Didática e Interdisciplinaridade
Apresentação 7
APRESENTAÇÃO
Há tempos, empreendi uma ampla revisão histórico-crítica dos estudos clássicos sobre interdisciplinaridade. Concluí que, entre as principais preocupações dos anos 70, destacavam-se as de natureza filosófica; nos anos 80, a diretriz mais marcante foi a sociológica e, nos anos 90, caminha-se em busca de um projeto antropológico para a educação. Formar professores com base no cotidiano de suas práticas e rotinas firma-se como campo preferencial das pesquisas na área. Centros de referência nos Estados Unidos, no Canadá, na Europa e no Brasil cuidam de revisões conceituais, metodológicas e práticas. Conceitos pouco explorados na educação, tais como ética, estética, memória e temporalidade, já fazem parte do universo de discurso e pesquisa da interdisciplinaridade. Altera-se com isso o macroconceito do que é ser professor, que passa a ser revisto e analisado sob a égide da ambiguidade, da ruptura, dos pontos de inflexão.
Paradoxalmente, ao lado da conservação das boas rotinas, rejeitam-se a mediocridade das ideias, o hábito da subserviência, tudo o que massacra mentes e vidas. A lógica de base passa a ser a da invenção, da descoberta da pesquisa, da vontade planejada e construída.
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Nas questões da interdisciplinaridade, é possível planejar e imaginar, porém é impossível prever o que será produzido e em que quantidade ou intensidade.
Uma educação que abraça a interdisciplinaridade navega entre dois pólos: a imobilidade total e o caos. A percepção da importância do passado como gestor de novas épocas nos faz exercer paradoxalmente o imperativo de novas ordens, impelindo-nos à metamorfose de um saber mais livre, mais nosso, mais próprio e mais feliz, potencialmente propulsor de novos rumos e fatos. O processo interdisciplinar desempenha um papel decisivo no sentido de dar corpo ao sonho de fundar uma obra de educação à luz da sabedoria, da coragem e da humanidade.
As considerações acima, entre outras, conduzem-nos à constatação de que as questões da educação apresentam-se de forma ambígua, equívoca c polissêmica. Não pretendemos com a presente coletânea subvertê-las a nenhuma ordem lógico-formal, mas tão-somente alimentá-las com uma diversidade de análises complexas, amadurecidas por alguns dos nomes mais respeitados da educação atualmente.
Nosso objetivo comum foi o de enfrentar juntos um dos mais recentes paradoxos que a educação contempla: a longevidade das questões da didática e o ineditismo das proposições da interdisciplinaridade.
Os nomes que compõem esta coletânea dispensam apresentações, entretanto, achamos por bem indicar alguns aspectos que unem nossas pesquisas:
Isabel Alarcão - Um dos mais expressivos nomes da educação portuguesa; desenvolve seu trabalho preferencialmente na Universidade de Aveiro. Foi uma das principais responsáveis pela realização do I e do II Congresso Internacional sobre formação de professores nos países de língua e expressão portuguesas em 1993 e 1997, eventos esses dos quais a maioria dos participantes desta coletânea participou.
Antônio Joaquim Severino - Acompanhou-nos como orientador no mestrado, em 1978, quando iniciávamos nossos primeiros passos da pesquisa sobre a interdisciplinaridade. Com ele, vimos dividindo até hoje o sonho da construção de uma educação interdisciplinar.
Yves Lenoir - Conhecemos seu trabalho, inicialmente, por seus escritos e pelo trabalho desenvolvido no Laboratório de Didática Interdisciplinar na Universidade de Sherbrooke, no Canadá. A partir de então, temos empreendido projetos conjuntos em prol de uma interdisciplinaridade na educação.
Vicenç Benedito Antolí - Destaca-se por seu trabalho à frente do Centro de Ciências da Educação da Universidade de Barcelona; vem participando ativamente, nos últimos dez anos, da Reforma Educacional Espanhola, principalmente no que se refere à formação de educadores.
Julie Klein - Primeiro nome entre os estudiosos das questões da interdisciplinaridade nos Estados Unidos; com ela, dividimos projetos e sonhos nos últimos dez anos.
Vani Moreira Kenski - No Brasil, é considerada uma das mais empreendedoras pesquisadoras no que se refere às questões da memória e das novas tecnologias. Com ela, dividimos, além do conhecimento acadêmico, os desafios que a vida impõe.
Ana Gracinda Queluz - Estuda um dos mais controvertidos e inexplorados temas da educação: a temporalidade. Uma parceria de magia, renovada a cada encontro e projeto.
Selma Garrido Pimenta - Com ela, compartilhamos amizade, lutas e projetos políticos para uma educação melhor desde 1973.
Marcos Masetto - Nosso mais recente parceiro na aventura de viver o cotidiano de uma sala de aula interdisciplinar.
Ivani CA. Fazenda