Da lavoura às biotecnologias: agricultura e indústria no sistema internacional
Capítulo 5: Conclusão
Neste livro, tentamos desenvolver um quadro analítico de referência
capaz de capturar a dinâmica do sistema agroalimentar como um
todo. Um grande esforço foi feito, portanto, para integrar o que é
freqüentemente tratado como áreas separadas de estudo -
sociologia rural, economia agrícola, ciências políticas e inovação
tecnológica. Essa tarefa tornou-se bem mais difícil, uma vez que
esses campos de conhecimento têm sido dominados por tradições
intelectuais bastante diferentes. O novo quadro de referência
unificador que propusemos deriva-se da singularidade apresentada
pelo ciclo da produção/consumo biológicos do sistema alimentar à
organização industrial. Sentimos que essa abordagem é uma que
nos permite não só entendermos a forma, em particular, pela qual o
sistema alimentar desenvolveu-se historicamente, mas também
avaliarmos a significatividade atual das biotecnologias.
Enfatizamos acima de tudo as maneiras pelas quais as
biotecnologias quebram potencialmente a cadeia que une produtos
agrícolas e seu consumo final. Isso não significa, no entanto, que as
bases tradicionais do sistema alimentar serão necessariamente
solapadas. De fato, capitais industriais organizados em torno de
sistemas agrícolas, de comercialização e de processamento
primário específicos -grãos e criações -, constituíram-se
historicamente no pivô de todo o sistema agroalimentar e
defenderão a sua proeminência atual. Mas o ponto crucial é que
suas biotecnologias oferecem agora estratégias alternativas e
autônomas aos interesses econômicos localizados em pontos
diferentes dentro de uma anteriormente interdependente cadeia de
produção.
E mais, se interesses tradicionais estão, atualmente, reforçando a
sua posição através da diversificação de produtos, o
desenvolvimento desses novos mercados é um resultado direto de
biotecnologias modernas, como no caso do complexo americano de grãos ou das indústrias brasileiras de açúcar. Assim, conquanto os
interesses ligados aos cereais/carne possam ter bloqueado a
expansão da proteína de célula única nos principais países da
OECD, a sua produção tem aumentado no Bloco do Leste, em
países do Terceiro Mundo como o México e Cuba, que começaram
a produção da proteína com a cana-de-açúcar e preços baixos do
petróleo podem reativar os planos de produção no Oriente Médio.
Sistemas agrícolas tradicionais e processadores primários, assim,
defendem-se contra a trivialização de seus produtos através do
aumento da diversificação, mas eles o fazem às custas de
intensificação da competição ao nível dos complexos de produtos:
açúcar-versus-amido-versus-celulose. Mesmo dentro desses
complexos, os elementos decisivos são agora os produtos
’intermediários. É o amido, e não o milho, que é importante e,
portanto, ele pode provir igualmente da batata ou da mandioca.
Em adição, estratégias apropriacionistas podem também assumir
formas completamente novas. Na cidade dormitório de Funabashi,
perto de Tóquio, por exemplo, o supermercado Lalapont está
equipado com sua própria firma de hidroponia vegetal in situ,
enquanto que cientistas franceses prevêem vacas de leite
competindo com fábricas farmacêuticas na produção de produtos
protéicos especializados.
No caso do setor de produtos alimentícios finais, biotecnologias
oferecem a dupla opção de acelerar a substituição através &:
tecnologias de enzimas e de culturas de tecidos e de fazer avançar
a apropriação através de insumos agrícolas feitos “sob medida”. Ao
mesmo tempo, no entanto, biotecnologias incrementam os
prospectos de incorporar produtos agrícolas finais, adequadamente
“engenhados”, ao sistema alimentar.
A versatilidade das biotecnologias, portanto, multiplica as
estratégias para acelerar tanto a apropriação quanto a substituição.
É por essa razão que as maiores transnacionais ligadas ao sistema
alimentar estão se movendo para a biotecnologia, envolvendo-se
simultaneamente em grande número de aquisições, joint ventures e contratos de P&D para garantir seu controle sobre um sistema
agroalimentar em rápida transição.
Se as biotecnologias apresentam novas estratégias para os
diferentes interesses econômicos na cadeia da produção, isso
também é verdade para o consumidor. O seu impacto na sociedade
promete ser nada menos que revolucionário, com a crescente
transformação de “comida” em “nutrição”. Vale a pena enfatizar que
uma maior consciência sobre critérios nutricionais não pode ser
reduzida ao retorno a alimentos naturais integrais. Tais critérios
podem ser igualmente atendidos por uma dieta balanceada de
alimentos bioindustriais ou pelos produtos da agricultura orgânica
adequadamente melhorados através da engenharia genética. Novos
padrões de demanda, portanto, poderiam fortalecer tendências em
favor tanto da apropriação quanto da substituição. O que está claro,
no entanto, é que com os requisitos básicos do consumo fisiológico
de modo geral satisfeitos (embora desigualmente) nos países
industrializados e os alimentos sendo definidos crescentemente de
acordo com os eixos paralelos e potencialmente conflitantes do
prazer e da saúde, a demanda tornar-se-á mais volátil. A
capacidade de responder à demanda, portanto, dependerá
crescentemente de sistemas de produção flexíveis.
Não obstante havermos criticado a tese do “complexo
agroindustrial”, falamos do sistema agroalimentar e analisamos a
Revolução Verde como a internacionalização desse sistema. No
entanto, à medida em que as biotecnologias intensificam as
tendências em direção à apropriação e à substituição, a posição dos
países do Terceiro Mundo dentro do sistema alimentar será
redefinida radicalmente, A continuação do presente estudo bem
poderia dirigir-se a esse tema. As biotecnologias parecem ameaçar
seriamente a participação do Terceiro Mundo nos mercados
mundiais de alimentos: hoje, o açúcar está sendo substituído pela
nova geração de adoçantes; amanhã, a tecnologia de enzimas
poderia simular gostos e cheiros de culturas tropicais e elevar a
qualidade dos óleos produzidos localmente. Em adição, a
biotecnologia vegetal e proteção de cultivos poderiam permitir a produção, no Hemisfério Norte, de culturas “típicas” do Terceiro
Mundo.
Por outro lado, as biotecnologias poderiam criar novos usos para
culturas de exportação marginalizadas como matérias-primas para
indústrias de processamento primário e também aumentar o
conteúdo de nutrientes em culturas de alimentos básicos. De forma
semelhante, a combinação da biotecnologia vegetal com novas
técnicas biológicas de preservação-transporte de produtos agrícolas
poderia estabelecer novos espaços competitivos para as culturas do
Terceiro Mundo nos mercados mundiais. Enquanto as velhas
vantagens comparativas estão sendo corroídas, provavelmente
surgirão novas oportunidades para aqueles países que forem
capazes de estabelecer uma capacidade interna de pesquisa e
desenvolvimento biotecnológicos.
Durante todo este livro, argumentamos que o sistema agroalimentar
pode ser entendido à luz das características biológicas que
governam o processo de produção/consumo agrícolas. Se a
biotecnologia representa um grande avanço qualitativo no sentido
de que a natureza agora pode ser reconstituída industrialmente, isto
significa que o sistema alimentar perde a sua especificidade e está
aberto para assimilação dentro das transformações mais amplas do
sistema industrial? Nós enfatizamos o desenvolvimento da
bioindustrialização, com a crescente transferência e
intercambialidade tanto dos processos químicos quanto de insumos
entre os setores alimentar, químico e farmacêutico.
Em um sentido mais geral, no entanto, o movimento para a
substituição na indústria alimentar teve curso paralelo à mudança
em outros setores fabris, de afastamento das matérias-primas
básicas em direção a “novos materiais” compostos, com
conseqüências negativas semelhantes para a participação dos
países do Terceiro Mundo nos mercados mundiais. O sistema
agroalimentar, portanto, incorpora-se agora à longa tendência da
indústria de trivializar seus insumos, que são produtos primários ou
a natureza. O corolário é o papel fortalecido da P&D e a mudança concomitante das firmas mais importantes em direção à venda da
ciência, tecnologia e serviços ao invés de produtos específicos.
Como argumentamos no Capítulo 3, uma das conseqüências
importantes das biotecnologias é a de acelerar a incorporação da
indústria alimentar, na revolução da microeletrônica, o que,
novamente reforçará a elevação de indústrias baseadas em ciência,
especializadas em serviços. Daí, conquanto a visão de um sistema
alimentar crescentemente integrado em uma bioindústria baseada
na ciência seja suficiente para definir a dinâmica radical das
biotecnologias, mesmo isso pode estar amarrado estreitamente
demais à concepção convencional de estrutura industrial.
À medida em que biotecnologias quebram a especificidade do
sistema alimentar, este também pode ser integrado à tendência em
direção aos serviços, prenunciando uma nova divisão do trabalho
entre o consumidor, o trabalho doméstico e a indústria. Como um
cenário mais apropriado para o futuro, portanto, podemos antever
uma indústria fornecendo uma ampla gama de produtos alimentícios
intermediários para transformação doméstica, via equipamentos
para cozinhar e armazenar programados por computador,
suplementados pela produção doméstica automatizada de hortaliças
frescas. Nessa perspectiva, a biotecnologia e a microeletrônica
marcariam o fim da pré-história da indústria alimentar e a sua
incorporação às dinâmicas mais abrangentes do sistema industrial e
da sociedade pós-industrial.