Dispersão

Mário de Sá-Carneiro · Capítulo 8 de 12

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Dispersão

Como Eu Não Possuo

 

Olho em volta de mim. Todos possuem—

Um afecto, um sorriso ou um abraço.

Só para mim as ansias se diluem

E não possuo mesmo quando enlaço.

 

Roça por mim, em longe, a teoria

Dos espasmos golfados ruivamente;

São extases da côr que eu fremiria,

Mas a minh'alma pára e não os sente!

 

Quero sentir. Não sei… perco-me todo…

Não posso afeiçoar-me nem ser eu:

Falta-me egoismo pra ascender ao ceu,

Falta-me unção pra me afundar no lodo.

 

Não sou amigo de ninguem. Pra o ser

Forçoso me era antes possuir

Quem eu estimasse—ou homem ou mulher, E eu não logro nunca possuir!…

 

Castrado d'alma e sem saber fixar-me,

Tarde a tarde na minha dôr me afundo… —Serei um emigrado doutro mundo

Que nem na minha dôr posso encontrar-me?…

 

* * * * *

 

Como eu desejo a que ali vai na rua,

Tão agil, tão agreste, tão de amor…

Como eu quisera emmaranha-la nua,

Bebê-la em espasmos d'harmonia e côr!…

 

Desejo errado… Se a tivera um dia,

Toda sem véus, a carne estilisada

Sob o meu corpo arfando transbordada,

Nem mesmo assim—ó ansia!—eu a teria…

 

Eu vibraria só agonisante

Sobre o seu corpo d'extases dourados,

Se fosse aqueles seios transtornados,

Se fosse aquele sexo aglutinante…

 

De embate ao meu amor todo me rúo,

E vejo-me em destroço até vencendo:

É que eu teria só, sentindo e sendo

Aquilo que estrebucho e não possuo.

 

Paris—maio 1913.

 

X—Alem-tedio