Dispersão

Mário de Sá-Carneiro · Capítulo 5 de 12

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Dispersão

Dispersão

 

Perdi-me dentro de mim

Porque eu era labirinto,

E hoje, quando me sinto,

É com saudades de mim.

 

Passei pela minha vida

Um astro doido a sonhar.

Na ansia de ultrapassar,

Nem dei pela minha vida…

 

Para mim é sempre ontem,

Não tenho amanhã nem hoje:

O tempo que aos outros foge

Cai sobre mim feito ontem.

 

(O Domingo de Paris

Lembra-me o desaparecido

Que sentia comovido

Os Domingos de Paris:

 

Porque um domingo é familia,

É bem-estar, é singeleza, E os que olham a beleza

Não tem bem-estar nem familia).

 

O pobre moço das ansias…

Tu, sim, tu eras alguem!

E foi por isso tambem

Que te abismaste nas ansias.

 

A grande ave dourada

Bateu asas para os ceus,

Mas fechou-as saciada

Ao ver que ganhava os ceus.

 

Como se chora um amante,

Assim me choro a mim mesmo:

Eu fui amante inconstante

Que se traíu a si mesmo.

 

Não sinto o espaço que encerro

Nem as linhas que projecto:

Se me olho a um espelho, érro—

Não me acho no que projecto.

 

Regresso dentro de mim,

Mas nada me fala, nada!

Tenho a alma amortalhada,

Sequinha, dentro de mim.

 

Não perdi a minha alma,

Fiquei com ela, perdida.

Assim eu choro, da vida,

A morte da minha alma.

Saudosamente recordo

Uma gentil companheira

Que na minha vida inteira

Eu nunca vi… Mas recordo

 

A sua bôca doirada

E o seu corpo esmaecido,

Em um halito perdido

Que vem na tarde doirada.

 

(As minhas grandes saudades

São do que nunca enlacei.

Ai, como eu tenho saudades

Dos sonhos que não sonhei!…)

 

E sinto que a minha morte—

Minha dispersão total—

Existe lá longe, ao norte,

Numa grande capital.

 

Vejo o meu ultimo dia

Pintado em rôlos de fumo,

E todo asul-de-agonia

Em sombra e àlem me sumo.

 

Ternura feita saudade,

Eu beijo as minhas mãos brancas…

Sou amor e piedade

Em face dessas mãos brancas…

 

Tristes mãos longas e lindas

Que eram feitas pra se dar… Ninguem mas quís apertar…

Tristes mãos longas e lindas…

 

E tenho pena de mim,

Pobre menino ideal…

Que me faltou afinal?

Um élo? Um rastro?… Ai de mim!…

 

Desceu-me nalma o crepusculo;

Eu fui alguem que passou.

Serei, mas já não me sou;

Não vivo, durmo o crepusculo.

 

Alcool dum sôno outonal

Me penetrou vagamente

A difundir-me dormente

Em uma bruma outonal.

 

Perdi a morte e a vida,

E, louco, não enlouqueço…

A hora foge vivida,

Eu sigo-a, mas permaneço…

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

 

Castelos desmantelados,

Leões alados sem juba…

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

 

Paris—Maio de 1913.

VII—Estátua falsa