Dos delitos e das penas
De Beccaria a Morellet
A avidez com a qual o público recebeu aqui vossa obra faz-me acreditar que a nossa primeira edição breve estará esgotada e que, antes de um mês, será preciso fazer outra. Se, na disposição que apresentei, separei ideias que devam estar ligadas, ou fiz aproximações que vos pareçam prejudicar o sentido, peço-vos que a respeito me participeis vossas observações, e numa nova edição não deixarei de conformar-me com vossas opiniões.
Termino, senhor, esta longa carta, rogando-vos que me considereis como um dos vossos maiores admiradores e como um dos homens que mais vivamente desejam participar de vossa estima e de vossa amizade. Muito me afligiria a ideia de não vo-lo poder dizer um dia a vós mesmo. Estou ansioso por ter vossas noticias, conhecer vosso juízo sobre a minha tradução, saber se continuais a marchar na bela estrada que vos abristes e a ocupar-vos com o bem da humanidade.
É com tais sentimentos de respeito, de estima e de amizade que tenho a honra de ser etc.
Morellet.
De Beccaria a Morellet
Milão, maio de 1766.
Permiti-me, senhor, que empregue convosco as fórmulas usadas na vossa língua, como mais cômodas, mais simples, mais verdadeiras, mais dignas por isso de um filósofo como vós. Permiti-me, igualmente, que me sirva de um copista, por ser a carta que vos escrevi muito pouco legível. A mais profunda estima, o maior reconhecimento, a mais terna amizade, são os sentimentos que fez nascer em mim a carta encantadora que vos dignastes escrever-me. Eu não saberia exprimir-vos quanto me honra ver minha obra traduzida na língua de uma nação que esclarece e instrui a Europa. Tudo devo, eu mesmo, aos livros franceses. Foram eles que desenvolveram em minha alma os sentimentos de humanidade sufocados por oito anos de educação fanática. Eu já respeitava vosso nome pelos excelentes artigos que inseristes na obra imortal da 54 Enciclopédia ; e foi para mim a mais agradável surpresa saber que um homem de letras da vossa reputação dignava-se de traduzir o meu tratado Dos delitos. Agradeço-vos, de todo o meu coração, o presente que me fizestes de vossa tradução, assim como vossa atenção em satisfazer o interesse que eu tinha em lê-la. Li-a com um prazer que não posso exprimir-vos, e achei que embelezastes o original. Protesto-vos com a maior sinceridade que a ordem que seguistes parece-me, a mim mesmo, mais natural e preferível à minha, e que lamento que a nova edição italiana esteja quase terminada, porque do contrário eu me poria inteira ou quase inteiramente de acordo com o vosso plano.
Minha obra nada perdeu de sua força em vossa tradução, exceto nos lugares em que o caráter essencial a uma e a outra língua estabeleceu certa diferença entre vossa expressão e a minha. A língua italiana é mais maleável e dócil, e talvez, por ser menos cultivada no gênero filosófico, possa adotar expressões que a vossa recusaria empregar. Não vejo solidez na objeção que vos fizeram, de que a mudança da ordem poderia fazer perder a força. A força consiste na escolha das expressões e na aproximação das ideias; e a confusão só pode prejudicar esses dois efeitos.
O receio de ferir o amor-próprio do autor não devia deter-vos mais. Primeiro, porque, como vós mesmo o dissestes com razão em vosso excelente prefácio, um livro em que se defende a causa da humanidade, uma vez tornado público, pertence ao mundo e a todas as nações; e, relativamente a mim em particular, eu teria feito muito poucos progressos na filosofia do coração, que coloco acima da do espírito, se não tivesse adquirido a coragem de ver e amar a verdade. Espero que a quinta edição, que deve aparecer breve, esteja logo esgotada; e asseguro-vos que na sexta observarei inteiramente, ou quase inteiramente, a ordem de vossa tradução, que dá maior relevo às verdades que tratei de coligir. Digo quase inteiramente, porque, segundo uma leitura única e rápida que fiz até este momento, não posso decidir-me com inteiro conhecimento de causa sobre as particularidades como já o fiz sobre o conjunto.
A impaciência que meus amigos têm de ler vossa tradução forçou-me, senhor, a deixá-la sair de minhas mãos logo depois de a ter lido, e sou obrigado a dar em outra carta a explicação de certas passagens que julgastes obscuras. Devo dizer-vos, porém, que tive, ao escrever, os exemplos de Maquiavel,55 56 de Galileu e de Giannone ante os meus olhos. Ouvi o ruído das cadeias firmar a superstição, e os gritos de fanatismo abafarem os gemidos da verdade. A visão desse espetáculo medonho determinou-me, algumas vezes, a envolver a luz de nuvens. Quis defender a humanidade sem ser mártir. Essa ideia, de que eu devia ser obscuro, tornou-me às vezes tal, sem necessidade. Acrescentai a isso a inexperiência e a falta de hábito de escrever, perdoáveis num autor que tem apenas 27 anos e que há somente cinco anos entrou na carreira das letras.
Ser-me-ia impossível pintar-vos, senhor, a satisfação com a qual vejo o interesse que tomais por mim, e quanto me comovem as demonstrações de estima que me dais, e que não posso aceitar sem ser vão, nem rejeitar sem fazer-vos injúria. Recebi com o mesmo reconhecimento e a mesma confusão as coisas lisonjeiras que me dissestes da parte desses homens célebres que honram a humanidade, a Europa e a sua nação. D’Alembert, Diderot, Helvetius, Buffon, Hume, nomes ilustres que não se pode ouvir pronunciar sem ficar comovido, assim como vossas obras imortais, são minha leitura contínua, o objeto de minhas ocupações durante o dia e de minhas meditações no silêncio da noite. Cheio das verdades que ensinais, como poderia eu incensar o erro e aviltar-me ao ponto de mentir à posteridade?...
Minha única ocupação é cultivar em paz a Filosofia, e contentar assim três sentimentos muito vivos em mim: o amor à reputação literária, o amor à liberdade e a compaixão pelas desgraças dos homens, escravos de tantos erros. Data de cinco anos a época de minha conversão à Filosofia, e devo-a à leitura das 57 Cartas persas .
A segunda obra que completou a revolução do meu espírito foi a do sr. Helvetius. Foi ele quem me lançou com força no caminho da verdade e quem primeiro despertou minha atenção para a cegueira e as desgraças da humanidade. Devo à leitura do 58 Espírito uma grande parte de minhas ideias...
O sr. conde Firmiani regressou a Milão há vários dias, mas está muito ocupado, e ainda não pude vê-lo. Ele protegeu meu livro, e é a ele que devo minha tranquilidade.
Remeter-vos-ei breve algumas explicações das passagens que achastes obscuras e que não pretendo justificar, porque não escrevi para não ser entendido. Rogo-vos encarecidamente me envieis vossas observações e as dos vossos amigos, para que eu as aproveite numa sexta edição. Comunicai-me, sobretudo, o resultado de vossas palestras sobre meu livro com o sr. Diderot. Desejo vivamente saber que impressão teve de mim essa alma sublime...
Tenho a honra de ser etc.
Beccaria.
OceanofPDF.com