Dispersão

Mário de Sá-Carneiro · Apêndice

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Dispersão

Partida

DISPERSÃO—12 POESIAS

 

POR MARIO DE SÁ-CARNEIRO.

 

EM CASA DO AUTOR:

 

1, TRAVESSA DO CARMO—LISBOA 1914

 

Tiragem: 250 exemplares

 

Capa desenhada por

 

JOSÉ PACHECO

 

I—Partida

PARTIDA

 

 

Ao ver escoar-se a vida humanamente

Em suas aguas certas, eu hesito,

E detenho-me ás vezes na torrente

Das coisas geniais em que medito.

 

Afronta-me um desejo de fugir

Ao misterio que é meu e me seduz.

Mas logo me triunfo. A sua luz

Não ha muitos que a saibam reflectir.

 

A minh'alma nostalgica de àlem,

Cheia de orgulho, ensombra-se entretanto, Aos meus olhos ungidos sobe um pranto

Que tenho a força de sumir tambem.

 

Porque eu reajo. A vida, a natureza,

Que são para o artista? Coisa alguma.

O que devemos é saltar na bruma,

Correr no asul á busca da beleza.

 

É subir, é subir àlem dos ceus

Que as nossas almas só acumularam, E prostrados resar, em sonho, ao Deus

Que as nossas mãos de aureola lá douraram.

 

É partir sem temor contra a montanha

Cingidos de quimera e d'irreal;

Brandir a espada fulva e medieval,

A cada hora acastelando em Espanha.

 

É suscitar côres endoidecidas,

Ser garra imperial enclavinhada,

E numa extrema-unção d'alma ampliada,

Viajar outros sentidos, outras vidas.

 

Ser coluna de fumo, astro perdido,

Forçar os turbilhões aladamente,

Ser ramo de palmeira, agua nascente

E arco de ouro e chama distendido…

 

Asa longinqua a sacudir loucura,

Nuvem precoce de subtil vapor,

Ansia revolta de misterio e olor,

Sombra, vertigem, ascensão—Altura!

 

E eu dou-me todo neste fim de tarde

Á espira aerea que me eleva aos cumes.

Doido de esfinges o horizonte arde,

Mas fico ileso entre clarões e gumes!…

 

Miragem rôxa de nimbado encanto—

Sinto os meus olhos a volver-se em espaço! Alastro, venço, chego e ultrapasso;

Sou labirinto, sou licorne e acanto.

Sei a Distancia, compreendo o Ar;

Sou chuva de ouro e sou espasmo de luz; Sou taça de cristal lançada ao mar,

Diadema e timbre, elmo rial e cruz…

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

 

O bando das quimeras longe assoma…

Que apoteose imensa pelos ceus!

A côr já não é côr—é som e aroma!

Vem-me saudades de ter sido Deus…

 

* * * * *

 

Ao triunfo maior, àvante pois!

O meu destino é outro—é alto e é raro.

Unicamente custa muito caro:

A tristeza de nunca sermos dois…

 

Paris—fevereiro de 1913.

 

II—Escavação