Dispersão

Mário de Sá-Carneiro · Capítulo 9 de 12

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Dispersão

Alem-Tedio

 

 

Nada me expira já, nada me vive—

Nem a tristeza nem as horas belas.

De as não ter e de nunca vir a tê-las,

Fartam-me até as coisas que não tive.

 

Como eu quisera, emfim d'alma esquecida, Dormir em paz num leito d'hospital…

Cansei dentro de mim, cansei a vida

De tanto a divagar em luz irreal.

 

Outróra imaginei escalar os ceus

Á força de ambição e nostalgia,

E doente-de-Novo, fui-me Deus

No grande rastro fulvo que me ardia.

 

Parti. Mas logo regressei á dôr,

Pois tudo me ruíu… Tudo era igual:

A quimera, cingida, era real,

A propria maravilha tinha côr!

 

Ecoando-me em silencio, a noite escura

Baixou-me assim na queda sem remedio;

Eu proprio me traguei na profundura,

Me sequei todo, endureci de tedio.

 

E só me resta hoje uma alegria:

É que, de tão iguais e tão vazios,

Os instantes me esvoam dia a dia

Cada vez mais velozes, mais esguios…

 

Paris 1913—maio 15.

 

XI—Rodopio