Didática e Interdisciplinaridade

Ivani Fazenda · Capítulo 9 de 12

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Didática e Interdisciplinaridade

8. O Tempo, o Espaço e o Movimento do Grupo

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O TEMPO, O ESPAÇO E O MOVIMENTO DO

GRUPO DE PESQUISA DA UNIP-UNIVERSIDADE PAULISTA NA ESTRUTURA DE PÓS-GRADUAÇÃO

 

Ana Gracinda Queluz

 

Um pouco de história

 

O trabalho que venho desenvolvendo no mestrado em educação da Unip, na disciplina "Formação e desenvolvimento de educadores", na orientação das dissertações de mestrado e no grupo de pesquisa, tem como fio condutor o interesse pela trajetória que o professor percorre para sua construção como professor-pesquisador.

Ao ingressar no mestrado, o aluno já cumpriu uma primeira exigência de seleção que foi apresentar um projeto de pesquisa. Portanto, a partir daquele momento, ele já está compromissado com a questão da investigação que realizará. Geralmente, ao escolher a disciplina optativa "Formação e desenvolvimento de educadores", pretende encontrar mais elementos para auxiliá-lo na construção de seu trabalho, principalmente quando o que pretende tem como foco de interesse aspectos ligados à temática tratada pela disciplina.

 

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É interessante observar que, nessa primeira fase em que o mestrando está "pensando" a dissertação, ele vive um período marcado pela preocupação com sua real possibilidade de conseguir realizar o que deseja, ao mesmo tempo em que está envolvido pelo entusiasmo inicial que o "novo" ciclo de vida suscita.

É comum nos primeiros encontros de orientação da dissertação que o mestrando demonstre grande entusiasmo por uma temática que gostaria de tratar em toda a sua abrangência. Por isso, é comum que tenham objetivos megalomaníacos e impossíveis de concretizar no mestrado. Esse entusiasmo e essa vontade de realização vêm acompanhados de muito medo de não ser capaz. Assim, vivendo numa gangorra que ora o coloca lá em cima e ora o joga ao chão, o nosso professor-pesquisador vai "sobrevivendo",

No início das aulas da disciplina já citada, a situação é mais amena, pois os alunos sentem-se mais dentro do campo, podem participar e trazer para os companheiros suas experiências, opiniões, expectativas e frustrações. Afinal, são professores e "dominam" o conteúdo que ensinam. Porém, à medida que vão se aprofundando no tema, verificam que há muito o que aprender e aumentam suas expectativas em relação ao que obterão da pesquisa que têm em mente.

Analisando os relatórios de acompanhamento dos mestrandos nessa disciplina e nos grupos de discussão das atividades programadas, pude identificar elementos que considerei importantes para a compreensão do processo vivenciado pelos componentes de um grupo de pesquisa.

 

O tempo

 

Revisitando os diferentes tempos do grupo

 

1º tempo; Atividades programadas - No início, as atividades programadas focalizavam o estudo das metodologias de pesquisa. Com o passar do tempo, por força da necessidade de preparação do relatório de qualificação, os mestrandos começaram a trazer seus trabalhos para as reuniões de pesquisa. Assim, cada trabalho passou a ter um espaço de discussão e troca dentro do grupo. Pedi, então, a cada aluno que elaborasse sua

 

148 trajetória desde a decisão de fazer mestrado até o ponto em que havia chegado no desenvolvimento de sua temática. Para a análise desse primeiro trabalho, adotamos como analogia a avenida Paulista e refletimos sobre o caminho traçado para a realização do trabalho como uma avenida com seus pontos de referência, suas ruas transversais, suas ruas paralelas, seus pedestres, seus meios de transportes, suas sinalizações.

Acompanhava, então, a leitura de cada aluno e no quadro-negro tentávamos desenhar a avenida pela qual ele estava transitando para realizar seu trabalho. Observávamos como era o movimento nessa avenida: lento ou rápido, sinalizado ou não; focalizávamos também o cenário: pontos de referência; procurávamos atores: diferentes tipos físicos, diferentes etnias; e identificávamos quando o aluno saía da avenida para se perder em suas paralelas e transversais ou quando não estava perdido, mas apenas construindo um atalho que lhe permitiria chegar mais rapidamente a seu destino.

Assim, uníamo-nos numa tentativa de encontrar o norte de cada um.

Daí para a segunda fase foi um pulo: encontrado o caminho, construída a avenida, ficava a dúvida: Será que a banca compreenderá o caminho ou perder-se-á por outros caminhos que pela sua experiência prefere transitar?

Decidimos, então, simular um exame de qualificação e, para tanto, escolhemos três alunos (dois titulares e um suplente) para "examinar" um trabalho. Foram constituídas várias bancas. Pretendia-se preparar tanto aquele que defende como aquele que deve aprender a ler com o olhar crítico de um examinador. Aquele olhar que permite sugerir melhoras, que penetra no texto e identifica espaços ricos ainda não vislumbrados e ajuda a ampliar a construção. Ao fazer esse tipo de leitura, ele aprende a abrir para si mesmo caminhos que ainda não ousou trilhar.

As primeiras bancas trouxeram reações fortes: "Que tensão! Eu vou ter mesmo de passar por isso?", "Que surpresa - o trabalho ganhou peso na leitura da banca!"

Foi uma grande experiência! Ela se completava com a participação do grupo após "o exame". Muita coisa acontecia ali: trocas significativas fluíam numa construção que se fazia coletiva. Ali, naquele espaço, iam-se formando pesquisadores.

 

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2º tempo: Reuniões com temas específicos - Defino esse tempo como um segundo momento, porque começou aí o nosso movimento de reflexão sobre a experiência de grupo. A primeira necessidade foi discutir algo que era tema de todos os encontros: o pavor com o passar do tempo: "Não vou conseguir, não tenho tempo, não estou tendo tempo para escrever, eu não consigo..."

Esse momento resultou numa discussão interessantíssima sobre as mudanças na vivência do tempo quando o pesquisador começa a sua formação.

Uma coisa muito importante e que, naquele momento, não pude perceber, nem os demais elementos do grupo, é que havia uma mestranda com uma vivência de tempo muito diferente dos demais e foi justamente ela que teve mais problemas com a dissertação.

Outra necessidade do grupo foi discutir a questão da interdisciplinaridade. Convidamos a professora doutora Ivani Fazenda, que proferiu uma excelente palestra sobre a interdisciplinaridade e, ao abordar a pesquisa, introduziu a questão do símbolo como elemento fundamental na construção do trabalho.

3º tempo: Grupo de pesquisa da Unip — Criamos o grupo. Ele nasceu oficialmente em abril de 1996. Está ensaiando os primeiros passos, está construindo sua identidade. Combinamos que nos deferíamos no estudo de uma série de autores sobre formação. A primeira reunião aconteceu no laboratório de línguas da Unip e foi coordenada por uma mestranda que traduziu e mergulhou no trabalho de Dominicé (1990). O grupo absorveu e aproveitou muito a contribuição desse autor. No rastro dele, o outro texto eleito foi de António Nóvoa (1991), e foi outra mestranda quem tratou do tema. Esses dois autores abriram um grande espaço para a formulação das questões norteadoras dos trabalhos nessa área. Durante várias reuniões, fomos aprofundando o debate e cada um foi extraindo elementos básicos para seu trabalho. As palestras do professor doutor António Nóvoa, proferidas na PUC-SP, enriqueceram nosso grupo por termos tido o privilégio de ouvi-las, e pudemos ampliar nosso banco de documentação com as fitas gravadas durante essas palestras. Um fato novo veio dar mais força à vida do grupo: o 1° Encontro Intergrupos Interdisciplinares e Inter-institucionais. A troca de experiências entre os membros do Ment ("Memória,

 

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Ensino e Novas Tecnologias"), do NTC ("Novas Tecnologias, Comunicação e Cultura"), do Grupo de Interdisciplinaridade e do nosso foi fundamental para dar um novo rumo ao grupo. As três reuniões do mês de agosto foram dedicadas a repensar o papel do grupo no contexto da pós-graduação.

Afinal, estávamos assumindo naquele momento uma missão muito maior: participar do seminário sobre pesquisa em que o grupo está no cerne da questão proposta, no espaço da pós-graduação da PUC-SP.

Emergiu nessas reuniões a necessidade de identificar e analisar mudanças que eram comuns aos elementos do grupo e que podiam ser atribuídas a esse tipo de vivência.

A questão da temporalidade foi focalizada como prioritária nessa discussão, até porque havia uma expectativa por parte do grupo de que eu pudesse auxiliá-los na compreensão desse fenômeno por ter tratado desse tema na minha tese de doutorado e pelos aprofundamentos realizados. 1

 

A vivência do tempo no grupo

 

O primeiro aspecto que pretendo abordar diz respeito à temporalidade, mais precisamente à forma como a vivência do tempo é trans-formada e trans-formadora na formação do pesquisador.

Emerge em todos os relatos dos orientandos a mudança na maneira de "sentir" a passagem do tempo.

 

Quando estou na frente do computador elaborando o conteúdo, o

envolvimento é tão grande que sento em torno das 8 horas e saio ao meio-

dia, sem perceber a passagem das horas, dos minutos, do tempo. Até

comecei a perceber isso pela necessidade de ter um limite externo para

continuar fazendo as coisas, ter um compromisso para cumprir, horários a

cumprir. Então, comecei a perceber: "Nossa! Há quanto tempo eu realmente

estou aqui na frente do computador e não me dei conta de que estava todo

esse tempo.

 

1. A.G. Queluz. "A vivência temporal na fala de crianças de pré-escola: Uma

abordagem fenomenológica". Tese de doutorado. USP, 1988.

 

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É como se fosse um distanciamento do tempo, um desligamento do minuto

passando a cada minuto... É o tempo da criação. Nesse exercício da

produção científica eu me apropriei do tempo. (memo 1)

 

Para essa mestranda, o envolvimento provocado pela pesquisa é tão grande que a passagem do tempo é marcada pelos fatos externos que a retiram cie seu mergulho na produção da dissertação, trazendo-a novamente para o cotidiano cio conhecido, do já produzido. O tempo vivido durante o trabalho é tão intenso que não pode ser marcado pelo relógio. Enquanto esse relógio externo marca em minutos o vivido, ela descobre que esteve em uma outra zona do tempo, cuja correspondência em minutos não é adequada para marcar a intensidade do vivido. A atividade retirou os limites que marcavam essa passagem do tempo, porque esse mergulho na produção do conhecimento que estará "pronto" num futuro a lança no devir e a distancia do tempo social. A qualidade do tempo vivido é agora muito diferente da daquele destinado às atividades rotineiras. Ela relata que o melhor tempo para esse mergulho é quando ela está livre da presença daqueles que rompem com esse envolvimento, solicitando-a para outras atividades, como, por exemplo, atender os filhos nas suas necessidades. E também descobre: "A pesquisa me fez me auto-apropriar do tempo!"

No tempo em que se dedica à realização da pesquisa, o tempo passa, e ela pressente que carrega com ele acontecimentos dos quais está mantendo uma distância, impedida por seu impulso pessoal de realização de chegar até eles.

Um outro depoimento salienta a presença da pesquisa em todos os momentos da vida - "ela não me sai da cabeça". Uma orientanda, analisando essa situação, diz que isso modificou sua relação com o tempo.

Eu não vou deixar de fazer tudo, mas se vejo um filme no vídeo no sábado à

tarde, eu valorizo aquele tempo em que estou relaxada numa almofada no

chão; eu estou aproveitando esse tempo, coisa que antes eu não valorizava.

Também quando venho para cá aproveito para dar uma bela dormida no

ônibus, porque sei que estou cansada e preciso aproveitar esse tempo para

dormir. Isso é impressionante! (memo 2)

 

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Ela está se referindo à consciência que adquiriu de sua vivência temporal e da aprendizagem que realizou de valorização do seu tempo e que, por isso, com a mesma intensidade que produz, mergulha em situações do cotidiano e em situações de relaxamento, descanso e "sonhos".

Ao realizar a obra, parece-me que o impulso restringe meus horizontes, mas, paralelamente, lá fora, o devir se abre cheio de possibilidades, de promessas, de riquezas. Das ondas em movimento que me rodeiam, escuto suaves chamadas. Surge, então, a necessidade imperiosa da contemplação, porque não consigo suportar nenhuma limitação, mesmo proveniente do meu próprio impulso pessoal. O que acontece é a penetração do devir no impulso pessoal para enriquecê-lo com suas forças vivas. São essas forças que fazem brotar do fundo do nosso ser a inspiração (Queluz 1988).

Esse mergulho no devir provoca um sentimento de repouso e relaxamento. Esse repouso é rico em conteúdo vivente.

Para uma outra mestranda, a vivência do tempo traz outros aspectos importantes para nossa discussão.

 

Eu preciso sentir que tenho todo o tempo para escrever. Assim, hoje eu vou

tirar a manhã, a tarde e a noite para fazer isso. Então, eu vou jazer isso!

Incomoda-me sentar e ficar das oito ao meio-dia só escrevendo. Alguma

coisa me impulsiona a parar, a retomar alguma coisa do cotidiano, tipo

assim: lavar um copo, dobrar uma roupa. Enquanto estou fazendo isso, estou

elaborando um pouco mais o que escrevi, aí eu preciso, nem que seja de 10

ou 20 minutos para isso, depois eu volto e fico mais um tempo escrevendo e

faço isso de novo. Eu preciso de uma quebra, (memo 3)

 

Essa é uma forma de auto-apropriação do tempo em que a mestranda deixa claro que precisa manter o contato com seu cotidiano, mesmo que, ao realizar determinada tarefa, sua mente esteja ainda trabalhando na pesquisa. Esse movimento que percorre o caminho de ida e volta entre a produção do conhecimento e as atividades rotineiras do cotidiano é o contato vital com a realidade. A mestranda está extraindo do cotidiano novas forças para retornar ao trabalho.

 

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Cada pessoa vai descobrir como realizar esse movimento, percorrer esse caminho que se apresenta como um arco de ligação entre o devir e a realidade, valorizando tanto o tempo de elaboração da dissertação quanto o tempo de descanso.

Outra orientanda fala da importância do bordado nessa fase da sua vida.

No gobelin, você tem a possibilidade de bordar uma tela pintada ou

demarcada ou bordar olhando um gráfico. Geralmente, eu gosto de bordar

olhando o gráfico. Então, a tela não tem nada e eu tenho um gráfico do lado

e vai-se bordando, mas eu vou alterando, eu vou mudando, mas não vou

mudando cor, eu vou mudando o desenho. E se a tela é demarcada, eu mudo

muita coisa. Por exemplo: uma que acho que vai só acabar em setembro

também tem um caminho, ela é uma casa tipo normanda e tem muita

vegetação e tem um caminho grande; esse caminho tem umas pedras e

algumas plantas. Eu aumentei a quantidade de plantas e tirei as pedras. Eu

fiz uma grande mudança no risco inicial. Quando eu estou alterando uma

tela, eu não estou transpondo uma representação, eu estou vendo aqui flores

que não estão ali, elas estarão num futuro, depois que eu mudar aquela cena.

Eu acho que é a necessidade de manipular um suporte, você tem um

suporte. Então, o que para mim fica claro: eu tenho um suporte, mas estou

pondo algo de meu nesse suporte, (memo 4)

 

Na discussão, o grupo foi elencando as atividades que considerava como suporte para a busca de equilíbrio nesse tempo de produção da dissertação. Independente da atividade, diferente para cada um, uma coisa permanecia comum a todos: até nessas atividades a dissertação estava presente.

O segundo aspecto focaliza e analisa a vivência temporal dos componentes do grupo de pesquisa à luz dos estudos de Eugène Minkowski sobre o futuro. Esse autor, ao confrontar o devir com a noção de direção, afirma:

Na vida, tudo o que tem uma direção no tempo tem impulso, avança,

progride para o futuro. Do mesmo modo, enquanto penso em uma

orientação dentro do tempo, sinto-me irresistivelmente impulsionado para a

frente e vejo que o futuro se abre diante de mim. (Minkowski 1973, pp. 39-

40)

 

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Esse impulso se liga de tal forma ao futuro que ambos se tornam

uma coisa só, que é responsável pela nossa descoberta da existência do futuro, que lhe dá o seu sentido, que o abre e o cria diante de nós.

Meu impulso só é pessoal quando ultrapassa minha própria

pessoa; "quando afirmo meu eu e realizo algo (e não apenas procurando realizá-lo) é que afirmo meu eu diante do devir poderoso e infinito" (Queluz 1988, p, 50).

Considerando, então, que o impulso pessoal é marcado por um

sentimento de tensão - pois há sempre algo que se deseja alcançar - e que esse sentimento orienta nossa vida em direção ao futuro, a vivência do tempo em um grupo de pesquisa traz importantes elementos para a compreensão das mudanças que esse tipo de experiência proporciona.

Existem fenômenos vitais suscetíveis de dar resposta ao futuro vivido, na medida em que constituem o fundamento e a consistência desse futuro, que são: a atividade e a espera; o desejo e a esperança; a prece e a busca da ação ética,

 

Atividade e espera

 

A atividade constitui o pano de fundo de todas as nossas ações, relacionando-as umas às outras - é um fenômeno essencial à vida, sua natureza é temporal, porque não faz parte do ser, mas, sim, do devir.

A atividade serve de base para a afirmação do eu e para a obra, porque só crio algo com a minha atividade e unicamente a obra pode separar-se da atividade sem ser totalmente absorvida por ela.

No grupo de pesquisa, a esfera da atividade é determinada pelo envolvimento com a obra. O fracasso ou o sucesso em nada modificam -o fenômeno da atividade, que continua sendo a base das experiências relativas ao que somos capazes de realizar. Vista em sua relação com o futuro, coloca em evidência a sensação de expansão e, em muitos relatos dos participantes do grupo, aparece também o sentimento de "sintonia" a que Minkowski se refere, como se nesses momentos a atividade estivesse acompanhada de um matiz muito discreto, porém suficientemente preciso: a alegria elementar de viver.

 

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A qualidade desse tempo vivido no grupo, em virtude da ausência de notas, de cobranças institucionais, pode explicar a forma como o grupo fala da atividade.

Na atividade, tendemos para o futuro, ao passo que, na espera, acontece o inverso: vemos o futuro chegando até nós, esperamos que esse futuro se faça presente. No grupo, as situações de espera praticamente não existem, diferentemente das situações de ensino em que muitas vezes os alunos são convidados a esperar pelas notas, pelo conhecimento pelo qual se interessam, mas que será "ensinado" numa outra época etc. O componente do grupo está produzindo, não espera que o conhecimento seja passado para ele. Ele participa ativamente da construção desse conhecimento.

Segundo Minkowski, a espera "engloba todo o ser vivo, suspende sua atividade e o congela angustiado... É como se a espera contivesse em si mesma um fator de brutal detenção, como se o devir concentrado fora da pessoa fosse caindo sobre ela, aniquilando-a. Por isso, há o sentimento de intensa angústia" (Minkowski 1988, p. 86).

 

Desejo e esperança

 

"Os dois fenômenos constituem o pano de fundo sobre o qual se desenrola nossa vida psíquica - um meio impregnado de afetividade. São como dois momentos poéticos da nossa vida, representam os dois pilares na armação geral do futuro vivido, pois através deles há algo a desejar, há sempre esperança" (Queluz 1988, pp. 91-92).

Nosso grupo de pesquisa acontece no espaço da universidade, porém não faz parte do programa de pós-graduação, isto é, não há matrícula, notas, créditos. A condição para dele participar é o envolvimento com a investigação sobre a formação do professor-pesquisador.

O desejo de participar e de produzir sua pesquisa é fundamental e faz parte do cotidiano da vida do grupo. Na fala dos elementos do grupo, a manifestação de seus desejos em relação ao trabalho é constante, assim como a esperança de vencer as dificuldades.

"O desejo contém em si a atividade, ao passo que a esperança nos liberta da espera ansiosa. Isso faz com que o desejo pareça mais apegado à terra do que a esperança, que tem em si já algo de sublime" (Minkowski 1973, p. 96).

 

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Prece

 

A prece é uma profissão de fé que nos eleva acima de nós mesmos e que acontece quando há perigo e a esperança parece muito frágil.

É comum no grupo referências à prece: "Estou rezando para

conseguir defender essa dissertação", "Vou rezar para você conseguir".

A prece se dirige imediatamente para o futuro e constitui sempre

um mecanismo de defesa do nosso ser contra a ameaça suspensa sobre nossa vida. Constitui a interiorização total da vida.

 

A busca da ação ética

 

A busca da ação ética é uma constante nas discussões do grupo e, como deve permanecer essencialmente consciente, ela se cria e recria em todos os encontros.

Em síntese, pode-se afirmar que há o fortalecimento do impulso pessoal que abre o futuro nas suas dimensões mais profundas, ultrapassando a atividade (futuro imediato) para percorrer todas as outras zonas do futuro, fortalecendo-se como um ser humano que, ao sentir-se caminhando com o tempo e de acordo com ele, experimenta a sensação de um ritmo único, comum a si mesmo e ao devir circundante, enfim, sente-se avançando simultaneamente com o tempo.

 

Passado

 

O papel do passado, para Minkowski, é abrir o futuro, isso porque a recordação, o remorso e o pesar constituem elementos capazes de abrir de novo o caminho para o futuro.

Ouvindo o relato de uma mestranda sobre sua vida, ficou clara a separação que ela faz entre o antes e o depois do ingresso no mestrado. O elemento divisor desse tempo é a participação no grupo de pesquisa. Tendo exercido, além do magistério, cargos de coordenação, direção e supervisão, e participado de equipes de assessoria na Secretaria Municipal, ela teve sob sua responsabilidade, em inúmeras situações e níveis de decisão, o treinamento dos professores da rede municipal de ensino. Sobre isso, destaca que, apesar dos esforços, muitos professores permaneciam à margem das propostas

 

157 apresentadas nos treinamentos. Ao longo dos anos, foi identificando alguns indícios para as sucessivas frustrações que esses treinamentos traziam.

 

Então, quais eram esses indícios? Foram identificados: como o professor dá

aula, como ele se coloca diante dos alunos, como ele é com ele mesmo.

Hoje, eu faço uma leitura mais clara dessa realidade. Eu avancei muito

nesse período em que me dispus a trabalhar a pesquisa. Hoje, percebo que

tem um envolvimento, um comprometimento muito maior a partir do

trabalho do professor e na forma como ele se enxerga como professor. Até

chegar nisso, foi uma dificuldade muito grande, um caminho meu muito

entrecortado, muito de avanços e retrocessos na minha prática como

formadora de professores. Hoje, estou num ponto que tenho alguns indícios

um pouco diferentes sobre o que é trabalhar com professor, como se

desenvolve esse trabalho na sala de aula. Eu acho que a gente precisa fazer

um avanço maior e acredito que essa pesquisa que estou fazendo está me

ajudando no esclarecimento da leitura desses indícios, (memo 5)

 

Assim como fez essa aluna, no grupo de pesquisa emergem do passado experiências, vivências, leituras que enriquecem as discussões na medida em que focalizam o positivo e o negativo num processo de formação.

 

O espaço

 

Dimensões

 

Psicológica - Espaço cultural, porque não se configura como espaço puramente escolar, que seria aquele delimitado pelos aspectos acadêmicos: planejamento, conteúdo, avaliação etc. Também não é um espaço puramente informal, uma vez que não está aberto a toda e qualquer pessoa e tem normas e regras de funcionamento. Trata-se do espaço intermediário emergente das experiências relacionadas entre o grupo em si e o fazer acadêmico. É o espaço de superposição das experiências pessoais com a área correspondente de vivências comuns entre membros de um determinado grupo. Esse espaço intermediário, existente

 

158 inicialmente entre o aluno e a academia, vai se transformando. Não é dentro nem fora: é inter-relacionado, constitui uma zona de interseção entre o subjetivo e aquilo que é objetivamente percebido, que se expande pela inter-relação, uma vez que representa uma experiência de continuidade daquilo que se pode definir como espaço transacional.

Nesse espaço, constrói-se coletivamente o conhecimento sobre

pesquisa e sobre formação.

Filosófica - Espaço em que a atitude interdisciplinar diante do conhecimento pode ser experienciada. "Atitude de busca de alternativas para conhecer mais e melhor, atitude de espera perante os atos consumados; atitude de reciprocidade, que impele à troca, ao diálogo com pares idênticos, com pares anônimos ou consigo mesmo; atitude de humildade diante da limitação do próprio saber; atitude de perplexidade ante a possibilidade de desvendar novos saberes, atitude de desafio diante do novo, desafio de redimensionar o velho; atitude de envolvimento e comprometimento com os projetos e as pessoas neles implicadas; atitude, pois, de compromisso de construir sempre da melhor forma possível; atitude de responsabilidade, mas, sobretudo, de alegria, de revelação, de encontro, enfim, de vida" (Fazenda 1994, p. 13).

Sociológica - O grupo, ao possibilitar o número maior de interlocutores, quebra com a interlocução apenas entre orientador e orientando, cria oportunidade de partilha com o outro, quebra a solidão do mestrando na pesquisa. Abre um novo caminho a ser percorrido do grupo para outros grupos, tendo como consequência a socialização do conhecimento em ambientes diversificados.

A aglutinação de pessoas provenientes de diferentes áreas de atuação, de formação diversa, possibilita a partilha entre inúmeras histórias de vida e imprime um movimento de troca entre as diferentes propostas de cada pesquisador envolvido.

 

O movimento

 

Acreditamos que essas três dimensões são elementos importantes para compreender o que esse grupo tem de especial se comparado a outros.

 

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Destacamos também o movimento do grupo, de cada um e de todos num contínuo ensaio dessa dança em que parceiros intuem a música e se movimentam ao som das vozes dos companheiros, que falam de diferentes experiências, sonhos, desejos, propósitos, caracterizando esse tipo de existência grupal como aquela que se fez capaz de romper com as amarras institucionais e apenas colocar algumas regras de funcionamento para que todos saibam quando e onde acontecerá o próximo encontro. Esse encontro é sempre um novo início.

 

Bibliografia

 

DOMINICÉ, P. (1990). L'histoire de vie comme processas de

formation. Paris: L'Hartmann.

FAZENDA, I. (1994). Interdisciplinaridade: História, teoria e

pesquisa. Campinas: Papirus.

MINKOWSKI, E. (1973). El tiempo vivido. México: Fondo de Cultura

Econômica.

NÓVOA, A. (1991). Profissão professor. Porto: Porto Editora.

QUELUZ, A.G. (1988). "A vivência temporal na fala de crianças de

pré-escola: Uma abordagem fenomenológica". Tese de

doutorado, Instituto de Psicologia, USP.

 

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