Dispersão

Mário de Sá-Carneiro · Capítulo 11 de 12

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Dispersão

A Queda

 

 

E eu que sou o rei de toda esta incoerencia,

Eu proprio turbilhão, anseio por fixa-la

E giro até partir… Mas tudo me resvala

Em bruma e sonolencia.

 

Se acaso em minhas mãos fica um pedaço d'ouro, Volve-se logo falso… ao longe o arremesso…

Eu morro de desdem em frente dum tesouro, Morro á mingua, de excesso.

 

Alteio-me na côr á força de quebranto,

Estendo os braços d'alma—e nem um espasmo venço!… Peneiro-me na sombra—em nada me condenso…

Agonias de luz eu vibro ainda emtanto.

 

Não me pude vencer, mas posso-me esmagar, —Vencer ás vezes é o mesmo que tombar—

E como inda sou luz, num grande retrocesso, Em raivas ideais, ascendo até ao fim:

Ólho do alto o gelo, ao gelo me arremesso… . . . . . . . . . . . . . . .

Tombei…

E fico só esmagado sobre mim!…

 

Paris 1913—maio 8.

 

Mario de SÁ-CARNEIRO.