Da lavoura às biotecnologias: agricultura e indústria no sistema internacional
Capítulo 3: Novos rumos em apropriacionismo e substitucionalismo: as bioindústrias emergentes
Capítulo 3 - Novos rumos em
apropriacionismo e substitucionismo:
as bioindustrias emergentes
Introdução
Descrevemos, nos capítulos precedentes, apropriacionismo e
substitucionismo como resposta industrial específica à resistência
do processo biológico da produção agrícola à transformação
industrial direta. As características da indústria agroalimentar foram,
portanto, moldadas pelos avanços nos conhecimentos científicos e
tecnológicos e sua aplicação aos processos de produção rural. No
primeiro período, de modo geral anterior a 1930, o confronto da
indústria com a agricultura deu origem a padrões relativamente
autônomos de intervenções mecânicas e químicas. Vimos,
adicionalmente, como um importante avanço qualitativo, embora
localizado, no controle do capital industrial sobre o processo de
produção biológica -as sementes híbridas -levaram a uma
reorientação importante na dinâmica do apropriacionismo industrial.
Essa inovação genético-química promoveu maior convergência
entre os ramos da agroindústria e estabeleceu a hegemonia da
indústria química. No entanto, o desenvolvimento de biotecnologias
modernas constitui um avanço generalizado na capacidade dos
capitais industriais de manipular a natureza. Precisamos, portanto,
examinar o impacto dessas inovações recentes nos padrões atuais
de apropriação e substituição. Será o principal efeito das novas
biotecnologias a aceleração das tendências atuais no sentido de sua
convergência? Ou, alternativamente, virá esse potencial novo e
revolucionário da industrialização da natureza expor os conflitos
latentes entre as estratégias alternativas de apropriação e
substituição? O presente capítulo ponderará sobre essas questões, a partir do impacto de biotecnologias recentes no apropriacionismo
e substitucionismo.
Os fundamentos dessas recentes e poderosas técnicas científicas
foram estabelecidos pelos avanços espetaculares em genética
molecular feitos nos anos 50 e princípios de 60, que começaram a
se traduzir em métodos de engenharia genética notavelmente mais
simples e rápidos nos primeiros anos da década de 1970 (Cherfas,
1982). Indústrias importantes, cujo desenvolvimento tecnológico
tinha sido até então virtualmente separado, descobriram
repentinamente que possuíam bases tecnológicas superpostas ou,
pelo menos, contíguas. Por exemplo: biotecnologias são tão
relevantes para o cientista de alimentos que utiliza processos de
fermentação quanto para o geneticista, criando uma ligação
considerada anteriormente, na melhor das hipóteses, como tênue
(Buli et al., 1982). No entanto, o alcance da biologia molecular via
aplicações industriais da engenharia genética e molecular é muito
maior do que até mesmo esse exemplo sugere: alcança todas as
indústrias que usam ou poderiam usar materiais biológicos em lugar
de recursos não renováveis. Essas incluem as indústrias
energéticas, químicas. farmacêuticas, alimentares e de bebidas,
agrícolas e de tratamento de dejetos. Biotecnologias modernas
prometem redefinir as linhas demarcatórias e as barreiras
tecnológicas, trazendo uma reestruturação de larga escala a esses
importantes setores. Tais transformações estruturais, e as novas
indústrias que surgirão em sua conseqüência à medida em que as
biotecnologias passem a ser totalmente exploradas, podem ser
descritas como um processo de bioindustrialização.
Esse processo vem ganhando impulso significativo em virtude das
tendências políticas e econômicas das duas últimas décadas. A
formação do cartel da OPEP e os choques de preços do petróleo
dos anos 70 expuseram a clara dependência das economias
industriais ocidentais aos recursos hidrocarbônicos fósseis não
renováveis. Cenários pessimistas, elaborados por grupos
especializados em “avaliações futuras”, também levantaram o
espectro dos limites dos recursos para o crescimento. A preocupação, em círculos oficiais, com a rápida exaustão dos
recursos como uma possível restrição aos padrões de vida
ocidentais foi reforçada por crescentes evidências científicas quanto
aos altos custos sociais da poluição ambiental e degradação
ecológica associados às tecnologias intensivas em petróleo usadas
na indústria e agricultura moderna.84 Tais evidências. vêm sendo
crescentemente utilizadas para alimentar campanhas públicas a
favor de controles ambientais mais rígidos e para dar maior
substância às críticas ao consumismo desenfreado das sociedades
pós-industriais e seus efeitos adversos sobre a ecologia e a fome no
Terceiro Mundo. 85 Essas questões entraram agora na arena política,
levando à emergência de Partidos Verdes em alguns países
industriais avançados.
Nesse contexto, o advento de biotecnologias modernas promete
reforçar alguns padrões do apropriacionismo e aliviar as
conseqüências ecológicas adversas da moderna agricultura
intensiva em energia. Já havíamos ressaltado o impacto ambiental
adverso dos padrões históricos do apropriacionismo, que
transformaram a base energética da agricultura através da
mecanização e do uso de fertilizantes inorgânicos e agroquímicos.
Esse impacto adverso engloba, entre outros, a erosão do solo 86 e a
diminuição de sua fertilidade natural, que exige aplicações
progressivamente maiores de fertilizantes para manter a
produtividade, 87 a destruição da fauna e da flora por agroquímicos e
a perda da diversidade genética devido à difusão das variedades de
alta produtividade (HYV). Como observa Perelman (1977: p. 11), “…
agricultura moderna, estilo americano, consiste em transformar
combustíveis fósseis em alimentos… para cada caloria de alimentos
colhida, são queimadas 2 1 /2 calorias de combustível fóssil”. A crise
da OPEP trouxe à luz esse modelo intensivo em energia e o
processo produtivo anárquico criado pelas intervenções parciais e
ecologicamente desbalanceadoras da apropriação industrial.
Sistemas modernos agroindustriais não são mais vistos como um
mal necessário em um mundo industrializado, mas cada vez mais
como uma ameaça ao meio ambiente -que permanece sendo o
elemento vital na produção agrícola.
Essas tendências ressaltaram grandemente o significado comercial
de tecnologias que reduzem ou eliminam os altos custos
econômicos e ambientais da dependência em matérias-primas de
petróleo não renováveis. Tal reorientação, dirigida para as
matériasprimas biológicas, implica também em grandes mudanças
correspondentes no uso dos recursos na agricultura, à medida em
que as biotecnologias aumentam a eficiência da conversão da
biomassa em produtos agrícolas, combustíveis e produtos químicos.
A partir de meados de 1970, verbas públicas para a pesquisa,
fundos privados de pesquisa e desenvolvimento e capital de risco
vêm sendo atraídos em escala crescente para as disciplinas da
biociência básica e engenharia bioquímica, preocupadas com
inovações de produtos e processos nas indústrias que usam
matérias-primas renováveis.88 O ritmo do processo científico vem se
acelerando rapidamente e, com a aplicação do poder financeiro de
grandes companhias transnacionais de petróleo, químicas e
farmacêuticas, uma revolução técnica está em andamento no
melhoramento de plantas, nos agroquímicos e na indústria de
alimentos. As novas direções do apropriacionismo
e.substitucionismo, ditadas pelas inovações de produtos e
processos das modernas biotecnologias e a reestruturação que
essas provocarão em indústrias afins delineiam o tema central deste
capítulo.
Novos rumos em apropriacionismo
transcendendo as barreiras das espécies
No Capítulo 1, vimos como a genética mendeliana criou as bases
para um avanço importante na apropriação industrial da agricultura
via sementes de milho híbrido e variedades de alta produtividade
(HYV). Agora existe o prospecto de uma transformação ainda mais
fundamental em melhoramento de plantas, à medida em que
cientistas agrícolas procuram aplicar técnicas de engenharia
genética recombinante ou “separação de genes”. 89 Esse novo turno
de inovações assenta-se sobre pesquisas em genética bioquímica
molecular, inclusive a famosa solução de Crick e Watson para a estrutura da molécula do ADN -ácido desoxirribonucléico -publicada
em 1955, bem como trabalhos subseqüentes sobre o código
genético. 90 No entanto, a exploração comercial da nova genética
molecular foi retardada até os primeiros anos de 1970 e o
desenvolvimento do “ferramental do engenheiro genético”, que
simplificou grandemente a manipulação de material genético e a
combinação de fragmentos do ADN de diferentes organismos e
espécies. 91 A formação de uma molécula de ADN composto ou
recombinante é alcançada pelo uso de vetores, como plasmídeos
bacterianos ou viróticos, que agem como veículos para transferir
genes entre organismos. Engenharia genética direta como essa
desenvolveu-se mais rapidamente nas aplicações a células
bacterianas e animais. Embora os princípios da inserção de genes
estranhos seja o mesmo, os trabalhos com células vegetais tiveram
um progresso mais lento inicialmente, mas essa diferença vem
sendo diminuída agora em um ritmo muito mais rápido do que o
previsto.
O renovado interesse corporativo pela biotecnologia, evidente desde
os últimos anos da década de 1970, reflete a percepção crescente
de que os novos métodos do ADN recombinante e da fusão de
células estabeleceram uma tecnologia genérica e de base ampla
para a manipulação genética seletiva, expandindo grandemente o
potencial industrial da microbiologia aplicada. Essa tecnologia
confere a capacidade geral para o desenho de mudanças genéticas
para ganho comercial. O maior poder dessa nova tecnologia de
manipulação genética sobre as técnicas mais antigas de
mutagênese e de seleção de linhagens deriva-se do fato de que os
métodos recombinantes permitem que segmentos do ADN de um
organismo sejam incorporados e expressos no ADN de outro. Por
superar as “barreiras das espécies” às variações genéticas, as
novas técnicas do ADN recombinante e da fusão de células
permitem uma abordagem mais unificada, quebrando a
especificidade dos métodos de pesquisas usados anteriormente nos
diferentes campos da microbiologia aplicada (Bull et al., 1982). Avanços recentes dão apoio à caracterização da biotecnologia como
um “agrupamento” ou um “complexo” de técnicas inter-relacionadas,
com aplicações estendendo-se sobre um amplo espectro de
atividades intersetoriais.
A engenharia genética de plantas prenuncia potencialmente uma
nova era na apropriação industrial da agricultura. Essa asserção
estará amplamente justificada se as novas técnicas cumprirem a
sua promessa de libertar os melhoradores de plantas de sua
dependência no processo natural de fertilização sexual como o
único caminho para os cultivares aperfeiçoados. “Com poucas
exceções, o melhorador convencional de plantas só pode manipular
os genes e cromossomos das plantas dentro dos parâmetros da
natureza, isto é, dentro dos limites da reprodução sexual” (CRS,
1984: p. 4). A engenharia genética, em princípio, expandirá
grandemente a base genética ao permitir que “os melhoradores de
plantas introduzam genes derivados de qualquer planta, animal ou
microorganismo nas variedades de culturas” (Shaw, 1984: p. 817). A
remoção das barreiras das espécies tornará acessível aos
melhoradores de plantas as características genéticas desejáveis
não encontradas no germoplasma natural. A introdução desses
métodos industriais para alcançar diversidade genética promete
trazer mudanças radicais à pesquisa de melhoramentos de plantas,
permitindo o desenvolvimento de cultivares adaptados a ambientes
menos dotados, ou pobres de recursos, e a sistemas agronômicos
menos intensivos em energia.
É prematuro sugerir que os melhoradores de plantas estarão, hoje,
em condições de aproveitar todo o potencial da engenharia
genética. Lacunas significativas em pesquisas de genética
molecular vegetal estão ainda por ser superadas e as técnicas
contemporâneas continuam a encontrar dificuldades em conseguir a
transferência de genes, a sua expressão e regeneração das células
em plantas sadias (BOSTID, 1982; Rachie e Lyman, 1981). O ritmo
de progresso, não obstante, vai-se acelerando rapidamente e o
âmbito das aplicações comerciais já excede de longe as projeções
iniciais.
Essa aceleração está evidente na pesquisa das plantas
dicotiledôneas ou de folhas largas, que incluem a maioria das frutas
e verduras. Sucesso em expressão genética e regeneração vegetal
têm sido relatados em experimentos que usam plasmídeos
indutores de tumores, ou Ti, obtidos de bactéria do solo
Agrobacterium tumefaciens, como vetor para transferir o ADN para
as células das plantas de fumo (CRS, 1984; Shaw, 1984). Sistemas
de vetores de genes para o outro ramo mais importante das plantas
que possuem flores, as monocotiledôneas, que abrangem os
principais grãos alimentares (milho, arroz, trigo) e todas as
gramíneas, têm sido mais difíceis de estabelecer, mas também esse
obstáculo vem sendo agora eliminado. 92
Ao mesmo tempo, biotecnologias vegetais algo mais antigas, em
particular as técnicas de micropropagação que usam métodos de
cultura de células e tecidos, têm-se tornado um complemento
progressivamente mais importante para os programas
convencionais de melhoramento (BOSTID, 1982). Com essas
técnicas de reprodução assexual, células são isoladas dos tecidos
vegetais e postas a crescer em solução nutrientes, obtendo-se
assim um meio mais controlado para selecionar as características
mais desejáveis e acelerar a sua propagação. Congênitos
instantâneos que são verdadeiramente linhagens puras para
cruzamento podem ser obtidos, reduzindo o tempo necessário para
desenvolver novas variedades (como no caso da cevada de inverno,
que diminuiu de doze para cinco anos (Kasha e Reinbergs, 1980).
Os métodos de cultura de tecidos, por evitar o processo sexual
normal de fertilização, criaram novas maneiras de alterar a
diversidade genética das plantas, inclusive a seleção de linhagens
melhoradas e mesmo a criação de novidades em cultivares retirados
de células mutantes naturalmente ocorridas.93 Na atualidade, por
exemplo, a indução e seleção de mutantes úteis ao nível celular
para a tolerância à salinidade e toxidez do alumínio “…é,
provavelmente, a abordagem mais promissora para o melhoramento
do arroz” (Swaminathan, 1982: p. 51).
Algumas aplicações de “biotecnologias vegetais modernas”
O surgimento do notável interesse de corpo rações por firmas de
genética vegetal e companhias de sementes, no entanto, não foi
encorajado por esses resultados já alcançados em biotecnologia
vegetal, mas sim pelas perspectivas futuras de que a engenharia
genética de células vegetais revolucionarão os sistemas de
melhoramento de plantas e de manejo das culturas.94 Ao remover
as barreiras de espécies à reprodução das principais culturas
comercializadas no mundo, essas técnicas provocarão profundas
mudanças nas estruturas atuais e nos alinhamentos corporativos
dos negócios agrícolas internacionais. Vários exemplos sugerem
esse potencial revolucionário e os altos interesses comerciais
envolvidos.95 Como já salientamos, permanecem ainda sérios
obstáculos antes que a engenharia genética do ADN vegetal se
estabeleça como um método prático de melhoramento de plantas,
mas esses exemplos indicam a direção geral em que as pesquisas
estão se movendo.
Fixação biológica do nitrogênio
A possibilidade de incorporação da capacidade biológica da fixação
do oxigênio nos grãos alimentares mais importantes chamou grande
atenção desde a crise do petróleo da OPEP de 1973, com a
quadruplicação subseqüente dos seus preços internacionais. Esses
eventos trouxeram ênfase à oferta finita dos combustíveis fósseis e
a precariedade das fundações dos sistemas agrícolas baseados em
insumos químicos custosos, derivados de recursos não-renováveis.
O nitrogênio fixado quimicamente é “o maior insumo industrial
isolado, e o mais caro, dependendo de energia fóssil para a
produtividade agrícola. Até 35% da capacidade produtiva de todas
as culturas são atribuídas a apenas esse insumo. Ele é a fonte da
maior parte da proteína alimentar.” (Wittwer, 1980: p. 9). Esse
vínculo crítico entre a oferta de energia e a produção agrícola no
contexto dos preços do petróleo em elevação fornece o raciocínio
comercial para intensificar a pesquisa sobre fixação biológica do
nitrogênio (FBN).
A dependência em fertilizantes químicos como fonte de nitrogênio é
devida ao fato de que as plantas são incapazes de assimilar
nitrogênio, a menos que ele tenha sido fixado, ou combinado, com
outros elementos, como hidrogênio, carbono ou oxigênio. Um
número limitado de microorganismos, no entanto, pode fixar o
nitrogênio, reduzindo-o diretamente a amônia, que pode então ser
assimilada diretamente pelas plantas. Alguns desses
microorganismos são capazes de fixar O nitrogênio quando em vida
livre, ao passo que outros formam associações simbióticas com as
plantas, como no caso das bactérias do gênero Rbizobium e plantas
hospedeiras da família das leguminosas, que inclui a soja, o trevo e
os feijões. 96 Nas pesquisas em andamento, podem ser identificadas
duas abordagens principais sobre a FBN. A primeira delas tem por
objetivo aumentar a produtividade das leguminosas hospedeiras
através do uso de engenharia genética para melhorar a capacidade
da bactéria (Rbizobium) de fixar o nitrogênio. Conquanto esse
objetivo pareça atingível, a segunda e mais ambiciosa abordagem é
a de usar técnicas de engenharia genética para estabelecer novas
associações entre bactérias fixadoras de nitrogênio e espécies de
plantas, como os cereais, que atualmente dependem quase que
exclusivamente de produtos químicos para obtê-lo. Este é um
projeto de longo prazo, quando menos porque “o sistema de fixação
do nitrogênio inclui pelo menos 17 genes… e é muito cedo para
saber se a manipulação desse grande número de genes é factível”
(Swaminathan, 1984: p. 30).97 Apesar dessas dificuldades, as
perspectivas de altos retornos para as companhias de sementes
bem-sucedidas sugerem que as pesquisas visando à transferência
de um sistema de fixação de nitrogênio para os cereais continuarão
no mesmo ritmo.98
Culturas resistentes a herbicidas e às pragas
Outros exemplos ilustrativos da aplicação comercial da engenharia
genética incluem a introdução de culturas resistentes aos herbicidas
e às pragas, o desenvolvimento de variedades de cereais mais
nutritivas e a melhor adaptação de culturas às especificações da
indústria de processamento alimentar. Pesquisas para desenvolver variedades de soja resistentes ao herbicida atrazine estão em
andamento, à medida em que as firmas competem por um mercado
cujo tamanho é estimado em 93 milhões de dólares apenas nos
Estados Unidos (Teweles, 1983). Da mesma forma, a firma de
engenharia genética Calgene, com apoio financeiro da Allied
Chemicai e da Continental Grain Company, conseguiu isolar “um
gene que confere resistência ao Roundup, um herbicida
desenvolvido pela Monsanto,… e espera criar plantas resistentes ao
Roundup, especificamente o algodão, até 1989” (CRS, 1984: p. 30).
A engenharia de cultivares resistentes às pragas é uma
possibilidade adicional, e a maior parte das atenções está orientada
para as toxinas produzidas pelas linhagens da bactéria Bacillus
thuringiensis, que estão no mercado como inseticidas biológicos
patenteados. Em pesquisas realizadas na Universidade de Ghent,
financiadas pela firma de produtos químicos americana Rohm and
Haas, um gene que dá os códigos para a toxina dessa bactéria foi
bem sucedido ao ser incorporado a plantas do fumo. Testes de
campo estão agora em andamento, mas o objetivo final é o de se
aplicar essa técnica aos grãos alimentares mais importantes e
desenvolver, por exemplo, um trigo livre de afídios (The Economist,
6.4.85).
O prosseguimento da convergência de apropriacionismo e do
substitucionismo é revelado pelas aplicações da engenharia
genética para viabilizar culturas alimentares com características
específicas de interesse dos processadores. Esforços estão sendo
feitos, no Plant Breeding Institute, na Inglaterra, para incorporar, na
cevada, genes que produzirão enzimas necessárias no processo de
maltização da fermentação. Nos Estados Unidos, tanto a H. J. Heinz
Company como a Campbell Soup Company estão financiando
pesquisas de ADN recombinante para modificar textura, gosto, cor e
forma dos tomates. Aproximadamente 70 % da produção americana
são industrializados, e os “processadores comerciais estão
interessados primordialmente nas partes volumosas ou carnudas,
que constituem apenas 5 % do tomate, enquanto que os restantes
95% são constituídos por água” (CRS, 1984: p. 44). Um consultor de
indústrias estima que um aumento de apenas 1 % na proporção de sólidos no tomate adicionaria 77 milhões de dólares ao valor dos
tomates processados nos Estados Unidos (Teweles, 1983).
Biotecnologias modernas estão também sendo aplicadas pela
Agrigenetics Corporation para melhorar o teor de proteína em
cereais deficientes em aminoácidos essenciais à nutrição humana e
animal.
A apropriação privada da engenharia genética vegetal
A semente, como esses exemplos prontamente indicam, é o
“sistema de entrega” das novas biotecnologias vegetais. Assim, a
aquisição dos direitos de patente sobre os cultivares melhorados
contém a chave para o controle do processo de produção agrícola e
para a dominação do mercado de insumos agroindustriais. Atraídas
para essas oportunidades de lucro, as firmas mais importantes de
produtos químicos, farmacêuticos e de processamento de alimentos
vêm assumindo controle de companhias comerciais de sementes e
de firmas de pesquisas genéticas em uma escala significativa nos
últimos anos, como veremos a seguir.99 As grandes corpo rações
perceberam rapidamente que para explorar essas oportunidades
seria vital combinar pesquisas genéticas com a capacidade de
melhoramento de plantas e com redes de comercialização. Como
observa Teweles (1983: p. 519), “novas companhias de ciências
agrícolas acharão vantajoso participar na comercializá-lo final da
ciência via sementes”.
Para companhias de amplos interesses em agroquímicos,
processamento alimentar e pesquisas e desenvolvimento (P&D) em
microbiologia, a aquisição de firmas de sementes e aplicações em
pesquisa genética oferecem ainda um grau adicional de integração
vertical. Essas aquisições podem também ser vistas como
elementos integrais de uma estratégia de diversificação corporativa,
particularmente para as companhias que produzem fertilizantes e
biocidas (herbicidas, fungicidas e pesticidas). 100 Os mercados para
esses produtos foram duramente afetados pelos aumentos nos
preços do petróleo, pelos protestos ecológicos e pelas
crescentemente rigorosas exigências dos regulamentos, que elevaram drasticamente os custos e riscos do desenvolvimento de
novos produtos agroquímicos sintéticos (Braunholtz, 1981).
No entanto, a aquisição de companhias de sementes e firmas de
genética vegetal pode ser similarmente usada para manter e ampliar
significativamente os mercados para insumos químicos
convencionais. Com as novas biotecnologias vegetais, poderia ser
possível desenhar variedades de plantas que utilizam mais
eficientemente o fertilizante químico colocado no solo e que são
compatíveis com os biocidas agroquímicos patenteados. A absorção
melhorada do nitrogênio fixado quimicamente poderia compensar as
vantagens da fixação biológica que, de qualquer forma, absorve
energia das plantas e resultaria em produtividades menores.
Pesquisas correntes para desenvolver variedades melhoradas
resistentes a herbicidas patenteados tais como o Roundup
constituem exemplos ainda mais eloqüentes. Em suma,
biotecnologias vegetais podem ser usadas para fortalecer, ao invés
de enfraquecer, a dependência da produção de alimentos e fibras
nos agroquímicos sintéticos tradicionais. Assim como na Revolução
Verde, os novos cultivares novamente formarão o núcleo de
“pacotes tecnológicos”, mas as sementes originárias da engenharia
genética garantirão que os fazendeiros ficarão muito mais presos
aos agroquímicos patenteados.
Esses interesses comerciais em expansão terão uma profunda
influência na difusão de novas biotecnologias e nas direções futuras
da pesquisa. Swaminathan (1982: p. 39) expressou receios a
respeito do “crescente sigilo ligado à pesquisa biotecnológica em
virtude de considerações comerciais”. Uma preocupação correlata é
que as atividades privadas de melhoramento de plantas estão
deslocando instituições públicas como a força dominante de
desenvolvimento varietal e pesquisas biotecnológicas avançadas.
Assim, afirmam Kenney et al. (1983: p. 486) que “a alta intensidade
de capital do melhoramento vegetal relacionado com a biotecnologia
tornará o melhoramento vegetal público antiquado, vis-à-vis a sua
contra parte mais bem financiada do setor privado”. A concentração
do desenvolvimento varietal em mãos privadas permitiria que as companhias de sementes seguissem estratégias monopolistas de
preços na difusão de variedades patenteadas aperfeiçoadas
geneticamente.
A evidência de que a lógica da inovação biotecnológica, com a sua
alta necessidade de capital, períodos longos e arriscados de
gestação e necessidade de sistemas extensivos de distribuição,
está alterando o seu centro de gravidade amplamente em favor das
corporações multinacionais e citadas no “Fortune 500” é
inescapável. 101 Essas corpo rações estão concentradas nas
indústrias usuárias em potencial da biotecnologia -farmacêutica,
química, energia, alimentos, bebidas -mas não exclusivamente
nelas. As grandes corporações, utilizando-se de suas experiências
em P&D, vastos recursos e métodos flexíveis de financiamento,
dominam atualmente a biotecnologia comercial e, progressivamente,
a direção da pesquisa fundamental. Essa dominação, que estende-
se ao espectro das biociências, foi conseguida pela aquisição de
lotes de ações ou controle integral de firmas de pesquisas
genéticas, formação de joint-ventures ou sociedades limitadas de
P&D, pelo financiamento, com capital de risco, de firmas privadas
que investem em biotecnologia, contratos de pesquisas com
universidades e expansão de suas próprias atividades de P&D.102
Essas alternativas de envolvimento são, freqüentemente, seguidas
simultaneamente, como no caso da Monsanto, ICI, Hoechst e W.R.
Grace.
Como um resultado, a maior parte das mais avançadas firmas de
P&D em biotecnologia e “mesmo muitas das companhias
relativamente pequenas de biotecnologia, são, efetivamente,
transnacionais em termos de âmbito de ação e impacto de suas
atividades, direta ou indiretamente, através de ligações com
transnacionais que operam em todo o mundo (Morehouse e Dembo,
1984: pp. 1-48-49). Por exemplo, uma das novas firmas líderes em
pesquisas biotecnológicas, a Biogen, foi formada por iniciativa da
International Nickel, hoje Inco Ltd., que atraiu outros capitais de
risco da Schering Corporation, da Monsanto e da Grand
Metropolitan. A internacionalização da biotecnologia também está evidente no caso de uma firma líder norte-americana, a Genetech:
“Além de Eli Lilly, a Genetech mantém ligações correntes com várias
corporações transnacionais de diferentes setores industriais,
inclusive com a Hoffman La Roche, AB Cabi, Monsanto Company,
Corning Glassworks, Hewlett Packard, Fluor Corporation, Lubrizol
Corporation, Alva Laval AB e Volvo (ib.: p. 48).
Exemplos das conexões corporação-universidade são mostradas na
Tabela 3.1; tal lista poderia ser multiplicada várias vezes, e incluiria
a maior parte das mais importantes companhias químicas,
farmacêuticas e de energia. Apesar de os detalhes específicos dos
contratos variarem, eles podem incluir pesquisas em colaboração
entre cientistas das universidades e das corporações e acordos de
pesquisas que alocam os direitos de patente às universidades e os
de licenciamento e desenvolvimento comercial à corpo ração que
proporcionou O apoio financeiro. Os esforços internos de pesquisas
em biotecnologia das grandes corporações estabelecidas são
detalhados demais para serem expostos individualmente, mas
existe ampla evidência de que essas atividades estão sendo
intensificadas. Isso pode ser exemplificado pelo complexo de
pesquisas de 85 milhões de dólares recentemente estabelecido pela
Du Pont, que será devotado principalmente ao desenvolvimento de
novos produtos farmacêuticos e agroquímicos. Na Europa
Ocidental, a tendência em direção à pesquisa em suas próprias
instalações pelas corporações químicas e farmacêuticas gigantes
tem sido reforçada pelo apoio governamental, dada a fragilidade dos
laços das universidades com a indústria e o número limitado de
novas firmas de biotecnologia. Grandes corporações que receberam
esse tipo de assistência incluem a ICI e a Tate & Lyle na Grã-
Bretanha e a Hoechst na Alemanha Ocidental. Apoio estatal para
iniciativas corporativas também está subjacente na decisão do
governo britânico de privatizar a National Seeds Development
Organization (Organização Nacional para o Desenvolvimento de
Sementes) do Plant Breeding Institute no Reino Unido. Para a ICI,
uma das principais competidoras, essa aquisição reforçaria a sua
compra, em 1985. da Garst Seeds. Significativamente, o chefe do
novo International Seeds Business da ICI é também o presidente da Divisão de Proteção Vegetal da Companhia (Financial Times,
18.3.1986). Também no Japão são as maiores companhias as mais
ativamente envolvidas na exploração comercial das aplicações da
biotecnologia e elas, mais uma vez, têm sido as principais
beneficiárias de verbas públicas.
Tabela 3.1 - Grandes contratos entre companhias e universidades
Contrato Universidade Valor do Ano Descrição
contrato do
acordo
Celanese Yale USS 1982 Pesquisa
1,1 básica em
milhão enzimas
em 3
anos
Du Pont Harvard USS 8 1981 Pesquisa
Medical milhões genética
School em 5 fundamental
anos
Engenics Stanford, MIT, USS 1981 Engenharia
(a) Califórnia 2,4 Química e
milhões pesquisa em
em 4 biotecnologia
anos
Exxon MIT USS 7 1979 Estudos de
e 8 métodos de
milhões combustão
em 10 mais
anos eficientes e
não-poluentes
Hoechst Massachusetts Pelo 1980 Criação do
General menos Departamento
Hospital USS 70 de Biologia
(filiado à milhões Molecular
Harvard em 10
Medical anos
School)
Leicester Leicester USS 1983 Genética de
Biocentre 1,25 fermentos
(b) milhão
em 5
anos
Monsanto Washington Pelo 1982 Pesquisa
University, menos básica e
St.Louis USS orientada
23,5 para produtos
milhões sobre
em 5 proteínas e
anos peptídeos
Monsanto Oxford USS 1983 Química do
University 1,2 açúcar
milhão
em 5
anos
Pharmacia Uppsala USS 4 1982 Biologia
milhões molecular
em 6
anos
(a) A Engenics é uma "joint venture" da Bendix, General Foods,
Koppers, Noranda Mines e Elf Aquitaine.
(b) O Leicester Biocentre é uma joint venture da John Brown,
Dalgety-Spillers, Dístillers Gallaher e Whitbread.
Fonte: Financial Times, 11.9.84
A concentração do controle pelas grandes corporações está
tornando-se rapidamente uma realidade na indústria de sementes
comerciais. Um observador comenta que “é bastante certo que…
apenas as mais fortes e ágeis companhias independentes de
sementes ou aquelas que são subsidiárias de multinacionais que
possuem seus novos departamentos de ciências agrícolas contarão,
no futuro” (Teweles, 1983: p. 520). De acordo com a mesma fonte,
as corporações mais importantes adquiriram acima de 75
companhias de sementes nos últimos anos. Aquisições feitas no
início dos anos 70 parecem ter sido estimuladas por estratégias de
integração vertical, especialmente no caso das companhias agroquímicas cujos produtos freqüentemente são específicos para
certas culturas ou mesmo variedades (Kenney et al., 1983).
Incentivos comerciais tinham sido anteriormente fortalecidos pela
aprovação da Lei de Proteção de Cultivares (US Plant Varieties
Protection Act) em 1970, alguns anos depois da aprovação de leis
similares na Europa Ocidental. A tomada subseqüente de firmas de
sementes, investimentos acionários e contratos de pesquisas em
novas companhias de P&D refletem o crescente interesse comercial
em biotecnologia e as vantagens adicionais de ganhar acesso a um
novo e importante campo de avanço tecnológico. Algumas
multinacionais que tomaram parte na primeira onda de aquisições
de companhias de sementes foram a Royal Dutch Shell, Ciba-Geigy,
Sandoz, Pfizer e UpJohn (ver Tabela 3.2). Compradores mais
recentes incluem Atlantic Richfield, Elf Aquitaine, ITT, ICI e Lafarge
Coppee. Estes nomes sugerem a lucratividade potencial das
biotecnologias vegetais e as barreiras contra novas entradas que
provavelmente serão levantadas pelos pesados dispêndios em P&D
de cultivares melhorados.
Tabela 3.2 - Aquisições de companhias de sementes e
investimentos de grandes corporações
Corporações Companhia de Sementes (a)
Royal Dutch Nickerson
Shell Sandoz Northrup King
Ciba-Geigy Pfizer Funk Seed International Trojan
Rorer Amchen Jacques
Upjohn Asgrow
Cargill PAG
Celanese Celpril; Moran; e Joseph Harris (b)
Elf Aquitaine ITI St. Jeannet Lassere
Atlantic Richfield Burpee
ICI Dessert
Lubirzol Garst
Lafarge Coppee Sigco Wilson Hybrids; Orsan
(a) Podem incluir subsidiárias completas ou firmas em que grandes
corporações mantêm controle significativo.
(b) Estas companhias foram vendidas pela Celanese em dezembro
de 1984 à Lafarge Coppee, grupo internacional baseado na França.
Fonte: Teweles (1983); Kenney et al. (1983) e relatos pela imprensa.
Para esse fim, grandes companhias químicas e farmacêuticas
européias estão atualmente fazendo uma campanha vigorosa para
que a proteção de patentes seja estendida às variedades de plantas
desenvolvidas utilizando as novas técnicas de engenharia genética.
Na Europa, ao contrário dos Estados Unidos, novas variedades de
plantas não podem ser patenteadas no momento, apesar de a
posse ser garantida pelos direitos dos “melhoradores”; uma
profunda revisão da Convenção Européia de Patentes, de 1973,
seria necessária para mudar essa posição. Se isso ocorresse, os
produtores convencionais poderiam se encontrar em sérias dificuldades, uma vez que as grandes corpo rações argumentam
que, para garantir um retorno satisfatório à sua P&D, as patentes
deveriam proteger tanto o gene criado quanto as plantas nas quais é
incorporado (Dickson, 1985). Isto é, a patente cobriria não apenas a
variedade original mas também novas variedades desenvolvidas
dessa linhagem subseqüentemente. No momento, os direitos dos
produtores aplicam-se às novas variedades, mas não às
variedades-mãe das quais se originaram.
Esta breve discussão ressalta o renovado vigor do apropriacionismo
em luta para subjugar o processo biológico da produção agrícola ao
controle industrial direto. Apesar de ainda em estágio experimental,
as novas biotecnologias vegetais oferecem uma miríade de
oportunidades de ganho comercial, seja por deslocar os fertilizantes
químicos convencionais, seja por criar cultivares totalmente
dependentes de agroquímicos patenteados. Engenharia é uma
metáfora adequada para descrever um processo tecnológico que
promete reduzir a semente ao status de um insumo industrial,
sujeito a mudanças de “projeto” precisamente controladas para
atender às considerações comerciais.
As inovações em perspectiva, originárias da engenharia genética
vegetal, também revelam a continuidade histórica do
apropriacionismo. Primeiro, em sua ação para eliminar os
parâmetros que governam o processo de produção biológica, neste
caso, a “barreira das espécies” à diversidade genética e
melhoramento das culturas. Segundo, enquanto a terra continua a
ser um elemento material da produção, como uma “máquina”
através da qual as culturas são processadas, as inovações
iminentes em melhoramento de plantas representam um passo
adicional significativo em direção ao seu controle direto pelo capital
industrial. A eficiência dos sistemas de produção baseados no meio
rural é valorizada, enquanto que o papel da terra declina
concomitantemente. Esse aparente paradoxo fica resolvido quando
se reconhece que a tendência intrínseca dessas inovações é a de
diminuir a influência da qualidade da terra e do ambiente fisico-
químico como determinantes da produção e da produtividade.
Como vimos, as variedades de alta produtividade (HYV) da
Revolução Verde reduziram a importância relativa da terra no
processo de produção rural. O alcance do completo potencial
genético para a alta produtividade possuído por essas plantas
delicadas e “feitas sob medida” depende fortemente de insumos
industriais, como pesticidas, para reduzir o estresse ambiental e
estabelecer condições favoráveis ao crescimento. Essa abordagem
de “recursos abundantes” para a produção agrícola coloca um alto
valor na criação de ambientes férteis e controlados para genótipos
cuidadosamente adaptados a essas condições por programas
seletivos de melhoramentos 103 (Boyer, 1982). Como efeito, “a maior
parte das variedades de alta produtividade de trigo, milho e arroz…
é inaplicável para grandes áreas do mundo em desenvolvimento em
virtude das condições adversas de solo, como acúmulo de sais,
excesso de ferro e alumínio ou alta acidez” (Brady, 1982: p. 848).
Ao relaxar as restrições à variação genética representadas pelo
germoplasma natural, a engenharia genética proporciona aos
melhoristas um âmbito enormemente ampliado para explorar as
diferenças genéticas em resistência a doenças, tolerância ao
estresse ambiental e eficiência em absorver nutrientes de
determinado solo. Uma vez que as plantas diferem
significativamente em sua capacidade de conviver com ambientes
adversos, a seleção entre os genótipos capazes de explorar mais
efetivamente recursos escassos oferece a perspectiva de se
alcançar grandes produções com administração menos intensiva
(Boyer, 1982). Com a engenharia genética vegetal, será muito mais
fácil, no futuro, programar “contra” a natureza, pela adaptação de
culturas agriculturalmente importantes a ambientes mais pobres e
hostis, ao invés de se concentrar no seu reverso, como se faz hoje.
Tal intervenção no ciclo natural de reprodução poderia ser usado
para trazer enormes benefícios à humanidade, através da ampliação
da produtividade e das margens de lucro dos cultivos em solos mais
pobres. Ela seguramente abre um novo e lucrativo capítulo na
apropriação industrial da agricultura.
Biotecnologia e produção animal A engenharia genética também possui um futuro promissor na
produção animal e, novamente, as aplicações comerciais estão
crescendo mais rapidamente do que o previsto inicialmente (ata,
1986).
Esse futuro depende da continuidade dos avanços na pesquisa
fundamental em biologia animal mas, nesse meio tempo, certas
“tecnologias mais especulativas” vieram à tona, inclusive fertilização
in vitro, clonagem, geminação e fusão de células (Ota, 1981). Esses
métodos, combinados com a transferência de embriões, vêm
crescentemente encontrando aplicações práticas em programas de
melhoramentos seletivos. Por exemplo, cientistas britânicos
tiveram sucesso ao dissociar as células de embriões de ovelhas
em desenvolvimento, de tal forma que cada célula pode ser
induzi da a se desenvolver em embrião próprio, e daí a uma
ovelha adulta. Um embrião pode produzir cinco ovelhas. A
progênie resultante é geneticamente idêntica (Yoxen, 1983: p.
164).
Capitais industriais têm encontrado oportunidades importantes para
acumulação em saúde e nutrição animal e biotecnologias recentes
provavelmente as ampliarão consideravelmente. Atualmente,
companhias químicas e farmacêuticas produzem uma ampla gama
de suplementos alimentares animais, inclusive concentrados
vitamínicos, aminoácidos e hormônios para acelerar o crescimento,
aumentar o peso vivo e melhorar as qualidades da carne, tais como
maciez e durabilidade. Na produção de suínos, por exemplo, das
800 libras de alimentos necessários para trazer o porco ao peso de
abate de 220 libras, “de 100 a 200 libras consistem dos suplementos
protéicos, minerais e vitamínicos requeridos para suprir os déficits
nutricionais do milho e outros cereais” (Pond, 1983: p.98).
Esses déficits incluem os chamados aminoácidos essenciais, como
a lisina e a metionina, que os animais precisam para formar
proteínas. Esse grande mercado potencial tem atraído firmas de
pesquisas biotecnológicas e, como vimos anteriormente, uma
abordagem que vem sendo seguida é a de aplicar “técnicas de engenharia genética para melhorar o balanceamento de
aminoácidos em proteínas de cereais” (CRS, 1984: p. 102). Outros
projetos procuram diminuir os custos desses aditivos nutricionais via
incremento da eficiência dos métodos de fermentação bacteriana
usados para produzir aminoácidos essenciais. Pond (1983: p. 102)
sugere que a produção de aminoácidos a preços competitivos pela
biotecnologia permitiria grandes economias em proteína alimentar:
“as necessidades metabólicas do animal poderiam ser atendidas por
uma alimentação de baixa proteína, combinada a uma mistura bem
balanceada de aminoácidos.” Os custos de alimentação na
produção de suínos poderiam também ser diminuídas
dramaticamente se os porcos pudessem digerir a celulose, o maior
constituinte das fibras vegetais. A longo prazo, o uso de engenharia
genética para alterar a atividade da microflora do trato intestinal
poderia remover essa restrição à produção de suínos.
O mercado para hormônios promotores do crescimento é
extremamente lucrativo, mas os hormônios naturais, produzidos
pelos ovários ou testículos dos animais, são muito escassos e
custosos. Substitutos sintéticos para dois hormônios são produzidos
pela Roussel Udaf e pela International Minerals Corporation. No
entanto, grupos de pressão de consumidores levantaram a
preocupação quanto às possíveis propriedades carcinogênicas e
outros efeitos colaterais, e conseguiram, pelo menos
temporariamente, que seu uso fosse banido na Comunidade
Econômica Européia. Essa situação vem encorajando pesquisas
sobre alternativas mais baratas não-esteróides, e diversas firmas
conseguiram usar bactérias obtidas por engenharia genética para
produzir hormônio de crescimento para bovinos. Esse novo produto
deve aumentar a produção de leite nas vacas leiteiras e elevar a
proporção entre carne e gordura nas carcaças de bovinos e ovelhas
(The Economist, 25.2.84).
Dada a enorme importância das indústrias leiteiras e de carnes,
não é de surpreender que quatro da mais importantes
companhias de engenharia genética estão visando a uma
parcela do vasto mercado potencial para o hormônio de
crescimento bovino, que representa, só nos Estados Unidos,
entre 250 dólares e 500 milhões de dólares por ano. O gene já
foi clonado, e é provável que o produto esteja disponível em
meados de 1990, seguido provavelmente pelas suas
contrapartes para ovelhas e suínos (Prentis, 1984: p. 131).
Relata-se que uma firma da Califórnia, a Applied Molecular Genetics
(Amgen), está testando um hormônio de crescimento para galinhas
produzido por bactérias desenhadas por engenharia genética (CRS,
1984). Esse hormônio não tem o propósito de “fazer galinhas
maiores, mas sim o de fazer galinhas normais crescerem mais
rápido”, reduzindo assim os custos de alimentação (ib.: p. 121).
Esses acontecimentos recentes deram origem a previsões de que
as atividades de melhoramento animal estarão bem à frente das
transformações qualitativas de curto prazo na agricultura, iniciadas
pelas modernas biotecnologias (Ota, 1986).
Importantes companhias químicas e farmacêuticas encontraram
também mercados substanciais em produtos de saúde animal, e
esses produtos representam uma parte importante de suas
atividades diversificadas104 (Ota, 1984). Em 1981, por exemplo, tais
produtos contribuíram com 13 % das vendas corporativas totais da
Pfizer e da Eli Lilly, as duas firmas americanas líderes no setor.
Apesar de o tempo necessário para a sua aplicação comercial ainda
ser incerto, espera-se que a biotecnologia tenha um impacto
substancial na produtividade e saúde animais (BOSTID, 1982).
Assim, o uso de técnicas de hibridização celular para produzir
anticorpos monoclonais resultará provavelmente em vacinas novas
e melhoradas. Alvos dos mais relevantes para as pesquisas incluem
as vacinas contra a febre aftosa, que constituem o maior volume de
vacinas, com um valor de mercado estimado em 250 milhões de
dólares, em 1981105 (ata, 1984). Outras aplicações comerciais
possíveis para a biotecnologia em saúde animal são os produtos de
diagnóstico de doenças, vacinas bacterianas e novos antibióticos.
Esses novos mercados estão, mais uma vez, firmemente em mãos
de grandes capitais corporativos e multinacionais, com seus
programas bem estabelecidos de P&D e sistemas mundiais de comercialização. A perspectiva, então, é a de que essas mesmas
companhias estenderão seus padrões de controle precisamente
desenhados ao desenvolvimento comercial tanto da biotecnologia
animal quanto da vegetal.
Biotecnologias e automação
No primeiro capítulo, chamamos a atenção para a pronunciada
especificidade da mecanização da agricultura uma vez que, em
contraste com a indústria, a natureza não podia ser reduzida ao
status de um insumo. A máquina mantinha-se subordinada às
peculiaridades da natureza como o substrato básico da produção e,
conseqüentemente, era a máquina móvel, o trator, que veio a
simbolizar a apropriação do trabalho. Desobstante isso, com a
progressiva, apesar de desuniforme, industrialização das atividades
baseadas na terra, elementos do processo de produção agrícola
têm-se tornado crescentemente mensuráveis e previsíveis,
diminuindo as incertezas da natureza. Isso pode ser visto, por
exemplo, pela medida dos coeficientes de insumo/produto para uma
ampla gama de atividades, tais como a resposta produtiva à
aplicação de fertilizantes e de biocidas, e os fatores de conversão
de alimentos na produção de gado, leite e aves. A capacidade de
prever e quantificar insumos e produtos, derivada tanto da
apropriação industrial da natureza quanto do maior conhecimento
dos processos biológicos e ambientais, fornece as bases para a
aplicação da microeletrônica, tecnologia de computadores e
automação. Tais oportunidades emergiram inicialmente em
contabilidade de custos, composição de rações, compra de insumos
e controle de estoques, análise de dados da fazenda e dos
mercados e uso de bancos de dados. No entanto, à medida que a
apropriação enfraquece o domínio da natureza, haverá escopo
crescente para a aplicação direta da automação ao próprio processo
de produção. Em adição ao caso especial das culturas de estufas,
não constitui realmente surpresa descobrir que o uso de
microprocessadores e da automação está bem avançado nas
atividades criatórias onde a separação da terra também chama a
atenção. As implicações dessa separação radical estão particularmente evidentes na produção de frangos, com sistemas de
monitoria e controle baseados em computador que podem ser
comparados favoravelmente com aqueles usados em muitos ramos
da indústria de transformação. Na produção de leite, espera-se que
estábulos totalmente automatizados estejam em operação na
Europa Ocidental em 1990 (Cross, 1985).
O controle eletrônico do aquecimento e ventilação de estufas vem
dos anos 50, mas técnicas consideravelmente mais avançadas,
baseadas em microprocessadores, têm acompanhado a introdução
de sistemas intensivos de produção hidropônica (Cox, 1982). Estes
podem ser planejados com monitoria e controle computadorizados
de todas as condições ambientais, como temperaturas do ar e das
regiões das plantas e das raízes, concentrarão de CO2 e ritmo de
renovação e troca de ar. As tarefas de plantio de sementes,
transplantes após a germinação, preparo de solução de nutrientes,
adubação foliar, colheita e empacotamento podem também ser
automatizadas. O sucesso econômico dessa “agricultura de
ambiente controlado” depende fundamentalmente da eficiência
volumétrica, que requer altas densidades de plantio e alta
rotatividade para garantir um fluxo virtualmente contínuo de
produção e, portanto, redução dos custos unitários106. A
racionalização desses sistemas é a de “mudar a produção de certas
culturas de uma operação agrícola sujeita aos caprichos da
natureza para um processo industrial controlável, previsível e
repetitivo que ofereça os mais altos retornos” (Eisenberg, s.d.).
Neste exemplo, a esfera da natureza fica essencialmente limitada
ao processo biológico “interno” do crescimento vegetal, uma vez que
as condições ambientes são otimizadas. As biotecnologias
modernas correntes desenvolvem atualmente novos e poderosos
métodos para penetrar diretamente e com grande precisão neste
processo biológico. A natureza em si está caindo sob controle
industrial, e as biotecnologias fornecerão brevemente plantas feitas
“sob medida”, planejadas especificamente para atender aos
requisitos da agricultura automatizada e de ambiente controlado.
A sofisticação da microeletrônica e das técnicas de automação vêm
também encorajando sua aplicação a máquinas de campo, que
incorporam a inteligência artificial e sistemas avançados de
sensoreamento. Programas-projetos atuais de P&D na Europa
Ocidental incluem projetos de robôs para colheita auto matizada de
frutos e automatização da aração e semeadura (Cross, 1985).
Nesses casos, no entanto, a automatização aparece como uma
adaptação ao problema do espaço, e representa a complementação
do processo de mecanização. É esclarece dor que a automatização
seja provavelmente aplicada primeiro aos pomares, que são
menores que os campos e onde as árvores podem ser
uniformemente espaçadas. Em suma, os equipamentos de campo
auto matizados estão sujeitos a todos os problemas que
tradicionalmente confrontam a mecanização agrícola,
particularmente a produção descontínua, tarefas variadas e
espaçadas, maquinário subutilizado e altos custos unitários para o
capital. Em comparação com as atividades industriais, a
automatização de operações simples de trabalho nas fazendas
exige um nível tecnológico muito mais avançado. A substituição do
trabalho normal de colheita por robôs envolve sofisticadas
aplicações da inteligência artificial e de sistemas de sensoreamento
que ainda estão em estágio de projeto ou de protótipo. Apesar
disso, à medida que as dificuldades de oferta de trabalho se
intensificarem e que os problemas técnicos sejam resolvidos, a
robótica agrícola será provavelmente crescentemente aplicada aos
cultivos de campo aberto. Ao mesmo tempo, as dificuldades de
automatizar operações de campo em ambientes físicos variados e
em mudança demonstram novamente as contradições intrínsecas
de industrializar um sistema de produção que permanece fortemente
dependente da natureza. Assim, esses obstáculos provavelmente
fortalecerão as tendências em direção à substituição industrial.
Podemos, dessa forma, distinguir duas avenidas principais abertas
para a automatização da agricultura. A primeira, que acabamos de
descrever, reforçará a antiga tendência de substituir o trabalho
humano por maquinaria nas atividades tradicionais de campo. A
segunda, representada pelos atuais desenvolvimentos em produção animal e hidroponia, baseia-se em prévios avanços da apropriação
industrial em nutrição e genética animal, que liberaram certos
setores agrícolas das restrições relacionadas com a terra e
condições ambientais não controladas. O prospecto seguinte, agora,
é de que o processo biológico do crescimento vegetal e animal
possa ser “projetado” e programado através de biotecnologia para
fins comerciais. Em seu limite, portanto, a aplicação combinada das
biotecnologias e da automação fornece uma solução industrial
integrada para a produção agrícola.
A integração mais estreita da biotecnologia e da automação também
vem dando maior ímpeto ao substitucionismo em indústrias
alimentícias e de processamento de fibras. Dessa maneira, técnicas
avançadas de fermentação estão sendo ligadas ao desenvolvimento
de biossensores e sistemas de computação para permitir o controle,
por microprocessadores, dos processos biológicos (Dunnill e Rund,
1984). Tais inovações removem barreiras tecnológicas que
previamente separavam a indústria alimentícia dos outros setores
de engenharia de processos, especialmente o químico e o
farmacêutico. Essa integração intersetorial é promovida,
adicionalmente, pelo impacto de biotecnologias modernas na
extensão da capacidade de intercâmbio dos insumos materiais entre
os alimentares e não-alimentares, como veremos a seguir. O nexo
emergente entre a biotecnologia e a automação transformará
progressivamente a indústria alimentícia em um setor de alta
tecnologia, facilitando a sua incorporação à maior e mais genérica
indústria de transformação de matérias-primas.
Substitucionismo e bioindustrialização
As tendências recentes no substitucionismo, capturadas pelo termo
“bioindustrialização”, são determinadas pela fronteira móvel da
inovação tecnológica na indústria alimentícia, da engenharia
mecânica para a engenharia química e biológica. Essa transição foi
prenunciada por desenvolvimentos anteriores em técnicas de
separação e fracionamento, as quais valeram-se fortemente de
métodos de engenharia química. No entanto, à medida em que essa transformação tecnológica ganha velocidade, o seu principal
elemento motivador será a aplicação de métodos do ADN-
recombinante, de engenharia genética, à microbiologia industrial.
Essas técnicas trazem a promessa de aumentar significativamente a
variedade dos elementos constituintes de alimentos que podem ser
produzidos por microorganismos em condições industriais
controladas. No momento, “as reações químicas, através das quais
a maioria das matérias-primas e componentes alimentares são
sintetizados, ocorrem em ambientes agrícolas” (Dunnill, 1981: p.
204). A verdadeira importância revolucionária da engenharia
genética é que a primazia desses “ambientes agrícolas” poderia ser
questionada no futuro por biotecnologias industriais, mesmo que
seletivamente, e transpor essas reações químicas para a fábrica.
As biotecnologias recentes, portanto, fortalecerão a ação do
substitucionismo por afrouxar ainda mais a dependência da indústria
alimentar na agricultura convencionalmente definida. Simplesmente
a quantidade de matérias-primas e componentes, ou mesmo
combustível, fibras e produtos químicos, que podem ser convertidos
em produtos alimentares aumentará muito significativamente. A
combinação de uma seleção mais ampla de componentes e a
conversão mais eficiente em ingredientes alimentares reforçarão
grandemente as pressões atuais nas cadeias agroalimentares e
provavelmente provocarão uma reestruturação radical em certos
setores alimentares. O impacto dos xaropes de milho de alto teor de
frutose (XMAF) na indústria açucareira é um desses casos, como
veremos a seguir.
O uso de micróbios, em particular os fermentos, na produção de
alimentos e álcool, é claro, é uma prática muito antiga. Tais
antecedentes são reconhecidos por Haas (1984) ao rever as
perspectivas de contribuição da engenharia genética às indústrias
alimentares tradicionais:
As indústrias da panificação, de destilação, vinícolas e de
alimentos fermentados utilizam o metabolismo microbiano em
seus processos. A manipulação genética das culturas dos
inoculantes iniciais poderia melhorar a eficiência dessas
reações e a qualidade de seus produtos. A engenharia genética
representa uma ferramenta poderosa com a qual esses
objetivos poderiam ser alcançados mais rapidamente107 (Haas,
1984: p. 76; grifo nosso)
Assim, as técnicas de ADN-recombinante da engenharia genética
têm implicações comerciais diretas para a eficiência das tecnologias
industrias de fermentação vis-à-vis métodos de produção
alternativos, isto é, tecnologias que utilizam a atividade biocatalítica
dos microorganismos como agentes da transformação química para
processar matériasprimas e produzir compostos selecionados para
a indústria química, farmacêutica e alimentar. Dois processos gerais
podem ser identificados como alvos para aplicações industriais de
engenharia genética: “Na tecnologia da fermentação, os organismos
vivos servem como fábricas em miniatura para converter matérias-
primas em produtos finais. Na tecnologia das enzimas, catalisadores
biológicos extraídos desses organismos vivos são usados para
fabricar os produtos” (Ota, 1981: p. 50; grifo nosso).
A fermentação pode ser aplicada a muitas matérias-primas
hidrocarbônicas as quais, por usa vez, podem provir de uma grande
variedade de fontes, seja a biomassa, inclusive resíduos de culturas,
de florestas ou de indústrias, seja de combustíveis fósseis. A
tecnologia de enzimas é um desenvolvimento adicional à tecnologia
da fermentação, envolvendo a identificação da enzima que participa
de uma conversão química particular e a sua extração da célula
viva. 108 Essencialmente, “Uma enzima que age dentro de uma
célula para converter uma matéria-prima em um produto pode
também fazer isso fora da célula” (ib.: p. 53).
Com o advento da engenharia genética, os bioquímicos adquiriram
um poderoso novo ferramental para melhorar a eficiência dos
catalisadores biológicos utilizados na fermentação industrial, seja
com células inteiras ou com enzimas isoladas. Essas melhorias
incluem níveis mais altos e mais produtivos de fermentação,
adaptação, e matérias-primas diferentes e características planejadas para obter maior tolerância às pressões da produção em
escala industrial. “A engenharia genética… permite ao pesquisador
mudar o aparato hereditário de uma célula viva, de tal forma que ela
possa produzir mais do mesmo produto ou produtos químicos
diferentes, ou mesmo executar funções completamente novas” (ib.:
p.55). Por aumentar tanto a produtividade quanto a versatilidade dos
microorganismos, os métodos do ADN-recombinante estão
transformando, simultaneamente, a economia da biocatalisação e
estendendo as suas possíveis aplicações à transformação de
alimentos e outras indústrias.109
Conquanto persistam dificuldades operacionais, principalmente no
aumento da escala das operações, de laboratórios e plantas-piloto
para níveis industriais de produção, os avanços técnicos alcançados
pelos métodos do ADN-recombinante representam uma das
descobertas mais importantes para o controle industrial dos
processos de produção. Atualmente, o número de microorganismos
industriais comprovados é limitado, e o know how da engenharia de
processos está concentrado nos fermentos e uns poucos
microfungos. Da mesma forma, apesar de os bioquímicos haverem
caracterizado acima de um milhar de enzimas, apenas cerca de
uma dúzia deles são responsáveis por mais de 90% do mercado
comercial de enzimas (Ulmer, 1983). 110 A dificuldade não é só
encontrar a enzima que possa produzir um determinado produto,
mas também uma que possua propriedades que a faça adequada
para uso em processos industriais. Convencionalmente, buscas
extensas de enzimas que ocorrem naturalmente são necessárias
para descobrir a enzima apropriada. 111 Os geneticistas, então,
induzem mutações e procedem a uma seleção cuidadosa em um
esforço para encontrar os mutantes mais produtivos que a
população básica. A engenharia genética traz refinamentos
significativos a esses métodos convencionais, uma vez que agora
os microorganismos e as enzimas podem ser modificados e
melhorados para fins industriais de uma maneira direta, controlada e
previsível. 112 Os capitais industriais, em suma, estão adquirindo a
capacidade de manipular os “princípios químicos básicos da vida”
(Prentis, 1984).
Ulmer (1983) espera com confiança, sem dúvidas, “uma capacidade
mais generalizada para a engenharia molecular”, permitindo que
biocatalisadores, inclusive enzimas novas não encontradas na
natureza, sejam criados com determinados processos industriais e
matérias-primas em mente.113 Outros pesquisadores são menos
entusiasmados sobre os prospectos de “desenhar” novas enzimas a
partir do zero para catalisar reações orgânicas específicas, e
sugerem que o progresso virá mais provavelmente através da
mudança de estrutura e funcionamento de enzimas existentes
(Perutz, 1985). Seja qual for a direção tomada, no entanto, não
podem existir dúvidas de que a engenharia genética irá dotar a
indústria de fermentação com biocatalisadores melhores e seleção
mais ampla de materiais para processamento. Essas mudanças são
de significado particular para a agricultura e a agroindústria.
Engenharia genética na indústria de alimentos: alguns
exemplos recentes
Em recente levantamento, a OTA (1981) dividiu as aplicações da
engenharia genética em duas grandes categorias. Uma envolve o
planejamento de microorganismos que são usados diretamente na
fabricação de alimentos, seja como agentes ativos de
processamento ou como fontes de substâncias e aditivos (tais como
vitaminas, aminoácidos, preservativos ou aromatizantes).
Estimativas atuais sugerem que a biotecnologia pode alcançar
níveis comerciais de eficiência na produção de muitos compostos e
microorganismos requeridos pela indústria alimentícia. Uma seleção
ilustrativa de tais produtos é mostrada na Tabela 3.3. A segunda
categoria das aplicações compreende a manipulação genética de
microorganismos selecionados para melhorar a sua eficiência na
conversão de diferentes materiais em alimentos para homens e
animais. Nas páginas seguintes, nos concentraremos nesse
segundo grupo e examinaremos diversos exemplos recentes de
biotecnologia no processamento de alimentos.
Tabela 3.3 Aplicações potenciais da engenharia genética e
compostos de microorganismos úteis à indústria alimentícia
Categoria de Processo Uso final
Produto típico de
sintetização
Aminoácidos
Glutamato fermentação aromatizante,
enriquecimento
alimentar
Cisteína Lisina extração enriquecimento
fermentação alimentar aditivo,
enriquecimento
alimentar
Metioina químico aditivo,
enriquecimento
alimentar
Enzimas/Proteínas
Amilases fermentação suplemento para a
farinha, agente de
esmagamento,
alimentos para
crianças
Glucose fermentação produção do xarope
isomerase de milho de alto teor
de frutose
Proteases fermentação amaciante para
carne, produtos com
sabor de queijo
Renina fermentação processos de
transformação
industrial
Microorganismos
Fermentos fermentação cervejas, panificação,
vinhos
Vitaminas
B-2, B-12, D fermentação aditivo,
enriquecimento
alimentar
C semi- aditivo,
sintético enriquecimento
alimentar
E extração aditivo,
enriquecimento
alimentar
Alifáticos
Glicerol químico texturizante
Sorbitol químico agente
antiencaroçador
Ácido propiônico químico preservativo
alimentar
Peptídeos Curtos
Aspartame químico adoçante
Fonte: OTA (1981: Apendice IB); Haas (1984)
Proteínas de célula única
As proteínas microbiais de célula única (PCU) foram definidas como
“células secas de microorganismos como algas, actinomicetos,
bactérias, fermentos, mofos e fungos mais elevados, cultivados em
sistemas culturais de larga escala para uso como fontes de
proteínas para a alimentação humana e animal” (Litchfield, 1983: p.
740). Na alimentação animal, a proteína de célula única pode ser
usada ao invés de farelo de soja e de peixe como suplemento
protéico, e possui uma função semelhante na alimentação humana,
embora neste caso seja necessário um processamento adicional
para reduzir as concentrações relativamente altas de ácidos
nucléicos (OTA, 1984). Organismos para produzir a PCU têm sido
cultivados em uma variedade de materiais orgânicos, inclusive
amido, metano, parafinas, metanol, etanol e lignocelulósicos114. Os hidrocarbonetos tiveram uma breve e, mais tarde, cara
proeminência nos anos 60, antes de sofrerem um sério golpe pelos
choques de preços do petróleo da OPEP em 1973 e 1979-80. No
entanto, países superavitários em gás natural e deficitários em
alimentos, como a União Soviética e os Estados Árabes membros
da OPEP, perseguem ativamente, agora, os seus interesses na
tecnologia de PCU baseada no metano, trazendo implicações
bastante significativas para o comércio mundial de proteínas
vegetais. 115
A partir do início dos anos 70, as atenções foram transferidas dos
substratos hidrocarbônicos para matérias-primas alternativas
renováveis, inclusive a utilização de dejetos e efluentes. Esses
córregos, que freqüentemente contêm matéria orgânica vinda das
indústrias de processamento químico, fábricas de papel, laticínios,
fábricas de alimentos e usinas de energia, estão sendo analisados
como fontes potenciais de produtos para a fermentação, tais como a
PCU. Deve ser enfatizado que a energia e a biomassa dos dejetos e
os alimentos que poderiam produzir são todos subprodutos
incidentais de sistemas mais amplos. “O significado especial dessas
possibilidades dos subprodutos repousam em seu volume potencial.
Com base na economia de subprodutos, de custos pequenos ou
negativos, pode-se injetar rapidamente muitos volumes de
nutrientes baratos, de fontes completamente novas, na cadeia
alimentar” (Kastens, 1980: p. 217). Essas possibilidades têm atraído
o interesse de grandes corpo rações, inclusive de algumas, como a
Bechtel, Dow Chemical e General Electric, normalmente dissociadas
da indústria alimentar.
As perspectivas comerciais das rações animais de PCU dependem
dos preços relativos das tortas de soja e de peixe, e eles continuam
a favorecer as fontes tradicionais de proteína. É claro que a
utilização de dejetos orgânicos e dos efluentes que necessitam de
tratamento por razões ambientais, ou de recursos hidrocarbônicos
subsidiados, podem criar circunstâncias especiais que facilitem o
seu desenvolvimento comercial. Uma ameaça adicional aos
mercados exportadores mundiais de soja vem das aplicações de engenharia genética aos processos de fermentação bacteriana com
o objetivo de reduzir os custos industriais da produção de
aminoácidos estratégicos, como mencionamos anteriormente.
Dessa forma, a lisina, a metionina, o triptofano e a treonina podem
ser combinados com o farelo de milho para que este alcance o
mesmo valor nutritivo da soja. A produção desses aminoácidos a
baixo custo faria as rações animais de baixo teor de proteína mais
competitivas e intercambiáveis, minando a atual proeminência da
proteína de soja.
A demanda da PCU para consumo humano, até o momento, está
baseada em seu uso como suplemento protéico e suas
características funcionais para o processamento, ao invés de como
uma fonte primária de proteína nas dietas humanas (Litchfield,
1983). A esse respeito, uma interessante e recente inovação
consiste na produção da micoproteína, um microfungo cujas
propriedades texturais podem ser usadas para simular a textura das
proteínas animais mais facilmente do que, por exemplo, a soja.
Consta que carnes, aves e peixes têm sido, todos, imitados
satisfatoriamente tanto em textura quanto em sabor. O novo produto
foi lançado pela New Era Foods, uma joint venture da ICI e da Rank
Hovis McDougaIl (RHM), e vendida a fábricas para uso em
alimentos novos e simulados. 116 Em janeiro de 1985, a J. Sainsbury
lançou uma saborosa torta cujo principal ingrediente é a
micoproteína, que vem sendo promovida pelas suas qualidades
nutritivas e de saúde, particularmente pela ausência de gorduras
animais e de colesterol. De acordo com as notícias veiculadas pela
imprensa:
É um produto natural derivado de cereais, de forma que não
contém gorduras animais ou colesterol. Ele contém até coisas
que a carne não possui -coisas saudáveis como fibras
digestíveis. Peso por peso, o produto de micoproteína contém
menos calorias que a carne. Parece e tem sabor de carne de
boi. Possui o valor da carne. Nós utilizamos a micoproteína
para fazer uma torta nova e excitante. E nós seguimos, todo o
tempo, os princípios da comida saudável (Sainsbury plc,
24.1.1985).
Em contraste com o longo processo de produção da proteína
animal, a micoproteína tem um tempo de duplicação de apenas
cinco horas. É produzida pela fermentação contínua de uma
linhagem selecionada do Fusariumgraminearum, sobre um substrato
de glicose. Ademais, apesar de a glucose ser normalmente obtida
do amido de trigo ou de milho, quase que qualquer carboidrato -
arroz, mandioca, melaço e resíduos de processamento de alimentos
-pode servir de matéria-prima. Isso ressalta o potencial comercial do
processo, uma vez que os carboidratos baratos podem ser
transformados em proteína de alto teor. “A micoproteína é suave,
tem textura própria e poder pronunciado de absorver e reter sabores
e cores, o que a faz ideal como componente dos mais importantes
nos produtos semelhantes à carne” (ib.).
Aqui podemos ver a ameaça direta e imediata representada pela
biotecnologia às fontes convencionais de proteína animal, inclusive
mesmo as de instalações altamente automatizadas de produção
animal, que incorporam as inovações mais recentes em genética,
alimentação animal e nutrição. O calcanhar-de-aquiles dos sistemas
convencionais de produção de proteína animal é a sua dependência
da ineficiente conversão metabólica, pelos animais, da proteína
vegetal em proteína animal. O possível uso de engenharia genética
para adaptar os suínos para digerirem a celulose, a fim de reduzir os
custos de alimentação, revela essa contradição básica com uma
clareza particular (pond, 1983). Substitutos da proteína vegetal,
especialmente análogos de carne baseados em soja, representaram
uma ameaça inicial à indústria de proteína animal. Com a
micoproteína, no entanto, este setor enfrenta agora o desafio de um
processo exclusivamente industrial capaz de reproduzir as
qualidades texturais, nutricionais e outras características da carne
fresca e desengordurada.
Os produtos da criação animal podem vir a sofrer brevemente o
ataque de ainda outra área, desta vez da produção rural. Inovações em biologia molecular vegetal abrem a possibilidade científica de
transferir material genético, de tal forma que plantas podem vir a
produzir as proteínas do leite, conhecidas coletivamente como
caseína. Um estudo recente do caso examinou as implicações, para
a agricultura da CEE, do sucesso na produção, a preços
competitivos, da caseína sob a forma de protema de sementes
vegetais (Technical Change Centre, 1985). A produção leiteira de
3,2 milhões de vacas, 13% do rebanho da CEE, seria deslocada,
juntamente com os 2-2,5 milhões de hectares hoje usados em seu
suporte. Tal queda no rebanho da CEE reduziria o mercado de
cereais em pelo menos 2 milhões de toneladas por ano, e liberaria
0,5 milhão de hectares para outras culturas (ib.: p.24). Essas
estimativas, admitidamente conjecturais, fornecem um exemplo
adicional eloqüente sobre o impacto de biotecnologias modernas na
mudança das possibilidades de substituição e de intercâmbio não só
entre os produtos industriais e da terra, mas também entre
diferentes categorias da produção rural.
Adoçantes artificiais
Inovações em engenharia de processo desempenharam um grande
papel na ampliação das aplicações comerciais da catálise biológica -
de forma espetacular, no caso dos adoçantes de alta frutose
derivados do milho. Para certas enzimas industriais, como as
amilases e proteases utilizadas no processamento de alimentos, a
sua perda em produtos ou efluentes não aumenta proibitivamente os
custos de produção. Esse não é geralmente o caso, no entanto, de
outras enzimas, devido aos caros procedimentos exigidos para
isolá-las e purificá-las. O desenvolvimento recente de técnicas de
imobilização de enzimas relaxou essa restrição significativamente
ao reter enzimas em suportes porosos, o que “permite que sejam
usadas como reagentes, através dos quais um substrato é passado”
(Fairtlough, 1984:p. 579). Essas técnicas permitem, assim, que as
enzimas sejam usadas várias vezes, aumentando grande mente a
sua vida operacional e, dessa forma, reduzindo os custos.
A maior aplicação industrial da tecnologia da enzima imobilizada
está na isomerização parcial da glicose derivada do amido de milho,
formando os xaropes de milho de alto teor de frutose (XMAF).117
Esses adoçantes de baixas calorias estão sendo amplamente
utilizados pela indústria de alimentos e constituem exemplos dos
efeitos da reestruturação industrial da biotecnologia. Em adição à
inovação do processo de imobilização de enzimas, a
competitividade da indústria de XMAF dependia crucialmente do
aperfeiçoamento genético das enzimas glucoamilases, de forma a
produzir o XMAF com um conteúdo aproximado de 42% de
frutose118. Mais um fator que contribui são os altos preços de
garantia do açúcar nos Estados Unidos.
A produção dos xaropes de milho de alto teor de frutose (XMAF) já
provocou efeitos importantes de substituição entre adoçantes
naturais e artificiais na indústria alimentar, particularmente nos
Estados Unidos e no Japão, os maiores importadores mundiais de
açúcar de cana. Em 1980, por exemplo, estimou-se que o uso do
XMAF reduziu as importações americanas de açúcar em cerca de
1,3 bilhão de dólares (OTA, 1984). A recente e amplamente
divulgada decisão da Coca-Cola, seguida mais tarde pela Pepsi-
Cola e outros fabricantes de refrigerantes, de substituir os
adoçantes naturais pelo XMAF é indicativa dessa tendência
generalizada. ’’A produção de XMAF nos Estados Unidos aumentou
de virtualmente nada em 1970 para 10% de toda a produção de
adoçantes caloríficos em 1980” (OTA, 1981: p. 112). Stewart (1983:
p. 68) oferece estimativas mais precisas sobre a penetração
comercial e uso industrial do XMAF nos Estados Unidos: “Hoje,
cerca de 28% do mercado americano de adoçantes nutricionais e
cerca de 45% do mercado industrial total de açúcar é do XMAF, do
qual 2 milhões de toneladas são usadas pelos produtores de
refrigerantes, 0,5 milhão pela indústria de panificação e 1,2 milhão
para alimentos processados”.
Na Europa, a CEE adotou regulamentações especiais em 1977 para
restringir a expansão da produção de XMAF e proteger os
produtores locais de beterraba açucareira. Ao comentar os esforços da CEE para retardar esses efeitos de substituição, Sharp (1982:
p.25) menciona que “os dias do açúcar… estão provavelmente
contados… trinta anos atrás poucos teriam sonhado que o açúcar,
um dos principais produtos no mercado internacional… poderia
essencialmente desaparecer de uso; hoje é bastante possível que
isso possa acontecer nos próximos vinte anos”. Outros
observadores fornecem uma visão menos apocalíptica, mas não
pode haver dúvidas de que o XMAF estar restruturando
dramaticamente as cadeias agroalimentares baseadas no açúcar de
cana. 119
O sucesso comercial do XMAF, por sua vez, estimulou a produção
competitiva de outros adoçantes de baixas calorias, tais como o
aspartame, a monelina e a taumatina. Patenteado pela companhia
farmacêutica G.D. Searle, o espartame é sintetizado quimicamente
de dois aminoácidos obtidos biossinteticamente através de
fermentação. Estão em andamento pesquisas para substituir a
síntese pela biossíntese. O espartame é amplamente utilizado em
bebidas para dietas, cujo consumo está aumentando rapidamente
nos Estados Unidos e cujo volume de vendas anuais excede, de
acordo com o anunciado, os 2 bilhões de dólares. A monelina e a
taumatina são substâncias naturais derivadas de plantas da África
Ocidental, cujo poder adoçante é cem mil vezes maior do que o do
açúcar de mesa. É possível que a produção microbiana desses
adoçantes seja competitiva com a sua extração das plantas (OTA,
1981). A Tate & Lyle, uma das líderes mundiais na comercialização
e refino do açúcar, está testando atualmente um novo adoçante
chamado “sucralose”. Esse composto é organicamente baseado no
açúcar, mas é seiscentas vezes mais doce. De acordo com notícias
divulgadas pela imprensa, a “sucralose” é mais barata que o
aspartame, armazena melhor e é mais resistente ao calor, o que
sugere que encontrará mercado facilmente na fabricação de
alimentos.
Outras matérias-primas estratégicas estão ameaçadas também
pelas biotecnologias. Por exemplo, a Cadbury Schweppes está
usando técnicas de cultura de tecidos para desenvolver aromatizantes sintéticos do cacau (YanchitlSki, 1985). O objetivo
imediato parece ser a utilização de grãos de cacau de baixa
qualidade, mas o desenvolvimento bem-sucedido dos aromatizantes
sintéticos permitiria maior flexibilidade no uso das gorduras vegetais,
solapando o monopólio de uma matéria-prima específica de alta
qualidade. Isso exacerbaria grandemente a já intensa controvérsia
na CEE sobre a forte regulamentação dos ingredientes do
chocolate. Nos seis membros originais da CEE, o termo “chocolate”
é reservado aos produtos nos quais a manteiga-de-cacau é a única
gordura utilizada, enquanto que até 5 % de outras gorduras vegetais
podem ser usados na Inglaterra, Irlanda e Dinamarca. Fabricantes
de alimentos e confeitarias provavelmente farão pressões em favor
de provisões legais menos restritivas, caso as inovações técnicas
tornem as gorduras vegetais mais baratas substitutos aceitáveis
para a cara manteiga-de-cacau. Técnicas de cultura de tecidos
também têm sido aplicadas pela Unilever para clonar variedades de
dendê de alta produtividade e isentas de doenças. Ao mesmo
tempo, no entanto. existem também trabalhos em andamento para
reproduzir as qualidades do óleo de dendê, através do tratamento
enzimático de óleos de menor qualidade. Também aqui a
substituição industrial, através de biotecnologia, continua a sua
longa luta em direção à independência dos insumos agrícolas
específicos.
Impactos mais amplos da biotecnologia nos recursos agrícolas
combustíveis e produtos químicos
Esta breve discussão indica que a microbiologia industrial será uma
força possante na transformação das cadeias agroalimentares. No
entanto, esses impactos potenciais no uso dos recursos estendem-
se bem além das mudanças na indústria alimentar. As novas
biotecnologias aumentarão a eficiência com a qual todas as formas
de biomassa, sejam produtos agrícolas, resíduos de culturas, de
madeira ou dejetos orgânicos, são convertidos para todos os usos,
não apenas em produtos alimentícios, mas também em
combustíveis e produtos químicos. 120 Aqui podemos apenas sugerir
superficialmente as mudanças possíveis na base de matérias-primas e de insumos de setores industriais importantes. O programa
brasileiro do etanol, para produzir combustível para automóveis e
insumos químicos a partir da cana-de-açúcar, é particularmente
instrutivo, embora poucos países sejam tão bem dotados de
terras.121
Atenção considerável tem sido dirigida para os materiais celulósicos,
a principal fonte de biomassa, como matéria-prima para a produção
de combustível (etanol, metano), produtos químicos e alimentos
(Eveleigh, 1981; Ng et al., 1983). Mais recentemente, tem existido
crescente interesse nos processos de fermentação para a
conversão microbiana direta da celulose em etanol, e está
atualmente em andamento uma busca ativa para encontrar
microorganismos mais eficientes. A importância potencial dos
métodos do ADN recombinante no processamento e fracionamento
da biomassa é realçada por Eveleigh (1981: p. 554), que acredita
que “eles facilitarão a produção fermentativa de produtos químicos
mais rápida e eficiente, além de permitir a utilização de uma gama
maior de substratos”.
Ng et al. (1983) examinaram recentemente as perspectivas de “uma
indústria química da biomassa”, e identificaram os resíduos
lignocelulósicos de culturas, a serragem e o amido do milho como
as matérias-primas mais prováveis. No presente os métodos de
processamento das lignoceluloses ainda estão em fase de
desenvolvimento, e não podem competir com a hidrólise do amido
como fonte de açúcar, apesar dos custos mais baixos dos materiais
celulósicos. Independentemente das considerações de custos, Ng et
al. (1983) indicam que os oxiquímicos obtidos por fermentação
microbiana de recursos renováveis poderia responder por 23% da
produção americana total de produtos químicos orgânicos, cujo
valor atual de mercado excede os 15 bilhões de dólares, enquanto
que derivados desses oxiquímicos poderiam representar uns 26%
adicionais. “A microbiologia de fermentação com recursos
renováveis (amido e celulose) tem o potencial para produzir uma
grande parte dos oxiquímicos e seus derivados, que constituem a
maior parte dos insumos químicos” (ib.: p. 739).
A promessa das vias da fermentação para as matérias-primas
químicas primárias e os seus derivados também é salientada por
Parker (1980), que prevê a expansão de uma indústria
“sacaroquímica”. Espera-se que essa expansão siga por dois
caminhos principais, a começar pela produção de derivados
especializados da sacarose de alto valor, de uso industrial como
aditivos alimentares (emulsificadores, agentes aromatizantes,
adoçantes) e resinas sintéticas. A segunda via envolve a produção
de insumos químicos primários baseados na conversão microbiana
da sacarose em etanol, de alto volume e baixo valor. 122 O etanol
“pode ser convertido de forma simples e barata em etileno … por
tecnologia bem comprovada….
Uma ampla gama de produtos químicos intermediários pode ser
derivada do etanol usando reações e tecnologia de processos
convencionais” (Parker, 1980: p. 123). O uso da sacarose para
produzir insumos químicos volumosos dependerá
fundamentalmente do preço do açúcar, relativo ao de matérias-
primas alternativas, como petróleo e carvão.
Implicações adicionais para a agricultura e a produção de
alimentos
As implicações totais desses desenvolvimentos tecnológicos no uso
de recursos na agricultura são obviamente incertas no presente. No
entanto, à medida que o progresso em biotecnologia fizer mais
eficientes os métodos de conversão da biomassa, os custos
relativos e as possibilidades de substituição entre materiais
alternativos para a produção de alimentos, combustíveis e produtos
químicos mudarão, talvez dramaticamente. Dessa perspectiva mais
ampla e de longo prazo, ação do substitucionismo via microbiologia
industrial é novamente a de reduzir a importância da agricultura,
definida como a produção de culturas nos campos, associada com
sistemas específicos de alimentos e fibras para o processamento e
distribuição. As novas biotecnologias exporão crescentemente a
redundância dessa concepção tradicional. Em essência, essas técnicas avançadas ameaçam trivializar a agricultura,
transformando-a em uma entre diversas fontes competitivas de
matéria orgânica para conversão e fracionamento da biomassa.
Assim, a posição privilegiada das culturas convencionais de campo
nos padrões atuais de uso da terra serão crescentemente
desafiados.
Esta análise de novas formas do substitucionismo indica que a
indústria alimentar está entrando em um período de transição
tecnológica, à medida em que a fonte principal das inovações dirige-
se para as biociências e a engenharia bioquímica. A base técnica do
processamento alimentar em mudança vai criando novos pontos de
entrada para as companhias químicas e farmacêuticas, que levarão
à reestruturação significativa da indústria. O prêmio final é a
dominação e a posse, por patentes, dos conhecimentos científicos e
da tecnologia de engenharia de processos necessários ao controle
das complexas reações biológicas e atividades microbianas
envolvidas na fabricação de alimentos. Essas mudanças técnicas e
suas repercussões nas estruturas industriais e nas cadeias
agroalimentares são adequadamente descritas como
bioindustrialização.
O efeito cumulativo dessa tendência é obscurecer a especificidade
ou “identidade” dos bens produzidos no meio rural, reforçando o
movimento de longo prazo do substitucionismo para reduzir a
parcela da agricultura e da terra no valor agregado gerado pelo
sistema alimentar. 123 Métodos aperfeiçoados de fracionamento e
inovações bioindustriais melhoraram grandemente as oportunidades
de se criar alimentos reconstituídos em fábricas. Ingredientes
alimentares genéricos, derivados de uma grande variedade de
matérias-primas, inclusive de fontes “não convencionais”, ganharão
terreno progressivamente às expensas de bens individuais
“completos”. Em seu limite, a noção de uma indústria alimentar de
transformação fica difícil de se manter. Poderemos precisar falar, ao
invés disso, de uma indústria de transformação dos elementos
químicos constituintes dos alimentos, reconhecendo que as culturas alimentares tradicionais constituem apenas uma das diversas fontes
possíveis.
Essas tendências prenunciam padrões de produção agrícolas e de
comercialização de “materiais” de biomassa no meio rural, onde as
considerações dominantes serão o conteúdo de amido, glucose e
outros subprodutos da química de carboidratos, e a sua demanda
derivada em produtos finais de alimentos reconstituídos. A distinção
crítica que revela o alcance essencial do substitucionismo é entre a
demanda direta do milho para, digamos, milho assado na espiga,
farinha de milho ou ração animal e a demanda derivada de
carboidratos e proteínas. Como vimos, com tecnologias alimentares
crescentemente sofisticadas, a forma pela qual o alimento humano é
consumido pode sofrer, agora, alterações radicais. A indústria
alimentar, apoiada pela aceleração do ritmo de transferência da
tecnologia originária de firmas químicas e farmacêuticas, pode não
só substituir os alimentos tradicionais, in natura ou
semiprocessados, por substitutos reconstituídos fabricados, ou
também criar novidades e produtos inteiramente novos. É provável
que as fronteiras do substitucionismo sejam definidas tanto pelos
gostos e pela lealdade dos consumidores aos alimentos orgânicos
completos quanto pelas restrições técnicas e de engenharia.
Conclusão
Biotecnologias modernas penetram, atualmente, até o centro do
processo de produção biológica e, por conseguinte, desafiam as
premissas originais sobre as quais a agroindústria foi estabelecida.
Anteriormente, os limites à manipulação biológica definiam esferas
de interesses contíguas, mas relativamente independentes, entre os
capitais apropriacionistas e substitucionistas. Nos últimos vinte
anos, aproximadamente, essa divisão foi corroída pela aplicação
dos avanços em engenharia de processos químicos ao
processamento e fabricação de alimentos. Isso estimulou crescente
convergência e integração vertical entre as atividades industriais,
polarizadas, respectivamente e, em volta da apropriação e da
substituição. Agora, no entanto, está surgindo um novo paradigma tecnológico, baseado em biotecnologias modernas, que provocará
uma reestruturação radical dessas indústrias, à medida que os
capitais realinham as suas atividades para defender posições já
estabelecidas e explorar novas oportunidades. Essas inovações
quebram ligações estratégicas nas cadeias agroalimentares que
juntam subsetores agrícolas específicos com as suas contrapartes
industriais. Como resultado, as relações entre os capitais industriais
no sistema alimentar tornar-se-ão crescentemente antagonísticas, e
as rivalidades serão intensificadas por novas entradas no mercado à
medida que as biotecnologias redefinem as condições para essa
entrada.
Em um extremo, à medida em que a biologia molecular vegetal
desenvolve o seu potencial como força produtiva, levanta-se o
prospecto de ajustar a natureza de tal maneira que será acelerada a
transição para os sistemas agrícolas automatizados e de produção
contínua, no contexto do apropriacionismo. Isto é, está surgindo um
novo processo de trabalho industrial com base no produto agrícola.
Biotecnologias vegetais modernas também transformarão a maneira
pela qual o produto é integrado ao sistema alimentar subseqüente.
Assim, o aumento do controle industrial da biologia vegetal permitirá
a manipulação direta das propriedades nutricionais e funcionais das
plantas cultivadas, acelerando as tendências em direção à
integração vertical completa.
Ao mesmo tempo, a competência biotecnológica cria novas
perspectivas para a substituição industrial, que terá o efeito de
reforçar a tendência de trivialização do produto agrícola. Novas
técnicas de processamento transformarão esse produto, alimentos
ou não, em componentes químicos básicos ou intermediários de
usos múltiplos e competitivos. Culturas agrícolas serão
crescentemente “reduzidas” ao status da biomassa, diferenciáveis
pela sua composição química, tornando-se efetivamente
intercambiáveis como matériasprimas para posterior
processamento. Em suma, a distinção entre matérias-primas
alimentares e não-alimentares como fonte de produtos finais
específicos está desaparecendo rapidamente.
Essa intercambialidade crescente traz tantas oportunidades quanto
perigos para os capitais entrincheirados nas cadeias
agroalimentares bem estabelecidas. A elevação da indústria do
amido de milho, com a sua ampla gama de produtos, ilustra essa
oportunidades. Por outro lado, avanços recentes da biotecnologia,
especialmente a possibilidade de produção em larga escala da
proteína de célula única, utilizando-se de uma grande variedade de
matérias-primas intercambiáveis, golpeiam o próprio coração do
sistema alimentar. Especificamente, a proteína de célula única
ameaça potencialmente a posição de comando usufruída pelos
interesses ligados aos grãos, às rações e à criação de animais.
Esses capitais, assentando-se nos ganhos de produtividade do
apropriacionismo, estruturaram o sistema alimentar moderno e
dirigiram, com sucesso, a sua internacionalização. As recentes
pesquisas sugerem, no entanto, que o complexo cereais/carne
moveu-se rapidamente para enfrentar, em sua instância, esse
desafio e eliminou efetivamente a ameaça da proteína de célula
única. Assim, Byé e Mounier (1984) argumentam que o fracasso
retumbante da PCU em penetrar os mercados mais importantes de
alimentos e rações nos anos 70 não foi devido apenas a custos não
competitivos, como aceito pela sabedoria convencional. Ao
contrário, refletiu também o sucesso de uma bem orquestrada
campanha de relações públicas, conduzida por esses poderosos
interesses ligados aos cereais e à carne, que relegou a PCU a
nichos estreitos e especializados do mercado.
Conseqüentemente, a despeito do potencial técnico manifesto para
acelerar e completar o processo de substituição do produto rural via
proteína de célula única, a biotecnologia tem sido usada, ao invés
disso, para fortalecer os interesses primários dos processadores,
através do desenvolvimento de novos usos para os produtos e do
aperfeiçoamento da utilização de subprodutos. No entanto, o custo
dessa estratégia é o de intensificar a competição entre produtos
primários diferentes e os seus capitais agroindustriais associados,
uma vez que, à medida que a capacidade de conversão
biotecnológica em produtos genéricos intermediários continue a melhorar, tais produtos perderão progressivamente a sua
especificidade.
Essa disputa pode ser exemplificada pelo esforço, nos Estados
Unidos, para explorar a versatilidade do milho, que vem emergindo
como a base de um setor de
agricultura/alimentação/energia/produtos químicos. Interesses
associados ao milho conseguiram mobilizar apoio estatal para a
consolidação de uma indústria diversificada de amido, e o milho é a
matéria-prima para o programa americano do etanol. A aplicação de
novas técnicas de processamento também criou novos mercados
para o milho no sistema alimentar, tanto para ração animal -o glúten
de milho -como para o mais importante adoçante industrial. Como
vimos, os xaropes de milho de alto teor de frutose, produzidos com
a tecnologia de enzimas imobilizadas, estão ganhando espaços
significativos nos mercados tradicionais do açúcar. Por sua vez, os
interesses ligados ao açúcar responderam com o desenvolvimento
de adoçantes competitivos baseados no açúcar e diversificando-se
em uma indústria sacaroquímica. No Brasil, o programa do etanol
promete fornecer a base para uma nova bioindústria diversificada,
utilizando-se do açúcar de cana. O açúcar também é usado como
matéria-prima para uma indústria de proteínas de célula única em
Cuba. Dessa perspectiva, o potencial da biotecnologia foi mobilizado
para defender interesses ligados a produtos específicos, embora às
custas de uma maior competição entre matérias-primas agrícolas.
No entanto, apesar de as biotecnologias terem acelerado a
diversificação de produtos nos setores do milho e do açúcar, isso
não elimina a dinâmica em direção à substituição industrial. Não são
o milho ou o açúcar, mas os carboidratos, as matériasprimas
básicas da nova bioindústria, e eles podem ser derivados de uma
variedade de fontes agrícolas, tanto de culturas alimentares como
não-alimentares. Da mesma forma, o sucesso dos xaropes de milho
de alto teor de frutose estimulou o surgimento de produtos
competitivos, inclusive o aspartame, “sucralose” e outros, enquanto
que programas de etanol nos Estados Unidos e no Brasil dependem
de pesados subsídios estatais, cujos custos foram acentuados pelo
colapso recente nos preços do petróleo. 124 A diversificação, assim,
fornece uma solução vulnerável ao desafio substitucionista
representado pela produção industrial de proteínas para o uso
humano e animal.125
Pode-se argumentar que a tendência em direção à substituição
industrial é reforçada por novos padrões de consumo de alimentos,
embora novamente existam fatores contrários importantes em
funcionamento. Uma vez que os requisitos biológicos básicos são
atingidos, o conteúdo “natural” de comida torna-se, paradoxalmente,
um obstáculo ao consumo. Se é para promover o aumento da
ingestão ao mesmo tempo em que se observam recomendações
dietárias, então os alimentos precisam ser mais altamente
processados para se reduzir o conteúdo de calorias, gorduras
insaturadas e açúcares. Produtos animais e laticínios, os produtos
finais do complexo do milho, estão entre os alimentos mais
ameaçados por essas tendências, como indicado claramente pela
queda no consumo 126 per capita de carne nos Estados Unidos.
Alternativamente, técnicas industriais de produção de proteína
“animal” podem ser facilmente adaptadas para atender a esses
requisitos dietéticos e, como vimos no caso da micoproteína, elas
eliminam a necessidade de cereais para a alimentação. Dada a sua
capacidade de converter carboidratos de baixo valor em proteínas
de alto valor, esses métodos industriais diretos acelerarão a
transição de uma agricultura de produção de culturas para uma de
produção de biomassa.
Concomitantemente, no entanto, a biotecnologia revitalizará o
apropriacionismo e reforçará a posição do produto natural rural. A
engenharia genética vegetal promete criar variedades de culturas
feitas sob medida para atender os requisitos nutricionais e de
processamento, além de adaptados a processos de produção que
permitem a aplicação da microeletrônica. A “agricultura de ambiente
controlado” lidera, aqui, os rumos futuros, mas a automação
encontrará também um crescente papel nos cultivos de campo
aberto. Como já sugerimos, a combinação da biotecnologia e da
microeletrônica fornece as fundações para a apropriação industrial completa da agricultura e de produto natural. Com a crescente
resistência dos consumidores a produtos altamente processados,
esses métodos industriais ainda novos representam maneira
inovadora de integrar os produtos agrícolas no sistema alimentar
urbano.
A biotecnologia, portanto, abre novas trajetórias para a
industrialização da agricultura. Essas incluem desde o
substitucionismo puro e simples, com a produção fabril ou industrial
dos alimentos, com base em matérias-primas não-alimentares, ou
mesmo não-agrícolas, até as tecnologias da fermentação. Por outro
lado, existem alternativas apropriacionistas igualmente radicais, que
exploram a biotecnologia para valorizar o produto agrícola e, mais
especificamente, manter o complexo cereais/carne como o fulcro do
moderno sistema alimentar. Ao seu limite, essas trajetórias estão em
posição direta e implicam em uma competição feroz. Em um plano
mais pragmático, a questão crucial é: qual será o peso relativo
dessas duas tendências, uma vez que, em conjunto, elas definem o
contexto para a organização futura do sistema alimentar?