Epidemiologia e saúde dos povos indígenas no Brasil
Aspectos alimentares e nutricionais de mães e crianças indígenas teréna, Mato Grosso do Sul
Aspectos alimentares e nutricionais
de mães e crianças indígenas teréna,
Mato Grosso do Sul
Dulce Lopes Barboza Ribas; Sônia Tucunduva Philippi
As transformações no perfil de saúde apresentam peculiaridades e sofrem mudanças em espaços de tempo relativamente curtos, como as identificadas em comunidades indígenas, nas quais o aumento das taxas de natalidade e a elevada incidência de doenças infecciosas na infância coexistem com o aumento das doenças crônicas não transmissíveis, alcoolismo e violência. As comunidades indígenas são afetadas ainda por problemas de contaminação ambiental, esgotamento de recursos naturais, comprometimento das atividades de subsistência e dependência por produtos industrializados (Ribas, 2001).
O registro e a análise dessas modificações são de grande importância para o entendimento dos determinantes do processo saúde-doença nessas comunidades. As dificuldades e as limitações para tal se inserem na complexidade dos fenômenos sociais em que vivem as sociedades indígenas, somadas à existência de informações parciais e fragmentadas, muitas vezes indisponíveis para análise.
Os estudos epidemiológicos voltados para a análise dos determinantes de mudanças mostram como modificações nos padrões econômicos e sociais interferem nos perfis de mortalidade e morbidade na população, tendo efeito sobre doenças infecciosas e também sobre doenças crônicas não transmissíveis. Em consonância com a transição epidemiológica e demográfica, estão ocorrendo mudanças nos padrões alimentares e nutricionais das populações indígenas, revelando a complexidade dos modelos de consumo e de seus fatores determinantes, onde déficits nutricionais e obesidade coexistem, marcados por alterações nos níveis de atividade física e composição da dieta (Oliveira & Thébaud-Mony, 1997).
Este estudo aborda o estado nutricional de crianças menores de cinco anos e suas mães, relacionando condições socioeconômicas, ambientais e o atual estilo de vida em comunidades Teréna do Mato Grosso do Sul.
População e métodos
Os Teréna
A população estudada pertence ao subgrupo Guaná-Txané, remanescentes da família Aruák. Guimarães Rosa (1985:93-95), grande escritor brasileiro, descreveu os Teréna por meio da língua: "Conversa pouca. A surpresa que deram foi ao escutá-los coloquiar entre si, em seu rápido, ríspido idioma. Uma língua não propriamente gutural, não guarani, não nasal, não cantada; mas firme, contida, oclusiva e sem molezas - língua para gente enérgica e terra fria. Respeitei-a, pronto respeitei seus falantes, como se representasse alguma cultura velhíssima (....) Toda língua são rastros de velho mistério".
Agricultores, com áreas cultivadas ao redor da aldeia, plantavam mandioca, abóbora, batata doce, pimenta, milho e feijões. A terra não gerava renda; basicamente servia para instalar moradias e produzir alimentos de subsistência. A unidade econômica era a família extensa, com atividades de plantio de roças, coleta de raízes e frutos silvestres, combinadas com a caça e a pesca (Oberg, 1949). A divisão do trabalho reservava ao homem a caça, a pesca, o plantio e as atividades guerreiras, deixando à mulher o preparo dos alimentos, a coleta de frutos e raízes silvestres, a cerâmica e a fiação (Silva, 1949).
A terra continua sendo o espaço da sobrevivência e reprodução, onde se realiza a cultura, onde se criou o mundo, onde descansam os antepassados, além de ser um local onde Os Teréna se apropriam dos recursos naturais e garantem sua subsistência física. A apropriação de recursos naturais não se resume em produzir alimentos, mas consiste em extrair matéria-prima para a construção de casas, para produção de enfeites e artesanatos e para a extração de ervas medicinais, que exigem determinadas condições ecológicas para se reproduzirem. E, sobretudo, um espaço simbólico em que as pessoas travam relações entre si, com a natureza e com seus deuses (Fernandes, 1993).
As primeiras reservas indígenas Teréna datam de 1904, como conseqüência da ação de Rondon à frente da Comissão de Linhas Telegráficas. Entende-se por "reserva" uma área territorial destinada ao aldeamento de indígenas, sendo que nem sempre essas áreas coincidiam com as terras tradicionalmente ocupadas pelas respectivas comunidades e muitas vezes ocorria justaposição de grupos, provocando disputas e graves conflitos internos. A formação de reservas próximas de vilarejos evidencia o reconhecimento dos direitos indígenas a um território, ao mesmo tempo em que, ao agrupá-los, libera grandes áreas para o povoamento da região e impulsiona a integração à sociedade envolvente (Pauletti, 2000).
Com relação às áreas indígenas analisadas neste estudo, a área Buriti foi demarcada em 23 de dezembro de 1927, com 2.090 hectares, sendo instalada pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI) em 1928 e homologada em 1991. Nela localizam-se atualmente as aldeias Buriti, Água Azul e Córrego do Meio. A área Buritizinho, situada no Município de Sidrolândia, foi demarcada em 9 de julho de 1984 com 10 hectares. Esta área possui apenas uma aldeia, denominada aldeia Tereré.
Coleta de dados
Foi realizado estudo descritivo e analítico, de caráter transversal, em quatro aldeias Teréna (Buriti, Córrego do Meio, Água Azul e Tereré), localizadas nos municípios de Dois Irmãos do Buriti e Sidrolândia, Mato Grosso do Sul. Foram avaliadas 351 crianças de 0-59 meses de idade, correspondendo a 98% da população menor de cinco anos, e suas respectivas mães, num total de 185 mulheres.
Foram analisadas variáveis sócio-econômicas (renda per capita e escolaridade da mãe), ambientais (utilização da terra disponível, existência de roças, pomares e hortas), antropométricas (peso e estatura) e freqüência de alimentos.
A avaliação qualitativa do consumo alimentar foi realizada por meio de questionário de freqüência, que consistia em uma lista de alimentos agrupados segundo a composição nutricional e de uma seção de respostas sobre a freqüência de consumo de cada alimento.
A técnica de antropometria adotada foi baseada em recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e no Anthropometric Standardization Reference Manual (Lohman et al., 1988; WHO, 1995).
A coleta de dados foi efetuada entre julho e dezembro de 1999. Os domicílios foram visitados por entrevistadores treinados e um guia indígena, especialmente indicado pelo cacique de cada aldeia, para o acompanhamento dos trabalhos. Foram realizados contatos prévios com lideranças indígenas, com o intuito de obter anuência das comunidades, sendo o projeto aprovado pelo Comitê de Ética da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa.
Resultados
Mudanças nas áreas indígenas
Em linhas gerais, o atual modo de produção agrícola Teréna consiste na utilização escalonada do ambiente, mas sem a possibilidade de deslocamentos das plantações devido à redução territorial. Os Teréna não atingem altos índices de produção agrícola, mas contam com uma pequena produção que lhes permite manter contatos comerciais com a sociedade regional. Uma roça produtiva que garanta a subsistência é a aspiração de todo Teréna.
Quanto à utilização da terra disponível, foi identificada a existência de 79,5% de domicílios com roças, 54,8% com pomar e 8,6% com hortas. Na última safra, 66,3% das famílias destinaram a produção exclusivamente para o consumo próprio, 29,5% comercializaram os produtos e 4,2% distribuíram-na entre outras famílias da comunidade.
Cada família possuía uma área disponível para o plantio variando de 1 a 10 hectares, com predomínio de áreas menores. Não existe delimitação das áreas com cercas, mas todos têm claro os limites e o respeito para com a terra alheia e os produtos do trabalho. Foram observadas áreas comuns, como pomares, trechos de circulação entre as casas e pequenas capoeiras, de onde retiram madeira, taquaras, sementes, corantes, palha e frutos. Além das roças e capoeiras, não há trechos de mata com cobertura vegetal suficiente que permita a caça.
É importante lembrar que, para que um povo indígena possa sobreviver e se reproduzir, necessita mais terra do que a que utiliza simplesmente para plantar. Os Teréna utilizam critérios particulares para classificar o espaço destinado às plantações. As capoeiras são destinadas para o descanso da terra, para reprodução de pequenos animais e para a obtenção de materiais simbólicos utilizados nos rituais e tratamentos de saúde. Todos têm acesso à terra e esse acesso é efetivado por meio do trabalho que cada família desenvolve numa determinada porção do território.
Na Área Buritizinho, onde se localiza a Aldeia Tereré, não existe a disponibilidade territorial necessária para implementação de roças, uma vez que a área total da aldeia corresponde a 10 hectares. Nesse exíguo espaço estão distribuídos 62 domicílios, casa de reza, escola, centro de reuniões, campo de futebol e horta comunitária.
A organização circular das longas casas de teto arqueado, onde residiam várias famílias, foi substituída pelo alinhamento residencial. Na avaliação da densidade familiar, a média de pessoas residentes por domicílio é de 6,8 moradores, com desvio padrão de 2,9.
Trabalho, estudo e sobrevivência
Homens e mulheres Teréna com maior escolaridade trabalham nos municípios vizinhos ou ocupam posições na escola e no serviço de saúde da própria aldeia. Os demais trabalham cm serviços ocasionais. As mulheres constituem mão-deobra para serviços domésticos ou não possuem qualquer atividade remunerada.
Observam-se baixos níveis dc escolaridade materna em todas as comunidades: 12,3% não receberam nenhuma instrução escolar, 66,0% possuíam de 1 a 4 anos de estudo, 19,8% dc 5 a 8 e 1,9% acima de 8 anos.
Com relação à renda familiar per capita, observa-se baixa renda em todas as comunidades estudadas, onde 87,7% encontravam-se na faixa de 0 a 0,5 salário mínimo. Vale mencionar que a garantia da sobrevivência para a maioria das famílias estudadas depende do resultado da pequena produção agrícola ou de cestas básicas recebidas por programas assistenciais.
Mães e crianças
A Tabela 1 apresenta as condições dc nascimento das crianças "Teréna. Para as 192 crianças que tinham registro do peso ao nascer, observaram-se 12,5% com baixo peso (< 2.500g). K importante observar que este número pode estar subestimado, considerando que 45,3% das crianças não possuíam registro do peso ao nascer, sobretudo as nascidas nos domicílios e que possivelmente apresentavam maior risco.
Tabela 1
Com relação à cobertura de assistência ao parto, 28,2% foram realizados nos domicílios. Dos partos hospitalares, 15,7% foram operatórios.
A idade média das mães foi de 26,1 anos (desvio padrão de 7,3), sendo 1 5,2% menores de 20 anos e 0,5% acima de 50. Quanto ao número de filhos nascidos vivos, observou-se a média de 3,8 (desvio padrão de 2,7). Na história reprodutiva, 13,7% das mães relataram a ocorrência de abortos, com media de 1,7 (desvio padrão de 0,97).
Com relação ao peso, as mães apresentaram média de 59,3kg (mínimo de 37,4kg e máximo de 84,4kg). A estatura media observada foi dc l,53m (mínimo de l,41m e máximo dc l,69m).
A Tabela 2 apresenta a avaliação do estado nutricional de mães e filhos. Por meio da análise do índice dc massa corporal (1MC) das mães foram observados: 1,6% de baixo peso (IMC < 18,5), 70,3% de peso adequado (IMC 18,524,9), 18,9% de pré-obesidade (IMC 25,0 -29,9) e 9,2% de obesidade materna (IMC > 30,0).
Tabela 2
Nas crianças, as prevalências de deficits nutricionais (< -2 z-escores) encontradas foram: 4,0% para o índice peso/idade, 11,1% para estatura/idade e 1,1% para peso/estatura. Na análise da distribuição de déficts segundo sexo, foram observadas maiores prevalências para peso/idade (4,2%) e para estatura/idade (12,2%) no sexo masculino.
A prevalência de retardo de crescimento, representado por deficits de estatura/idade, é maior na faixa etária de 12-18 meses de idade (25,0%) e naqueles que apresentaram menor peso ao nascer (25,0%). A prevalência de deficits é inversamente proporcional à escolaridade da mãe e faixa de renda familiar per capita.
Os resultados deste estudo demonstram elevada prevalência de deficits de estatuta/idade, ultrapassando a freqüência de 2,3% esperada pela distribuição de referência (NCHS) e indicando desnutrição crônica, possivelmente iniciada ainda no útero materno.
Padrão de alimentação atual
As análises de consumo alimentar entre os Teréna foram abordadas numa perspectiva qualitativa, identificando as práticas alimentares e a freqüência dos alimentos na dieta.
Das inúmeras variáveis que determinam as transformações dos hábitos alimentares em comunidades Teréna, destacam-se a baixa disponibilidade de alimentos na área indígena e a renda familiar. Alimentos recolhidos nas matas e rios do passado são atualmente raros, o que se explica pela limitação territorial, invasões de terras, contaminação dos rios e, conseqüentemente, dispersão e escassez de caça e pesca. As atividades de caça e pesca, tão apreciadas pelos homens, são realizadas cada vez com menos freqüência e sempre em locais distantes da reserva, o que acarreta riscos de serem identificados como invasores em outras áreas.
Foi observada a realização de três refeições, relatadas como principais, sem horários rígidos, mas distribuídas ao longo do dia -ao acordar, no meio do dia e no início da noite. Não são deixados restos nos pratos, onde tudo que é servido é consumido. Após as refeições, quando sobram alimentos preparados, eles permanecem nas panelas sobre o fogão, com livre acesso para qualquer pessoa voltar a se servir.
A varanda é o local privilegiado do domicílio, onde as refeições se realizam, recebem as visitas, armam a rede, brincam, contam e ouvem histórias. A casa pode ter um único dormitório, mas nunca deixa de ter varanda.
A primeira refeição do dia é constituída de arroz e mandioca cozida, geralmente sobras da véspera, e ainda café, chá-mate ou simplesmente água com açúcar caramelizado. No almoço e jantar são acrescidos o feijão cozido, macarrão com extrato de tomate e carne frita. Arroz e mandioca são os alimentos mais freqüentes e em maior quantidade nas refeições, sendo muitas vezes os únicos. A farinha de mandioca foi identificada como um complemento da refeição, mais presente na dieta das famílias que a produzem (32%). Nas refeições intermediárias foram observados o consumo de chá-mate, café, água com açúcar caramelizado, tereré (erva-mate regada à água fria ou gelada, sorvida através de uma bomba), mandioca cozida, caramelos, chicletes, refrescos em pó diluídos, biscoitos recheados, salgadinhos tipo snacks e, em épocas de safra, banana, manga, goiaba e bocaiúva. Entre os jovens e adultos foi observado o consumo em larga escala de tereré, que é tomado em grupo, passando de mão em mão.
A produção de farinha de mandioca é responsabilidade das mulheres de cada grande família, que se reúnem na casa da avó, denominada tronco da família, para a árdua tarefa de descascar, ralar, lavar a massa, espremer, torrar, o que pode levar dias, dependendo da quantidade da matéria-prima. As mulheres só descansam quando toda a mandioca estiver ralada. A farinha produzida é armazenada em sacos de algodão, sendo motivo de orgulho familiar e objeto de permuta ou presente a ser oferecido a parentes e amigos.
A presença da carne bovina é bastante valorizada nas refeições, mas de difícil acesso para a maioria das famílias. Quando presente (39,5%), trata-se de peças de menor custo, em pequena quantidade e com elevado teor de gordura, como costela e ponta-de-peito. As carnes gordas são consideradas as mais saborosas e as possíveis de serem adquiridas. Quanto à forma de preparo das carnes e ovos, há predomínio de frituras, geralmente em gordura de origem animal. As frituras também são utilizadas como meio de conservação. As carnes são fritas quando adquiridas, sendo guardadas em latas, submersas em gordura animal. O consumo de aves (geralmente frango) ocorre em ocasiões especiais, como na dieta das mães em resguardo após o parto, tendo sido observadas em apenas 3,7% das análises. Com relação aos ovos, foram observados em 6,9% das dietas analisadas. Quanto à criação de animais, 73,6% das famílias criavam aves (galinhas), 19,8% suínos e 3,3% bovinos em pequena escala.
Nas festas é consumida carne bovina espetada em longos espetos de taquara, assada sobre brasas em um buraco escavado no chão e acompanhada de mandioca cozida e "puchero". O puchero é preparado com sobras de carnes, gorduras, ossos com tutano (vertebras) e temperos, cozidos sem pressa em um grande tacho até amolecer bem. E distribuído a todas as famílias da aldeia, sendo considerado iguaria de "sustância".
Quanto ao consumo de vegetais, 2,3% consumiram verduras, tais como couve, maxixe e tomate. O consumo de legumes e tubérculos foi de 53,5%, representados especialmente por mandioca, batata doce e abóbora. A mandioca é considerada alimento de todas as horas e de todos os dias, acompanhando tudo o que se come. As preparações tradicionais à base de mandioca são cada vez mais raras, restritas às ocasiões especiais, como o lapâpé (beiju), o hihi (bolo de mandioca cozido na água), xupú (massa de mandioca cozida e socada no pilão) e o pôréo (creme de mandioca).
O consumo de frutas é restrito à disponibilidade das mesmas na área, tendo sido observado apenas 1,4% de dietas com frutas adquiridas em estabelecimento comercial, nas compras do mês. Os pomares não apresentam demarcações, com livre acesso para todos, fazendo parte da área de circulação e o local preferido das crianças menores para as brincadeiras.
Nas roças familiares foi identificado o cultivo de arroz, feijão, mandioca, banana e milho. Em menores proporções, aparecem batata doce, abóbora, maxixe, quiabo, abacaxi, melancia, amendoim e cana-de-açúcar, variando de acordo com a área e a época do ano.
A diversidade de produtos cultivados não garante o consumo adequado dos mesmos, seja pela reduzida quantidade produzida, pela necessidade de comercializar ou pela ausência de um sistema de armazenamento e conservação dos produtos.
Dentre os alimentos silvestres, destaca-se o buriti, do qual tudo é aproveitado - a polpa como alimento, o tronco na construção das paredes, as folhas para cobertura das casas e produção de enfeites.
Quanto ao consumo de produtos industrializados, foram identificados açúcar, sal, óleo de soja, goiabada, macarrão, café, farinha de trigo, leite em pó, extrato de tomate, refresco em pó, chá, refrigerantes, erva-mate, lingüiça, caramelo, pão francês e biscoitos. A maioria desses produtos mostrou-se presente na dieta de todas as famílias, uma vez que recebem uma cesta básica do programa de segurança alimentar do Governo do Estado, que é constituída de arroz, feijão, macarrão, açúcar, sal, óleo de soja, goiabada, farinha de trigo, leite em pó, extrato de tomate, erva-mate e charque. Os demais itens apareceram na dieta das famílias que dispunham de aposentadoria ou salário, sendo adquiridos no período de recebimento. Famílias com indivíduos portadores de diabetes, hipertensão e obesidade recebem as cestas com os mesmos itens, que provavelmente agravam ainda mais a doença.
O leite recebido na cesta de alimentos é destinado às crianças. Os demais produtos lácteos foram apontados como alimentos raramente consumidos. Refrigerantes são consumidos nas festas e quando realizam as compras mensais. Foi observada a presença de bebida alcoólica (aguardente), não sendo possível estimar a freqüência de consumo, uma vez que é considerada proibida nas comunidades.
Discussão Este estudo apresenta restrições no instrumento de avaliação do consumo de alimentos, que fornece apenas indicações da composição da dieta familiar e não da quantidade de alimentos consumidos. Apresenta ainda limitações no tocante à compreensão da riqueza e particularidades da cultura Teréna, repleta de significados sobre o consumo de alimentos.
Os baixos níveis de escolaridade materna tiveram efeito significativo sobre a prevalência de desnutrição infantil. A baixa escolaridade ou as diferenças na sua qualidade não só mantêm as condições que fazem com que a desigualdade social subsista, mas também reproduz e cria diferenças que, com o tempo, perpetuam a pobreza e a exclusão.
A aldeia Tereré apresentou melhor renda, maior número de pessoas com remuneração e maior escolaridade, o que se explica por sua localização no perímetro urbano de Sidrolândia. Nessa aldeia também foram observadas crianças com melhores condições nutricionais. Por outro lado, apresentou espaço territorial irrisório, ausência de plantações, aglomeração dos domicílios, maior número de mães adolescentes e de famílias sem a presença paterna.
O número médio de filhos nascidos vivos nas famílias estudadas (3,8) é superior ao observado no Estado de Mato Grosso do Sul como um todo, onde na região urbana a média é de 2,5 filhos c na região rural 3,1 (IBGE, 1999).
Com relação à cobertura do parto, foram observados 71,8% de partos hospitalares. A exceção ocorreu na aldeia Tereré, na qual 98,4% dos partos tiveram assistência hospitalar. No entanto, um fator que poderia ter favorecido as condições de saúde das mulheres que lá residiam pode ter se convertido em prejuízo, uma vez que 34,4% desses partos foram operatórios. De acordo com o Ministério da Saúde (1996), a cobertura em nível nacional de partos cm instituições de saúde era de 91,5% (Maranhão et al., 1999).
Os dados sobre baixo peso ao nascer obtidos nesse estudo (12,5%) são superiores aos observados na Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde (PNDS/1996), onde a incidência de recém-nascidos de baixo peso era de 9,2%, sendo 11,1% nas áreas rurais e 8,6% nas áreas urbanas (BEMFAM, 1996). Esses valores aproximam-se dc um nível considerado elevado segundo a classificação internacional (Monteiro, 1992). Cabe ressaltar que pode ter ocorrido subestimação na análise, considerando que não foram obtidas informações de 45,8% das crianças, constituídas por aquelas nascidas nos domicílios.
A incidência de baixo peso ao nascer evidencia a necessidade imediata de atenção às mães indígenas durante a gravidez, por meio dc um programa que considere os valores culturais e as peculiaridades que envolvem concepção, gestação e nascimento em uma comunidade indígena.
Com relação ao estado nutricional infantil, os valores encontrados demonstram elevada prevalência de deficits dc estatura/idade (11,1%), ultrapassando a freqüência de 2,3% esperada pela distribuição de referência (NCHS) e indicando desnutrição crônica, possivelmente iniciada ainda no útero materno. Segundo a Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição (PNSN/1989), a prevalência de retardo de crescimento linear infantil era de 8,2% para a Região Centro Oeste (IBGE, 1992). Na PNDS/1996, foram observados 10,5% de deficits de estatura/idade para as crianças brasileiras menores de cinco anos (BEMFAM, 1996).
A prevalência dc deficits de estatura/idade foi inversamente proporcional à escolaridade materna e à faixa de renda familiar, e mais freqüente em crianças de baixo peso ao nascer. Crianças nascidas com menos de 2.500g apresentaram 25,0% de deficits de estatura/idade, em contraste com 2,4% para as crianças nascidas com 3.500g ou mais. Evidencia-se assim a importância do peso ao nascer como um indicador para a vigilância nutricional cm recém-nascidos. Sob o ponto de vista imediato, essas variáveis poderiam ser assumidas como elementos de predição de risco e indicação de grupos alvo de programas assistenciais. Esses resultados indicam que ações de recuperação nutricional devem ser rapidamente incorporadas à programação de assistência à saúde indígena, considerando que, em crianças com déficit de crescimento linear, poderá haver reversibilidade do déficit estatural se houver condições adequadas de recuperação, com atendimento que contemple os diversos aspectos envolvidos.
Comparando com estudos realizados em outras comunidades indígenas, a prevalência de desnutrição infantil observada é inferior às reportadas por grupos indígenas da Região Amazônica. Em 1987, entre crianças Suruí menores de cinco anos, a prevalência de retardo de crescimento infantil era de 50,6% (Coimbra Jr. & Santos, 1991). Entre crianças Xavánte de 0-4 anos foi encontrada a prevalência de 27,7% no ano de 1994 e 22,0% em 1995 (Gugelmin, 1995). Em estudo realizado entre os Enawenê-Nawê foi encontrada prevalência de 50% de deficits de estatura/idade (Weiss, 1998).
Os resultados observados nas diferentes aldeias estudadas, especialmente as diferenças entre a aldeia Tereré e as demais, reforçam a origem nas condições de vida a que estão submetidos, uma vez que os integrantes pertencem à mesma etnia, mesma família (parentes consangüíneos) e que lá residiam antes de migrarem em busca de emprego, escola e assistência à saúde. As diferenças encontradas entre as aldeias Teréna são significativas e provavelmente estão relacionadas às melhores condições de vida em Tereré.
Em comunidade indígena Teréna, localizada em perímetro urbano de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, que conta com projetos de assistência à saúde, incentivo ao aumento da escolaridade, geração de renda e saneamento básico, a prevalência de retardo de crescimento observada foi de 9,5% (Ribas etal., 1999). Esta comparação poderia estar indicando a possível ação benéfica de medidas preventivas e assistenciais agindo sobre as condições nutricionais de crianças indígenas.
Cockington (1980) realizou inquérito sobre crescimento em três comunidades aborígenes australianas de diferentes condições sociais, encontrando diferenças significativas nos parâmetros de crescimento relacionados com a melhoria das condições de vida. O estudo mostrou que crianças aborígenes originárias de ambiente similar ao de crianças caucasianas apresentavam crescimento normal, não havendo diferenças significativas entre os grupos.
Pesquisadores têm registrado um contínuo processo de evolução de estatura em diferentes países (Tanner, 1978; Wieringen, 1978). As razões apontadas para explicar essa tendência secular são as melhorias das condições de vida, o desenvolvimento da saúde coletiva e a melhoria do estado nutricional.
Modelos teóricos apontam para a multicausalidade da desnutrição (Jonsson, 1986; Monteiro & Benício, 1981). De acordo com Jonsson (1986), o modelo causal da fome é representado por uma rede de fatores hierarquicamente encadeados, tendo origem na forma como a sociedade mobiliza os recursos potenciais para a produção de bens e serviços e como os distribui entre a população. No nível mais imediato, a fome resulta de ingestão inadequada de alimentos e do estado de saúde dos indivíduos, que por sua vez estão relacionados a fatores que refletem o acesso desigual a produtos, serviços e outros recursos como alimentos, moradia, educação, água, esgoto e serviços de saúde. A estrutura sócioeconômica determina o padrão de produção, distribuição e consumo dessas mercadorias e serviços entre os grupos de indivíduos.
Monteiro et al. (2000) analisaram as tendências temporais baseadas na comparação dos resultados de inquéritos antropométricos realizados em âmbito nacional, evidenciando que o padrão de crescimento na infância melhorou nos últimos quinze anos, em todas as regiões do Brasil, sendo que as regiões Norte e Nordeste, que registravam maiores prevalências de desnutrição em 1975, foram as que menos se beneficiaram da redução da desnutrição infantil, ampliando as diferenças regionais. As evidências de redução da desnutrição acompanham a melhoria de indicadores do nível de escolaridade da população e de saneamento ambiental.
Com relação ao estado nutricional das mães, a obesidade excede a desnutrição, demonstrando a substituição do problema de escassez de alimentos pelo excesso e inadequação da dieta entre os adultos. A prevalência de obesidade materna observada neste estudo (9,2%) é semelhante à prevalência na população brasileira adulta (9,6%) em 1989 (Monteiro et al., 2000).
Com relação à freqüência de alimentos, destaca-se o baixo consumo de verduras, frutas, feijão, ovos, leite e derivados e o elevado consumo de carnes gordas, a utilização de frituras no preparo dos alimentos, a elevada freqüência de alimentos ricos em açúcar (água com açúcar, caramelos, refrigerantes, doce em pasta) e ainda extrato de tomate, erva-mate, café e chá. Os dados disponíveis não permitem avaliação do consumo de álcool e sódio, apenas os apontam como elementos presentes na dieta. No caso do sódio, chama a atenção o consumo de carne salgada (charque) e de produtos enlatados recebidos na cesta de alimentos.
Com relação ao comportamento materno, é importante ressaltar o hábito de consumo de chá-mate, café e tereré. O consumo de três ou mais xícaras de café (> 300mg de cafeína) por dia pode resultar no aumento da incidência de baixo peso ao nascer (Narod et al., 1991). Rondo et al. (1996) verificaram que o consumo de café na gestação, independente da quantidade consumida, é um fator de risco para o retardo de crescimento intra-uterino.
É importante observar que o consumo elevado de gorduras de origem animal acarreta a elevação do consumo de ácidos graxos saturados e colesterol, produzindo efeitos maléficos sobre a saúde dos indivíduos e, provavelmente, aumentando os riscos da incidência de enfermidades crônicas não-transmissíveis.
As poucas famílias que comercializam o produto de suas coletas enfrentavam dificuldades em conseguir preços adequados e competitivos no mercado, em função de inúmeros fatores. Essas famílias dificilmente conseguiam manter estoques de alimentos em quantidades suficientes e tinham poucas oportunidades de desenvolver alternativas que as protegiam em épocas de escassez. Considerações finais
Os resultados deste estudo indicam que as comunidades Teréna investigadas caracterizam-se por baixo nível sócio-econômico, comprovado pela baixa renda familiar e pela baixa escolaridade. Verificou-se que a extensão das áreas indígenas é insuficiente para satisfazer a necessidade de reprodução da população existente, agravada pelo empobrecimento do solo, desmatamentos sucessivos, crescimento populacional, além de outras razões de ordem sociocultural, que levam os Teréna a buscar trabalho e sobrevivência fora das aldeias.
Nas mulheres estudadas, os percentuais de sobrepeso e obesidade são maiores que os de baixo peso, e o número de filhos por mulher e a incidência de baixo peso ao nascer são superiores aos valores regionais e nacionais. Para as crianças, a desnutrição continua sendo o problema mais relevante, especialmente os deficits de estatura.
Com relação à avaliação qualitativa da dieta, os resultados indicam monotonia e inadequação, onde o consumo de alimentos esteve determinado pela insuficiente produção local e baixa renda disponível, com aquisição de produtos de baixa qualidade e de menor custo. Foram observadas a coexistência de carências nutricionais e inadequações na composição da dieta, com elevada freqüência de alimentos ricos em gordura e açúcar e reduzida freqüência de leite e derivados, frutas e verduras. O contato permanente com comunidades urbanas que circundam as aldeias e o marketing da indústria de alimentos, promove a introdução acelerada de inúmeros produtos industrializados de qualidade reduzida em detrimento de alimentos tradicionais.
A garantia da alimentação de qualidade para as famílias indígenas depende do acesso à terra e de recursos agrícolas, de modo a oferecer suficiente produção domestica, melhorando os aspectos quantitativos e qualitativos da dieta. A implementação de medidas e melhorias nas condições de vida nessas comunidades depende fortemente da atuação do setor público, ou seja, por meio de políticas efetivas e investimentos específicos, amenizando os efeitos danosos da desigualdade social. A implementação de atividades educativas na área nutricional deve contemplar a valorização de alimentos tradicionais da cultura Teréna, dispensando atenção para problemas de deficits nutricionais e também para os problemas decorrentes do sobrepeso. O desafio é de que, por intermédio do conhecimento das condições de vida dos povos indígenas, sejam efetuadas ações que levem melhorias às aldeias e aos seus moradores, sob a égide do princípio da eqüidade.
Agradecimentos
A Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul pelo financiamento recebido (FUNDECT/0017/00).
Referências
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