Dispersão

Mário de Sá-Carneiro · Capítulo 3 de 12

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Dispersão

Alcool

 

Guilhotinas, pelouros e castelos

Resvalam longemente em procissão;

Volteiam-me crepusclos amarelos,

Mordidos, doentios de roxidão.

 

Batem asas d'aureola aos meus ouvidos, Grifam-me sons de côr e de perfumes,

Ferem-me os olhos turbilhões de gumes, Desce-me a alma, sangram-me os sentidos.

 

Respiro-me no ar que ao longe vem,

Da luz que me ilumina participo;

Quero reunir-me, e todo me dissipo—

Luto, estrebucho… Em vão! Silvo pra àlem…

 

Corro em volta de mim sem me encontrar… Tudo oscila e se abate como espuma…

Um disco de ouro surge a voltear…

Fecho os meus olhos com pavor da bruma…

 

Que droga foi a que me inoculei?

Ópio d'inferno em vez de paraíso?…

Que sortilegio a mim proprio lancei?

Como é que em dôr genial eu me eteriso?

 

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu, Foi alcool mais raro e penetrante:

É só de mim que eu ando delirante—

Manhã tão forte que me anoiteceu.

 

Paris 1913—maio 4.

 

V—Vontade de dormir