Dos delitos e das penas

Cesare Beccaria · Capítulo 50 de 53

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Dos delitos e das penas

Extrato da correspondência de Beccaria e de Morellet sobre o livro Dos delitos e das penas

Extrato da correspondência de Beccaria e de

 

Morellet sobre o livro Dos delitos e das penas

 

De Morellet 45 a Beccaria

 

Paris, fevereiro de 1766.

Senhor:

Sem ter a honra de conhecer-vos, julgo-me no direito de endereçar-vos um exemplar da tradução que fiz de vossa obra Dei Delitti e delle Pene. Os homens de letras são cosmopolitas e de todas as nações; estão ligados por laços mais estreitos do que os que unem os cidadãos de um mesmo país, os habitantes de uma mesma cidade e os membros de uma mesma família. Julgo, pois, poder entrar convosco num comércio de ideias e de sentimentos que me será bastante agradável, se não vos recusardes ao entusiasmo de um homem que vos estima sem conhecer-vos pessoalmente, mas que adquiriu esses sentimentos por vós na leitura do vosso excelente trabalho.

Foi o sr. de Malesherbes,46 com quem tenho a honra de conviver, que me empenhou em fazer passar vosso livro para a nossa língua. Eu não tinha necessidade, para tanto, de esforçar-me muito. Era-me uma ocupação agradável tornar-me, para minha nação e para os países em que nossa língua está difundida, o intérprete e o órgão das ideias fortes e grandes e dos sentimentos de benevolência de que vossa obra está cheia. Parecia-me que me associaria ao bem que fazíeis aos homens e que poderia igualmente pretender certo reconhecimento da parte dos corações sensíveis, aos quais são caros os interesses da humanidade.

Faz hoje oito dias que minha tradução apareceu. Eu não quis escrever-vos mais cedo, porque julguei dever esperar que pudesse instruir-vos sobre a impressão causada por vossa obra. Ouso, pois, assegurar-vos, senhor, que o êxito é universal e que, além da atenção despertada pelo livro, se formaram pelo autor sentimentos que podem lisonjear-vos ainda mais, isto é, a estima, o reconhecimento, o interesse, a amizade. Estou particularmente encarregado de apresentar-vos os agradecimentos e os cumprimentos do sr. Diderot, 47 48 49 do sr. Helvetius, do sr. Buffon. Já conversamos muito com o Sr. Diderot sobre vossa obra, que é bem capaz de pôr fogo a uma cabeça tão quente como é a dele. Terei algumas observações que vos comunicar, que são o resultado das nossas conversas. O sr. de Buffon serviu-se das expressões mais fortes para testemunhar-me o prazer que vosso livro lhe causou; e pede-vos aceiteis os seus cumprimentos. Levei também vosso livro ao sr. Rousseau,50 que está em Paris de viagem para a Inglaterra, aonde vai estabelecer-se, e que parte por estes dias. Ainda não posso dizer-vos sua impressão, porque não tornei a vê-lo. Talvez possa conhecê-la hoje por intermédio do sr. Hume, 51 com quem irei jantar; estou, porém, certo da impressão que ele terá. O sr. Hume, que vive há tempos conosco, encarregou-me, igualmente, de dizer-vos mil coisas de sua parte.

A essas pessoas, que conheceis por sua reputação, acrescento um homem infinitamente estimável que as reúne em sua casa, o sr. barão d’Holbach,52 autor de excelentes trabalhos impressos de Química e de História Natural, e de muitos outros que não foram publicados; filólogo profundo, juiz esclarecidíssimo de todos os gêneros de conhecimentos, alma sensível e aberta à amizade. Não posso exprimir-vos a impressão que vosso livro lhe causou, nem quanto ele ama e estima a obra e o autor. Como passamos a vida em casa dele, seria preciso que o conhecêsseis primeiro, porque, se pudermos ter a honra de atrair-vos a Paris, esta casa será a vossa. Envio-vos, pois, igualmente, os seus agradecimentos e as suas saudações. Não vos falo do sr. d’Alembert, 53 que vos escreveu e me disse que queria juntar ainda uma palavra à minha carta. Deveis conhecer sua opinião sobre vossa obra. Quanto à tradução, compete-lhe dizer-vos se ficou satisfeito...

Não vos ocultei a mais forte razão que me determinou a tratar de vos dar alguma boa opinião de mim: a esperança de que me perdoareis mais facilmente a liberdade que tomei de fazer algumas modificações na disposição de algumas partes do vosso trabalho. Apresentei no prefácio as razões gerais que me justificam: convosco, porém, devo alongar-me um pouco a esse respeito. Para o espírito filosófico que se torna senhor da matéria, nada mais fácil do que aprender o conjunto de vosso tratado, cujas partes se ligam estreitamente e dependem todas do mesmo princípio. Mas, para os leitores vulgares e menos instruídos, e sobretudo para os leitores franceses, julgo ter seguido um caminho mais regular e em tudo mais conforme ao gênio de minha nação e à feição dos nossos livros.

A única objeção que posso temer é a censura de ter diminuído a força e o calor do original, pelo restabelecimento mesmo dessa ordem. Eis minhas respostas: Sei que a verdade tem a maior necessidade da eloquência e do sentimento. Seria absurdo pensar o contrário, sobretudo não seria convosco que se poderia avançar tão estranho paradoxo. Mas, se não é preciso sacrificar o calor à ordem, creio não ser preciso tampouco sacrificar a ordem ao calor; e tudo irá bem se se puderem conciliar essas duas coisas a um tempo. Resta, pois, examinar, se me saí bem nessa conciliação.

Se minha tradução tem menos calor do que o original, seria preciso atribuir essa falha a muitas outras causas, e não à diferença da ordem. Seria ou a fraqueza do estilo do tradutor, ou a natureza mesma de toda tradução, que deve ficar abaixo do original, sobretudo nas coisas de sentimento.

Não devo dissimular-vos outra objeção que me fizeram. Disseram-me que um autor poderia chocar-se ao ver em sua obra modificações mesmo úteis. Mas, senhor, essa maneira de ver não poderia ser a vossa. Assim pelo menos o julguei. Um homem de gênio, que fez uma obra admirável, cheia de ideias novas e fortes, e excelentes pelo fundo, deve poder ouvir dizer friamente que o seu livro não tem toda a ordem de que era suscetível. Deve ir mesmo até à adoção das modificações feitas, se forem úteis e baseadas em boas razões. Eis, senhor, a coragem que espero de vós. Rejeitai, dentre as modificações feitas por mim, aquelas que vos parecem mal-entendidas; conservai as que estiverem bem, e acreditai que só tereis feito aumentar vossa reputação. Sois digno de que eu use para convosco dessa confiança, e me lisonjeio de que o aproveis.

Terminarei minha justificativa citando-vos grandes autoridades que aplaudiram a liberdade por mim tomada. O sr. d’Alembert permite-me que vos diga ser essa a sua opinião. O sr. Hume, que leu com muito cuidado o original e a tradução, é do mesmo parecer.

Eu poderia citar-vos ainda numerosas pessoas instruídas que assim também o julgaram.