Dispersão

Mário de Sá-Carneiro · Capítulo 10 de 12

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Dispersão

Rodopio

 

Volteiam dentro de mim,

Em rodopio, em novelos,

Milagres, uivos, castelos,

Forcas de luz, pesadelos,

Altas torres de marfim.

 

Ascendem helices, rastros…

Mais longe coam-me soís;

Ha promontorios, farois,

Upam-se estatuas d'herois,

Ondeiam lanças e mastros.

 

Zebram-se armadas de côr,

Singram cortejos de luz,

Ruem-se braços de cruz,

E um espelho reproduz,

Em treva, todo o esplendor…

 

Cristais retinem de medo,

Precipitam-se estilhaços,

Chovem garras, manchas, laços… Planos, quebras e espaços

Vertiginam em segredo.

 

Luas d'oiro se embebedam,

Rainhas desfolham lirios;

Contorcionam-se cirios,

Enclavinham-se delirios.

Listas de som enveredam…

 

Virgulam-se aspas em vozes,

Letras de fogo e punhais;

Ha missas e bacanais,

Execuções capitais,

Regressos, apoteoses.

 

Silvam madeixas ondeantes,

Pungem labios esmagados,

Ha corpos emmaranhados,

Seios mordidos, golfados,

Sexos mortos d'anseantes…

 

(Ha incenso de esponsais,

Ha mãos brancas e sagradas,

Ha velhas cartas rasgadas,

Ha pobres coisas guardadas—

Um lenço, fitas, dedais…)

 

Ha elmos, troféus, mortalhas,

Emanações fugidias,

Referencias, nostalgias,

Ruinas de melodias,

Vertigens, erros e falhas.

Ha vislumbres de não-ser,

Rangem, de vago, neblinas;

Fulcram-se poços e minas,

Meandros, pauis, ravinas

Que não ouso percorrer…

 

Ha vácuos, ha bolhas d'ar,

Perfumes de longes ilhas,

Amarras, lemes e quilhas—

Tantas, tantas maravilhas

Que se não podem sonhar!…

 

Paris—maio 1913.

 

XII—A Queda