demanda popular por pão e farinha mais brancos, os
produtores passaram a depender de economias de escala, do
controle de qualidade, de propaganda e de outros estratagemas
para defender sua parte no mercado contra firmas rivais.
O método de moagem por meio de rolos começou com a
substituição das mós de pedra por rolos de porcelana em 1840 na
Hungria, onde se adaptava melhor às variedades de trigo lá
encontradas, de semente dura e quebradiça. Este problema técnico
confrontou os proprietários de moinhos americanos à medida em
que os trigos mais duros cultivados nos Estados mais frios da parte
norte do Meio-Oeste assumiam uma importância cada vez maior na
produção de grãos. A moagem com mós de pedra deixava
partículas de farelo, descolorindo a farinha, e, conseqüentemente, o
trigo duro de primavera do Estado de Minnesota era vendido com desconto na década de 1860 (Morgan, 1979). Embora a tecnologia
húngara fosse um segredo cuidadosamente guardado, um avanço
inicial foi realizado em 1871 pela firma de Washburn, da cidade de
Minneapolis, uma das precursoras da gigantesca empresa moderna
General Mills, que usou peneiras móveis e jatos de ar para purificar
a farinha. Este sistema foi subseqüentemente adotado por Charles
Pillsbury, outro migrante a Minneapolis, oriundo da Nova Inglaterra.
O “novo processo” inverteu a posição econômica da farinha de
Minnesota na escala de preferência dos panificadores, não
apenas nos Estados Unidos mas também na Inglaterra. Logo
que pôde ser vendida como produto branco livre de impurezas,
a farinha de Minneapolis tornou-se a favorita dos Estados
Unidos. A razão é que os trigos de Minnesota, e das Dakotas,
plantados na primavera… continham uma percentagem mais
alta de proteínas, ou ’glúten’, do que os trigos moles. Esta era
uma vantagem de enorme significado econômico. O glúten dá à
farinha a capacidade de absorver água e, quando se
acrescenta fermento, de crescer. Para os panificadores, isto
queria dizer que a farinha do trigo duro de primavera produzia
mais pães por cada libra. Para os consumidores a vantagem
era um pão que tendia a permanecer fresco por mais tempo
(Morgan, 1979: pp. 50-1).
Na Inglaterra, a adoção do sistema de moagem por rolos foi reflexo
da dependência com relação às variedades de trigo de semente
dura importadas dos Estados Unidos, cada vez mais preferidas que
o produto mais escuro, oriundo das mós de pedra. Esse último não
se conserva tão bem quanto seu rival, uma vez que retém o óleo do
trigo e tende, por isto, a tornar-se rançoso e malta do (Singer et al.,
1958). A adoção da moagem por rolos acelerou-se em fins da
década de 1870, dando início a um processo de concentração na
indústria enquanto muitos pequenos moinhos iam à falência ou
eram absorvidos por empresas maiores 53. O caso da farinha de trigo
ilustra como a substituição industrial pode transformar um produto
rural num insumo industrial, de tal modo que a qualidade ou o valor
são dados por critérios de processamento e manufatura antes que por considerações nutricionais. Esta tendência de avaliar os
produtos rurais principalmente como insumos para o processamento
industrial e para a comercialização está no âmago dos debates
correntes sobre alimentos processados e nutrição.
A transformação da moagem de farinha, que agora podia fornecer
um insumo básico uniforme, foi condição essencial para o
surgimento de uma indústria alimentícia que fabricava produtos
igualmente uniformes para o consumo de massa.
Comercializada em misturas padronizadas produzidas por
grandes moinhos situados principalmente junto aos portos, esta
nova farinha adequava-se às necessidades dos grandes
panificadores, que empregavam máquinas para misturar a
massa e outros equipamentos para o processamento, além dos
fornos aquecidos a vapor que começaram a aparecer depois de
1850. O uso de maquinário para produzir quantidades e
qualidades padronizadas de farinha e outros ingredientes foi
ainda mais importante para o fabricante de biscoitos -cujos
préstimos à dona-de-casa até mesmo a Sra. Beeton aprovava -
porque sua reputação dependia de sua capacidade de manter
um produto absolutamente uniforme (Derrye Wiliams, 1970: p.
693), grifo nosso.
Laticínios
Os métodos de produção em grande escala também deixaram sua
marca no processamento dos derivados do leite nas décadas de
1880 e 1890. Na produção de manteiga, a introdução do separador
centrífugo de creme fresco aumentou de modo significativo as
economias de escala das grandes indústrias de laticínios ao reduzir
as necessidades de mão-de-obra na operação de desnatamento. A
fabricação de queijo também se tornou um processo fabril nos
Estados Unidos, Canadá e Austrália. Entretanto, o processo de
maturação do queijo somente foi compreendido plenamente em fins
da década de 1890, quando ficou comprovado que eram as
enzimas, e não as bactérias, os principais agentes do processo.
(Singer et al., 1958). As mudanças no processamento do leite in natura para o consumo imediato se restringiam basicamente às que
afetavam a coleta e a distribuição. Entre elas contavam-se o
resfriador de água, o trem para o transporte e o latão de chapa de
aço estanhado. O processamento do leite de acordo com o método
de esterilização através do aquecimento, descoberto por Pasteur, e
sua distribuição em garrafas começou a assumir maior importância
por volta do fim do século (Derry e Williams, 1970).
Entretanto, os primeiros grandes avanços do substitucionismo na
indústria de laticínios vieram em seguida à introdução de métodos
industriais de preservação baseados em técnicas inovadoras de
desidratação que criaram novos produtos: o leite evaporado e o leite
em pó. A novidade destes produtos, em contraste com a manteiga e
o queijo -meios tradicionais de preservar o leite -era que, embora
produzidos por métodos de produção em massa, eles retinham as
características que os tornavam substitutos diretos do produto
natural. Este atributo, juntamente com o monopólio tecnológico de
que gozavam, deu aos primeiros inovadores industriais acesso a um
dos principais mercados de produtos alimentícios básicos. Em
resumo, a indústria havia criado um substituto direto para o produto
rural fresco cujo mercado se equiparava potencialmente ao do
original.
Em 1856, Gail Borden nos Estados Unidos obteve uma patente para
a produção de leite evaporado a vácuo e abriu uma fábrica em
1860, a tempo de beneficiar-se de contratos governamentais de
compra durante a Guerra Civil americana. Anteriormente, em
meados da década de 1850, Borden havia produzido leite
condensado enlatado usando açúcar como preservativo. O método
de produzir leite condensado criado por Borden foi adotado pelos
irmãos Page, que estabeleceram a Anglo-Swiss Milk Co., na Suíça
em 1866. Um ano mais tarde, usando seu próprio método, Henri
Nestlé começou a fabricar leite em pó na Suíça. A intensa
competição entre estas duas firmas familiares, a Anglo-Swiss e a
Nestlé, que incluía a fabricação dos produtos das firmas rivais e a
expansão para o exterior, levou finalmente à sua fusão em 1905, criando uma das multinacionais gigantes da moderna indústria
alimentícia.
Enlatamento e refrigeração
No caso da farinha de trigo, os capitais industriais tiveram que lidar
com um produto que já era processado, ainda que por métodos
artesanais. Este produto artesanal foi marginalizado não apenas
pelas vantagens advindas das economias de escala mas também
pela criação de novos limiares qualitativos que, por sua vez,
deitaram a base para a industrialização do setor de panificação. Nos
laticínios, as técnicas de desidratação específicas para cada produto
forneceram a dinâmica para a expansão industrial. Em contraste
com isto, o enlatamento representou um avanço industrial genérico
no processamento de alimentos, de aplicação virtualmente ilimitada.
Pelo menos em princípio, estava criada a possibilidade para a
substituição completa dos alimentos frescos por produtos
alimentícios processados industrialmente. Diferentemente da
preservação de frutas por meio do açúcar, sob a forma de geléias,
por exemplo, a fruta enlatada compete como substituto direto do
produto original fresco.
Entretanto, uma nova e mais complexa fase do substitucionismo
começou com o desenvolvimento das técnicas de refrigeração e,
especialmente, com os métodos de congelamento rápido
introduzidos na década de 1930 54. Por um lado, estimulou-se
enormemente a criação de novos produtos, conduzindo à gama
diversificada de alimentos de “conveniência” de nossos dias,
incluindo os peixes e jantares congelados. Por outro lado, estes
métodos de refrigeração suplantaram as tecnologias de preservação
mais antigas, tais como a conservação sob a forma de picles, o
enlatamento e a desidratação em virtude de sua superior
capacidade na manutenção do sabor e da textura do produto rural.
Isto exemplifica uma segunda grande corrente da substituição
industrial -a que busca realçar a legitimidade do produto
industrialmente processado visando a maior aproximação com o
produto original fresco. Neste contexto, o enlatamento perde cada vez mais terreno para as técnicas de refrigeração que, por sua vez,
começam a ser desafiadas por inovações mais recentes, tais como
a irradiação, a liofilização e as biotecnologias. Além do mais, estas
inovações estão emergindo como alternativas para os métodos
químicos de preservação, ameaçando os padrões estabelecidos de
substituição no processamento de alimentos, como discutimos no
Capítulo 3.
Embora algumas das novas indústrias alimentícias de fins do século
XIX representassem versões “em escala ampliada” de suas vetustas
contrapartidas artesanais, o mesmo não ocorria no caso daquelas
que utilizavam processos modernos de conservação de alimentos.
Dois destes processos, o enlatamento e a refrigeração, assumiram
grande importância na conformação da moderna indústria
alimentícia e na redefinição da divisão internacional do trabalho. Por
sua própria natureza, estes novos métodos exigiam produção fabril
de grande escala e apresentavam problemas científicos e técnicos
inusitados. Era necessário manter os produtos animais e vegetais
sob formas adequadas para o consumo humano, protegendo os
nutrientes e eliminando os elementos tóxicos, e fazer isto de modo a
aumentar a conservação do produto e impedir ou retardar as
mudanças bioquímicas ou físicas do alimento.
O primeiro dos assim chamados métodos modernos de
preservação/estabilização foi o enlatamento, introduzido no início do
século XIX quando a folha de estanho foi utilizada na fabricação de
latas. Os princípios práticos da preservação dos alimentos em latas,
em seguida à sua cocção a temperaturas variadas, foram
estabelecidos por métodos de ensaio e erro, que tinham,
freqüentemente, as forças armadas e os exploradores como cobaias
involuntárias. O papel dos microorganismos na deterioração dos
alimentos era apenas vagamente suspeitado antes da década de
1860 quando, primeiramente Pasteur e, mais tarde (na década de
1890), bacteriologistas americanos, determinaram por intermédio de
pesquisas científicas os tempos e temperaturas adequados de
cocção de diferentes produtos. À medida que aumentava a
demanda por comida enlatada, realizavam-se paralelamente, progressos (embora esporádicos) na mecanização da produção de
latas, que alcançou automação plena na década de 1900. Os
avanços subseqüentes envolveram métodos aperfeiçoados de
tratamento das superfícies de preservação apresentados pelos
diferentes tipos de frutas, vegetais, carnes e peixes. O
substitucionismo do produto rural via enlatamento de alimentos
oferecia um vasto âmbito de acumulação para os capitais
industriais, e algumas das enormes empresas ligadas aos
empreendimentos agrícolas, tais como Libby, Del Monte, Swift e
Armour, começaram suas operações em fins do século XIX.
Processamento de carne (Meat Packing) nos Estados Unidos
A história inicial da indústria americana de processamento de carne
ilustra como as técnicas de preservação alimentar atenuaram certas
propriedades intrínsecas do produto rural que, até então, haviam
inibido sua industrialização. Além disto, a inovação-chave ocorreu
na distribuição, não na produção, mas foi rapidamente apropriada
para o capital industrial através da integração vertical. Antes de
1880, a posição ímpar de Chicago como centro de abate de gado
derivava, fundamentalmente, do caráter perecível da carne fresca,
que tinha de ser consumida no prazo de uma semana a contar do
abate. Dada esta séria limitação, a cidade de Chicago, por sua
localização nodal na rede ferroviária em expansão nas décadas de
1850 e 1860, oferecia grandes vantagens como centro distribuidor
do transporte e do abate do gado. Criado nas Grandes Planícies,
engordando nas áreas vizinhas produtoras de milho do Meio-Oeste,
o gado era consumido nos mercados urbanos do litoral leste
(Aduddell e Cain, 1973).
O movimento na direção das operações em grande escala,
centralizadas, ocorreu com velocidade notável no processamento da
carne devido a duas inovações ocorridas durante a década de 1880
que se reforçaram mutuamente e transformaram a organização da
produção industrial e a comercialização. Uma delas foi o sistema
contínuo de processamento de carne e a outra a aplicação de
refrigeração mecânica aos vagões ferroviários e às instalações atacadistas de distribuição. A partir de uma posição inicial como
operadores de uma só fábrica em 1880, os precursores dos “Cinco
Grandes” -Swift, Armour, Morris, Wilson, Cudahy -ganharam
domínio indiscutível sobre a indústria. O número de instalações que
possuíam para processamento e de subsidiárias para armazenagem
sob refrigeração, que se tornou a forma principal de distribuição
atacadista de carne a partir de meados da década de 1880, cresceu
de sete do primeiro tipo e “um mero punhado” do segundo em 1887,
para 191 e 1120, respectivamente, em 1917. Todos os outros
abatedouros interestaduais possuíam juntos, naquela época, um
total de apenas 139 armazéns subsidiários (Arnould, 1971). Este
poderoso oligopólio controlava uma das três maiores indústrias do
país em termos do valor industrial agregado e, de acordo com os
contemporâneos, ameaçavam monopolizar a oferta de alimentos
nos Estados Unidos 55.
O primeiro vagão-refrigerador eficiente com sistema de isolamento
foi construído em 1878 por Gustav Swift e Andrew Chanse, e sua
introdução conduziu rapidamente à integração vertical da produção
e da distribuição atacadista. “Por volta do início da década de 1880,
todos os principais processadores de carne estavam transportando
carne fresca para o Leste em quantidades relativamente grandes,
freqüentem ente em vagões produzidos pela Swift, enquanto se
travava a batalha entre o processado r nacional e o açougueiro
local” (Aduddell e Cain, 1973: p. 94). Entretanto, a refrigeração
realçou ainda mais o papel crítico da distribuição, uma vez que a
carne fresca podia agora ser conservada por três semanas após o
abate e não mais apenas por uma semana, reduzindo, assim, a
vantagem inicial de Chicago quanto à localização. Os
processadores de carne desta cidade enfrentaram a competição dos
novos centros de produção situados mais a oeste e mais próximos
das áreas de criação, principalmente através da instituição de
sistemas nacionais centralizados de distribuição. Estes eram
abastecidos por métodos de linha de montagem de processo
contínuo e grande volume de produção que fizeram a fama de
Chicago. “Mais que qualquer outra coisa, a refrigeração foi
responsável pela expansão das atividades dos processadores de carne para além da manufatura, penetrando na distribuição e outras
funções agora associadas com estas Firmas altamente integradas”
(Aduddell e Cain, 1973: pp. 92-3).
Restava agora estender estas inovações nas técnicas de
preservação ao transporte marítimo, o que removeria as barreiras
ao comércio transoceânico oriundas do caráter perecível dos
gêneros alimentícios de maior consumo56. Depois de diversas
tentativas malsucedidas no início da década de 1870, Finalmente
conseguiu-se transportar carne congelada entre a Argentina e a
França em 1877, e um carregamento de carne resfriada
mecanicamente foi enviado dos Estados Unidos à Inglaterra e 1879.
Este comércio de longa distância logo se desenvolveu muito
rapidamente, e, por volta de 1892, a Nova Zelândia estava
exportando 2 milhões de carcaças de cordeiro e carneiro
congeladas; dez anos mais tarde, este total havia chegado a 4
milhões (Singer et al., 1958). As exportações argentinas de carneiro
e cordeiro congelados também cresceram substancialmente no
período de 1880-1900. A Argentina tomou-se a principal fonte de
carne de vaca resfriada para o mercado europeu enquanto os
suprimentos americanos eram cada vez mais absorvidos pela
demanda doméstica. De fato, a Armour e a Swift responderam a
estas novas condições da oferta de carne estabelecendo
subsidiárias na Argentina para defender sua posição no mercado
britânico. A refrigeração promoveu, igualmente, o crescimento das
exportações de manteiga e queijo da Austrália e da Nova Zelândia
depois de 1880. Os capitais mercantis e industriais completaram,
assim, a redefinição da divisão internacional do trabalho iniciada
pela ferrovia, pelo telégrafo e pela navegação a vapor. O arcabouço
estabelecido em fins do século XIX iria sobreviver, no essencial, até
a década de 1930 e além.
Margarina
Enquanto o enlatamento e a refrigeração procuram preservar o
produto fresco original através de métodos de processamento fabril
inovadores, a produção de margarina assinala uma substituição qualitativa. Ela é precursora dos alimentos fabricados
industrialmente, reconstituídos a partir de ingredientes
intermediários, que se tornaram um aspecto tão característico do
substitucionismo nas décadas recentes. A dinâmica representada
pela margarina não é a da preservação mas, antes, a da fabricação
de um substituto industrial para um produto “rural” processado -a
manteiga -usando matérias-primas mais baratas. O mercado é o
ponto de partida57. A margarina representa a ruptura do elo entre o
produto alimentício final e a matéria-prima agrícola original
facilmente identificável: é um substituto da manteiga não derivado
do leite nem, em última análise, de produtos animais. No caso da
margarina, os produtos agrícolas assumem definitivamente o status
de insumos industriais, podendo ser usados de modo intercambiável
de acordo com os custos e os critérios técnicos.
A produção de margarina demonstrou que as matérias-primas
selecionadas por seu custo relativamente baixo podiam ser
mescladas ou combinadas industrialmente para produzir um produto
essencialmente novo que imitava o seu rival mais caro. “Novo” no
sentido de que a fabricação de margarina combina insumos de
matéria-prima de uma maneira inusitada, reduzindo a percentagem
do insumo mais caro, o leite. Este produto composto industrializado
ganhou aceitação como substituto próximo do produto rural original
mais puro. A margarina é um exemplo precoce da substituição
industrial enquanto criação de produto, por meio da mescla de
diferentes matérias-primas ou “intermediários”, que visa imitar o
produto original. Tal imitação que, desde então, se tornou um rico
filão de inovação de produtos no processamento alimentício, se fez
explícita no nome de “butterine”, como o novo produto era
conhecidos no início.
Em 1869 um químico francês, Megé-Mouries, estimulado por uma
competição organizada por Napoleão III, desenvolveu um método
para produzir um substituto barato para a manteiga. Seu método
consistia em extrair a substância oleosa da gordura purificada do rim
que era então batida com leite e úberes picados. Esta não era a
primeira vez que as gorduras animais tinham sido usadas para produzir um substituto para a manteiga. Entretanto, “Megé-Mouries
merece um lugar nos anais da indústria de gorduras comestíveis.
Porque foi basicamente seu processo, despojado de seus excessos
e adaptado à produção em grande escala, que veio a oferecer um
substituto da manteiga para as massas industriais da Europa
Ocidental” (Wilson, 1954: p. 26) 58.
A história da fabricação da margarina antes de 1914 fornece uma
ilustração clássica da dinâmica do substitucionismo. A nova
indústria concentrou-se, primeiramente, na descoberta de
suprimentos mais baratos de seus insumos básicos de matérias-
primas e, subseqüentemente, buscou ampliar a gama de matérias-
primas que pudessem ser usadas de maneira permutável para a
obtenção daqueles insumos 59.” A busca de gorduras animais
concentrou-se inicialmente na Europa, mas as condições da oferta
transformaram-se subitamente em 1877: quando o primeiro
carregamento de gordura bovina oriunda das instalações de
processamento de carne nos Estados Unidos chegou à Europa: “o
que no início não era mais que um gotejamento tornou-se uma
torrente e, logo, milhares de barris de substâncias oleosas
chegavam a cada semana… enquanto as gorduras animais
continuaram a ser a principal matéria-prima para a produção de
margarina, os suprimentos eram oriundos dos Estados Unidos” (ib.:
pp. 31-2).
As tentativas de encontrar substitutos para as gorduras animais
concentraram-se nos óleos vegetais e na busca de meios para
aumentar sua participação na produção de margarina 60. Um dos
primeiros aperfeiçoamentos introduzidos no método de Megé-
Mouries tinha sido o de misturar a substância oleosa com uma
pequena quantidade de azeite de oliva batido com leite. Entretanto,
o azeite, produzido pelas grandes indústrias de esmagamento de
Marselha e Bordéus, era caro. Diversos substitutos foram
experimentados durante as duas décadas seguintes, inclusive o
óleo de gergelim da Palestina, Índia e China, e o óleo de amendoim
do Senegal. Entretanto, as condições da oferta permaneceram
difíceis até por volta de 1900, quando um engenheiro americano, David Wesson, introduziu um processo que melhorou o odor e o
sabor do óleo de algodão submetendo-o a um tratamento com vapor
num vácuo. Este processo foi então aplicado a outros óleos e
gorduras vegetais e, particularmente, à “gordura sólida de coco
obtida da copra, que podia ser usada, em grande medida, para
substituir as gorduras animais” (ib.: p. 37).
O desenvolvimento da indústria da margarina exemplifica a ação do
substitucionismo, cuja mola propulsora neste caso particular foi o
esforço do capital industrial no sentido de atenuar as limitações
impostas à acumulação advindas das matérias-primas rurais.
Embora a solução desejada estivesse além do alcance imediato, a
direção e o impulso dominantes de inovação técnica nesta jovem
indústria já são inconfundíveis por volta do início do século.
“Assim, em 1906, os desenvolvimentos no tratamento e no uso dos
óleos e gorduras vegetais já tinham aliviado a difícil situação criada
pela escassez das gorduras animais, mas o quadro estava longe de
satisfatório. Para se atender à crescente demanda mundial por
margarina era essencial que se alcançasse maior flexibilidade no
uso dos diferentes tipos de óleos e gorduras. A solução ideal era um
processo que tornasse os diferentes óleos e gorduras amplamente
Permutáveis… A solução ideal era um processo que tornasse os
diferentes óleos e gorduras amplamente permutáveis… A solução
viria, porém lentamente” (Wilson,1954: p. 37; grifo nosso).
Voltamo-nos agora para a consideração de três casos ilustrativos do
substitucionismo relativos a matérias-primas não-alimentícias.
Substucionismo e matérias-primas não-alimentícias
Diversas grandes inovações antes de 1914 revelaram as direções
futuras e a enorme força potencial do substitucionismo: os corantes
e álcalis químicos e as fibras artificiais. Estes produtos-chave do
substitucionismo liberaram a acumulação industrial das limitações
impostas pelos ciclos biológicos da oferta de matéria-prima e do
monopólio da natureza. Esta dinâmica tomou duas direções
principais que, no limite, convergem na produção dos sintéticos. A primeira reflete-se nas inovações que estendem a base disponível
de recursos para esses insumos, tal como na transição das
matérias-primas vegetais para as minerais61. A segunda trajetória
envolve os esforços para aperfeiçoar a eficiência na utilização da
matéria-prima por meio da obtenção de economias de uso em
processos de produção específicos c pela descoberta de novas
aplicações. Desde o início, portanto, as atividades de pesquisa e
desenvolvimento científico nas indústrias manufatureiras não-
alimentícias se concentraram nas propriedades físicas e químicas
de seus insumos básicos de matérias-primas. Esta orientação
estabeleceu padrões inconfundíveis de substitucionismo que davam
destaque às possibilidades de mesclar esses insumos com outros
materiais e substâncias e conduziu, finalmente, aos substitutos
sintéticos. A história da indústria da borracha antes de 1900, por
exemplo, ilustra o movimento de superação da dependência com
relação à borracha pura por meio de sua combinação com outras
substâncias, tais como o pez, a nafta e o enxofre, e o rápido
crescimento da gama de novos produtos e usos. O setor dos tecidos
de algodão também beneficiou-se da expansão da indústria do gás
e dos avanços na química do alcatrão de hulha, como veremos a
seguir.
A indústria têxtil
Três dos principais exemplos da poderosa ação do substitucionismo
no setor das matérias-primas não-alimentícias, antes de 1914, têm a
ver com a indústria têxtil. Em dois dos casos -a substituição de
alvejantes e corantes vegetais -o substitucionismo eliminou a severa
rigidez da oferta e forneceu a base para o espetacular crescimento
da indústria química pesada 62. O terceiro caso é o da “seda artificial”
ou rayon, como ela se tornou conhecida em fins da década de 1920,
que envolve a fiação de fibras derivadas da celulose processada
quimicamente, ou viscose. Um ramo relativamente secundário da
indústria têxtil tornou-se, subitamente, um novo setor de grande
importância em virtude de inovações na ciência química e na
engenharia, prefigurando as incursões em outros ramos industriais,
impulsionadas pelas pesquisas científicas, tais como a descoberta das fibras sintéticas e dos plásticos. A inspiração e o ímpeto por trás
do substitucionismo vieram, portanto, da indústria química pesada.
De fato, esta era a sua razão de ser. “A indústria fabricava produtos
para substituir materiais tradicionais -por exemplo, as anilinas
sintéticas suplantaram as cores vegetais -e também produtos
desconhecidos até então que … criavam seu próprio mercado”
(Haber, 1971: p. 4).
Na indústria têxtil do século XIX, a pesquisa científica dava atenção
aos processos de acabamento - tintura, branqueamento e
estampagem - que sofriam de aguda escassez de matérias-primas.
Nestes processos críticos, a indústria era dependente de produtos
rurais cuja oferta era, há muito tempo, limitada e precária. Além
disto, essa dependência era a principal barreira aos esforços para
se reduzir o tempo de produção
Os processos tradicionais (por exemplo, o uso de leite azedo
para alvejar o linho, urina para polir a lã, e cinzas para obter
potássio e soda) não poderiam nunca satisfazer as
necessidades crescentes da indústria. A solução foi uma série
de inovações que tornaram possível a substituição de matérias-
primas animais por outras, primeiramente vegetais e, depois,
minerais. Isto libertou a produção de uma oferta inelástica de
matérias-primas (Crouzet, 1982: p. 223).
Alvejantes e detergentes -A nascente indústria química já tinha
contribuído um pouco para o aperfeiçoamento do processo de
branqueamento com o uso do ácido sulfúrico para “azedar” o tecido,
substituindo O leitelho. O ácido sulfúrico já era disponível em
quantidades adequadas desde que Roebuck introduzira, em 1746, o
processo da câmara de chumbo, que aumentou em muito a escala
das operações. Maiores progressos na direção da simplificação e do
encurtamento do processo de branqueamento (que poderia durar
até três meses no caso do algodão e incluía sua exposição ao sol
para “corar”) ocorreram na década de 1780, quando as
propriedades alvejantes do cloro se tornaram conhecidas (Haber,
1958). O avanço fundamental, entretanto, foi realizado por Charles Tennant em 1797 e 1799 com a descoberta do hipoclorito de cal,
obtido pela saturação da cal hidratada com cloro. Esta descoberta,
que se tornou a base de um império industrial, eliminou a fase de
exposição do algodão sobre a relva para “corar” e, por volta da
década de 1830, “os tecidos de algodão podiam ser alvejados em
uma semana” (Haber, 1958: p. 9).
No caso do álcali vegetal, necessário como detergente na indústria
têxtil, a demanda inglesa sustentou um comércio de importação de
cinzas de madeira e barrilha, um substituto mais barato obtido das
cinzas de um gênero de plantas (salicornia) da família das
anserinas, cultivadas em anserinas, cultivadas em Alicante e no sul
da França. A busca de fontes mais eficientes e baratas de soda
culminaram na produção industrial de soda artificial pelo processo
de Leblanc, que foi adotado na Inglaterra depois de 1825. A
produção de soda pelo processo de Leblanc havia virtualmente
acabado com as importações de barrilha por volta de 1850 e,
explorando as economias de escala, ela encontrou mercados em
expansão nas indústrias de sabão e de vidro. De acordo com Haber
(ib.: p. 14) “o desenvolvimento da fabricação de soda foi, sem
dúvida, o principal fator no rápido crescimento da indústria química
pesada”.
Tinturas. O substitucionismo nas tinturas para os produtos têxteis
iria fornecer à jovem indústria química sua segunda área mais
importante de crescimento e acumulação. Antes do advento das
substâncias sintéticas, as tinturas eram obtidas de espécies nativas,
tais como ísatis (pastel-dos-tintureiros), quermes e garança, além de
madeiras tintórias importadas. Este segundo ramo da indústria
química baseava-se na química pura, particularmente na pesquisa
das propriedades dos destilados do alcatrão de hulha. Por volta do
final do século XIX o alcatrão de hulha, que era um produto
subutilizado, derivado das fábricas municipais de gás e dos fornos
de coques, “havia-se tornado a matéria-prima essencial da indústria
das tinturas e corantes” (ib.: p. 59)63. O aperfeiçoamento decisivo da
química do alcatrão de hulha ocorreu em 1847 quando Mansfield
completou seu fracionamento e isolou cerca de vinte substâncias, o que induziu a uma extraordinária concentração de atividade
científica neste setor. O primeiro corante orgânico sintético, a
púrpura de anilina, que usava bezeno cru como sua matéria básica,
foi patenteado por Perkin em 1856. Muitos outros corantes
orgânicos sintéticos logo passaram a ser produzidos
comercialmente. Entretanto, Haber destaca que “os processos eram
simples e, freqüentem ente, toscos; o conhecimento exato era
restrito e as operações prosseguiram empiricamente (e) nenhum
desses corantes suplantou a matéria colorante vegetal” (ib.: p. 83;
nossa ênfase).
Esta situação se transformou radicalmente com a descoberta em
1869 da alizarina sintética, que utilizava antraceno, um resíduo da
destilação do alcatrão de hulha, como ponto de partida de uma
“complicada síntese que prosseguia a passos gradativos” (ib.). Os
efeitos substitucionistas sobre a produção agrícola logo surgiram e à
medida em que a alizarina sintética suplantava a garança “grandes
extensões de terra, especialmente na Provença onde a planta era
cultivada, foram alqueivadas ou transformadas em vinhais”(ib.:p.
83). Entretanto, o desenvolvimento das tinturas de alizarina se
constituiu como base da propriedade da Badische Anilin-und Soda-
Fabrik (BASF), que logo havia de tomar-se um dos gigantes da
indústria química orgânica alemã 64.
O crescente nexo entre pesquisa científica, inovação industrial e
acumulação de capital que caracterizava, de maneira cada vez mais
acentuada, o substitucionismo, se revela claramente na síntese do
anil, baseada em outro produto residual da destilação do alcatrão, o
naftaleno. A síntese do anil realizada pela BASF tomou quase
dezessete anos de pesquisas e implicou num desembolso de cerca
de 1 milhão de libras antes que as operações industriais
começassem em 1897. A partir de então a produção cresceu
rapidamente e por volta de 1900 era equivalente ao rendimento
obtido em 250.000 acres de índigo natural” (ib.: p. 85; nossa
ênfase).
Ao remover as limitações impostas pela produção de matérias-
primas naturais da indústria têxtil o substitucionismo criou,
simultaneamente, a base de crescimento da indústria química
pesada em seu período de formação. Além disso, esta nova
indústria deu ímpeto renovado e dimensões muito mais amplas à
transição das fontes vegetais de matérias-primas para as fontes
minerais, tais como o carvão, os fosfatos e o sal. A natureza
inanimada era mais maleável à transformação e ao controle
capitalista da produção, assegurando suprimentos mais flexíveis de
matérias-primas para a indústria. No caso dos destilados de alcatrão
de hulha, por exemplo, a fonte de matéria-prima já estava integrada
ao processo industrial das fábricas de gás e fornos de coque. A
subordinação do processo produtivo dos corantes sintéticos ao
capital já não era mais problemática, enquanto que, obviamente, o
mesmo não se dava com a produção rural de plantas corantes.
Fibras artificiais. Na década de 1900 o rápido ritmo do progresso
científico na química pura e aplicada já revelava caminhos para a
transferência interindustrial de tecnologia, que iria reestruturar
velhos setores, como o têxtil e dos fertilizantes nitrogenados, e criar
novos, como o dos produtos farmacêuticos e plásticos. Assim,
“havia sinais de que a síntese química estava se ’difundindo para
além dos corantes: as primeiras tentativas de fixar o nitrogênio
atmosférico estavam sendo realizadas, fibras sintéticas começavam
a aparecer e essências e drogas estavam sendo criadas a partir dos
derivados do alcatrão de hulha” (Haber, 1971: pp. 29-30). Estes
avanços de espectro tão largo sugerem que o aspecto característico
da revolução industrial nos produtos químicos era “a reformulação”
das matérias-primas” 65.
No caso das fibras sintéticas e plásticas, a “reformulação” e
substituição das matérias-primas rurais teve um período de
gestação relativamente longo antes que a produção comercial
assumisse importância. O desenvolvimento inicial da química
orgânica entre as décadas de 1830 e 1850 havia criado um certo
interesse científico pela celulose, que cresceu muito na década de
1880 quando os químicos buscavam materiais para fazer filamentos para a lâmpada elétrica incandescente. Esta atividade revelou a
possibilidade de fiar fibras de celulose, e tanto a “seda de
Chardonnet” ou “seda de nitrocelulose” e a “seda de cupramômio”,
foram produzidas comercialmente na década de 1890.
“O terceiro método principal de fabricação de seda artificial, o
’processo da viscose’ combinava avanços ocorridos na fabricação
das lâmpadas elétricas com a química emergente da indústria do
papel que tinha a polpa de madeira como sua base”. (Coleman,
1969: p. 9).66 Os direitos de patente inglesa deste processo foram
adquiridos por Courtaulds em 1904. Uma vez superados certos
problemas químicos e técnicos, o fio de viscose revelou-se mais
barato que seus principais concorrentes e mais versátil, já que podia
ser combinado com uma variedade maior de outras fibras para
produzir novos tecidos. Depois da Primeira Guerra Mundial, a
indústria do rayon conheceu a extraordinária “explosão” de 1920-41
quando “a produção mundial aumentou 8.700%, passando de 32
milhões para 2.817 milhões de libras (ib.: p. 171). O crescimento de
um mercado de massa para as meias de rayon transformou este
produto num concorrente potencial do algodão.
A produção de fibras celulósicas difundiu-se por todo o mundo
industrializado no período entre as duas Grandes Guerras, que
também testemunhou diversas inovações técnicas importantes à
medida em que as firmas rivais, seguindo a lógica do
substitucionismo, esforçavam-se por obter posições vantajosas na
competição intensificando a versatilidade das novas fibras. A
produção de um fio fosco no final da década de 20,
complementando o rayon de brilho característico; ampliou seu
mercado, notavelmente nas indústrias de tecelagem, meias e
malharia. As tentativas para superar a baixa resistência do rayon
não obtiveram sucesso até meados da década de 30 quando
Courtaulds desenvolveu o processo de esticamento a quente
(hotstretch process), que produziu um fio resistente capaz de
substituir o algodão na fabricação de encoamento para pneus e em
outros usos industriais.
Entretanto, “o advento da fibra curta de viscose (viscose staple fibre)
foi a mais impressionante das inovações da indústria neste período”
(ib.: p. 173). Esta fibra foi produzida cortando-se os filamentos
contínuos em pedaços curtos, que eram enfardados e vendidos para
uso em fiação e tecelagem. “Em 1939-41 a fibra curta (staplefibre)
alcançou 53 % da produção mundial de rayon, em termos de peso.
Do mesmo modo que os filamentos de todos os tipos tinha,
representado uma efetiva substituição da seda numa ampla gama
de usos, na década de 1930 as fibras curtas começaram a substituir
cada vez mais o algodão ou a lã” (ib.: p. 173). Entretanto, tomando
como referência o consumo geral de fibras, o rayon somente
conseguiu penetrar de modo significativo nos setores de tecelagem,
meias e malharia.
Uma revisão ampla do substitucionismo ocorrido quando a indústria
química orgânica adquiria dinamismo nos levaria muito longe do
âmbito e do propósito deste capítulo. Os breves estudos de casos
referentes às tinturas e corantes sintéticos e às fibras celulósicas
foram escolhidos pelo seu desenvolvimento precoce e por sua
importância industrial. Entretanto, estes são apenas dois exemplos,
embora destacados, dos novos compostos orgânicos, cujo número
excedia 300 mil por volta de 1940.
Embora sustentada pelas pesquisas realizadas nas décadas de 20 e
30, uma nova e grande onda de substitucionismo ocorreu durante a
guerra imediato pós-guerra com “a exploração industrial mais ampla
da química orgânica -isto é, a química dos compostos de carbono -e
da engenharia associada a ela, destacando-se a polimerização, a
condensação, a catálise e alta-pressão” (Reader, 1975: p. 318). Esta
nova onda testemunhou a produção em grande escala de plásticos
e das verdadeiras fibras sintéticas, principalmente polyamides
(nylon), poliésteres e acrílicos, assim como borrachas, resinas e
couros sintéticos e detergentes sintéticos (que competem
diretamente com óleos e gorduras animais e vegetais). Esta
transição em velocidade crescente na direção de um afastamento
relativamente às matérias-primas não alimentícias de origem vegetal
é marcada também pela emergência na década de 50 do petróleo e do gás natural como os principais elementos para a indústria
química e demais firmas situadas no escalão descendente do
processo vertical de produção, consumidoras destes insumos
intermediários sintéticos.
Estes estudos de caso dos setores não-alimentícios fornecem o
indício mais claro possível da tendência subjacente ao
substitucionismo no sentido de eliminar os insumos agrícolas. A
dinâmica mais lenta e mais complexa no setor alimentício reflete as
limitações impostas pelo produto agrícola enquanto elemento de
nutrição humana. De todo modo, importantes formas novas de
substitucionismo surgiram no processamento alimentício durante os
últimos vinte anos aproximadamente, principalmente as técnicas de
fracionamento de produtos e a produção de alimentos fabricados.
Estas novas tendências são examinadas na próxima seção em
seguida a uma breve discussão da estrutura do moderno sistema de
alimentos. Como veremos, a indústria química, fiel à lógica do
substitucionismo, realizou incursões notáveis no processamento de
alimentos neste período recente.
O moderno sistema de alimentos e as novas
formas de substitucionismo
Como vimos aqui e no Capítulo 1, as oportunidades de acumulação
criadas pelo substitucionismo e pelo apropriacionismo conduziram
ao domínio do sistema de alimentos e fibras por parte dos capitais
industriais. Na próxima seção, examinamos rapidamente as
características estruturais do moderno sistema de alimentos e
voltamo-nos, em seguida, para o foco principal de nossa discussão:
os desenvolvimentos recentes no processamento e manufatura
(industrialização) de alimentos.
Características estruturais da indústria alimentícia
O moderno sistema de alimentos se estende desde a agricultura,
num extremo, passando pelo processamento, pela distribuição e
pela venda no varejo, até o setor produtor de alimentos e refeições industrializadas (catering industry) e a preparação doméstica de
alimentos, no outro. Estes setores competem pelo controle do
sistema a fim de determinar a distribuição dos lucros criados pelo
cultivo, pela manufatura e pela distribuição dos alimentos. Nesta
disputa, a agricultura tem sido relegada a uma posição secundária.
Alguns aspectos deste declínio foram examinados no Capítulo 1, e
os próximos dois capítulos o consideram mais de perto. Se
excluirmos o preparo doméstico dos alimentos, todos os setores do
sistema mostram uma alta e crescente concentração da produção,
embora cada um possua uma grande franja de firmas de tamanhos
muito variados.
Esta diversidade quanto ao tamanho das firmas é encontrada na
fabricação (industrialização) de alimentos, mas os produtores
oligopolistas que operam um grande número de fábricas constituem
o aspecto dominante do setor 67. As barreiras à entrada no setor, de
um modo geral, não foram criadas pelas economias de escala mas,
antes, pela diferenciação de produtos sustentada pelos altos níveis
de gastos com publicidade 68. Os problemas de competição e
crescimento são enfrentados por meio de estratégias que não visa
aos preços mas, principalmente, à diferenciação dos produtos, à
conquista do controle acionário, à integração vertical, à
diversificação intra e interindústrias e à expansão internacional
(Parker, 1976; Connor, 1980). 69
As estruturas oligopolistas também caracterizam os setores de
processamento primário que produzem os intermediários ou
ingredientes estabilizados usados pelas firmas que fabricam
alimentos para o consumo final. De fato, vimos que a concentração
industrial já era significativa antes de 1914 em setores como o da
moagem de farinha, o do leite desidratado e o do processamento de
gorduras animais e óleos vegetais. Além disso, mesmo em seus
anos iniciais, a internacionalização da produção era uma
característica bem definida deste setor, como bem o demonstram as
operações em escala mundial da Unilever, Nestlé, Carnation e
Cargill. Já a internacionalização das firmas alimentícias que
fabricam os produtos finais, é, ao contrário, em grande medida um fenômeno do pós-guerra. Esta tendência acelerou-se em fins da
década de 50 e na década de 60, tendo envolvido principalmente
firmas americanas, a que se juntaram firmas européias na década
seguinte, particularmente os grandes produtores britânicos. Na
ausência de economias de escala significativas, as estratégias de
expansão ultramarina reproduziram os padrões de crescimento
doméstico, com ênfase na extensão das operações tendo como
base um grande número de instalações fabris, o que se alcançou
através de fusões e “de tomadas de controle acionário, mais que por
meio de novos empreendimentos, tendo-se dado prioridade à
diversificação no interior do setor de alimentos” (OECD, 1979: p.
45).
Uma tendência semelhante na direção da alta concentração na
distribuição e no comércio varejista, perceptível nos Estados Unidos
desde a década de 30 e no pós-guerra na Europa Ocidental,
significa que as grandes firmas processadoras de alimentos
confrontam um comércio varejista com um poder sobre o mercado
equivalente ao seu próprio e, às vezes, superior. Já se sugeriu que
esta disputa está criando uma dicotomia na indústria alimentícia
entre a vasta maioria dos fabricantes dominados pelo poder
oligopolista de compra das grandes cadeias varejistas e o “pequeno
grupo de, talvez, não mais que 30 ou 40 firmas cujo tamanho,
influência financeira, e nível de multinacionalização nos setores da
oferta, produção e comercialização, lhes permitem competir em
termos iguais com as distribuidoras gigantes” (OECD, 1979: p. 44).
A competição oligopolista entre estas gigantescas corporações tem
reforçado as tendências na direção da integração vertical
ascendente por parte das distribuidoras, o que as têm levado à
difusão ele mercadorias com seu rótulo próprio, e à integração
descendente por parte dos processadores de alimentos aos setores
de distribuição atacadista e varejista. Na Inglaterra, os exemplos de
integração descendente incluem a Associated Dairies, Associated
British Foods, Booker McConnel e Rank Hovis McDougall. Há um
certo consenso na percepção de que as principais firmas
oligopolistas no comércio varejista de alimentos, principalmente as
grandes redes de lojas, têm mantido a supremacia no sistema britânico de alimentos desde a década de 70 (Burns, 1983: Lang e
Wiggins, 1984).
Do ponto de vista da substituição industrial, uma dimensão cada vez
mais importante desta disputa entre processadores e distribuidores
origina-se das mudanças que têm ocorrido na consciência pública
quanto à legitimidade dos alimentos processados e dos métodos
utilizados em sua preparação. As repercussões dessas
transformações na opinião pública e nas preferências dos
consumidores têm sido sentidas em todo o sistema de alimentos,
afetando o equilíbrio de poder entre os setores de processamento e
de distribuição. Como vimos, os novos métodos de refrigeração,
principalmente o congelamento rápido e, mais recentemente, gas
packing, aperfeiçoaram a conservação das características originais
dos alimentos. Para os grandes varejistas cujos mercados principais
são formados por unidades familiares que preparam a comida em
casa, sua reputação quanto à capacidade de fornecer alimentos
frescos tornou-se uma importante condição para a penetração no
mercado e para obter uma clientela fiel. Esta estratégia tem,
entretanto, seus inconvenientes. Com o crescimento da consciência
pública relativamente ao uso dos aditivos químicos no
processamento e preservação dos alimentos, as alegações de que
as comidas processadas se aproximam dos alimentos frescos têm
sido amplamente questionadas. Este fenômeno tem provocado uma
rachadura nas relações entre os produtores de alimentos e os
distribuidores, que são os primeiros a sentir as conseqüências das
reações dos consumidores.
Na Inglaterra estas preocupações atiçaram uma controvérsia a
respeito da utilização, por parte dos fabricantes, de rótulos com
pouca ou nenhuma informação relevante e, freqüentemente,
enganadores (Luba, 1985). Isto levou a pressões para tornar
obrigatória a informação completa a respeito do valor nutricional nos
rótulos e criou apoio para uma campanha nacional para controlar o
uso de aditivos. 5 Contra esta maré crescente de inquietação, o setor
de distribuição foi o primeiro a tomar a iniciativa de promover linhas
de produto isentos de aditivos e de experimentar métodos não-químicos de conservação de alimentos. As grandes cadeias
varejistas, como Tesco, J. Sainsbury e Marks e Spencer também
adotaram recentemente novas estratégias de comercialização e de
informação ao consumidor. Somente uma grande cadeia de
supermercados, a Safeway, oferece regularmente vegetais
organicamente cultivados a seus fregueses, mas outras grandes
cadeias já manifestaram seu interesse caso haja maior continuidade
de oferta. A reação dos fabricantes de alimentos tem sido mais lenta
mas a Birds Eye Wall ’s, de propriedade da Unilever, a maior
corporação do setor agroindustrial na Europa, anunciou em fevereiro
de 1986 que havia retirado todos os azocorantes de seus produtos e
estava reexaminando o uso de glutamato de monossódio e outros
aditivos. Recentes relatórios consultivos fornecem indícios
adicionais de que a indústria britânica de alimentos se adaptava
vigorosamente à demanda por produtos “naturais”,6 ao mesmo
tempo que continua com suas linhas tradicionais. É assim que
muitos dos quase 2 mil produtos lançados em 1985 foram
destinados a atender “necessidades especiais do mercado” relativas
a alimentos ricos em fibras, pouco salgados e sem gordura.
(Financial Times, 28/4/1986).
Como demonstra esta reação, o impacto na indústria alimentícia de
um maior conhecimento por parte do público a respeito de assuntos
de dieta, saúde e nutrição vai muito além da questão dos alimentos
isentos de aditivos. De modo crescente, o valor nutricional é visto
mais em termos dos componentes básicos do alimento do que em
relação ao alimento integral, quer seja ele fresco ou não.
Aqui, as questões principais referem-se às calorias, às proteínas, ao
colesterol, às gorduras saturadas ou não, e ao conteúdo fibroso e,
sob este aspecto, os alimentos frescos, principalmente O leite e a
carne, podem também ser considerados “pouco saudáveis” ou
“indesejáveis”. Assim, os alimentos processados, balanceados,
cujos ingredientes são escolhidos de acordo com critérios
nutricionais, podem ser apresentados como uma alternativa à
solução representada pelos alimentos frescos na equação entre
nutrição e saúde.70 No caso dos alimentos fabricados altamente processados e das “comidas de conveniência”, podia-se facilmente
adicionar vitaminas e outros componentes nutricionais ou aumentar
sua concentração. A preocupação pública com a saúde e dieta
pode, portanto, acelerar a eliminação dos aditivos químicos, mas
estas tendências podem igualmente trabalhar contra certos
alimentos inteiros, como os laticínios e a carne fresca. Não se segue
necessariamente que os padrões emergentes de consumo irão
fortalecer a demanda pelos produtos alimentícios originais. Na
verdade, os fabricantes de alimentos podem, com uma certa
facilidade, atender às demandas por produtos isentos de aditivos,
seja pelo desenvolvimento de preservantes químicos eficazes
porém inócuos ou pela adição de métodos biotecnológicos (Pyke,
1981). A substituição industrial, portanto, provavelmente incorporará
diversas estratégias diferentes que, a longo prazo, podem dar
origem a ramos distintos na indústria alimentícia.
Reconhece-se amplamente que o poder de mercado por parte de
fabricantes e distribuidores de alimentos tem importantes efeitos
ascendentes sobre a organização da produção agrícola, sem
mencionar o das corpo rações agroindustriais que se integram
verticalmente em todos os setores do sistema de alimentos, desde o
cultivo até a distribuição varejista e a produção de alimentos e
refeições industrializadas (catering). Na Inglaterra, o mais célebre
exemplo de integração vertical que engloba diversos estágios do
sistema de alimentos é a Unilever, cuja subsidiária, Birds Eye, tem
usado os contratos de compra para entrega futura a fim de exercer
controle sobre o processo de produção no cultivo de ervilha em East
Anglian (Newby, 1977). As operações verticalmente integradas das
corporações agroindustriais ligando a produção direta, o
processamento e a prestação de serviços são mais comuns nos
Estados Unidos, graças às atividades de companhias como Castle &
Cooke, Ralston Purina, Tenneco e United Brands. Em geral,
entretanto, as características específicas de cada sistema de
produção de bens agrícolas irão determinar sua organização
produtiva e a significação relativa do envolvimento direto e dos
contratos de compra para entrega futura por parte da corporação
agroindustrial (Friedland, 1985). Na Califórnia, por exemplo, firmas transportadoras estabeleceram integração ascendente com o intuito
de controlar o processo de produção da alface “iceberg” e das uvas
de mesa, mas o mesmo processo não se deu no caso dos tomates
e das uvas-passas (ib.).
Para a agricultura americana como um todo, o investimento direto
por parte das corporações agroindustrias na produção assume
importância no caso dos vegetais frescos de mercado (30%), cana-
de-açúcar (60%) e frutas cítricas (30%). Se a produção direta por
parte das agroindústrias e os contratos de compra para entrega
futura forem tomados em conjunto, então uma alta proporção da
produção total em diversos setores principais é vendida em
mercados “internos” fechados. Estas estruturas verticais de
comercialização dominam a produção de vegetais para
processamento (95 %), batatas (70 %), frutas cítricas (85 %), cana-
de-açúcar (100%), beterraba-de-açúcar (100 %), leite líquido
graduado para consumo doméstico (98 %) e frangos de corte
(97%). 71 Estimativas recentes indicam que a proporção da produção
agrícola nos Estados Unidos controlada por acordos formais de
comercialização vertical está aumentando. Assim, os contratos de
compra para entrega futura juntamente com a produção direta por
parte das agroindústrias representaram 22 % da produção total em
1970 e cerca de 30% em 1980 (USDA, 1984). “A principal mudança
na agricultura sob contrato desde 1970 foi um incremento notável no
uso, por parte dos agricultores, de contratos antecipados de venda
na comercialização dos grãos de liquidez imediata (cash grains),
das sementes oleaginosas e do algodão” (ib.: p. 33). Os dados para
os Estados Unidos sugerem também que a contratação antecipada
e a integração vertical estão relacionadas positivamente com o
tamanho da unidade agrícola, e reforçam a concentração da
produção e a especialização monocultural das regiões agrícolas do
país (USDA, 1981). Os dados sobre o desenvolvimento da
agricultura sob contrato na Europa são limitados mas sabe-se que
ela é importante no caso da beterraba-de-açúcar, da criação de
aves, porcos e cultivo de ervilhas e que sua incidência é
relativamente maior na Holanda, Bélgica e Reino Unido (Bowler,
1985). Tal como nos Estados Unidos, os fabricantes de rações animais foram pioneiros na produção sob contrato de aves, ovos e
vitelos.
Para o processador, o atacadista, ou a cadeia de supermercados, a
atração da integração vertical via produção direta ou contratação
antecipada é que ela oferece maior controle sobre as condições de
oferta. Estas incluem não apenas o preço e o planejamento das
entregas mas também fatores como a uniformidade do produto, a
qualidade (grau de maturação, cor, formato) e (atributos)
propriedades técnicas desejáveis para o processamento de massa.
Como vimos no Capítulo 1, o apropriacionismo e o substitucionismo
convergem no desenvolvimento de novas variedades de safras
deliberadamente criadas para incorporar propriedades que facilitam
o tratamento mecânico e vão ao encontro das necessidades
especiais das firmas processadoras de alimentos. Por exemplo, um
estudo sobre o enlatamento de ervilhas no Reino Unido observou
que, já que os consumidores preferem as ervilhas miúdas “nós
buscamos aquelas variedades que produzem geneticamente altos
rendimentos de sementes pequenas, no grau de maturação exigido
para o enlatamento” (Arthey, 1983: p. 589). A biotecnologia e a
engenharia genética aumentam de maneira substancial o âmbito
potencial e a importância desses efeitos montante.72 Sharp et al.
(1894: p. 118) sugerem, nesse sentido, que estes métodos tornam
possível “produzir a matéria-prima agrícola de acordo com as
especificações prescritas pelas firmas processadoras”. Estas
tendências são examinadas mais pormenorizadamente no próximo
capítulo.
O Fracionamento de Produtos e os Alimentos Industrializados
Antes da década de 70, a aplicação dos métodos de produção em
massa no setor de processamento representava a corrente principal
da mudança tecnológica na indústria alimentícia. Isto é, a
mecanização e a melhoria sistemática das técnicas de
processamento tradicionais de separação e preservação-
estabilização. Tal como no período inicial de inovação, entretanto, o
conhecimento dos processos físicos, bioquímicos e microbiológicos nos quais se baseavam estas técnicas tem sido adquirido
principalmente por meios empíricos. Esta situação tem mudado,
mas ainda existem brechas importantes na compreensão científica
das atividades químicas, enzimáticas e microbiais envolvidas no
processamento industrial de alimentos. Estas brechas, acentuadas
pela variabilidade inata de produção de “fornada”,7 em que as
habilidades e conhecimentos especializados de um operador são
utilizados para o processamento automatizado das “fornadas” e,
afortiori 73 , para os métodos de fluxo contínuo. Como destacamos no
Capítulo 3, é precisamente a perspectiva de controlar estes
processos bioquímicos de modo eficaz que tem despertado tanto
interesse na microbiologia industrial, na engenharia genética e na
criação de bioindústrias avançadas de base científica.
Os recentes avanços na tecnologia de processamento alimentício
têm revelado o papel pioneiro que cabe, principalmente, às firmas
dos setores químico, petroquímico e farmacêutico74. As iniciativas
mais antigas vieram de indústrias diretamente relacionadas,
principalmente as fornecedoras de implementos, mas a crescente
complementaridade entre a engenharia química e a engenharia de
alimentos tem acelerado enormemente a taxa de transferência
tecnológica, de adaptação e de inovação na indústria alimentícia.
Este é um fenômeno recente, entretanto, e até mesmo em fins da
década de 60, nos Estados Unidos, se observava que “embora se
torne mais sistemática, a aplicação das pesquisas da indústria
química à indústria alimentícia é ainda relativamente acidental”
(Uttle, 1970: p. 21).75 Contudo, este relatório previu claramente que
os fabricantes de alimentos logo criariam relações mais íntimas com
as indústrias químicas e farmacêuticas. Ele identificou como um
futuro canal interindustrial de transferência de tecnologia de grande
importância, o crescente setor de “alimentos derivados”, baseados
nos componentes genéticos extraídos de uma ampla gama de
matérias-primas (tais como amido de milho ou proteína de soja) e
combinados para criar alimentos reconstituídos ou novos produtos.
Estas novas técnicas de separação no fracionamento de produtos já
estavam sendo aplicadas na indústria de laticínios. “O leite já
chegou até mesmo a ser decomposto como a caseína, a lactose e o soro, cada uma das quais é usada numa função específica em
vários alimentos industrializados. Este é apenas um exemplo do
fracionamento de um alimento natural a fim de se obter um
componente que pode ser aplicado noutros produtos” (ib.: p. 21;
grifo nosso).
Este exemplo precoce prenunciou um grande passo adicional na
transformação das firmas de processamento primário em
fornecedoras de ingredientes alimentícios intermediários genéricos,
como glicose, xaropes, proteínas, carboidratos, gorduras e
aromatizantes, que as firmas situadas na fase seguinte do processo
descendente da escala vertical de produção, reconstituem como
produtos alimentícios para o consumo final. Estes alimentos
fabricados, incluindo os “alimentos de conveniência” e os produtos
do tipo “fast-food”, podem ser manufaturados como produtos
parcialmente ou totalmente reconstituídos. Isto é, os fabricantes
podem variar sua composição de acordo com os custos relativos
dos diferentes ingredientes usados como matéria-prima, ou de
acordo com critérios nutricionais ou de outra natureza. À medida
que se expandem estas possibilidades de substituição, as linhas
que demarcam as cadeias agroalimentícias tradicionais se tornam
cada vez menos nítidas. Dunnill, reexaminando as tendências
correntes na tecnologia da proteína, destaca a introdução de
métodos sofisticados de separação e fracionamento
nos quais os componentes com alto grau potencial de proteína
dos alimentos de qualidade inferior são isolados e
freqüentemente reformados… Esta reforma permite o
ajustamento do conteúdo nutricional e do custo final através,
por exemplo, do controle do equilíbrio entre componentes
animais e vegetais, e auxilia na obtenção da uniformidade
necessária nos processos avançados (Dunnill, 1981: p. 216;
grifo nosso).
Erguendo-se sobre uma base cada vez mais complexa de métodos
de fracionamento, 76 a moderna indústria alimentícia estendeu o
âmbito e a concepção de seus produtos até o ponto de poder redefinir as noções convencionais do que é alimento. As “comidas
de conveniência”, a “junk food” e seus complementos, as cadeias de
restaurantes do tipo “fast-food” e os sistemas de fornecimento de
refeições industrializadas (catering-systems) têm sido os setores
mais dinâmicos da indústria alimentícia desde princípios da década
de 50.77 Este crescimento reflete os efeitos mutuamente reforçativos
sobre os padrões de despesas com alimentos, do substitucionismo
enquanto criação de produtos, e das tendências econômicas e
sociais do pós-guerra nos principais países da OECD. Entre estas
se incluem a crescente participação das mulheres na força de
trabalho, a difusão dos eletrodomésticos usados na preparação e
conservação de alimentos, os novos hábitos alimentares e o maior
poder aquisitivo.
O rápido incremento do nível de despesas com alimentos
preparados ou consumidos fora do lar representa um fator dinâmico
particularmente importante na determinação da crescente demanda
por ingredientes alimentícios processados padronizados e por
produtos do tipo “fast-food”. Por volta de meados da década de 70,
cerca de 35% dos gastos familiares médios com alimentos nos
Estados Unidos eram realizados com refeições fora do lar (Chou et
al., 1977). Como resultado destas mudanças nos padrões de
consumo, o crescimento do setor de refeições e alimentos
industrializados (catering-sector) facilmente ultrapassou o das
vendas varejistas por parte dos supermercados, entre os princípios
da década de 50 e princípios da de 70 (OECD, 1970). Este setor em
expansão é altamente receptivo às inovações no processamento
que fornecem refeições congeladas e resfriadas, produzem
ingredientes que poupam tempo e trabalho, ou melhoram o sabor, a
textura e o prazo de validade das comidas preparadas, propósitos
principais dos aditivos.
O comércio varejista oferece, assim, uma variedade de farinhas
enriqueci das com aminoácidos… pratos preparados contendo
proteínas vegetais, misturas de sucos de frutas naturais e
artificiais, produtos de confeitaria e pastelaria preparados com
emulsificantes vegetais, amido, açúcar e várias gorduras no
lugar de leite, ovos, manteiga, açúcar e gordura de cacau. O
uso de matérias-primas mais baratas por parte da indústria leva
a uma redução na proporção dos alimentos “convencionais” na
ingestão humana de proteínas, gorduras, carboidratos,
vitaminas, etc (OECD, 1975: p. 2).
Tal como o caso da margarina demonstrou há mais de cem anos, a
indústria alimentícia pode criar “novos” produtos cuja forma física e
aparência disfarçam suas origens industriais e os põem em
competição direta com produtos de safras prontamente identificáveis
e alimentos in natura. Outros alimentos altamente processados
competem igualmente com o produto natural mas devem sua
comercialidade mais a certos atributos especiais, como o prazo de
vali dez ou a conveniência no preparo, que lhes são conferidos pela
tecnologia industrial. 78 Tais alimentos se sustentam expressamente
por seus méritos industriais e exploram deliberadamente as
diferenças que os separam do produto rural natural. Com as
tecnologias alimentícias correntes, virtualmente tudo o que for
comestível, incluindo os produtos derivados, processados, podem
ser convertidos num produto vendável ou num alimento instantâneo
sob a forma de grânulos ou em pó. Este é o caso, por exemplo, da
carne mecanicamente recuperada (CMR), obtida por meio de
métodos de processamento hidráulico e centrífugo que separam a
carne e os nervos dos ossos para formar uma pasta fluida. Esta
pasta, combinada com agentes aglutinadores (emulsificadores e
estabilizadores) e outros aditivos é, então, usada na fabricação de
produtos de carne, como tortas, patês e salsichas (ver Fig. 2.1).
Uma ampla e crescente gama de produtos químicos complexos
desempenham um papel essencial nestas modernas tecnologias de
processamento e conservação de alimentos. Os aditivos químicos
são usados para facilitar o processamento industrial, enquanto
outros restauram o sabor, a cor e a textura, perdidos durante a
manufatura. Agentes emulsificadores ajudam a homogeneizar ou a
aglulinar substâncias diferentes, tais como água e gordura na
margarina. Na indústria da carne, os polifosfatos são amplamente
utilizados para aglutinar galinha, presunto, salsichas e outros ingredientes com a água. Substâncias isolantes (sequestrants)
impedem que microelementos causem rancidez nos produtos que
contêm gorduras e óleos, e também impedem que os refrigerantes
fiquem turvos (Tannahill, 1975). Outros grupos importantes de
aditivos são os preservantes, os corantes sintéticos, tais como os
diazocorantes, e a categoria mais extensa de todas, os
aromatizantes e os realçadores de sabor, dos quais o glutamato de
monossódio é o mais conhecido (Miller, 1985). No Reino Unido,
mais de 3.500 aditivos permitidos podem ser usados, embora os
procedimentos para o licenciamento de aditivos estejam protegidos
pelo 8 Official Secrets Act, o que impede sua discussão pública.
Estas novas tecnologias de processamento são uma clara
expressão da lógica do substitucionismo na indústria alimentícia. Os
produtos alimentícios agrícolas são reduzidos a seus ingredientes
básicos e estes insumos são combinados com aditivos, o que
permite dar rédea solta ao desenvolvimento de novos produtos
envolvendo variações infinitas de características conferidas
industrialmente, como conveniência, qualidades dietéticas, sabor,
textura e cor.
A capacidade de introduzir uma classe de produtos diferenciados
em constante mutação e novas marcas registradas, desde petiscos
industrializados até refeições prontas para ir ao forno, fornece à
indústria alimentícia uma fonte dinâmica de valor agregado e de
lucros. Deste modo, o moderno sistema alimentício procura superar
as restrições aos gastos com nutrição advindas dos limites
fisiológicos da ingestão humana de alimentos e da demanda
inelástica por gêneros de primeira necessidade. Como Millstone
(1986: p.18) observa, “é muito mais fácil convencer as pessoas a
comprar mais pacotes de 9 crisps do que levá-las a comer mais
batatas cozidas simples”. O âmbito no qual se pode obter maior
valor agregado e mais lucros é igualmente mais. extenso: “quando
compramos um pacote de crisps, tamanho padrão de 25 gramas,
nós estamos adquirindo uma certa quantidade de batatas naturais,
no valor de 1 10 penny, que foram transformadas num produto processado, preservado, aromatizado, empacotado, anunciado e
distribuído por 12 pennies” (ib.: p. 22).
O crescente controle industrial da produção alimentícia se reflete na
expansão e no progresso técnico dos setores que fabricam aditivos.
Calcula-se que a quantidade de aditivos alimentícios usados no
Reino Unido decuplicou nos últimos trinta anos, acompanhando o
crescimento dos alimentos altamente processados como itens
básicos de consumo (Miller, 1985). De acordo com Millstone (1986),
a indústria de processamento alimentício no Reino Unido
despendeu 225 milhões de libras em aditivos em 1985, dos quais
85% eram aditivos “cosméticos”, isto é, aditivos introduzidos nos
alimentos para torna-los mais fáceis de vender dando-lhes uma
aparência mais atraente” (ib.: p. 40). O progresso da substituição
industrial no interior da própria indústria de aditivos é
particularmente evidente na principal categoria, a dos aditivos
aromatizantes e realça dores de sabor, na qual um maior
conhecimento dos processos biológicos que determinam a formação
e a percepção do sabor está conduzindo ao desenvolvimento de
compostos de imitação sintéticos. “A tendência aponta na direção da
reprodução cada vez mais fiel dos fenômenos naturais” (OECD,
1979: p. 369). Este fato destaca uma vez mais a íntima integração
entre a indústria alimentícia e as firmas químicas e farmacêuticas -
principais fornecedoras de aditivos alimentícios.79
A crescente sofisticação e a difusão das modernas técnicas de
fracionamento que isolam e extraem os componentes nutricionais
dos alimentos básicos para permitir sua subseqüente reconstituição
como produtos finais, irá estender ainda mais esta capacidade de
produzir alimentos industrializados. Um exemplo ilustrativo da
tecnologia alimentar corrente é a introdução de produtos de proteína
à base de soja, tais como os concentrados de soja e os isolados de
soja de proteína quase pura, cujas propriedades funcionais fazem
deles ingredientes alimentares muito versáteis. Um aperfeiçoamento
adicional, também desenvolvido no processamento do feijão-soja,
envolve a aplicação de técnicas de extrusão, desenvolvidas
primeiramente nos têxteis e nos plásticos, à proteína em pó a fim de produzir proteínas vegetais texturizadas, “nome genérico dado a
uma gama de diferentes produtos que vão de fibras a análogos de
carne extruídos” (Pyke, 1981: p. 282).80 Estes novos produtos de
proteína podem ser usados para suplementar a carne natural, daí o
nome de suplementadores de carne, como no caso da carne moída
para hambúrgueres, ou usados completamente como sucedâneos
da carne.81 O produto pode ser “ajustado para fornecer qualquer
valor nutritivo desejado através da adição de outras proteínas,
vitaminas e minerais. Aromatizantes, gorduras, corantes e
aglutinadores podem também ser acrescentados para simular a
aparência, o sabor e a textura da carne, e para reproduzir
características como frescor, suculência, elasticidade e a sensação
de morder carne”. (Chou et al.., 1977: p. 286).
Estas técnicas ameaçam eliminar a identidade de produtos agrícolas
enquanto alimento per se, pondo em seu lugar comidas fabricadas
ou “alimentos de engenharia” (engineered joods). A questão
essencial é formular novos produtos usando ingredientes retirados
apenas de fontes não-convencionais ou em combinação com
insumos de matériasprimas convencionais. Como Chou et al.
destacam:
A preparação, empacotamento, armazenagem e conservação
de alimentos industrializados seriam impossíveis sem agentes
químicos tais como os emulsificadores, os estabilizadores, os
aglutinadores e os aromatizantes. De fato, a tecnologia dos
aromatizantes se aperfeiçoou ao ponto de poder abarcar todos
os aspectos sensoriais do alimento - gosto, textura,
temperatura, aroma e aparência. Deste modo, a linha divisória
entre as indústrias alimentícia e química torna-se cada vez
menos nítida (Chou et al. , 1977: p. 271).
Durante os últimos trinta anos, os alimentos processados cresceram
ao ponto de dominar os padrões de consumo, embora sejam ainda
alimentos tradicionais ou convencionais, refletindo o
conservadorismo dos hábitos alimentares. Entretanto, as modernas
técnicas de fracionamento revelam importantes direções futuras na fabricação de alimentos. Elites vão consistir cada vez mais em
produtos parcial ou totalmente reconstituídos. Estes alimentos
essencialmente industrializados não apenas serão os substitutos
dos produtos rurais originais, mas possuirão propriedades
diferenciadoras e características próprias. Muitos desses alimentos
não-convencionais tais como “creme” não-lácteo para café e
coberturas cremosas sintéticas alcançaram um significativo sucesso
comercial. Os substitutos do leite e dos laticínios, reconstituídos de
proteínas vegetais, gorduras não-lácteas e outros sólidos, estão
substituindo as proteínas do leite líquido nos mercados de leite
condensado e evaporado, de pós para misturas cremosas, de
comida infantil e doces (OECD, 1975). As proteínas vegetais,
especialmente os produtos de soja, também estão ganhando terreno
às custas do leite e dos ovos nas indústrias de pães e biscoitos e de
produtos de confeitaria, já que se adaptam melhor às exigências do
processamento.
A penetração de mercado alcança da pelos novos produtos de
proteína, sejam por si mesmos ou combinados com alimentos
naturais inteiros, refletem vantagens de custo, qualidades dietéticas
e certas qualidades físicas que facilitam seu uso na produção de
“comidas de conveniência” e no setor de refeições industrializadas
em grande escala. As novas proteínas “melhoram as propriedades
dos alimentos aos quais se misturam. Asseguram maior coesão a
eles emulsificando, adensando, estendendo, estabilizando ou
aperfeiçoando as qualidades cremosas. Elas tornam possível fazer
com que um produto fique crocante, pastoso, denso ou espumante”
(OECD, 1975: pp. 35-6). Os aromatizantes e corantes sintéticos
podem ser usados com estas proteínas para imitar o produto
natural. Estas inovações são realmente alimentos industrializados,
tanto em sua concepção quanto no seu processamento, que põe
seu preparo completamente fora do alcance dos recursos de um lar
-”uma refeição completa, desde um primeiro prato de ’carne vegetal’
com molho até a torta de ’creme’, pode ser, teoricamente, preparada
quase inteiramente à base de produtos de soja” (ib.: p. 35).
Todos os alimentos, naturais e sintéticos, são feitos de elementos
químicos e, como vimos, o setor da pesquisa científica voltada para
a indústria está revelando a composição molecular do alimento em
todos os seus aspectos, desde seu comportamento no
processamento industrial até os determinantes bioquímicos do
sabor. Atualmente ocorre uma transição na indústria alimentícia que
se caracteriza por “uma passagem da arte do cozinheiro para o
conhecimento do químico de alimentos” (OECD, 1979: p. 355). Esta
transição contribui para fortalecer ainda mais o processo de
produção industrial relativamente ao processo agrícola, aumentando
a parte do valer agregado que cabe à indústria e reduzindo,
concomitantemente, a importância da terra e de seu produto no
sistema alimentar. Devido ao fracionamento e à reconstituição
industrial, este sistema tornou-se muito mais complexo, com um
número muito mais elevado de passos intermediários de
processamento entre o campo e a mesa. Deste modo, o produto
alimentício final pode estar muito distante de sua forma rural
original. Esta tendência recente do substitucionismo pode ser vista
como um processo de redução, que converte as culturas em
componentes químicos para uso com “blocos de construção” na
fabricação de produtos alimentícios industrialmente reconstituídos.
As técnicas de fracionamento possuem, claramente, um enorme
potencial latente para transformar os setores de processamento
primário e para reestruturar as indústrias químicas e alimentícias.82
Além disto, os efeitos desta reestruturação serão transmitidos,
através de uma conexão para trás, à produção rural, provocando
mudanças importantes no uso da terra à medida em que o
fracionamento aumenta a substituição interprodutos. 83 Este ponto-
chave adquire importância ainda maior pelo fato de que os principais
nutrientes usados como intermediários na indústria alimentar, tais
como as proteínas, os carboidratos e as gorduras, podem ser
facilmente obtidos de matéria vegetal não-alimentícia e, se
necessário, de hidrocarbonos. No interior da indústria alimentar, a
OECD (1979) prevê como resultado último um setor de
processamento que extrai nutrientes básicos e firmas situadas no
final da escala vertical do processo produtivo que recombinam “os
intermediários purificados e estabilizados, de caraterísticas tecnológicas e nutricionais bem definidas, transformando-os em
produtos alimentícios de consumo final”.
Uma variedade mais ampla de possíveis fontes de ingredientes
básicos é algo atraente para os produtores finais uma vez que reduz
sua vulnerabilidade às flutuações dos preços das matérias-primas
ao diminuir sua dependência com relação a cadeias agroalimentares
específicas. Entretanto, ainda que a demanda de intermediários
estabilizados, por parte das firmas situadas nos escalões
descendentes do processo vertical de produção, se constitua num
grande incentivo ao fracionamento, a influência decisiva surge de
dentro do próprio setor de processamento primário. Com suas
margens de lucro tradicionalmente baixas, as firmas deste setor
reagiram aos custos crescentes da energia e aos preços instáveis
das matérias-primas, buscando alcançar a máxima utilização da
matéria-prima, de seus subprodutos e derivados. É esta pressão
substitucionista no sentido de racionalizar a produção, eliminar o
desperdício e descobrir novos usos para os produtos processados
que despertou tanto interesse no potencial comercial das técnicas
de fracionamento, reforçando as complementaridades existentes
entre a microbiologia industrial, a bioquímica e a engenharia
química. Foram estes desenvolvimentos que montaram o cenário no
qual se dá a reestruturação da indústria de processamento alimentar
à medida em que o substitucionismo entra numa nova fase,
sustentado pelos avanços na aplicação industrial da microbiologia e
da bioquímica.
Figura 2.1 O papel dos aditivos numa salsicha comum (Miller, 1985:
p. 49):
Figura 2.1 O papel dos aditivos numa salsicha comum (Miller, 1985:
p. 49)
5 A Equipe de Campanha contra os Aditivos Alimentares (Food
Additives Campaign Team, FACT).
6 Em inglês, healthy products, lit. “produtos saudáveis”. (N. do T.)
7 Em inglês, bátcb production tecbniques, de batcb, quantidade
cozida numa só operação, jornada; por extensão, quantidade de
qualquer material produzida numa determinada operação, ou lote.
(N. do T.)
8 Lei que trata dos assuntos protegidos por sigilo oficial. (N. do T.)
9 Marca registrada: batatinhas fritas empacotadas. (N. do T.)
10 Moeda divisionária da libra inglesa; um centésimo (1/100) de seu
valor. (N. do T.).